3 de Outubro de 1993. A verdade é que há precisamente 25 anos os norte-americanos já não sabiam muito bem o que é que andavam a fazer na Somália, mais precisamente na sua capital Mogadíscio. Os fuzileiros haviam lá desembarcado em 9 de Dezembro do ano anterior, numa operação que tivera um nome pomposo (Restore Hope - Restaurar a Esperança) e uma coreografia ridícula: o grosso da chegada dos fuzileiros fazia-se por mar e tivera lugar durante a madrugada local, não por qualquer razão militar objectiva, mas apenas para que fosse transmitida em directo para os telejornais nos Estados Unidos. Não houvera inimigos nas praias a resistir à invasão, apenas batalhões de repórteres, cameramen, microfones e holofotes, holofotes esses que, se a situação tivesse sido séria, teriam sido uma preciosa ajuda para os snipers emboscados... Mas dez meses depois, todo aquele poderoso dispositivo ficara confinado ao papel de uma pletórica força policial que, nesse dia de Outubro de há 25 anos, recebera a incumbência de ir apanhar os membro do principal gangue de Mogadíscio. A operação correu mal: dois helicópteros UH-60 Black Hawk foram abatidos sobre a cidade e ficaram isolados. A missão passou a ser o resgate das tripulações dos helicópteros e depois o resgate de quem fora resgatar as tripulações. Vinte anos após a saída do Vietname, o desempenho dos norte-americanos em operações contra-subversivas continuou a mostrar-se ali tragicamente ineficaz: a mesma exuberância de meios e poder de fogo de sempre, mas acompanhada de uma enorme carência daquilo que eles designam (ironicamente) por inteligência (informações) a respeito do inimigo. No fim dos combates, os norte-americanos acabaram por sofrer 18 mortos, 73 feridos e 1 prisioneiro enquanto combatiam contra um inimigo que possuía uma superioridade numérica esmagadora e que os enfrentava num cenário de combate urbano, onde a superioridade de fogo dos norte-americanos tinha mais dificuldade em expressar-se. Apesar disso, os norte-americanos infligiram centenas, quiçá mesmo um milhar (ou talvez mais) de mortos ao inimigo, mas o kill-ratio é irrelevante quando não existe uma acção política que explique aos seus soldados e à sua opinião pública porque é que se morre em Mogadíscio e por Mogadíscio. O destacamento norte-americano foi rapidamente retirado da Somália por decisão do presidente Clinton. E, num arrobo "à britânica" de prestigiar um desastre militar para deixar de ser tão desastroso, em 2002 foi lançado um filme intitulado «Black Hawk Down» cujo trailer usei para ilustrar o texto.
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03 outubro 2018
03 maio 2008
O PAÍS DA CIDADE "PEDRADA"
O khat é uma planta que se pensa ser originária de África (supõe-se da Etiópia) mas que também se cultiva no Sul da Península Arábica e que contem um estimulante natural, que produz efeitos semelhantes aos das anfetaminas. Em países como o Yemen, a Etiópia, a Somália ou a Eritreia, de há muito que faz parte da cultura local mascar socialmente a planta, que é preparada para consumo como aparece na fotografia abaixo.
Apesar de transmitir, como seria de esperar, uma sensação de bem-estar ao consumidor, o hábito de mascar khat levanta os mesmos problemas que o consumo regular de qualquer outro tipo de estupefaciente, álcool ou tabaco. Até agora, o preço do produto, relativamente elevado para o nível de vida local, tinha servido de travão aos níveis de consumo mas, actualmente, a prosperidade relativa de um pequeno país da região vira-se contra ele.
O pequeno país é o Djibuti, uma antiga colónia francesa, composta principalmente pelo porto do mesmo nome, estrategicamente localizado na embocadura do Mar Vermelho e que se tornou independente em 1977. Apesar da maioria da população ser somali, o país e os seus habitantes preferiram permanecer como nação independente, beneficiando do facto de Djibuti ser o porto de comércio marítimo exclusivo da Etiópia desde 1991.
Como acontecia outrora em Moçambique com Lourenço Marques (em relação ao Transvaal) e com a Beira (em relação à Rodésia), a cidade e porto de Djibuti (onde habitam 400.000 habitantes, o que representa mais de 80% da população total do pais) vive uma prosperidade assente no sector dos serviços associados ao comércio externo de um grande vizinho. Os djibutianos são relativamente prósperos e gostam muito de khat…
Ultimamente, e como acontecerá com muitas coisas neste mundo, mais do que uso, tem sido o crescente abuso do consumo de khat que tem deixado preocupadas as autoridades djibutianas. Outrora comparada a uma espécie de Hong-Kong do Oceano Índico, a dinâmica da cidade, que nunca foi muito alta, tem vindo a diminuir cada vez mais. Depois da hora da sesta, é frequente já não se trabalhar mais, tal é a pedrada do khat entretanto mascado…
27 dezembro 2006
UMA PEQUENA HISTÓRIA DOS SOMALIS E DA SOMÁLIA
Como acontece frequentemente nas histórias nacionais, a história da nação (Somália) e a do seu povo (somali) acabam por divergir ligeiramente, porque nem toda a população da Somália é somali, nem todos os somalis são cidadãos da Somália. A maioria das razões invocadas para as grandes disputas internacionais resultam de um daqueles factores, e este mais recente, envolvendo a Somália e a Etiópia, não é excepção.Como também acontece frequentemente, a história dos somalis antecede em muito a constituição do estado que tem o seu nome. Há referências escritas – pelos árabes - às populações nómadas que são hoje conhecidas por somalis desde o final do primeiro milénio (século IX e X). Os comerciantes árabes, já instalados nas cidades litorais, viram-nos chegar e substituir os africanos bantos no predomínio das regiões do interior.
Sendo nómadas, note-se que somali é uma designação genérica que abrange cinco grandes grupos (Dir, Issak, Darod, Hawiye e Sab), que por sua vez se subdividem em clãs e estes em tribos. O cimento que reagrupa esta enorme heterogeneidade é a língua somali, um idioma falado por 10 a 16 milhões de pessoas. E a variabilidade desta última estimativa é também indicativa da instabilidade da situação em que se vive naquela região.
Pertencendo desde há muito à esfera de influência da civilização muçulmana – os Darod foram o último grande grupo somali a abraçar à religião muçulmana no século XVI – só mesmo nos finais do século XIX (na década de 1880) é que os europeus vieram a estabelecer as suas colónias em terras somalis. E estas acabaram por ser repartidas por quatro soberanias distintas, uma das quais nem era europeia: italiana, britânica, francesa e etíope.
Para franceses (Djibuti) e ingleses (Somaliland), o critério para a configuração das respectivas colónias foi o do estabelecimento de entrepostos marítimos à entrada do Mar Vermelho, que se havia tornado numa artéria indispensável, depois da construção do Canal do Suez, para a ligação marítima entre as metrópoles e as suas grandes possessões asiáticas: a Indochina francesa e a Índia britânica. Pelo contrário, para a novíssima Itália (unificada em 1861) a parcela da Somália que lhe havia calhado – a maior – era uma questão de prestígio.
Por conveniência do equilíbrio de poderes entre europeus, uma parcela do interior, semi-desértica, conhecida como o Ogaden, foi atribuída à Abissínia (hoje Etiópia), que foi o único estado africano a ter permanecido independente durante esta fase da partilha do continente* pelas potências europeias e que, como vemos por este caso, até se beneficiou com ela. Traçadas as fronteiras, a Etiópia ficou com a contar na sua população com uma significativa minoria somali (6%), para mais extremamente concentrada nas suas regiões orientais.
As ambições de reunificação pan-somalis foram um pretexto assumido pelos italianos em nome dos seus colonizados nas suas manobras para a anexação da Etiópia que, tentada uma vez em 1896 e culminada num indecente fracasso (foi o único registado em África…), só veio a ser concretizado em 1936 (com a reconfiguração da fronteira que se vê na imagem de cima da direita) para ser imediatamente desfeita com a derrota italiana pelos britânicos logo no início da Segunda Guerra Mundial (1941).As duas maiores colónias somalis (a italiana e a britânica) reuniram-se em 1960 para constituírem a nova Somália independente. Todavia, quando a antiga Somália francesa, se tornou independente em 1977, com o nome de Djibuti, não se reuniu ao restante conjunto. O novo país poderia beneficiar da circunstância de se vir a tornar o porto de trânsito de todo o comércio etíope com o exterior por via marítima, na eventualidade da Etiópia vir a perder os portos da Eritreia, o que veio a acontecer em 1993, quando esta última região se tornou um país independente.
Tendo a relação entre etíopes e eritreus permanecido regularmente tensa desde aí, por causa de disputas fronteiriças que ficaram por resolver, Djibuti tem beneficiado por ter seguido uma política externa autónoma e distinta da dos seus vizinhos somalis que, além de uma dinâmica expansionista relativamente aos países vizinhos (Etiópia, Djibuti e Quénia), são também conhecidos por uma dinâmica permanentemente quezilenta entre os seus vários clãs. Tanto, que são um dos raros países do mundo onde não se reconhece a existência - porque não existe! - de uma autoridade central.
Estes recentes episódios que, mais uma vez, parecem pôr em confronto etíopes e somalis (há somalis dos dois lados do conflito) parecem ser uma combinação de disputas internas e externas a que há que adicionar o factor picante e moderno do extremismo religioso propagandeado por um dos lados, um movimento designado por União dos Tribunais Islâmicos que, para além de estar a tentar controlar o resto da Somália que ainda escapa ao seu controle, fez transbordar esse conflito para as regiões de etnia somali dos países vizinhos. Essencialmente, nada de realmente novo, talvez apenas uma refrescada cobertura mediática a respeito dos litigantes.

Fica um comentário final para a ironia do facto de ninguém contestar o carácter nacional somali das populações que habitam os territórios vizinhos que a Somália pretenderia anexar. Fosse esta disputa num continente como o Europeu e, segundo o princípio das nacionalidades, a razão pertencer-lhe-ia inteiramente. Contudo a Somália é africana, o continente em que, infelizmente para ela, questionar e redesenhar as fronteiras herdadas do período colonial seria a antecâmara de um apocalipse generalizado…
* O outro país a respeitar formalmente esse estatuto foi a Libéria, que era uma colónia norte-americana em todos os outros aspectos, excepto no nome.
Nota: O último mapa consta, em várias versões, da Wikipedia, onde ilustra a cobertura do actual conflito e onde se pode acompanhar a evolução da implantação das várias facções. Os riscos vermelhos representam as fronteiras internacionais.
* O outro país a respeitar formalmente esse estatuto foi a Libéria, que era uma colónia norte-americana em todos os outros aspectos, excepto no nome.
Nota: O último mapa consta, em várias versões, da Wikipedia, onde ilustra a cobertura do actual conflito e onde se pode acompanhar a evolução da implantação das várias facções. Os riscos vermelhos representam as fronteiras internacionais.
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