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13 junho 2022

AS 150 BANDEIRAS MAIS A BANDEIRA EM FALTA

13 de Junho de 1982. Cerimónia de abertura do Campeonato Mundial de Futebol que se realiza no Camp Nou em Barcelona. Os primeiros minutos do vídeo acima mostram que a cerimónia irá ser dominada pela simbologia das bandeiras, a da Espanha anfitriã a abrir e predominar, as das 24 selecções participantes no Mundial, as das «150 nações filiadas na FIFA» (segundo o comentário). Porém, aquela que está conspicuamente ausente de uma cerimónia de todas as bandeiras, é a senhera, a bandeira da Catalunha, onde a cerimónia se está a realizar. Ausente pelo menos do palco/relvado, porque, como se vê no instantâneo abaixo, houvera quem a tivesse levado consigo para as bancadas. Mas aquilo que era simplesmente um pormenor simbólico há 40 anos, tornou-se actualmente num pormaior político.

14 abril 2021

A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA EM ESPANHA

14 de Abril de 1931. Proclamação da república em Espanha. Como acontece muito frequentemente com estes regimes em fase agónica, a monarquia espanhola caiu, mas não chegou sequer a ser derrubada, esboroou-se perante um obstáculo político que não conseguiu superar: umas eleições municipais onde os republicanos haviam vencido em todas as principais cidades de Espanha.

03 abril 2021

NOTÍCIAS ACTUAIS COM NOVENTA ANOS

3 de Abril de 1931. Esta notícia, oriunda de Barcelona, possui, apesar dos seus 90 anos, uma ressonância estranhamente actual. A Espanha continua a ser um país - ou vários países... - com um sério problema em assumir conjunta e colectivamente o que quer ser.

18 janeiro 2021

QUANDO O «GOD SAVE THE QUEEN» ERA VAIADO

Cardiff, País de Gales, 23 de Março de 1968. Durante as cerimónias preliminares do jogo de rugby que se irá disputar entre as selecções galesa e gaulesa para o tradicional Torneio da Cinco Nações, e depois da execução protocolar do hino dos visitantes (A Marselhesa), segue-se a execução do hino do país anfitrião, o «God Save the Queen» britânico. Mais do que o tradicional silêncio glacial como costumava ser acolhido o toque do hino britânico em terras galesas, tão glacial quanto a chuva picada pelo vento que soprava nesse dia, os acordes do «God Save the Queen» soaram mesclados de assobios e vaiadelas aos ouvidos de espectadores e telespectadores, já que o jogo estava a ser transmitido pela eurovisão). Um incómodo que apenas aumentou quando, a seguir ao «God Save the Queen», e para contraste com o que se passara, a banda interpreta o «hino» nacional galês «Hen Wlad Fy Nhadau» e este último é entoado em uníssono e respeito por uma grande maioria dos presentes. Para o que interessa, a França veio a ganhar dificilmente aquele jogo por 14-9, num terreno que a chuva enlameara para além do razoável, como se nota pelas camisolas dos jogadores nas imagens abaixo. Mais do que isso, a vitória da França nesta última jornada permitia que ela ganhasse o Torneio daquele ano (1968) e, pela primeira vez na história da participação da selecção gaulesa no Torneio, fazia-o ganhando todos os jogos que disputara, o ambicionado Grand Slam.  
Mas a grande lição do jogo fora política e não desportiva: não valia a pena forçar a execução do hino nacional quando dos jogos da selecção galesa de rugby, já que a consequência provável seria a de expô-lo ao ridículo, rebaixado quando em comparação com o desvelo como o hino regional era entoado. No ano seguinte, o «God Save the Queen» deixou de ser tocado quando jogava Gales e anos depois aconteceu o mesmo com a Escócia. E acabaram as vaiadelas. Um símbolo - e é isso que um hino é: um símbolo - só serve de símbolo se promover a coesão nacional. Se o não faz, é apenas uma música irritante - pelo menos, para a parte da audiência que não se reconhece no que representam aqueles acordes. No Reino Unido, há cinquenta anos, desmontou-se o problema. Pelo contrário, em Espanha, não há quem o queira perceber, aprecie-se apenas a vaiadela monumental dedicada ao hino de Espanha que ocorreu na final da Taça do Rei de 2015, disputada em Barcelona entre o clube local (catalão) e o Atlético de Bilbau (um clube basco).

01 agosto 2020

QUEM OS (OU)VIU E QUEM AINDA TEM PACIÊNCIA PARA OS (OU)«VER»

Eu já fui um admirador destas tertúlias patrocinadas pelo Observador intituladas Conversas à Quinta. Aliás, fui um seu admirador desde o princípio, de uma admiração que até dei nota na altura (Julho de 2014). Uma admiração que, vim a descobrir depois, se alicerçava em pressupostos errados: a de que o programa evoluiria à volta dos comentários de dois convidados com uma cultura sólida (mais sólida a de Jaime Gama, mais presa com arames a de Jaime Nogueira Pinto...), e com o programa a ser orientado pelo anfitrião José Manuel Fernandes. Só que, o que eu não contava é que este último tinha ambições de ser muito mais do que um Carlos Andrade da Quadratura do Círculo ou um qualquer outro moderador de um programa desse mesmo género. José Manuel Fernandes queria apoiar-se nos ombros dos colegas de programa para saltar para a ribalta do reconhecimento intelectual. O preço da promoção do ego do publisher do Observador não tardou a tornar-se notório através da multiplicação das calinadas por si protagonizadas, que eu também fui dando conta, episodicamente, aqui no blogue, (Abril de 2015). Mais do que isso, provavelmente devido ao desequilíbrio (intelectual) das forças em presença, a intervenção dos presentes, sobretudo Gama e Nogueira Pinto, tornou-se cada vez mais compartimentada e alheia à opinião adjacente: o programa, ocasionalmente interessante, assumira-se como um encadeado de monólogos, o de Fernandes normalmente penoso de medíocre (Novembro de 2015). Tornei-me um espectador cada vez mais irregular (Março de 2017) até o deixar de ser de todo. Até esta promoção abaixo na página do jornal me ter chamado a atenção há dois ou três dias...
...é que um pouco antes disso, e a respeito dos problemas políticos, de sustentabilidade e legitimidade com que se confronta o monarca espanhol Filipe VI, eu assinalara a propósito do exemplo de há 70 anos de Leopoldo III da Bélgica, que um rei, mesmo que legitimidado por uma maioria do eleitorado, quando é detestado ostensivamente por uma apreciável minoria dos seus súbditos, não tem condições para continuar desempenhar as funções que se lhe exigem, mormente num país propenso a fracturas internas. Filipe VI pode continuar a ser rei de uma Espanha que não inclua a Catalunha, ou então, se a Espanha quer continuar a incluir a Catalunha, Filipe VI só lá está a atrapalhar. O rei de Espanha não pode ir à segunda cidade do seu país acompanhado de um dispositivo policial de quem está em país conquistado. E, por outro lado, não pode deixar de lá ir: durante décadas Isabel II não se atreveu a pôr os pés em Belfast sob pena de ser mal recebida pelos seus súbditos católicos, mas a Catalunha não é um Ulster remoto de Espanha. Apresentado como o faz acima, em jeito de denúncia de escândalo de costumes, eu nem quis ouvir o que os protagonistas das Conversas à Quinta teriam para dizer de inovador a respeito do dilema da monarquia espanhola. De escândalos há muito que a monarquia espanhola está servida, não nos esqueçamos que o rei de Espanha tem um cunhado na prisão, sítio onde ainda não é garantido que Ricardo Salgado vá ser visitado... A putativa ruptura de Filipe VI com o pai João Carlos é que me parece uma forma, para o dizer francamente, bastante estúpida de enquadrar o tópico. Fica assim a meio caminho, entre os problemas sérios de Espanha e os enredos dos artigos da revista ¡Hola! O que há para dizer sobre a monarquia espanhola é muito mais do que um enredo simples e maniqueísta, onde um rei bom se compara a um ex-rei mau (que, por sinal, já gozou de uma excelente imagem pública e já também foi um rei bom). Um rei ou serve ou não serve: há ocasiões em que, como aconteceu com Leopoldo III e com o seu filho Balduíno I, a figura do rei em abstracto até serve, mas a pessoa daquele rei em particular é que não serve. As dificuldades pessoais de Filipe VI devem-se a si próprio, ao comportamento que adoptou quando da crise na Catalunha, quando se mostrou sobretudo rei de Castela e se esqueceu de ser rei de Aragão - ora aqui está uma tirada que qualquer dos Jaimes poderia ter dito durante o programa... Mas o programa dos dois Jaimes, com a adição do Zé Manel, degenerou nisto...

29 julho 2020

A CONTESTAÇÃO AO REGRESSO DE LEOPOLDO III DA BÉLGICA


29 de Julho de 1950. A edição daquele dia do Diário de Lisboa conferia um destaque de primeira página à situação na Bélgica onde, após cinco anos de exílio voluntário, o rei Leopoldo III acabara de regressar, legitimado por um referendo que tivera lugar em Março daquele ano. E não fora nada bem recebido... O conteúdo da notícia do Diário de Lisboa (que se pode ler no fim do poste) revela-se, a esta distância temporal de 70 anos, mais alarmista do que esclarecedor. Como dali se pode concluir, há uma caracterização política no movimento daqueles que se opõem ao retorno do monarca ("socialistas e liberais", como o descreve o jornal), mas há sobretudo uma caracterização regional e cultural, e essa o jornal mal a aflora. Como se percebe facilmente pelo mapa abaixo, com os resultados do referendo de Março, destaca-se ali nitidamente uma mancha vermelha que se opusera ao retorno de Leopoldo III, mancha essa que se centra à volta da região francófona da Valónia. No computo global, o retorno do rei fora aprovado por 57,7% dos votantes, mas os resultados haviam sido díspares, se contados entre a comunidade flamenga (72%) e a comunidade valã (42%). O regresso do rei fora rejeitado, ainda que tangencialmente, na própria capital, Bruxelas (48%). Havia mais do que uma razão para a objecção dos valões a Leopoldo III, mas disso já eu falei num outro poste, onde aproveitei para rematar o desfecho desta história - a renúncia de Leopoldo III em seu filho em 31 de Julho, seguida da abdicação formal a 15 de Julho de 1951. Mas há uma lição que se pode extrair destes acontecimentos de há 70 anos: é que a aritmética dos resultados eleitorais tem que ser apreciada com muito atenção quando o assunto político em causa é o da viabilidade de um monarca: o retorno de Leopoldo III foi legitimado por uma maioria absoluta (57,8%). Porém essa maioria era heterogénea. Para além disso, aqueles que se opunham ao seu regresso, não gostavam mesmo nada dele. E quando isso acontece, o papel de qualquer rei perde o sentido. E quem rodeava Leopoldo III ter-lhe-á explicado isso. E é por isso que não estarei a ser propriamente visionário quando antecipo enormes dificuldades para o futuro de Filipe VI no trono espanhol: qualquer visita que o monarca espanhol faça à Catalunha tornou-se num desastre de relações públicas, protagonizado por aqueles que agora tomaram o rei como a corporização do centralismo castelhano. Como acontecia na Bélgica, um rei parcial de um país dividido, não serve para nada.

«Bruxelas, 29 – Numa atmosfera quase de revolução, o Gabinete católico da Bélgica, constituído por partidários do rei Leopoldo, decidiu ontem á noite fazer esforços para chegar a um compromisso com os adversários não comunistas do soberano – os socialistas e os liberais. Esta informação foi hoje dada de origem autorizada. Durante a sessão do Conselho de Ministros, estes concordaram em que devem recomeçar negociações entre os três grandes partidos do país. O chefe do Governo, Jean Duviesart, falando pela rádio, apelou para o «senso comum» do povo e anunciou que o rei deseja conferenciar com os representantes dos vários partidos políticos para poder com toda a imparcialidade encarar as medidas para «promover uma política de união». Mas avisou que isto só se pode conseguir «na calma e dignidade» e disse aos amotinados que os actos de sabotagem seriam energicamente punidos. Nos círculos políticos declara-se que as negociações entre católicos e os socialistas e liberais conduziram quase a um acordo na base de que Leopoldo delegaria as suas funções durante um certo período em seu filho, o príncipe Balduíno. Isso foi, porém, antes dos partidários do rei terem obtido a maioria em ambas as Casas do Parlamento, do que resultou o regresso de Leopoldo a Bruxelas. A situação em todo o país era hoje caótica. O movimento da greve geral – que partiu da zona industrial da Valónia – espalhou-se pelo país, paralisando a vida de cidade para cidade e esta manhã ameaçava envolver o grande porto de Antuérpia. Os actos de violência são ainda raros e as cenas quase revolucionárias nas ruas de Bruxelas limitaram-se a gritos subversivos. Mas o perigo aumentou durante a noite. Todas as estradas e linhas férreas que conduzem á capital estão cheias de manifestantes da região da Valónia de língua francesa, que avançam. Obedecendo ao apelo para a greve da Federação Geral do Trabalho, milhares e milhares de operários inactivos percorrem as ruas e praças de Bruxelas proferindo gritos contra o rei e procurando encontrar quem quer que se atreva a levantar a sua voz em favor do monarca. A atitude de expectativa era ainda hoje a ordem das autoridades. As forças de polícia ainda não fizeram fogo, mas o estado de espírito dos agentes da autoridade agrava-se depois de uma semana de quase contínua tensão (Reuter).»

14 janeiro 2020

A CRISE DO AQUECIMENTO GLOBAL

Quando se desejaria que fossem os castelhanos a aprender com os ingleses, os factos parecem demonstrar que o que está a acontecer é precisamente o contrário: são os ingleses que mostram querer lidar com os escoceses como os castelhanos o fazem com os catalães. O «aquecimento» a que me refiro em título não é o climático, é o político, desta deriva política progressiva das práticas democráticas em direcção às autocráticas, mesmo (sobretudo) na Europa.

22 outubro 2019

ÓSCAR CARMONA EM BARCELONA

Há noventa anos quem estava em Barcelona era Óscar Carmona, o presidente português. Na visita que estava a realizar a Espanha, o chefe de estado português fora recebido em Madrid por Afonso XIII, o rei de Espanha, que o acompanhara em primeiro lugar a Toledo, e que agora o aguardava em Sevilha. Mas, por acaso (ou não), o monarca espanhol não se deslocara à cidade condal, deixando o português fazer essa parte do seu périplo sozinho. Curiosa coincidência esta, a de há noventa anos, deixando pairar no ar a hipótese que as relações já então não eram as mais cordiais, entre os monarcas Borbon e os seus súbditos catalães. Como sempre se disse do brandy Constantino, tratar-se-á de uma fama que já virá de longe...

07 julho 2019

CANADÁ VERDADEIRAMENTE BILINGUE

7 de Julho de 1969. Foi apenas há cinquenta anos, através das aprovação da Lei sobre as línguas oficiais que o Canadá se tornou um país oficial e completamente bilingue, com os idiomas inglês e francês a serem reconhecidos com um mesmo estatuto equivalente. Sendo então um país já centenário (fundado em 1867), o Canadá andava ainda em busca da sua identidade simbólica: a bandeira nacional canadiana, por exemplo, tinha apenas quatro anos. E quanto ao hino, ainda havia que aguardar mais onze anos até ele ser oficialmente adoptado (com duas letras!). E vale a pena evocar este fenómeno porque há um paralelo interessante entre o que acontece com o Canadá, o Quebec e os francófonos e o que acontece aqui ao lado com a Espanha, a Catalunha e os catalães. Estão muito iludidos os castelhanos que pensam que o problema se consegue varrer para debaixo do tapete...

10 março 2019

SENHOR TARDÀ!... SENHOR TARDÀ...


Joan Tardà é um deputado catalão às Cortes espanholas, eleito desde 2004 nas listas da ERC (Esquerda Republicana da Catalunha). E a notícia é que ele não tenciona voltar a apresentar-se às próximas eleições legislativas de 28 de Abril. O que é uma pena. Tardà é alguém que, como dizia o slogan de Fernando Pessoa, «primeiro estranha-se e depois se entranha». E que, como o chato que é, só pode ser devidamente apreciado no estrangeiro, a uma certa distância. Como professor de língua e literatura catalãs (profissão mais teórica que prática, já que tem dedicado a sua carreira à política), a atitude de Tardà, de defesa intransigente do seu idioma face à hegemonia do castelhano que o Estado espanhol impõe em todos os seus procedimentos, tem-no feito protagonista de inúmeros momentos mediáticos, começando quase sempre por se expressar em catalão e forçando as autoridades a chamar-lhe a atenção para o fazer mudar de idioma. Uma das ocasiões mais recentes em que isso aconteceu foi quando compareceu como testemunha no julgamento dos membros da Generalitat catalã que estão a ser julgados pela realização do referendo independentista de 1 de Outubro de 2017.

Os comentários recriminatórios que lhe são dirigidos (e que recuperei para título), tornaram-se assim uma imagem de marca de muitas aparições televisivas de Joan Tardà. Como diz o juiz presidente no vídeo acima (ao seu pedido para que responda às perguntas do Vox em catalão), «...não começámos bem...». Na verdade, com Tardà e a sua insistência em falar catalão e perante uma superestrutura organizada desde sempre para impor o idioma castelhano (a que se chama impropriamente espanhol), é garantido que, com ele, raramente se começa bem. Continua melhor mas, reconheça-se que, de uma certa forma, Joan Tardà continua a sua saga numa espécie de atitude de guerrilha, empregando um castelhano arrevesadíssimo, num país, aliás, onde a prática de assassinar um idioma à custa de um sotaque que o torne ininteligível é prática social aceite... com o inglês. Mais a sério, e ainda a pretexto da questão linguística, outros comentários de Tardà merecem verdadeira reflexão. Exemplo, um de 2009, em que comentava que o rei (na época, João Carlos) não sabia falar nem basco, nem catalão, nem galego, mesmo depois de mais de 30 anos de reinado. Para bom entendedor e descontados aquelas coreografias em que o monarca lê um discurso preparado de antemão num idioma alheio, a ausência de qualquer desmentido veemente da parte do palácio real tem um significado ribombante. Ou, como se perguntava o nacionalista Daniel Castelão (1886-1950), embora o fizesse a respeito do galego, «Com que direito é que se nos obriga a aprender a língua de Castela, sem que se obrigue os castelhanos a aprender também a nossa?...»

A atitude de Joan Tardà é mais inconveniente do que radical, como se percebe aliás, pelo atitude a respeito dos mais recentes desenvolvimentos políticos na Catalunha (acima). Por tudo isso, porque é um chato, mas também porque incomoda, porque é pertinente e ao mesmo tempo ponderado, a sua saída é uma perda para todos.

11 setembro 2018

DIA NACIONAL DA CATALUNHA


11 de Setembro é o Dia Nacional da Catalunha. A razão da escolha do dia está explicada na página da wikipedia. Especialmente nos últimos anos, a ocasião e a consequente manifestação em Barcelona que a celebra (as imagens acima são da manifestação do ano passado), tornaram-se num pretexto para chamar a atenção mundial para a causa da independência da Catalunha. À medida que o tempo passa e que as teimosias de Madrid e Barcelona se acentuam, também cá por Portugal, o tema tem deixado de ser tratado pela nossa comunicação social com aquela que era a cortesia costumeira para com as posições da Catalunha e, sobretudo, as d(o resto d)e Espanha, com os constrangimentos da posição oficial do Estado português a deixarem de se sentir, e a atitude da opinião publicada em Portugal a tornar-se cada vez mais equidistante, quando não pró-independência catalã.
Atitude delicada da nossa comunicação social que, retroactivamente, há até uma certa dificuldade em compreender, porque, na questão de delicadezas para com vizinhos, reconheça-se que a comunicação social deles nunca se terá incomodado muito com os nossos sentimentos, veja-se o exemplo, velho de 15 anos, da expressão de mau gosto como por lá se designava a cimeira das Lajes de 2003, «el trío de las Azores». Menorizando de forma ostensiva a presença de Durão Barroso, podemos lê-la empregue em todo o espectro da imprensa espanhola de referência, desde o ABC, ao El País, ao El Mundo, até ao La Vanguardia, que se publica em Barcelona...

27 abril 2018

O TEMA REENCENADO DA «COMICHÃO POLÍTICA» CAUSADA PELAS VERRUGAS

Juntando estes dois desenhos, percebe-se quanto o recurso dos cartoonistas à metáfora das verrugas como exemplo de fenómenos políticos incómodos é antiga, com mais de cem anos. O cartoon de cima data de 1905, refere-se à política portuguesa e mostra-nos as duas eminências da época, Hintze Ribeiro (à esquerda) e José Luciano comparando o incómodo provocado nas respectivas formações (progressistas e regeneradores) pelas dissidências (de João Franco e de José de Alpoim). Cento e treze anos depois o tema e o incómodo são retomados para a política espanhola, mostrando aquilo que Carles Puigdemont (e a questão catalã) estarão a provocar no presidente do governo, Mariano Rajoy.

23 abril 2018

ESPANHA, UM PAÍS COM UMA BANDEIRA VERMELHA E AMARELA


Se, no final da Taça do Rei, depois das tradicionais vaiadelas ao hino e em jogo jogado, o Barcelona venceu o Sevilha por 5-0, pelo Barcelona, pelo menos com os seus apoiantes mais radicais, continua-se a meter golos, mesmo depois do jogo já ter terminado anteontem. Basta a afixação destas imagens acima do dia do jogo, antes de tudo, das vaiadelas e do jogo, quando da admissão ao estádio, em que se vê que a cor amarela, que é o símbolo do independentismo catalão, está a ser proibida pelas autoridades policiais que controlam as admissões ao estádio. Ou seja, como se lê por aí pelas redes sociais, em Espanha a cor amarela passou a ser um risco de segurança. Sabia-se já da lendária antipatia dos touros pela cor roja. Mais política e menos instintiva, sabia-se também da antipatia do generalíssimo Franco por aquela mesma cor - tantos os seus inimigos de tal cor que acabaram os seus dias encostados ao paredão. Novidade desta Espanha dita democrática é mesmo esta proscrição do amarelo, por ironia a outra das duas cores da bandeira espanhola. Felizmente a política e os políticos castelhanos - que se distribuem transversalmente do PP até ao PSOE - parecem impermeáveis à ironia, a mesma ironia que me leva a publicar aqui o hino do franquismo em homenagem a estes pequenos episódios que fazem da democracia espanhola um regime com um cunho tão... castelhano.

22 abril 2018

A TRADICIONAL VAIADELA AO HINO ESPANHOL NA ABERTURA DA TAÇA DO REI


Qual é o país, qual é ele, em que já se tornou uma espécie de tradição ouvir uma enorme vaia ao próprio hino nacional quando das cerimónias preliminares da final da Taça em futebol? A Espanha, pois claro. Para que isso aconteça é só necessário que um dos clubes finalistas seja oriundo de uma das nações que contesta a hegemonia castelhana. Ontem, a cena - baptizada localmente de pitada - tornou-se a repetir por causa dos apoiantes do Barcelona que defrontava o Sevilha, e mesmo apesar do jogo se disputar em Madrid.

Sendo uma tradição antiga, o gesto tem adquirido uma notoriedade crescente nestas últimas décadas, e a sua audição sonora multiplica-se quando a final é disputada por dois grandes clubes que sejam conotados com nacionalidades hostis ao castelhanismo, como é o caso dos frequentes encontros entre o Barcelona (catalão) e o Atlético de Bilbau (basco). Nos últimos dez anos foi assim em 2009 em Valência, tornou a ser assim em 2012 em Madrid (são notórios os esforços da realização da TVE em abafar o som ambiente e o da organização em abreviar o momento, executando a versão curta do hino) e chegou a ser épico em 2015 quando a final da Taça se realizou em território hostil, em Barcelona.

Relativizando o fenómeno e encarando-o de forma optimista, ontem só houve lugar a uma meia-vaiadela. Especulo (e apenas isso) se aquelas mesmas pessoas vaiariam o hino com igual fervor se fosse a selecção espanhola a jogar. De toda a forma, e que conheça, actualmente é o único país da Europa em que tal fenómeno - vaiar ostensivamente o próprio hino nacional - ocorre com esta amplitude. E é caricato ver Madrid pretender que Espanha não tem problemas de identidade nacional.

28 março 2018

CHAMEM A... quem??

Quando é a própria polícia a estar envolvida no acidente, por quem é que se há de chamar? O apelo dos Trabalhadores do Comércio (abaixo) parece ultrapassado. Uma reflexão que me parece apropriada na sequência da notícia que os dois polícias que acompanhavam Carles Puigdemont foram, por sua vez, detidos.

26 março 2018

OS PROBLEMAS POLÍTICOS DE INTERPRETAR CANÇÕES NUM «DIALECTO»...

26 de Março de 1968. Nem de propósito, se atendermos aos últimos desenvolvimentos noticiosos, que nos mostram por essa Europa fora os dirigentes nacionalistas catalães a serem detidos (Espanha, Alemanha, Reino Unido), vale a pena recuperar este mini escândalo de há cinquenta anos, quando o intérprete (e autor) da canção que iria representar a Espanha no próximo Eurofestival é substituído á última hora por uma outra intérprete, essa castelhana, depois de ter mostrado a intenção de interpretá-la em catalão. Para lá da capa acima, a história está depois explicada na página 8 da edição do Diário de Lisboa desse dia (abaixo). Registe-se porém que o idioma catalão é ali qualificado repetidamente como dialecto - eram as «malhas» que o franquismo (e a ignorância doméstica) teciam. E recorde-se que a nova intérprete, mesmo com uma canção emprestada à última da hora, virá a ganhar o certame dali por 11 dias. Mas de quase tudo isso já eu aqui havia falado. Dessa vez a Europa não parece ter ligado nenhuma às controvérsias internas da Espanha. E desta?...

31 dezembro 2017

O FIM DA CHECOSLOVÁQUIA

31 de Dezembro de 1992 foi o último dia da existência da Checoslováquia. Dos países da Europa de Leste surgidos em 1918, se as animosidades entre as nacionalidades da Jugoslávia eram conhecidas perfeitamente pelo resto do Mundo, as da Checoslováquia surgiram com alguma surpresa logo depois do fim da Guerra Fria. O civismo recíproco como decorreu o processo serviu de base para que a partir dele se cunhasse uma expressão, «Divórcio de Veludo», para descrever o desmembramento de forma cordata de um país nas suas nacionalidades constitutivas. Como também já expliquei aqui neste mesmo blogue, a expressão pecará, como elogio, pelo excesso, porque realçado pelo contraste com o carácter sangrento como o desmembramento da antiga Jugoslávia se estava a processar nessa mesma época. O que se torna interessante, passados estes 25 anos, é como esses vários processos de desmembramento do Leste da Europa criaram uma dinâmica de novas fronteiras que acabou por chegar à Europa Ocidental. Entre os casos recentes mais relevantes apareceram os da Escócia, da Catalunha ou da Córsega (a que tenho visto ser dado muito pouca atenção). E, quando os problemas lhes batem à porta, a imaginação e o fair-play dos europeus cá deste lado parece desaparecer como por encanto, pois aquilo que se tem visto a Mariano Rajoy a respeito da Catalunha (e o que se antecipa como reacção de Emmanuel Macron a respeito da Córsega) é um comportamento tudo menos aveludado... De como todos estes assuntos não passam de uma questão de força política e de política de força e que os legalismos constitucionais só são evocados quando convêm, aqui fica a demonstração com a evocação do Art.º 107 (original em cima, tradução inglesa em baixo) da antiga constituição checoslovaca, que há 25 anos foi tão sumariamente deitada para o lixo.

22 dezembro 2017

O PROGNÓSTICO "À JOÃO PINTO" E A DESCOBERTA DE UM SISTEMA ELEITORAL HÁ MUITO ENVIESADO

«Se fosse um referendo...» Se o artigo de opinião tivesse sido escrito antes do acto eleitoral, sem que se soubesse qual seria o seu desfecho, ainda a opinião do articulista teria algum valor, assim é um comentário baseado num prognóstico à João Pinto. Mas é sobre outro aspecto da lógica futebolística que este artigo de Rui Ramos me despertou a atenção, atentemos àquela passagem que destaquei sobre a sua aparente descoberta dos defeitos do enviesamento do sistema eleitoral. Se o sistema eleitoral espanhol é enviesado, esclareça-se que assim nasceu e tem permanecido assim desde que se realizaram as primeiras eleições democráticas em Espanha (1977). O que é maravilhoso é que Rui Ramos e outros tantos como ele tenham demorado 40 anos a descobrir isso. Em Espanha o sistema de distribuição do número de deputados que virão a ser eleitos pelos círculos eleitorais (as 50 províncias) não é absolutamente proporcional: cada província tem direito a um mínimo de dois deputados (2 x 50 = 100) e só os restantes 250 do Congresso de 350 deputados são distribuídos proporcionalmente à respectivas populações de cada província. A consequência é que as províncias mais subpovoadas estão sobre representadas*. Há assim uma vantagem comparativa do peso do voto rural sobre o voto urbano, sabendo-se que o primeiro é tradicionalmente mais conservador enquanto o segundo é mais esquerdista. As consequências subtis desse enviesamento que Rui Ramos só agora descobriu podem ser apreciadas no quadro abaixo, que nos mostra uma síntese das oito eleições legislativas espanholas que tiveram lugar de há 25 anos para cá. Do lado esquerdo aparece a votação nacional do PSOE, o número de deputados que elegeu, e o coeficiente que resulta da divisão do primeiro valor pelo segundo, quanto custou, em votos, eleger cada deputado do PSOE. Do lado direito, em sentido inverso, estão precisamente as mesmas contas feitas para o PP. E a conclusão que aparece no quadro central é inequívoca: com excepção das eleições de 1993 e independentemente de quem tenha sido o vencedor do acto eleitoral, os deputados do PP têm sido eleitos consistentemente de forma mais económica do que os do PSOE. Ou seja, o tal «sistema eleitoral enviesado» tem beneficiado a direita espanhola.
A metodologia que acima foi descrita é a mesma que é empregue para as eleições autonómicas. E o efeito distorcido nas representações parlamentares será do mesmo género. Só que neste caso concreto da Catalunha e para visível incómodo de Rui Ramos, o voto rural é não apenas conservador como também acentuadamente nacionalista catalão. É assim que, fazendo a comparação entre os três partidos mais bem colocados de quando custou em votos em média eleger um deputado nas eleições de ontem, a formação que os conseguiu mais baratos foi a direita nacionalista catalã de Puigdemont (27.660), seguida da esquerda nacionalista catalã de Oriol Junqueras (29.030) e só depois a direita constitucionalista espanhola de Inés Arrimadas (29.770). Será portanto a diferença deste coeficiente de 2.110 votos que terá causado todo este incómodo e mau perder a Rui Ramos, como se ele fosse um daqueles facciosos comentadores de futebol que, assume uma postura muito distanciada das emoções, mas depois só fala dos erros da arbitragem nos jogos em que acha que eles prejudicaram a sua equipa.

* Ao contrário do que acontece em Portugal, em que o eleitor do distrito de Portalegre e do distrito de Lisboa têm aritmeticamente a representação o mais aproximada que for possível.

21 dezembro 2017

«BUENU, POS MOLT BÉ, POS ADIÓS»

Vale a pena, hoje que se realizam eleições na Catalunha para eleger um novo parlamento local, evocar um episódio com precisamente quatro meses, por ocasião de um conferência de imprensa em que participava Josep Lluís Trapero, o comandante da força policial catalã dos Mossos d'Esquadra. Perante os protestos e o abandono da sala por um dos jornalistas presentes porque Trapero lhe estaria a responder em catalão, a famosa tirada ficou registada com um significado muito mais amplo do que aquele que se supõe que o autor lhe terá querido dar naquela circunstância: - «Buenu, pues mol bé, pues adiós». (A transliteração do comentário de Trapero tem mais do que uma versão, entre as mais catalãs e as mais acastelhanadas).
Vale também a pena recordar que o tema da conferência de imprensa era o hoje quase completamente esquecido atentado terrorista de Barcelona de 17 de Agosto deste ano. A ocasião fora precedida de um braço-de-ferro linguístico muito tradicional naquelas paragens, com os órgãos de comunicação social nacionais a pretenderem que as autoridades usassem como língua de trabalho o castelhano em precedência ao catalão e com aquelas escudando-se nos seus procedimentos de rotina de sempre, que dão natural primazia ao idioma local. Claro que Trapero fala fluentemente castelhano mas este foi mais um daqueles pequenos incidentes que só os espanhóis e outros países com problemas linguísticos semelhantes conseguirão entender em toda a sua subtileza.

06 novembro 2017

A PRISÃO DE JOHAN SEBASTIAN BACH

Há precisamente 300 anos, o músico Johann Sebastian Bach (1685-1750) era preso. O que terá feito aquele compositor aos 32 anos, casado e pai de filhos, para lhe ter acontecido isso? Vale a pena contar a história que ali o conduziu. Em finais de 1716, o director musical da corte ducal de Weimar, (onde Bach trabalhava) morreu e foi sucedido no cargo pelo filho, que Bach considerava um incompetente e que o ultrapassara injustamente. Ao longo do ano seguinte o compositor procurou uma nova colocação e, no Verão, encontrou-a, como director musical na corte vizinha do príncipe Leopoldo de Anhalt-Köthen. O duque Guilherme Ernesto de Saxe-Weimar, despeitado pelos pedidos de demissão de Bach a que se recusava a dar provimento, acabou por o prender a 6 de Novembro de 1717, num gesto de prepotência gratuita que só terminou quando libertou o compositor, quase um mês depois (2 de Dezembro), por intercessão de Leopoldo (que também era cunhado de Guilherme Ernesto). Comparando com este despotismo, as prisões dos membros do governo da Catalunha só podem ser justificadíssimas...