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17 fevereiro 2023

A FORMALIZAÇÃO DE UM PACTO ESTATUTÁRIO ASSOCIANDO OS TRÊS PAÍSES DA «PEQUENA ENTENTE»

A «Pequena Entente» fora originalmente o resultado de assinaturas de tratados bilaterais de segurança mútua assinados ao longo de 1920, 1921 e 1922 entre a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Roménia (acima, assinaladas a verde). Todos estes três países tinham expandido as suas fronteiras (a Checoslováquia tinha mesmo surgido!) quando do final da Grande Guerra (1914-18), e isso acontecera à custa da implosão do Império Austro-Húngaro. Portanto, o receio que os associava era o perigo de um revanchismo dos  países derrotados em 1918: Áustria, Hungria e, sobretudo, Alemanha. Por detrás da associação entre aqueles três países era notório o apadrinhamento da França. Durante o primeiro decénio da sua existência, a «Pequena Entente» pouco mais fora do que um protocolo diplomático «in being» (transposição de uma expressão do inglês, «fleet in beeing», com o significado de uma frota que é importante apenas por existir, sem correr o risco e a necessidade de se engajar em batalhas navais para demonstrar as suas capacidades).Só que em 1933 o comportamento da Alemanha começara a modificar-se e as previsões eram que se iria modificar ainda mais com a chegada de Adolf Hitler ao poder. A 17 de Fevereiro de 1933 era notícia a assinatura no dia anterior em Paris(!...), de um pacto de funcionamento associando os três países da «Pequena Entente». O futuro da próxima meia dúzia de anos viria a demonstrar que este reforço dos laços entre eles poucas consequências práticas teriam. E o futuro muito mais longínquo (60 anos depois) viria a expor à evidência as fragilidades de dois deles e, por consequência, da própria «Pequena Entente» como aliança defensiva: Checoslováquia e Jugoslávia desapareceram com o fim da Guerra Fria.

29 junho 2021

O ALARMISMO DE UMA GUERRA COMO A DA COREIA, MAS NA EUROPA

29 de Junho de 1951. No jornal desse dia, mesmo ao lado das notícias a respeito da guerra da Coreia, cujo ritmo das operações militares se havia acalmado substancialmente, quando ela completara um ano, surgia um outro grito de alarme, este oriundo de Belgrado, a capital da Jugoslávia, anunciando uma pretensa concentração de tropas soviéticas nas suas fronteiras, naquilo que os jugoslavos de Tito pretenderiam que passasse por uma analogia com a invasão norte-coreana que ocorrera no ano anterior, e que fora a causa do conflito coreano. As duas notícias oriundas de Belgrado apresentam-se encadeadas de tal forma que as intenções dos jugoslavos se mostram límpidas: «O pedido da Jugoslávia aos Estados Unidos para fornecimento de armas». Adiante-se que o pedido jugoslavo vai ser satisfeito e que os Estados Unidos irão realmente fornecer material de guerra à Jugoslávia, apesar de se tratar de um país assumidamente comunista! Na fase que aqui estamos a cobrir, o fornecimento mais importante será o de 150 caças-bombardeiros P-47 Thunderbolt, que se podem ver nas duas fotografias abaixo, voando em formação à época, e exposto actualmente num Museu do Ar sérvio, com as estrelas vermelhas identificativas da força aérea jugoslava .

07 abril 2021

O «EMBAIXADOR FERIDO A TIRO»

7 de Abril de 1971. Aquilo que se pode ler na notícia do Diário de Lisboa sobre o que acontecera na embaixada da Jugoslávia em Estocolmo era pouco e era propositadamente vago. Por exemplo, já se sabia (embora a notícia não o mencione) que os «dois terroristas armados com revólveres» eram nacionalistas croatas porque os dois haviam-no proclamado audivelmente em frente às câmaras de televisão quando eram transportados algemados depois de presos (no vídeo abaixo), gritando vivas ao Estado Independente da Croácia e a Ante Pavelić. Pela concisão, notava-se que não houvera muito empenho em desenvolver a notícia. Especular sobre o que motivara a acção. E havia imensos aspectos de interesse. A escolha da embaixada entre as várias que a Jugoslávia possuía na Europa Ocidental não fora acidental: o embaixador, Vladimir Rodović, um montenegrino, era um coronel da polícia política jugoslava e dirigira um campo de concentração de presos políticos. E andava normalmente armado. Ele ainda tentou reagir aos dois assaltantes, mas estes dominaram-no e manietaram-no. Depois executaram-no, no quadro da guerra suja que se travava entre a organização terrorista croata e os serviços secretos jugoslavos. Morreria dali por uma semana. O terrorismo croata era, contudo, um assunto chato de abordar. Em primeiro lugar porque as suas acções visavam destruir a Jugoslávia e com ela, o equilíbrio europeu, e isso não interessava nada. Em segundo lugar porque a organização que promovia esse terrorismo estava historicamente conotada com o fascismo e também não convinha recordar isso. E em terceiro lugar porque o país que dava santuário a essa organização era a Espanha franquista. Além disso, o assunto ocorrera na Suécia, com quem Portugal não mantinha as melhores da relações - apoiavam as organizações nacionalistas africanas das colónias portuguesas - e onde se falava uma língua que ninguém percebia (ouça-se o vídeo abaixo...). Portanto, quanto menos se falasse do assunto, melhor: oito linhas tem a notícia. Os dois terroristas croatas vieram a ser condenados a prisão perpétua, mas depois libertados pouco mais de um ano depois do acontecimento, em Setembro de 1972, na sequência do sequestro de um avião da SAS, organizado mais uma vez pela sua organização.

01 março 2021

O RECENSEAMENTO NA JUGOSLÁVIA

1 de Março de 1971. Num artigo originário do jornal parisiense Le Monde (mas assinado por um autor com um apelido de nítida ressonância sérvia - Yankovic), podiam ler-se os complexos problemas que se levantavam por causa da realização do próximo recenseamento na Jugoslávia. «Contrariamente ao que, em geral, se pensa no estrangeiro, a Jugoslávia socialista e federal não é o país dos jugoslavos. (...) Dentro do país (e a lei é precisa a esse respeito) pertence quer a um dos povos de uma República Federal, quer a uma das minorias nacionais... ou então não tem nacionalidade.» Os povos, prosseguia, eram seis («sérvios, croatas, eslovenos, macedónios, montenegrinos e muçulmanos») e as minorias nacionais eram «numerosas» («albaneses, húngaros, eslovacos, turcos, italianos, romenos, checos , búlgaros, etc»). O artigo prolongava-se e ia acabar numa outra página mais adiante. Era um daqueles artigos só mesmo para interessados por minudências da composição étnica de países estrangeiros. Era assim que há cinquenta anos era considerada a heterogeneidade da Jugoslávia de Tito: um detalhe da ordem internacional. Vinte anos depois, quando as circunstâncias envolventes se alteraram e acabou a Guerra Fria, deu para perceber que não era bem assim: o problema havia estado apenas dormente.

02 dezembro 2018

A IMPORTÂNCIA DAS FRONTEIRAS INTERNAS DA JUGOSLÁVIA

1 de Dezembro de 1918. Proclamação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, país que mais tarde se viria a denominar Jugoslávia. Hoje, que seria a ocasião do seu centenário, não passa de uma memória. Não durou o tempo sequer de celebrar as suas bodas de diamante. Sempre foi um país em que, mais importante do que as fronteiras com o estrangeiro, o problema eram os contornos das fronteiras interiores. No quadro acima exibem-se quatro modelos distintos da sua organização política e administrativa (de cima para baixo e da esquerda para a direita): as sete províncias (1918-1922), reorganizadas em trinta e três oblasts (1922-1929), depois reconvertidas em nove banovinas (1929-1939). Depois em 1945 passou-se a seis repúblicas, complementadas em 1974 com duas províncias autónomas (a tracejado). Foi o formato mais estável, mas colapsou em 1991.

09 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA


9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.

19 setembro 2016

QUANDO OS PAÍSES MÉDIOS - COMO PORTUGAL - SE MARIMBAM PARA AS DITAS POTÊNCIAS

Em Setembro de 1912 - há 104 anos - as ambições da Bulgária, Grécia, Montenegro e Sérvia haviam-se concertado para a formação de uma aliança ofensiva para conquistar o resto dos territórios europeus do império Otomano. No meio dos acordos das chancelarias balcânicas, tudo havia sido feito para contornar as divergências entre os parceiros, nomeadamente o facto de que havia regiões a conquistar que eram cobiçadas por dois e mesmos três parceiros em simultâneo: era o caso da Macedónia, cobiçada por búlgaros, gregos e sérvios. Ainda não cheguei à eclosão da Primeira Guerra Balcânica propriamente dita, que começou a 8 de Outubro, mas o episódio que possui umas estranhas ressonâncias modernas é a tentativa concertada de última hora das capitais das «potências», Paris, São Petersburgo e Viena, em tentar refrear os seus aliados. Que, como a continuação da história demonstraria, se estiveram marimbando para essas tentativas. Em tempos de paz e mesmo se o assunto for a guerra, a influência das ditas potências é muito mais consentida pelos destinatários do que imposta. Foi a propósito disso que eu me lembrei da analogia com as fotografias exibindo Merkel, Hollande e Renzi juntos. Depois da saída do Reino Unido da União Europeia, continuará a existir o directório dos países maiores, mas estas operações de relações públicas já não conseguem esconder que, por exemplo na matéria sensível dos refugiados, a capacidade de influência de Berlim ou Paris sobre polacos ou húngaros é nula. Como a antiga ordem internacional que se desmoronou em 1914, também a que vigorou até agora na União Europeia parece preparar-se para se desagregar.

02 dezembro 2015

«MONTENEGRO CONVIDADO PARA INTEGRAR A NATO»

Andamos tão centrados na conflitualidade política interna que a minha reacção imediata à notícia que Montenegro fora convidado para integrar a NATO foi especular que conexões maçónicas teria o líder do grupo parlamentar do PSD accionado desta vez para conseguir arranjar um lugar na estrutura daquela organização internacional, agora que o seu partido abandonou por cá a área do poder... Afinal, não: o Montenegro em questão é o país balcânico.