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26 dezembro 2022

A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DE CASAMANSA

26 de Dezembro de 1982. O Movimento das Forças Democráticas de Casamansa (MFDC), um movimento independentista daquela região do Senegal (mapa acima), organiza uma marcha pacífica em Ziguinchor (capital regional) em direcção ao palácio do governador. Aí chegados, os manifestantes decidem substituir a bandeira senegalesa ali hasteada pela do movimento. A repressão das autoridades senegalesas envolveu uma dura intervenção policial, a que se seguiu a detenção dos dirigentes conhecidos do MFDC, incluindo o líder, o padre Diamacoune Senghor. A data passou a ser considerada o início da fase de rebelião armada pela independência de Casamansa, uma luta que tem prosseguido nestes 40 anos desde aí, com fases mais violentas e de enfrentamento armado entre rebeldes separatistas e o exército senegalês, e outras fases mais disputadas às mesas das negociações políticas: assinaram-se cessares-fogo em 1991, 2001, 2004, mas a questão de encontrar uma solução política pacífica para aquela região do Senegal persiste.
As lutas secessionistas dentro dos países africanos são um daqueles assuntos incómodos de que pouco se fala na comunicação social. Fala-se pouco porque o assunto não nos interessa, aos europeus. E fala-se pouco porque os europeus podem ser considerados a causa original de quase todos esses conflitos, quanto traçaram as fronteiras das colónias africanas na Conferência de Berlim em 1884 sem considerações pelas afinidades étnicas e a(lguma)s circunstâncias históricas que recomendariam outras soluções. Neste caso concreto de Casamansa, a história da presença formal e informal de portugueses e cabo-verdianos naquela região desde o século XV recomendaria que o território tivesse sido atribuído à esfera portuguesa como prolongamento da sua colónia da Guiné (hoje Guiné Bissau). Mas foi o interesse francês que prevaleceu e a região a sul da Gâmbia (atribuída, por sua vez, aos britânicos) acabou por lhes ser atribuída, sobrepondo-se às ambições portugueses. O irónico de toda esta história é que já os portugueses haviam abandonado as suas pretensões coloniais e África há uns anos (o que aconteceu em 1975), quando esta espécie de herança lusitana vem a ser brandida pelos independentistas da MFDC para a sua luta política e a sua guerrilha. Assim é desde há 40 anos, com a diplomacia portuguesa a fazer os melhores esforços para explicar que o assunto não tem nada a ver connosco...

20 agosto 2020

O SENEGAL PROCLAMA A SECESSÃO DA FEDERAÇÃO DO MALI

20 de Agosto de 1960. Colapsava o projecto de constituição na África Ocidental de uma Federação de duas antigas colónias francesas, o Senegal e o Sudão (francês). A página da wikipedia que explica o processo político que levou à constituição da federação e as fracturas, também políticas (e pessoais), que levaram a este seu posterior colapso, menciona apenas as duas partes directamente intervenientes, mas esquece-se de se referir ao patrocínio francês, sem o qual o projecto, evidentemente, nunca teria sido sequer tentado. Na realidade, o fracasso tem de ser atribuído à responsabilidade das três capitais: Bamako, Dakar e Paris. Durara dois meses precisos, desde 20 de Junho a 20 de Agosto de 1960. Com a secessão, o antigo Sudão ficou com a propriedade do nome histórico de Mali, pelo qual o país ainda hoje é conhecido. Uma das consequências do episódio foi a de servir de lição para que se refreassem os entusiasmos pan-africanistas de muitos dirigentes africanos da época, quanto à viabilidade da fundação de estruturas políticas mais alargadas, resultantes da junção de antigas colónias recém independentes: tanto quanto as enormes fragilidades das instituições que existiam, os egos dos políticos acabados de chegar ao poder podiam revelar-se obstáculos ainda mais difíceis de superar. Mas, quem à época se apercebesse disto, também se aperceberia o quanto Salazar, e Portugal com ele, estavam completamente fora do seu tempo.

17 agosto 2020

UM AGOSTO DE SONHO PARA QUEM GOSTAVA DE CONHECER E RECONHECER BANDEIRAS

17 de Agosto de 1960. A França concede a independência ao Gabão. A ocasião é apenas mais uma de um frenesim gaulês que começara logo no princípio daquele mês, em dias alternados, e que começara pela independência do Daomé em 1 de Agosto, a que se seguira a do Níger no dia 3, a do Alto Volta no dia 5, a da Costa do Marfim no dia 7, a do Chade no dia 11, a da República Centro Africana no dia 13, a do Congo no dia 15 e esta, do Gabão, há precisamente sessenta anos. Para rematar, no dia 20 de Agosto, o Senegal, que se tornara independente da França numa federação conjuntamente com o Mali havia precisamente dois meses(!), resolve romper aquela estrutura e assumir-se como uma nação independente (voltaremos a este último episódio na respectiva data). Entretanto este querido mês de Agosto de 1960, e apenas à conta da França, produzirá nove novas bandeiras(!), que aparecem dispostas acima no sentido tradicional da leitura pela data da acessão dos respectivos países à independência. Concorde-se que o conjunto é assaz colorido, não se tratassem elas de novas nações africanas... Nestes 60 anos, algumas delas mudaram de nome, o Daomé para Benim, o Alto Volta para Burkina Faso. Ambos esses países mudaram de bandeira, conjuntamente com o Congo, mas tanto o Benim quanto o Congo retornaram às originais de 1960 e só o Burkina Faso adopta actualmente uma diferente.

22 maio 2010

WOLOF, O DIALECTO DO PROFESSOR

O episódio já tem mais 10 anos mas é intemporal, o de uma mãe, chiquérrima do estilo esquerda caviar e atenta à correcção política do multiculturalismo conveniente, que observava que a filha, que frequentava um colégio infantil de algum nome tinha um professor africano e que ele até falava o dialecto dele com os miúdos nas aulas. Se a ideia tivesse sido a de dar uma imagem de tolerância multicultural ela ruiu naquele instante ao desqualificar a língua materna do professor (um senegalês) ao estatuto de dialecto; fosse o professor da Noruega ou do Japão e nunca aquela mãe atenta teria tropeçado naquele seu lapso linguístico - que não dialéctico

Sendo senegalês, então muito provavelmente a língua que conferiria aquele carácter práfrentex às suas aulas tornando os seus jovens alunos muito mais cosmopolitas desde tenra idade seria o wolof, que é a língua materna de cerca de 40% da população senegalesa e que depois da independência (1960) se tornou a lingua franca coloquial naquele país – a lingua franca escrita continuou a ser o francês. Em Seven Seconds (vídeoclip acima), um estrondoso êxito musical de 1994, as primeiras estrofes que o cantor (Youssou N´Dour – que também é senegalês) canta são precisamente em wolof. À mãe em questão, embora atenta, deve-lhe ter escapado a música...

11 novembro 2008

A VOZ DA IGNORÂNCIA

Depois das recentes eleições presidenciais norte-americanas, correu a notícia, até aí escondida, que a candidata republicana à vice-presidência, Sarah Palin, se revelara detentora de uma ignorância olímpica a que adicionava uma estupidez confrangedora. A notícia era exemplificava, explicando como ela julgaria que África era um país e não um continente, e quando depois lhe explicarem que não era assim, que havia dezenas de países africanos, ela voltara à carga, mostrando que não percebera nada do que se lhe havia sido explicado, perguntando se a África do Sul era a região mais ao Sul da tal África…

Vem isto um pouco a propósito da sul-africana Miriam Makeba, que faleceu recentemente. E, já agora, por falar na morte de grandes divas, pergunto-me se, por ocasião da de Amália Rodrigues, alguém se terá atrevido ao exagero de arranjar um cabeçalho evocando o desaparecimento da Voz da Europa? Ponho as minhas dúvidas e seria sempre com enorme controvérsia que se poderia atribuir essa qualificação continental a qualquer grande voz da canção europeia: A Jacques Brel? Ou aos ABBA? Não tenho dúvidas, porque pode ser lido aqui, é quem tenha tido a ousadia de chamar a Miriam Makeba, sem hesitações, A Voz de África

Como acontece com os exemplos europeus, Miriam Makeba era uma grande voz de África, mas teria sido mais asisado ao autor da frase moderar-se, ou, mais provável, conhecer outras vozes de África antes de a nomear A Voz de África… A diferença é que Sarah Palin é tratada como uma espécie de tambor reaccionário, excelente para bater, enquanto quem assim crismou Miriam Makeba estará situado na corrente das pessoas progressistas e condescendentemente bem intencionadas. Talvez só seja por isso que o tratamento das duas ignorâncias é distinto – e não devia. Porque há outras grandes vozes sul-africanas e há muita outras (boas) vozes no Continente.


20 abril 2008

«SIDESHOWS» DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (7) – A BATALHA DE DAKAR

Depois do Armistício firmado entre franceses e alemães a 25 de Junho de 1940, a percepção britânica de quais seriam as ameaças mais prováveis que incidiriam sobre o Reino Unido era extremamente influenciada pelas análises da Royal Navy. É que Winston Churchill, acabado de chegar ao cargo de Primeiro-Ministro (desde Maio) transitara directamente de Ministro do Almirantado* para a chefia do governo… E o pesadelo da Royal Navy era a hipótese que a Marinha de Guerra francesa, apesar das várias cláusulas preventivas do Armistício, pudesse vir a cooperar com a Wehrmacht na Invasão de Inglaterra

Nas tentativas para impedir aquilo que veio a revelar-se uma paranóia, os britânicos desencadearam duas operações militares de sucesso medíocre e que vieram a revelar-se um clamoroso desastre político, apenas disfarçado pela continuação dos acontecimentos. A primeira operação militar desenrolou-se a 5 de Julho de 1940, numa base naval francesa da Argélia, chamada Mers-el-Kébir, que já havia mencionado colateralmente num outro poste, a segunda operação foi esta Batalha de Dakar, outro fiasco, mas com o condimento da disputa política interna entre a França Livre (de Gaulle) e o Estado Francês (Pétain)…

Além das bases navais de Brest e Toulon em França e da de Mers-el-Kébir, Dakar, no Senegal, era uma outra das bases onde ficara convencionado que as unidades navais francesas ficariam internadas até ao fim das hostilidades (naquela época, entre alemães e britânicos). Por outro lado, o movimento da França Livre fundado por de Gaulle tinha, por esta altura, uma expressão ridícula. Tanto, que nos princípios de Agosto de 1940, fora um enorme golpe de propaganda que as autoridades da África Equatorial Francesa (AEF**) se desligassem da obediência a Vichy e passassem a reconhecer a autoridade gaullista.

Mas, como base logística e fonte de recursos, a AEF continha apenas cerca de 3 milhões de nativos e menos de 6.000 europeus... O objectivo mais desejável dos gaullistas era o de aliciar a muito mais importante África Ocidental Francesa (AOF***), cuja capital era Dakar. Em vez de tentar atraí-los com aquelas manobras de bastidores, que costumam ser tão do agrado da cultura francesa, por sugestão de Churchill a de Gaulle, juntou-se o útil ao agradável: uma expedição francesa para persuadir a administração colonial de Dakar, apoiada numa frota britânica que estava mais interessada nos navios da base naval…

De Gaulle aproveitou as suas Memórias para ridicularizar Churchill e sacudir responsabilidades, descrevendo-o a profetizar como a operação de Dakar decorreria sem problemas, terminando à noite num agradável jantar entre conversores e convertidos, com brindes à vitória aliada… É óbvio que não aconteceu nada daquilo, mas a ironia de de Gaulle não faz esquecer que ele não sai de toda a história isento das suas culpas. A frota britânica era interessante, mas não imponente: 1 Porta-aviões, 2 Couraçados, 5 Cruzadores e 10 Contratorpedeiros, acompanhando uma força de desembarque de 8.000 homens.

Depois de Mers-el-Kébir, a presença da frota britânica ao largo não era propriamente uma ajuda à delegação enviada a terra por de Gaulle. A composição desta, escolhida de entre o que de Gaulle podia seleccionar de entre a nata da sociedade francesa, também parecia constituída de propósito para irritar os representantes tradicionalmente experimentados da escola da Administração Colonial Francesa**** que os aguardavam em terra. Os membros da delegação nem saíram do cais e, quando resistiram à ordem de reembarque, foram alvejados com uma rajada de metralhadora que feriu o neto do Marechal Foch

Houve depois uma tentativa de desembarque empregando o batalhão da Legião Estrangeira da França Livre. As reconstruções históricas pretendem que terá sido de Gaulle, perante a resistência, a ordenar que desistissem para que não corresse mais sangue francês... A realidade foi outra: o desembarque fracassou e a mítica Legião Estrangeira falhou na sua missão… Seguiu-se um duelo naval, entre as peças de terra (abaixo), as dos navios ancorados e as dos que entretanto zarparam com a frota britânica, com perdas para os dois lados. Dois ultimatos endereçados ao Governador-Geral Pierre Boisson foram por este olimpicamente ignorados…

Acumulando 600 baixas entre marinheiros e soldados do corpo expedicionário, o Almirante Cunningham decidiu finalmente retirar-se. A eventualidade de um futuro novo entendimento entre franceses e britânicos passou de remota a impossível. Para o francês médio, o episódio consagrou a imagem de de Gaulle como uma marioneta dos ingleses. A AOF só veio a abandonar a obediência a Vichy em Dezembro de 1942. Mas a vingança de de Gaulle serviu-se fria: Pierre Boisson continuou em funções e só passado quase um ano (em Novembro de 1943) é que ele foi julgado em Argel e condenado à demissão com perda da pensão de reforma…

* O título do cargo é First Lord of the Admiralty, que se pode traduzir por Primeiro Lorde do Almirantado. Funcionalmente pode-se equipará-lo ao de um Ministro da Marinha.
** Chade, Congo, Gabão e a actualmente designada República Centro-Africana.
*** Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Guiné-Conakry, Mali, Mauritânia, Níger e Senegal.
**** Como exemplo da meritocracia em vigor, o Governador-Geral da AEF que se pronunciara a favor da França Livre chamava-se Félix Éboué, era negro, embora originário da Guiana Francesa (América do Sul), e neto de escravos.