15 de Julho de 1974. Com o patrocínio da Junta Militar grega a Guarda Nacional cipriota dá um golpe de Estado em Chipre. A ilha de Chipre, que se tornara independente da tutela britânica em 1960, vivia desde então um equilíbrio político periclitante. Os seus habitantes dividiam-se entre uma comunidade grega significativamente maioritária (quase 80% da população), onde, para mais, existia uma facção política que militava pela sua união com a Grécia; mas também existia uma comunidade turca (quase 20%) que recebia uma protecção ostensiva da Turquia, que era o país geograficamente mais próximo. O equilibrista no meio desta situação era um arcebispo ortodoxo, Makarios III, que fora eleito e reeleito e presidia aos destinos da ilha desde a independência. É esse arcebispo-presidente que é dado como morto na notícia acima. Não estava e o assunto irá ter várias outras repercussões, mas dentro de dias regressaremos ao assunto.
Mostrar mensagens com a etiqueta 50º Aniversário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 50º Aniversário. Mostrar todas as mensagens
15 julho 2024
13 julho 2024
CRIAÇÃO DO COPCON, GRADUAÇÃO DE OTELO SARAIVA DE CARVALHO EM BRIGADEIRO
13 de Julho de 1974. Tem lugar a cerimónia de graduação em brigadeiro de Otelo Saraiva de Carvalho, para que este, como oficial general, possa assumir o comando do Comando Operacional do Continente, que virá a ser conhecido por um expoente político-militar do PREC sob a sigla de COPCON. Mas isso seria depois, há cinquenta anos era ainda «uma força militar para defesa do programa do MFA» embora a soberba do seu comandante - abaixo - nada prognosticasse de bom para depois desse Verão de 1974, que ainda foi ameno...
10 julho 2024
OS BOLETINS CLÍNICOS QUE DEFINIAM A «SAÚDE» DO REGIME (1)
Dois meses e meio depois do 25 de Abril, Portugal podia agora contemplar de forma distanciada a importância pessoal de um ditador quando ele personificava o regime (como acontecera no próprio país com Salazar). Era só preciso acompanhar as notícias que, a 10 de Julho de 1974, chegavam de Espanha e a importância noticiosa que era concedida ao internamento do caudillo Francisco Franco, e tudo por causa de uma tromboflebite. «Comeu gaspacho, frango e fruta e viu, depois, um programa de televisão a cores num aparelho que foi colocado especialmente no seu quarto» (a televisão a cores era então uma novidade em Espanha). A Espanha entrava então numa fase em que os boletins clínicos a respeito do ditador se tornavam progressivamente mais importantes para a definição de qual era a saúde do regime franquista. Franco contava então 81 anos, a idade com que morrera Salazar.
Etiquetas:
50º Aniversário,
Espanha,
Outros Tempos
24 junho 2024
«OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER» E A LUTA DO MRPP PARA CONTROLAR A FACULDADE DE DIREITO DE LISBOA
24 de Junho de 1974. Uma notícia dava ampla ressonância ao comunicado de um grupo de estudantes que se auto-baptizara «Ousar Lutar, Ousar Vencer» (as ressonâncias maoistas são óbvias) e que entrara em confronto aberto com a «Comissão Pré-Eleitoral» (CPE) da Faculdade de Direito de Lisboa (FDL), estrutura que provisoriamente substituíra a Associação Académica daquela faculdade. O que se deduz do que aparece no comunicado, é que há uma disputa por quem controla a Reunião Geral de Alunos (RGA - uma sigla que então surgia e que viria a ter grande ressonância durante o PREC). Houvera uma RGA dois dias antes, onde vingara a proposta de SUSPENSÃO IMEDIATA DE EXAMES (sic - é assim que aparece redigida, em maiúsculas). Os da «Ousar Lutar, Ousar Vencer», que terão sido os proponentes, explicam no comunicado que «a decisão» é o «passo necessário que permitirá aos estudantes iniciar o duro e urgente trabalho de reestruturação da Faculdade». Sendo «duro e urgente», a verdade é que não aparece uma discrição mais detalhada daquilo em que consistirá o tal «trabalho de reestruturação». Em contrapartida o que aparece é um veemente desmentido que aquela suspensão equivalesse a uma «forma encapuçada de passagens administrativas que ninguém» propusera, conforme afirmariam as «calúnias» dos «actuais membros da CPE». Para aquele dia 24, às 21 horas, estava marcada nova RGA, ou seja, um rematch para se saber quem controlava a FDL - o MRPP da «Ousar Lutar, Ousar Vencer», ou os seus adversários da CPE? Convém acautelar que esta última seria provavelmente controlada pelos comunistas canónicos do PCP. Estava-se em dia de São João Baptista e esta seria um dos baptismos de fogo das lutas académicas sem que fossem alvo da PIDE...
Etiquetas:
50º Aniversário,
Dialéctica,
Nostalgia
22 junho 2024
A ALEMANHA CONTRA A ALEMANHA
22 de Junho de 1974. O serão deste Sábado prometia um curioso jogo de futebol na televisão em que, para o campeonato do Mundo então em curso, se enfrentavam as duas selecções alemãs: a selecção anfitriã da Alemanha Ocidental contra a sua vizinha da Alemanha Oriental. Este jogo era o primeiro entre as duas selecções e o facto concitava uma curiosidade suplementar (e, não se sabendo então, seria o único jogo entre as duas selecções). Venceu a Alemanha Oriental por 1-0. Mas seria contudo a Alemanha Ocidental, apesar de derrotada neste jogo, que se viria a sagrar campeã mundial no torneio. Uma nota adicional: nesta época, que se seguiu imediatamente ao 25 de Abril, ainda a designação das Alemanhas aparecia desprovida de qualquer subtil conteúdo ideológico. Havia apenas a geografia: era a Alemanha Ocidental e a Oriental. Só depois é que se procurou trabalhar as designações das Alemanhas, com uma Federal (Ocidental), que até era federal, e a outra Democrática, que, apesar da designação e da militância do lóbi comunista em promovê-la por cá, nunca teve nada de democrático.
Etiquetas:
50º Aniversário,
Alemanha,
Desporto,
Nostalgia,
Televisão
19 junho 2024
AS PRIORIDADES DA POLÍTICA EXTERNA PORTUGUESA EM 1974 E A ATENÇÃO QUE OS ESTADOS UNIDOS LHES DISPENSAVAM
19 de Junho de 1974. No regresso de um périplo que o presidente norte-americano Richard Nixon dera por países do Médio Oriente, ocorre um encontro nos Açores entre ele e o novo presidente português, António de Spínola. A reunião durou uma hora e a atenção dispensada pelas duas partes ao encontro pode ser constatada pela importância noticiosa que lhe foi conferida dos dois lados do Atlântico (acima e abaixo). A fragilidade da Casa Branca por causa do Caso Watergate costuma ser uma explicação para o desinteresse inicial dos Estados Unidos pelas consequências previsíveis da descolonização, mas essa não parece ser a única explicação: os problemas de Nixon são independentes das decisões editoriais do New York Times, que parecem sintoma de um desconhecimento desinteressado dos problemas de Lisboa. Em contraste, as atenções dispensadas (e as expectativa postas) por Lisboa podem ainda hoje ser recordadas pela reportagem que a RTP realizou sobre a partida de António de Spínola.
Etiquetas:
50º Aniversário,
Estados Unidos,
Estratégia,
Informação
30 maio 2024
A FOTOGRAFIA DO POLÍTICO QUE NÃO TINHA JEITO PARA APANHAR BOLAS
(Republicação reeditada)
Comecemos por apresentar aos leitores deste blogue Robert Stanfield (1914-2003), que foi um político canadiano, porém desconhecido fora do Canadá. E, mesmo aí, será de perguntar quantos passageiros do Aeroporto Internacional de Halifax (que foi baptizado com o seu nome) saberão quem ele terá sido. Durante nove anos, de 1967-1976, Robert Stanfield foi o líder do Partido Conservador Progressista e, por inerência, o dirigente da oposição canadiana. Foram uns anos difíceis para se ser oposição, com a arena política dominada pela exuberância e popularidade do Primeiro-Ministro liberal Pierre Elliot Trudeau (1919-2000) – a Trudeaumania, já aqui por mim abordada num outro poste. E Robert Stanfield disputou (e perdeu) três eleições consecutivas com Pierre Trudeau: em 1968, 1972 e 1974.
Foi durante a campanha para aquelas últimas eleições que foram disputadas em Julho de 1974, que os assistentes de Stanfield se lembraram de trabalhar de algum modo a sua imagem rígida, sobretudo quando em comparação com a referência do primeiro-ministro Trudeau. A ideia, concretizada a 30 de Maio de 1974, completam-se hoje 50 anos, foi convidar um fotógrafo (Doug Ball) para lhe tirar umas fotografias espontâneas de jovialidade, com o candidato atirando, ou recebendo (acima) ou… falhando a recepção de uma bola de futebol americano. Claro que, das 36 fotografias do lote, foi esta última, a que se vê abaixo, a aparecer na primeira página dos jornais liberais do dia seguinte… e a tornar-se um péssimo prenúncio para as eleições que aí viriam.
Até hoje, o episódio é considerado um dos primeiros e principais exemplos dos efeitos da política de imagem na história política do Canadá. Contudo, a honestidade intelectual (e o exemplo de uma outra fotografia da mesma ocasião que acima inserimos) manda-nos reconhecer que a ideia de fotografar o candidato naqueles preparos e para efeitos promocionais era péssima e o milagre é que os assessores políticos e de imprensa de Robert Stanfield conseguem sair do episódio escondidos pela narrativa da vitimização do candidato por uma imprensa rival implacável, quando, no fundo, eles é que foram uns incompetentes de alto calibre. Quem é que se lembraria agora e por exemplo, de ir tirar fotografias a Pedro Nuno Santos para a Academia das Ciência de Lisboa?...
Etiquetas:
50º Aniversário,
Canadá,
Fotografia,
Política
29 maio 2024
A LUTA DOS TRABALHADORES DA REVISTA "GENTE"
(Republicação)
29 de Maio de 1974. Os trabalhadores da revista "Gente" estavam em luta. A notícia que a noticiava (à luta) na edição de há 43 anos do Diário de Lisboa perdia-se, de resto, no meio de várias outras lutas semelhantes que haviam surgido com a percepção da alteração súbita do poder nas relações laborais, provocada pelo 25 de Abril (que ocorrera há pouco mais de um mês). E esse combate até se aplicava a uma revista de futilidades (burguesas) como era o caso da revista "Gente". Assim, os seus trabalhadores haviam ocupado a redacção da publicação e forçado uma reunião com Artur Anselmo, que era o administrador-delegado da empresa detentora do título. Dá-se a curiosidade do administrador ser uma daquelas jovens (34 anos) estrelas em ascensão da estrutura social que o 25 de Abril de 74 acabara de abalar até às fundações (abaixo vêmo-lo com Carlos Cruz numa aparição televisiva anterior a essa data). A descrição do processo negocial mostra que, como muitos outros na sua posição por aqueles dias, Artur Anselmo fora completamente ultrapassado pelos acontecimentos. A sua ameaça de que «os accionistas individuais se viessem a desinteressar da empresa» (i.e., que a fechassem), foi pura e simplesmente rejeitada «por maioria» numa votação dos trabalhadores (que, quase apostaria, terá sido de braço no ar...). Juntando o insulto à injúria, ficou prometido que Artur Anselmo ainda teria que se vir a haver com uma nova comissão recém nomeada, «destinada ao apuramento (...) das reivindicações do pessoal das outras secções da publicação», pessoal considerado ainda «mais desfavorecido». Até os próprios que a viveram já se terão esquecido do que então passaram, mas não era fácil ser-se patrão por aqueles dias. E visto pelos olhos da actualidade o que se descreveu parece "ficção científica".
Etiquetas:
50º Aniversário,
as mansardas que Abril abriu
ARTHUR C. CLARCK EM 1974
«Ele terá em sua própria casa uma consola através do qual poderá conversar com o seu computador local e obter dele todas as informações de que necessita para o seu quotidiano; desde os seus extratos bancários à suas reservas para o teatro... Todas as informações de que se precisa para viver numa sociedade moderna complexa. A consola compacta estará em sua própria casa,. vai ter uma tela de televisão e um teclado para se ligar com o computador e extrair informações dele. Ele vai considerar isso tão banal quanto nós hoje usamos o telefone.» Isto é uma descrição do futuro feita a 29 de Maio de 1974 por Arthur C. Clarke numa entrevista televisiva. É um daqueles casos em que se constata que a antevisão valeu o teste do tempo.
Etiquetas:
50º Aniversário,
Ficção Científica
28 maio 2024
O FIM FORÇADO DA INGENUIDADE POLÍTICA DOS GOVERNANTES PORTUGUESES
28 de Maio de 1974. Se Mário Soares, recém-apontado ministro dos Negócios Estrangeiros do governo provisório que se formara depois do 25 de Abril, estava a contar com um desfecho rápido das negociações que se haviam encetado em Londres entre o novo poder português e o PAIGC, então o melhor era tirar o cavalinho da chuva, porque a parte contrária não se apresentava nada disponível para embarcar na narrativa simples e ingénua que os antigos oposicionistas (como Soares) haviam criado para a resolução do problema colonial português. Os sorrisos de Mário Soares e de Almeida Santos que acompanham a notícia acima são mesmo só para a fotografia. Muito pelo contrário, os do outro lado sentiam a falta de força anímica da parte portuguesa e subiam a parada negocial a pontos que tornavam a predisposição portuguesa de aceitar imensas coisas, na situação em que se tornava humilhantemente impossível aceitar para uma potência colonial. As negociações, concebidas para uns dias, arrastavam-se perante um silêncio constrangedor. Chegado para a fotografia da assinatura de qualquer coisa, Soares foi-se embora com as mãos a abanar dias depois e o assunto ficou entregue aos profissionais. Vinte dias depois (a notícia de baixo é de 17 de Junho) ainda não se havia chegado a lado nenhum e o tempo parecia correr a favor da organização nacionalista.
Mas vale a pena rematar esta evocação esclarecendo que, se a ingenuidade era a de Mário Soares e do restante elenco governativo português, o oportunismo e a falta de empatia para connosco de quem esteve a negociar do lado da Guiné não são para esquecer nem para perdoar. Se a Guiné-Bissau actual é o país de merda que é, eles merecem-no, sem qualquer rancor mas também sem qualquer simpatia. Tiveram cinquenta anos de independência para construir o que têm hoje.
19 maio 2024
VERSÕES FELIZES E INFELIZES
(Republicação de um original de Maio de 2009, a pretexto de que se completam agora 50 anos que a versão de Terry Jacks alcançou os tops)
As gerações sucedem-se mas são raras as vezes em que quem as vive se chega a aperceber como alguns dos seus sucessos musicais não passaram afinal de recuperações de canções de sucesso da geração precedente.
Podemos apreciar isso com o exemplo de uma canção datada de 1961, da autoria de Jacques Brel, que se intitulava Le moribond onde, como o nome indica, a letra – obviamente em francês – fala das despedidas de um homem que se prepara para morrer…
Passados 13 anos, em 1974, Terry Jacks refez a orquestração, alterou o rimo da canção e, sobretudo, ao adaptar a letra para inglês, tornou-a muito mais lírica, reescrevendo as estrofes cínicas originais de Brel. Chamou-lhe Seasons in the Sun e tornou-se um novo sucesso.
19 anos depois, em 1993, os Nirvana recuperaram novamente a canção nesta versão em inglês. Já então uma banda de culto e cheia de atitude, os Nirvana alteraram a letra para a tornar ainda mais depressiva. Novo sucesso e, como se escuta acima, nem foi preciso que Kurt Cobain cantasse afinado!...
18 maio 2024
OPERAÇÃO BUDA SORRIDENTE (POKHRAN-I)
(Republicação)
18 de Maio de 1974. A União Indiana faz detonar o seu primeiro engenho nuclear. Apesar das minhas leituras, em lado algum encontrei uma explicação satisfatória para o nome escolhido pelos indianos para designar o seu primeiro ensaio nuclear. É verdade - e nem todos se aperceberão disso - que o budismo é uma religião de origem indiana. É também verdade que existe uma estética distinta entre as representações do buda de um e outro lado dos Himalaias (percebe-se que a da imagem acima, pelo colorido e pela compleição ascética, é nitidamente indiana). Mas resta-nos a especulação para perceber que objectivo teriam os indianos quando escolheram aquele nome de código para uma operação cujo desfecho iria tornar o nome certamente público. A invocação de Buda, ainda por cima sorrindo, seria para ser um aceno irónico àqueles que eles considerariam os seus rivais próximos, os chineses? Os acontecimentos posteriores iriam demonstrar que quem não se sorriu nada ao saber do ensaio foram os vizinhos do Paquistão. Uma segunda questão, também superficial, é o problema do que se pode exibir em imagens para ilustrar um ensaio nuclear subterrâneo: não há muito material, a maioria do que há está classificado, e o remanescente - como se vê pelo exemplo acima - carece da espectacularidade dos enormes cogumelos dos primeiros ensaios à superfície (será por isso que os actuais ensaios nucleares norte coreanos costumam ser ilustrados pela figura de um outro buda sorridente...). Uma terceira questão, já mais séria, é a que se relaciona com os aspectos técnicos do ensaio. Embora camuflado pelas notícias da época, este primeiro ensaio nuclear indiano foi um semi fiasco: o engenho, enterrado a 107 metros de profundidade e que se inspirava no desenho das bombas de plutónio-239 de Alamogordo e Nagasáqui, terá registado uma potência destrutiva equivalente a apenas 40% da que fora registada pelos ensaios norte-americanos, quase 30 anos antes (ou seja, 8 ktons., em vez das 20 ktons. esperadas). Em contrapartida, assinale-se que, mercê dos progressos feitos ao nível dos materiais, o engenho indiano (1,4 tons.) pesava 30% do ancestral norte-americano onde se fora inspirar (4,5 tons.). Mas (quarta questão), para o impacto político e estratégico do feito, as minudências técnicas pouco importariam. Há precisamente 44 anos, a Índia entrava para um clube muito restrito, agora com seis membros, das potências com capacidade nuclear. A constatação não deixava de ser chocante para o resto do mundo, num país que, naquela altura, projectava ainda a imagem internacional da miséria extrema, de que ocasionalmente se mostrava incapaz de alimentar a sua própria população e se socorria, por causa disso, do auxílio externo. Seis anos antes, a Índia (com o Paquistão e Israel) recusara-se a assinar o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), em mais uma das fases deste jogo perpétuo (e hipócrita), em que todos se dispõem a assinar tratados mantendo o "status quo" da posse de armamento nuclear à escala mundial... com excepção dos países que estão em vias de mudar de estatuto (agora trata-se do Irão e da Coreia do Norte). Parecia um contrassenso. Mas não era: para as realidades frias da geoestratégia, a Índia tornara-se muito mais importante com uma arma nuclear numa mão do que com uma gamela estendida na outra. Actualmente, depois de uma muito bem sucedida (mas pouco publicitada) Revolução Verde, o problema da alimentação básica das populações indianas, mesmo que ainda em crescimento, já deixou de se colocar. Contudo, a atitude indiana em relação à posse do armamento nuclear nunca deixou de se distinguir pelo seu exotismo. Este livro abaixo, publicado em 2001, contém 765 páginas(!) onde o autor tenta convencer o leitor que a atitude indiana no que concerne ao recurso a este género de armamento é mais pacífica do que a dos seus rivais próximos... Acredite quem quiser.
Etiquetas:
50º Aniversário,
Armamento,
Estratégia,
Índia,
Livros
16 maio 2024
OS TEMPOS DO JOGO DA VERMELHINHA (E DA FOICE E DO MARTELO) E DA IGNORÂNCIA INGÉNUA DOS PORTUGUESES
16 de Maio de 1974. A página da crítica televisiva do Diário de Lisboa dá destaque a uma «mesa redonda» que, supõe-se que pela sua importância, fora transmitida no dia anterior por duas vezes - «às duas horas da tarde e repetida à noite» - «mesa redonda» essa em que haviam participado «o tenente-coronel Ricardo Durão, Octávio Pato, membro do Comité Central do Partido Comunista Português e Carlos Carvalho do sindicato dos metalúrgicos, candidato às "eleições" pela C.D.E.» (as de 1973). A tónica do encontro, conta-nos Mário Castrim, «recaiu na necessidade de estreitar, com a máxima firmeza, os laços entre as massas populares e o Movimento das Forças Armadas, ali representado pelo tenente-coronel Ricardo Durão». E quem é que ali representaria «as massas populares»? Por um lado, Octávio Pato, dirigente de topo do PCP (o mais antigo dos partidos políticos existentes em Portugal a 25 de Abril de 1974). Por outro lado, interviera o aparente "sindicalista" Carlos Carvalho, cujo nome fora mal grafado, e que se chamava, na realidade... Carlos Carvalhas! Carlos Carvalhas (como hoje sabemos) veio a ser o secretário-geral do mesmo PCP em 1992... A esta distância temporal e sabendo o que sabemos hoje, percebemos que a «mesa redonda» da RTP estava afinal "arredondada" de uma maneira bastante "distorcida", com dois militantes comunistas, um assumido e outro encapotado a contracenar com um militar - por sinal, conotado com a ala spinolista do MFA. Mas ainda não era tudo. Quanto ao objectivo da mensagem política que o PCP quereria passar, essa seria «a de estreitar os laços entre as massas populares e o Movimento das Forças Armadas» e aí também Mário Castrim se destacava nessa missão de propaganda, já que, também ele, era militante comunista, na altura não sei se já assumido ou ainda encapotado... Os portugueses eram todos muito ingénuos naqueles tempos e tudo aquilo parecia o jogo da vermelhinha: sempre que se virava uma carta, saía sempre uma carta vermelha e do partido do costume... De resto, neste caso concreto e por força das circunstâncias, reconheça-se que a ficção da "independência" de Carlos Carvalhas não durou muito: a 7 de Junho de 1974 ele tomou posse como secretário de Estado do Trabalho do I Governo Provisório em representação do PCP e lá se foi a encenação que dali viriam comentários alternativos aos de Octávio Pato...
Agora os tempos são completamente e felizmente outros, sem tantas ingenuidades. Quando, no Domingo passado, João Cotrim de Figueiredo da Iniciativa Liberal apareceu com João Oliveira do PCP no programa de Ricardo Araújo Pereira, o comentário inicial de Cotrim de Figueiredo continha uma referência indisfarçável às simpatias políticas do anfitrião:
- "...se tudo tinha corrido bem da outra vez (que ele fora àquele programa), eu não percebo porque é que foi preciso ir buscar outro comunista para equilibrar isto. Mas eu posso bem com os dois."
Embora o comentário não tenha sido mencionado sequer no dia seguinte, o sorriso bem amarelo que ele provocou no momento ao moderador Ricardo Araújo Pereira, mostrou quanto a canelada fora inesperada, senão mesmo assestada num sítio onde doía... Hoje, cinquenta anos depois, deixou de haver ignorâncias ingénuas para onde pendem as simpatias políticas de quem nos aparece nos ecrãs. Muito menos se torna possível, que uma crónica deste «Isto é Gozar com quem trabalha», que aparecesse publicada num jornal do dia seguinte, viesse assinada, com toda uma pretensa neutralidade, pelo jornalista/opinador Pedro Tadeu...
Etiquetas:
50º Aniversário,
Dialéctica,
Televisão
10 maio 2024
« - O SENHOR NÃO TEM O MONOPÓLIO DA SENSIBILIDADE, SENHOR MITTERRAND...»
10 de Maio de 1974. Pela primeira vez na história, os franceses assistem a um debate televisionado com os dois candidatos à presidência da República. Os candidatos são François Mitterrand, o candidato da esquerda (e que aparece ironicamente do lado direito das imagens...), e Valéry Giscard d'Estaing, que se tornara o candidato de toda a direita depois de superar, na primeira volta, o candidato gaullista Jacques Chaban-Delmas (há uns dias tive aqui uma dissertação a respeito das respectivas esposas destes três candidatos). O debate durou um pouco mais de uma hora e meia e terá tido uma audiência estimada de 25 milhões de telespectadores. E ficou recordado por uma punch-line de Giscard d'Estaing em resposta às acusações de insensibilidade social por parte do seu rival (refira-se que essa era uma imagem que se lhe podia colar facilmente por Giscard ser ministro das Finanças): «Vous n'avez pas le monopole du cœur» - cuja tradução literal será você não tem o monopólio do coração, mas que eu preferi a tradução mais amena que coloquei em título. Mesmo que o fizessem mais instintivamente do que por causa de dados objectivos, os comentadores reconheceram que aquela frase tivera um impacto positivo entre a assistência. Até mesmo o Diário de Lisboa do dia seguinte (em vias de se radicalizar cada vez mais) se abstinha de conceder vantagem ao seu candidato favorito. Se a frase tiver tido impacto, esse impacto terá influenciado o resultado final das eleições (realizadas a 19 de Maio) pois Giscard ganhou apenas com uma vantagem de 425 mil votos (1,6%).
Etiquetas:
50º Aniversário,
França,
Política,
Televisão
03 maio 2024
O REGRESSO DOS EXILADOS DE ARGEL, INCLUINDO MANUEL ALEGRE (O DE BARBAS)
3 de Maio de 1974. O dia anterior, «por volta das 18 horas», fora o do regresso dos exilados de Argel, a sede da «Rádio Voz da Liberdade». Embora aqueles que a ouviam conhecessem a sua voz (não seriam tantos quanto isso...), a figura de Manuel Alegre era perfeitamente desconhecida dos portugueses e a legenda da fotografia da ocasião tem o cuidado de precisar que Manuel Alegre era o que aparecia «de barbas», para o distinguir do apagado bigode de Piteira Santos. Guardado para o futuro de Manuel Alegre estava uma promissora carreira no domínio do humor político, a sua voz declamatória e as suas barbas tornaram-se na imagem de marca do seu boneco, Manuel Triste, que a esse, ninguém o calava!...
OS «CRIMES» DO «INSPECTOR» VARATOJO
(Republicação a pretexto do cinquentenário da primeira publicação do anúncio do inspector Varatojo, desmentindo que a inspecção dele tivesse alguma coisa a ver com a PIDE)
Figura mediática (sobretudo televisiva) de antes do 25 de Abril, a imagem de Artur Varatojo (1926-2006) estava indissociavelmente ligada à criminologia e à literatura policial. Foi por isso com alguma surpresa que, nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril, os leitores dos jornais o viram a ele (entre muitos outros), a desmentir em anúncios pagos (abaixo) que alguma vez tivesse pertencido ou estado ligado à PIDE. Houve quem atribuísse essas preocupações ao epíteto forjado de inspector que adoptara por causa da sua imagem.
Porém, uma possível explicação alternativa, mais séria e mais elaborada, para o que parecia a defesa contra uma sanha persecutória contra o Varatojo podemos encontrá-la na capa de uma revista que foi publicada dois meses e meio depois do 25 de Abril e onde se empilham casualmente fichas de funcionários da PIDE e ali encontramos uma de um homónimo (assinalada a branco) do nosso amável investigador policial. Eram tempos de Liberdade, mas onde era impróprio usurpar títulos de inspector e possuir-se um apelido inconveniente…
Este é um texto que, conjuntamente com o do Caçador de Pides mais abaixo e glosando mais uma vez José Carlos Ary dos Santos, poderá constituir uma série a que, pela imaginação e por isso orientadas para o céu, se pode dar o título de, em vez de portas, as mansardas que Abril abriu…
Etiquetas:
50º Aniversário,
as mansardas que Abril abriu,
Nostalgia,
Poesia,
Sociedade
01 maio 2024
...SOLDADOS E MARINHEIROS...
(Republicação)
Mário Soares nunca ficou a dever nada ao rigor. Ouvi-lo anos mais tarde a descrever os primeiros dias após o 25 de Abril, nomeadamente a rigidez como os comunistas se apegavam à simbologia do leninismo era um desafio aos factos e às fotos, mas não à essência das suas críticas a um comportamento que procurava mimetizar acontecimentos 57 anos depois dos originais (a revolução russa). Os 57 anos decorridos tornavam a reencenação ridícula. Para Soares, os momentos lenínicos de Cunhal compactavam-se na sua chegada apoteótica ao aeroporto de Lisboa, onde o faziam subir para um carro blindado abraçar-se a um soldado e a um marinheiro para discursar às massas. Com rigor (que nunca incomodou Soares...), importa esclarecer que se tratou de dois momentos distintos, embora em dias encadeados. Álvaro Cunhal chegou a Portugal a 30 de Abril de 1974 e discursou em cima do blindado logo à saída do aeroporto (ao jeito de Lenine), mas o abraço conjunto ao soldado e ao marinheiro para as câmaras só veio a ter lugar no dia seguinte, 1º de Maio de 1974 - completam-se hoje 50 anos (acima). Mas o que os esforços do PCP da época têm de cómico não é apenas o meia bola e força da tal evocação sintética de Soares. É também o zelo formal dos discípulos de Cunhal no método científico que eles usam para refutar Soares, concentrando-se no detalhe e na forma (Cunhal não abraçou o soldado e o marinheiro em cima do blindado), que não no conjunto e na substância (a constatação que havia uma preocupação dos comunistas em fazer Cunhal assumir atitudes públicas associáveis a gestos de Lenine). Porque na substância, a ironia de Mário Soares em realçar o quanto Cunhal aparecia empenhado a ressuscitar uma coreografia que já estava então muito mais do que ultrapassada, essa ironia é mais do que justificada: repare-se como na foto acima já não existirá espaço para se incluir na foto um outro militar, da Força Aérea, ramo das Forças Armadas que já existia no Portugal de 1974, mas ainda não na Rússia de 1917, onde então só havia apenas soldados e marinheiros... Lá nos manuais de propaganda dos comunistas não se sabia ainda o que fazer com as fardas azuis dos aviadores...
Etiquetas:
50º Aniversário,
Dialéctica,
Nostalgia
30 abril 2024
SOBRE A CHEGADA DO 25 DE ABRIL AO CINEMA E A SUA (R)EVOLUÇÃO - DAS «PORTAS QUE ABRIL ABRIU» ATÉ ÀS «CUECAS QUE ABRIL DESPIU»...
(Republicação a pretexto do dia do cinquentenário da estreia em Portugal de «O Último Tango em Paris»)
Em termos cinematográficos o 25 de Abril ficou também para sempre associado a O Último Tango em Paris. Estreado a 30 de Abril de 1974 no Monumental (acima), uma das primeiras constatações concretas pelos portugueses do que era o usufruto da Liberdade: assistir a um desses filmes bem condimentados (mas intelectuais) sem quaisquer cortes da censura, como acontec(er)ia por essa Europa fora… Não era bem verdade, mas isso então não interessava nada¹. Tratava-se de toda uma nova relação do espectador português com a arte…
Nesses tempos heróicos, em paralelo com referências como O Couraçado Potenkin ou então O Destacamento da Guarda Vermelha, a educação do típico espectador português em transição para o socialismo também se fazia no segmento do Último Tango: filmes europeus com muita conversa intelectual mas acompanhada de coboiada. O apogeu desses filmes terá sido o estreado a 2 de Janeiro de 1975 no Império (acima) com um título intraduzível (La maman et la putain²) e um apelo descarado ao voyeurismo, veja-se o cartaz abaixo.
Infelizmente, e apesar da ousadia do título, o filme revelava-se uma pastilha comprida e chata com 3 horas e 37 minutos de duração, conversa demais e muito pouca acção para o que era sugerido como se antecipa abaixo. Apesar do impacto da altura, actualmente o filme estará praticamente esquecido e os gostos dos espectadores portugueses começaram a clarificar-se, separando-se aqueles que preferiam os enredos dirigidos então por Ingmar Bergman dos que preferiam os enredos protagonizados por Linda Lovelace…
Etiquetas:
50º Aniversário,
as mansardas que Abril abriu,
Filmes,
Nostalgia
29 abril 2024
AS PRESIDENCIAIS FRANCESAS DE 1974 E AS ESPECIFICIDADES DAS ESPOSAS DE CADA CANDIDATO
(Republicação)
Última semana de Abril de 1974. Enquanto por cá se vivia o ambiente decorrente do 25 de Abril, em França preparava-se a primeira volta das eleições presidenciais desencadeadas pelo falecimento no cargo de Georges Pompidou (a 2 de Abril). Pela primeira vez, emulando o modelo norte-americano e esquecendo a tradição francesa que, por exemplo, fizera de Yvonne de Gaulle uma presença sempre discreta ao lado do marido, os mecanismo da campanha concentravam-se nas esposas dos candidatos.
No caso da esposa do candidato da direita republicana Valery Giscard d'Estaing, aquilo que havia a contrariar era o perfil aristocrático do candidato, ainda aumentado pelas origens familiares da esposa, nascida Anne-Aymone Sauvage de Brantes. A aristocracia de França sempre fora tradicionalmente inimiga da República e havia que atenuar essa imagem. Daí a ideia de uma fotografia mostrando-a diante de uma colecção de instrumentos de cozinha, qual Filipa Vacondeus precoce, cozinhando para o povo.
No caso da esposa do candidato das esquerdas, François Mitterrand, aí não havia, naturalmente, qualquer perigo de conotação com a aristocracia. O problema do casal Mitterrand, Danielle (nascida Danielle Gouze) e François, era que, como era já conhecido nos círculos informados, eles haviam deixado de ser um casal, vivendo vidas separadas. Para as eleições próximas, e paradoxalmente para o candidato da esquerda, quase como se se tratasse de monarcas, houve que encenar fotograficamente uma vida comum ficcional.
E havia finalmente a esposa do candidato gaullista, Jacques Chaban-Delmas. Aí o problema não era a esposa, Micheline Chavelet Chaban-Delmas, uma divorciada com 4 filhos, cuja beleza era comparada pelos seus apoiantes à actriz Ali McGraw de Love Story, antes a abrasiva reputação sentimental do próprio candidato, que se divorciara da primeira mulher para casar com a secretária, enviuvando desta segunda esposa por causa de um controverso acidente de viação (1970) quando já vivia maritalmente com Micheline. Acessoriamente, era primeiro-ministro...
Etiquetas:
50º Aniversário,
Fotografia,
França,
Nostalgia,
Política,
Sociedade
TEMPOS DE GRANDE ENTUSIASMO... MAS DE GRANDE INGENUIDADE TAMBÉM!
Os dias que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 foram tempos de grande entusiasmo, mas acompanhados de uma grande ingenuidade por parte de uma sociedade completamente impreparada para uma nova coreografia e uma nova dinâmica social. Os tempos pediam novos ícones e eles surgiam, emprestados, sem que nos apercebêssemos do empréstimo e considerando-os - até hoje - coisa nossa. A nova palavra de ordem - e as palavras de ordem eram, em si, coisas novas! - a nova palavra de ordem «O Povo Unido Jamais Será Vencido» fora o refrão de uma canção revolucionária chilena do Verão de 1973 (acima). Quanto àquela que ficara consagrada como «A Marcha do MFA», essa era um pouco mais antiga, datava de 1927 quando fora adoptada como o hino dos Fuzileiros britânicos (Royal Marines, abaixo). Mas parecia-nos que tudo havia começado connosco!
Etiquetas:
50º Aniversário,
Música,
Nostalgia
Subscrever:
Mensagens (Atom)
























