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28 janeiro 2014

A EXPANSÃO AUSTRONÉSIA

Este mapa-mundo, que abrange cerca de ¾ da superfície do nosso planeta, mostra-nos a extensão daquela que é uma das mais desconhecidas expansões da Humanidade: a dos povos austronésios. Tratou-se, como aconteceu com os povos indo-europeus que vieram a povoar a Europa, o Próximo Oriente e o Subcontinente Indiano, de processos desencadeados pelo crescimento demográfico das populações, mas um crescimento muito lento, que se processou paulatinamente e se arrastou por milénios. Fazendo parte da pré-História, tudo o que neste momento se pensa saber sobre esses processos resulta dos trabalhos da arqueologia, das investigações da linguística e, mais recentemente, das da genética.
Uma das maiores surpresas da expansão austronésia é a localização do seu berço. Embora haja outras teorias – há-as sempre nestas circunstâncias – a predominante coloca a origem dos povos austronésios nas costas orientais da Formosa. Não há como iludir a ironia: a ilha é hoje maioritariamente povoada por chineses (98%) e constitui, como República da China e como expressão da recusa da aceitação da supremacia comunista no continente (a República Popular da China), uma das últimas expressões da Guerra-Fria. Mas é a sua praticamente ignorada população aborígene (2%) que é a depositária de uma saga que, iniciada há cerca de 5.000 anos, hoje abrange cerca de 400 milhões de pessoas.
Em contraste com a dos indo-europeus do mapa acima, a expansão dos povos austronésios foi predominantemente marítima e veio a prolongar-se até períodos que já eram históricos noutras partes do Mundo: a sua chegada a Madagáscar já será contemporânea com o Império Romano e a chegada à Nova Zelândia coincidirá com a nossa época das Cruzadas. A expansão fez-se inicialmente para os arquipélagos das Filipinas e da Indonésia que já se encontraram povoadas por imigrantes anteriores, povos de tez mais escura, que seriam aparentados com os actuais aborígenes da Austrália e os papuas da Nova Guiné. Só depois a expansão prosseguiu com a colonização de ilhas até então despovoadas.
Só os especialistas é que conseguem dar uma aparência de lógica de parentesco (veja-se o quadro acima, clicar para o ampliar) a um conjunto de quase um milhar de línguas actualmente faladas, exercício esse que comprovará uma raiz comum a elas todas. Ali aparecem idiomas falados na Indonésia, na Malásia, nas Filipinas, o tétum, que é o idioma coloquial de Timor-Leste, e ainda o maori neozelandês, idiomas falados em Madagáscar e outros falados quase do outro lado do Mundo, nos vários arquipélagos do Pacífico, tão longe quanto o estado norte-americano do Hawaii. O único lapso desta gesta é que não existe nenhuma potência – a Indonésia prefere o Islão... – que pretenda explorar os efeitos propagandísticos deste feito (pré)-histórico.
Já em jeito de aditamento e aproveitando para republicar o mapa inicial, valerá a pena chamar a atenção para algumas peculiaridades dos contornos geográficos da expansão. Uma delas é o facto dos austronésios nunca se terem conseguido implantar na Nova Guiné, um fracasso que Jared Diamond terá explicado satisfatoriamente num capítulo (17) de um livro que recomendo a leitura a interessados: Armas, Germes e Aço. Outra peculiaridade, essa por explicar satisfatoriamente, são as condições em que os austronésios terão conseguido colonizar Madagáscar vindos de Bornéu, percorrendo uma distância marítima superior de 7.000 km sem, como se pode acima verificar, quaisquer possibilidades de escalas para reabastecimentos.

09 junho 2013

INFORMAÇÃO PERFEITAMENTE INÚTIL(1): A MADAME E O LÉMURE

O Lémure Rato de Madame Berthe (Microcebus berthae) é o menor de todos os lémures conhecidos e também o menor de todos os primatas. Os exemplares adultos não chegam a atingir os 10 centímetros e pesam cerca de 30 gramas. Vivem em Madagáscar. Mas o mais interessante para os leigos poderá ser descobrir quem foi a Madame Berthe que lhe deu o nome, a primeira secretária-geral do Grupo de Estudos e de Pesquisa de Primatas, desde a fundação da organização até à sua morte em 2005. De seu nome completo Berthe Rakotosamimanana e com a aparência que acima se pode apreciar, é razoável deduzir que o pequeníssimo lémure que os seus discípulos baptizaram em sua homenagem não faça justiça nem ao seu (extensíssimo) nome, nem ao que deveria ser a presença da Madame

17 abril 2008

«SIDESHOWS» DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (5) – A INVASÃO DE MADAGASCAR EM MAIO DE 1942

Madagáscar é uma gigantesca ilha de 587.000 km² na costa oriental africana, mesmo diante de Moçambique. Com uma população etnica e culturalmente bastante distinta das do continente africano, tornara-se uma colónia francesa apenas nos finais do Século XIX, fora cobiçada pela Polónia renascida de 1919, que pretendia também ter direito a ter uma colónia africana sua e as autoridades nazis pensaram nela como o destino de deportação dos judeus europeus. Em 1942 quando, depois do ataque a Pearl Harbour, a Guerra se tornara verdadeiramente Mundial, era uma colónia francesa obediente a Vichy.
Mas os japoneses tinham planos para Madagáscar. E os Aliados, porque haviam decifrado os códigos que os nipónicos usavam nas suas comunicações militares, tinham uma ideia muito aproximada de que planos eles tinham para Madagáscar: forçar as autoridades coloniais francesas a concederem-lhes facilidades (como já acontecera na Indochina francesa) para ali alojarem uma base clandestina para submarinos japoneses, donde viessem a atacar a navegação dos aliados no Oceano Índico (acima). Tratavam-se de rotas comerciais essenciais (ligando a Austrália à Índia e ao Egipto) para o Império Britânico.
Por se tratar de uma ameaça naval, na expedição britânica predominava a Royal Navy e era robustíssima quanto aos meios navais: envolvia 2 Porta-Aviões, 1 Couraçado, 2 Cruzadores, 12 Contratorpedeiros e outros navios de menor tonelagem. O alvo era o porto de Diego Suarez (abaixo), o melhor porto natural de Madagáscar e onde estava sediada uma parte importante do dispositivo militar francês, situado no extremo norte da ilha, para onde, veio a descobrir-se depois, os japoneses já se encaminhavam com a intenção de se começarem a instalar com a conivência das autoridades coloniais francesas.
Vale a pena mencionar que, como aconteceu com Lourenço Marques (agora Maputo), fundada em 1544 do outro lado do Estreito de Moçambique, a cidade e porto de Diego Suarez (que actualmente ganhou ou recuperou o nome nativo de Antsiranana) adquirira aquele nome a partir de um navegador português que ali passara em 1543 e que se chamava, original e obviamente, Diogo Soares… Com aquela irritante propensão francesa e inglesa para espanholar os nomes portugueses, criara-se a impressão (falsa) de que houvera uma contribuição espanhola para a toponímia local…
A operação anfíbia teve início a 5 de Maio, e dois dias depois as forças invasoras (que incluíam, além dos britânicos, sul-africanos, rodesianos e quenianos) estavam senhoras da situação, embora a maioria das forças defensoras tivessem retirado para o interior da ilha. No final desse mês de Maio, houve um esboço de batalha naval entre a frota invasora e os submarinos japoneses que entretanto haviam sido enviados para o Diego Suarez para a constituição do núcleo da base, mas os meios de que os japoneses dispunham eram insuficientes para desequilibrarem a balança a seu favor.
Embora grande parte do corpo expedicionário tivesse sido transferido de imediato para outros Teatros de Operações (para o Egipto, frente ao avanço alemão e para a Índia, frente ao avanço japonês), os britânicos prosseguiram com os meios que lhe restavam uma metódica sequência de operações anfíbias neutralizando os restantes portos malgaxes (como Tamatave, hoje Toamasina). Só em Setembro é que montaram uma coluna que penetrasse no interior para alcançar a capital malgaxe, Tananarive (Antananarivo), que era a sede do poder colonial. Em 5 de Novembro de 1942 a Campanha estava terminada.