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13 outubro 2018

A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA

13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
 
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
 
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.

30 março 2016

A BATALHA DE TALAS (751)

No Verão de 751 os exércitos muçulmano e chinês defrontaram-se directamente pela primeira e última vez no vale do rio Talas, perto da actual cidade cazaque de Taraz (embora já em território que hoje faz parte da Quirguízia). Os árabes venceram a batalha mas as fontes que relatam a batalha são predominantemente chinesas. As elites dirigentes pertenciam aos grupos mencionados (com a curiosidade adicional do general chinês ser de origem coreana) mas os contingentes envolvidos na batalha seriam predominantemente locais, povos iranianos e turcos, antes de se islamizarem. Como costuma acontecer, os participantes não se terão apercebido do significado simbólico do embate. As móveis formações árabes não prosseguiriam a sua expansão militar pela Rota da Seda até ao Sinkiang e pelo Deserto de Gobi. Por seu lado, as preocupações chinesas com a expansão para Ocidente sofreriam uma pausa que duraria todo um milénio. Nem mesmo a desforra militar que se impunha ao Imperador Xuanzong (da dinastia Tang) promover acabou por ter lugar, por causa da eclosão da revolta de An Lushan em 755. Do outro lado, também os Califas Omíadas haviam sido substituídos pelos Abássidas.
Esta Batalha do rio Talas travada em pleno coração da Ásia terá o mesmo significado simbólico que a Batalha de Poitiers, travada no Outono de 732 (19 anos antes) em pleno coração da Europa, quando os exércitos francos derrotaram os seus homólogos árabes que procediam à sua característica expansão militar no extremo ocidental do vasto território já subjugado à dominação muçulmana. Há quase 5.500 km a separar os dois locais mas, se as consequências da vitória de Carlos Martel são razoavelmente conhecidas no Ocidente, as da derrota de Gao Xianzhi são quase completamente ignoradas. Numa altura em que tanto se discute a relativização da importância atribuída às notícias conforme a localização geográfica do local onde ocorrem - se os mortos de Bruxelas são mais importantes do que as vítimas do terrorismo de outros locais mais distantes, por exemplo - forçoso é reconhecer quanto o fenómeno da distorção das importâncias relativas dos temas é antigo. Seria desejável e eu seria dos primeiros a corrigi-lo, mas tenho que reconhecer que a exigência de que que haja uma globalização equilibrada sobre a importância absoluta das notícias parece-me fenómeno que não esteja para ocorrer assim tão depressa...

26 novembro 2013

HIGIENE EM ALTITUDE

Aprecie-se este recatado WC instalado à beira de um trilho que se dirige para o Passo de Torugart a 3.752 metros de altitude, nas altas montanhas do sul da província de Naryn, que definem a fronteira da Quirguízia com o Xinjiang, na China. Atente-se à sua disposição, apreensivamente periclitante, com a cabine dependurada de um penhasco, e sobretudo atente-se à ausência de canalização visível, o que será sinal de que o conceito aplicado à sua construção é arcaico, através de uma integral reciclagem ao natural (mas muito mais abaixo...) dos dejectos produzidos pelos caminhantes que ali se acoitam e aliviam. Por fim, depreenda-se que na Quirguízia, que era provavelmente a mais remota e exótica das antigas repúblicas da União Soviética, a expressão cagar de alto (seja para o que for), não deve ter o mesmo conteúdo semântico que na língua portuguesa.

24 novembro 2011

O ÚNICO CENSO RUSSO DA ERA IMPERIAL


A música para ir acompanhando a leitura é do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881): Quadros duma Exposição (1874)

O primeiro e único censo demográfico realizado no Império Russo teve lugar em Janeiro de 1897. Aquele que se lhe seguiria, em 1915, não chegou a acontecer por causa da eclosão da Primeira Guerra Mundial, e aquele que efectivamente se veio a realizar só teve lugar dali por mais 29 anos, em 1926, quando o Império Russo já se chamava uma outra coisa… Ao atingir-se o final do Século XIX, contaram-se então 125,6 milhões de súbditos do Czar. Tratava-se, como seria de prever, considerada a escala, de uma população muito heterogénea (85 grupos linguísticos distintos) embora os critérios de classificação dos resultados estivessem politicamente orientados para não o evidenciar. Assim, o núcleo central da população era composto por russos, embora o conceito de russos – ou melhor, de falantes da língua russa, porque a classificação era feita pelo idioma, não pela nacionalidade de origem – era bastante elástico. Assim, ao lado dos russos tradicionais, reclassificados para propósitos de contagem como grandes russos, que eram 55,7 milhões e representavam 44,3% da população total, havia os pequenos russos, que hoje são conhecidos por ucranianos (22,4 milhões e 17,8% da população), e os russos brancos, hoje conhecidos por bielorrussos (5,9 milhões e 4,7%). A adição era plausível mas obviamente forçada: actualmente são três países distintos…
Apenas através deste artifício o Império Russo podia apresentar a imagem de um núcleo central maioritário eslavo de religião ortodoxa constituído por ⅔ da população. Com o resto da população eslava não se podia contar: havia 7,9 milhões de polacos (6,3%) de confissão católica romana concentrados num Reino da Polónia de que o Czar era o monarca e que fora criado em 1815 (ver mapa acima). Mas a história dessa Polónia dual ao longo do Século XIX era a de um sucesso económico (Varsóvia era a terceira cidade do Império depois de São Petersburgo e de Moscovo) mas de uma contínua instabilidade política onde as revoltas polacas (1830, 1863) eram seguidas por ferozes repressões russas. Um outro grupo importante na Polónia e também nas regiões ocidentais do Império era o dos judeus: havia 5,1 milhões de falantes de ídiche (4,0%), um idioma germânico que se escreve em alfabeto hebreu. A importância da comunidade era acrescida pela sua sobre-representação entre a população urbana. Por exemplo, numa cidade como Brest, hoje localizada na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, os judeus constituíam ⅔ da população de 45.000 habitantes. Seria, a par dos polacos, finlandeses ou alemães, uma das nacionalidades mais evoluídas mas também uma das que mostraria uma maior resistência àquilo que as autoridades imperiais qualificariam como assimilação
Contudo, havia outros grupos nacionais a Ocidente com histórias de sucesso na sua integração sem assimilação no quadro imperial: a Finlândia, que era um Grão-Ducado que gozava de uma ampla autonomia, era um desses casos (os finlandeses eram 2,5 milhões – 2,0%). E embora com muito menos autonomia, algo de semelhante acontecia na região do Báltico, onde as populações estónias (1,0 milhão), letãs (1,4 milhão) e lituanas (1,6 milhão), ou seja cerca de 3,2% da população total, eram controladas por uma elite de ascendência alemã (que constituíam 1,8 milhão em todo o Império – 1,4%), uma das mais fiéis a São Petersburgo, uma ironia dada a história futura da relação entre alemães e russos. Essas eram as fronteiras pacíficas do Império Russo. As outras eram regiões de expansão, turbulentas como as populações que nelas habitavam. Na que confinava com os Balcãs, onde as potências rivais haviam incentivado a criação da Roménia de língua latina (1878) para obstar à expansão dos russos para as regiões dos eslavos no Sul da Europa, existia, apesar disso, uma minoria (1,1 milhão – 0,9%) que falava o romeno. Outras fronteiras meridionais da Rússia eram povoadas por uma confederação de nacionalidades que o Censo classificou demasiado genericamente de Turco-Tártara, que se estendia do Mar Negro ao Pacífico, composta por 13, 4 milhões de pessoas (10,6%).
Uma apreciável parte deles eram descendentes de tribos nómadas que, sob a bandeira mongol, haviam conquistado a Rússia no Século XIII e muitos continuavam os hábitos nómadas de outrora (acima), embora houvesse outros que haviam assentado (abaixo). Porém, quase todos professavam o Islão, que era a religião de 13,9 milhões dos súbditos do czar (11,1%). A maior concentração de muçulmanos localizava-se na Ásia Central (7,7 milhões), onde a administração russa funcionava segundo um modelo colonial clássico. Os soviéticos reorganizaram depois a região nas cinco repúblicas que são as que hoje perduram: Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Tajiquistão e Quirguízia. Uma segunda região muçulmana, que começara a ser integrada no Império já a partir de meados do Século XVII, estendia-se desde a Península da Crimeia até ao curso inferior do Rio Volga. Ao contrário da Ásia Central, neste caso a imigração dos russos alterara o panorama demográfico, fazendo com que a população muçulmana fosse significativa mas não predominante. Exemplo: ainda hoje há quase tantos russos quanto tártaros no Tartaristão. Finalmente havia uma terceira região de predomínio muçulmano: o Cáucaso. A região é célebre pela complexidade do seu relevo que interfere na distribuição e classificação das suas etnias que desafia as descrições simplificadas que se tentem conceber...
Contornando isso, há que referir que, apesar do carácter tradicionalmente combativo dos povos do Cáucaso que muitos problemas militares causara, o Império Russo contava ali com dois aliados sólidos, tanto os georgianos (1,4 milhões – 1,1%) como os arménios (1,2 milhões – 1,0%) eram povos de confissão cristã numa região que lhes era francamente hostil: já houvera príncipes georgianos a comandar exércitos russos contra Napoleão e, quanto ao futuro, Stalin, quase todos o saberão, era georgiano. O Censo de 1897, mau grado a manipulação a que foi sujeito, foi um instrumento único na identificação das minorias relevantes dentro do Império Russo. Dá para perceber que, como regra geral, o tratamento dado por São Petersburgo a cada minoria variava em função, não apenas da cumplicidade recíproca entre minoria e poder central, mas também na razão inversa da sua sofisticação cultural: quando maior esta, também maior era a hostilidade imperial. Mas, com essa notável excepção dos polacos, cuja direcção política clandestina nunca se terá disposto a reivindicar nada menos que a independência total, há que reconhecer que em 1897 a questão das nacionalidades ainda não seria um problema sério para a subsistência do Império. A Revolução de 1905, que irá ter lugar dali por oito anos, abanando o regime, deverá ser analisada sobretudo – senão exclusivamente – pela sua componente social.

04 fevereiro 2009

JOGADAS DO GRANDE JOGO

No livro de espionagem O Cardeal do Kremlin (1988), o autor Tom Clancy faz com que parte da acção do livro decorra numa das repúblicas soviéticas da Ásia Central, o Tajiquistão, país que faz fronteira com o Afeganistão, e onde, de resto, naquela época os soviéticos estavam atascados numa guerra contra-subversiva que estavam prestes a perder. De forma imaginativa, Clancy faz com que um grupo de guerrilheiros afegãos entrasse em território soviético para tomarem a iniciativa de irem atacar umas instalações militares onde se realizavam pesquisas sobre um hipotético equivalente soviético da Iniciativa de Defesa Estratégica dos Estados Unidos da época de Reagan, que ficou mais conhecida pela alcunha de Guerra das Estrelas (abaixo).
Como qualquer bom livro de espionagem, a situação por ele criado era exótica, não só por decorrer em regiões que nos eram desconhecidas por pertencerem ao outro Bloco, como por envolverem uma invasão da União Soviética, país que, por causa do Muro de Berlim e da Cortina de Ferro, pesava no imaginário ocidental por estar associado a fronteiras muradas, guardadas e vigiadas... 20 anos depois da publicação de O Cardeal do Kremlin, a União Soviética desapareceu, as cinco repúblicas da Ásia Central (Cazaquistão, Quirguízia, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão) tornaram-se países independentes e quem está atascado numa guerra contra-subversiva no Afeganistão e em riscos de a perder são os Estados Unidos…
Os cinco países, que outrora haviam estado sob tutela soviética e que também já passaram por um período intermédio em que a maioria deles se colocou sob protecção norte-americana, atingiram agora uma fase, especialmente depois dos norte-americanos invadirem o Afeganistão, em que estão no meio de uma disputa aberta entre norte-americanos e russos quanto às respectivas áreas de influência. Os segundos têm conseguido ultimamente algumas vitórias, a última das quais ontem, quando o Presidente da Quirguízia, Kurmanbek Bakiyev, anunciou durante uma visita oficial que estava a realizar a Moscovo (…) que pretendia vir a retirar as facilidades que haviam sido concedidas aos Estados Unidos na utilização da base aérea de Manas.
Depois do governo do Uzbequistão ter solicitado aos Estados Unidos que eles cessassem de utilizar a sua base aérea de Karshi-Khanabad (ver mapa acima) em Novembro de 2005, a base aérea de Manas tornou-se essencial em termos logísticos (*), especialmente para o trânsito de pessoal entre os Estados Unidos e o Afeganistão. Há quem acredite que este anúncio não passe de uma jogada negocial do Presidente Bakiyev, insatisfeito com as contrapartidas que o seu país recebe dos Estados Unidos pela utilização da base. Mas mesmo admitindo que o seja, a verdade é que se trata de uma demonstração de que, ao contrário dos órgãos de informação, os actores políticos não estão nada impressionados com a chegada de Barack Obama ao poder…

(*) Como se pode observar pelo mapa, e existindo o espaço aéreo do Tajiquistão de permeio, a base aérea de Manas tem uma importância táctica muito limitada em relação às operações no próprio território afegão.