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04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

14 novembro 2023

SURTSEY – A MAIS JOVEM ILHA DO ATLÂNTICO

(Republicação)
Em 14 de Novembro de 1963, um navio pesqueiro que navegava a algumas milhas ao largo da Costa sudoeste da Islândia (mapa acima) deparou-se com uma enorme coluna de fumo que resultava da erupção de um vulcão submarino.
Com o cume do vulcão situado originalmente a uma profundidade de 130 metros, dada a potência da erupção, veio-se a assistir então, pela primeira vez depois do aparecimento da vulcanologia, ao nascimento de uma ilha em pleno Oceano.
Mais do que uma explicação geológica sumária do fenómeno, este poste pretende ser uma pequena compilação de fotografias sempre espectaculares da gigantesca luta ali travada entre os elementos primitivos da água e do fogo.
A erupção prolongou-se por cerca de três anos e meio até cessar. Nessa altura, Junho de 1967, a nova ilha, que havia sido baptizada Surtsey, atingira uma área de 270 hectares e uma altitude máxima de 173 metros (abaixo).
De então para cá, apenas a água e o ar têm permanecido activos e a ilha, enquanto é colonizada por flora e fauna (focas, aves e insectos), tem também vindo a diminuir por causa da abrasão: a sua área actual já está reduzida a metade da original.
Esclareça-se ainda que esta última referência à inexorabilidade das forças abrasivas da Natureza não é uma alusão indirecta a outros desgastes em episódios vulcânicos ocorridos noutras ilhas Atlânticas…

11 julho 2022

O «MATCH» DO SÉCULO

Há alguns países da Europa que sempre foram considerados mais intrinsecamente “neutrais” durante a Guerra-Fria: a Áustria, a Finlândia (que foi escolhida para o local de assinatura da Acta de Helsínquia em 1975), a Suíça…e a frequentemente esquecida Islândia. Norte-americanos e soviéticos escolheram a capital islandesa, Reiquiavique, para local da realização da Cimeira que juntou Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan em Outubro de 1986 mas já antes disso a cidade fora escolhida para local da realização do Campeonato Mundial de Xadrez que começou em 11 de Julho de 1972, há precisamente 50 anos.
Essa edição de 1972 do Campeonato Mundial de Xadrez enquadrava-se perfeitamente no espírito da Guerra-Fria que era então uma constante da situação internacional: um norte-americano contestava pela primeira vez o título a um soviético, quando os jogadores de origem soviética haviam dominado hegemonicamente aquela disciplina nos últimos 45 anos. Era uma história cheia de potencial, daquelas declaradamente inspiradas em David contra Golias, mas infelizmente o xadrez deve ser das modalidades mais exigentes para aqueles que a queiram acompanhar.
Contornando isso, a cobertura noticiosa da comunicação social ocidental estava repleta de fait-divers para que aqueles que queriam acompanhar o match por clubismo mas não percebessem nada de xadrez ficassem com a sensação que estavam a par do assunto. E, contando com a complexa personalidade do concorrente norte-americano, Bobby Fischer (1943-2008 - acima), os torcedores não podiam ficar menos desapontados com essa cobertura periférica sobre o que estava a acontecer em Reiquiavique. Fischer começou logo por faltar à cerimónia de abertura e por pedir mais dinheiro…
Na verdade, o que os ocidentais queriam evitar mostrar à sua opinião pública era que o seu campeão era um geek (acima). Em contraste, a imagem do seu opositor Boris Spassky (1937- ) era muito mais favorável (abaixo), nada conforme com a do russo patibular com ar de espião da Guerra-Fria. No tabuleiro contudo, depois de perder as duas partidas iniciais (e a segunda foi perdido por falta de comparência…), Fischer venceu a terceira, quinta, oitava, décima, décima terceira e vigésima primeira partidas (contra apenas a 11ª partida para Spassky), vencendo o Campeonato com 12½ pontos!
Mas isso foi o que aconteceu em Reiquiavique. Porque aquilo que eu recordo com mais nostalgia sobre este acontecimento eram os comentários sobre a partida do dia que eram incluídos no telejornal da noite, comentários esses feitos por um mestre português de seu nome João Cordovil (abaixo, à esquerda), que durante o torneio se tornou numa presença televisiva regular, explicando o que acontecera com o recurso a quadros idênticos aos que se podem ver na imagem abaixo. Pergunto-me se no actual panorama televisivo poderia haver espaço para um programa desse mesmo género...

01 julho 2020

QUANDO MARCELO FOR GRANDE QUER SER PARECIDO COM ELE...

Ninguém reconhece o senhor da fotografia, excepto talvez Marcelo Rebelo de Sousa, que já nos habituou de há muito, desde as suas tertúlias pré-presidenciais de Domingo à noite na televisão, a ter opinião sobre tudo e conhecer toda a gente, mesmo o presidente da discretíssima Islândia. Marcelo que, neste caso concreto, deve estar uma «dor de cotovelo» intensíssima por um seu colega presidente conseguir ser reeleito com 92% dos votos! (e não serem umas eleições à Putin ou uma coisa dessas...) Quando ele não daria para alcançar um resultado assim em Portugal.

26 junho 2020

O «SPIN-OFF» DAS DECLARAÇÕES DA PRIMEIRA MINISTRA NORUEGUESA

A primeira-ministra norueguesa (acima) anunciou há poucos dias, numa conferência de imprensa, as regras que o seu país pretende impor quanto a viagens com os restantes países europeus. Erna Solberg (quem?!) não se contará propriamente entre os chefes de governo mais reconhecidos da Europa, nem a Noruega - que, recorde-se, nem faz parte da União Europeia - constituirá uma das primeiríssimas prioridades da política externa portuguesa. Mau grado essa constatação, não deixa de ser engraçado apreciar o tratamento jornalístico que as declarações dessa mesma primeira ministra da nórdica Noruega podem sofrer num mesmo jornal, evoluindo de um dia para o outro - acima, primeiro o da esquerda, depois o da direita - com o fito deliberado de melhor chamar a atenção do leitor, porventura indignando-o pela discriminação que será aplicada a quem viaja vindo do nosso país (e não o país, como a redacção do título parece implicar - «Noruega exclui Portugal...»). Numa das passagens da sua apresentação, a primeira-ministra Erna Solberg fez menção ao Espaço Económico Europeu e foi aí que eu me apercebi que no Observador, onde se tem noticiado tantos países que excluem Portugal, não se têm publicado notícias sobre quais serão as intenções dos chefes de governo daquele Espaço como a Islândia e o Liechtenstein... O que é que Katrín Jakobsdóttir e Adrian Hasler pensam fazer? Também quererão «excluir Portugal da lista de países que podem entrar no seu território»? E o Observador não publica a seguir a notícia, comentando o desprezo a que até o Liechtenstein(!) nos vota, para que a dupla José Manuel Fernandes/Rui Ramos nos venha depois explicar que a culpa é toda do António Costa?...

10 maio 2020

UM DIA NOTICIOSAMENTE RIQUÍSSIMO

10 de Maio de 1940 foi um dia noticiosamente riquíssimo. Em destaque, a Alemanha desencadeou a há muito aguardada ofensiva sobre a frente ocidental, arrastando para o conflito, de uma penada, a Bélgica, a Holanda e o Luxemburgo. Além da França, naturalmente, que já estava em guerra desde há oito meses. Brotavam as notícias, oriundas dos inúmeros locais que haviam sido atacados desde o amanhecer pelo exército e pela força aérea alemãs. Em Lisboa e num golpe de antecipação, o Diário de Lisboa publica uma edição à hora de almoço, apesar de ser tradicionalmente um vespertino (acima, à esquerda). A iniciativa irá ser objecto de uma nota auto-congratulatória na sua segunda edição (abaixo), aparecida cinco horas depois, ao início da noite como era tradicional. A nova edição fora profundamente repaginada. O título em destaque - O avanço alemão foi detido - era mais um desejo do que um facto, como os dias seguintes irão comprovar. No interior, por entre várias notícias dispersas, arrumadas com pouco critério, algumas têm um interesse diversificado: de Londres vinha a notícia que um destacamento de soldados britânicos acabara de invadir a Islândia, para impedir que os alemães a ocupassem; na mesma cidade e no Palácio de Buckingham, o rei Jorge VI recebera o primeiro-ministro Neville Chamberlain que lhe apresentara a sua demissão do cargo; na audiência que se seguiu, o monarca convidou Winston Churchill a desempenhar o cargo e este aceitou o convite.

26 maio 2018

A ISLÂNDIA MUDA OS SENTIDOS DO TRÂNSITO

26 de Maio de 1968. Há precisamente cinquenta anos, e quase nove meses depois da Suécia o ter feito (operação cujo cinquentenário também foi aqui foi assinalado no blogue), a Islândia torna-se o último país nórdico a alterar os sentidos do trânsito para a tradicional condução pela direita. Após isso e na Europa, circulando pela esquerda, só ficaram a restar as ilhas britânicas.

12 março 2018

A ISLÂNDIA DESINTERESSA-SE DE PERTENCER À UNIÃO EUROPEIA

12 de Março de 2015. Há três anos e confirmando as promessas eleitorais feitas nas eleições de 2013, o governo islandês tornou oficial o seu desinteresse em aderir à União Europeia. Reconheça-se que o ímpeto europeísta da Islândia só se tornara oficial em 2009, depois do país se ter visto subitamente a braços com uma assustadora crise financeira (2008). Mas o cinismo islandês terá sido duplicado pelo cinismo da comissão europeia que não se condoeu de todo com as atrapalhações da Islândia e quis aproveitar a oportunidade para sacar umas concessões adicionais. Ao contrário de outros processos de adesão que se andam a arrastar por décadas, este da Islândia durou menos de meia dúzia de anos. Mas também é verdade que depois das admissões ocorridas neste Século XXI, a Europa perdeu uma parte substancial do seu charme, já deixam entrar qualquer um... começa a ser chique ser-se como a Suíça e a Noruega: não se misturar com a ralé.

31 outubro 2016

OS PIRATAS E A PIRATARIA DA FORMAÇÃO DA OPINIÃO

Porque se trata de um país tão remoto quanto a Islândia, há um punhado de semanas eu nem imaginava que um partido conhecido por Partido Pirata mostrava hipóteses de ganhar as próximas eleições legislativas islandesas. Mais, se em vez de semanas, eu conseguisse o distanciamento de regressar alguns anos ao passado, eu consideraria impensável que uma formação política com uma tal designação pudesse ter mais ambições do que exprimir o seu protesto anti-sistema. E contudo, depois de alcançar 14,5% dos votos nas eleições legislativas de ontem, triplicando a votação anterior, a revista The Economist consegue explicar-nos, ainda nesse mesmo dia (abaixo), quanto esse Partido Pirata sofrera uma grande derrota... contra as sondagens. Estivesse-se na Guerra Fria e tratasse-se de um Partido Comunista Islandês e os 14,5% deixariam os redactores da The Economist cheios de comichões. Aqui e ali apercebe-se cada vez mais que esta coisa de deixar as pessoas continuar a votar está a tornar-se cada vez mais incómoda... E por isso cada vez irá ser mais necessário defender a Democracia - a genuína.

27 junho 2016

INGLATERRA - ISLÂNDIA

Para quem não saiba, não é por não ser frequente e nem por envolver potências muito díspares que o próximo desafio de futebol entre a Inglaterra e a Islândia não arrasta atrás de si o peso de conflitos históricos importantes e recentes (1958-1976), porém esquecidos: neste caso, o das três Guerras do Bacalhau.

11 setembro 2011

ROCKALL, O PEQUENO ILHÉU EM DISPUTA

Não são apenas as conversas que são como as cerejas. Também os mapas o podem ser. Mapas que aqui se afixam com o propósito de esclarecer algum aspecto específico tratado num poste contêm um outro pormenor que pode ser pretexto e assunto para um outro poste. Assim aconteceu com o Mapa da Europa de há 20.000 anos atrás (acima).
Nesses tempos de glaciação, em que o nível dos oceanos era muito mais baixo do que na actualidade, tanto que as ilhas britânicas estavam ligadas ao continente, havia uma ilha adjacente em pleno Atlântico (assinalada com uma circunferência vermelha) num local onde hoje não existe mais nada senão um pequeníssimo ilhéu chamado Rockall.
O ilhéu actual será o que resta da montanha mais alta dessa ilha (um antigo vulcão), uma rocha com uns 750 m² de base e uns 20 metros de altura. Apesar da sua pequenez, mas por causa dos direitos marítimos associados, é um dos focos de discórdia entre países da Europa, envolvendo as pretensões do Reino Unido, Irlanda, Islândia e Dinamarca…

10 setembro 2011

AS GUERRAS DO BACALHAU

No outro dia, ao comprar bacalhau, escolhi uma variedade da Islândia, decisão que me fez recordar as Guerras do Bacalhau, episódio antigo e discreto que merece a distinção de ser recuperado para os episódios bizarros da História deste blogue. Como as Guerras Púnicas da Antiguidade, também as do Bacalhau foram três, no final das quais uma das grandes potências mundiais – o Reino Unido – teve de se dar, como acontecera outrora com Cartago, por completamente vencida. Mas terminam aí as analogias entre as duas guerras: romanos e cartagineses disputaram a supremacia no Mediterrâneo Ocidental; islandeses e britânicos, apenas o direito de pescar bacalhau nas águas da Islândia…
Os fundamentos para o conflito estão sintetizados no mapa acima, embora ele precise de ser devidamente explicado. A vermelho estão assinalados os contornos da Islândia. Em diferentes tons de azul, progressivamente mais escuros, estão assinalados os limites das suas regiões marítimas, respectivamente os das 4 (7,4 km), 12 (22,2 km), 50 (92,6 km) e 200 (370,4 km) milhas náuticas. A partir da segunda metade do Século XX a Islândia foi ampliando gradualmente esses limites, adoptando uma prática seguida por quase todos os países ribeirinhos do Mundo. Porém, de cada vez que isso aconteceu, o Reino Unido opôs-se à decisão islandesa por causa dos seus interesses pesqueiros.
A primeira Guerra iniciou-se em Setembro de 1958 como consequência da decisão islandesa de alargar as suas águas territoriais das 4 para as 12 milhas náuticas. A segunda aconteceu catorze anos depois (Setembro de 1972), quando a mesma Islândia criou uma Zona Exclusiva de Pescas de 50 milhas náuticas em redor da ilha. Finalmente, a última Guerra iniciou-se três anos depois, em Novembro de 1975, em consequência do prolongamento dessa Zona como Zona Económica Exclusiva (ZEE) para as 200 milhas náuticas, uma figura jurídica que se veio a tornar consensualmente aceite no Direito internacional – tanto que, ironicamente, até o próprio Reino Unido a veio a adoptar
Em qualquer das três Guerras, o cenário assemelhou-se: numa primeira fase, navios-patrulha da Guarda Costeira islandesa tentaram deter e expulsar os pesqueiros britânicos das águas em disputa. Depois, o conflito agudiza-se com a chegada de unidades navais mais imponentes e intimidatórias da Royal Navy para protecção dos pesqueiros. Surgem a seguir alguns incidentes envolvendo o corte das redes dos pesqueiros (acima) e abalroamentos entre navios onde os britânicos aparecem consistentemente na posição ingrata de um Golias que ataca um David que apenas pretende defender os arredores de sua casa… A terminar, a diplomacia entra em acção e acaba por estabelecer um acordo entre as partes.
A última Guerra (1975-76) distinguiu-se pela amplitude da escalada diplomática. Tanto a Islândia como o Reino Unido eram (ainda são) membros da NATO, mas a benigna e continuada neutralidade da organização tanto irritou o governo do Primeiro-Ministro Geir Hallgrímsson que este resolveu-se a usar a carta diplomática do abandono islandês da NATO e a consequente desactivação da importantíssima Base Aeronaval de Keflavik, controlo da saída dos submarinos nucleares soviéticos da Esquadra do Mar do Norte. Joseph Luns, o secretário-geral da NATO de então, tornou-se o mediador de uma solução que fundamentalmente satisfez as pretensões dos islandeses em detrimento dos britânicos...
Posto o problema naqueles termos, a quem mandava (Estados Unidos), interessava-lhes muito mais a sua segurança colectiva contra ameaças de ataque nuclear do que o eventual destino dos empregos de alguns milhares de marinheiros escoceses… Ironicamente, a Base de Klefavik acabou por perder importância com o fim da Guerra-Fria e os norte-americanos evacuaram-na em 2006.

12 novembro 2009

ALIANÇA POPULAR, A FEPU/APU/CDU DA ISLÂNDIA

Para contar a história desta Aliança Popular será necessário prestar algumas explicações adicionais sobre a Islândia (acima, a bandeira do país), sobre a sua história, sobre a situação da Europa Ocidental durante a Guerra-Fria e sobre a história das coligações políticas em Portugal desde 1975. Esta última será a parte mais simples de explicar: desde 1976 que o Partido Comunista Português (PCP) não se apresenta sozinho a eleições. Nesses 33 anos, a coligação que tem sido formada por aquela organização com mais uns amigos que gravitam à sua volta, já se chamou FEPU, APU e CDU (abaixo), conforme os amigos. E já se apresentou a 19 eleições legislativas e autárquicas.
Com isso, os comunistas portugueses já conseguiram bater o recorde dos seus camaradas islandeses, onde a Aliança Popular durou 32 anos (1956-1998). Registe-se como, nestas comparações internacionais, raramente nos lembramos da Islândia. Em primeiro lugar, por ser um país pequeno, com uma dimensão geográfica parecida com a de Portugal (103.000 km²) embora com uma população semelhante à da Madeira ou dos Açores (320.000 habitantes); e em segundo lugar, por ser um país localizado verdadeiramente na periferia da Europa, conforme se pode observar no mapa abaixo. Uma localização que tem tanto de periférica quanto de estrategicamente importante.
Surpreendentemente, uma das potências que tem um particular interesse na Islândia é a Rússia. A ilha tem a localização ideal para bloquear as ligações marítimas entre os seus portos do Oceano Árctico (como Murmansk) e o Oceano Atlântico. Foi para evitar que uma potência continental (nesse caso, a Alemanha, então aliada da União Soviética na sequência da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop) desfrutasse dessa vantagem, que os britânicos ocuparam a Islândia em Maio de 1940. A Islândia, permanecendo neutral, mas entretanto tornada independente (Junho de 1944), continuou sob ocupação aliada (britânica e norte-americana) até ao fim da Segunda Guerra Mundial - abaixo, tropas canadianas da guarnição.
As organizações de esquerda da Islândia foram-se inspirar nas suas designações às suas congéneres alemãs. Foi assim que, à esquerda do Partido Social-Democrata, num processo de fusões alimentado por dissidências oriundas desse partido, apareceu um partido islandês filiado no Comintern(*) designado por Socialista. Partido esse que, pelas razões apontadas no parágrafo acima, foi muito apoiado pelos soviéticos imediatamente depois da Segunda Guerra Mundial, para que a Islândia adoptasse uma política externa neutral. Já então (eleições de 1946), os socialistas islandeses (comunistas), obtiveram um resultado eleitoral apreciável, com 19,5% dos votos, à frente dos social-democratas com 17,5%.
Mas o Parlamento (acima) era dominado pelos partidos da direita (Independência e Progressivo, que haviam recebido 62,6% dos votos no conjunto) e foi sob o governo deles que a Islândia acabou por aderir à NATO em 1949, apesar dos socialistas terem tentado transportar a oposição à decisão para protestos nas ruas (abaixo), uma ocasião que, pela sua raridade, se tornou histórica. Apesar da Islândia ser um daqueles típicos países nórdicos, tornados famosos pelos seus altos padrões de vida e pelos seus governos sociais-democratas, contava no seu espectro político com um partido comunista que era mais forte do que o social-democrata e, proporcionalmente, um dos mais fortes da Europa Ocidental.
Em 1956, possivelmente tentando alargar a sua base de apoio, a formação coligou-se com mais uma dissidência dos sociais-democratas, formando a já mencionada Aliança Popular que, de coligação, veio a transformar-se definitivamente num partido em 1968. Com este último, atingiu-se o climax dos resultados eleitorais: 22,9% nas eleições de 1978. Não se assumindo claramente como comunistas, o posicionamento da Aliança quanto à política externa era explícito e em favor das opções russo-soviéticas e não se distinguia, por exemplo, daquele que era então o posicionamento do PCP quanto a essas questões fundamentais: era contra a permanência da Islândia na NATO, contra a adesão do país à União Europeia, etc.
Chegou a fazer parte do governo islandês. Por cinco vezes: 1956-58, 1971-74, 1978-79, 1980-83 e 1988-91. A Aliança Popular (símbolo acima) ainda sobreviveu bem ao impacto da queda do Muro, mantendo uns digníssimos 14,4% e 14,3% nas eleições de 1991 e 1995(**). Em 1998, os seus dirigentes optaram por concorrer numa mais ampla frente de esquerda, incluindo outras formações, designada Aliança Social-Democrata que depois se veio a tornar numa nova formação política em 2000. Em Portugal, também neste aspecto da dinâmica partidária parecemos ser mais conservadores que os islandeses. O PCP, aparece coligado consigo mesmo há 33 anos mas a fórmula, que se assume garantida, está para durar…
(*) Organização comunista internacional, também conhecida por III Internacional, fundada em 1919 em Moscovo, e que supervisionava e coordenava a actividade dos partidos comunistas nacionais. Foi dissolvida em plena Segunda Guerra Mundial (1943).
(**) Quem dera à CDU, que obteve 8,8% e 8,6% nas eleições desses mesmos anos…

27 junho 2009

O IMPÉRIO COLONIAL DINAMARQUÊS

Talvez por causa da correcção política que se costuma associar aos povos escandinavos, o povo colonizador mais esquecido de todos os que a Europa conta será, com muita probabilidade, o dinamarquês. A verdade é que, ao longo da sua História, a Dinamarca chegou a possuir colónias em quatro continentes (Europa, África, Ásia e América) e ainda hoje a Gronelândia e as Ilhas Faroe, embora gozando de uma ampla autonomia interna, são dependências da Dinamarca. Como acontece também com as duas regiões autónomas portuguesas no Atlântico, Açores e Madeira, as Ilhas Faroe e a Gronelândia foram, conjuntamente com a Islândia, as primeiras regiões de colonização, ainda durante a Idade Média, e também as que permaneceram ligadas à metrópole depois do fim do Império. Contudo, a comparação não é linear, porque a colonização nas terras do Norte do Atlântico foi realizada também por noruegueses, escoceses e irlandeses. As relações entre metrópole e dependências não têm assim as características de proximidade e, sobretudo, de exclusividade, como aquelas que vigoram entre Portugal, a Madeira e os Açores. Ainda recentemente, a Rainha da Dinamarca, quando em visita à Gronelândia, apareceu vestida com o fato tradicional daquela região (acima). Apesar do teor dos discursos de Alberto João Jardim, ainda não parece necessário que o casal Cavaco Silva faça o mesmo com o trajo madeirense… Mas os dinamarqueses foram muito mais longe do que o Atlântico. O local mais distante onde se instalaram foi a Índia, onde fundaram uma feitoria em 1620 em Tranquebar, na Costa do Coromandel, no actual estado indiano de Tamil Nadu. Em 1675 fundaram uma outra no estado de Bengala, próxima de Calcutá. Em 1755 reivindicaram as insalubres Ilhas Nicobar, no Golfo de Bengala. Em 1845, o conjunto foi vendido aos britânicos, já hegemónicos no subcontinente.
Outro dos locais em que os dinamarqueses se instalaram foram as costas do Golfo da Guiné, nas paragens correspondentes ao Gana actual, onde os dinamarqueses conquistaram e reforçaram, ou edificaram de raiz, vários fortes e feitorias desde 1658 até se retirarem da região em 1850. O propósito das feitorias era, principalmente, o comércio de escravos para as Américas e, com a abolição da escravatura e a extinção do tráfico, os dinamarqueses venderam-nas aos britânicos.
Nas Caraíbas, os dinamarqueses ocuparam em 1673 algumas das Ilhas Virgens que ficaram a ser conhecidas pelas Ilhas Virgens Dinamarquesas. As ilhas eram o destino principal dos escravos que eram comprados no Golfo da Guiné, para trabalharem nas plantações de açúcar. A abolição da escravatura (1848) tornou-as economicamente desinteressantes. Também foram vendidas em 1917 mas, sinal dos tempos, os compradores dessa vez foram os Estados Unidos (*).
Quanto às possessões europeias, em 1874 a Dinamarca concedeu a autonomia à Islândia e em 1918, através da Assinatura de um Acto de União, a Islândia ascendeu à soberania plena em que compartilhava o monarca com a Dinamarca. Ao tornar-se uma República em 1944, a Islândia rompeu os últimos vínculos que a ligavam à Dinamarca. Depois da Guerra, as autonomias concedidas às Ilhas Faroe e à Gronelândia parecem encaminhá-las num percurso semelhante. (*) Actualmente são conhecidas pelas Ilhas Virgens americanas para as distinguir das vizinhas Ilhas Virgens britânicas.