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27 setembro 2019

SE TRUMP FOSSE UMA PESSOA NORMAL, OS «BANHOS DE REALIDADE» TÊ-LO-IAM CURADO

Há dois dias (25 de Setembro), aproveitando a presença do primeiro-ministro japonês em Nova Iorque para a abertura da 74º Assembleia Geral da ONU, Donald Trump assinou um Acordo de Comércio específico com Shinzō Abe. Engolido pelas notícias do teor do telefonema que Trump fizera ao presidente ucraniano, pedindo-lhe um favor pessoal, e pela sentença em que o Supremo Tribunal britânico desautorizava, por unanimidade, Boris Johnson na decisão de suspender a actividade parlamentar, o noticiário internacional não ligou raspas ao assunto. Será que devia tê-lo feito? Os simpatizantes do presidente americano têm sempre este capital de queixa contra quem não se dispõe a seguir a linha editorial preconizada pela Casa Branca. Normalmente, esses simpatizantes esquecem-se de mencionar que, entre a comunicação social afecta a Trump, existe nomeadamente a Fox News, o bastião televisivo do trumpismo e que nem mesmo ali os desejos editoriais de Trump são sempre totalmente satisfeitos. Aliás, como se perceberá pelos próximos parágrafos, o que parece valer mesmo a pena, é os palermas (simpatizantes de um palerma), ficarem-se pelas lamurias, que o aprofundamento dos factos só costuma tender a enterrar ainda mais Donald Trump.

Recorde-se que o comércio e os acordos de comércio haviam sido uma anunciada pedra de toque da política externa da presidência Donald Trump. Ele é que ia dar uma volta ao assunto! Começou por se retirar do TPP mal tomou posse, comprou uma briga (feia) com a União Europeia por causa do aço e alumínio, impôs a substituição do acordo comercial que ligava os Estados Unidos ao Canadá e ao México (NAFTA) por um outro (USMCA), acordo esse cuja ratificação pelos próprios Estados Unidos - e isso é que não é divulgado... - se arrasta sem fim à vista pelos bastidores do Congresso. Mas tudo isto é a típica América política de Donald Trump feita, de espampanância sem substância. Mas será talvez por isso mesmo, e porque a mais espaventosa guerra comercial de Trump se tem vindo a travar contra a China que os sucessos que se possam registar entre outras potências do Extremo Oriente têm o significado especial de tentar colmatar a imagem de impotência estratégica para onde Trump empurrou o seu país - porque a China, ao contrário de um Canadá ou de qualquer outro grande país europeu, aliados da NATO, não tem quaisquer razões supletivas, para fingir diplomaticamente vergar-se aos discursos insolentes do presidente americano.

Quando há dois dias o presidente Donald Trump compareceu na cerimónia que a foto acima documenta, tratava-se, na realidade, de um reanúncio: um mês antes, os mesmos dois protagonistas haviam anunciado quase precisamente a mesma coisa em Biarritz durante o G7. Seguiu-se um mês de negociações bilaterais com concessões mínimas das duas partes, sobre o vinho ou o arroz, mas onde perdurou o impasse sobre os tópicos importantes, caso da indústria automóvel. Por isso, o acordo de comércio assinado não é geral. Mas o facto de estar a apresentar uma novidade requentada e limitada nunca incomodou, e não será agora que iria incomodar, Donald Trump: ele prometeu que isto iria representar «really big dollars for our farmers and for our ranchers» (dinheiro a sério para os agricultores e criadores de gado). Talvez sim. Subentendido ao costumeiro exagero trumpiano estava a oportunidade de novos mercados para os exportadores americanos de carne bovina, suína e queijo, entalados por causa da guerra comercial com a China. Tipicamente, e apesar de toda a fanfarra, o texto do acordo ainda não fora tornado público dois dias depois... Talvez por mostrar que no mundo real da diplomacia comercial é o melhor que se pode arranjar - a retórica de Trump não vale nada.

05 agosto 2019

A (VERDADEIRA) GRANDE EVASÃO

Os filmes de evasão tornaram-se um subgénero dos filmes de guerra produzidos após (e a propósito) da Segunda Guerra Mundial. Um conjunto de prisioneiros aliados ousados e determinados promove uma espectacular evasão do campo de prisioneiros para humilhação dos seus carcereiros alemães. A Grande Evasão, filme de 1963, e de que acima se pode ver o trailer, terá sido um dos maiores senão mesmo o maior sucesso de bilheteira do subgénero. Os produtores reclamavam que o enredo se baseava em factos verídicos, mas a verdade é que a Grande Evasão, ou pelo menos a maior evasão de prisioneiros de guerra registada durante a Segunda Guerra Mundial não se lhe assemelhou em nada: não envolveu prisioneiros aliados nem ocorreu na Alemanha nazi. 5 de Agosto de 1944. Foi do outro lado do Mundo, na Austrália, que, por volta das 02H00, 1.100 prisioneiros de guerra japoneses promoveram uma gigantesca evasão no campo de prisioneiros que o exército australiano mantinha em Cowra. Cowra, uma cidadezinha hoje com 10.000 habitantes por causa das suas vinhas, à época era um lugar esquecido do interior (outback) do estado de Nova Gales do Sul, a 310 km da capital, Sidney (veja-se o mapa abaixo). Ao contrário dos enredos das evasões dos filmes, esta não se processou de forma dissimulada: foi ao toque de um clarim que massas de centenas de prisioneiros avançaram decididamente para três locais das vedações dispersos, aos gritos de banzai. Os tiros das sentinelas não conseguiram desbaratar as cargas suicidas simultâneas de centenas de homens que, com ferramentas improvisadas e usando cobertores, derrubaram as cercas de arame farpado. Para complicar mais as operações, os evadidos haviam pegado fogo às instalações. Quando se pensa em quais podiam ser os objectivos dos foragidos eles apresentam-se absurdos. Muito pior do que acontecia com os prisioneiros aliados na Alemanha, onde o problema principal quando foragidos era a língua, os prisioneiros japoneses não conseguiam de nenhuma forma passar desapercebidos numa Austrália que era povoada naquelas paragens exclusivamente por europeus e aborígenes. A costa, o único sítio por onde poderiam escapar, estava a 300 km de distância. Mais do que isso, e ao contrário do que acontecia na Europa com a Suíça e a Suécia, não existiam quaisquer países neutrais para onde os foragidos pudessem ir em busca de refúgio. A iniciativa, que envolveu uma boa metade dos 2.200 prisioneiros de guerra japoneses detidos à época pelos australianos, parece ter sido tomada mais como ponto de honra da intenção do que dos resultados: todos os prisioneiros vieram a ser recapturados nos dez dias seguintes à fuga, mas a evasão veio a custar a vida a 231 japoneses e 4 australianos, vários dos prisioneiros suicidaram-se aquando da perspectiva quase certa da recaptura. Tratou-se de uma grande evasão, mas nela morreram cerca de 20% dos participantes.

28 fevereiro 2019

A CAMPANHA DAS ILHAS DO ALMIRANTADO

Apetece-me começar pela especulação de quantas pessoas conseguirão, à queima roupa, identificar onde se situam as ilhas do Almirantado... Mas a 29 de Fevereiro de 1944, e como antes acontecera com tantos outros nomes desconhecidos que se haviam tornado campos de batalha da Segunda Guerra Mundial, o nome tornara-se indispensável para as notícias do progresso da Guerra. Era a frente do Pacífico, um assunto quase exclusivo entre americanos e japoneses. Esta campanha que há setenta e cinco anos começava, baptizado de Operação Brewer, consistia em mais um conjunto de desembarques anfíbios dos norte-americanos em ilhas que haviam previamente sido ocupadas pelos japoneses na sua fase de expansão de 1942. A superioridade dos primeiros era tal que a questão do desfecho nem se punha: era apenas uma questão de data e esta dependia do empenho dos japoneses na resistência ao óbvio. Neste caso concreto, os americanos gozavam de uma superioridade de 9 para 1 em efectivos e essa superioridade era ainda superior se se contabilizassem o poder de fogo. Em contraste, quando da contabilização final das baixas, virão a morrer 10 japoneses por cada americano. A ocasião tornava-se também propícia para aqueles generais que gostavam de cultivar a sua imagem, como é o caso abaixo de Douglas MacArthur, aparecerem a fazer coisas.

06 novembro 2018

A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL

6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue há poucos dias). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.

22 outubro 2018

A TROCA DE CIDADÃOS NA ÍNDIA PORTUGUESA

22 de Outubro de 1943. Em Mormugão (Goa), dão-se por concluídos os procedimentos de mais uma permuta de cidadãos de países beligerantes que se encontravam do lado errado quando da eclosão da guerra. Neste caso, a permuta envolvia cidadãos de países aliados que se encontravam em territórios controlados pelo Japão e cidadãos nipónicos que residiam na América do Norte ou do Sul. Cada uma das partes transportava os cidadãos do inimigo num navio até um porto neutral escolhido por ambas, para aí proceder ao transbordo e identificação dos cidadãos entregues e recebidos. No caso da guerra na Ásia, Portugal desempenhava nestas operações um papel incontornável, pois era o único país que permanecera neutral e que dispunha de territórios e portos no Oceano Índico onde se podiam processar tais operações. Para não serem atacados pelos submarinos, os navios que as realizavam estavam enfaticamente identificados como se pode ver pelas fotografias acima. O navio usado pelos Aliados navegava até sob pavilhão sueco, o Gripsholm; o usado pelos japoneses era um antigo navio francês, o Aramis, que haviam rebaptizado de Teia Maru depois de o apresarem em 1942. A viagem deste último, desde a saída de Yokohama em 14 de Setembro até chegar a Mormugão um mês e um dia depois, explicará mais em concreto em que consistiam estas «trocas de cidadãos». Saído com 80 passageiros do Japão, foi embarcar mais 975 a Xangai a 19 de Setembro, 24 a Hong-Kong a 23 de Setembro, foi buscar mais 130 às Filipinas a 26 de Setembro, 27 ao Vietname em 30 de Setembro e ainda 289 a Singapura em 5 de Outubro. Ao chegar a Mormugão, em 15 de Outubro de 1943, o Teia Maru trazia 1.525 passageiros. Havia muitos membros do clero, padres e freiras, também missionários protestantes, também havia executivos de empresas norte-americanas que operavam na Ásia e respectivas famílias. A grande maioria era norte-americana (1.233), mas também havia canadianos (217), alguns britânicos, mas também cidadãos de outros países neutrais (15 chilenos) que haviam preferido abandonar os países que os albergavam. No dia seguinte chegou o Gripsholm, que havia realizado uma viagem semelhante, trazendo a bordo os 1.340 cidadãos japoneses que regressavam também ao seu país. Os dois navios ficaram acostados próximos, como a fotografia acima documenta, mas foi só três dias depois, a 19 de Outubro, após a identificação de todos os passageiros, que o transbordo de pessoas e bagagens teve lugar. Depois de conferido, o Teia Maru largou a 21 de Outubro para Yokohama, via Singapura e Manila, o Gripsholm fê-lo no dia seguinte (há precisamente 75 anos) para Nova Iorque, via Porto Elizabeth (na África do Sul) e Rio de Janeiro. Nesse dia a United Press publicava dois pequenos despachos em que dava conta da satisfação das duas partes pela forma como a operação tinha decorrido. Era um ponto a favor de Portugal.

04 outubro 2018

AS «OUTRAS VISITADORAS»

Uma das notícias deste dia é a ruptura de relações entre as cidades de Osaka e São Francisco. A causa, explicam-nos, foi a inauguração na cidade americana de um monumento dedicado às "mulheres de conforto", uma expressão eufemística que se emprega para designar as mulheres que foram forçadas à prostituição nos bordéis militares japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. O monumento é constituído por três estátuas, enfatizando o carácter internacional das mulheres que foram sujeitas a esse tratamento indigno, que eram, na sua esmagadora maioria, oriundas dos países que estiveram sob ocupação japonesa. As ancestralidades de cada uma das estátuas é reconhecível: há uma chinesa, uma coreana e uma filipina, nacionalidades que formam comunidades importantes naquela cidade americana da costa do Pacífico (assim como a japonesa...). Uma investigação mais aprofundada na internet permite-nos saber ainda, não apenas que a história já tem um ano de que a ruptura ora acontecida será apenas uma conclusão, como também ler quais as razões de queixa do presidente da câmara de Osaka. As razões são veementes, compreensíveis na sua intenção de proteger a reputação da comunidade nipónica versus as outras comunidades asiáticas, mas a sua argumentação é paupérrima e imagino difícil que se pudesse fazer melhor, porque o Japão bateu tudo e todos na crueldade do sistema. O que ali se expõe não é apenas "um dos lados da verdade", como argumenta Hirofumi Yoshimura: é a Verdade, porque o que está em causa já não são as alegações das partes de um julgamento, é a sentença da História. Com os métodos adoptados pelos japoneses assumiu-se escancaradamente que a prostituição se tornara apenas mais uma das componentes da logística dos exércitos. Nada que os outros exércitos não fizessem, mas de forma encapotada, como se constata em Pantaleão e as "visitadoras", um romance sarcástico escrito em 1973 pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa a respeito precisamente desse aspecto da logística militar. Mas o que faz a grande diferença para esses outros casos é o facto de os japoneses povoarem os seus bordéis militares quase exclusivamente com mulheres estrangeiras recrutadas sistematicamente à força - incluindo até europeias(!), algo que as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial (e as suas opiniões públicas, correcções políticas à parte) jamais poderão perdoar aos japoneses...

O AFUNDAMENTO DO HIRANO MARU

4 de Outubro de 1918. Pela madrugada de há cem anos, cerca das 05H30 da manhã e a cerca de 200 milhas náuticas a Sul da Irlanda o navio japonês Hirano Maru (acima) foi atacado e afundado por um submarino alemão quando iniciava uma viagem que, previstamente, ligaria Liverpool a Yokohama. O vento soprava forte, o mar estava correspondentemente agitado, e o navio japonês foi torpedeado a uma hora matutina, quando a maioria dos passageiros e tripulação estariam a dormir. Das 320 pessoas que seguiam a bordo, apenas 28 se salvaram. O submarino atacante era o SM UB-91 (ficha abaixo), comandado pelo capitão-tenente Wolf-Hans Hertwig. A Primeira Guerra Mundial registou milhares de episódios como o descrito, cerca de uns 6.000 e isso contando apenas os navios que foram afundados pelas Potências Centrais. O que este episódio merece de referência para aqui o destacar prende-se com a nacionalidade dos navios envolvidos: não sendo únicas, foram pelo menos muito raras as ocasiões em que submarinos alemães afundaram navios japoneses. E, com o benefício de conhecermos o futuro, somos capazes de compreender a ironia destas situações, considerando a reversão das alianças que terão lugar no conflito mundial seguinte.

27 agosto 2018

AS CONVERSAÇÕES DAS SEIS PARTES

27 de Agosto de 2003. Tinha lugar a primeira ronda das Conversações das Seis Partes (Six-party talks). As seis partes eram (por ordem alfabética): China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia. E o tópico era o programa nuclear norte-coreano. Dois dias depois as conversações eram suspensas e agendada nova ronda para daí a seis meses. Segundo os diplomatas experimentados em conversações com coreanos, a primeira ronda correra excepcionalmente bem. O armistício de Panmunjon de 1953 demorara mais de dois anos a ser negociado, todos os pormenores eram objecto da mais minuciosa negociação. Mas aqui conseguira-se fixar rapidamente um formato (hexagonal) e uma disposição para a mesa de negociações! No canto superior, realce-se o pormenor - sinal de importância - de que é o representante chinês o que fica mais próximo da porta. Na fotografia acima, e embora os negociadores norte-americanos sejam dos que mais gostam de se destacar nas fotografias, os dois representantes mais fotogénicos e bem dispostos ao centro são os da Rússia e da China. Foi há quinze anos. Seguiram-se outras cinco rondas. Donald Trump ter tido a pretensão de que se resolvia tudo isto com uma cimeira foi uma estupidez, uma arrogância, uma ignorância, uma presunção, uma mediocridade.

11 maio 2018

A BATALHA DE ATTU

11 de Maio de 1943. A ilha de Attu é a mais ocidental e a mais remota das ilhas do arquipélago das Aleútas no Alaska, território dos Estados Unidos. Tem 893 km² mas um clima terrível e a sua população nunca foi além das poucas centenas de pessoas. Hoje é desabitada. Mas, em 7 de Junho de 1942, os japoneses haviam ali desembarcado para criar um ponto de fixação que pudessem posteriormente utilizar conforme a evolução da Segunda Guerra Mundial no Teatro de Operações do Pacífico. Poderiam usar a ilha para ameaçar os Estados Unidos continentais; poderiam também usá-la como uma cunha nas comunicações entre os norte-americanos e os seus aliados soviéticos, caso estes últimos viessem a entrar em guerra com o Japão. Mas há precisamente 75 anos, menos de um ano depois da invasão e ocupação japonesas, os norte-americanos desembarcaram por sua vez na ilha, para desalojar os japoneses. A batalha durou 18 dias e, apesar de se estar em Maio, parte dos combates travaram-se em condições meteorológicas em que chegou a nevar, como se se tratasse da campanha da Rússia. Dada a desproporção dos efectivos (os 15.000 atacantes eram cinco vezes mais do que os 3.000 defensores), o desfecho da batalha nunca esteve em causa, apesar da ferocidade suicida da resistência japonesa. No final, os norte-americanos fizeram apenas 28 prisioneiros, o que representava apenas 1% da guarnição japonesa. O seu comandante, o coronel Yamasaki, morreu apropriadamente, liderando uma última carga suicida à baioneta sobre o inimigo. Entre as baixas sofridas por este último, foram mais as ocorridas por doenças e pelo frio (1.814) do que as causadas directamente pelos combates (1.697). Numa Guerra do Pacífico dominada pelas condições tropicais em que a esmagadora maioria dos combates foram travados, este episódio é uma curiosa e pouco conhecida excepção.

18 abril 2018

A MORTE MATADA DO ALMIRANTE YAMAMOTO

18 de Abril de 1943. Protegidos por uma meia dúzia de caças Zero, dois bombardeiros Mitsubishi G4M Betty japoneses preparavam-se para aterrar no aeródromo de Kahili, que se situa na extremidade meridional da ilha de Bougainville (mapa abaixo), quando, subitamente e surgidos de sudoeste e a rasar o mar para escapar à detecção, surge uma esquadrilha de 16 P-38 Lightning norte-americanos. Descartando os Zeros e aproveitando-se da superioridade numérica, os atacantes concentram-se nos aviões maiores e abatem-nos em sucessão sobre a selva que cobre a ilha. Apenas mais um episódio das centenas que ocorrerão naquele dia no quadro da Frente do Pacífico da Segunda Guerra Mundial então em curso? Não, porque a bordo de um dos bombardeiros abatidos viajava o almirante Isoroku Yamamoto que morrera na queda do aparelho que o transportava. E não, porque, como anos depois se virá a saber, a presença dos aviões americanos naquele local e àquela hora (09H35) não fora acidental. Desde há vários anos que os americanos conseguiam decifrar os códigos japoneses. E, no princípio daquele mês, os serviços de intercepção haviam descoberto que Yamamoto iria realizar uma visita de inspecção às forças aeronavais japonesas nas ilhas Salomão. A incúria japonesa chegara ao ponto de transmitir o programa da visita de Yamamoto em mensagem rádio e os americanos ficaram a saber o programa tão bem quanto os comandos japoneses encarregues de receber Yamamoto.
Não só sabiam como dispunham dos meios militares para tirar partido da ocasião. A questão que se poria, ao almirante Halsey ou ao almirante Nimitz, homólogos de Yamamoto na marinha adversária, era um problema de ordem moral: Seria aceitável utilizar aquela vantagem para liquidar um grande chefe inimigo? A decisão não poderia dar lugar a novos expedientes de guerra, visando liquidar seleccionadamente as chefias militares inimigas? E a decisão não poderia, terminada a guerra e com outro quadro moral, voltar-se contra os próprios decisores? Nimitz consultou o seu staff que se inclinou para a validade da operação. Apesar de se conhecer a sua oposição estratégica a um enfrentamento militar directo com os Estados Unidos, fora Yamamoto quem concebera o plano de ataque inicial contra Pearl Harbor e nem a derrota de Midway ou o mais recente abandono de Guadalcanal o desvalorizara aos olhos dos americanos a ponto de deixarem de o considerar um dos principais activos do inimigo. Ironicamente, este respeito profissional por Yamamoto vai ser a causa desta espécie de sentença de morte. Na fotografia abaixo, vê-se Yamamoto nesse mesmo dia de há 75 anos a cumprimentar os pilotos da base aeronaval de Rabaul, naquela que se acredita ser a sua última fotografia. A operação, denominada Vingança, foi mantida em segredo até ao fim da guerra, preservando o segredo de que os norte-americanos haviam quebrado os códigos japoneses.
Esta questão ética de seleccionar, mesmo em guerra, os alvos a abater entre o inimigo, como o fazem, por exemplo, os snipers (franco-atiradores), é uma questão a que voltaremos depois de amanhã, por ocasião de uma outra efeméride de há 48 anos que diz mais respeito aos portugueses.

27 março 2018

O JAPÃO ABANDONA A SOCIEDADE DAS NAÇÕES

27 de Março de 1933. O Japão abandona a Sociedade das Nações, depois das censuras públicas expressas pela Assembleia da organização, a respeito da sua conduta expansionista na China. Em O Lótus Azul, aventura de Tintin que se desenrola na China e que estava a ser desenhada nessa época, Hergé (o seu autor) refere-se ao incidente de uma forma que, não sendo rigorosa, é bastante credível. Compare-se com as imagens abaixo.

06 setembro 2017

O «HARDWARE» QUE VEIO COM O DESERTOR

6 de Setembro de 1976. Um obscuro, mas ambicioso, tenente de 29 anos da Força Aérea De Defesa (PVO) soviética, de seu nome Viktor Belenko, é catapultado para os destaques noticiosos de todo o mundo quando deserta aos comandos do seu avião e aterra inesperadamente num aeroporto civil japonês.
Se o gesto em si já fora audacioso, uma dissidência da União Soviética gera sempre uma certa atenção da informação ocidental, o interesse pelo evento multiplica-se com o aparelho que o desertor trouxera na fuga: um Mig-25, que era uma das mais enigmáticas e interessantes aeronaves do arsenal soviético.
Viktor Belenko abandonara o plano de voo durante um treino de rotina e dirigira-se em voo rasante para a ilha japonesa de Hokkaido onde contava aterrar numa base militar. Mas nem tudo correu como contara e acabou vendo-se forçado a aterrar num aeroporto civil demasiado curto para o Mig, o que o levou a sair da pista.
A situação do recém chegado era complexa porque, embora tendo fugido para o Japão, a intenção de Viktor Belenko era pedir asilo político aos Estados Unidos. O seu tesouro era o Mig-25 mas, as duas partes tinham que contar com as autoridades japonesas que, entretanto, haviam prendido o desertor por violação do espaço aéreo.
Ainda hoje não se conhecem como foram os detalhes das negociações, mas os seus efeitos tornaram-se de imediato perceptíveis, com a presença de inúmeros técnicos norte-americanos a estudarem in loco os detalhes da aeronave. Posteriormente, o Mig-25 foi parcialmente desmontado e transportado para uma base aérea.
Do outro lado, imagina-se a irritação e a frustração das autoridades soviéticas. Porque o episódio fora um desastre de propaganda política, tanto quanto do ponto de vista militar, ainda se montou uma operação para os minorar, com a colaboração da mãe e da esposa do desertor, fazendo-as apelar para o seu retorno.

Na imprensa internacional ocidental, a notícia teve a ampla repercussão que se esperaria no quadro de uma Guerra Fria em curso, como se pode comprovar pelo exemplo abaixo, do lado esquerdo, a capa do jornal argentino Clarin que dá ao assunto o maior destaque. Mesmo assim, os soviéticos podiam contar com os fiéis.
Cá por Portugal e entre a imprensa afecta aos comunistas (Diário de Lisboa), a defecção de Belenko é remetida para uma discretíssima página 13, algo de muito menos importante que o falecimento da D. Maria do Carmo na página 3, que, para quem não soubesse, era «a sogra do nosso camarada de Redacção Neves de Sousa».

08 julho 2017

RESISTÊNCIA DE APÓS-GUERRA

Retiradas de uma edição de um jornal lisboeta de 8 de Julho de 1946, estas duas notícias parecem ter perdido a importância que então se lhes conferia, pois a versão histórica prevalecente é de que não se registaram episódios sérios de resistência, nem na Alemanha nem no Japão, durante a ocupação a que os dois estiveram sujeitos. Vai-se à Wikipedia e não se encontra nada. Ora os episódios foram sérios: tanto num caso como noutro registaram-se cinco mortes e as notícias têm a chancela da United Press. Restam duas hipóteses: ou trataram-se de episódios de resistência a quem ninguém interessou e ainda hoje não interessa dar qualquer relevância; ou trataram-se de crimes de gangues do crime organizado (no Japão são famosos os yakuzas mas na Alemanha não há "crime organizado") a quem os serviços de informação das autoridades de ocupação pretenderam dar uma conotação política que eles não teriam.

20 junho 2017

20 DE JUNHO DE 1942: O JAPÃO ATACA... O CANADÁ

Há 75 anos um submarino japonês, o I-26, atacava o farol de Estevan Point na ilha de Vancouver, na costa canadiana do Pacífico. Não era a primeira vez que um submarino japonês atacava o continente americano. Só que era a primeira vez que o fazia no Canadá. O Japão, de resto, destacara-se pela ousadia como atacava alvos em terra nos países em que, pela distância, havia uma sensação entre as populações de se sentirem aparentemente afastadas directamente do conflito, como eram os casos dos Estados Unidos continentais ou da Austrália. Neste caso concreto (de que hoje se celebram as bodas de diamante), a intenção era mais moral do que material e ela foi indiscutivelmente alcançada, veja-se o destaque dado ao episódio pelo jornal The Vancouver Sun na sua edição de 22 de Junho (acima e abaixo). Repare-se que do lado esquerdo dessa primeira página se destaca a queda de Tobruk na Líbia (ocorrida a 21 de Junho), 25.000 prisioneiros, um colossal fiasco britânico (e, por arrasto, canadiano), mas quem é que na cidade de Vancouver se queria preocupar com isso quando andava por aí à solta um submarino japonês a atacar as costas canadianas?...

04 junho 2017

AS BODAS DE DIAMANTE DA BATALHA DE MIDWAY

A decisiva batalha de Midway travou-se entre 4 e 7 de Junho de 1942 em pleno centro do Oceano Pacífico. Mas a sua preparação e execução do plano (japonês) que a iria desencadear começara algum tempo antes, a 26 de Maio: a mais formidável armada da história naval japonesa largara dos portos do Japão para lançar um repto à sua rival norte-americana. Comandava pessoalmente a frota que se iria engajar na operação o almirante Yamamoto, o autor do ataque de surpresa a Pearl Harbour que, seis meses depois, comprovava que o efeito daquele ataque não tivera consequências duradouras para o exercício da supremacia naval japonesa sobre os oceanos Índico e, sobretudo, Pacífico. Ainda no mês anterior o desfecho indeciso da Batalha do Mar de Coral provara que os navios dos Estados Unidos não haviam sido corridos dos mares, o que, considerando a dimensão gigantesca das futuras frotas de guerra entretanto em construção nos estaleiros americanos, tornava imperativo o confronto naval e a destruição do inimigo, para impedir que as esquadras de hoje se juntassem com as de amanhã. E para forçar o inimigo ao confronto naval há que escolher um objectivo que se sabe que ele não cederá sem combate.
Midway é um atol solitário no centro do Pacífico norte. Originalmente, a flora reduzia-se a cardos e a fauna resumia-se a hordas incontáveis de aves marinhas. Mesmo depois de ocupada e dos aterros, a área das ilhas juntas cinge-se a seis quilómetros quadrados. Mas é o único ponto emerso no oceano em milhares de quilómetros em redor. As ilhas Havai estão a mil milhas marítimas de distância. Uma força aeronaval que a ocupe pode ameaçar continuamente a mesma base de Pearl Harbour que fora o objecto do ataque original de 7 de Dezembro de 1941. Se o Japão tivesse mais meios poderia ter conquistado facilmente Midway nessa altura. Mas não os tinha e as defesas do atol foram reforçadas nos seis meses que se seguiram. Mais do que organizados, os meios de defesa amontoavam-se. Nesses primeiros dias de Junho de 1942, há destacamentos de engenharia a alargar as três pistas de aviação e a enterrar o mais possível, para os proteger dos bombardeamentos, hangares, armazéns, aquartelamentos, depósitos de combustível, um hospital, uma central eléctrica, outra de destilação de água do mar. Entretanto a água doce está racionada e o álcool está proibido, mas o mercado negro é expediente que aparece em todo o lado... Midway tornara-se numa espécie de porta-aviões inafundável mas estático, onde se concentravam 130 aviões - mas de 8 tipos diferentes e oriundos de três ramos diferentes: Marinha, Fuzileiros e Força Aérea do Exército.
Mas no grande quadro do que é decisivo para o desfecho das batalhas e ignorado pelos japoneses, os norte-americanos possuíam uma enorme vantagem: sabiam das intenções do inimigo. Fazia anos que haviam quebrado o código japonês e conseguiam ler as suas comunicações. E quando as intercepções não eram esclarecedoras, havia expedientes a que podiam recorrer. Neste caso, sabia-se dos grandes preparativos da armada de Yamamoto mas não se sabia qual era o seu objectivo, sempre mencionado cripticamente por AF. Então os serviços de cifra norte-americanos mandaram cada um dos objectivos prováveis enviar uma mensagem falsa, não cifrada, mas identificativa de origem. No caso de Midway o pretexto era o aparelho de destilação que se avariara. No dia seguinte, as informações interceptadas aos japoneses davam conta que AF estava com falta de água doce... Ao contrário do que acontecera em Pearl Harbour, ao comandante de Midway, o capitão-de-fragata Cyril Simard (abaixo), chegou antecipada e prestimosamente a informação de que iria ser atacado a 4 de Junho... Ao mesmo tempo, e em completa sintonia com os desejos do almirante Yamamoto, o seu oponente Nimitz formara e encaminhara para as proximidades de Midway a maior esquadra aeronaval que a US Navy conseguira reunir.
A batalha começou assim envolvida por uma evidente assimetria entre os contendores: enquanto os japoneses estavam concentrados em derrotar as forças norte-americanas de Midway, esperando com isso atrair (e derrotar) a esquadra inimiga (o objectivo último da expedição), os norte-americanos estavam à procura dos japoneses para lhes assestar o golpe inicial e decisivo, uma tarefa que, soando simples nos propósitos, era muito mais complicada do que aquilo que poderá parecer à primeira vista na implementação, considerada a imensidão do oceano e a multiplicação de rotas que os japoneses poderiam adoptar para chegar a Midway - e essas opções tácticas já não estavam ao alcance da descodificação dos seus serviços de intercepção. O ataque aéreo japonês começou de madrugada. O radar instalado na ilha já não permite a repetição de surpresas como as de Pearl Harbour. São mais de 100 aviões que atacam Midway dos quais 1/3 são caças Mitsubishi Zero (abaixo), à época muito superiores a quaisquer oponentes que os Estados Unidos pudessem apresentar. Dos 26 pilotos das esquadrilhas algo compósitas que descolaram para os enfrentar, apenas 9 puderam obedecer à ordem surgida vinte e cinco minutos para aterrar e reabastecer. E desses, só 2 trazem um aparelho operacional para voltar a descolar. Foi a hecatombe da aviação de Midway.
E no entanto, os estragos provocados pelos bombardeamentos aos alvos em terra, ainda que parecendo importantes, não se afiguram ter tido grande efeito na moral dos defensores, o fogo das anti-aéreas continua a causar baixas entre os atacantes, é o próprio oficial piloto aviador que comanda a vaga atacante, o primeiro-tenente Tomonaga que, ao regressar com 10 aparelhos a menos, se faz preceder por uma mensagem: «Necessário segundo ataque». Será uma sugestão crucial para o desfecho da batalha. Porque as esquadrilhas de bombardeio que o comando japonês mantivera até aí em reserva para a eventualidade de ter que as activar contra uma esquadra norte-americana, vai agora reconvertê-las com armamento para ataque ao solo (é distinto do armamento anti-navio). Estavam os quatro porta-aviões japoneses nessas funções logísticas de reequipar os aviões a bordo e recolher os que haviam participado no ataque a Midway, quando começaram a chegar as primeiras informações dos seus aviões batedores de que havia uma esquadra norte-americana por perto. E que esquadra! Os norte-americanos haviam concentrado ali todo o poder aeronaval que haviam podido arrebanhar - três porta-aviões e 232 aviões versus os quatro porta-aviões e 248 aviões dos japoneses.
Mas, por essa altura, os japoneses ainda não haviam descoberto a dimensão da ameaça que impendia sobre eles mas estavam, apesar de tudo, apreensivos porque haviam sido apanhados impreparados para a eventualidade de enfrentarem uma esquadra inimiga. E a doutrina da guerra aeronaval (agora complementada com a experiência da batalha do Mar de Coral) mostrava a vantagem de quem se apropriasse da iniciativa e assestasse o primeiro golpe sobre os navios adversários. Desde as 07H00 da manhã que os porta-aviões norte-americanos estavam a lançar as suas esquadrilhas. Algumas dessas esquadrilhas perderam-se no mar e perderam-se para a batalha, nunca chegaram a encontrar a esquadra japonesa, outras houve que foram apanhadas pelo fogo anti-aéreo dos navios nipónicos e pelos Zeros que os defendiam em altitude e foram devastadas: dos 41 aviões torpedeiros engajados apenas 5 sobreviveram para regressar aos porta-aviões de origem. E no entanto, por terem assumido a iniciativa e atacado primeiro os porta-aviões japoneses, os norte-americanos só precisavam de ter o seu momento de sorte. E tiveram-no, cerca das 10H30 da manhã, quando os bombardeiros Dauntless (acima) chegaram e os japoneses ainda estavam preocupados em avaliar as baixas do ataque anterior (dos aviões torpedeiros). Em escassos cinco minutos aqueles bombardeiros de mergulho atingiam três porta-aviões japoneses e tornavam-nos inoperacionais...
Nesses cinco minutos a batalha ficara decidida. Do ponto de vista aeronaval, que era o que contava, já que os navios dos dois lados nunca se chegaram a aproximar, a grandiosa armada japonesa perdera num momento 3/4 da sua capacidade ofensiva. Perdera até a capacidade de dar a devida cobertura aérea à operação secundária de desembarque e conquista do atol de Midway. Aquilo que a Marinha imperial podia fazer - e fez - era retaliar com os aviões do porta-aviões sobrevivente, atacando por sua vez os porta-aviões do adversário. E os norte-americanos fizeram o mesmo. Perdido o efeito da surpresa os resultados dos ataques aéreos do resto do dia nivelaram-se: os japoneses afundaram um dos porta-aviões americanos e estes afundaram o último porta-aviões japonês. No final do dia 4 de Junho, a contabilidade das perdas (4-1) não oferecia quaisquer dúvidas quanto ao desfecho da batalha. E, embora desconfie que não houvesse pessoa alguma naquela época que possuísse o sangue frio e o distanciamento para analisar o problema dessa maneira, o desfecho do conflito entre o Japão e os Estados Unidos, que começara tão apenas seis meses antes, parecia selado. Como o almirante Yamamoto muito bem sabia, a paridade táctica entre os beligerantes não era acompanhada por uma paridade estratégica - os meios de combate que os Estados Unidos poderiam vir a produzir no futuro, mesmo com o país engajado numa outra guerra na Europa, eram incomensuravelmente superiores aos que o Japão poderia mobilizar. No limite, os Estados Unidos poder-se-iam dar ao luxo de perder a batalha de Midway sem que isso comprometesse o desfecho da guerra; o Japão, não, o Japão estava obrigado a vencer aquela e todas as grandes batalhas em que se empenhasse.
Há um exercício que se designa por história contrafactual que consiste em imaginar como teria sido a História se os acontecimentos não tivessem decorrido como ocorreram (vejam-se os exemplos sugeridos pelas capas dos livros acima). Imaginar um desfecho alternativo para a batalha de Midway costuma ser um dos favoritos para esses exercícios. Neles, as consequências da hipotética derrota dos norte-americanos em Midway costumam ser hipertrofiadas, arrastando consigo a perda não apenas do atol, mas também das próprias ilhas Havai (o que é muito contestável, dado que, como vimos, o Havai está a mil milhas náuticas de distância de Midway). Mas o que me parece errado numa grande parte dessas análises é que elas se dispersam pelos pormenores. Teria a vitória japonesa em Midway afectado a capacidade norte-americana de produção de meios de combate? Não, mesmo considerando a perda das ilha Havai. Teria a vitória japonesa em Midway afectado o ânimo e a determinação moral do povo norte-americano em prosseguir a guerra? Muito provavelmente não, quando se recorda a forma como esse povo encarava o processo (traiçoeiro) pelo qual fora arrastado para o conflito. É evidente que, do ponto de vista dos acontecimentos, ele teria que ter decorrido de outra forma, com um outro calendário, a guerra a terminar em 1946, 1947, talvez depois, mas o desfecho nunca seria diferente. Aliás, a História dá-nos lições preciosas e dificilmente poderemos encontrar derrota mais arrasadora do que a dos romanos na batalha de Canas (216 a.C.); mas no entanto foram os romanos e não os cartagineses que saíram vencedoras da Segunda Guerra Púnica.

19 fevereiro 2017

O PRIMEIRO ATAQUE AÉREO À AUSTRÁLIA

Há precisamente 75 anos, a Austrália sofreu o primeiro ataque registado da sua História. Foi um raid aéreo ao porto de Darwin perpetrado precisamente pelas mesmas esquadrilhas da força aeronaval que, dois meses e meio antes, atacara Pearl Harbor. O comandante das 188 aeronaves era o mesmo Mitsuo Fuchida que se cobrira de glória naquela outra ocasião. No caso e em complemento, os cerca de 60 navios que estavam fundeados no porto australiano vieram a ser atacados também por esquadrilhas de bombardeiros (54) que haviam descolado de bases aéreas de ilhas da Indonésia que entretanto haviam sido conquistadas pelos japoneses.
Darwin era então uma pequena cidade de 5.800 habitantes (em tempo de paz) situada no extremo Norte da Austrália e que era a capital do mais remoto e despovoado dos seus Territórios, o do Norte. Só a expansão militar dos japoneses por toda a Ásia e Pacífico é que lhe conferira subitamente aquela importância estratégica desmedida como potencial porta de entrada para o continente australiano. Aos 242 aviões que os japoneses puseram no ar a RAAF apenas podia opor uma trintena deles. O desfecho do raid era antecipável: toda a aviação foi destruída, 11 navios foram afundados, 25 ficaram danificados, contaram-se 236 mortos e 300 a 400 feridos.
Como em Pearl Harbor, as perdas entre os atacantes foram ínfimas: 4 aparelhos abatidos, 2 mortos. O que distingue o episódio do de Dezembro de 1941 nas ilhas Hawaii foi a sua (não) utilização como elemento de propaganda para mobilizar os australianos. Na Austrália o episódio foi tratado com muito mais discrição, porventura pelo receio que acendesse no público o receio de uma invasão. Este ataque aéreo de 19 de Fevereiro de 1942 foi, aliás, o primeiro de uma longa sucessão deles que, entre Fevereiro de 1942 e Novembro de 1943 tiveram lugar ao longo das costas despovoadas do Noroeste da Austrália. Hoje, quase ninguém sabe que eles tiveram lugar.

06 dezembro 2016

ARGUMENTOS QUE ATÉ VÊM MESMO A CALHAR

Tenham sido 63 ou 67, a verdade é que a Itália teve muitos governos desde o final da Segunda Guerra Mundial e essa característica da sua história política aparece, desde que me lembro, invocada pelos opinadores da comunicação social quando de cada crise que ali se regista, como agora mais uma vez tornou a acontecer. O que é menos coerente é quando estudamos o assunto mais em profundidade e comparamos o caso da Itália, por exemplo, com o de um outro vencido da Segunda Guerra, o Japão, que, pelo menos a crer nas análises daqueles mesmo opinadores, passa por um modelo de estabilidade, nos antípodas da confusão italiana, quando afinal se descobre que, não tendo tido os sessenta e tal governos em 70 anos da Itália, o Japão teve, nesse mesmos 70 anos, cinquenta e muitos governos... Ele há argumentos que são mais eficazes que consistentes, e uma boa parte dessa eficácia deve-se à ignorância da audiência.

13 abril 2016

O PACTO NIPO-SOVIÉTICO (13 de Abril de 1941)

Firmado há precisamente 75 anos, este outro Pacto importante assinado pela União Soviética envolvendo um outro país do Eixo é muito menos conhecido e citado do que o de Agosto de 1939 com a Alemanha. Este último, famoso pelos contorcionismos argumentativos a que obrigara a classe comunista, estava a três meses de ser denunciado unilateralmente por Hitler, mas disso não se convenceria o Estaline que vemos satisfeito ao centro da foto. Com aquele Pacto que ali se concretizava Estaline procurava pôr-se ao abrigo - e alguém o pode censurar por isso? - das ambições expansionistas dos seus dois agressivos vizinhos. Três aspectos se conjugam para que este Pacto Matsuoka-Molotov seja bem menos conhecido que o seu equivalente Molotov-Ribbentrop: a) a sua importância para nós, europeus, é muito inferior, visto que o que estava a ser tratado eram as disputas entre as duas potências no Extremo-Oriente; b) ao contrário do cinismo associado à assinatura do outro, que vigorou apenas durante 22 meses (pouco mais de ano e meio), este Pacto ainda veio a vigorar durante 52 meses (pouco mais de quatro anos); e c) ao contrário do outro, que foi rompido unilateralmente por Adolf Hitler, que era mau, quem rompeu unilateralmente o Pacto com o Japão foi Estaline que, não sendo bom, nesta guerra estava do lado dos bons.

03 julho 2014

«MATTHEW PERRY NO JAPÃO»

O aparecimento do esquadrão (ao fundo) do Comodoro Matthew Perry (1794-1858) na baía de Tóquio em 1853 é um acontecimento não apenas incontornável da História do Japão (com a sua reabertura ao exterior após mais de dois séculos de isolamento), mas também memorável para a História dos Estados Unidos por uma primeira vez em que estes desempenharam um papel pioneiro entre as potências ocidentais. A aguarela acima, representando o momento, foi, porém, pintada um século mais tarde (1950), num momento em que, com Douglas MacArthur (1880-1964) como Comandante Supremo das Forças Aliadas de ocupação, o Japão vivia o nadir da sua afirmação como nação independente. O seu autor foi Gessan Ogata (1887-1967).

A aguarela procura reproduzir com o maior rigor possível a cerimónia: com a frota em fundo, Matthew Perry fardado a rigor entrega aos Samurais japoneses – são facilmente distinguíveis as pegas das respectivas katanas – uma carta do seu Presidente – ironicamente o hoje desconhecidíssimo Millard Fillmore (1800-1874). Em retribuição, o Samurai que encabeça a delegação japonesa – reconhecível por envergar chapéu – entregará ao norte-americano um rolo acusando a recepção do documento. Há ainda um pormenor adicional no quadro que merece menção: junto a Perry, de costas, inclinado e mãos cruzadas servis, aparece o seu intérprete chinês, reconhecível pela sua trança, que era um sinal de submissão ao imperador… da China.

27 novembro 2013

RAPARIGA MODERNA COM BRINCO DE PÉROLA

Antigamente tinha os japoneses por estranhos não apenas por causa das suas exclamações pronunciadas em vogais arfadas mas sobretudo pela densidade de máquinas fotográficas que uma multidão deles carregava consigo, sempre em uso, abstractos da importância do momento e da conveniência do gesto. Actualmente, com a invenção do telemóvel–fotografador parece que a doença se propagou ao resto da humanidade. Não há ocasião que se suspeite assim mais importante que não haja logo dúzias que rapem do telemóvel para lhe dar uso fotográfico. Vale a pena parodiar essa compulsão através destas duas versões do quadro da Rapariga com Brinco de Pérola de Johannes Vermeer (Século XVII): é que, houvesse já então telemóveis e a pintura de Vermeer perderia toda a importância.