Intermezzo para assinalar dois livros interessantes sobre o Japão durante e após a Segunda Guerra Mundial. Bibliograficamente, e por causa do nosso eurocentrismo, costuma ser o teatro secundário daquela magno conflito. No primeiro caso, trata-se de uma recolha de testemunhos variados de como os japoneses viveram a guerra (que, para eles, havia começado muito mais cedo, com a sua invasão da China em 1931). No segundo, é um relato circunstanciado do que aconteceu durante o julgamento de Tóquio, a versão asiática dos julgamentos de Nuremberga, mas com muito menos repercussão moral, já que os americanos estiveram, desde o início, apostados em poupar o imperador Hirohito (que nem chegou a ser julgado). Estes são livros que mereceram o tempo que lhes dediquei, ao contrário de um outro livro sobre o Japão deste mesmo período, que comprei recomendado pela prémio Pulitzer que ganhara, e que aqui dei conta do quão desapontadoramente maçudo era.
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03 abril 2024
11 março 2024
A RENDIÇÃO - ASSAZ TARDIA - DO TENENTE HIROO ONODA
11 de Março de 1974. A notícia da rendição do tenente Hiroo Onoda do exército imperial japonês deu a volta ao Mundo, considerado o anacronismo de que a rendição formal do Japão havia tido lugar vinte e oito anos e meio antes... Mesmo assim, houve que ir convocar o antigo comandante de Onoda ao Japão para que este se apresentasse às autoridades filipinas. É uma daquelas notícias que só vale a pena apresentada superficialmente pela sua faceta anacrónica: é evidente que naqueles anos o tenente Onoda terá tido muitos contactos prévios com quem o teria informado da evolução da realidade no resto do Mundo. Nas fotos abaixo, a espada está velha e ferrugenta, mas Onoda terá adquirido calçado noutro sítio, por exemplo, porque aquilo que ele calça não tem aspecto de ter durado 29 anos... Hoje, tendo em atenção os resultados eleitorais de ontem do PCP (agora reduzido a um grupo parlamentar de quatro deputados, mais de 32 anos depois da dissolução da União Soviética), parece-nos um dia assaz oportuno para evocar este género de pessoas que se recusam teimosamente a reconhecer aquilo que aconteceu à sua volta, e permanecem fiéis a um ideal que já desapareceu.
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29 fevereiro 2024
A CAMPANHA DAS ILHAS DO ALMIRANTADO
(Republicação)
Apetece-me começar pela especulação de quantas pessoas conseguirão, à queima roupa, identificar onde se situam as ilhas do Almirantado... Mas a 29 de Fevereiro de 1944, e como antes acontecera com tantos outros nomes desconhecidos que se haviam tornado campos de batalha da Segunda Guerra Mundial, o nome tornara-se indispensável para as notícias do progresso da Guerra. Era a frente do Pacífico, um assunto quase exclusivo entre americanos e japoneses. Esta campanha que há oitenta anos começava, baptizado de Operação Brewer, consistia em mais um conjunto de desembarques anfíbios dos norte-americanos em ilhas que haviam previamente sido ocupadas pelos japoneses na sua fase de expansão de 1942. A superioridade dos primeiros era tal que a questão do desfecho nem se punha: era apenas uma questão de data e esta dependia do empenho dos japoneses na resistência ao óbvio. Neste caso concreto, os americanos gozavam de uma superioridade de 9 para 1 em efectivos e essa superioridade era ainda superior se se contabilizasse o poder de fogo somado dos três ramos das suas forças armadas. Em contraste, quando da contabilização final das baixas, virão a morrer 10 japoneses por cada americano. A ocasião tornava-se também propícia para aqueles generais que gostavam de cultivar a sua imagem, como é o caso abaixo de Douglas MacArthur, aparecerem a fingir fazer coisas.
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08 fevereiro 2024
A BATALHA DE PORTO ARTHUR
Porto Arthur - que hoje é conhecida por Lüshunkou - era uma cidade portuária do norte da China que os russos haviam ocupado para a transformar numa base naval para a sua frota do Extremo Oriente. E não haviam sido os únicos a fazê-lo. Como se depreende do mapa acima, outras potências - a Alemanha (Tsingtao), o Reino Unido (Weihaiwei) e o Japão (Seul) - haviam feito o mesmo. E todas se vigiavam reciprocamente num ambiente tenso. A 8 de Fevereiro de 1904, os nipónicos decidiram tomar a iniciativa e - sem qualquer declaração prévia de guerra - a sua frota atacou a sua homóloga russa ancorada em Porto Arthur. O ataque foi desencadeado pela calada da noite e a acção preponderante dos atacantes foi o lançamento de torpedos visando os navios russos acostados. Mas só 3 dos 16 torpedos lançados atingiram alvos. A frota japonesa afastou-se para depois regressar já de dia, por causa de relatos optimistas demais do sucesso do primeiro ataque. E aí passou um mau bocado, devido ao efeito combinado da frota russa e das suas baterias costeiras que protegiam o porto. No computo global os russos sofreram cerca de 150 mortos, os japoneses 90, e as imagens da acção exibidas abaixo pela propaganda japonesa não têm nada a ver com o que aconteceu. Para os especialistas a batalha saldou-se por uma vitória táctica para os russos, mas uma vitória estratégica para os japoneses, já que a frota russa do Extremo Oriente ficou paralisada no porto, tornando-se, em vez de um activo, um fardo para o esforço de guerra russa. Essa e muitas outras lições se iriam extrair da guerra russo-japonesa que então começava e que só terminaria no ano seguinte com a vitória japonesa. Mas duas lições se extraem desta iniciativa do Japão: em primeiro lugar, que eles eram capazes de atacar quem considerassem inimigo sem qualquer pré-aviso formal (como tornariam a fazer em 1941 em Pearl Harbor); em segundo lugar, que conseguiam ser de um optimismo delirante quando avaliavam as baixas causadas ao inimigo (isso iria ser um erro recorrente de todas as batalha aeronavais que travaram durante a Guerra do Pacífico).
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14 dezembro 2023
UM EPISÓDIO «ME TOO» NA DIETA JAPONESA, HÁ 75 ANOS
14 de Dezembro de 1948, na Dieta japonesa assistiu-se a uma cena tão rara quanto pouco edificante, quando um embriagado ministro das Finanças, Sanroku Izumiyama, começou a assediar uma das deputadas, a sra. Haruye Yamashita, da oposição. O ministro, que tomara posse há dois meses e que se deveria estar a preparar para uma complicada sessão nocturna de trabalhos para a aprovação de um orçamento suplementar em vez de fazer figuras tristes, era a figura de 52 anos que a fotografia acima documenta. Também podemos ver acima a assediada, uma senhora casada de 47 anos, já avó. Alguns pormenores adicionais podem extrair-se da leitura da notícia da época. Como é óbvio concluir, todo o episódio terminou com a apresentação da demissão por parte do ministro, que não aqueceu o lugar. Menos óbvio foi a consequência para a deputada, que perdeu o seu lugar nas eleições subsequentes, que tiveram lugar no mês seguinte, em Janeiro de 1949. Porém, se a carreira de Izumiyama praticamente morrera, a da sra. Yamashita recuperou, tendo sido reeleita em 1952, permanecendo na Dieta até 1960.
06 novembro 2023
A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL
(Republicação)
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue anteriormente). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.
24 outubro 2023
A FOTOGRAFIA DA DECAPITAÇÃO DE UM PRISIONEIRO AUSTRALIANO
Esta fotografia tem precisamente 80 anos. Foi tomada por um soldado japonês, a pedido do oficial executor, em Aitape, que era então uma pequena povoação costeira nas costa norte da Nova Guiné sob controle japonês. Sabe-se que o executor se chamava Yasuno Chikao, mas pouco mais se sabe dele, nem mesmo há certezas sobre o que lhe veio a acontecer posteriormente. Em contrapartida, sabe-se que o executado era o sargento australiano Leonard Siffleet de 27 anos, que fora capturado cerca de duas semanas antes. Participava numa operação clandestina em território inimigo, em que lhe competia verificar e reportar o dispositivo militar que os japoneses haviam instalado naquelas paragens, depois de as haverem conquistado durante o primeiro semestre de 1942. Siffleet nem sequer fora capturado directamente pelos japoneses, mas sim por nativos hostis às suas actividades que o haviam entregue posteriormente, com a sua equipa, aos japoneses. A fotografia só chegou ao conhecimento dos Aliados em Abril de 1944, descoberta na posse de um oficial japonês morto - também é daquelas fotografias que, se encontradas na posse de um inimigo, se ele não estiver morto, passa rapidamente a estar... É uma daquelas fotografias simbólicas da Guerra do Pacífico, demonstrativa de como os códigos de conduta para com os prisioneiros de guerra não se encaixaram de todo entre os dois lados beligerantes. Depois de 1945, estas fotografias tornaram-se incomodativas na sua verdade cruel, pois os japoneses passaram a ser aliados dos americanos e australianos.
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22 outubro 2023
A TROCA DE CIDADÃOS NA ÍNDIA PORTUGUESA
(Republicação)
22 de Outubro de 1943. Em Mormugão (Goa), dão-se por concluídos os procedimentos de mais uma permuta de cidadãos de países beligerantes que se encontravam do lado errado quando da eclosão da guerra. Neste caso, a permuta envolvia cidadãos de países aliados que se encontravam em territórios controlados pelo Japão e cidadãos nipónicos que residiam na América do Norte ou do Sul. Cada uma das partes transportava os cidadãos do inimigo num navio até um porto neutral escolhido por ambas, para aí proceder ao transbordo e identificação dos cidadãos entregues e recebidos. No caso da guerra na Ásia, Portugal desempenhava nestas operações um papel incontornável, pois era o único país que permanecera neutral e que dispunha de territórios e portos no Oceano Índico onde se podiam processar tais operações. Para não serem atacados pelos submarinos, os navios que as realizavam estavam enfaticamente identificados como se pode ver pelas fotografias acima. O navio usado pelos Aliados navegava até sob pavilhão sueco, o Gripsholm; o usado pelos japoneses era um antigo navio francês, o Aramis, que haviam rebaptizado de Teia Maru depois de o apresarem em 1942. A viagem deste último, desde a saída de Yokohama em 14 de Setembro até chegar a Mormugão um mês e um dia depois, explicará mais em concreto em que consistiam estas «trocas de cidadãos». Saído com 80 passageiros do Japão, foi embarcar mais 975 a Xangai a 19 de Setembro, 24 a Hong-Kong a 23 de Setembro, foi buscar mais 130 às Filipinas a 26 de Setembro, 27 ao Vietname em 30 de Setembro e ainda 289 a Singapura em 5 de Outubro. Ao chegar a Mormugão, em 15 de Outubro de 1943, o Teia Maru trazia 1.525 passageiros. Havia muitos membros do clero, padres e freiras, também missionários protestantes, também havia executivos de empresas norte-americanas que operavam na Ásia e respectivas famílias. A grande maioria era norte-americana (1.233), mas também havia canadianos (217), alguns britânicos, mas também cidadãos de outros países neutrais (15 chilenos) que haviam preferido abandonar os países que os albergavam. No dia seguinte chegou o Gripsholm, que havia realizado uma viagem semelhante, trazendo a bordo os 1.340 cidadãos japoneses que regressavam também ao seu país. Os dois navios ficaram acostados próximos, como a fotografia acima documenta, mas foi só três dias depois, a 19 de Outubro, após a identificação de todos os passageiros, que o transbordo de pessoas e bagagens teve lugar. Depois de conferido, o Teia Maru largou a 21 de Outubro para Yokohama, via Singapura e Manila, o Gripsholm fê-lo no dia seguinte (há precisamente 80 anos) para Nova Iorque, via Porto Elizabeth (na África do Sul) e Rio de Janeiro. Nesse dia a United Press publicava dois pequenos despachos em que dava conta da satisfação das duas partes pela forma como a operação tinha decorrido. Era um ponto a favor de Portugal.
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16 outubro 2023
O DESDOBRAMENTO DA CARREIRA
Numa daquelas notícias bem dispostas que nos chegam de todos os lados do mundo, ficamos a saber que, no Japão, a companhia aérea JAL teve que proceder cautelosamente ao desdobramento de um voo doméstico de onde constava na lista de passageiros uma ampla selecção de lutadores de sumô, que, como a imagem acima documenta, são aquele género de passageiros que tendem a preencher de uma maneira exuberante, com os seus 120 kg de peso (em média), o espaço de qualquer aeronave - repare-se como, na foto acima e para contraste, as bagageiras do tecto até parecem estar vazias... Os 27 lutadores que colectivamente conseguiam desequilibrar as previsões para a lotação de um Boeing 737, foram transportados num avião especialmente alocado para o efeito, aquilo que em Portugal sempre se designou nos transportes rodoviários por desdobramento da carreira (abaixo), algo que era praticado quando havia passageiros em excesso. Aqui, talvez não houvesse passageiros em excesso, talvez acontecesse é que alguns passageiros fossem excessivos... De acordo com os jornais locais, os atletas foram participar num torneio que se disputou em Amami Oshima, uma das ilhas do Sul do Japão e regressaram do mesmo modo, num avião só para eles.
12 outubro 2023
A CONDENAÇÃO POR CORRUPÇÃO DO ANTIGO PRIMEIRO-MINISTRO JAPONÊS
12 de Outubro de 1983. O antigo primeiro-ministro japonês Kakuei Tanaka é condenado a quatro anos de prisão pelos subornos que recebera da construtora aeronáutica americana Lockheed. Os factos remontavam a 1972, um primeiro escândalo que levara à demissão de Tanaka ocorrera em 1974 e em 1976 ele chegara a ser preso preventivamente. O julgamento - pelo menos um primeiro julgamento... - concluía-se sete anos depois daquela prisão preventiva. São evocações destas que não nos esmorecem o ânimo de que, ainda algum dia, haveremos de ver José Sócrates como réu de um tribunal... apesar de já se terem passado nove anos depois da sua prisão preventiva.
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05 outubro 2023
O REGRESSO A WAKE
(Republicação)
Já aqui me referira à Batalha de Wake, uma batalha que foi muito explorada para efeitos de propaganda pelos norte-americanos, transformada num filme épico de resistência das suas armas à expansão japonesa, mas que culminou numa derrota, mesmo assim, em finais de Dezembro de 1941. Anormal para as circunstâncias em que se travava a guerra dos atóis do Pacífico foi que, conjuntamente com os cerca de 400 militares sobreviventes da guarnição, os japoneses haviam capturado mais de mil prisioneiros civis, trabalhadores da construção encarregados da ampliação das infraestruturas, que, tendo também colaborado na defesa da ilha, foram tratados de igual modo pelos japoneses.
A maioria dos prisioneiros foi transportada para campos de prisioneiros no Japão e na China. Porém, passados seis meses depois da conquista, ainda não se havia conseguido concluído esse transporte quando os japoneses perderam a superioridade militar na Guerra do Pacífico depois da decisiva derrota na Batalha de Midway. As comunicações de Wake com o exterior tornaram-se muito mais difíceis, atormentadas pelos ataques tanto da aviação como dos submarinos norte-americanos. Wake estava totalmente dependente dos reabastecimentos do exterior. E assim, para poupar bocas inúteis e por receio de um desembarque eminente dos norte-americanos, o comandante da guarnição, Shigematsu Sakaibara, mandou executar friamente os 98 prisioneiros remanescentes na ilha em 5 de Outubro de 1943. Há precisamente 80 anos.
Aconteceu que um dos prisioneiros escapou e teve tempo para gravar uma rocha assinalando o que ocorrera (fotografia mais acima). Mas era impossível um prisioneiro manter-se evadido numa ilha onde 2.000 japoneses estavam compactados em 6 km². Foi recapturado e terá tido o privilégio de ser pessoalmente decapitado por Sakaibara. Os japoneses não atribuíram importância à rocha até à capitulação japonesa, que em Wake só se veio a verificar a 7 de Setembro de 1945, 4 dias depois da assinatura da rendição em Tóquio. Os vencidos terão sido até imensamente prestáveis (acima). Só depois os vencedores se aperceberam daquilo que acontecera. A fotografia do julgamento de Sakaibara, em que ele aparece, de gravata, em uniforme norte-americano e não como o almirante da Armada imperial japonesa que era, antecipa a sentença…
Shigematsu Sakaibara foi executado por enforcamento em 19 de Junho de 1947. No seu último depoimento dizia que considerava o seu julgamento completamente injusto e a pena a que fora condenado demasiado severa mas que, apesar de tudo, submetia-se a ela com prazer…
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01 setembro 2023
O GRANDE TERRAMOTO DE TÓQUIO DE 1 DE SETEMBRO DE 1923
O grande terramoto que praticamente destruiu Tóquio, ocorreu às 11H58 (hora local) de há cem anos, e terá custado um total de 142.000 vítimas mortais, para além de ter deixado 1,9 milhões de desalojados. Teve uma magnitude de 7,9 na escala de Richter e a sua duração terá oscilado entre os quatro e os dez minutos, dependendo dos testemunhos. Ficaram registadas 57 réplicas. Como acontece quando estes fenómenos acontecem em áreas densamente povoadas e ribeirinhas (vale a pena evocar o caso de Lisboa em 1 de Novembro de 1755), as causas para se terem registado tantas vítimas são múltiplas. Para além da destruição dos edifícios, há os incêndios subsequentes, as consequências do tsunami e dos deslizamentos de terras provocados pelo sismo. O mapa abaixo evidencia as áreas de Tóquio e arredores que foram mais atingidas, estimando-se um total de 570.000 edifícios destruídos. Como aconteceu em Lisboa com a baixa pombalina, o esforço de reconstrução tomou muitos dos anos seguintes. Esforço enorme esse que foi totalmente desperdiçado dali por vinte e um anos e meio, por ocasião da Operação Meetinghouse, em 10 de Março de 1945. Mas aí a catástrofe não foi natural...
27 agosto 2023
AS CONVERSAÇÕES DAS SEIS PARTES
(Republicação)
27 de Agosto de 2003. Tinha lugar a primeira ronda das Conversações das Seis Partes (Six-party talks). As seis partes eram (por ordem alfabética): China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia. E o tópico era o programa nuclear norte-coreano. Dois dias depois as conversações eram suspensas e agendada nova ronda para daí a seis meses. Segundo os diplomatas experimentados em conversações com coreanos, a primeira ronda correra excepcionalmente bem. O armistício de Panmunjon de 1953 demorara mais de dois anos a ser negociado, todos os pormenores eram objecto da mais minuciosa negociação. Mas aqui conseguira-se fixar rapidamente um formato (hexagonal) e uma disposição para a mesa de negociações! No canto superior, realce-se o pormenor - sinal de importância - de que é o representante chinês o que fica mais próximo da porta. Na fotografia acima, e embora os negociadores norte-americanos sejam dos que mais gostam de se destacar nas fotografias, os dois representantes mais fotogénicos e bem dispostos ao centro são os da Rússia e da China. Foi há quinze anos. Seguiram-se outras cinco rondas. Donald Trump ter tido a pretensão de que se resolvia tudo isto com uma cimeira foi uma estupidez, uma arrogância, uma ignorância, uma presunção, uma mediocridade.
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11 maio 2023
A BATALHA DE ATTU
(Republicação)
11 de Maio de 1943. A ilha de Attu é a mais ocidental e a mais remota das ilhas do arquipélago das Aleútas no Alaska, território dos Estados Unidos. Tem 893 km² mas um clima terrível e a sua população nunca foi além das poucas centenas de pessoas. Hoje é desabitada. Mas, em 7 de Junho de 1942, os japoneses haviam ali desembarcado para criar um ponto de fixação que pudessem posteriormente utilizar conforme a evolução da Segunda Guerra Mundial no Teatro de Operações do Pacífico. Poderiam usar a ilha para ameaçar os Estados Unidos continentais; poderiam também usá-la como uma cunha nas comunicações entre os norte-americanos e os seus aliados soviéticos, caso estes últimos viessem a entrar em guerra com o Japão. Mas há precisamente oitenta anos, menos de um ano depois da invasão e ocupação japonesas, os norte-americanos desembarcaram por sua vez na ilha, para desalojar os japoneses. A batalha durou 18 dias e, apesar de se estar em Maio, parte dos combates travaram-se em condições meteorológicas em que chegou a nevar, como se se tratasse da campanha da Rússia. Dada a desproporção dos efectivos (os 15.000 atacantes eram cinco vezes mais do que os 3.000 defensores), o desfecho da batalha nunca esteve em causa, apesar da ferocidade suicida da resistência japonesa. No final, os norte-americanos fizeram apenas 28 prisioneiros, o que representava apenas 1% da guarnição japonesa. O seu comandante, o coronel Yamasaki, morreu apropriadamente, liderando uma última carga suicida à baioneta sobre o inimigo. Entre as baixas sofridas por este último, foram mais as ocorridas por doenças e pelo frio (1.814) do que as causadas directamente pelos combates (1.697). Numa Guerra do Pacífico dominada pelas condições tropicais em que a esmagadora maioria dos combates foram travados, este episódio é uma curiosa e pouco conhecida excepção.
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18 abril 2023
A MORTE MATADA DO ALMIRANTE YAMAMOTO
(Republicação)
18 de Abril de 1943. Protegidos por uma meia dúzia de caças Zero, dois bombardeiros Mitsubishi G4M Betty japoneses preparavam-se para aterrar no aeródromo de Kahili, que se situa na extremidade meridional da ilha de Bougainville (mapa abaixo), quando, subitamente e surgidos de sudoeste e a rasar o mar para escapar à detecção, surge uma esquadrilha de 16 P-38 Lightning norte-americanos. Descartando os Zeros e aproveitando-se da superioridade numérica, os atacantes concentram-se nos aviões maiores e abatem-nos em sucessão sobre a selva que cobre a ilha. Apenas mais um episódio das centenas que ocorrerão naquele dia no quadro da Frente do Pacífico da Segunda Guerra Mundial então em curso? Não, porque a bordo de um dos bombardeiros abatidos viajava o almirante Isoroku Yamamoto que morrera na queda do aparelho que o transportava. E não, porque, como anos depois se virá a saber, a presença dos aviões americanos naquele local e àquela hora (09H35) não fora acidental. Desde há vários anos que os americanos conseguiam decifrar os códigos japoneses. E, no princípio daquele mês, os serviços de intercepção haviam descoberto que Yamamoto iria realizar uma visita de inspecção às forças aeronavais japonesas nas ilhas Salomão. A incúria japonesa chegara ao ponto de transmitir o programa da visita de Yamamoto em mensagem rádio e os americanos ficaram a saber o programa tão bem quanto os comandos japoneses encarregues de receber Yamamoto.
Não só sabiam como dispunham dos meios militares para tirar partido da ocasião. A questão que se poria, ao almirante Halsey ou ao almirante Nimitz, homólogos de Yamamoto na marinha adversária, era um problema de ordem moral: Seria aceitável utilizar aquela vantagem para liquidar um grande chefe inimigo? A decisão não poderia dar lugar a novos expedientes de guerra, visando liquidar seleccionadamente as chefias militares inimigas? E a decisão não poderia, terminada a guerra e com outro quadro moral, voltar-se contra os próprios decisores? Nimitz consultou o seu staff que se inclinou para a validade da operação. Apesar de se conhecer a sua oposição estratégica a um enfrentamento militar directo com os Estados Unidos, fora Yamamoto quem concebera o plano de ataque inicial contra Pearl Harbor e nem a derrota de Midway ou o mais recente abandono de Guadalcanal o desvalorizara aos olhos dos americanos a ponto de deixarem de o considerar um dos principais activos do inimigo. Ironicamente, este respeito profissional por Yamamoto vai ser a causa desta espécie de sentença de morte. Na fotografia abaixo, vê-se Yamamoto nesse mesmo dia de há oitenta anos a cumprimentar os pilotos da base aeronaval de Rabaul, naquela que se acredita ser a sua última fotografia. A operação, denominada Vingança, foi mantida em segredo até ao fim da guerra, preservando o segredo de que os norte-americanos haviam quebrado os códigos japoneses.
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27 março 2023
O JAPÃO ABANDONA A SOCIEDADE DAS NAÇÕES
(Republicação)
27 de Março de 1933. O Japão abandona a Sociedade das Nações, depois das censuras públicas expressas pela Assembleia da organização, a respeito da sua conduta expansionista na China. Em O Lótus Azul, aventura de Tintin que se desenrola na China e que estava a ser desenhada nessa época, Hergé (o seu autor) refere-se ao incidente de uma forma que, não sendo rigorosa, é bastante credível. Compare-se com as imagens abaixo.
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26 março 2023
A BATALHA NAVAL DAS ILHAS KOMANDORSKI
26 de Março de 1943. A batalha naval das ilhas Komandorski (russas) travou-se há oitenta anos entre as marinhas de guerra dos Estados Unidos e do Japão no Norte do Pacífico, no local assinalado no mapa da direita. A esquadra japonesa, composta por dois cruzadores pesados, dois ligeiros, e quatro destróieres, escoltava um comboio de navios de reabastecimento para as guarnições japonesas nas ilhas Aleutas. A esquadra norte-americana, composta por um cruzador pesado, um ligeiro e quatro destróires (portanto, em inferioridade numérica e de poder naval) atacou os navios mercantes do comboio japonês na ignorância de que a sua escolta era-lhe superior. A batalha começou pela manhã - as primeiras salvas foram às 08H40 - duraram cerca de quatro horas. Cinco dos navios envolvidos foram atingidos mas nenhum foi afundado. O resultado táctico foi um empate, mas o resultado estratégico foi favorável à US Navy. A Marinha Imperial Japonesa considerou excessivos os custos para sustentar as suas guarnições nas Aleutas e acabou por as evacuar. Devido à localização remota da batalha, nenhuma das esquadras teve uma assistência aérea ou submarina, o que torna este uma dos poucas batalhas navais exclusivamente entre navios de superfície na Guerra do Pacífico e um dos últimos duelos puros de artilharia entre esquadras de grandes navios de superfície na História Naval.
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22 fevereiro 2023
DEPOIS DO MISTÉRIO DOS BALÕES NA AMÉRICA...
...temos o mistério das bolas de ferro que dão à praia no Japão. Saber do que se trata não se sabe, e quem se dispuser a ler os detalhes da notícia percebe que a bola já lá estava esquecida naquela praia há mais de um mês, antes portanto dos misteriosos balões americanos que provocaram esta última moda dos objectos misteriosos. Mas, mesmo com atraso, o que é mais importante em jornalismo já está feito: dar-lhe uma alcunha apelativa - Dragon Ball. Digam lá se o trocadilho não tem piada...
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04 junho 2022
O 80º ANIVERSÁRIO DA BATALHA DE MIDWAY
A decisiva batalha de Midway travou-se entre 4 e 7 de Junho de 1942 em pleno centro do Oceano Pacífico. Mas a sua preparação e execução do plano (japonês) que a iria desencadear começara algum tempo antes, a 26 de Maio: a mais formidável armada da história naval japonesa largara dos portos do Japão para lançar um repto à sua rival norte-americana. Comandava pessoalmente a frota que se iria engajar na operação o almirante Yamamoto, o autor do ataque de surpresa a Pearl Harbour que, seis meses depois, comprovava que o efeito daquele ataque não tivera consequências duradouras para o exercício da supremacia naval japonesa sobre os oceanos Índico e, sobretudo, Pacífico. Ainda no mês anterior o desfecho indeciso da Batalha do Mar de Coral provara que os navios dos Estados Unidos não haviam sido corridos dos mares, o que, considerando a dimensão gigantesca das futuras frotas de guerra entretanto em construção nos estaleiros americanos, tornava imperativo o confronto naval e a destruição do inimigo, para impedir que as esquadras de hoje se juntassem com as de amanhã. E para forçar o inimigo ao confronto naval há que escolher um objectivo que se sabe que ele não cederá sem combate.
Midway é um atol solitário no centro do Pacífico norte. Originalmente, a flora reduzia-se a cardos e a fauna resumia-se a hordas incontáveis de aves marinhas. Mesmo depois de ocupada e dos aterros, a área das ilhas juntas cinge-se a seis quilómetros quadrados. Mas é o único ponto emerso no oceano em milhares de quilómetros em redor. As ilhas Havai estão a mil milhas marítimas de distância. Uma força aeronaval que a ocupe pode ameaçar continuamente a mesma base de Pearl Harbour que fora o objecto do ataque original de 7 de Dezembro de 1941. Se o Japão tivesse mais meios poderia ter conquistado facilmente Midway nessa altura. Mas não os tinha e as defesas do atol foram reforçadas nos seis meses que se seguiram. Mais do que organizados, os meios de defesa amontoavam-se. Nesses primeiros dias de Junho de 1942, há destacamentos de engenharia a alargar as três pistas de aviação e a enterrar o mais possível, para os proteger dos bombardeamentos, hangares, armazéns, aquartelamentos, depósitos de combustível, um hospital, uma central eléctrica, outra de destilação de água do mar. Entretanto a água doce está racionada e o álcool está proibido, mas o mercado negro é expediente que aparece em todo o lado... Midway tornara-se numa espécie de porta-aviões inafundável mas estático, onde se concentravam 130 aviões - mas de 8 tipos diferentes e oriundos de três ramos diferentes: Marinha, Fuzileiros e Força Aérea do Exército.
Mas no grande quadro do que é decisivo para o desfecho das batalhas e ignorado pelos japoneses, os norte-americanos possuíam uma enorme vantagem: sabiam das intenções do inimigo. Fazia anos que haviam quebrado o código japonês e conseguiam ler as suas comunicações. E quando as intercepções não eram esclarecedoras, havia expedientes a que podiam recorrer. Neste caso, sabia-se dos grandes preparativos da armada de Yamamoto mas não se sabia qual era o seu objectivo, sempre mencionado cripticamente por AF. Então os serviços de cifra norte-americanos mandaram cada um dos objectivos prováveis enviar uma mensagem falsa, não cifrada, mas identificativa de origem. No caso de Midway o pretexto era o aparelho de destilação que se avariara. No dia seguinte, as informações interceptadas aos japoneses davam conta que AF estava com falta de água doce... Ao contrário do que acontecera em Pearl Harbour, ao comandante de Midway, o capitão-de-fragata Cyril Simard (abaixo), chegou antecipada e prestimosamente a informação de que iria ser atacado a 4 de Junho... Ao mesmo tempo, e em completa sintonia com os desejos do almirante Yamamoto, o seu oponente Nimitz formara e encaminhara para as proximidades de Midway a maior esquadra aeronaval que a US Navy conseguira reunir.
A batalha começou assim envolvida por uma evidente assimetria entre os contendores: enquanto os japoneses estavam concentrados em derrotar as forças norte-americanas de Midway, esperando com isso atrair (e derrotar) a esquadra inimiga (o objectivo último da expedição), os norte-americanos só estavam à procura dos japoneses para lhes assestar o golpe inicial e decisivo, uma tarefa que, soando simples nos propósitos, era muito mais complicada do que aquilo que poderá parecer à primeira vista na implementação, considerada a imensidão do oceano e a multiplicação de rotas que os japoneses poderiam adoptar para chegar a Midway - e essas opções tácticas já não estavam ao alcance da descodificação dos seus serviços de intercepção. O ataque aéreo japonês começou de madrugada. O radar instalado na ilha já não permite a repetição de surpresas como as de Pearl Harbour. São mais de 100 aviões que atacam Midway dos quais 1/3 são caças Mitsubishi Zero (abaixo), à época muito superiores a quaisquer oponentes que os Estados Unidos pudessem apresentar. Dos 26 pilotos das esquadrilhas algo compósitas que descolaram para os enfrentar, apenas 9 puderam obedecer à ordem surgida vinte e cinco minutos para aterrar e reabastecer. E desses, só 2 trazem um aparelho operacional para voltar a descolar. Foi a hecatombe da aviação de Midway.
E no entanto, os estragos provocados pelos bombardeamentos aos alvos em terra, ainda que parecendo importantes, não se afiguram ter tido grande efeito na moral dos defensores, o fogo das anti-aéreas continua a causar baixas entre os atacantes, é o próprio oficial piloto aviador que comanda a vaga atacante, o primeiro-tenente Tomonaga que, ao regressar com 10 aparelhos a menos, se faz preceder por uma mensagem: «Necessário segundo ataque». Será uma sugestão crucial para o desfecho da batalha. Porque as esquadrilhas de bombardeio que o comando japonês mantivera até aí em reserva para a eventualidade de ter que as activar contra uma esquadra norte-americana, vai agora reconvertê-las com armamento para ataque ao solo (é distinto do armamento anti-navio). Estavam os quatro porta-aviões japoneses nessas funções logísticas de reequipar os aviões a bordo e recolher os que haviam participado no ataque a Midway, quando começaram a chegar as primeiras informações dos seus aviões batedores de que havia uma esquadra norte-americana por perto. E que esquadra! Os norte-americanos haviam concentrado ali todo o poder aeronaval que haviam podido arrebanhar - três porta-aviões e 232 aviões versus os quatro porta-aviões e 248 aviões dos japoneses.
Mas, por essa altura, os japoneses ainda não haviam descoberto a dimensão da ameaça que impendia sobre eles mas estavam, apesar de tudo, apreensivos porque haviam sido apanhados impreparados para a eventualidade de enfrentarem uma esquadra inimiga. E a doutrina da guerra aeronaval (agora complementada com a experiência da batalha do Mar de Coral) mostrava a vantagem de quem se apropriasse da iniciativa e assestasse o primeiro golpe sobre os navios adversários. Desde as 07H00 da manhã que os porta-aviões norte-americanos estavam a lançar as suas esquadrilhas. Algumas dessas esquadrilhas perderam-se no mar e perderam-se para a batalha, nunca chegaram a encontrar a esquadra japonesa, outras houve que foram apanhadas pelo fogo anti-aéreo dos navios nipónicos e pelos Zeros que os defendiam em altitude e foram devastadas: dos 41 aviões torpedeiros engajados apenas 5 sobreviveram para regressar aos porta-aviões de origem. E no entanto, por terem assumido a iniciativa e atacado primeiro os porta-aviões japoneses, os norte-americanos só precisavam de ter o seu momento de sorte. E tiveram-no, cerca das 10H30 da manhã, quando os bombardeiros Dauntless (acima) chegaram e os japoneses ainda estavam preocupados em avaliar as baixas do ataque anterior (dos aviões torpedeiros). Em escassos cinco minutos aqueles bombardeiros de mergulho atingiam três porta-aviões japoneses e tornavam-nos inoperacionais...
Nesses cinco minutos a batalha ficara decidida. Do ponto de vista aeronaval, que era o que contava, já que os navios dos dois lados nunca se chegaram a aproximar, a grandiosa armada japonesa perdera num momento 3/4 da sua capacidade ofensiva. Perdera até a capacidade de dar a devida cobertura aérea à operação secundária de desembarque e conquista do atol de Midway. Aquilo que a Marinha imperial podia fazer - e fez - era retaliar com os aviões do porta-aviões sobrevivente, atacando por sua vez os porta-aviões do adversário. E os norte-americanos fizeram o mesmo. Perdido o efeito da surpresa os resultados dos ataques aéreos do resto do dia nivelaram-se: os japoneses afundaram um dos porta-aviões americanos e estes afundaram o último porta-aviões japonês. No final do dia 4 de Junho, a contabilidade das perdas (4-1) não oferecia quaisquer dúvidas quanto ao desfecho da batalha. E, embora desconfie que não houvesse pessoa alguma naquela época que possuísse o sangue frio e o distanciamento para analisar o problema dessa maneira, o desfecho do conflito entre o Japão e os Estados Unidos, que começara tão apenas seis meses antes, parecia selado. Como o almirante Yamamoto muito bem sabia, a paridade táctica entre os beligerantes não era acompanhada por uma paridade estratégica - os meios de combate que os Estados Unidos poderiam vir a produzir no futuro, mesmo com o país engajado numa outra guerra na Europa, eram incomensuravelmente superiores aos que o Japão poderia mobilizar. No limite, os Estados Unidos poder-se-iam dar ao luxo de perder a batalha de Midway sem que isso comprometesse o desfecho da guerra; o Japão, não, o Japão estava obrigado a vencer aquela e todas as grandes batalhas em que se empenhasse.
Há um exercício que se designa por história contrafactual que consiste em imaginar como teria sido a História se os acontecimentos não tivessem decorrido como ocorreram (vejam-se os exemplos sugeridos pelas capas dos livros acima). Imaginar um desfecho alternativo para a batalha de Midway costuma ser um dos favoritos para esses exercícios. Neles, as consequências da hipotética derrota dos norte-americanos em Midway costumam ser hipertrofiadas, arrastando consigo a perda não apenas do atol, mas também das próprias ilhas Havai (o que é muito contestável, dado que, como vimos, o Havai está a mil milhas náuticas de distância de Midway). Mas o que me parece errado numa grande parte dessas análises é que elas se dispersam pelos pormenores. Teria a vitória japonesa em Midway afectado a capacidade norte-americana de produção de meios de combate? Não, mesmo considerando a perda das ilha Havai. Teria a vitória japonesa em Midway afectado o ânimo e a determinação moral do povo norte-americano em prosseguir a guerra? Muito provavelmente não, quando se recorda a forma como esse povo encarava o processo (traiçoeiro) pelo qual fora arrastado para o conflito. É evidente que, do ponto de vista dos acontecimentos, ele teria que ter decorrido de outra forma, com um outro calendário, a guerra a terminar em 1946, 1947, talvez depois, mas o desfecho nunca seria diferente. Aliás, a História dá-nos lições preciosas e dificilmente poderemos encontrar derrota mais arrasadora do que a dos romanos na batalha de Canas (216 a.C.); mas no entanto foram os romanos e não os cartagineses que saíram vencedoras da Segunda Guerra Púnica.
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30 maio 2022
O MASSACRE DO AEROPORTO DE LOD
30 de Maio de 1972. Eram já 10 da noite quando três passageiros japoneses chegaram ao aeroporto de Lod vindos de Roma num voo da Air France. O aeroporto de Lod - hoje baptizado de Ben Gurion - é o principal aeroporto de Israel, servindo simultaneamente Tel Aviv, a capital administrativa, e Jerusalém, o principal destino turístico. Os três passageiros estavam vestidos discretamente, à ocidental, e traziam consigo, cada um, um estojo fino de violino. Ao chegarem à sala de espera, abriram-nos e de lá tiraram uma arma automática vz. 58 de concepção checa (abaixo) sem coronhas, para que coubessem nos estojos de violino. E começaram a disparar indiscriminadamente contra passageiros e funcionários do aeroporto, a começar por um grupo próximo de peregrinos (cristãos) de Porto Rico. Foi entre aquele grupo que se registaram 17 dos 26 mortos do ataque terrorista. Mas além dos mortos, o tiroteio provocou cerca de 80 feridos. No final, as autoridades israelitas nunca publicaram os resultados das perícias dos ferimentos, para que não se admitisse, pública e oficialmente que uma percentagem das vítimas havia sido alvejada por fogo das autoridades. Apenas um dos terroristas sobreviveu ao ataque.O processo de subcontratação dos atentados terroristas foi uma completa surpresa para os serviços de segurança de todo o mundo. A começar pelo Mossad, que é sempre tão cuidadoso a promover-se pelos seus sucessos. Mas o meu comentário final vai a fotografia acima, da sala de espera do aeroporto onde o tiroteio começou, com as bagagens perdidas e dispersas e onde o chão se encontra ainda sujo do sangue das vítimas, e em que, com grande probabilidade, o estojo do violino que se vê esquecido, teria pertencido a um dos assaltantes.
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