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16 junho 2024

UMA VIAGEM AO PASSADO FALANDO SOBRE «A BOLHA» DOS CONSPIRADORES PROFISSIONAIS REVOLUCIONÁRIOS

Muito me surpreenderá se houver um leitor do Herdeiro de Aécio que reconheça a pessoa do retrato acima. A Wikipedia resolve o problema: trata-se de Filippo Buonarroti (1761-1837), que a página respectiva descreve como um «revolucionário e teórico socialista italiano radicado em França». Quanto ao retrato, a Wikipedia não esclarece, mas ele foi pintado por Philippe Auguste Jeanron (1808-1877). A acção predominante de Buonarroti foi, porém, em França, onde ele se tornou conhecido por ser um dos activistas mais radicais no período mais dinâmico da Revolução Francesa (1791-1797), é considerado alguém muito próximo do proto-comunista François Noël Babeuf (1760-1797), que veio a morrer na guilhotina em resultado de uma conspiração - conhecida pela Conspiração dos Iguais - intentada contra o governo do Directório. Apesar de envolvido na conspiração, Buonarroti sobreviveu com uma pena de desterro e é como teórico - mas sempre conspirador - que ele se vem a tornar famoso, quando publica em 1828 o livro acima: Conspiração para Igualdade dita de Babeuf. Repare-se o pormenor que o livro foi editado em Bruxelas, que fazia parte então do Reino dos Países Baixos e onde Buonarroti estava então exilado. A obra foi muito bem acolhida, nomeadamente por teóricos revolucionários de gerações posteriores, os casos mais notáveis de Marx, Engels, Bakunin e Trotsky, todos eles produziram textos com referências elogiosas a Buonarroti. Preso por uma última vez ainda em Paris, em Outubro de 1833, aos 72 anos, Buonarroti vem a falecer cego na mesma cidade em 1837. Com esta história de vida, é considerado o percursor dos conspiradores profissionais que sacrificaram toda a sua vida pela luta por uma causa. Mas, remetido para aquela categoria implacável e talvez simplista de socialista utópico com que estes precursores vieram a ser mimoseados pelos conspiradores profissionais revolucionários do século seguinte, estes últimos esqueceram Buonarroti por completo.
O que é uma excelente deixa para apresentar esta outra fotografia, que foi tirada num dos anos finais do século XX (1997/8?) pelo fotógrafo Eduardo Gageiro. Trata-se de uma fotografia de conjunto dos dirigentes históricos do Partido Comunista Português (PCP). Sentados e da esquerda para a direita: António Dias Lourenço (1915-2010), Álvaro Cunhal (1913-2005), José Vitoriano (1917-2006), Joaquim Gomes (1917-2010) e Octávio Pato (1925-1999). Detrás, de pé e pela mesma ordem: Jaime Serra (1921-2022), Sérgio Vilarigues (1914-2007) e Fernando Blanqui Teixeira (1922-2004). Para os mais rigorosos e mais interessados, o elenco congrega não apenas os quatro membros eleitos para o Secretariado do Comité Central (CC) do PCP em 4 de Maio de 1974 (Cunhal, Gomes, Pato e Vilarigues), como também oito dos dez membros da Comissão Política desse mesmo Comité Central que foram eleitos nessa mesma altura, conforme se pode ler num documento da autoria de um dos presentes, Joaquim Gomes, que foi publicado em 1999 e de onde tomei a liberdade de retirar a lista que se pode apreciar mais abaixo, onde se dá conta de como ficou a composição do CC do PCP logo depois do 25 de Abril. Os nomes dos presentes na foto acima estão sublinhados. E nota-se aplicação e método na enumeração feita por Joaquim Gomes. Cada nome aparece acompanhado da antiguidade como militante, como funcionário do partido (i.e., trabalhando em exclusivo na actividade política clandestina), os anos de prisão, e também a antiguidade do militante como membro do CC. Estranhamente, o que ficou por nomear foi a idade de cada um. Assim, em 1974 aquela vanguarda mais esclarecida dos comunistas portugueses que nos aparece mais acima tinha uma idade média de 56 anos, estivera preso quase 10 anos, era militante há 37 anos, funcionário do PCP há um pouco mais de 29 anos e integrava o CC desde há 24 anos e meio.
Embora seja um pouco forçado este processo de sintetizar todos aqueles números acima evocados num retrato-robot da elite dos militantes comunistas quando da queda do Estado Novo, a verdade é que aqueles dados nos podem dizer muita coisa: todos eles se haviam tornado militantes muito novos, aos 19 anos em média (i.e. 56-37 anos) e tinham-se profissionalizado também muito cedo: cerca dos 27 anos (56-39) haviam-se passado a dedicar exclusivamente ao partido. Uma profissão que comportava muitos riscos: 10 anos de prisão da PIDE em média. Mas, precisamente por causa desses riscos, mas também por se considerarem uma vanguarda de cunho quase sacerdotal, não se pode dizer que eles pudessem compartilhar a vivência do povo que tanto invocavam. Na época ainda não se inventara a expressão «viver numa bolha» mas era precisamente o que acontecia com eles, discípulos longínquos de um Buonarroti, conspiradores profissionais dedicados à causa da revolução. A que surgiu em Abril de 1974, era-lhes favorável, mas ainda não era a revolução deles. E felizmente nunca foi a revolução deles. É precisamente isso e o que aconteceu depois do 25 de Abril no Portugal democrático que eu gostaria de enfatizar e que me levou a escrever este poste, baseando-me na fotografia de 1997/98, que foi tirada quase 25 anos depois do 25 de Abril. A fotografia mostra-nos que esse quarto de século em que Portugal passou a viver em Democracia, mesmo que essa circunstância tivesse feito desaparecer as ameaças que pendiam sobre os membros do CC nos 37 anos precedentes de militância comunista, parece não ter tido qualquer influência profissional na actividade de qualquer um deles veio a exercer. Haviam sido funcionários do partido antes de 1974 e aqui vêmo-los reformados de funcionários do partido. Precisamente, como agora se diz, na mesma «bolha».
Uma última nota para acrescentar esta outra fotografia com os mesmos, que foi provavelmente feita na mesma altura, mas onde a sua ordem é diferente. Octávio Pato mudou-se da extrema direita para a extrema esquerda sentada, desalojando Dias Lourenço que foi para a extrema direita levantada, enquanto Blanqui Teixeira ocupou o lugar sentado que fora o de Octávio Pato. Os outros ocupam os mesmos lugares. Nesta versão da foto, a debilidade física de Octávio Pato é notória e isso torna-se mais evidente pelo olhar que lhe dedica José Vitoriano (ao centro). Apesar de ser o mais novo dos oito, Octávio Pato será o primeiro a falecer, em Fevereiro de 1999.

31 maio 2024

A CARTA QUE NÃO TERIA MUDADO NADA DO CURSO DA HISTÓRIA

Aproxima-se a efeméride do Desembarque na Normandia (6 de Junho) e os jornais aproveitam-se da ocasião para, aproveitando-se da ignorância do público, redescobrir aquilo que já há muito era sabido. Que houve então uma «entrevista» «rude» entre Churchill e de Gaulle é algo que é sabido desde há pelo menos 60 anos (como se comprova do lado direito, já disponíveis as memórias dos dois homens). Que houve um esboço de uma carta de Churchill, nunca enviada a de Gaulle, formalizando as suas posições por escrito, é irrelevante. Como se percebe pela passagem do livro de História acima, Churchill já havia dito na sua essência e de viva voz a de Gaulle o que ele pensava da sua conduta. Aliás, nenhum dos dois documentos acima afixados o recorda, mas consultando este blogue pode ficar-se a saber que a legitimidade a que de Gaulle alude naquela famosa discussão tempestuosa com Churchill era coisa que, para além de discutível, era recentíssima: o Governo Provisório da República Francesa (GPRF) aparecera no dia anterior ao desta famosa discussão! Quanto à pretensão do artigo do The Guardian (à esquerda) de que o envio dessa carta poderia ter alterado o curso da História, isso é, no mínimo, especulativo. Que essa carta teria «seguramente» o poder de «acabar com a carreira política de de Gaulle», isso já nem é especulação, é apenas disparate.

19 maio 2024

IMAGENS DE OUTROS SANTOS PORTUGUESES – 2

70º aniversário da morte de Catarina Eufémia. Republicação
A fotografia acima é um retrato (como então se dizia) típico dos anos cinquenta de uma mulher pobre – uma verdadeira proletária, no sentido marxista do termo – como se comprova pela modéstia dos adornos visíveis que usa: um colar simples com uma medalha. Chamava-se Catarina Eufémia, era uma trabalhadora rural que encabeçava uma manifestação reivindicativa quando foi morta pela GNR em 19 de Maio de 1954 em Baleizão no Baixo Alentejo. A sua condição de proletária e de analfabeta torna muito improvável a afirmação que ela fosse uma militante clandestina do PCP, conforme este último ainda hoje reclama.
Mas uma coisa é certa: o PCP dispôs de outros candidatos a santos mártires pela causa (como será o caso de José Dias Coelho), mas foi nela que apostou decisivamente para esse papel, sobretudo depois do 25 de Abril. Como aconteceu com Ribeiro Santos, a representação de Catarina Eufémia tornou-se estilizada, usando um jogo de padrões claro/escuro que se tornasse reconhecível nas pinturas murais (acima). E houve até quem tivesse ido mais longe e tentado tornar a imagem da Santa um pouco mais misteriosa e atractiva, invertendo-a no seu eixo vertical, como se pode observar neste cartaz abaixo, datado de 1980…
Em complemento ao texto inicial, vale a pena publicar a notícia da época, publicada no Diário de Lisboa do dia seguinte, que dá conta da «impressionante manifestação de pesar» do seu funeral. Como a realidade frequentemente vem acompanhada de ironia, o nome da vítima aparece trocado: Maria da Graça Sapinho, em vez de Catarina Eufémia... O episódio é dado como acidental e o autor dos disparos, o tenente Carrajola, é dado como estando sob prisão, em Évora. E vale a pena assinalar que, pelo conteúdo, parece não ter havido intervenção da censura na publicação da notícia. É um daqueles casos em que agora não se menciona esse aspecto, mas, caso tivesse havido censura à notícia, a propaganda do PCP não deixaria de o realçar.

06 maio 2024

PORTUGAL 6, BRASIL 0, E O RICARDO COSTA É UMA LÁSTIMA A ARBITRAR

Este é um daqueles momentos que é uma verdadeira angústia do ponto de vista científico e académico, tal é o desequilíbrio de cultura e conhecimentos entre o historiador português João Pedro Marques e a jornalista brasileira Giuliana Miranda. Uma pessoa normal apercebe-se que a cena é um massacre intelectual: naquilo que concerne especificamente ao tópico da escravatura transatlântica, o primeiro estudou-o aprofundadamente, encadeia mesmo vários argumentos* arrasadores contra as pretensões brasileiras de se desresponsabilizar por aquele comércio, enquanto a segunda acha umas coisas e limita-se a ripostar com umas interjeições que se pretendem pretensamente irónicas. Um conhece o assunto de que está a falar, a outra não faz nem ideia. Também, é uma mera jornalista... Escrevi mais acima que uma pessoa normal aperceber-se-ia do significado da cena, só que os anfitriões deste patético momento foram a SIC Notícias e Ricardo Costa, que não é uma pessoa normal: é um jornalista de televisão também particularmente ignorante como a Giuliana. Se o fosse (normal), Ricardo Costa teria compreendido o que estava a acontecer e interrompido o espectáculo, como o fazem os árbitros de boxe, para protecção do mais fraco quando se vê que há um desequilíbrio notório entre os contendores. Aqui não: o programa prosseguiu fingindo que os argumentos se equivaliam. Pobre Giuliana! Tonto Costa! (Recordo aqui que Ricardo Costa era alguém que, há quinze anos, julgava que as doze estrelas da bandeira europeia representavam cada uma os estados membros - ignorância por ignorância, recordemos que isto não é só a ignorância do número das quinas do Sebastião Bugalho, a classe dos opinadores está muito bem servida de tontos ignorantes...)

31 março 2024

TERRANOVA: A INDEPENDÊNCIA QUE DESCAMBOU NUM FIASCO…

(Republicação por ocasião do 75º aniversário da adesão da Terranova ao Canadá)
A Terranova, que é actualmente designada por Terranova e Lavrador (Newfoundland and Labrador, no original) é a décima província do Canadá. No entanto, poucos serão os que saberão que, embora o núcleo inicial de colónias canadianas se haja formado em 1867, a adesão da Terranova ao Canadá só ocorreu em 1949, ou seja, já depois do fim da Segunda Guerra Mundial e que, antes disso, o Canadá e a Terranova haviam trilhado percursos históricos distintos.

Depois das tentativas de colonização dos vikings no Século XI, no Século XV houve vários navegadores portugueses envolvidos na exploração daquelas terras. Mas estes mostraram-se mais interessados na exploração da riqueza dos bancos piscícolas adjacentes (especialmente na pesca do bacalhau) do que propriamente no assentamento em regiões meteorologicamente muito adversas, ainda para mais para quem estava habituado aos climas mediterrânicos.

Embora os portugueses tivessem acabado rapidamente por abdicar da disputa da posse daquelas costas da América, a sua participação inicial manteve-se viva na toponímia de Terranova (de que Newfoundland é uma tradução directa) e Labrador (por causa do descobridor, João Fernandes Lavrador). E, durante séculos, a região foi local de visita de pescadores vindos do outro lado do Atlântico: ingleses, franceses, irlandeses, escoceses, portugueses, bascos, castelhanos, bretões, etc.

Os britânicos acabaram por impor a sua hegemonia embora entre a população local se contasse uma contribuição importantíssima das minorias célticas britânicas(*), em comparação com os ingleses propriamente ditos. Não tendo feito parte inicialmente do Canadá, nem aderido posteriormente (em 1892, isso esteve quase a acontecer), em 1907, a Terranova recebeu, conjuntamente com a Nova Zelândia, um estatuto de quase completa autonomia, que se designava por Dominion.

Com uma população rondando os 175.000 habitantes e com uma próspera economia de exportação, assente na pesca e na indústria do papel e mineira, o país viveu então nas duas décadas seguintes a sua época de ouro. Para tudo entrar em descalabro com a Crise de 1929… Completamente dependente do exterior por causa da dimensão diminuta da sua procura interna, não só a economia de Terranova entrou em colapso(**), como também o mesmo aconteceu com as finanças do Dominion

Para entrar com os meios para as reequilibrar, a metrópole britânica colocou a condição de reinstalar o seu domínio sob o aspecto de uma Comissão Governamental que seria responsável perante o Governo de Londres. Em 1934, em tudo, excepto na forma, havia-se extinguido a independência da Terranova… Mas a questão voltou a colocar-se logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o Reino Unido entrou por sua vez em dificuldades financeiras e se quis ver livre destes fardos

As opções que se colocavam para a decisão do futuro da Terranova eram: a continuação da administração britânica; a recuperação do estatuto de Dominion; a adesão ao Canadá; a adesão aos Estados Unidos. Na primeira nem Londres estava interessada e a última nem apareceu nos boletins de voto… Depois de um primeiro referendo inconclusivo, em que a hipótese de Dominion obteve uma vantagem de 44,5% a 41,1% sobre a adesão ao Canadá, num segundo, esta última ganhou com 52% dos votos.

Em 31 de Março de 1949 a Terranova juntou-se ao Canadá, tornando-se na sua décima província. Actualmente, com um pouco mais de 500.000 habitantes e uma área de 405.000 km², a província representa apenas 1,6% da população canadiana, 4% da sua área total e 1,3% da sua economia (em 2006). Contudo, a descoberta recente de novas jazidas de petróleo na plataforma continental, faz prever que a província poderá vir a gozar de um novo período dourado, um século depois do primeiro…

(*) – Irlandeses, escoceses e galeses.
(**) – Um cenário com bastantes semelhanças com o que aconteceu quase 80 anos depois à Islândia.

29 janeiro 2024

QUANDO O CHAT GPT ME FAZ LEMBRAR UMA ESPÉCIE DE «RESSURREIÇÃO» DE JOSÉ HERMANO SARAIVA

Mas o mais interessante resultado do «novo hobby de WC» de Nuno Markl (provavelmente porque terá sido o desafio mais desvairado proposto ao Chat GPT), são os prodígios de imaginação a que aquele dispositivo nos pretende levar para conferir consistência histórica a uma «expressão popular» como «avaliar as nalgas ao Sidónio». Vale a leitura atenta, que se sustenta numa primeira parte assente em factos históricos indesmentíveis a respeito de Sidónio Pais para depois fazer uma inflexão especulativa a respeito do formato das suas nádegas, alicercada numa autópsia que não existiu e que contorna o detalhe que, para a «revelação» da «deformação das nádegas», essa autópsia teria sido dispensável, já que uma tal hipotética deformação corporal teria sido conhecida em vida (Sidónio Pais tinha 46 anos quando foi assassinado).
Admito a minha surpresa com a inventividade do Chat GPT nestas circunstâncias, e admito o quanto ela me fez lembrar um verdadeiro vulto da inventividade histórica, apenas absolvido porque era também um excelente comunicador televisivo, José Hermano Saraiva, que, não raro, conseguia contar uns episódios que «não era impossível»(sic) que pudessem ter ocorrido precisamente como ele os contava... Os auditórios televisivos apreciavam-no sobremaneira, porque as histórias que contava eram muito vivas. Em contrapartida, os meios académicos não o apreciavam, porque muitas vezes o enredo dessas histórias era mais imaginado do que comprovado. Por aquela sua capacidade de inventar «o que não era impossível ter acontecido», tenho que confessar que a explicação acima me fez pensar numa espécie de «ressurreição» de José Hermano Saraiva... É um elogio. Mas o Chat GPT parece-me mais apropriado para escrever argumentos de histórias, não episódios da História.

10 dezembro 2023

O 75º ANIVERSÁRIO DA APROVAÇÃO DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM

(Republicação)
10 de Dezembro de 1948. Há setenta e cinco anos a Assembleia Geral da ONU aprovava a Declaração Universal dos Direitos do Homem. E a aprovação realizava-se por uma esmagadora maioria - 48* dos 58 estados membros com que então contava a organização (Portugal não era ainda estado membro, por exemplo). Mas importa recordar os detalhes da votação. Para além de uma taxa de aprovação de 83% e de duas ausências do plenário no momento da votação (as das Honduras e do Iémen), o acto de aprovação notabilizou-se pela inexistência de votos contrários e também pela existência de oito discretas abstenções. Duas delas seriam expectáveis: a da África do Sul, por causa do racismo vigente no país, e a da Arábia Saudita, por causa do medievalismo islâmico retrógrado que a caracterizava (a escravatura só viria a ser abolida ali em 1962). Mas as outras seis abstenções vinham de uma surpreendente Europa de Leste, da União Soviética e dos seus aliados comunistas. Por ocasião deste 75º aniversário importa recordar quanto esta cena dos Direitos Humanos nunca foi do agrado dos comunistas quando eram eles a deterem o poder. Mais uma vez convém lembrá-lo e lembrar-lhes, que eles esquecem-se.

* Afeganistão, Argentina, Austrália, Bélgica, Birmânia, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dinamarca, Egipto, El Salvador, Equador, Estados Unidos, Etiópia, Filipinas, França, Grécia, Guatemala, Haiti, Islândia, Índia, Irão, Iraque, Líbano, Libéria, Luxemburgo, México, Nicarágua, Noruega, Nova Zelândia, Países Baixos, Panamá, Paquistão, Paraguai, Peru, Reino Unido, República Dominicana, Suécia, Síria, Tailândia, Turquia, Uruguai e Venezuela.

02 dezembro 2023

AS CONTRADIÇÕES MORAIS QUE VÃO DE «TIPPU TIP» A PABLO ESCOBAR

Hoje, quando se completam precisamente 30 anos sobre a execução de Pablo Escobar, considero muito oportuno republicar esta comparação entre aquele conhecido traficante de cocaína colombiano e um agora esquecido traficante de escravos tanzaniano do século XIX, mostrando como os critérios mudaram radicalmente, e em mais do que um aspecto, de um caso para outro.
Se houver que dar um rosto ao tráfico de escravos do Século XIX este senhor de olhar bondoso da fotografia acima será um candidato ideal. O seu nome era Hamad bin Muḥammad bin Jumah bin Rajab bin Muḥammad bin Sa‘īd al-Murghabī (1837-1905) mas a sua reputação foi estabelecida através da alcunha de Tippu Tip, uma onomatopeia do som das espingardas que os seus homens usavam quando das expedições para a captura de escravos na África Oriental, em regiões que actualmente fazem parta da Tanzânia, da Zâmbia e do Congo. A maioria dessas capturas eram para exportação (mesmo assim, em 1895 estimava-se que trabalhassem 10.000 escravos nas suas plantações) mas dava-se a curiosidade de, por essa altura, a quase senão mesmo a totalidade da sua clientela ser oriunda do mundo islâmico. Aparentemente, a condenação moral e o combate ao tráfico de escravos pelas potências europeias fizera com que as possessões do Índico que precisavam de mão-de-obra, como acontecia com a África do Sul, Maurício ou a Reunião, passassem a recorrer à substituição dos escravos africanos por trabalhadores indianos vindos livremente. Para além disso, Tippu Tip contava com aquilo que hoje se designa com uma boa imprensa: fora anfitrião do famoso jornalista e explorador africano Henry Stanley (1841-1904) que dele fizera uma descrição muito lisonjeira nas crónicas dos jornais que acompanhavam as suas viagens. No final da sua vida foi publicada na Europa uma autobiografia sua onde, como seria de esperar, não há muito espaço dedicado às mais de uma centena de milhar de pessoas cuja vida fora destruída pelas suas actividades...
Justapondo tráficos de moral condenável, vale a pena comparar o tratamento dado acima a Tippu Tip, mais o tráfico de escravos que o fez prosperar, ao que foi e ainda é dado àquele poderá ser considerado como o rosto mais conhecido do tráfico de cocaína do Século XX: o colombiano Pablo Escobar (1949-1993). É absurdamente contraditório o facto de, na moral prevalecente, os argumentos que são aduzidos para analisar e condenar os intervenientes num dos tráficos é convenientemente esquecido para o outro: enquanto no de escravos se esquecem as indispensáveis contribuições dos potentados nas áreas de produção (África) para depositar as culpas exclusivamente nos consumidores finais do produto nas colónias europeias da América por o dinamizarem, no tráfico de cocaína acontece rigorosamente o oposto e os consumidores finais parecem ser sempre exonerados dessas mesmas culpas e elas são transferidas precisamente para os potentados das áreas de produção da cocaína na América do Sul… Ao contrário de Tippu Tip, Pablo Escobar nunca conseguiu contar com boa imprensa. Porém, o seu desaparecimento por assassinato, ocorrido há precisamente trinta anos e sem que o mesmo pareça ter tido uma influência decisiva no tráfico (que se terá multiplicado ainda mais depois da sua morte), veio demonstrar que a notoriedade negativa que adquirira era, no mínimo, desproporcionada. Emparelhando as suas histórias ainda mais, independentemente da forma como elas hoje são conhecidas ou ignoradas, refira-se a curiosidade de que as mansões de ambos, Tippu Tip e Pablo Escobar, erigidas pelas suas fortunas igualmente imorais, se tornaram em locais de atracção turística, tanto em Zanzibar como em Medellín.

25 novembro 2023

OS «VENTURAS» DO VINTE E CINCO DE NOVEMBRO

Suponho que pouca gente queira ouvir falar do assunto, mas, numa época em que somos bombardeados com as mensagens demagógicas e populistas protagonizadas pelo líder da extrema-direita, André Ventura, creio que vale muito a pena recordar, a pretexto da data de hoje, como eram as mensagens demagógicas e populistas do outro extremo do espectro em Novembro de 1975. Datado de quatro dias antes do golpe e contragolpe de Estado de há 48 anos, vale a pena ler com muita atenção o que propunham os 18 «oficiais revolucionários» que elaboraram e assinaram este «manifesto» destinado «aos soldados e marinheiros, à classe operária e ao povo trabalhador» que incluo aqui em baixo. Como então se rematava no manifesto: «Nós estamos com o PODER POPULAR ARMADO, COM SOLDADOS, COM OS MILITANTES, até à vitória, até à tomada do poder». Ora se há quem hoje defenda que aquilo era somente retórica, então também haveria que aceitar a opinião das almas benfazejas que defendem a inocuidade das bojardas que agora ouvimos proferidas a André Ventura. Discordo. Tanto se devem cobrar as proclamações de Ventura como, naquela conjuntura, a destes «oficiais revolucionários». Acho que não se deve ter tolerância para qualquer dos totalitarismos extremistas. Quando há eleições e essas eleições são justas, os extremistas raramente alcançaram os 50%+1 dos votos que lhes permitem derrubar o regime que os leva ao poder: foi assim com Adolf Hitler na Alemanha (44% para os nazis), na Checoslováquia do após guerra (38% para os comunistas) ou nos Estados Unidos em 2016 (46% para Donald Trump). Aos extremistas não lhes interessa a base eleitoral de que dispõem e o que é importante para eles é o comportamento dos aliados de circunstância que, por acção ou demissão, lhes permitem a tomada do poder. Pois bem, o que aconteceu há 48 anos é que alguns oficiais - talvez nem todos os signatários abaixo, mas adicionando certamente outros que não assinaram - promoveram uma iniciativa militar, até à vitória, até à tomada do poder. E foram derrotados por aqueles que não queriam ser seus aliados de circunstância. E, em minha opinião, ainda bem. Passados todos estes anos, é irritante ver alguns dos signatários abaixo a tentarem minimizar o que aconteceu, como se a sua iniciativa tivesse sido uma grande brincadeira que correu mal. Mas, confesso que ainda mais irritante, é a atitude de um outro grupo, que se permite agora pairar majestaticamente por cima dos acontecimentos daqueles dias, quando na época ficaram sabiamente em cima do muro, à espera de ver como é que as coisas evoluíam. O nosso agradecimento deve-se cingir àqueles que se sabe que fizeram alguma coisa para os conter, aos extremistas totalitários, naquela data.

24 novembro 2023

EU GOSTO DE FICÇÃO CIENTÍFICA, DE FICÇÃO HISTÓRICA NÃO GOSTO

Considero Ridley Scott um excelente realizador, mas de ficção científica. Quanto o tema é história, ele continua a ficcionar e o resultado, em termos de rigor histórico, é uma desgraça. Como Gladiador se passa no século II, poucos se aperceberam de todos os anacronismos que aquele filme continha. Mas agora, com Napoleão, que se passa já no século XIX, parece haver muitos mais a aperceberem-se das liberdades tomadas pelo realizador e de como elas estragam a verosimilhança da história, nomeadamente para quem já a conhece de antemão. Na foto acima temos os actores Joaquin Phoenix e Vanessa Kirby que interpretam os papéis principais de Napoleão e Josefina. Phoenix tem mais 14 anos que Kirby e a diferença nota-se. Contudo, historicamente e na realidade, era Josefina que era 6 anos mais velha que Napoleão*. Em conjunto, são 20 anos de discrepância etária. A notarem-se as rugas de expressão na foto acima, seriam as dela e não as dele. E para quem saiba isto, lá se vai a ilusão. Mas o segredo parece ser que se fale do filme - nem que ele seja uma merda quanto ao rigor histórico. O Gladiador era-o mas foi um sucesso de bilheteira.

16 novembro 2023

O ASCENSO SIMÕES DA AMÉRICA

Para aqueles leitores deste blogue pouco conhecedores das idiossincrasias marginais da política portuguesa, esclareça-se que Ascenso Simões é um deputado socialista de 60 anos que se notabilizou pelas continuadas altercações em que se envolve. Para além de um estilo exageradamente confrontativo nas redes sociais, o político já foi condenado em tribunal depois de se meter à porrada com um agente da PSP. É alguém que ainda há poucos dias pretendia que o problema dos envelopes de notas do chefe de gabinete do primeiro ministro se resolveria com «um par de lambadas». Enfim, é um cromo que não deve ser levado a sério. Foi secretário de Estado de António Costa enquanto este foi ministro entre 2005-7 e, quanto à impressão que terá deixado, em oito anos como primeiro-ministro, António Costa nunca se lembrou dele para o desempenho de qualquer função governamental. Eloquente.
Mas, pelos vistos, cada país terá os seus cromos deste género, nós é que desconhecemos que eles existem. Nos Estados Unidos descobri esta semana um deles, um senador do Oklahoma de 46 anos chamado Markwayne Mullin. É um senador noviço, já que assumiu o cargo em Janeiro deste ano, mas nada disso pode justificar o seu comportamento acima, quando de uma audição no Senado há dois dias. Veio-se a descobrir que a altercação com uma testemunha, convocada para uma audição de um comité do Senadocomeçara havia oito meses. A testemunha, um sindicalista de 51 anos chamado Sean O'Brien comporta-se da mesma maneira confrontativa que o senador. O que os deve frustrar aos dois, já que a coreografia intimidatória do bullying não funciona quando são dois a praticá-la. Em qualquer dos casos, são as marteladas vigorosas do senador Bernie Sanders, que põem fim aos incidentes.
Onde esta última história começa a divergir das nossas é que na América parece haver quem se mostre preocupado com o controlo de danos à reputação. A do senador Markwayne Mullin, por muito valentão que se tenha mostrado no vídeo, afundou-se subitamente, já que não é bem aquilo que se espera de um senador dos Estados Unidos. A tournée televisiva incidiu sobre os canais conservadores trumpicos - já que Mullin é um daqueles republicanos que apoia a ideia que as eleições presidenciais de 2020 foram roubadas - mas que incluiu canais mais abertos como (acima) a CNN. Quem preparou a justificação a Mullin foi buscar exemplos a episódios apropriadamente esquecidos de meados do século XIX (1856, abaixo) em que episodicamente senadores chegaram a vias de facto com colegas. Parece-me evidente o quão despropositado será invocar, como justificação para o que aconteceu, episódios com 167 anos.
Mas o que me frustra é a comprovada falta de cultura das televisões que deixam passar impunes e sem contraditório estes argumentários preparados de antemão: as referências históricas de Mullin invocadas em seu abono, incluíram também uma referência aos (supostos) nove duelos travados pelo presidente Andrew Jackson (1829-37) antes da sua eleição para presidente. Esta era indiscutivelmente a ocasião ideal para a jornalista Dana Bash da CNN perguntar-lhe pelo mais famoso duelo da história dos Estados Unidos, travado em 1804 (219 anos) entre o vice-presidente dos Estados Unidos, Aaron Burr e o antigo Secretário do Tesouro, Alexandre Hamilton, que se saldou pela morte do segundo. Dada a estrutura da argumentação do senador Markwayne Mullin, defendendo a agressão física, era caso para lhe pregar uma rasteira irónica, perguntando-lhe se se ficava por ali, ou se, como no duelo Burr-Hamilton, se podia ir um bocadinho mais longe?...

25 julho 2023

A QUEDA DO VERDADEIRO FASCISMO

(Republicação)
O verdadeiro fascismo começou a cair ao fim de uma tarde quente de Verão (24 de Julho) de 1943, quando se reuniu num palácio de Roma o Grande Conselho da Revolução Nacional Fascista. E, para começar, aquela reunião era um acontecimento interessante na ordem dos acontecimentos de uma Itália que perfizera recentemente o seu terceiro ano de guerra, precisamente porque havia quatro anos que o Grande Conselho não se reunia.

Mesmo que o Grande Conselho não fosse uma espécie de micro-parlamento onde se aprovassem moções, como Mussolini expressamente precisara quando o criara vinte anos antes, naquele dia, ele e o seu regime caíram por causa da aprovação de uma moção ali votada e aprovada, onde se exigia a restauração imediata de todas as funções do Estado e convidando o chefe do governo – o Duce – a pedir ao rei que assumisse a iniciativa suprema tomando o comando de todas as Forças Armadas.

O documento é mais importante pelo que omite – o prosseguimento da guerra, o papel de Mussolini e do partido fascista na condução dos destinos de Itália ou a aliança com a Alemanha – do que por aquilo que contém. Mas é esta versão de condenação cuidadosa das decisões de Mussolini que serve de detonador às movimentações de um grupo de conspiradores situados à volta do rei. A versão era tão aguada que Mussolini nem se acautelou quanto às consequências...

No dia seguinte, Domingo 25 de Julho, Mussolini até foi trabalhar e chegou a receber o embaixador japonês para uma reunião de trabalho. Só veio a ser preso ao fim da tarde quando se apresentou para uma audiência – pedida por si! - com o rei Vítor Manuel III. Foi ali que ouviu do próprio rei que este já havia entretanto incumbido o general Badoglio de formar um novo governo. O objectivo evidente do novo governo seria o de extrair a Itália da guerra, assinando a paz com os Aliados.

A 8 de Setembro conseguira-o, depois de um mês de promessas solenes de Badoglio aos alemães sobre a solidez da aliança entre os dois países… Quatro dias depois, Mussolini era resgatado pelos mesmos alemães da estância de turismo onde estava detido. Viria a ser constituída, em 23 de Setembro, a República Social Italiana no Norte de Itália, uma versão ridícula de um Estado fascista, completamente na dependência da Alemanha, que pretendia que quase nada se passara naqueles dois meses.

Mas houve ainda tempo para que o fascismo renascido e amparado se desforrasse dalguns daqueles membros do Grande Conselho que, em 24 de Julho, haviam votado favoravelmente a famosa moção que conduzira à destituição do Duce. Julgados num processo relâmpago que durou 48 horas (8 e 9 de Janeiro), os antigos conselheiros Ciano, De Bono, Pareschi, Gottardi e Marinelli foram condenados à morte e fuzilados pelas costas a 11 de Janeiro de 1944, no polígono de tiro do Forte de San Zeno.

Emblemático da incompetência geral que as Forças Armadas italianas mostraram ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial, o pelotão de fuzilamento constituído era tão desajeitado que teve de atirar por uma segunda vez sobre as vítimas enquanto estas agonizavam de dor…

16 junho 2023

«SE A GUERRA COMEÇAR AMANHû

«Se a Guerra começar amanhã» (Yesli zavtra voyna) é um filme soviético, estreado em Fevereiro de 1938, e que concebido e realizado por um colectivo de cineastas encabeçado por Efim Dzigan. É um filme de propaganda de época, com um trecho musical marcante que se repete, que está vocacionado para perdurar no ouvido. Tem uma duração de pouco mais de uma hora. Por curiosidade, acrescente-se que este mesmo filme havia sido seleccionado para representar a União Soviética no primeiro Festival de Cannes, que se estava marcado para se realizar em Setembro de 1939, e que foi cancelado devido à eclosão da Segunda Guerra Mundial. O filme soviético teria vindo a propósito porque a história que conta é uma hipotética história de guerra.
Mostra a heróica reacção soviética a um ataque militar de uma potência imperialista capitalista que se consegue facilmente identificar como sendo a Alemanha. Porque o filme tem a duração de apenas uma hora a guerra não é muito prolongada e a trama não é complexa. No filme, para além do povo heróico, aparecem dirigentes soviéticos verdadeiros: o incontornável Staline, o comissário para a Defesa Voroshilov, o marechal Budienny, que irá encabeçar a carga de cavalaria conducente ao vitorioso desfecho final. Mas é Voroshilov quem aparece, a certa altura, a transmitir a mensagem essencial do filme: «Se nos impuserem uma guerra, ela não se travará no nosso solo soviético, mas no território daqueles que ousaram desembainhar a espada em primeiro lugar».
No futuro mais imediato, os acontecimentos descritos no filme is-se-ão consubstanciar dali por dois anos, em Junho de 1941, quando a Alemanha invadir realmente a União Soviética (Operação Barbarossa (1)(2)). Infelizmente para os russos, o enredo da realidade divergirá do narrado pelo filme: irão decorrer três longos anos (1941-44), até que a guerra chegasse ao «território daqueles» que haviam «desembainhado a espada em primeiro lugar». Mas o que nos interessa para o caso é a História recente, a da invasão russa da Ucrânia de 2022, e a constatação de como a narrativa russa não evoluiu nestes 83 anos. Seja qual for a sua extensão geográfica, a Rússia tem sempre vizinhos ameaçadores que lhe impõe guerras. E os russos preferem travá-las sempre em território alheio, quando podem...

23 abril 2023

A PAZ NÃO É UMA QUESTÃO DE BOA VONTADE

Em Dezembro de 1916, por iniciativa do papa Bento XV, foi pedido aos dois lados beligerantes da Grande Guerra (Primeira Guerra Mundial) que apresentassem uma proposta de paz que pudesse vir a servir de base negocial com as partes contrárias. Só a Alemanha chegou a apresentar concretamente uma proposta contendo os termos em que ela estaria disposta a negociar uma solução pacífica para o conflito. Ao conhecer o seu conteúdo, os Aliados ocidentais (a França e o Reino Unido) consideraram as pretensões alemãs tão distantes do que consideravam ser os seus objectivos de guerra, que a rejeitaram liminarmente e consideraram que nem valeria a pena apresentar uma contraproposta. A iniciativa do papa Bento XV, que foi secundada pelo presidente norte-americano Woodrow Wilson (então ainda neutral), acabou ali mesmo.

A proposta alemã pedia a paz com base no status quo ante bellum: a manutenção das fronteiras de antes da guerra, fronteiras essas que teriam deixado do lado da Alemanha as duas províncias da Alsácia e da Lorena – que haviam sido humilhantemente tomadas à França na Guerra Franco-Prussiana de 1871. A sua recuperação era o objectivo central político da participação francesa na Guerra e, por isso, era uma condição inaceitável para os franceses. Esse retorno das fronteiras de 1914 também teria forçado as potências aliadas a devolver as colónias alemãs que haviam sido conquistadas em 1914-15 e onde a resistência alemã cessara, com excepção de Tanganica. Era devolver algo que a Alemanha nunca teria condições materiais de conseguir reaver. Outra condição expressa pela Alemanha era a existência de um governo neutral (pró-alemão) na Bélgica (que estava então praticamente toda ocupada pela Alemanha), o que constituía uma preocupação significativa para a Grã-Bretanha, já que sua estratégia de sempre fora a de garantir que nenhuma potência hostil (França ou Alemanha) controlasse os portos do Canal da Mancha, que seriam sempre um possível ponto de partida para uma invasão da Grã-Bretanha. A dificultar ainda mais, as propostas alemãs incluíam pedidos de indemnização monetária à Alemanha pela sua evacuação dos territórios franceses que ela conquistara e ocupara desde 1914. Em contraste, o texto era omisso quanto a reparações devidas aos franceses pelos estragos provocados em território francês durante essa ocupação. Outras condições a Leste, aí envolvendo os russos e de ainda mais difícil aceitação por eles, era a reconfiguração de uma nova fronteira que protegesse estratégica e economicamente a Alemanha e uma nova Polónia (estado satélite da primeira).

Ou seja, a Alemanha mostrava-se disposta a sentar-se à mesa das negociações considerando que ela é que tinha as cartas mais fortes na mão. O que não era de todo a opinião dos seus inimigos. Podiam não parecer estar em vantagem, mas acreditavam que o tempo corria a seu favor por causa do bloqueio económico que haviam imposto aos seus inimigos. Consideradas as circunstâncias tão divergentes, nem apresentaram resposta aos pedidos de Bento XV. Só por curiosidade, o resultado daquilo que teria sido o resultado das negociações baseadas nessa hipotética proposta alemã, seria um mapa da Europa ficcional como este abaixo, resultado de um também imaginário Tratado de Bruxelas, assinado em 17 de Dezembro de 1917. Uma curiosidade, já que a História tomou um outro curso.
Mas, se torno a recontar ainda mais detalhadamente todo este episódio com mais de cem anos, é para chamar a atenção que a História nos ensina que quem define a oportunidade e a proficuidade da existência de negociações de paz são os beligerantes e que é preciso que essa vontade se manifeste simultaneamente. Nunca são os mediadores, por muito empenho e boa vontade que estes últimos ponham na sua mediação, como aconteceu com Bento XV. Uma lição para quem se queira armar em mediador no conflito da Ucrânia, em que me parece, como em 1916, que nenhum dos beligerantes tem algo a oferecer que seja aceitável pelo outro. 

06 fevereiro 2023

POR ORDEM DO GENERAL…

A pretexto da morte do protagonista, republico um texto a respeito de Pervez Musharraf, originalmente aqui publicado a 12 de Julho de 2007 
Há notícias interessantes e há notícias importantes. Da combinação destes dois atributos resultam quatro resultados e uma regra, não escrita, que estabelece que a grande maioria das notícias interessantes não são importantes e que a grande maioria das notícias importantes não são interessantes. Também há as que não são uma coisa nem outra, e nisso estou, por exemplo, com Mika Brzezinski e com a sua opinião sobre a notícia da saída de Paris Hilton da prisão…

Mas o que me deixa mais intrigado são os casos em que não são exploradas daquelas raras notícias que são ao mesmo tempo interessantes e importantes, como foi o caso da ordem dada pelo general Pervez Musharraf para que o Exército paquistanês procedesse ao assalto da mesquita Lal Masjid de Islamabad, onde se tinham entrincheirado um largo grupo de radicais islâmicos. Desencadeado na Terça-Feira passada, ainda hoje se especula qual terá sido o número total de mortos causados pela operação.

Os ataques a locais onde fanáticos religiosos estavam entrincheirados foram acontecimentos que sempre saíram bem na televisão. Foi o caso do assalto do FBI ao rancho em Waco no Texas, onde se refugiaram os seguidores da seita de David Korresh, que decidiram imolar-se lançando fogo às instalações. Também foram acontecimentos importantes pelas suas consequências, como foi o caso do assalto pelo Exército indiano ao Templo Dourado em Amritsar, lugar sagrado para os sikhs.
É por isso curioso a ausência de atenção dedicada a um daqueles acontecimentos raros, ao mesmo tempo tão interessante quanto importante. E Pervez Musharraf, presidente do Paquistão e comandante-chefe das suas Forças Armadas é o homem chave de toda esta situação complicada, desencadeada sob sua responsabilidade (Ayman Al-Zawahiri o rosto da Al-Qaeda nos tempos que correm já apareceu em vídeo a condená-lo), num país cuja coesão interna sempre foi o seu maior problema.

Nunca é demais recordar que o Paquistão resulta das províncias do Império das Índias britânicas, onde havia uma maioria de população muçulmana. É um co-herdeiro, com a União Indiana (e depois de 1971, com o Bangladesh), da identidade regional estabelecida pelos britânicos para toda aquela região. Aliás, o rio Indo, de onde os gregos e depois os europeus retiraram o nome que empregam para designar o subcontinente (a designação equivalente em hindi é Bharat), corre em território paquistanês…

De uma forma sintética, o grande problema do Paquistão, quando em comparação com os seus vizinhos do subcontinente, é que, com mais de 150 milhões de habitantes, a sua população não é tão homogénea quanto a do Bangladesh (150 milhões, uma esmagadora maioria deles muçulmanos de cultura bengali), nem tão heterogénea quanto a da Índia (1.120 milhões, distribuídos por 28 estados e 7 territórios, com 18 idiomas oficiais entre 1.650 línguas utilizadas…), o que impossibilita a ascensão de um só grupo dominante.

No Paquistão há quatro (e meia…) regiões históricas: Punjab, Sind, Baluchistão e (usando ainda a designação colonial britânica) a Província da Fronteira de Noroeste, cujo acrónimo em inglês correntemente usado é NWFP. A meia região histórica mencionada acima é a parcela de Caxemira controlada pelo Paquistão (cuja maior parte está sob controle indiano), numa disputa de 1947 ainda hoje por resolver. Há ainda os territórios do Norte, da capital federal (Islamabad) e o Território Federal das Áreas Tribais.
Mais de 75% da população paquistanesa vive ao longo do vale do Indo e seus afluentes, que são as áreas mais férteis do país, onde se situam as províncias do Punjab e do Sind. Foi para melhor protecção destas regiões férteis que os britânicos se decidiram a controlar as regiões adjacentes do Baluchistão, da Fronteira Noroeste e das Áreas Tribais (ver mapas) onde se situavam os corredores naturais de invasão da Índia. O problema eram os habitantes desses corredores naturais…

A presença britânica naquelas regiões acabou por ser, por assim dizer, muito pouco presente. Aliás, a designação (que se mantém) em inglês do Território Federal das Áreas Tribais (Federally Administered Tribal AreasFATA) dá-nos uma indicação como as áreas são e eram administradas - a nível federal, longínquo… Outra pista é-nos dada pela manutenção da palavra fronteira na designação (que também se manteve) da Província da Fronteira de Noroeste (NWFP), numa indicação da sua funcionalidade para a Índia britânica…

Outro exemplo, foi em Quetta, capital do Baluchistão que os britânicos decidiram instalar em 1907 o prestigiado Instituto de Comando e Estado-Maior (Command & Staff College) do Exército britânico das Índias. Os alunos do Instituto não teriam de se deslocar para muito longe nas suas semanas de campo, especialmente quando o assunto era contra-subversão, campo onde o Instituto era muito prestigiado, tendo sido pioneiro, na década de 1920, da doutrina de emprego de meios aéreos no apoio à contra-subversão...

O dilema de qualquer governante paquistanês desde 1947 tem sido o de fazer a síntese entre as várias expressões de Paquistão. Há esta fracção ora descrita, minoritária mas que sempre foi muito insubmissa e militante, que está mais vocacionada para o vizinho ocidental – o Afeganistão – com quem tem aliás parentescos étnicos. Há também a fracção maioritária, mais sedentária e menos exuberante, nas províncias maiores do Pundjab e do Sind, embora ela também esteja dividida por divisões culturais.
O (escasso) rotativismo eleitoral que o Paquistão já teve, funcionou à volta de duas famílias de latifundiários do Punjab (os Sharif) e do Sind (os Bhutto). Qualquer mapa dos resultados eleitorais mostra que, dada a concentração regional dos votos, a vitória de qualquer um deles foi também a vitória de uma das duas principais regiões constituintes do Paquistão sobre a outra. Dada a ausência de práticas democráticas, o favorecimento de uma das facções cria, a prazo, uma enorme pressão na coesão nacional paquistanesa.

Aqueles que se consideram os verdadeiros intérpretes do ideal paquistanês são aqueles que imigraram para o Paquistão em 1947, quando da Partição, e que são conhecidos pela designação de mohajirs. Embora estejam, com os descendentes, estimados em apenas 4 a 7% da população total, a sua importância social é desmesuradamente muito superior ao seu peso social: Pervez Musharraf é um deles (nasceu em Nova Deli, na Índia), controlam economicamente Karachi, a capital económica do país e administrativamente o aparelho de estado.

São também eles os defensores da manutenção do urdu (a par do inglês) como idioma oficial do Paquistão. O urdu, actualmente conhecido através do sistema escolar por mais de 25% dos paquistaneses mas que não é o idioma nativo de qualquer dos povos que hoje pertencem ao Paquistão, é a versão islamizada do hindi, a língua oficial (também a par do inglês) da União Indiana. Apesar de escritas em alfabetos diferentes elas são inteligíveis e é por isso que a televisão indiana e os filmes de Bollywood* podem ser tão populares no Paquistão…

Mas, se as classes instruídas não se têm mostrado, na generalidade, hostis ao desempenho de Musharraf, também vieram a mostrar recentemente, através de manifestações colectivas que parecem ter bloqueado a tentativa de Musharraf de afastar o juiz Iftikhar Mohammad Chaudhry do Supremo Tribunal, que consideram que devem existir limites para o poder presidencial e que o Paquistão não deve ter à sua frente um déspota oriental como acontece normalmente com os outros países islâmicos da região.
Por causa das condições que presidiram ao seu nascimento em 1947, o Islão tem de ser sempre um componente indispensável à identidade nacional paquistanesa. Mas, como nas receitas, ele tem de ser em quantidade q.b. (quanto baste). Nada dos exageros produzidos pelas madrassas radicais das províncias marginais do Paquistão. Houve tempos, no passado, em que esses radicais foram activos de uma política externa dinâmica do Paquistão junto dos países vizinhos (Afeganistão ou Caxemira).

Agora, tornaram-se em passivos, numa chatice. Podem servir de apoio parlamentar às ficções eleitorais do regime de Musharraf mas as proezas de realizar atentados contra comboios indianos em Bombaim ou de dar apoio logístico a guerrilheiros empenhados em combate contra forças da NATO são gestos capazes de provocar a ponderação das autoridades paquistanesas sobre os benefícios recíprocos do entendimento... Embora desencadear a ruptura também tenha os seus riscos, sendo um deles o da decomposição do próprio Paquistão entre os das montanhas e e os dos rios.

Nesse eventual cenário, a Índia, que teria delirado há 20 anos com um desfecho desses, hoje tem de ter a preocupação de acautelar em quais das parcelas ficariam os detonadores das bombas atómicas… Há duas coisas que parecem certas: a política paquistanesa não se pode desviar muito das condicionantes que aqui tracei e elas manter-se-ão, qualquer que seja o protagonista, e o general estaria, de certeza, muito consciente de todas as implicações associadas à sua ordem de ataque à mesquita Lal Masjid na passada Terça-Feira…

* Trocadilho com Hollywood, referindo-se às produções de cinema indiano feitas em Bombaim, faladas em hindi e também em urdu. Curiosamente, o idioma popular em Bombaim não é o hindi, mas sim o marathi.

24 janeiro 2023

A PRETENSA RECONCILIAÇÃO FRANCO-FRANCESA DE CASABLANCA

Republicação
24 de Janeiro de 1943. Há oitenta anos decorria o último dia da Conferência de Casablanca e, no final das negociações entre britânicos e norte-americanos, entre Churchill e Roosevelt, vinha interpor-se a questão francesa. Era uma questão que tinha o condão de enervar Roosevelt. A sua administração negociara com Vichy até à entrada na Guerra em Dezembro de 1941, atraíra para a órbita dos Estados Unidos personalidades francesas que eram dedicadas ao marechal e todavia as inclinações pessoais do presidente apartavam-no daquilo que o Estado Francês representava. Por outro lado, em relação a de Gaulle, a antipatia de Roosevelt era visceral, detectava-lhe no estilo veleidades totalitárias e uma pose negocial que as circunstâncias apenas tornavam ridícula. A um e outro lado Roosevelt criticava o facto de representarem uma França imperialista e colonialista, a que não antevia grande futuro na formatação que concebia para o Mundo depois do fim da Guerra. Quanto à forma como as diferentes facções francesas se procuravam entender entre si, depois do assassinato de Darlan no mês anterior, de Gaulle telegrafara a Giraud propondo que se encontrassem. Giraud porém, desconfiado de que os gaulistas estivessem por detrás da autoria do atentado que vitimara o predecessor, ignorara o contacto. Porque o percurso de cada uma das facções - os franceses de Argel e os de Londres - fora completamente distinto entre 1940 e 1942 (com os primeiros a permanecerem nesses dois anos fiéis a Pétain e a Vichy), de Gaulle continuava banido de entrar na África colonial francesa do Magrebe.
Mas, embora sempre difícil de controlar, de Gaulle era também o francês dos britânicos. Como justificava Harold MacMillan (que virá a ser um futuro primeiro-ministro britânico, mas nesta altura estava apenas encarregue da tarefa - sempre - ingrata de controlar le Grand Charles), «é um homem difícil, mas custou-nos setenta milhões de libras e não podemos esquecer que esteve ao nosso lado nas horas mais negras. É uma questão de interesse, de prestígio e honra apoiá-lo nas suas aspirações políticas". A Conferência de Casablanca, albergando a presença simultânea de Churchill e Roosevelt, apadrinhando cada um o seu francês, parecia o local ideal para a criação uma solução de compromisso entre os dois Comités de Libertação sedeados cada um na sua capital (Argel e Londres). Convidado, o general Giraud, que representava Argel mais a ruptura recente com Pétain e Vichy, chegou sem demoras e sem malícia. Mas o general de Gaulle recusou-se a vir. Churchill insistiu, precisando que o convite era conjunto, dele e do presidente dos Estados Unidos. De Gaulle manteve a recusa, alegando que as suas questões com Giraud eram um assunto exclusivamente francês. Por essa vez, quem se terá divertido com o ridículo da situação terá sido Roosevelt, mas Churchill ter-se-á enfurecido e mandou-lhe um telegrama em forma de ultimato: «Se persistir em rejeitar esta última oportunidade que lhe é oferecida, arranjar-nos-emos para passar sem si».
Com um sentido cénico ímpar, de Gaulle percebeu quando era a sua deixa e a 22 de Janeiro, nono dia da Conferência, lá chegava ele, transportado por um bombardeiro da RAF. É verdade que cedera mas, ao fazer-se esperar, ganhara alguns pontos antes de se sentar sequer à mesa das negociações. Sentou-se, mas continuou intratável. Lançou alguns comentários deselegantes sobre o facto de se encontrar numa terra francesa (não era bem assim, Marrocos era apenas um protectorado francês...), mas rodeado de um dispositivo de segurança formado por exércitos estrangeiros. E quanto à substância do que se pretendia dele, algum género de associação entre os dois Comités nada se lhe conseguiu arrancar. Nem as ameaças de Churchill, nem o encanto de Roosevelt surtiram efeito. De Gaulle explicava-lhes que viera porque haviam insistido para que viesse (é o mínimo que se pode dizer!), mas tencionava partir livre de qualquer compromisso que lhe quisessem impor. É assim que chegamos a este último dia da Conferência, um domingo, há precisamente 80 anos. O dia começou por uma última pega monumental entre Churchill e de Gaulle. Os dois foram depois encontrar-se com Roosevelt, junto de quem estava Giraud. Registou-se ainda um último fracasso para a redacção de um comunicado conjunto dizendo as trivialidades que se escrevem quando não há nada para dizer. Foi então aí que Roosevelt, em último recurso, ainda perguntou a de Gaulle se consentiria em deixar-se fotografar com Giraud ao lado do primeiro-ministro e de si próprio.
A isso de Gaulle disse que sim. E, não perdendo a embalagem, prosseguiu Roosevelt «Iria ao ponto de apertar a mão do general Giraud em frente aos fotógrafos?» E de Gaulle respondeu-lhe, usando o inglês por cortesia: «I shall do that for you» (fá-lo-ei por si). Foi assim que foi montado o cenário com o pátio soalheiro e as quatro cadeiras que se pode apreciar nesta sequência de fotografias feitas diante um colectivo de fotógrafos de guerra. Não tendo o 1,93 de Charles de Gaulle (que o favorecia naturalmente nas fotografias), Henri Giraud também era muito alto (Eisenhower descreve-o nas suas memórias como tendo bem mais de 1,80) e suporta bem o embate visual cumprimentando o seu rival, mas a linguagem corporal dos dois franceses afigura-se inequívoca do quanto o gesto é forçado (veja-se mais abaixo o vídeo com os diversos encores em que isso ainda se torna mais evidente). Na verdade e apesar de parecer internamente que nada cedera e externamente que tudo parecia estar como se eles se dessem como Deus com os Anjos, de Gaulle acabara por consentir em permutar representantes com o Comité de Argel, assim se estabelecendo uma ligação funcional com os rivais. Mas o último comentário à ocasião, de Gaulle guardou-o para as suas memórias como legenda da fotografia da ocasião: «Os quatro actores mostram o seus sorriso. Adoptaram-se as atitudes convencionais, Tudo corria bem. A América do Norte dava-se por satisfeita, julgando ver, nas fotografias, que o problema francês encontrava o seu «deus ex machina» na pessoa do presidente.» Foi há 80 anos e bem pode continuar a ser hoje.