31 agosto 2018

SOBRE A IRRELEVÂNCIA DE CERTAS ABORDAGENS DA ARGUMENTAÇÃO

ESTES HOMENS APOIAM O VOSSO DIREITO A EMPUNHAR ARMAS:
ESTES HOMENS OPÕEM-SE:
EM QUEM É QUE VOCÊS CONFIAM?
Embora o elenco de baixo seja constituída por figuras muito menos veneradas (e simpáticas) que o primeiro, está muito mais bem actualizado sobre as capacidades do armamento moderno: sabem, nomeadamente, em que consiste o múltiplo poder de fogo de uma metralhadora, arma que os de cima, por muito maior que seja a sua estatura moral, nunca existiu durante as suas vidas e não sabem o que seja... Não é uma questão de confiança, é uma questão de saber.
 
PS - E, por falar em saber, não sei se o autor deste quadro saberá que Alexander Hamilton (acima, à direita) morreu com um tiro, num duelo...

KWANGMYŎNGSŎNG-1

31 de Agosto de 1998. A Coreia do Norte anuncia a colocação em órbita do seu primeiro satélite artificial. O lançamento foi tomado inicialmente pelas agências encarregues de monitorizar tais eventos como um ensaio de um míssil intercontinental. Depois aperceberam-se que o míssil possuía um terceiro estágio destinado à aquisição da velocidade adicional necessária para colocar um objecto em órbita. Quanto ao objecto, também pouco se sabia (e sabe): há fotografias dele, mas uma grande dúvida quanto à sua massa que oscilaria entre os 6 e - 30 vezes mais! - os 170 kg. Quando do acompanhamento da fase final, as mesmas agências ter-se-ão apercebido que algo errado acontecera e que o satélite acabara por não entrar em órbita como previsto. Isso não terá constituído um problema para a Coreia do Norte, que anunciou o sucesso da empresa e que continuou a reportá-lo do mesmo modo nos dias seguintes. Só quinze dias depois, após confirmações sucessivas, é que uma cautelosa imprensa norte-americana anunciava o insucesso, deixando apenas subentendido a nota irónica do fazer-de-conta dos norte coreanos. Se acontecesse hoje, atendendo à personalidade do actual ocupante da Casa Branca e do que têm sido as suas relações precisamente com a inventiva Coreia do Norte, talvez a notícia tivesse que ser reescrita, expurgando-a da ironia, já que ele se tem mostrado tão inventivo quanto o regime norte-coreano.

30 agosto 2018

O TELEFONE VERMELHO: UMA HISTÓRIA QUE HOJE COMPLETA 55 ANOS

30 de Agosto de 1963. O mundo era informado que, a partir de então, havia um telefone ligando a Casa Branca em Washington e o Kremlin em Moscovo para que os respectivos ocupantes pudessem falar directamente um com o outro em caso de emergência. A emergência era a possibilidade séria de um conflito nuclear, como aquela que assustara todo o Mundo dez meses antes, em Outubro de 1962, aquela que ficou conhecida como a Crise dos Mísseis de Cuba. A história do telefone vermelho teve muito mais a ver com uma mensagem como se procurava tranquilizar as opiniões públicas do que com a realidade. A imagem acima, de uma capa de uma revista italiana da época, em que se vê os dois líderes (Kennedy e Khrushchev) no que seria uma teleconferência, tem muito mais a ver com a imaginação do desenhador do que com a realidade. O telefone vermelho da direita, em exposição num museu actualmente, é um apetrecho muito menos glamoroso, mas é dado como o verdadeiro telefone vermelho durante a presidência de Jimmy Carter, que só veio a ter lugar quinze anos depois do momento de ficção científica do jornal italiano.
Na verdade, ao princípio o tão famoso telefone... era um telex. E os terminais do telex - uma linha dedicada de 15.000 km que atravessava o Atlântico até Moscovo - nem estavam instalados na Casa Branca, mas no Pentágono. Aquilo que se pode apodar de conversa processava-se assim a um ritmo mais lento do que uma conversa (66 palavras por minuto). Aliás, simbólico da precariedade da conexão, se a mensagem inaugural de teste que Washington enviou há precisamente 55 anos para Moscovo chegou compreensível ao destino, a que foi enviada de Moscovo com essa mesma finalidade chegou ininteligível. Mas esta questão do telefone era uma daquelas em que a opinião pública e publicada não estava interessado na realidade. Um filme como Dr. Strangelove, estreado em 1964, mostra uma cena em que o presidente americano conversa directamente ao telefone com o secretário-geral soviético através do famoso telefone vermelho (embora o filme seja a preto e branco... - a cena aparece no último vídeo deste poste), sem as minudências de a complicar com a presença de um indispensável tradutor (a alternativa seria que o homem do Kremlin tivesse uma tal fluência em inglês que o dispensasse...).

Na realidade, os russos escreviam em russo, os americanos em inglês, e o processo de tradução contribuía para a morosidade da conversa. Mesmo assim, foi um enorme avanço em relação à situação que existia durante a Crise dos Mísseis, quando as mensagens de Kennedy para Khrushchev e vice-versa demoravam até doze horas a chegar ao destinatário e sem que este possuísse um processo de se certificar da identidade do autor da mensagem. O primeiro presidente a utilizar o telefone vermelho foi Lyndon Johnson em Junho de 1967, por ocasião da Guerra dos Seis Dias, prevenindo os soviéticos das suas intenções de deslocar unidades aéreas e navais para o Mediterrâneo oriental. Para contraste e significativo de como os soviéticos avaliavam a Invasão da Checoslováquia que ocorreu em Agosto de 1968, Brejnev preferiu encarregar o embaixador soviético, Anatoly Dobrynin, de transmitir pessoalmente a Johnson as explicações sobre as intenções soviéticas, em vez de o fazer pelo telefone. A partir de Setembro de 1971 as comunicações passaram-se a fazer oralmente e via satélite e só aí é que a expressão telefone vermelho passou a ter verdadeiro sentido.
Em 1983 o sistema foi novamente melhorado, passando a possibilitar o envio de faxes. Por essa altura, a ideia do telefone vermelho como elemento de dissuasão consolidara-se no imaginário norte-americano. Numa mensagem eleitoral de 1984, o candidato democrata Walter Mondale (que virá a ser arrasado por Ronald Reagan nessas eleições) chama a atenção para o facto de que a SDI, que a administração Reagan então se propunha promover, iria tornar o famoso telefone num adereço inútil. A Guerra das Estrelas acabou por não se concretizar e a Guerra Fria acabou por chegar ao fim. Mas não foi isso, nem os desenvolvimentos tecnológicos da internet da década de 90 que puseram fim à conexão, agora dos Estados Unidos com a Rússia. Já no século XXI, em 2008, tornou-se operacional um novo sistema de fibra óptica hiperseguro que contempla mensagens de voz e e-mails. O telefone vermelho permanece mais do que um utilitário, uma referência simbólica. A propósito da campanha eleitoral presidencial que teve lugar nesse ano, a propaganda para denegrir a candidata republicana à vice-presidência (Sarah Palin) passa por a exibir na sala oval da Casa Branca acompanhada do famoso telefone, numa sugestão subtil da sua incapacidade para lidar com situações delicadas.
Nos dias que correm, com a difusão de Twitter e sobretudo com um presidente norte-americano que recorre abundantemente a ele para tornar conhecidas as suas opiniões, o sistema parece fatalmente condenado a desaparecer. Mas essa é a parte da evolução do hardware. Porque quanto à evolução do software e quanto à delicadeza das situações internacionais e como já aqui mencionei no blogue, nada do que foi configurado de início, há 55 anos, nem mesmo a imaginação mais delirante dos argumentistas de Dr. Strangelove (os mesmo que criaram a cena delirante abaixo), conseguiu antecipar o cenário em que a pessoa mais chanfrada da equipa que lida com as situações delicadas é o seu próprio chefe, o presidente dos Estados Unidos... É que, a ser assim, o telefone vermelho torna-se um dispositivo que, em vez de os refrear, acelera os conflitos! (ontem soube-se mais uma das suas proverbiais indelicadezas: num telefonema recente com o 1º ministro japonês Shinzo Abe, o presidente Trump acabou dizendo-lhe que ele (Trump) se lembrava de Pearl Harbor!...)

MARCELO PREPARANDO-SE PARA O COMBATE AO ESTILO DE «APOCALYPSE NOW»

Como acontecia com o capitão Willard no filme Apocalypse Now, também o presidente Marcelo tem momentos em que tem de se preparar para missões difíceis. A reentrada política aproxima-se... Será que é desta vez que Marcelo quer abater António Costa como Willard fez ao coronel Kurtz? A fotografia é de Paulo Novais. O filme de Francis Ford Coppola. A música dos Doors.

29 agosto 2018

O DIA DA OPERAÇÃO SAFARI NA DINAMARCA

29 de Agosto de 1943. A Dinamarca entrara na Segunda Guerra Mundial quando da invasão alemã a 9 de abril de 1940. A resistência dinamarquesa foi breve (6 horas). Desde aí, a Dinamarca tornara-se num protectorado alemão, embora os Aliados (britânicos e americanos) tivessem ocupado todas as suas outras possessões, e o modus vivendi dos dinamarqueses sob ocupação alemã era razoável, dadas as circunstâncias, superando todos os outros países ocupados da Europa. Em Março de 1943 até se haviam realizado eleições legislativas que haviam reconduzido por uma esmagadora maioria a ampla coligação nacional. Mas, para a Alemanha, nesse Verão de 1943 e depois da ofensiva diplomática que desencadeara na Primavera anterior, a decepção era grande, ao constatar a ausência de resultados concretos entre a constelação de países que a rodeava, ou mesmo pior, já que, entretanto, o próprio Mussolini fora deposto em finais de Julho. Tudo isto para explicar o ambiente que está por detrás das exigências alemãs apresentadas ao governo dinamarquês a 28 de Agosto de 1943. Em detalhe, os alemães exigiam que as reuniões públicas fossem proibidas, as greves ilegalizadas, houvesse recolher obrigatório, que a censura fosse acompanhada por alemães e que houvesse tribunais militares especiais que poderiam sancionar com a pena de morte em casos de sabotagem.
A ideia dos alemães teria sido apenas atarrachar, só que... a coisa partiu. Como noticiava o Diário de Lisboa desse dia, o governo dinamarquês demitiu-se e as autoridades alemãs, proclamando o estado de sítio, tiveram que assumir elas próprias as responsabilidades da governação. Para que se concretizasse os alemães executaram um plano de desarmamento das fracas forças armadas dinamarquesas que ficou conhecido pelo nome de Operação Safari. Momento mais simbólico da ocasião foi a corrida contra o tempo para afundar os poucos navios da marinha de guerra antes que os alemães se apossassem deles (um episódio semelhante em atitude - que não em escala - com o que tivera lugar dez meses antes em Toulon, na França). Mesmo para quem acompanhava a guerra pelos jornais, o comportamento dos alemães começava a assumir um padrão antipático, à medida que a confiança deles nos seus aliados e dependentes se esvanecia. Na última página do Diário de Lisboa desse mesmo dia e ao lado do resto da notícia sobre o que acontecera na Dinamarca, lia-se a notícia da morte do rei Boris III da Bulgária (outro aliado de Hitler), falecido no dia anterior inesperadamente aos 49 anos, oficialmente de ataque cardíaco, mas uma morte que ainda hoje permanece misteriosa.

QUANDO AS NOTÍCIAS «NACIONAIS» NEM ERAM PUBLICADAS NA IMPRENSA LOCAL

A história que vou contar já tem 48 anos. Passou-se na ilha da Armona e a explicação para o que vou descrever compreender-se-á talvez melhor com uma pequena vistoria do vídeo abaixo, as formações arenosas extremamente irregulares - mudam praticamente todos os anos - que caracterizam os bordos da ilha, especialmente na fachada aberta para o oceano. A ilha oferecia duas propostas de praia: uma virada para a ria, de águas mais tranquilas e logo junto ao cais de desembarque, e outra mais custosa, (havia que caminhar um pedaço), até às águas mais batidas da costa. A irregularidade das formações arenosas dessa costa podiam iludir quem não a conhecesse num dia em que, à chegada, estivesse maré vaza. O areal pareceria enorme, o mar permanecia em alguns lagos e reentrâncias, rodeados por penínsulas alguns metros acima do nível das águas. E havia quem se iludisse e que tivesse que regressar apressadamente quando do enchimento da maré. Certo dia, um grupo mais afoito distraiu-se mesmo e, quando deu por ela, o ilhéu onde se haviam instalado - e com todo o aspecto de vir a ficar também submerso - já estava a mais de uma centena de metros da verdadeira praia. Uma centena de metros que o grupo teria que percorrer a nadar. Quem soubesse nadar. Para encurtar uma história de aflições, houve a sorte de ter passado um barco no local para os recolher, quando a cena já estava a ficar mesmo preocupante. Foi um dia de praia diferente para mim, isso é verdade, mas não houve nenhum jornal olhanense ou algarvio que publicasse uma linha sobre o assunto. Para quê? Agora, este mesmo género de episódios têm direito a cobertura nacional(!). Passaram-se 48 anos desde esse dia de Verão de 1970 e, muito provavelmente, centenas de episódios bastante semelhantes terão ocorrido. Agora há alguns deles que passaram a ser noticiados. E a pergunta permanece: Para quê? (O porquê percebe-se: é que agora há uma Autoridade Marítima interessada em promover a sua actuação.)

RECORDANDO UM DOS ASSOMOS DE RESPONSABILIDADE DE VASCO PULIDO VALENTE

A notícia é de 20 de Agosto de 1980 e o poste teria sido publicado com mais oportunidade nesse dia da semana passado, quando se completavam precisamente 38 anos deste assomo de responsabilidade de Vasco Pulido Valente. Na notícia, dava-se conta que Vasco tinha demitido Maria Velho da Costa. Apareceu publicada no Diário de Lisboa e, obviamente, como quase tudo que era publicado naquele jornal, é uma notícia tendenciosa: Maria Velho da Costa era uma das três Marias das Novas Cartas Portuguesas e também dispunha de boa imprensa (nomeadamente no próprio Diário de Lisboa, como se constata abaixo). Leia-se então atentamente a noticia e em lado algum se específica em que consistia o cargo de Maria Velho da Costa. Depreende-se que fosse um bom cargo, já que lhe permitia estar dois meses em Inglaterra a desempenhar outras funções, já que é bastante improvável associar o âmbito de actuação do Tribunal Russell (o jornal dá-lhe um título mais pomposo*) com a secretaria de Estado da Cultura portuguesa. Mas é preciso ter memória apurada para recordar que Vasco também teve estes momentos em que foi responsável por ter que fazer mais alguma coisa do que mandar bitaites e deixar-se fotografar com muito livros atrás dele...
* O Tribunal Russell era uma organização que se pretendia passar por independente, mas que estava perfeitamente conotada com os comunistas no quadro das duas facções rivais da Guerra Fria. Era considerado um dos seus instrumentos de propaganda. Exemplarmente, a sua causa mais célebre foi o julgamento da actuação dos americanos no Vietname, mas quando aconteceu o mesmo com os soviéticos no Afeganistão, o tribunal ignorou olimpicamente o assunto.

28 agosto 2018

REGRESSO ÀS AULAS...

O que se vê acima é aquilo que pode acontecer quando a mudança das prateleiras e dos cartazes num supermercado se processa a um ritmo... parcimonioso.

ABAIXO O CIGARRO E VIVA O CHARRO!

28 de Agosto de 1985. Há 33 anos o conselho municipal de Aspen, cidade do Colorado nos Estados Unidos, tomava uma decisão pioneira que se viria a difundir depois por todo o Mundo: a proibição que se fumasse em restaurantes. Decisão que não apenas se difundiu como se aprofundou: nos dias que correm é um sinal de terceiro-mundismo que qualquer país não possua legislação restritiva sobre os espaços onde é possível fumar. Para além de não se fumar dentro dos edifícios, já se restringe a distância a que um fumador se pode aproximar dele. Mais: o tema da penalização crescente do consumo de tabaco afigurar-se-á tão remunerador do ponto de vista político...
...que há quem se entusiasme em vir a proibir tudo e em todo o lado num futuro próximo. No meio de tanto entusiasmo persecutório, em Aspen, a cidade pioneira, não se quer deixar a reputação por mãos alheias: ainda num referendo local realizado em Novembro passado, se aumentou o imposto sobre cada maço de tabaco em mais 3 dólares e se subiu a idade legal para se poderem adquirir cigarros dos 18 para os 21 anos. Mas, nada do que se contou até agora, especialmente esta última legislação anti-tabaco que foi adoptada em Aspen já para este ano de 2018, valeria qualquer evocação, não se desse o caso que...
...a partir de Janeiro de 2014, o consumo de cannabis (marijuana) deixou de ser criminalizado no Colorado. E que, por causa disso, naquele estado tem vindo a prosperar aquilo que se designa, apropriadamente, pelo turismo do charro, ou seja, pessoas que vão propositadamente ao Colorado para fumar umas ganzas. Nomeadamente, a Aspen, uma bonita estância turística de ski situada a 2.400 metros de altitude. Se, como vimos, a vida das tabacarias locais se torna progressivamente mais difícil, em contrapartida e sem qualquer vergonha pela contradição, prosperam as «charrarias» e na internet pode até se consultar um «Guia do Connoisseur de Cannabis para um fim de semana de sonho em Aspen»...

27 agosto 2018

AS CONVERSAÇÕES DAS SEIS PARTES

27 de Agosto de 2003. Tinha lugar a primeira ronda das Conversações das Seis Partes (Six-party talks). As seis partes eram (por ordem alfabética): China, Coreia do Norte, Coreia do Sul, Estados Unidos, Japão e Rússia. E o tópico era o programa nuclear norte-coreano. Dois dias depois as conversações eram suspensas e agendada nova ronda para daí a seis meses. Segundo os diplomatas experimentados em conversações com coreanos, a primeira ronda correra excepcionalmente bem. O armistício de Panmunjon de 1953 demorara mais de dois anos a ser negociado, todos os pormenores eram objecto da mais minuciosa negociação. Mas aqui conseguira-se fixar rapidamente um formato (hexagonal) e uma disposição para a mesa de negociações! No canto superior, realce-se o pormenor - sinal de importância - de que é o representante chinês o que fica mais próximo da porta. Na fotografia acima, e embora os negociadores norte-americanos sejam dos que mais gostam de se destacar nas fotografias, os dois representantes mais fotogénicos e bem dispostos ao centro são os da Rússia e da China. Foi há quinze anos. Seguiram-se outras cinco rondas. Donald Trump ter tido a pretensão de que se resolvia tudo isto com uma cimeira foi uma estupidez, uma arrogância, uma ignorância, uma presunção, uma mediocridade.

A BATALHA DE 27 DE AGOSTO, CONHECIDA DO OUTRO LADO DA FRONTEIRA POR «AMBOS NOGALES»

A batalha que se evoca travou-se a 27 de Agosto de 1918, há precisamente cem anos, mas a história que a explica começou mais de 60 anos antes, em 1853, quanto os Estados Unidos, representados pelo diplomata James Gadsden compraram ao México uma parcela de território de 78.000 km² (área acima assinalada a amarelo) por 10 milhões de dólares. O processo recebeu o nome de Aquisição Gadsden (Gadsden Purchase). O que interessa para a continuação da história é que o novo traçado das fronteiras, traçadas a esquadro no mapa, veio a dividir uma pequena e remota povoação com o nome de Nogales. Passou a haver a Sul uma Nogales mexicana, no estado de Sonora, e a Norte, uma Nogales norte-americana, no estado do Arizona. E uma fronteira internacional a separá-las, como se pode observar pela fotografia que se segue, tirada por volta dos finais do século XIX, em que a zona de fronteira aparece claramente demarcada por uma larga avenida, onde no lado esquerdo se está no México e no direito nos Estados Unidos. Instalaram-se depois uns marcos centrais assinalando o local preciso por onde passava a fronteira, mas, até 1918, não existiu propriamente qualquer barreira física que impedisse os habitantes de cada lado da cidade de se deslocarem ao outro.
Vinte anos passados, em 1918, a logística da separação da cidade ainda era essencialmente a mesma, mas a atitude dos nogalenses de cada lado mudara substancialmente. Vivia-se um decénio de grande instabilidade revolucionária no México e grande parte dessa disputa política, uma verdadeira guerra civil, travava-se a tiro. Alguns desses combates transbordaram para o lado norte-americano da fronteira. E os Estados Unidos reagiram a isso invadindo o México em busca dos prevaricadores, mas sem qualquer concertação diplomática com as autoridades mexicanas, desencadeando a hostilidade destas. Para piorar o ambiente, a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial em 1917 alterara a economia local, nomeadamente os tradicionais fluxos de contrabando que contribuem sempre para a prosperidade destas cidades fronteiriças. Produtos norte-americanos muito apetecidos no México eram agora racionados. O incidente que está na origem da suposta batalha envolve precisamente dois funcionários da alfandega: o do lado americano queria ainda revistar um passante mexicano quando este já se encontrava em zona neutra de regresso; o seu homólogo mexicano disse ao compatriota para ignorar a ordem. Uma das sentinelas do posto alfandegário americano terá então disparado um tiro de aviso. O transeunte, pensando-se visado, atirou-se para o chão. O funcionário do lado mexicano, pensando-o atingido, ripostou em direcção à sentinela, matando-a. O funcionário do lado americano matou o seu homólogo e em menos de nada, havia uma fuzilaria dos dois lados daquela avenida.
A fuzilaria, começada pouco depois das 4 da tarde, durou cerca de três horas e meia até quase ao pôr do sol, o suficiente para que uma das vítimas do tiroteio tivesse sido o presidente da câmara local (mexicano), que viera de lenço branco tentar pôr termo aos combates. No total morreram 4 militares e 2 civis do lado americano, enquanto os mexicanos reconheceram 15 mortos do seu lado. Os militares norte americanos reclamaram ter causado quase dez vezes isso: 130 mortos. Há um século, e tendo em conta a referência dos milhares de baixas que então se ouviam nas frentes europeais, ainda não devia ser politicamente desaconselhável dar uma imagem de se ser (desnecessariamente) carniceiro. Na sequência da batalha foi definitivamente construída uma cerca separando a cidade, cuja aparência (acima uma foto de 2011) pode ser um pouco enganadora. A cidade mexicana (à esquerda), que conta hoje com 234.000 habitantes, é onze vezes mais povoada do que a sua irmã do outro lado da fronteira, com os seus 21.000 habitantes. Com o assunto do Muro com o México a ser uma das coqueluches do discurso de Donald Trump, até me surpreende que esta administração não se tenha aproveitado deste centenário para, evocando o acontecimento, entusiasmar as suas hostes, amesquinhar os mexicanos, e arranjar mais uns sarilhos internacionais como o presidente Trump tanto gosta.

Adenda: Está explicado. Não vinha nada a calhar que Trump falasse do assunto quando, no mesmo dia, pretendia apresentar um novo acordo de tarifas com o México.

AS «SELFIES» COM MARCELO E OS 44,2% DE PORTUGUESES - ESTRANHAMENTE - REFRACTÁRIOS

Mesmo que as sondagens da Eurosondagem nunca sejam para levar muito a sério, o assunto em foco também são as selfies com Marcelo, o que quer dizer que está uma coisa bem para a outra... Ora o que o Expresso nos informa é que, segundo os dados de uma sondagem, 52,5% dos portugueses querem tirar uma selfie com Marcelo. Mais do que isso, segundo a mesma sondagem, 3,3% já têm uma selfie com Marcelo. O que, sem o parecer, é uma proeza de respeito: foram 336.800 selfies já tiradas (se confiarmos nas estimativas da população portuguesa), o que dá uma média de 374 selfies por dia desde que Marcelo tomou posse (ou seja, uma selfie de quatro em quatro minutos!). Pode parecer excessivo mas, tome-se em conta, como acontece no caso acima, que Marcelo deve ter muitas selfies colectivas (estão ali 15 pessoas ou mais, o que equivale ao trabalho de uma hora inteira); e, por outro lado, como ele respondia sempre que lhe perguntavam onde arranjava tempo para ler aqueles livros todos na TVI, o presidente dorme muito pouco!... Mesmo assim, neste ritmo despachado que é o seu, se Marcelo quiser contentar todos os portugueses que a notícia diz que querem tirar uma selfie consigo, os 52,5% ainda em fila de espera, vamos precisar de mais 39 anos, o que faria da duração da presidência de Marcelo uma coisa ainda mais extensa do que o governo do doutor Salazar...
Mas, verdadeiramente preocupante do ponto de vista político em toda esta questão das selfies não serão alguns potenciais desiludidos, serão os 44,2% de portugueses (100% - 52,5% - 3,3% = 44,2%) revelados por esta sondagem e que se mostram refractários ao desejo de quererem uma selfie com Marcelo. Como é que se pode conceber tal? Quem é que não gosta do Marcelo? É uma verdadeira falta de patriotismo não ter essa ambição! Isso e mostrar indiferença pelo Cristiano Ronaldo.

26 agosto 2018

A BATALHA DE CRÉCY

26 de Agosto de 1346. Teve lugar em Crécy aquela que foi primeira grande batalha da Guerra dos Cem Anos. O exército inglês de Eduardo III alcançou ali uma surpreendente vitória sobre o exército francês de Filipe VI. Tive o privilégio de visitar o local e o museu há cerca de uns dois meses. E esta evocação dedicar-se-á mais a essa visita do que à batalha propriamente dita. O museu, municipal, era simplicíssimo. É compreensível: tratando-se de uma derrota francesa, mesmo que - ou sobretudo... - em território francês, nunca deve ter havido generosidade nos financiamentos para a evocação de tal acontecimento funesto. Em contrapartida, e sublimando os meios, o acolhimento foi simpaticíssimo. Na foto acima, podemos ver, embora numa outra visita, aquele que foi o nosso anfitrião enlevado nas suas explicações diante de uma maqueta sobre os detalhes de como decorrera a batalha. No nosso caso, os visitantes eram bem menos (dois), mas terá havido mais participação da assistência e existe uma descrição, flagrantemente lisonjeira, de que a conversa, pluridisciplinar, empolgou visitantes e visitados. O que me mais me marcou a respeito da visita pode observar-se nesta fotografia abaixo: são aqueles 6 rectângulos verdes, onde se adivinham, mais do que se conseguem identificar, o desenho de setas vermelhas e azuis. Cada um dos 6 rectângulos é uma versão - autor identificado - de como pode ter sido a batalha de Crécy. Ou seja, nesta batalha travada há 672 anos, sabendo-se o essencial, há ainda muita latitude para presumir os detalhes. As certezas ficam para as reconstituições. E, pelo que aprendi, pela simpatia como fui acolhido, é da mais elementar justiça dar publicidade aos mais recentes apelos de financiamento daquele museu.

25 agosto 2018

O MAIOR DA... «CANTADEIRA»? E ELA CANTA AFINADA?


O vídeo acima já circula pelas redes sociais há uns três meses. Foi colocado logo depois do início da crise do Sporting e recupera uma entrevista de 2016 onde aparece um Bruno de Carvalho a falar de si mesmo na terceira pessoa, prometendo censurar os seus próprios excessos. Dadas as circunstâncias, é patético. Mas, dado que é carnaval futebol, ninguém leva a mal. Mas o que estranho, nos milhentos comentários indignados que invariavelmente se seguem às variadas publicações do vídeo que fui encontrando, é que, até agora, nunca dei por nenhum que chamasse a atenção para a gaffe do presidente que, a certa altura (0:30), emprega a expressão «o maior da Cantadeira» quando o que ele quereria dizer era «o maior da Cantareira» (Cantareira: bairro do Porto onde se exibia o Chico Fininho). Ora este é o género de gaffe linguística que se regista num clube que, por coincidência, possuía (na época) um treinador que era precisamente famoso pelas gaffes... Que se pode acrescentar? Tal presidente, tal treinador? Ou que o primeiro, não sendo rústico como o segundo, pode ser tão ignorante quanto ele? Ou que só faz sentido gozar com a ignorância dos rústicos? Ou ainda que há um certo género de gaffes que estão para além da compreensão da massa dos associados e do resto do mundo do futebol?...

A OFERTA PÚBLICA DA ARAMCO

As notícias do Negócios e do Eco contradizem-se absolutamente, mas isto é que é bom jornalismo. É indício que existem duas opiniões entre as cúpulas sauditas quanto à questão da abertura do capital da grande petrolífera estatal saudita. E que as duas correntes se disputam. Mesmo que o assunto não nos interesse minimamente, reconhece-se quando um tópico se torna apelativo. E é diferente de ler a mesma coisa, redigida de forma subtilmente diferente nos vários jornais.

A PROFECIA D'«A HUMANIDADE»

Edição de 25 de Agosto de 1939 (Sexta Feira) do L'Humanité, «órgão central do Partido Comunista Francês». Apoiado na assinatura do Pacto Nazi-Soviético assinado dois dias antes em Moscovo, o jornal comunista destaca que «A acção da União Soviética através do pacto de não-agressão com a Alemanha CONCORRE PARA CONSOLIDAR A PAZ GERAL». Parecia uma coisa daquelas que hoje dizem os apaniguados de Trump em sua defesa. Era (quase) gozar à conta da enorme pirueta táctica que os soviéticos haviam acabado de protagonizar e, em jeito raivoso, a publicação do jornal iria ser interditada pelo governo francês daí por dois dias. Pior quanto à paz geral (assunto que afinal era o mais importante): a Segunda Guerra Mundial iria começar numa semana. Compare-se a capa do L'Humanité com a de um jornal normal desse mesmo dia e as preocupações que lá estão expressas (abaixo, o Diário de Lisboa). É até uma pesada ironia, considerando a comparação feita acima com a propaganda Trump, que o destaque desta última vá para os esforços de Paz feitos por um outro presidente americano.

24 agosto 2018

O «BULLSHITISMO» EM VERSÃO LÍQUIDA

Passei pela prateleira onde a promoviam e o encanto foi imediato. As garrafas de uma água denominada Healsi são um arrebatamento, multicoloridas e em forma de diamante. Mas também são um arrebatamento caro (quase dois euros por uma garrada de litro) e com parcas explicações quanto ao conteúdo, pelo menos se se contar com as que estão imediatamente disponíveis na (arrebatadora!) embalagem (abaixo): Um pH perfeitamente neutro (7,0), uma forte presença de silicatos (61 mg/l)*, uma proveniência algo obscura: Ulme. A investigação posterior veio a revelar que Ulme é uma das freguesias da Chamusca, vila do Ribatejo. Como local de nascente de águas minerais, a Chamusca faz-me lembrar uma outra vila a jusante do vale do Tejo e uma passagem do filme «O Pátio das Cantigas», onde António Silva anuncia que vai de férias, «numa cura de águas para o Cartaxo»... ao que Vasco Santana, lhe replica, ironicamente (por causa da reputação dos vinhos do Cartaxo), «cura de águas para o Cartaxo? Compreendi-te...» Mesmo que não compartilhe da mesma fama vinícola para se prestar ao mesmo trocadilho, também a localização geográfica da Chamusca não indiciará possibilidades geológicas da existência de veios aquíferos de grande personalidade. Mas isso é para quem esteja interessado no que está dentro da (magnífica!) garrafa. Para quem não esteja, é importante saber que aquela marca de água esteve presente na ModaLisboa. Ler no Marketeer que se trata de uma água regeneradora. Ou oferecê-la de presente Gourmet. Eu provei o que lá estava dentro e continuo a insistir que a garrafa é um espanto e que não quero mal a quem quer vender aquilo por um euro e tanto o litro. Haja quem compre.
* Para comparação, a conhecida água do Luso tem um pH (ácido) de 5,8 e a concentração de silicatos é de 14,0 mg/l. E é sete vezes mais barata.

HEINRICH HIMMLER - O POLIVALENTE

24 de Agosto de 1943. Neste dia de há setenta e cinco anos Heinrich Himmler (1900-1945) era nomeado ministro do Interior (Reichs- und Preußischen Ministerium des Innern - inútil procurar referências a esse ministério na wikipedia em alemão... se aceitarmos o que lá aparece escrito, então algumas estruturas do estado alemão só surgiram em 1949). À época Himmler já era Reichsführer das SS, estava à frente de todas as polícias alemãs, era o comissário da Agência para o Apuramento da Raça e dirigia também o Gabinete Central de Segurança do Reich. E agora iria acumular todas aquelas responsabilidade com o ministério. Mas não se iria ficar por aqui: no futuro iremos encontrá-lo como chefe de guerra, no comando directo de tropas, à frente do exército de reserva (Ersatzheer), do Alto Comando do Alto Reno e do Grupo de Exércitos do Vístula. Um homem incansável e verdadeiramente polivalente.

23 agosto 2018

O QUE PARECE SER UMA VERDADEIRA NOVIDADE CIENTÍFICA

Desde ontem à tarde que a notícia estava disponível no El País. Em jornais portugueses até agora não dei por nada, mas estou convencido que a mesma notícia acabará por cá chegar, a da descoberta de uma adolescente que viveu há cerca de 90.000 anos cuja sequenciação genética terá mostrado que era o resultado de um cruzamento entre espécies: uma Neandertal e um Denisovano. O assunto aparece um pouco mais desenvolvido na Nature. Normalmente guardo a descoberta destes assuntos para mim, mas destaco-o porque ainda anteontem gozei com uma daquelas notícias científicas recauchutadas, a da existência de água na Lua. Convém dar destaque às que são verdadeiramente interessantes.

UM VERDADEIRO DESASTRE DE RELAÇÕES PÚBLICAS

23 de Agosto de 1990. Depois de ter invadido o Koweit no princípio do mês, e de ter sido surpreendido pela amplitude da reacção hostil dos Estados Unidos, Saddam Hussein protagoniza na televisão iraquiana uma reportagem de 30 minutos (que ele sabia destina a ser retransmitida para todo o mundo) onde aparece a visitar uma família de expatriados britânicos, conversando com alguns deles. Três semanas depois do inicio do conflito, centenas de ocidentais permaneciam impedidos de viajar para fora do Iraque e do Koweit. A mensagem de Saddam mediava entre o aparentemente simpático e o subtilmente ameaçador, mas o resultado entre as opiniões públicas ocidentais, que ele procurava assim cortejar e condicionar, foi um colossal desastre mediático. Tanto, que o momento da reportagem em que Saddam Husseim (que até largara o uniforme para a ocasião!) afaga uma criança visivelmente tensa, rapidamente foi posto a circular, mas pela propaganda adversária! O episódio mostrou a completa falta de consciência, por parte da liderança iraquiana, quanto à imagem pública que ela própria possuía fora das suas fronteiras.

A REVERSÃO DE UM LONGO PERCURSO

23 de Agosto de 1968. A edição de há cinquenta anos da revista LIFE publicava uma reportagem fotográfica de choque, mostrando o grau de poluição que se atingira nos Grandes Lagos. A questão ambiental começava então a ser uma preocupação social. Já muito se evoluiu desde então no que diz respeito ao assunto, mas o momento parece ser agora de reversão, quando se percebe o sentido das reformas da administração Trump. Ainda anteontem, os Estados Unidos adoptaram novas medidas estimulando novamente o recurso ao carvão como fonte de energia.

22 agosto 2018

A MELHOR PROMOÇÃO QUE SE PODE FAZER A UM QUADRO É ROUBÁ-LO (1)

Manhã de 22 de Agosto de 1911. No Museu do Louvre, o pintor Louis Béroud, que tinha planeado executar uma cópia da Mona Lisa encontra o sítio vazio. Ainda se pensou que alguém do Museu a levara e foi só por volta das 11H00 da manhã, depois de se ter esgotado a última hipótese disso ter acontecido com o fotógrafo oficial do Louvre, é que o famoso quadro foi dada como roubado, há 107 anos. Contudo, o roubo tivera lugar no dia anterior, logo de manhã cedo. O ladrão, veio-se a saber depois, fora um operário de origem italiana do próprio museu chamado Vincenzo Peruggia. O quadro esteve desaparecido por dois anos, foi recuperado em Dezembro de 1913 em Florença e regressou ao seu lugar no Louvre em 4 de Janeiro de 1914. Subsiste o mito urbano que, durante esses vinte e oito meses, o local vazio onde o quadro estivera exposto foi visitado por mais pessoas do que o havia sido nos anos precedentes em que ele lá estivera (recorde-se que o roubo só foi detectado ao fim de mais de 24 horas...). Quanto às razões que haviam estado por detrás do roubo, a mais difundida - e que consta da história de BD que abaixo se publica - é a do patriotismo, o ladrão teria querido que o quadro regressasse a Itália. Isso não conseguiu, mas, como evento promocional, o quadro é o mais famoso do mundo.

A TELENOVELA DA POLÍTICA EXTERNA AMERICANA QUANTO À NÃO PROLIFERAÇÃO NUCLEAR

Em Maio passado, e mesmo depois do anúncio pelos Estados Unidos de que estes se iriam retirar do Acordo Nuclear firmado entre o Irão e a comunidade internacional, a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA) confirmava a atitude iraniana de continuar a cumprir os compromissos do Acordo, apesar do que acontecera. Em contrapartida, em Junho passado houve uma cimeira histórica em Singapura, de onde se saiu com a impressão que houvera uma promessa norte-coreana de desnuclearização futura da península. Mas dois meses depois aquela mesma IAEA vem anunciar que, pelo contrário, a Coreia do Norte não estará a cumprir os compromissos que então assumiu. Tirando a retórica e alguma cenografia em excesso, tudo se mantém como estava antes de Donald Trump ter chegado à Casa Branca. Ou seja, a política externa da administração norte-americana, e no que à questão do combate à proliferação nuclear diz respeito, é como uma daquelas telenovelas para encher horário: parece que acontece imensa coisa, mas tudo o que acontece não é para alterar o fio condutor da história, que já vinha de trás e que tem que se arrastar para aí por uns 200 episódios - sem que nada aconteça de verdadeiramente importante que possa perturbar o sentido tradicional das histórias canónicas daquelas novelas.

21 agosto 2018

ÁGUA NA LUA E «ÁGUA DE LUA»

Em chegando Agosto e as férias, quando os assuntos secam, tornou-se tradição que alguns tópicos jorrem para os cabeçalhos da imprensa, de que exemplo recorrente é a história da existência de água na Lua. Como se pode apreciar mais abaixo, é um desafio anual à imaginação dos jornalistas redigir a mesma notícia num formato que pareça diferente (2009, 2010, 2012, 2013, 2015, 2017). A versão deste ano, pelo menos a do Observador, de onde se recolheu o cabeçalho acima, é que desta vez é a primeira «prova directa e definitiva» da existência de gelo na lua. Ora, como muito bem assinala o primeiro comentário à notícia supra, «prova directa e definitiva seria ir lá e encontrá-lo» (ao gelo). Ora essa façanha, até agora, e como eu assinalei em paródia à mesmíssima notícia publicada naquele mesmo jornal no ano passado, só mesmo o Tintin a terá feito quando andou por aquelas paragens. Enfim, tanta é a repetição, que eu também me sinto obrigado a invocar novas paródias para acompanhar tanta descoberta científica, e a deste ano é «Água de Lua», interpretada por Djavan...

AS ELEIÇÕES AUSTRALIANAS ELEGEM UM PARLAMENTO FRANCAMENTE TRABALHISTA

21 de Agosto de 1943. Para resolução (nas urnas!) de uma crise política que surgira dois meses antes, tinham lugar há setenta e cinco anos eleições gerais na Austrália. Os resultados foram uma maioria expressiva para os trabalhistas do primeiro-ministro em exercício, John Curtin (1885-1945), quando alcançaram ½ da votação e conquistaram ⅔ dos 74 lugares em disputa. A interpretação política dos resultados podia ser contraditória: ou se tratara de um endosso substantivo do seu líder de guerra, ou então estava-se diante de uma inflexão à esquerda do eleitorado australiano. Não se sabia então, mas o líder de guerra não viria a ter oportunidade de se reapresentar ao eleitorado: John Curtin morrerá subitamente em 5 de Julho de 1945 (menos de três meses depois de Franklin D. Roosevelt), ainda a Segunda Guerra Mundial não terminara na Frente do Pacífico, precisamente aquela a que a Austrália dava a principal importância.