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06 julho 2024

A INDEPENDÊNCIA DO MALAWI

6 de Julho de 1964. Com a presença do príncipe Filipe em representação de Isabel II, têm lugar em Blantire, as cerimónias da independência do Malawi, o novo nome da antiga colónia britânica da Niassalândia, adjacente ao Grande Lago do mesmo nome e fronteiriço com Moçambique. O homem forte do novo país, o primeiro-ministro Hastings Kamuzu Banda, era um sexagenário de idade incerta (ainda não havia registos de nascimento na época em que nascera, pouco antes de 1900), que se educara nos Estados Unidos e posteriormente na Escócia, onde se viera a formar em medicina e onde chegara a praticar como clínico. Mas a sua condição de membro da pequena elite africana tornou-o num elemento dirigente natural das organizações nacionalistas que surgiram nas colónias depois de 1945 e que vieram a herdar o poder quando da concessão das independências pelo Reino Unido. A continuação da história do Malawi é uma, mais do que previsível, transformação progressiva do regime numa ditadura pessoal por parte de Banda. Menos de dois meses depois das cerimónias acima, dá-se uma crise em que Banda afasta a maioria dos ministros do seu gabinete. Em 1966, o Malawi torna-se uma república e Hastings Banda o seu presidente. O seu partido passa a ser único. Em 1971 aquele cargo passa a ser vitalício. E o reinado de Banda dura até 1993. As imagens abaixo dão, em contraste com as de cima, uma imagem do que eram as manifestações políticas durante esses primeiros trinta anos de um Malawi independente.

31 dezembro 2023

O POVOAMENTO PROSPECTIVO DA FEDERAÇÃO DA RODÉSIA E DA NIASSALÂNDIA

31 de Dezembro de 1963 foi a data da dissolução da Federação da Rodésia e da Niassalândia, ocasião propícia para republicar no blogue este texto, referente às esperanças que se haviam depositado nessa estrutura política experimental britânica em África que hoje não passa de uma memória (esquecida).
A Federação foi um projecto político britânico criado após a Segunda Guerra Mundial e que se destinava a conceder um certo modelo de autonomia política a alguns territórios britânicos em África contornando as pressões para que as descolonizações se processassem da maneira mais convencional onde o poder fosse transferido para as elites africanas indígenas maioritárias. A ideia era criar condições para replicar o modelo da África do Sul, onde a população de ascendência europeia, ainda que minoritária (20%), o era substantivamente e atingia uma dimensão crítica (eram 2,5 milhões de sul-africanos brancos em 1950) para conferir estabilidade a um regime de supremacia branca.
A Federação foi constituída no centro da África meridional, entre Angola e Moçambique (ver mapa acima), reunindo as regiões que são hoje a Zâmbia, o Zimbabué e o Malawi (e que na época eram conhecidas por Rodésia do Norte e do Sul e Niassalândia). Quando foi fundada, em 1953, possuiria uns 6.850.0000 habitantes, dos quais apenas 2,5% (170.000) eram de origem europeia, e cerca de ⅔ destes últimos concentravam-se na Rodésia do Sul. A Rodésia do Sul era, naturalmente, o cérebro e a locomotiva do projecto. E a ideia não era copiar exactamente o modelo sul-africano, onde os africânderes haviam acabado de institucionalizar o apartheid, mas implementar um modelo de inspiração britânica, mais benigno. Contudo, a importação de mão de obra qualificada de origem europeia afigurava-se indispensável.
É no quadro desse ambicioso projecto que se pode compreender a notícia de jornal dessa época que insiro abaixo, onde se antecipava que nos 25 anos seguintes a Federação esperava receber um milhão de imigrantes europeus para a equilibrar demograficamente. Esse milhão de emigrantes europeus transplantados para o meio de África foi um projecto exuberantemente falhado e esquecido e que se chega a tornar cómico quando conhecido a 70 anos de distância, quando se conhece a continuação dos acontecimentos. Nunca os territórios africanos conseguiram despertar um interesse da imigração europeia à escala antevista pelos visionários do projecto da Federação. Os europeus emigrados preferiram outros destinos, sobretudo na própria Europa. A Federação durou dez anos (1953-1963), até que cada um dos seus membros seguiu o seu percurso distinto.
No final da década de 1970, ao fim dos tais 25 anos míticos da notícia acima, a população de origem europeia total dos três países separados cifrava-se em cerca de 350.000 pessoas, das quais mais de 80% se concentrava na então Rodésia do Sul, o único deles que ainda prosseguia em versão reduzida o projecto de supremacia branca. Também esse terminou em 1980. O número de brancos actualmente na região outrora concebida para receber um milhão deles cifrar-se-á à volta dos 75.000. Convém remexer de quando em vez nestes projectos neocoloniais britânicos fracassados para não se ficar com a opinião que as ambições coloniais anacrónicas só aconteceram connosco...