18 de Agosto de 1949. A edição do Diário de Lisboa desse dia dava uma atenção inesperada à Jugoslávia, país que ficara do lado de lá da Cortina de Ferro aquando da divisão da Europa em 1945, mas que por vezes mostravas assomos de uma independência que levava o Ocidente a questionar o formato do cortinado. A edição de há 70 anos colocava a hipótese de Estaline invadir a Jugoslávia, fruto da crescente tensão registada entre a União Soviética e aquele país, liderado por Tito. Por outro lado, numa página interior, assinalava-se a intenção dos Estados Unidos fornecer os materiais para a edificação de uma siderurgia, o aconteceria por uma primeira vez no caso de um país situado do outro lado. Para o leitor comum de um jornal português, submetido à propaganda dominante, a imagem era clara: que os comunistas não eram todos iguais, que, numa adaptação da imorredoura expressão de Orwell, havia uns que eram menos iguais que os outros.
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18 agosto 2019
02 dezembro 2018
A IMPORTÂNCIA DAS FRONTEIRAS INTERNAS DA JUGOSLÁVIA
1 de Dezembro de 1918. Proclamação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, país que mais tarde se viria a denominar Jugoslávia. Hoje, que seria a ocasião do seu centenário, não passa de uma memória. Não durou o tempo sequer de celebrar as suas bodas de diamante. Sempre foi um país em que, mais importante do que as fronteiras com o estrangeiro, o problema eram os contornos das fronteiras interiores. No quadro acima exibem-se quatro modelos distintos da sua organização política e administrativa (de cima para baixo e da esquerda para a direita): as sete províncias (1918-1922), reorganizadas em trinta e três oblasts (1922-1929), depois reconvertidas em nove banovinas (1929-1939). Depois em 1945 passou-se a seis repúblicas, complementadas em 1974 com duas províncias autónomas (a tracejado). Foi o formato mais estável, mas colapsou em 1991.
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09 agosto 2018
HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA
9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.
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12 maio 2007
O PAÍS A QUE CHAMAM FYROM
Por anos a fio, e até hoje em alguns casos (a União Europeia é um deles), a obstinação grega obrigou que uma das antigas unidades da federação jugoslava fosse designada pelo acrónimo bizarro de FYROM, que corresponde, em inglês, a Former Yugoslav Republic Of Macedonia (Antiga República Jugoslava Da Macedónia). A objecção grega está associada ao que os gregos consideram a sua posse histórica do nome de Macedónia, desde a Antiguidade e do reino de Filipe e Alexandre. Aliás, imediatamente ao Sul da república que se separou da federação jugoslava, existem três distritos gregos usando esse nome: a Macedónia Central, a Macedónia Ocidental e a Macedónia Oriental e Trácia.
O ministro dos negócios estrangeiros grego, quando enviado a Portugal no princípio do diferendo (1992) para nos conquistar para a sua causa, arranjou uma analogia bastante imbecil, envolvendo-nos com uma Espanha a decompor-se, numa demonstração que o trabalho dos membros da sua Embaixada em Lisboa tinha uma grande margem de progressão… A analogia envolvia a independência da província espanhola da Extremadura e do incómodo que isso nos causaria por causa da semelhança do nome desse país hipotético com a nossa província da Estremadura, que nem sequer lhe fica contígua… E, contudo, com o mesmo uso do hipotético teria sido bem simples e eficaz sensibilizar-nos: se a Andaluzia se separasse de Espanha e adoptasse o nome histórico de Algarve, como nos sentiríamos?...
O ministro dos negócios estrangeiros grego, quando enviado a Portugal no princípio do diferendo (1992) para nos conquistar para a sua causa, arranjou uma analogia bastante imbecil, envolvendo-nos com uma Espanha a decompor-se, numa demonstração que o trabalho dos membros da sua Embaixada em Lisboa tinha uma grande margem de progressão… A analogia envolvia a independência da província espanhola da Extremadura e do incómodo que isso nos causaria por causa da semelhança do nome desse país hipotético com a nossa província da Estremadura, que nem sequer lhe fica contígua… E, contudo, com o mesmo uso do hipotético teria sido bem simples e eficaz sensibilizar-nos: se a Andaluzia se separasse de Espanha e adoptasse o nome histórico de Algarve, como nos sentiríamos?...
Politicamente, Macedónia é uma designação cheia de potencial para se transformar numa tremenda trapalhada. Pode ser uma região histórica, sem significado actual, ou pode ser uma região geográfica, passível de ser organizada politicamente das maneiras mais diversas, pode também ser apenas um subgrupo cultural de entre os eslavos dos Balcãs, mas poderá ser uma verdadeira nação separada, será praticamente tudo o que dela quisermos fazer. Ao mesmo tempo, podem-se percorrer os países vizinhos (Sérvia, Bulgária e Grécia) e encontrar ali alguma unanimidade de opiniões em como não existem razões suficientemente válidas para que exista uma identidade macedónia própria que justifique a existência de um país independente.A argumentação que sustenta a existência de um idioma macedónio autónomo é peça importante para a afirmação da existência de uma nacionalidade macedónia. Todos os idiomas eslavos dos Balcãs se assemelham e as várias formas faladas que se empregam na Macedónia tanto se distinguem entre si como das variantes empregues nas regiões adjacentes dos vizinhos da Sérvia e da Bulgária. Mas as referências usadas no macedónio literário aproximam-no daquelas que caracterizam o búlgaro, embora privilegiem os padrões do búlgaro empregue nas regiões ocidentais da Bulgária, enquanto o próprio búlgaro literário o faz com os padrões da Bulgária oriental, onde se situa Sófia, a capital.
A maioria dos macedónios são cristãos ortodoxos, organizados numa Igreja Ortodoxa Macedónia autónoma que foi recriada (ou criada, conforme as versões…) em 1958. Pôde-se notar o apoio discreto do governo federal jugoslavo na sua fundação e a Igreja Macedónia ainda hoje é proscrita na comunidade das Igrejas Ortodoxas. Existe uma minoria muçulmana, embora haja uma enorme certa complexidade em classificá-la: há os que são de cultura albanesa, outros são classificados como bósnios ou mesmo turcos e há ainda a categoria dos muçulmanos de cultura macedónia. Num exemplo flagrante como os resultados dos censos podem ser trabalhados, o último grupo cresceu de 1.600 pessoas no recenseamento de 1953 para 39.500 no de 1981…
Pelo que ficou escrito nos dois últimos parágrafos deste poste, é fácil perceber a importância da acção do governo jugoslavo do pós-guerra, chefiado por Tito, um croata, na promoção da constituição de uma nacionalidade macedónia distinta que enfraquecesse a Sérvia (a comunidade mais numerosa da Jugoslávia) e assim facilitasse o estabelecimento dos indispensáveis equilíbrios internos entre sérvios e croatas dentro da federação jugoslava. Foi uma manobra superiormente bem feita, porque, para além dessa componente de equilíbrio interno, a criação de uma nação macedónia neutralizou as aspirações da Bulgária que os queria considerar búlgaros além de que a escolha do nome se tornou uma potencial ameaça para a Grécia numa eventual disputa de um acesso para o mar…Mas toda a beleza maquiavélica da criação da Macedónia assentava no pressuposto que ela continuaria a ser uma das unidades constitutivas de uma federação… Agora que se tornou independente, isolada do mar e rodeada de vizinhos hostis (Albânia, Sérvia, Bulgária e Grécia), a Macedónia é um verdadeiro problema político em potencial para a União Europeia, mais um par de botas balcânico, tipificado naquela proibição formal do país usar o seu próprio nome e na manutenção, ainda hoje, de um Quartel-General da NATO em Skopje, capital da Macedónia, não venha a acontecer qualquer coisa de inesperado…
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