Este é um anúncio da cadeia McDonalds na Malásia. Trata-se da promoção de um novo hamburguer de frango e, pelos vistos, naquelas paragens do Mundo a marca Portugal® tem um significado de especiarias e de exotismo, quiçá por causa da comunidade kristang de Malaca. O facto é lisonjeiro e uma perspectiva diferente da que recordo do livro abaixo, em que a versão que nos é contada é que toda aquela região até era originalmente uma sociedade muito pacífica, os malaios convertiam-se em massa do bramanismo e do budismo ao islão sem que houvesse incidentes sociais, até à chegada dos portugueses que, esses sim, mais o seu cristianismo proselitista, esses é que desestabilizaram a região.
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03 julho 2019
12 dezembro 2018
O MASSACRE DE BATANG KALI
Já aqui demonstrei neste blogue por mais do que uma vez a minha admiração, acompanhada do meu desdém, pela forma como os britânicos deturpam hipocritamente a sua História quando os factos se mostram desagradáveis para a sua reputação. O caso que hoje evocarei, ele situa-se no quadro de uma guerra colonial que os britânicos travaram na Malásia entre 1948 e 1960. Mas, como as designações são muito importantes, neste caso, não terá havido uma guerra colonial, mas apenas uma «emergência», ficção que ainda hoje perdura (acima). Porém e tirando a nomenclatura, e como «emerge» da crueldade da fotografia central, o que ali se passou assemelhou-se em quase tudo às guerras de retardamento da retirada que outras potências europeias travaram naquelas mesmas paragens da Ásia, como aconteceu com os franceses na Indochina (1946-54) e os holandeses na Indonésia (1945-1949). Até nos aspectos mais sangrentos das acções de subversão e contra-subversão, como é o caso dos massacres perpetrados pelos combatentes sobre a população civil. O que nos transporta até ao dia 12 de Dezembro de 1948, cumprem-se hoje 70 anos. Quando um pelotão de soldados britânicos dos Scots Guards ocupou a aldeia de Batang Kali no estado de Selangor e ali executou 24 aldeões, queimando depois a aldeia, que era povoada por chineses e, por isso, considerada muito mais permeável à subversão. Episódios como este terá havido, infelizmente, milhares em todas as guerras com aquelas características. Mas o que merece o destaque deste massacre é a atitude hipócrita, sempre sob a aparente cobertura do primado da lei, que as autoridades britânicas adoptaram nos 70 anos que se lhe seguiram. Havia testemunhas, havia uma proclamada disponibilidade dos britânicos em reanalisar o assunto e depois, há os resultados: em 42 anos, de 1970 a 2012 (veja-se abaixo a referência ao 'massacre'), conseguiu-se sempre concluir (oficialmente!) que não se conseguia concluir coisa alguma.
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11 dezembro 2018
O COLAPSO DAS HIGHLAND TOWERS NA MALÁSIA
11 de Dezembro de 1993. Colapso de um bloco habitacional de 13 andares que havia sido edificado em 1977. A causa foi atribuída a um deslizamento de terra (que se identifica no lado superior direito da fotografia) que se devera a dez dias de chuvas contínuas. Os apartamentos eram habitados por membros da classe média alta local. De entre as 48 pessoas que morreram no acidente, 12 eram estrangeiras e, entre os malaios, contava-se o filho e nora de um antigo vice-primeiro-ministro, o que deu uma outra notoriedade mediática ao episódio. Foi nomeadamente o rastilho de uma chamada de atenção para as condições de segurança menos que satisfatórias como muitas vezes se constrói nos países asiáticos, e toda uma outra atenção passou a ser dedicada a acidentes semelhantes que haviam ocorrido e que vieram a ocorrer em países como a Coreia, a Tailândia, ou muito especialmente a China, onde eles constituem uma infeliz rotina.
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06 novembro 2018
A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue há poucos dias). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.
03 março 2015
CHIN PENG, A INSURREIÇÃO MALAIA (1948-60) E ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEMA
Chin Peng (1924-2013), que foi um dos líderes da guerrilha comunista na Malásia durante e após a Segunda Guerra Mundial, conseguiu passar em seis anos de um oficial condecorado pessoalmente pelo Comandante Aliado Supremo para o Sudeste Asiático, Lorde Louis Mountbatten, em 1946 (acima), para um proscrito com a cabeça posta a prémio pelas mesmas autoridades britânicas que o haviam condecorado (abaixo, uma edição de um jornal malaio de Maio de 1952).
É uma evolução muito simbólica das contradições associadas à insurreição malaia, que foi uma guerra colonial clássica com o desfecho previsível – a retirada da potência colonial – mas que os britânicos conseguiram disfarçar de uma forma tão subtil, que ainda hoje há quem pretenda que seja um dos poucos casos singulares em que uma potência colonial venceu uma guerrilha.
Os equívocos começam logo pela designação do conflito: se os franceses travavam nessa mesma altura uma guerra na vizinha Indochina, os britânicos tiveram a habilidade de designar a que se travava na Malásia como uma emergência. Essencial para o resultado final, o grande pomo de discórdia que desencadeava as chamadas lutas de libertação nacional dos países colonizados não chegou a existir na Malásia: o Reino Unido rapidamente anunciou a sua intenção de conceder a independência àquele país, concessão que se veio a concretizar em 1957. A luta travou-se assim exclusivamente à volta das condições em que a transferência dos poderes se processaria: quem os receberia das autoridades coloniais. E aí, os britânicos aplicaram-se a ganhar as simpatias da comunidade malaia e muçulmana, que era (e é) maioritária, em detrimento da minoria de origem chinesa onde os rebeldes iam recrutar a maioria dos seus combatentes. E lutaram, com os próprios malaios, para que fossem eles a deterem as rédeas do poder durante toda a extensa transição. Este processo de dividir para reinar sobre povos submetidos é tão antigo quanto os romanos e nem sempre é bem-sucedido (os próprios britânicos falharam em Chipre), mas na Malásia correu bastante bem.
Sobre este género de conflitos, há quem não tenha percebido o principal, concentrando-se nos sucessos (ou insucesso) dos programas políticos no terreno ou nos pormenores das tácticas militares adoptadas pelos beligerantes, quando há que perceber , antes disso, a importância da superestrutura política sob a qual uma administração e um exército colonial podem operar. Se os franceses, por exemplo, se tivessem mostrado disponíveis para conceder a independência à Argélia logo a partir de meados da década de 50, mesmo num horizonte de dez a doze anos, tê-la-iam abandonado à mesma, mas teriam possivelmente também salvo a face política e militar do seu país. Simplesmente, aquela hipótese nunca esteve na agenda política francesa até ser tarde demais, com a chegada de Gaulle ao poder em 1958. No nosso caso português, o tarde demais ainda foi mais atrasado pelo facto do regime não ter capacidade de se regenerar. Há quem ande pelo Observador a rever a nossa História colonial recente (e faz bem), mas conviria que se documentasse melhor - sobretudo de uma outra forma, de horizontes mais alargados a outras realidades - sobre as conclusões que quer que tiremos sobre os últimos dias do império. Que tal justapor-se o comportamento negligente dos nossos soldados em África depois do 25 de Abril com o dos soldados espanhóis na defesa da sua colónia do Sahara, por esses mesmos anos de 1975/76?
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28 janeiro 2014
A EXPANSÃO AUSTRONÉSIA
Este mapa-mundo, que abrange cerca de ¾ da superfície do nosso planeta, mostra-nos a extensão daquela que é uma das mais desconhecidas expansões da Humanidade: a dos povos austronésios. Tratou-se, como aconteceu com os povos indo-europeus que vieram a povoar a Europa, o Próximo Oriente e o Subcontinente Indiano, de processos desencadeados pelo crescimento demográfico das populações, mas um crescimento muito lento, que se processou paulatinamente e se arrastou por milénios. Fazendo parte da pré-História, tudo o que neste momento se pensa saber sobre esses processos resulta dos trabalhos da arqueologia, das investigações da linguística e, mais recentemente, das da genética.
Uma das maiores surpresas da expansão austronésia é a localização do seu berço. Embora haja outras teorias – há-as sempre nestas circunstâncias – a predominante coloca a origem dos povos austronésios nas costas orientais da Formosa. Não há como iludir a ironia: a ilha é hoje maioritariamente povoada por chineses (98%) e constitui, como República da China e como expressão da recusa da aceitação da supremacia comunista no continente (a República Popular da China), uma das últimas expressões da Guerra-Fria. Mas é a sua praticamente ignorada população aborígene (2%) que é a depositária de uma saga que, iniciada há cerca de 5.000 anos, hoje abrange cerca de 400 milhões de pessoas.
Em contraste com a dos indo-europeus do mapa acima, a expansão dos povos austronésios foi predominantemente marítima e veio a prolongar-se até períodos que já eram históricos noutras partes do Mundo: a sua chegada a Madagáscar já será contemporânea com o Império Romano e a chegada à Nova Zelândia coincidirá com a nossa época das Cruzadas. A expansão fez-se inicialmente para os arquipélagos das Filipinas e da Indonésia que já se encontraram povoadas por imigrantes anteriores, povos de tez mais escura, que seriam aparentados com os actuais aborígenes da Austrália e os papuas da Nova Guiné. Só depois a expansão prosseguiu com a colonização de ilhas até então despovoadas.
Só os especialistas é que conseguem dar uma aparência de lógica de parentesco (veja-se o quadro acima, clicar para o ampliar) a um conjunto de quase um milhar de línguas actualmente faladas, exercício esse que comprovará uma raiz comum a elas todas. Ali aparecem idiomas falados na Indonésia, na Malásia, nas Filipinas, o tétum, que é o idioma coloquial de Timor-Leste, e ainda o maori neozelandês, idiomas falados em Madagáscar e outros falados quase do outro lado do Mundo, nos vários arquipélagos do Pacífico, tão longe quanto o estado norte-americano do Hawaii. O único lapso desta gesta é que não existe nenhuma potência – a Indonésia prefere o Islão... – que pretenda explorar os efeitos propagandísticos deste feito (pré)-histórico.
Já em jeito de aditamento e aproveitando para republicar o mapa inicial, valerá a pena chamar a atenção para algumas peculiaridades dos contornos geográficos da expansão. Uma delas é o facto dos austronésios nunca se terem conseguido implantar na Nova Guiné, um fracasso que Jared Diamond terá explicado satisfatoriamente num capítulo (17) de um livro que recomendo a leitura a interessados: Armas, Germes e Aço. Outra peculiaridade, essa por explicar satisfatoriamente, são as condições em que os austronésios terão conseguido colonizar Madagáscar vindos de Bornéu, percorrendo uma distância marítima superior de 7.000 km sem, como se pode acima verificar, quaisquer possibilidades de escalas para reabastecimentos.
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01 abril 2012
ILHAS SPRATLY – A TETRADISPUTA NO MAR DA CHINA MERIDIONAL
As Ilhas Spratly, que aparecem assinaladas ao centro no mapa acima, constituem um conjunto disperso de afloramentos de terra de características e tamanhos distintos (ilhas, atóis, ilhéus e recifes) que se dispersam por mais de 400.000 km² no centro do Mar da China Meridional. Sendo muitos (mais de 750), nenhum dos afloramentos é muito extenso, e a área somada de todos eles nem chega a atingir os 5 km². Por isso, também não existe população indígena. Mas constituem um dos locais mais disputados da actualidade: chineses, filipinos, malaios e vietnamitas cobiçam-nas, para elencar (e por ordem alfabética...) apenas os quatro pretendentes mais sérios. A localização das ilhas explica geograficamente o porquê das pretensões de malaios (linha vermelha) e filipinos (linha amarela), enquanto as de vietnamitas (a verde) e chineses (cor de laranja) necessitam de explicações históricas adicionais…
Paradoxalmente, são as candidaturas mais complexas destes dois últimos países que são as mais eloquentes no terreno, conforme se constata pelo mapa acima, onde se assinala com bandeiras nacionais cada uma das guarnições militares estacionadas na região: a paisagem é dominada por bandeiras vermelhas com estrelas amarelas. Por detrás de tanto entusiasmo pelas Ilhas Spratly apontam-se três razões: a importância económica dos seus bancos de pesca; a importância estratégica do tráfego marítimo que as atravessa; a importância estratégica e económica das jazidas de hidrocarbonetos que eventualmente ali existirão. Episódios violentos envolvendo militares dos países em litígio têm sido discretos e contidos mas já se morreu pelas Ilhas Spratly. E, para os autores de ficção, as Spratly já serviram como uma espécie de estopim – ao estilo balcânico – de uma futura confrontação mundial.
Em 1996, Tom Clancy publicou – com um co-autor que deve ter feito a maior parte do trabalho… – um livro intitulado SSN (acima). SSN trata-se da sigla norte-americana para designar um submarino de ataque propulsionado a energia nuclear e o enredo do livro é uma colagem de episódios em que um desses submarinos (o USS Cheyenne) se engaja em vários combates contra variados submarinos chineses (todos de concepção soviética: classes Kilo, Alfa, Akula) num encadeamento repetitivo de sucessos (e afundamentos...) que apenas torna a narrativa enjoativa. O enquadramento que justificava o conflito era uma disputa que não era muito bem explicada a pretexto das Ilhas Spratly. Como se fosse sagaz (e plausível) que a China se dispusesse a defrontar frontalmente os Estados Unidos em 1996, ainda por cima nos terrenos da qualidade do hardware naval… 16 dezembro 2011
GUERRAS ESQUECIDAS (8): A CONFRONTAÇÃO «MALAIO»-INDONÉSIA (1962-1966)
Anteriormente, já aqui chamara a atenção para a localização estratégica da Malásia entre os dois colossos asiáticos: a China, a Oriente e a Índia, a Ocidente. Entenda-se por Malásia neste caso, não o país com esse nome, mas as regiões meridionais da Ásia onde predominam os malaios – as ilhas de Java e Sumatra e a península malaia. As duas primeiras, onde reside sensivelmente 90% da população malaia, foram colónias holandesas enquanto a última esteve sob hegemonia britânica. Para complicar o xadrez étnico (e político) local, existem apreciáveis (e influentes) minorias representativas de cada um dos colossos asiáticos: chinesas e indianas. O mapa abaixo, com cidades identificadas por quatro alfabetos distintos, dá-nos uma boa ideia da encruzilhada que é a região.
Ao prepararem-se para abandonar os seus antigos domínios no final da década de 1950, os britânicos quiseram preservar para a sua Malásia as fronteiras políticas que haviam sido traçadas na época colonial. Em oposição a isso, Sukarno, o presidente da Indonésia, passava por ser um visionário impulsionando os promotores da ideia de uma grande federação dos povos malaios que se denominaria Maphilindo (Ma – Malásia, Phi – Filipinas, Indo – Indonésia). Convém esclarecer que a contraproposta britânica, embora não tão lírica, era igualmente forçada, ao reunir num mesmo país as várias colónias da península com as outras três colónias britânicas – leia-se a curiosa história de Sarawak – situadas na ilha de Bornéu, onde os malaios nem sequer se encontravam em maioria.
Os projectos de Londres e Jacarta entraram em conflito aberto em finais de 1962, a pretexto da criação dessa federação, juntando a Malásia ocidental peninsular a essa outra Malásia no Bornéu Setentrional (acima). Desencadearam-se insurreições armadas nestas últimas colónias, embora os objectivos políticos dos insurrectos pudessem divergir dos da Indonésia que os apoiava militarmente: o Partido Popular do Brunei, por exemplo, pronunciava-se a favor de uma independência autónoma das três colónias do Bornéu – nem a federação com a Malásia, nem a reunião com a Indonésia. Mas o conflito armado acabou por pôr fim à viabilidade política dessas terceiras vias. Tratou-se de uma guerra subversiva clássica, deliberadamente limitada na sua dimensão pelos dois contendores.
Reino Unido e Indonésia defrontaram-se assim por cerca de quatro anos, num Teatro de Operações selvagem compartilhando 1.780 km de fronteiras mais ou menos indefinidas, traçadas pelo meio de uma selva tropical e impossíveis de patrulhar eficazmente. Do ponto de vista táctico, o conflito veio a tornar-se uma sucessão de incursões no território inimigo, com choques ocasionais e ferozes entre pequenas unidades de infantaria. A narrativa das operações do livro acima é uma sucessão de episódios desse género, que aumentaram de frequência a partir do momento em que os britânicos decidiram assumir também a iniciativa de penetrar em território indonésio sem o assumirem (Operação Clarete)… Constata-se que o número de efectivos envolvidos foi surpreendente baixo.
As teorias de Basil Liddell Hart (acima) sobre a abordagem indirecta do inimigo encaixam na perfeição na solução arranjada pelos britânicos para esta confrontação: para eles, a causa do conflito era a política expansionista desenvolvida por Sukarno e pelos que o rodeavam. Portanto, como acontecera no Irão a propósito de Mossadegh em 1951, houve que espicaçar os Estados Unidos (e a CIA) para se sensibilizarem com os problemas estratégicos regionais que estavam a ser agudizados pela conduta de Sukarno – algo que os norte-americanos tenderam a levar a sério considerando o seu envolvimento progressivo na questão vietnamita. Com o apoio da CIA e do MI6, o General Suharto derrubou Sukarno em Outubro de 1965. E em Agosto de 1966, a Confrontação estava terminada…
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12 março 2009
OS RAJÁS BRANCOS DE SARAWAK
A Malásia Ocidental é a parcela mais importante do país apesar de representar apenas 40% do território porque, em contrapartida, é nela que vive mais de 80% da população. Contudo é na outra metade do país, que está o maior estado malaio (a Malásia é uma federação). Chama-se Sarawak e, com cerca de 124.450 km², na maior parte cobertos por uma selva luxuriante, é ainda mais extenso que Portugal, apesar de possuir apenas uma população que se estima em 2.450.000 habitantes. Mas o que Sarawak possui de mais notável é o facto de ter sido, durante cerca de 100 anos, uma monarquia, cujo monarca era de origem britânica.
James Brooke (acima), aquele que veio a ser o primeiro Rajá de Sarawak, até nasceu na Índia em 1803, embora tanto o pai como a mãe fossem britânicos. A sua vida faz lembrar, embora com alguns séculos de diferença, as vicissitudes relatadas por Fernando Mendes Pinto na sua famosa Peregrinação. Brooke que, a dada altura, comprou e capitaneava um navio em actividades nem sempre lícitas nas águas da Ásia Meridional (embora o fizesse sempre com o beneplácito daquela que era a potência hegemónica de então: o Reino Unido), bem pode passar por uma espécie de António de Faria reencarnado…
A taluda veio a sair-lhe quando, em 1841, Brooke se dispôs a ajudar militarmente o Sultão de Brunei, tarefa de que se saiu com sucesso e da qual foi recompensado com o título de governador e com um feudo, inicialmente a cidade de Kushing. Nada de muito anómalo naquela região, lembremo-nos como esta narrativa se assemelha às alegadas condições em que Macau veio a ser cedida aos portugueses em 1557. Só que a sua pressão sobre o Sultão era muito mais eficaz à que os portugueses poderiam ter colocado no Século XVI sobre o imperador chinês* e o território de Sarawak foi-se estendendo até se tornar muito maior que Brunei…* No Século XIX as relações de poder com a China eram completamente distintas do que haviam sido no passado e os britânicos conseguiam obter do seu imperador inúmeras cedências em consequência das Guerras do Ópio – incluindo Hong Kong.
03 dezembro 2007
ANANDA KRISHNAN
Suponho que ninguém tenha ouvido falar até agora deste senhor. Trata-se de um multimilionário, a segunda pessoa mais rica da Malásia (a revista Forbes atribui-lhe uma fortuna de 6 mil milhões de dólares*), e, embora seja uma pessoa muito discreta e procure comportar-se com a maior neutralidade política que lhe é permitida, é um exemplo que incorpora vários problemas da Ásia do futuro e da necessária repartição de esferas de influência que China e Índia ali terão que fazer.Embora cidadão malaio (onde nasceu em 1938), a sua família é de origem tamil. Os tamiles são uma das grandes nações culturais indianas, precisamente a que se localiza no extremo sudeste do subcontinente e que está organizada num estado designado por Tamil Nadu (62 milhões de habitantes e 130.000 Km²). Mas também há uma minoria tamil no vizinho Sri Lanka com cerca de 4 milhões de pessoas. As origens familiares de Ananda Krishnan remontam precisamente a essa comunidade tamil do Sri Lanka.
A Malásia moderna continua tão etnicamente complexa como à data da independência (1957): grosseiramente, cerca de 65% da população são malaios (a população original), 25% são chineses e 10% indianos. Por causa da subversão ali desencadeada depois da Segunda Guerra Mundial**, as autoridades coloniais britânicas desenvolveram ali programas de discriminação positiva em favor da comunidade malaia. O problema é que as autoridades da Malásia independente mantiveram esses programas. Até hoje, a integração nacional na Malásia não tem progredido muito...Tradicionalmente, as comunidades indianas no estrangeiro (África do Sul, Maurício, Fiji, Trinidad e Tobago) não se distinguiram pelo seu activismo político militante. A da Malásia não foi excepção. Preferem dedicar-se ao comércio e Ananda Krishnan pode ser considerado como o mais bem sucedido de todos os seus correligionários. A questão é que as novas gerações parecem não se estar a reconhecer no seu exemplo, preferindo protestar contra as medidas oficiais de discriminação a que continuam sujeitas, 50 anos depois da independência…
Mas, como se viu acima, a comunidade indo-malaia é bastante compósita quanto à sua origem e, significativamente, os radicais que lideram os protestos preferiram apostar na faceta religiosa: a coligação de organizações que os promove escolheu baptizar-se de Hindu Rights Action Force (Hindraf) e não Indian Rights Action Force… Cerca de 20% dos indianos da Malásia não serão hindus, mas sim muçulmanos (que é também a religião da esmagadora maioria dos malaios), cristãos e sikhs…Por causa da guerra civil no Sri Lanka, o governo estadual de Tamil Nadu (os tamil serão cerca de 60 a 70% da população da comunidade indiana na Malásia) ganhou uma reputação de possuir uma política externa autónoma, que às vezes esquece as instruções vindas de Nova Deli… Mas também não é de excluir que o governo federal indiano conte precisamente com essa reputação… A verdade é que este aparecimento súbito do extremismo religioso hindu na Malásia é uma verdadeira novidade, sem que houvesse precedentes sérios.
Tradicionalmente, a comunidade mal comportada era a chinesa. Foi com base nela que arrancou a guerra subversiva (1948-60), e mais tarde houve outro momento crítico, quando chegaram à Malásia as ondas de choque da Revolução Cultural… E não se pode excluir que os acontecimentos sejam interpretados em Pequim como uma jogada indiana (e norte-americana) a que há que responder… À frente de Krishnan, o homem mais rico da Malásia (8 mil milhões de dólares) chama-se Robert Kuok Hock Nien… Alguém adivinha a que comunidade pertence?...* Para comparação, na mesma lista Belmiro de Azevedo está muito lá para trás, com uns míseros 2,3…
** Um dos dois únicos casos em que os britânicos se orgulham de ter vencido uma guerra subversiva.
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05 janeiro 2007
O ADOÇANTE
Entre os membros das equipas de repatriamento contavam-se enfermeiras britânicas e australianas da Cruz Vermelha que, para além das próprias funções médicas, também se encarregavam daqueles pequenos gestos que servem para levantar o moral. No caso, era a distribuição de chá, a bebida britânica por excelência, que os prisioneiros não provavam há anos.
Servindo os prisioneiros em fila, a enfermeira perguntava: - Um cubo de açúcar ou dois? Um dos prisioneiros, que não viam uma mulher europeia desde há três anos e meio – e a enfermeira era das bonitinhas… - sintetizou a opinião geral com a sua resposta: - Ouça… Ponha o dedo dentro da chávena e mexa… O chá adoça por si…
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04 janeiro 2007
ARTHUR PERCIVAL, O GENERAL QUE NÃO SUCUMBIU AO LIRISMO
Algum britânico, pouco patriota, mas com uma mente brilhante e perversa, reparou e fez notar como os seus compatriotas da época vitoriana passaram a adorar transformar desaires militares em grandes epopeias, como se houvesse um oculto prazer masoquista em dar destaque a episódios onde as forças britânicas haviam dado mostras de toda a sua bravura incompetentemente aplicada. O exemplo provavelmente mais famoso é o de um pequeno incidente inserido na Batalha de Balaclava (1854) na Guerra da Crimeia (1854-56), que ficou conhecido pela carga da brigada ligeira, que até teve direito a ficar imortalizado num poema de um famoso poeta britânico daquela época, Alfred Tennyson.Sumariamente, cerca de 700 cavaleiros britânicos carregaram cegamente por um vale (depois poeticamente baptizado de Vale da Morte), onde foram recebidos por uma fuzilaria tremenda das tropas russas que os aguardavam em posições defensivas preparadas. No fim da acção, descontando os cavaleiros que haviam sido mortos e feridos com gravidade e os que haviam ficado apeados porque a sua montada havia sido atingida, a brigada estava reduzida a um pouco menos de 200 cavaleiros capazes de continuar o combate… E os russos ainda não tinham sido desalojados das suas posições. Os cavaleiros britânicos ficaram com a fama de terem em excesso, no recheio dos tomates, aquilo que lhes faltava em excesso, no recheio do cérebro*…
Entre nós, seria num espírito parecido que Luís Vaz de Camões poderia ter composto uma das suas melhores Odes dedicada ao tema dos acontecimentos de 4 de Agosto de 1578, em Alcácer Quibir…
Foi sob as ordens de um líder político que sempre se enternecera com a lírica de Tennyson (a referência é a Winston Churchill, evidentemente) que o General Arthur Percival assumiu o cargo de GOC da Malásia, cujo Quartel-General se situava em Singapura, em Maio de 1941. O Império Britânico estava em guerra com a Alemanha desde há quase dois anos. Havia a planificação feita para defrontar a eventual ameaça japonesa e a realidade da real ameaça alemã e italiana: tudo o que ali houvesse de qualidade, quer em termos humanos como materiais, já havia sido sugado para o Teatro de Operações do Mediterrâneo. Como exemplo flagrante, em Dezembro de 1941, em vez da dotação de 336 aviões de combate modernos que estariam previstos, havia 158 e de tipos obsoletos.
Havia esta realidade, onde o único dado objectivo que a contraria é a grande vantagem numérica dos defensores (135.000 versus 30.000 japoneses) e há depois todos aqueles constrangimentos que sempre aparecem nas análises que se fazem à posteriori das derrotas militares: o conflito entre as várias directivas que Percival recebera, a sua má relação com os subordinados imediatos (um mais antigo – Heath – e outro dependendo de um poder político autónomo – o australiano Bennett) ou as suas peculiaridades de carácter, que se fariam sentir na falta de um exercício claro de um ascendente sobre os seus subordinados directos, a fazer lembrar o que se adivinha que se terá passado com Souto Moura…
Enquanto se aguarda a passagem do tempo que permita fazer um julgamento mais lúcido sobre a actuação do anterior PGR, ficamos com a de Arthur Percival que, quando se apercebeu da inutilidade da resistência das suas forças, cercadas em Singapura e sem possibilidade de rompimento desse cerco, se rendeu em 15 de Fevereiro de 1942. Percival optou pela rendição apesar das pressões que estava a receber directamente de Churchill para o prolongamento da sua resistência, senão mesmo para algum episódio de última hora na linha da carga da brigada ligeira, repleto de significado poético, de aproveitamento político, de mais mortos e feridos e sem qualquer impacto para o desfecho táctico imediato do conflito…
Daquela vez, a derrota britânica não foi acompanhada de um episódio lírico para a amenizar junto da opinião pública britânica. Percival, que salvara momentaneamente a vida dos seus homens, sabendo reconhecer o momento da derrota e a inutilidade do prolongamento dos esforços de resistência – ninguém lhe contesta a sua grande competência enquanto oficial de estado maior - nunca veio a ser verdadeiramente perdoado pela sua decisão. Não tendo entrado nos livros de história, espera-se que, no resto da sua vida (morreu em1966), Percival deva ter tido um melhor convívio com a sua consciência ao ter tomado a decisão que tomou…
Rigorosamente o mesmo desejo perante a mesma atitude de Vassalo e Silva, o último Governador da Índia portuguesa em 1961, que tomou a mesma decisão perante a mesma situação militar e as mesmas pressões políticas…
* Há quem diga - maldosamente! - que é um princípio que se aplica à cavalaria (a cavalo) em geral. É o tipo de redistribuição de peso que lhes facilita o equilíbrio em sela...
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27 novembro 2006
A ÁSIA ENTRE OS DOIS COLOSSOS DO FUTURO – 5
Há ocasiões onde as divisões da geografia política, não ajudam e até se tornam mesmo um obstáculo à definição de um espaço geográfico preciso. Nas grandes regiões asiáticas onde, no passado, China e Índia alternaram na sua influência cultural – indicativo que poderão ser áreas de disputa futura – conta-se a grande região onde predominam os malaios, que engloba a península da Malásia e a Indonésia Ocidental, com as suas ilhas principais de Java e Sumatra. Estas duas ilhas concentram cerca de 80% da população da Indonésia (222,8 milhões de habitantes em 2005), enquanto na península malaia habitam também cerca de 80% da população do estado malaio (26,8 milhões de habitantes em 2006). No extremo Sul da península, como uma evocação das cidades estado da Grécia clássica e da Itália renascentista, situa-se a cidade estado moderna de Singapura, com 4,3 milhões de habitantes (2005).
Procurando por todo o globo é difícil encontrar uma península que seja mais ínsula (ilha) do que a península malaia. O seu ponto mais estreito, o istmo de Kra, ainda em território tailandês, tem apenas 44 Km. de extensão. Desde há muito que existem ideias para ali abrir um canal de navegação, à semelhança dos que se construíram no Suez ou no Panamá, embora os ganhos em tempo que ali se obteriam sejam visivelmente menores aos verificados nos outros locais mencionados. E se a península malaia é uma quase ilha maciça de 132.000 Km2 (só na parte malaia), Sumatra é uma verdadeira ilha maciça de 473.000 Km2 (5 vezes a extensão de Portugal) e Java, outra grande ilha, com 132.000 Km2. O clima é tropical e equatorial com duas monções por ano, que alimentam uma flora tropical exuberante (70% da península malaia e a grande maioria de Sumatra estão cobertas de uma imponente floresta tropical) e uma agricultura de arroz com altos rendimentos: a densidade populacional na ilha de Java aproxima-se dos 940 habitantes por Km2, a segunda mais elevada de todo o mundo.
Outra das características da geografia física daquela região é a sua enorme instabilidade geológica. Numa lista de vulcões assinalam-se 35 localizados em Sumatra e mais 44 em Java e nos seus arredores. Outra consequência dessa enorme instabilidade geológica são os terramotos e maremotos como o de 26 de Dezembro de 2004 que se estima tenha causado a morte a 230.000 pessoas, 168.000 das quais na Indonésia e destas, a esmagadora maioria na ilha de Sumatra, o local mais próximo do epicentro do fenómeno. Em resultado da acção vulcânica sobre as ilhas, os locais mais elevados também impressionam pela sua altitude: se na Malásia o pico dominante atinge apenas os 2.187 mts. (200 mts. acima da torre da Serra da Estrela), em Java o monte Semeru tem 3.676 mts. e em Sumatra o monte Kerinci 3.805 mts. – são quase duas Serras da Estrela (1.991 mts.) sobrepostas!
Sensivelmente 2/3 da população de Java (rondando os 130 milhões) pertencem à etnia javanesa. Correspondendo a cerca de 45% do total da população indonésia, os javaneses constituem uma espécie de núcleo duro do Estado Indonésio. Outro grande grupo étnico e linguístico de Java são os sundaneses, que se estima serem uns 30 milhões. Outros grupos étnicos e linguísticos mais pequenos são os do madureses (de Madura, uma ilha de 4.000 Km2, adjacente a Java), com 8 a 10 milhões de falantes e os balineses (de Bali, outra ilha de 6.000 Km2, nas mesmas circunstâncias da anterior). Note-se que o idioma oficial da Indonésia (o bahasa indonésia), embora aparentado com qualquer dos idiomas acima citados, é distinto de qualquer um deles, e empregue normalmente como segunda língua de comunicação. Mais de 90% da população de Java é muçulmana, mas existem vestígios espalhados pela ilha de comunidades cristãs (católicas e protestantes), budistas e especialmente hindus, que, no caso das duas últimas, outrora predominaram na ilha. Os hindus, provavelmente a maior das minorias religiosas de Java, concentram-se sobretudo no Leste, junto à ilha de Bali, onde constituem a esmagadora maioria da população da ilha.
Se a descrição étnica, linguística e religiosa de Java já foi extensa, apesar dos esforços para a simplificar, a de Sumatra teria de ser maior… Embora muito menos habitada do que Java (cerca de 47 milhões de habitantes), a sua maior extensão e a cobertura luxuriante tornam a sua população muito mais heterogénea: ao todo existem 52 línguas diferentes, mas todas pertencentes ao grande grupo malaio. Os muçulmanos também são a esmagadora maioria (mais de 90%), com as mesmas minorias (cristãs, budistas e hindus) e com a curiosidade da existência dum grupo do interior (os Batak – que são na realidade uma designação genérica de grupos étnicos distintos) que são predominantemente protestantes.
Em contrapartida, na Malásia, a identificação de grupos étnicos torna-se muito mais fácil: esquecendo as especificidades distintivas entre malaios – que constituem 60% da população – há ainda que contar com os chineses (30%) e com os indianos (8%). A chegada destes dois últimos grupos é, contudo, um fenómeno relativamente recente, do Século XIX, quando o Império Britânico precisou de mão-de-obra para as suas plantações de borracha e a começou a importar das possessões próximas que possuía na Ásia: a Índia e Hong-Kong. É a mesma razão que explica a composição étnica da cidade estado de Singapura: 77% de chineses, 14% de malaios e 8% de indianos. Em termos religiosos, a esmagadora maioria dos malaios, como na Indonésia, são muçulmanos, os chineses repartem-se entre as religiões tradicionais da China (Budismo, Taoismo e Confucionismo) e os indianos, como acontece no subcontinente, são maioritariamente hindus, embora com uma significativa minoria (1/3) muçulmana. De notar como a presença colonial britânica se faz sentir no número de cristãos: são 9% na Malásia e mais de 12% em Singapura.
Esta descrição complexa da actualidade tem todavia uma evolução histórica muito semelhante a que já foi traçada para as outras regiões. Pouco dela se sabe até ao Século VII da nossa era, mas já lá existiam reinos indianizados. Curiosamente, não se sabendo qual foi a religião que iniciou o processo de evangelização, se terá sido o hinduísmo ou o budismo, a verdade é que os divulgadores tanto duma quanto doutra, vindos todos originalmente da mesma região geográfica (Índia), por séculos disputaram os favores das elites locais nos seus esforços de conversão.
Fontes escritas chinesas mencionam no Século VII o porto de Srivijaya (Palembang no Sul de Sumatra), um centro religioso budista e também o centro das conexões de um império comercial, que assegurava as ligações marítimas com a China e a Índia, mas o seu feito mais espectacular foi o de projectar a sua influência até à ilha de Madagáscar! Enquanto a Malásia e Java ocidental dependiam deste império, no centro de Java, muito mais fértil, aparecia um reino budista no Século VIII que se viu suplantado no século seguinte por dinastias hindus oriundas do Leste da ilha. Até aos finais do Século XIII, com oscilações, é esse o mapa político que prevalece, embora o império comercial tenha vindo a enfraquecer progressivamente – chegou a ser atacado a Ocidente pelo potentado indiano tamil (do Sul da Índia) no Século XI – e com a infiltração progressiva do Islão (vindo também da Índia como as outra religiões) a partir do fim do Século XIII.
O Islão está na génese de um novo império comercial, lançado em bases renovadas – uma rede que abrange a China, a Índia, mas também todas as ilhas importantes do arquipélago indonésio, incluindo as Filipinas - e sedeado em Malaca, a partir do Século XV. Considerando todos os seus efeitos, a conquista de Malaca em 1511 por Afonso de Albuquerque é capaz de ter sido a sua proeza mais importante, superando todas as suas outras conquistas. Mais do que a localização estratégica do porto, controlando o Estreito com o seu nome, Albuquerque apropriou-se do local onde se concentravam quase todas as rotas comerciais para Oriente e Ocidente. Circunstancialmente, o Islão tornou-se o catalisador da oposição ao monopólio que os portugueses quiseram impor: a maioria dos estados que se lhes opunham eram ou tornaram-se sultanatos.
A substituição dos portugueses pelos holandeses a partir do Século XVI obedece à lógica das vantagens comparativas que permitiram às potências protestantes do Atlântico substituírem-se com vantagem às duas potências ibéricas católicas: concentração na rentabilidade das actividades económicas, abandono de qualquer veleidade de proselitismo religioso e controle discreto dos detentores do poder formal. Como aconteceu com os britânicos na Índia, apenas por inércia, por volta de 1790 já os holandeses se haviam apoderado de vastas parcelas das ilhas da Indonésia e da península da Malásia. As Guerras Napoleónicas na Europa permitiram aos britânicos atribuírem-se (a Holanda tinha sido ocupada por Napoleão) alguns territórios que consideravam importantes para o seu império mundial.
Foi assim com Ceilão, foi assim com a África do Sul e foi assim com a Malásia onde fundaram em 1815, no extremo Sul da península, uma cidade - Singapura – destinada a substituir Malaca como entreposto central do comércio sino-indiano. Recorde-se que em 1842 os britânicos vieram a adquirir Hong-Kong à China, no seguimento de uma Guerra do Ópio, que os britânicos queriam exportar da Índia para a China, mas que estes, compreensivelmente, não queriam importar. Singapura é uma cidade verdadeiramente moderna porque, ao contrário de Malaca, está rodeada de pântanos o que a impede de dispor dos recursos agrícolas que possam alimentar uma população numerosa: desde o princípio, praticamente tudo o que Singapura consome tem de ser importado.
Já houve oportunidade de descrever como a importação de mão-de-obra deu lugar a uma alteração substancial do panorama étnico na Malásia, com uma importante minoria chinesa (30%) que até é maioritária em Singapura (77%). Na Indonésia, especialmente em Java, também existe uma importante comunidade mercantil urbana chinesa, parte da qual já está enraizada no país desde há séculos mas cuja dimensão é difícil de estimar devido a perseguições políticas no passado recente. Oficialmente, um número que se considera normalmente estar subestimado os chineses étnicos serão um pouco mais de 2 milhões.
A conquista da região pelos japoneses em 1941-42 afundou o prestígio dos europeus e tornou a sua manutenção enquanto potências coloniais praticamente impossível. A Indonésia tornou-se independente da Holanda em 1949 e a Malásia do Reino Unido em 1960, não sem antes a China Popular ter ensaiado uma das suas primeiras projecções de poder no exterior, fomentando entre os seus na Malásia um movimento de subversão cujo auge durou de 1948 a 1954. Também o predomínio dos chineses entre os quadros do Partido Comunista Indonésio (PKI) levou a uma associação entre ideologia e nacionalidade que teve o efeito perverso de, durante um Golpe de Estado militar na Indonésia, em 1965, a perseguição ao PKI se ter transformado numa gigantesca perseguição sangrenta contra a comunidade chinesa.
Este último troço das regiões da Ásia que se dispõem entre os dois colossos do futuro, contém, curiosamente, o único país, fora naturalmente a República Popular da China e a Formosa, onde existe uma maioria populacional chinesa: Singapura. Nessa perspectiva pode ser vista como mais um elo de uma cadeia de grandes cidades chinesas como Xangai e Hong-Kong. E, de facto, o actual fluxo do desenvolvimento económico sopra decididamente de Leste. É para aí que as economias tem de se virar. Mas, se a religião dos malaios servirá de indicação da sua neutralidade numa qualquer disputa ideológica entre o seu Leste e o seu Oeste, pelo menos os precedentes históricos – com o valor restrito que esse facto possa ter – apontam para que ali se estivesse estado sempre mais disposto a receber as ideias que vêm de Ocidente do que as do Oriente…
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