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12 maio 2013

A DISPUTA DE AL BURAIMI

Al Buraimi é um oásis remoto no interior da península arábica como se pode ver acima, assinalado no mapa. Tradicionalmente a suserania daquela região havia pertencido ao sultão de Omã quando em 1949 o rei da Arábia Saudita apresentou a reivindicação de que essa região seria sua. A pretensão saudita afectaria o traçado (acima, a tracejado) das suas fronteiras tanto com o sultanato de Omã como com o emirato do Abu Dhabi, o maior, o mais importante e o mais ocidental da federação que constitui os actuais Emirados Árabes Unidos. Nessa época as duas monarquias (o sultanato e o emirato) eram ambas protectorados britânicos e, por outro lado, detrás das ambições sauditas não era difícil identificarem-se os interesses da Aramco.

A Aramco era a empresa responsável pela exploração do petróleo da Arábia Saudita. Era um consórcio de algumas das grandes petrolíferas norte-americanas, as Standard Oil da Califórnia, de Nova Jersey (veio a ser a Exxon) e de Nova Iorque (tornou-se depois na Mobil) associadas à Texaco. A área reivindicada era mais importante que o oásis porque se localizava numa zona muito prometedora (veja-se abaixo) quanto à existência dos maiores e mais rentáveis campos petrolíferos do Médio Oriente. A Arábia Saudita já era uma produtora de petróleo desde 1939 mas os britânicos, talvez por serem ainda plenamente abastecidos pelo petróleo iraniano não viam razões para dinamizar a sua prospecção noutros locais da região que tutelavam. Posteriormente na região disputada também se vieram a descobrir jazidas de petróleo.
A manobra saudita, patrocinada pela Aramco, começou por fazer-se sentir no terreno através de uma incursão de um emir saudita acompanhado de uma escolta oficiosa que atenuava a formalidade da invasão e que se instalou numa das três aldeias do oásis em 1952. Em vez de resolver o problema da forma tradicional, correndo os intrusos a tiro, os britânicos persuadiram os dois monarcas afectados (o sultão de Omã e o emir do Abu Dhabi) a resolverem a disputa de forma civilizada, levando-a à avaliação de um tribunal arbitral. Mas os próprios britânicos perderam a paciência quando os opulentos sauditas atrapalharam as negociações formais com tentativas pouco discretas de subornar juízes e intervenientes da parte contrária.

Em 1955, o Reino Unido deu a sua cobertura a uma operação militar conjunta de omanitas e de soldados ao serviço do Abu Dhabi, enquadrada por oficiais britânicos que culminou com a expulsão dos sauditas. A então recém-formada unidade militar do Abu Dhabi tornou-se a antecessora das actuais forças armadas dos Emiratos. A atitude britânica provocou uma certa azia do outro lado do Atlântico e o assunto tornou a ser várias vezes ventilado, especialmente quando as relações entre os dois países anglo-saxónicos atingiram um nadir por causa da Crise do Suez de 1956, mas a disputa não voltou a ter grande visibilidade até à sua resolução em 1974, já depois das independências dos Emiratos Árabes e de Omã (1971), através da assinatura de um Tratado de Fronteiras. Um livro a sair proximamente poderá acrescentar alguns pormenores importantes a esta história.

13 maio 2011

GUERRAS ESQUECIDAS (6) - A GUERRA CONTRA-SUBVERSIVA EM DHOFAR (OMAN)

Saber que existe um país chamado Oman é raro. Conhecer algumas coisas sobre Oman é ainda mais raro. Mas saber, entre essas coisas, que lá se travou uma guerra subversiva e separatista durante 14 anos (1962-1976) é uma verdadeira preciosidade. É, porém, uma preciosidade interessante. Entretanto, sinal dos tempos e da veterania deste blogue, começam a somar-se os assuntos em que, para os enquadrar, posso remeter o leitor para postes que já aqui havia escrito – neste caso um de Março de 2007 com uma descrição sumária de Oman.
O mapa mais acima ajuda a explicar algumas das causas da insurreição que ficou conhecida pela Rebelião de Dhofar. Tradicionalmente, a população da província de Dhofar, que se situa no Sul de Oman, tem mais afinidades culturais com os seus vizinhos iemenitas do que com os seus compatriotas omanitas. Por outro lado, se 1962 foi o ano de início da Rebelião foi porque também foi o do início da complexa Guerra civil iemenita – já abordada por mim noutro poste anterior – que transbordou para a província omanita.
Oman sempre foi um país teoricamente independente, mas o vizinho Yemen do Sul era um protectorado britânico e a guerra que aí se travava era simultaneamente uma guerra civil entre as tribos locais e uma guerra anti-colonial dessas tribos contra os britânicos. Estes últimos perderam-na de uma forma muito pouco gloriosa em 1967. A pressão dos guerrilheiros sobre Dhofar aumentou depois disso, no quadro de uma Grande Estratégia dominada então pela Guerra-Fria com as autoridades a receberem apoio britânico e os rebeldes apoio soviético.
Em 1970, os britânicos patrocinaram um golpe de estado que derrubou o velho sultão e o substituiu pelo seu filho Qaboos Bin Said, então com 29 anos. Qaboos havia recebido formação escolar na Índia e formação militar para oficial na Academia de Sandhurst no Reino Unido. A fotografia abaixo, com o jovem Sultão (de binóculos) no terreno torna-se simbólica da inflexão que então se procurou dar à contra-insurreição. Nesse sentido, as Forças Armadas omanitas recorreram à contratação de oficiais de origem britânica, paquistanesa ou indiana.
Para um conflito desta natureza era um de pequena dimensão. Num território com uma área um pouco superior à de Portugal continental (100.000 km²) enfrentavam-se 12.000 soldados e cerca de 2.000 rebeldes¹. Com excepção da região litoral (e aí apenas durante a época da monção) o terreno é árido e extremamente acidentado o que facilitava as incursões dos rebeldes vindas do Yemen. A população (abaixo), que naquela época se cifraria em cerca de 70.000 habitantes, organizava-se em tribos semi-nómadas desde os tempos ancestrais.
Houve porém características que o tornaram peculiar, senão único. A questão política do colonialismo que atravancou a maioria dos conflitos desta natureza (a começar pelos três em que Portugal se envolveu…) não tinha aqui cabimento. Não havendo necessidade de cuidados com esse aspecto político do conflito, pôde assumir-se que ele contou com a participação aberta de mercenários a combater pelo lado governamental: os britânicos reconhecem que sofreram 24 mortos e 55 feridos, alguns deles militares contratados directamente pelos omanitas.
Mais do que o reforço adicional de um contingente de 2.000 iranianos que chegou em princípios dos anos 70 terá sido paradoxalmente a crise petrolífera de 1973 a precipitar o fim do conflito. Como estado produtor, Oman passou a dispor de um aumento súbito de receitas que pôde alocar aos programas de conquista das simpatias da população civil, até aí muito condicionados com os gastos com as operações militares. Em 1976 o Sultão Qaboos anunciou formalmente a vitória na guerra embora os incidentes se prolongassem até 1979.
Ao Serviço do Sultão é um livro de memórias de um ex-oficial escocês, veterano deste conflito que foi subalterno de uma companhia de tropas omanitas. É engraçado compará-las com outras de ex-oficiais portugueses seus contemporâneos que comandaram unidades de tropas africanas.

¹ Para comparação, no TO da Guiné chegaram a enfrentar-se o triplo dos soldados (36.000) com o triplo dos rebeldes (6.000), num território três vezes menor (36.000 km²)… mas perante uma população que era 7 a 8 vezes superior!

24 janeiro 2008

GWADAR – O PORTO NO UMBIGO DA ÁSIA

Quem gosta de prestar atenção às minudências da História sabe que, no meio do gigantesco Império Britânico das Índias, também existiam algumas pequenas possessões de outras potências europeias, vestígios de outras épocas, como eram os casos da Índia Portuguesa com Goa, Damão e Diu (4.300 Km²) ou da Índia Francesa com Pondicherry, Mahé e Yanaon (500 Km²). O que é muito menos conhecido é que havia ainda um outro desses pequenos territórios (800 Km²), dominado por uma outra potência colonial: era o porto de Gwadar, que pertencia ao Sultanato de Oman...
Já aqui tive oportunidade de falar da saga do Império comercial de Oman que, durante o Século XVI e a primeira metade do Século XVII esteve integrado no Império português da Ásia. Como se pode observar no mapa acima, Gwadar era, com Mascate e Oman do lado da Península Arábica, um dos três portos que desenhavam o triângulo que podia controlar completamente o tráfego no Golfo de Oman e, dessa forma, também o acesso ao Golfo Pérsico. As razões para Gwadar estar assinalado no lado direito do mapa com uma seta e comentários em chinês (!), perceber-se-á mais adiante neste poste
Gwadar foi descolonizado e devolvido ao país que o rodeava (o Paquistão) em 1958. A região que o cerca é praticamente deserta – atravessá-la foi uma das fases mais difíceis da retirada dos exércitos de Alexandre Magno depois de terem conquistado a Índia – e a província paquistanesa a que pertence (Baluchistão) não é propriamente conhecida pela sua vocação marítima… O porto do Paquistão onde se concentra o seu comércio externo é, e sempre foi, o de Karachi*. Até que uma confluência de interesses se juntou para criar um enorme porto em Gwadar.
Em primeiro lugar, comparativamente pequeno mas relevante, existe o interesse de Oman em exercer a sua influência na região onde se situa a sua ex-colónia, como acontece com qualquer antigo colonizador. Noutras perspectivas, muito maiores, Gwadar é o mítico porto de águas quentes que o imperialismo russo sempre desejou ter na Ásia a que o imperialismo britânico (e depois o norte-americano) sempre se opôs. Só que agora é do interesse dessas outras potências mundiais que as cinco repúblicas da Ásia Central** consigam ter novos canais de comércio externo, alternativos aos que existiam do tempo da URSS.
Mas o maior investidor no projecto de construção das enormes instalações portuárias de Gwadar tem sido a China (daí a legenda do mapa…), procurando criar uma rota alternativa para o seu comércio com os países do Médio Oriente e da Costa Oriental de África, que lhe permita, em caso de necessidade, contornar as regiões do Oceano Índico que a Índia considera estarem sob a sua esfera de influência. As experiências do passado demonstraram que, nessas circunstâncias, Karachi se encontra perigosamente próximo da Índia e que a armada paquistanesa não é rival para a frota aeronaval indiana.
Curiosamente, onde se nota um entusiasmo mais moderado em relação ao projecto de Gwadar é nalguns círculos paquistaneses: o novo porto conferirá ao Baluchistão um potencial estratégico acrescido, que não será nada bem-vindo por algumas partes, dentro dos periclitantes equilíbrios internos que actualmente sustentam o Paquistão… Para terminar, e para variar dos tradicionais artigos estrangeiros, é com outro gosto que aqui se recomenda o artigo a respeito do porto de Gwadar do Major Manuel Carriço, publicado na Revista Militar de Setembro de 2007.

* Tecnicamente, existe um segundo porto paquistanês (Qasim), que dista uns meros 50 Km do de Karachi.
** Cazaquistão, Turquemenistão, Quirguízia, Tajiquistão e Uzbequistão, para além do próprio Afeganistão, onde presentemente se encontram as forças da NATO.

21 março 2007

O PAÍS DE QUE OS BONS JOGADORES DE STOP NÃO PODEM PRESCINDIR

Não sei se ainda se joga o Stop, aquele jogo onde, dada uma determinada letra, há que descobrir um número convencionado de artigos que começassem por essa letra. Mas eu joguei-o muitas vezes e, como bom jogador que me prezava de ser, possuía algumas referências em carteira, quando a letra saída era das mais difíceis. E uma dessas referências era Omã, a resposta difícil (e única – o que dava muitos pontos…) para países cujo nome começasse pela letra O.

Omã, até aos princípios da década de 70, era conhecido pela designação de Sultanato de Mascate e Omã – o que dava muito menos jeito para o jogo e era até pretexto para contestações… - o que reflectia de forma mais evidente a composição mista do país, onde sempre se combinaram uma sociedade nómada tribal, liderada por um guia espiritual religioso (o Imã) no interior sul, com uma outra sociedade urbana, de raiz marítima e comercial no litoral norte, próxima do Sultão.

A separar geograficamente aquelas duas comunidades históricas situa-se uma extensa cadeia montanhosa que acompanha, em paralelo, a costa norte do país – conforme se pode ver pelo mapa de Oman que encima este poste – e cujo ponto mais alto atinge os 3.000 metros de altitude. Quis o destino aqui, como em outras partes do mundo, que grande parte das reservas petrolíferas omanitas (17º lugar mundial) se situassem nas regiões do Sul, habitadas pelos nómadas…

Geograficamente pode-se considerar que a maior parte do território – tirando os 3% que compõem a pequena planície costeira a norte – é um pouco indistinto do núcleo central da Península Arábica (onde actualmente se situa a Arábia Saudita). Aliás, ainda hoje, parece haver controvérsia quanto ao traçado das fronteiras com o país vizinho, pois há publicações onde a área de Omã atinge os 310.000 Km2, enquanto outras a avaliam em 212.000 Km2… Ora 98.000 Km2, mesmo de deserto e areia, constitui uma área respeitável*.

Os antepassados das tribos nómadas contam-se, aliás, entre as primeiras aderentes ao Islão, ainda em vida de Maomé (Século VII). Muito antes disso, as cidades costeiras já haviam sido referenciadas por documentos de outras civilizações, dada a sua localização privilegiada, na embocadura do Golfo Pérsico, para os fluxos do comércio marítimo milenar que sempre se desenvolveu entre a Mesopotâmia e a Índia: recorde-se que uma pequena parte do exército de Alexandre Magno regressou da Índia por essa via.

Mas, surpreendentemente, logo no Século VIII, essas mesmas tribos nómadas passaram a divergir doutrinalmente da Umma**, aderindo à doutrina ibadita, à frente da qual passou a ser eleito um Imã. Paradoxalmente, foram as populações costeiras que se mantiveram fiéis à ortodoxia sunita. Nos séculos seguintes as duas regiões foram-se vergando sucessivamente à suserania distante e frequentemente não muito intrusiva das potências árabes, persas ou turcas predominantes na região.

Economicamente e de uma forma progressiva, aos circuitos comerciais no sentido Leste – Oeste (ligando a Índia e a Mesopotâmia ou o Egipto) juntou-se um outro, tão importante, no sentido Norte – Sul, envolvendo Omã e posições costeiras da África oriental, onde hoje se situa a Tanzânia (Zanzibar e Pemba), o Quénia (Mombaça) ou a Somália (Mogadíscio). Na época em que Vasco da Gama chegou à Índia, já esse circuito se tornara o mais importante para Omã e os entrepostos africanos eram dominados por comunidades muçulmanas mestiças.
Com a conquista daquelas posições africanas pelos portugueses, logo nos primórdios do Século XVI (1505), tornou-se lógico que fosse do interesse dos mercadores de Omã aderir ao mesmo espaço económico da tutela portuguesa (que, de outro modo, lhes estaria vedado). Assim, a partir de 1508, os portugueses apoderaram-se de Mascate e Sohar (portos à entrada do Golfo Pérsico), um feito de armas que enobrece os conquistadores mas onde se suspeita de conivência dos locais.

Aliás, pormenor curioso e se as minhas informações estão correctas, ainda há hoje na fortaleza de Mascate um velho canhão português do Século XVII, onde a tradição aconselha as mulheres locais com problemas de fertilidade a se sentar… Sem querer desenvolver o assunto para o extenso capítulo de antropologia que esta tradição com certeza merecerá (mereceu?), por não ser especialista da matéria, o facto em si dá a imagem de uma guarnição portuguesa memorável, mas não propriamente por razões militares…

Aliás, a presença portuguesa só terminou em 1650 e causada de uma revolta das tribos nómadas lideradas pelo seu Imã, que se tornou também no soberano da região litoral. Em coerência, cerca de uns 40 anos depois, também as regiões da África Oriental se vieram a libertar da tutela portuguesa, aderindo ao império comercial que se formou nas orlas do Índico e que se estendia desde Gwadar (cidade do Paquistão actual) até à ilha de Mafia, ao largo da costa da actual Tanzânia.

Vale a pena realçar que a fonte de prosperidade mais importante deste império comercial reconstruído que, a partir do Século XVIII, passou a ser governado por um Sultão, foi o tráfego de escravos entre a África negra e a Península Arábica. A importância relativa das suas regiões variou de tal maneira por causa disso que, entre 1840 e 1856, o Sultão de Omã mudou a sua capital para Zanzibar, tornando Omã um caso único de um estado não africano que teve o seu centro de decisão política em África***.

A parcela africana do império tornou-se independente da asiática em 1861, com dois filhos do Sultão a herdarem os títulos de Sultão de Omã e de Sultão de Zanzibar. Mas, enquanto este último acabou por cair sob a alçada britânica, Omã sempre se manteve, ainda que ficcionalmente, independente. Mas a tutela por detrás do trono era britânica (desde 1890), e muito embora houvesse uma grande autonomia do Imã e das populações nómadas do interior, segundo um Tratado assinado em 1920.
Foi precisamente naquelas regiões que vieram a ser descobertas jazidas de petróleo (em 1964, já depois das descobertas dos países vizinhos), inflamando ainda mais uma guerra civil quase ignorada que se vinha a travar em Omã, entre as forças militares do Sultão – com assessoria britânica e iraniana – e os irregulares nómadas – com apoio dos rebeldes iemenitas e do Egipto de Nasser. Essa guerra terá servido de inspiração ao álbum Oásis em Chamas de Bernard Prince, da autoria de Hermann e Greg (ver em baixo e poste anterior).
Em 1970, muito provavelmente com intervenção britânica, houve um golpe de estado onde o actual Sultão (que tinha então 30 anos) depôs o seu pai, iniciando um novo regime que, embora moderno, é de um despotismo esclarecido à boa maneira dos antigos monarcas europeus do Século XVIII como Frederico II da Prússia, Catarina II da Rússia ou José II da Áustria. O Sultão continua a ser um monarca absoluto e os pelouros das Finanças e dos Negócios Estrangeiros dependem exclusivamente de si.

As receitas do petróleo têm conseguido comprar um certo nível de paz social, embora houvesse que extinguir militarmente a guerra civil que se travava no interior. A prosperidade tem atraído imigrantes, com predominância de originários do subcontinente indiano (estima-se que eles já sejam ⅓ da população total), mas a sua presença tem influenciado sobretudo as mudanças na zona litoral, a que historicamente foi sempre a mais cosmopolita.

O contraste acentua-se com o interior, onde os resultados das eleições que o Sultão autoriza que se realizem para uma Assembleia Consultiva (Majlis al-choura - as últimas foram em 2003), apenas confirmam o carácter tribal da sociedade (não são autorizados partidos políticos): dos seus 83 membros (2 mulheres), a maioria são eleitos com uma votação esmagadora, de acordo com as recomendações dos chefes. Também aqui, como no Iraque, a democracia não é coisa que se instale de um dia para o outro...

*Como comparação, Portugal tem uma área de 92.000 Km2.
** Palavra que se pode traduzir por comunidade ou nação islâmica, num sentido semelhante em que se emprega a palavra Cristandade para os cristãos.
*** Durante o período colonial aconteceu precisamente o contrário: nas capitais da Europa decidia-se o que acontecia em África.

21 agosto 2006

OS ÁRABES RICOS

As histórias das arábias referiam-se, nos tempos antigos, à prosperidade das grandes metrópoles do Islão como são os casos de Damasco, de Bagdade ou do Cairo. A partir do século XX essas histórias das arábias mudaram de local e de protagonistas, quer para os árabes nómadas da península Arábica, quer para os pescadores do litoral norte da península, que antes retiravam a sua subsistência da pesca no golfo Pérsico.

Ao contrário de outros países onde houve lugar à descoberta de importantes jazidas de petróleo, mas onde a população era (e é) numerosa (como o Irão ou o Iraque), os países da península eram todos escassamente povoados (ainda hoje a densidade populacional média é sete vezes inferior à portuguesa) e os benefícios dos rendimentos do petróleo tiveram um impacto profundo na população local.

Há o aspecto anedótico das esposas do Emir do Koweit que, tendo alugado um Boeing 747 para ir fazer compras a Paris, regressaram em dois, pois precisaram de um avião suplementar para trazer as compras… Mas há também o aspecto (único no mundo) da cidade do Dubai nos Emirados Árabes, com uma população de 850.000 pessoas, ter como fonte exclusiva de água potável, a água do mar dessalinizada.

O conjunto dos países da península (com excepção do Yemen, que tem muita gente, não tem petróleo e é uma republica…) agrupou-se em 1981 numa espécie de clube selecto de seis países monárquicos chamado Conselho de Cooperação para os Países Árabes do Golfo. Compõem-no a Arábia Saudita, Omã, o Kuweit, o Bahrain, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos, uma federação de 7 emirados. A bandeira da organização ornamenta este post.

Em conjunto, o PIB dos seis países da organização equivalerá sensivelmente ao do Irão, para cerca de metade da população, e tanto a produção petrolífera como o nível de reservas actuais do conjunto corresponderá ao quádruplo dos do seu grande vizinho do norte. Mas o clube – cujo membro dominante é evidentemente a Arábia Saudita (75% da população total) – também tem as suas ameaças.

Há membros que já estão a esgotar as suas reservas de petróleo. É o caso do Bahrain. Embora ainda continue por mais algum tempo (cerca de 10 anos) a extracção de gás natural e tenha havido uma diversificação da economia antevendo o esgotamento dessas fontes de rendimento é sempre arriscado prever as consequências económicas e sociais do fim destes ciclos de prosperidade.
Seguir-se-á Oman, dentro de 20 a 25 anos. E depois será a vez do Qatar. Mas aquele problema que consideramos principal, e que poderá constituir uma verdadeira ameaça para o bem-estar dos árabes ricos está no presente das sociedades dos vários países da organização: cerca de 40% de toda população (36,7 milhões em Julho de 2006, segundo os dados da CIA) é composta por imigrantes.

Os imigrantes são um conjunto bastante heterogéneo. Há uma apreciável quantidade composta por imigrantes sazonais sozinhos (nos Emirados Árabes há três homens para cada mulher adulta) que são fortemente dissuadidos de ali procurarem estabelecer residência definitiva (as políticas poderão variar de país para país e conforme a naturalidade do imigrante mas estamos a falar do padrão dominante).

Quanto à origem dos imigrantes, há que considerar em primeiro lugar, o conjunto de quadros norte-americanos, europeus e japoneses (certamente virá a haver chineses no futuro…) que estão encarregues de supervisionar na origem os processos de extracção do petróleo que os seus países precisam. São poucos e a esmagadora maioria não faz tenção de ficar, por isso não inquietam as autoridades.

Depois, há que considerar a imigração árabe qualificada (nomeadamente egípcia, libanesa e também palestiniana) que, aparentemente é fácil de integrar, mas pode ser potencialmente perigosa, por estar habituada a níveis superiores de intervenção política, estranhos às sociedades locais. Uma boa fracção dos intervenientes nos atentados de 11 de Setembro, discípulos de bin Laden, pertencia a este grupo.

A ocupação dos postos de quadros médios e inferiores e de trabalho não qualificado tem sido disputada entre oriundos dos países árabes e de países asiáticos. A vantagem sociológica da contratação dos primeiros parece ser compensada com a vantagem económica de recorrer aos segundos. Mesmo assim é nítido que a preferência vai para imigrantes oriundos de países muçulmanos da Ásia como o Paquistão, a Indonésia ou o Bangladesh.

Mesmo assim, estas sociedades prósperas do petróleo devem-se contar entre as mais cosmopolitas da actualidade, onde aos países já mencionados, há que adicionar ainda naturais da Índia, das Filipinas, do Sri Lanka ou do Irão, para não falar dos países árabes adjacentes como o Iraque, Yemen, Síria ou Jordânia, a fazer lembrar a diversidade tradicional dos Estados Unidos e a menos tradicional da Europa.

Por não terem a atenção mediática e por não existirem as liberdades políticas do Ocidente, nomeadamente a de expressão, não se pense que tudo esteja bem nos países árabes ricos. A técnica de impedir os imigrantes indesejados de se fixarem já teve os fracassos suficientes – na Alemanha, com os Gastarbeiter*, ou na África do Sul, com os bantustões** – para se perceber que não tem sucesso a longo prazo.

Outro dia, penso que terá Vasco Pulido Valente a perguntar porque razão no Ocidente não se leva a sério a ameaça do terrorismo islâmico com a mesma seriedade com que outrora se levou a do comunismo, durante a guerra-fria. Arrisco a resposta que talvez a sociedade ideal de bin Laden, não sendo deste mundo, não seja suficientemente tangível para que as pessoas a levem a sério, como acontecia com a União Soviética.

Mas o Islão teve e está a ter, com o exemplo destes países, uma oportunidade de mostrar as sociedades que a sua civilização pode criar, quando provida (!) de recursos. Suspeito que essa sociedade, quando vista da perspectiva de – por exemplo – um paquistanês emigrado em Riade, é capaz de não lhe deve parecer assim tão mais atractiva – ideologias à parte – do que parecerá a um seu compatriota a sociedade de Londres.

É questão de nos perguntarmos se os países árabes ricos também não correm o risco de vir a ter, à sua maneira, o seu choque de civilizações

* Traduzida literalmente, a expressão quer dizer trabalhador convidado. Convidado porque não se destinava a ficar na Alemanha para sempre, bem entendido...
** Os bantustões eram países artificiais criados pelo regime sul-africano de supremacia branca. A maioria dos trabalhadores eram nacionais desses países hipotéticos e podiam ser expulsos da África do Sul para o seu país em caso de conveniência...

NOTA: Os dados numéricos foram retirados do CIA Factbook.