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06 novembro 2023

A GRANDE CONFERÊNCIA DA ÁSIA ORIENTAL

(Republicação)
6 de Novembro de 1943. Conclusão em Tóquio da Grande Conferência da Ásia Oriental, reunindo o primeiro-ministro japonês Hideki Tōjō (ao centro, na fotografia) com os países satélites, pretensamente independentes, ocupados pelas armas japonesas. Esta Cimeira, a que os livros sobre a Segunda Guerra Mundial não costumam dedicar grande atenção, representou um importante esforço diplomático dos japoneses para congregar os apoios dos nacionalismos asiáticos quando a situação militar evoluía nitidamente em seu prejuízo. Entre os presentes contaram-se (da esquerda para a direita): Ba Maw (Birmânia), Zhang Jinghui (Manchúria), Wang Jingwei (China colaboracionista), o anfitrião Tōjō (naturalmente ao centro...), Wan Waithayakon (Tailândia, provavelmente o país mais autónomo entre os convidados), José P. Laurel (Filipinas) e Subhas Chandra Bose (Índia livre, de que aqui se falou neste blogue anteriormente). Tão interessantes quanto as presenças, são as ausências: as dos coreanos, que o Japão considerava uma colónia sua, sem qualquer direito a exprimir-se; as dos vietnamitas e cambojanos, que o governo japonês não quisera convidar para não afrontar a França de Vichy (que era um seu aliado nominal); e as dos malaios e indonésios, já que os japoneses ainda não se haviam decidido em que sentido haviam de conduzir a sua política colonial e a defesa dos seus interesses, no meio do emaranhado étnico que constituía a região. Mas não seria por estas últimas inconsistências que a Grande Conferência foi um evento noticioso fátuo, perdido no meio de tantos outros acontecimentos daquele dia (o Exército Vermelho reconquistara Kiev). As pretensões japonesas eram uma farsa.

30 julho 2022

UMA CONDENAÇÃO DE POL POT

 
30 de Julho de 1997. Tornam-se públicas as imagens de um julgamento a que fora submetido Pol Pot em que o réu, como sentença, fora condenado a «prisão perpétua». Para o mundo da informação tratava-se de um grande feito, já que o antigo ditador cambojano, responsável maior de um regime (1975-79) conhecido por ter executado milhões de compatriotas, andara desaparecido durante 18 anos. Mas para quase todos os outros mundos, era uma frustração daquilo que era a capacidade abstracta da Justiça. Afinal, Pol Pot só fora julgado porque perdera um conflito interno pelo poder dentro da organização que dirigira ferreamente até aí. Os juízes eram os seus antigos companheiros que se haviam concertado para o derrubar, receando pela própria vida. As imagens do julgamento tornavam-no numa paródia. Mostravam um sala de reuniões aberta: lá dentro as pessoas estavam segregadas por sexo e levantavam os punhos, aplaudiam e cantavam em uníssono slogans como «Longa vida à estratégia nacional!» ou «Esmague-se, esmague-se, esmague-se Pol Pot e a sua camarilha!» As testemunhas(?) aparecem a uma mesa, equipada com um microfone onde denunciam o réu pelos seus crimes. Toda esta representação só se vem a tornar conhecida há precisamente 25 anos porque os juízes se encarregaram de contratar dois jornalistas ocidentais (Nate ThayerDavid McKaige como operador de câmara) para, num exclusivo mundial, dar ressonância aquela encenação. Este é um daqueles momentos simbólicos, em que se procede a uma paródia de julgamento de um dos maiores criminosos da história recente, e onde os promotores desse julgamento trataram o mundo da informação como um cão amestrado, com o qual se brinca com um pau. O mundo da informação abocanhou o pau e lá o trouxe, obedientemente. O assunto ainda hoje é discutido academicamente. Mas não se espere ver essa discussão activamente transposta para os próprios meios de informação. O Circo da Informação tem uma lógica que os próprios artistas não se atrevem a questionar. Quanto a Pol Pot, esse morreu no ano seguinte, é difícil considerá-lo outra coisa que não ainda impune.

28 outubro 2020

A MORTE DE KYOICHI SAWADA

28 de Outubro de 1970. No Camboja, os guerrilheiros rebeldes, conhecidos por Khmers Vermelhos, capturam e executam de imediato um fotojornalista japonês chamado Kyoichi Sawada (1936-1970). O fotojornalista era um veterano das guerras na Indochina e fora duas vezes premiado (em 1965 e 1966) por fotografias que fizera acompanhando a guerra no Vietname (acima, vêmo-lo junto a uma dessas fotos premiadas). Ser-se fotojornalista a acompanhar conflitos deste género é uma actividade cheia de riscos: as mortes naquelas paragens de Robert Capa (1913-1954), Dickey Chapelle (1918-1965) ou Henri Huet (1927-1971) são a prova disso. Mas, para os mais atentos, havia uma diferença subtil entre o que acontecera a Sawada e o que acontecera (ou viria a acontecer) aos outros três, aqui apontados apenas como exemplo. Estes últimos haviam morrido acidentalmente, por pisarem minas, detonarem armadilhas ou então em consequência dos aparelhos onde viajavam terem sido abatidos. Sawada aproximou-se de uma zona de combate, foi capturado e sumariamente executado, sem que parecesse ter havido qualquer intervenção hierárquica dentro dos Khmers Vermelhos que se preocupasse com o valor propagandístico de Sawada depois de aprisionado. Era um comportamento que distinguia os rebeldes cambojanos dos rebeldes vietnamitas do Vietcong. Ao contrário destes, aqueles eram uns selvagens, sem qualquer cuidado com os rudimentos da gramática política da guerra, selvajaria que se concretizaria aliás depois no genocídio que teve lugar no Camboja a partir de 1975...

25 dezembro 2018

A INVASÃO VIETNAMITA DO CAMBOJA

25 de Dezembro de 1978. Depois de três anos e meio de uma hostilidade progressivamente crescente, em que o último ano se regera até por uma conflitualidade militarmente assumida, o Vietname decide-se a pôr fim às relações agitadas que vinha a manter com o Camboja, invadindo este último país. A campanha militar que se seguiu, uma invasão canónica protagonizada pelos vietnamitas, pode ser sintetizada e simbolizada pela fotografia acima: dois prisioneiros cambojanos na frente da foto (o da direita usa o krama, o lenço identificativo dos khmers vermelhos) são conduzidos pelo meio de uma plantação por dois soldados vietnamitas armados (no da esquerda reconhece-se o tradicional capacete norte-vietnamita). A vitória dos invasores - como se pode ver pelo vídeo abaixo - demorou apenas um par de semanas: a 7 de Janeiro de 1979 eles haviam conquistado Phnom Penh, a capital cambojana, onde instalaram um governo composto por cambojanos, mas obediente às suas directivas. Mas esses episódios iriam ser apenas o começo de um novo conflito sangrento que se iria prolongar por mais dez anos, em que as novas autoridades e o Vietname, agora como força ocupante, iriam ser contestadas por uma guerrilha patrocinada pela China e - numa certa vindicta - pelos Estados Unidos. Ao longo desses dez anos (1979-1989), centenas de milhar de conscritos vietnamitas passaram pelo Camboja como tropas de ocupação, num rodízio que, apenas por ser desconhecido no Ocidente, não deixa de ser menos real nos seus traumas e consequências. Com a clarividência adquirida nestes 40 anos, tratou-se de uma guerra onde se confrontaram os maus... e os péssimos.

Mas isso é apenas parte da história de há 40 anos que aqui se quer contar. Outra parte tem a ver com a forma como a imprensa comunista (e não só) de então tentava digerir acontecimentos que escavacam toda a narrativa romântica como se concluíra a história da Guerra do Vietname. Esta última acabara num happy end, com a queda de Saigão e a vitória dos mais fracos versus o ogre norte-americano. Só que a História continua, e a continuação deu em expor as clivagens nacionalistas e ideológicas entre as várias facções vencedoras. Se os conflitos entre países capitalistas eram apenas uma consequência da natureza malévola desses regimes e se os conflitos entre países capitalistas e socialistas tinham a limpidez cristalina de quem eram os bons e de quem eram os maus, para um jornal como o Diário de Lisboa de 26 de Dezembro de 1978 (não havia edição no dia de Natal), noticiar a invasão de um país socialista (Camboja) por outro país socialista (Vietname) era uma atrapalhação dialéctica. É assim que vemos o assunto a ser remetido para uma página interior (p.12), misturado entre assuntos avulso e com menor destaque que a instauração da lei marcial na Turquia ou a aprovação de um novo plano económico na China. E repare-se que, mesmo salvaguardando os exageros, normais nestas ocasiões, o Vietname anunciava então a morte de 400 soldados inimigos como um indicador da violência dos combates. Porque o período noticioso (natalício) é rigorosamente o mesmo, e as paragens geográficas próximas, tome-se para referência o destaque noticioso que está a ser dado a um número semelhante de mortos provocados pelo tsunami na Indonésia...

18 junho 2014

O «FUNDO DO TACHO» DA DIALÉCTICA

Qualificados como the most vicious of Communist leaders (vicious: vicioso, imoral, perverso, depravado, rancoroso, vingativo, mau) na legenda do livro de onde retirei a fotografia (The Rise & Fall of Communism), os dirigentes khmers vermelhos que acima aparecem não desiludem a impressão do até onde pôde ir a interpretação mais pura da construção da sociedade marxista-leninista, observando a ostentação do uniforme único (macacão, sandálias, boné e lenço), que funcionará como uma metáfora do que era o pensamento na organização. Anacrónico só mesmo o Mercedes (identificável pelo símbolo na roda traseira), num contraste contra-revolucionário entre o conforto do transporte e o ascetismo do vestuário. Da esquerda para a direita (1) Pol Pot, (2) Nuon Chea, (3) Ieng Sary e (4) Son Sen (a quem recentemente aqui me referi). O segundo ainda está vivo e prestou recente testemunho daquilo que mandou fazer e porquê. Para que também aqui não se apague a Memória, já nem pergunto quantos viram o documentário Enemies of the People (2009), já que dele não conheço versão em português. Pergunto apenas quantos sabem que o documentário existe, atendendo aos galardões que recebeu...

16 maio 2014

SABER OLHAR

Agosto de 1975. Analise-se acima o encontro de dois altos responsáveis das recém vitoriosas organizações nacionalistas (e comunistas) da Indochina que haviam acabado de derrubar em Abril os dois regimes (cambojano e sul-vietnamita) apoiados por Washington. Envergando o capacete típico dos norte-vietnamitas, Lê Duẩn (1907-1986), o secretário-geral do Partido Comunista do Vietname, abraça sorridente o vice-primeiro-ministro cambojano Son Sen (1930-1997) que ostenta o lenço axadrezado identificativo dos Khmers vermelhos. Os sorrisos, mais do que expressar felicidade, têm aquela exuberância rasgada mas indistinta como os asiáticos lhes conseguem dar. Note-se contudo como o braço esquerdo de Son Sen agarra o de Lê Duẩn num gesto que parece procurar mantê-lo à distância e evitar um abraço ainda mais amplo que equivaleria simbolicamente, neste exercício de interpretação da fotografia, à temida implantação de uma hegemonia vietnamita sobre o Camboja. Três anos depois, por decisão do mesmo Lê Duẩn, o Vietname invadiria o Camboja. O regime de que Son Sen era um dos principais protagonistas revelara-se hediondo, mas não terá sido principalmente por isso que Lê Duẩn tomou a decisão de o derrubar.

17 abril 2013

A QUEDA DE PHNOM PENH

Há precisamente 38 anos, o regime do general Lon Nol desagregava-se perante uma ofensiva militar concertada com os aliados norte-vietnamitas e a capital do Camboja caía às mãos dos Khmers Vermelhos, o nome de guerra do braço militar do Partido Comunista Cambojano. Estas são algumas das fotografias desse dia que então não se adivinhava vir a tornar-se tão histórico.
São as fotografias da chegada dos primeiros guerrilheiros, de extracção camponesa e de sorriso acanhado, intimidados com a sofisticação urbana¹.
Houve as celebrações costumeiras destes momentos, quase compulsórias mas vazias de conteúdo, como se se tratasse das festividades de um carnaval.
Houve alguns khmers – reconhecíveis normalmente pelos uniformes escuros e pelos lenços ao pescoço – que se deixaram enredar por este ambiente festivo.
Houve até quem quisesse jogar ainda as suas últimas cartadas políticas, associando-se à vitória, como os membros armados do Mouvement National (de que se vê uma bandeira no jipe da direita).
Mas, no geral e apesar da alegria, os guerrilheiros mantiveram-se sóbrios e concentrados na sua missão. Que começava pela recolha do armamento dos vencidos.
Nesta fotografia acima, por exemplo, só a população civil (do lado esquerdo) parece celebrar, os khmers mantêm-se incomodativa e preocupantemente distantes.
E nesta outra fotografia, vê-se uma bandeira do Mouvement National no meio dos despojos capturados, o que significa que o expediente mencionado mais acima fracassara.
Começou a notar-se a impaciência e a irascibilidade dos graduados khmers que começavam a mandar todas as pessoas emalar as suas coisas e partir para o campo…
Centenas de milhares foram assim forçadas ao êxodo, dando origem a uma nova classe social no novo país, o Kampuchea Democrático: o povo novo.
Nesse dia 17 de Abril foram executados apenas os primeiros milhares daquilo que foi o início de um genocídio de milhões. Hoje, uma atracção turística do Camboja são as pilhas de caveiras…
¹ Quem por esta mesma altura estava em Moçambique é capaz de comparar estas expressões com as dos membros da Frelimo quando recém-chegados à cidade.
 
A 1ª, 2ª, 5ª, 6ª e 7ª fotografias são do fotojornalista Roland Neveu. Não consegui identificar os autores das restantes.

15 setembro 2009

FLUVIALIDADES BIZARRAS – 2 (O Rio que corre nos dois sentidos)

O Rio Mekong, cujo percurso aparece no mapa acima, é o curso de água dominante do Sudeste Asiático. Como costuma acontecer nestes casos, os dados sobre a sua extensão variam significativamente consoante as fontes: desde 4.184 km até 4.880 km. Mas não existem discrepâncias quanto às características extremamente acidentadas das regiões que o Rio atravessa até meio do percurso, como se pode verificar pela pequenez da área coberta pela sua bacia hidrográfica (assinalada acima a amarelo). É quando atinge o próprio Sudeste Asiático que a influência do Mekong mais se manifesta.
Um dos países do Sudeste Asiático atravessado pelo Mekong é o Camboja e um dos símbolos do Camboja, para além de Angkor Wat e do genocídio perpetrado pelos Khmers vermelhos, é um lago que aparece no mapa acima no centro e que tem o nome de Tonlé Sap. Ora, um aspecto bizarro é que a representação daquele lago nos mapas do Camboja costuma resultar de um compromisso entre a área que ele ocupa na estação seca (cerca de 2.700 km²) e na estação das chuvas, quando aumenta por 6 vezes de área (para 16.000 km²), naquilo que corresponderá a um volume de água 70 vezes superior…
Na realidade, o Lago de Tonlé Sap funciona como uma espécie de válvula de segurança que armazena os excessos de água resultantes das chuvas e do degelo que o Mekong e o seu delta (abaixo) não estão momentaneamente em condições de despejar no Mar, um fenómeno que se repete anualmente. Isto faz com que o Rio Tonlé Sap (acima), que liga o Lago do mesmo nome ao Mekong, corra uma parte do ano de Sul para Norte, enquanto há água em excesso no Mekong e o Lago se está a encher, e o resto do tempo (de Novembro a Maio) o faça no sentido inverso, realimentando o Mekong...

23 novembro 2007

O ESTUDANTE ABATIDO

A fotografia sobre o estudante morto a tiro quando se manifestava não é uma fotografia da Guerra do Vietname, mas uma fotografia que ficou associada à Guerra do Vietname. É uma espécie de gesto de reconhecimento que, mesmo os que não participaram mas se envolveram na Guerra, também tiveram as suas baixas. A fotografia data de 4 de Maio de 1970 e foi tirada na Universidade Estadual de Kent, no estado norte-americano do Ohio, e é a terceira maior universidade do estado.
O acontecimento que projectou uma universidade secundária para as primeiras páginas dos noticiários foi um enorme percalço numa cadeia de acontecimentos que se enquadravam numa campanha nacional universitária de protesto contra a Guerra do Vietname que fora marcada para os inícios de Maio desse ano, e que se havia reforçado inesperadamente (a 30 de Abril) com o reconhecimento público pela Administração Nixon do alastramento do conflito ao Camboja.
Desde sempre que se travava uma guerra oculta no Camboja e no Laos. Esses dois países albergavam corredores de reabastecimentos por onde passava grande parte do apoio logístico aos guerrilheiros do Vietcong e às tropas norte-vietnamitas (acima - a trilha Ho Chi Minh) que combatiam no Vietname do Sul. Só a conveniência política das duas partes impedia que o facto fosse assumido. Escandalizar-se devido ao reconhecimento dessa evidência só se podia dever a ignorância, ingenuidade ou hipocrisia…
A verdade é que as manifestações ganharam uma dinâmica suplementar com o anúncio da invasão do Camboja. As responsabilidades pelo que veio a acontecer começam por assentar nas pessoas da fotografia acima. Uns, os civis, por terem solicitado a presença dos soldados da Guarda Nacional, outro, o militar, por não os ter sabido controlar. Neste caso, a fotografia do estudante abatido (chamava-se Jeffrey Miller) sintetiza bem o que aconteceu: 4 manifestantes foram mortos a tiro* quando fugiam do gás lacrimogéneo.
O comportamento dos militares foi indesculpável: apurou-se depois que os mortos estavam entre os 80 a 120 metros de distância dos atiradores… Mas todo este episódio deveria ter sido evitado não fosse uma ideia errada que já repetida vezes demais. A esmagadora maioria dos militares** são treinados para lidar com um inimigo e para neutralizá-lo de qualquer forma… Em democracia, o exército não pode ser entendido como se fosse uma espécie de polícia musculada para situações mais complicadas…
Há unidades de polícia de choque, outras de polícia de intervenção, há mesmo grupos especiais de combate para situações envolvendo reféns, mas confundir funções policiais com funções militares – como aqui aconteceu – é esperar que os soldados esqueçam ou improvisem sobre a natureza do treino que receberam… e isso costuma dar mau resultado.

* Houve também nove feridos – um deles ficou paraplégico.
** Apesar de haver uma especialidade de Polícia Militar.

12 junho 2007

GUERRAS ESQUECIDAS (4): A GUERRA SINO-VIETNAMITA DE 1979

Esta é uma série de Guerras recentes que foram esquecidas pelas razões mais diversas, mas que são normalmente convenientes às partes envolvidas e àqueles que foram os seus apoiantes. Na minha opinião, esta Guerra Sino-Vietnamita é a grande favorita à medalha de ouro de entre todas elas: além de ser hoje uma guerra esquecida, foi sobretudo uma guerra discreta enquanto decorreu (de 17 de Fevereiro a 16 de Março de 1979), que passou quase desapercebida da cobertura mediática mundial, apesar dos milhares de mortos que causou. E, ainda hoje, quando já se conhecem os contornos gerais das operações, continua a controvérsia a respeito de como pode ser interpretado o seu resultado.
Quem a venceu? A resposta depende da forma como interpretarmos quais eram os objectivos da China quando anunciou publicamente a 15 de Fevereiro de 1979 (com dois dias de antecedência...) que era sua intenção invadir o Vietname! É que ninguém sacrifica assim descaradamente a vantagem do efeito do ataque militar de surpresa sem que tenha um outro objectivo político que considera mais valioso… Mas é melhor começar pelo princípio e pela cisão ideológica sino-soviética que se havia concretizado em 1960… No meio dela ficou o Partido Comunista Vietnamita dirigido por Ho Chi Minh e o Vietname do Norte. Para quem todas as ajudas nunca eram demais no seu objectivo de anexar o Vietname do Sul.

Durante os anos da intervenção maciça dos norte-americanos na Guerra do Vietname (1965-1972), o Vietname do Norte desenvolveu um trabalho notável e poucas vezes apreciado de equilíbrio delicado entre soviéticos (de quem recebia apoio material) e chineses (de quem recebia apoio humano – chegou a haver vários milhares de soldados chineses no Vietname a manejar o material sofisticado enviado pelos soviéticos). Mas, por altura da visita de Nixon à China (1972), a dependência norte-vietnamita dos técnicos chineses havia decrescido suficientemente para que o Vietname já pouco sofresse o impacto do realinhamento das alianças que então se verificou.

É evidente que, entre a China e a União Soviética, o aliado preferencial dos vietnamitas segundo todos os cânones da estratégia fosse o soviético; a China era a potência próxima e, não fora a presença ameaçadora próxima dos norte-americanos e a péssima exploração diplomática que estes fizeram das clivagens entre os dois grandes suportes do seu adversário, já as relações sino-vietnamitas teriam evidenciado as desconfianças históricas que os segundos sempre nutriram pelos primeiros. Arrumada a questão vietnamita com a derrota do Sul e a queda de Saigão (Abril de 1975), o Vietname unificado (Julho de 1976) tornou-se num daqueles satélites soviéticos exóticos, com sabor tropical como Cuba.
A questão próxima que terá estado por detrás da eclosão da Guerra Sino-Vietnamita terá sido o problema cambojano. Se a União Soviética era a superpotência que ameaçava a China, se a China era a grande potência que ameaçava o Vietname, então o Vietname era a pequena potência que ameaçava o Camboja. Neste encadeamento de alianças desencontradas, o aliado natural do Cambodja tinha de ser a China. Mas o regime cambodjano, dirigido por Pol Pot, tinha-se tornado num verdadeiro excesso (com milhões de executados!) e foi até com toda a passividade que a esmagadora maioria da comunidade internacional assistiu ao seu derrube pelos vietnamitas nos finais de 1978. Excepto a China.

Deduz-se que o que mais possa ter sido insuportável para a China - um verdadeiro despeito! - foi o facto de a decisão vietnamita para invadir militarmente o Camboja ter sido tomada com a aquiescência dos soviéticos, mas sem qualquer negociação prévia com os chineses. À luz desta interpretação, a decisão chinesa de invadir por sua vez o Norte do Vietname, mas numa operação limitada, tem o sentido de, tal qual acontecera com a Índia em 1962, reforçar a posição negocial da China nas decisões que o Vietname viesse a tomar sobre o futuro do Cambodja. Mas, se fosse anunciada de antemão, a invasão perderia a gravidade que poderia justificar uma intervenção simétrica dos soviéticos sobre as fronteiras chinesas… Não se sabe se é verdade, mas faz todo o sentido...

A continuação dos acontecimentos provou que precaução com os soviéticos não teria sido precisa... porque militarmente os vietnamitas souberam tomar muito bem conta de si, sozinhos… Do que se sabe sobre a evolução táctica das operações, que é escasso e onde uma parcela não vem dos contendores mas tem escapado ao longo dos anos da comunidade norte-americana das informações, a partir das fotografias por satélite com que eles acompanharam o desenrolar da Guerra, o dispositivo militar ofensivo chinês parece ter-se deparado com dificuldades inesperadas na sua missão de penetrar em território vietnamita e capturar algumas das principais regiões fronteiriças de grande significado simbólico* (mapa abaixo).
No fim, ambos os lados se proclamaram vitoriosos e há explicações (normalmente simples) que defendem essa argumentação de cada um dos lados. A do lado chinês relembra que o seu exército (Exército de Libertação Popular - ELP) conquistou de facto a capital provincial de Lang Son, o que lhe deixava aberta a estrada para Hanói, a capital vietnamita e que foi de forma voluntária que, nessa altura, suspendeu as operações e regressou à fronteira. O lado vietnamita recorda que as forças mais operacionais do seu exército estavam empenhadas no Cambodja e que foi recorrendo sobretudo aos dispositivos de defesa locais que haviam colocado o ELP naquelas dificuldades.

As simpatias da Guerra-Fria fizeram com que a leitura feita pela China fosse naquela altura escutada com muito mais bondade no Ocidente do que a versão vietnamita. Mas o tempo tende a não lhes dar razão. Como um cozinheiro esperto mas inseguro, a China anunciou de antemão que ia cozinhar um ovo, mas não detalhou se o ia estrelar, mexer ou fazê-lo em omolete… Assim, qualquer ovo que saísse da frigideira podia parecer satisfatório… A incógnita para a definição de um resultado deste conflito é a de saber quais seriam as expectativas políticas dos dirigentes chineses ao desencadeá-lo. O que nunca foi respondido e tem continuado a ser, até hoje, objecto de especulação.

Do ponto de vista estritamente táctico, a ofensiva chinesa é capaz de ter posto a nu inúmeras fraquezas de doutrina de emprego de forças do ELP, que envelhecera porque não se envolvia num conflito há 17 anos (contra a Índia) e permanecera praticamente isolado em termos teóricos desde o conflito sino-soviético de 1960. Em contrapartida o exército vietnamita (mesmo as suas unidades de reserva) contar-se-ia entre os mais bem preparados do mundo naquelas funções defensivas, batendo-se no seu próprio terreno, que conheciam muito bem. Apetece ironizar como o poder de fogo do ELP poderia parecer irrisório às suas unidades experimentadas, quando comparado com o produzido pelos norte-americanos…
Mas talvez a melhor resposta para a pergunta acima posta sobre se teriam ou não os objectivos políticos da operação punitiva desencadeada pelos chineses sido satisfeitos, se possa ir inspirar à da outra operação em moldes muito semelhantes, desencadeada contra a Índia em 1962 e já aqui tratada num poste anterior. É que nesse caso não há perguntas nem restaram dúvidas como a China conseguira o que queria: o território de Aksai Chin e o reconhecimento pela Índia que o domínio indiano sobre o Arunachal Pradesh carecia da anuência tácita da China. Ora no caso da invasão do Vietname de 1979 só as leituras rebuscadas transformam a derrota chinesa num eventual empate…

A verdade é que o ELP parece ter aprendido a lição que a saturação dos objectivos com ininterruptas ondas de infantaria, conjugada com uma indiferença pelo número de baixas sofridas** já era solução táctica ultrapassada e aproveitou as simpatias do Ocidente para iniciar a partir dali um processo acelerado de qualificação tecnológica das suas forças armadas. Para frustração da China, o Cambodja permaneceu por muitos anos um protectorado vietnamita. A antipatia e animosidade ancestral entre vietnamitas e chineses recebeu um reforço, o que provocou, acessoriamente, a expulsão de boa parte da comunidade chinesa que estava radicada no Vietname, especialmente nas cidades do Sul.

Tudo considerado, parece-me que é verdade e mais do que bravata, a afirmação que os vietnamitas no século XX venceram consecutivamente três grandes potências: França, Estados Unidos e China. Pena – como ontem frisámos para a Guiné-Bissau – que os povos reputados por grandes combatentes não sejam mais felizes por causa isso…

* As regiões de Cao Bang e Lang Son, junto à fronteira chinesa, foram as primeiras onde, durante a primeira Guerra da Indochina, paradoxalmente com a assistência chinesa, os guerrilheiros vietminh forçaram a evacuação das guarnições francesas das respectivas capitais provinciais (1950).
** Como aconteceu frequentemente na Coreia e, em menor grau, em 1962, no conflito com a Índia.

18 dezembro 2006

POL POT – A HISTÓRIA DE UM PESADELO


É muito mais compreensível atribuir as responsabilidades de um imenso massacre a alguém individualmente do que a um colectivo. Mas neste livro de Philip Short, a história da vida de Saloth Sâr (1925-98), que ficou mais conhecido pelo nome de um dos seus pseudónimos de luta política, Pol Pot, serve sobretudo de chamariz de capa e de catalizador para a apresentação dos traços identificativos da cultura khmer onde pôde germinar o ambiente que mais tarde veio dar origem à morte (estimada) de um milhão e meio de cambodjanos.

Em rigor, como aconteceu com Staline e Mao, mas não aconteceu com Hitler, não se deve acusar Pol Pot e a restante equipa dirigente dos Khmers Vermelhos de genocídio: o extermínio incidiu sobre o seu próprio povo. Tecnicamente dever-se-ia acusá-lo de Crimes contra a Humanidade. Mas o que acho particularmente chocante no livro de Short – que resiste ao lugar comum de mostrar fotografias de caveiras empilhadas* – é a forma como se percebe como aquela mortandade foi o subproduto da construção de uma utopia social.

Nem mesmo nos horrores o Cambodja foge aquela lógica implacável que dá muito mais importância à História e aos personagens de grandes países – Ocidentais, de preferência. Entre aqueles que conhecemos melhor, vale a pena tomar atenção à forma como as sociedades que os geraram parecem estar a fazer a recuperação da imagem dos protagonistas dos gigantescos processos de morticínios que se verificaram no Século XX na Rússia (Staline), na China (Mao) ou na Europa (Hitler). Será imperativo que o tempo tudo faça esquecer?

Mas é nesta espécie de comentário fúnebre a respeito de Pol Pot, proferido por um seu antigo aliado (um Khmer Vermelho) de quem entretanto se tornara inimigo, que julgo que se condensa extremamente bem tudo o que Pol Pot era, com tudo o que foram (são?) os valores da vida humana da sociedade que dirigiu:

Pol Pot morreu como uma papaia que amadurece demasiado e que cai da árvore. Ninguém o matou, ninguém o envenenou. Está acabado. Não tem poder, não tem direitos, não é mais do que bosta de vaca. Até a bosta de vaca é mais importante que ele. À bosta podemos usá-la como fertilizante.

* Numa daquelas grandes ironias da História, aquele que seria provavelmente o mais conhecido sobrevivente do regime de Pol Pot, Haing S. Ngor (1940-96), actor que fora galardoado com o Óscar de 1985 pelo seu papel de repórter cambodjano no filme The Killing Fields, relatando precisamente os acontecimentos conducentes à implantação do regime de Pol Pot em 1975, acabou por morrer assassinado nos Estados Unidos, ao resistir a três assaltantes que entraram em sua casa...

20 novembro 2006

A ÁSIA ENTRE OS DOIS COLOSSOS DO FUTURO – 4


Se, seguindo as aparências, considerarmos os olhos amendoados como o traço fisionómico identificativo das populações do Extremo Oriente, então a grande linha divisória entre a China e a Índia situar-se-á ainda em território indiano, porque na população que habita os Estados montanhosos do Nordeste da Índia (entre os naga, por exemplo) já se notam esses traços fisionómicos. Mas se, em alternativa, seleccionarmos critérios culturais, essa grande linha divisória traçar-se-á logo a uma distância curta das fronteiras do Vietname, nos seus dois pequenos países vizinhos, o Cambodja e o Laos, onde os respectivos alfabetos, bem como a religião dominante, o budismo theravada, não deixam dúvidas quanto ao peso da influência indiana que ali se fez sentir.
Cambodja e Laos são países estranhamente pequenos em relação à dimensão média dos países da vizinhança próxima. A sua existência não deixa, por isso, de ser completamente legítima, assim como acontecerá na Europa, por exemplo com os casos da Áustria ou da Bélgica. Mas, tal como nos exemplos europeus citados, a lógica constitutiva destes dois pequenos países (à escala asiática) alicerça-se mais na lógica europeia da formação de pequenos estados tampão transportada para a Ásia – onde essa lógica não existia – por uma potência colonial europeia (a França) do que na configuração natural (tanto quanto se pode falar nestes casos de natureza…) resultante do equilíbrio de forças entre nações asiáticas.

CAMBODJA

Para muitos, o Cambodja é um país que, apesar da sua relativamente reduzida dimensão, pode ser rapidamente associado a duas imagens contraditórias. Uma é a de Angkor Wat, um dos mais belos (e maiores) templos do mundo, erigido no século XII e originalmente dedicado a cultos da religião hindu, depois veio a ser convertido ao budismo. A outra imagem é a de incontáveis pilhas de caveiras, resultado – ou melhor, subproduto – de uma radical transformação social – onde a vida humana não tinha qualquer valor – que se tentou levar a cabo no país entre 1975 e 1979 pelo regime dos Khmers Vermelhos. Embora, pelo número absoluto de mortos (de 1,5 a 2 milhões), o genocídio ali praticado nem tenha sido dos maiores da História recente, é-o quanto avaliado em proporção à população envolvida (7 milhões de habitantes contava o Cambodja naquela altura).

O Cambodja é um país de 181.000 Km2 (o dobro de Portugal), que faz fronteiras com o Vietname (1.230 Km.), a Tailândia (800 Km.) e o Laos (540 Km.), para além de uma linha costeira com quase 450 Km. de extensão. É um país onde predominam as baixas altitudes, onde o maior acidente geográfico é um curioso grande lago, Tonlé Sap, com cerca de 2.500 Km2 de extensão na estação seca, mas cuja dimensão aumenta quase dez vezes na estação das chuvas e que tem um sistema de abastecimento adjacente bastante flexível pois, conforme a estação, abastece ou é abastecido – os rios que lhe fornecem água flúem nos dois sentidos! - de água pelo grande rio Mekong, o eixo primordial do sistema fluvial do país. O clima é tropical, sujeito ás monções.

A população residente está estimada (2005) em 14,1 milhões de habitantes e pela análise da sua distribuição e composição ainda se notam as sequelas dos quatro anos do regime dos Khmers Vermelhos. No primeiro caso, pelos quase 10% da população (700.000 pessoas) que se expatriaram, sobretudo na Tailândia, e que só a ritmo lento têm regressado ao país desde 1992. No segundo, pela anomalíssima proporção de 7 mulheres para apenas 4 homens que se encontra entre os cambodjanos com mais de 65 anos de idade, resultado das execuções maciças (que incidia sobretudo nos homens) da época do genocídio. Todas estas perturbações tornam também difícil apresentar dados sobre a composição étnica da população. A esmagadora maioria da população – mais de 90% - é khmer. Depois, havia uma minoria (Cham) que, habitando o centro do país e representando cerca de 5% da população total, se identificava pela religião professada: era muçulmana. Foram perseguidos especialmente pelos Khmers Vermelhos, em cuja sociedade ideal não havia espaço para particularidades, mas não se consegue estimar o efeito disso na actualidade. Outra minoria perseguida naquela altura, mas depois protegida, foi a dos Vietnamitas. Sabe-se que muitos cidadãos do Vietname emigraram para o Cambodja nos últimos 15 anos onde pediram (e adquiriram) a respectiva naturalização. Mas não se sabe quantos eram vietnamitas étnicos e quantos pertenciam à minoria khmer do Vietname. Dúvidas semelhantes se põem quanto à quantificação das minorias chinesa, tailandesa e indiana, substancialmente menores que as anteriores. Quanto à religião, a maioria esmagadora da população (mais de 90%) assume-se como budista theravada e, além da minoria muçulmana já citada acima, há uma minoria cristã, sobretudo católica romana.

Os primeiros registos sobre os khmers apareceram no Século VI, cobrindo os territórios do que é hoje o Cambodja moderno e a Cochinchina (o Sul do Vietname), à volta do curso terminal do grande rio Mekong. Tratava-se de um estado onde se fazia sentir uma forte influência da cultura indiana, onde a religião oficial era mesmo o hinduísmo e que atingiu um longo período de apogeu, entre os Séculos IX e XII, quando para além dos territórios mencionados abrangia quase toda a actual Tailândia. Novas ideias – o budismo theravada, a partir do Século XIII - e novas potências – os thais, a ocidente, a partir do Século XIV e os vietnamitas, a oriente, a partir do Século XVII – vêm contribuir para a compressão progressiva do reino Cambodjano que parece estar em vias de extinção e um campo de disputa entre tailandeses e vietnamitas depois de um dos seus monarcas, Ang Cham II (1806-37), ver os seus domínios ocupados pelos tailandeses em 1812, enquanto, para contrabalançar, se reconhecia vassalo do imperador vietnamita de Hué.

Como uma cena clássica de Western, onde o 7º de Cavalaria surge à última da hora para os salvar dos índios, o reino do Cambodja, depois de já ter sido dividido por tratado entre os seus dois poderosos vizinhos (1845), é salvo da extinção total pela chegada dos franceses que aproveitaram as circunstâncias para darem mostras de um gesto grandioso salvando o Cambodja, colocando-o na condição de protectorado francês (1863). Transformados em defensores dos interesses cambodjanos, os franceses acabam por recuperar, pressionando os tailandeses, muito de território que a estes havia sido cedido durante as últimas décadas, dando-lhes as fronteiras ocidentais actuais em 1907. O Cambodja sob protectorado acaba por se transformar numa espécie de sub-colónia, onde a maior parte do pessoal administrativo é de origem vietnamita, e onde os circuitos comerciais vão parar a uma minoria chinesa, oriunda sobretudo de Saigão (hoje é a cidade de Ho Chi Minh, no Vietname).

Transformado num conjunto designado por Indochina francesa, conjuntamente com o Laos e o Vietname, de que se tornou uma área periférica e onde sempre predominou naturalmente aquele último, essa mesma condição marginal faz-se sentir nas disputas da ocupação japonesa de 1941 a 1945, na recuperação da soberania francesa, que concedeu a autonomia ao protectorado do Cambodja em 1946, e na concessão total da independência em 1954. Tudo o que aconteceu no Cambodja – e mesmo grande parte do que estava para acontecer até 1991 – foi consequência dos acontecimentos que se desenrolavam no grande país vizinho. O Cambodja transformou-se numa vítima colateral na guerra civil vietnamita que se travou entre 1964 e 1973 e o seu regime pró-americano afundou-se em 1975, quase em simultâneo com o do Vietname do Sul.

Os quatro anos seguintes (1975-79) é que tornam o Cambodja único na história dos genocídios recentes, sob o regime dos Khmers Vermelhos sob a direcção de Pol Pot. Impressiona também – e isso é muito menos publicitado - apercebermo-nos que a direcção desse regime, mesmo depois da sua deposição de dirigentes do país, foram os responsáveis, agora como rebeldes, pela manutenção de uma guerra civil que se prolongou até 1991. Pensando no futuro, a política de neutralidade cambodjana, tão apregoada durante a guerra do Vietname, pode não passar, como naquela altura, de um desejo, porque o Cambodja, tendo salvo a sua existência na última badalada do relógio, não consegue fugir à dura realidade de estar entalado entre duas potência maiores (Tailândia e Vietname).

LAOS

O Laos é, por inerência, o país desconhecido, interior, fora das grandes áreas de interesse e de prosperidade da Ásia. Não fora o aparecimento dos franceses nos finais do Século XIX que o configuraram e o transformaram num protectorado, apoiando-se no curso do rio Mekong como linha defensiva contra a expansão tailandesa (apesar dos povos de um e outro lado do rio serem próximos…) e dificilmente se estaria hoje a falar desse país, cujas regiões pertenceriam possivelmente a qualquer um dos grandes países vizinhos: China, Vietname ou Tailândia.

Com uma área de 237.000 Km2 e fronteiras bastante extensas com o Vietname (2.070 Km.) e a Tailândia (1.830 Km.) e menos extensas com a China (500 Km.), o Cambodja (430 Km.) e a Birmânia (240 Km.), o Laos é um país simples de descrever, com um Alto Laos, de montanhas, junto à fronteira com o Vietname, e um Baixo Laos, que percorre as planícies associadas ao rio Mekong e aos seus afluentes, nas áreas junto à fronteira tailandesa. O clima é tropical, sujeito às monções.

A população está estimada em 5,9 milhões de habitantes o que faz do Laos um país anormalmente sub povoado (densidade de 25 hab./Km2) para país asiático. Cerca de 2/3 dos laocianos são de etnia lao, habitando o oeste do país e pertencem ao mesmo grupo que habita o leste da Tailândia, com quem compartilham língua, cultura e religião (budismo theravada). A composição do resto da população encontra-se pulverizada entre várias designações que ocupam as terras altas no Leste do país. Aí, predominam os cultos tradicionais.

A história inicial do Laos é muito semelhante à da Tailândia, com a migração dos thai, vindos do Norte (Yunão, na China) desde o Século X, a constituírem a classe dirigente sob a qual se organizaram os primeiros estados da região. Mas o Laos sempre foi um local remoto e quase despovoado (se actualmente a densidade é de 25 hab./Km2, imagine-se qual seria a daquelas épocas…), na órbita da Tailândia, embora tivessem ocorrido incidentes em que o país se cindiu em dois estados rivais (segunda metade do Século XVIII) reflectindo a rivalidade contemporânea entre tailandeses e birmaneses.

A rivalidade entre estados (os principados de Luang Prabang e Vientiane) serviu de pretexto aos franceses para se imiscuírem nos problemas da região na segunda metade do Século XIX e, tomando o curso do rio Mekong como fronteira, constituírem um estado tampão entre a Tailândia e o seu Vietname, que constituíram em forma de protectorado em 1893. As fronteiras definitivas do país, nomeadamente as ocidentais datam de 1904, com a cedência das terras do Laos da margem ocidental do Mekong pela Tailândia.

Se a história do Cambodja sob os franceses e depois disso segue a história da Indochina francesa, o que quer dizer a do Vietname, então, por maioria de razão, assim se pode descrever a evolução da história do Laos. Pior que a do Cambodja, a neutralidade do Laos (apesar de ratificada em Tratado em 1954) nunca passou de uma quimera: a maior parte da famosíssima trilha Ho Chi Minh, por onde o Vietname do Norte reabastecia em homens e material os guerrilheiros Vietcong no Vietname do Sul corria pelo território laociano. Usada descaradamente pelos norte-vietnamitas e bombardeada maciçamente pelos norte-americanos, o governo laociano – também dividido em três facções: pró-americana, pró-norte-vietnamita e verdadeiramente neutral… - não passou de um espectador impotente durante a fase da intervenção norte-americana no conflito em que o seu território era zona de combate.

Também no Laos, 1975 representou o ano da vitória final da linha pró norte-vietnamita e durante o decénio e meio que se lhe seguiu o país seguiu a conduta que tinha sido a da época colonial: a de um satélite do Vietname. Curiosamente, desde aí e muito mais do que no Cambodja e muito provavelmente devido a proximidade cultural entre as populações lao dos dois lados da fronteira, a aproximação entre Laos e Tailândia tem colocado o primeiro país numa posição muito mais equidistante entre os seus dois grandes vizinhos do que acontece com o seu vizinho cambodjano do Sul.