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12 julho 2024

«QUANDO SE FIZER A HISTÓRIA DOS ACONTECIMENTOS...»

12 de Julho de 1934. No noticiário internacional, lê-se que Adolf Hitler se tenta demarcar da autoria da purga interna do seu partido, acção essa que ocorrera duas semanas antes e que veio a ficar conhecida pelo título de «Noite das Facas Longas» e que tivera a sua maior expressão política e mediática na execução de Ernst Röhm, o dirigente supremo das SA (Sturmabteilung). Como se pode ler acima, Hitler concedera uma entrevista a um jornal italiano, proclamando a sua impotência em deter a horda de sublevados que assassinara Röhm, nomeadamente porque Röhm não seguira os seus conselhos. No remate da mais despudorada hipocrisia, Adolf Hitler vai ao ponto de dizer que «quando mais tarde se fizer a história dos acontecimentos se verá que ele não é o culpado do fuzilamento de Röhm»... Este é um caso exemplar de quanto a mentira tem a perna curta, muito curta. No dia seguinte ao desta notícia, a 13 de Julho de 1934, Adolf Hitler proferia um discurso no Reichstag que foi radiodifundido e em que ele justificou os assassinatos alegando uma teoria da conspiração e um suposto golpe de Estado iminente por parte das SA: afinal, e ao contrário daquilo que estivemos a ler acima, Röhm fora muito bem assassinado...

Este é o tipo de actuação política típica da extrema direita (como agora temos oportunidade de apreciar em Portugal com André Ventura): um dia dizem uma coisa, no dia seguinte dizem outra completamente distinta, sem se incomodarem sequer a explicar as razões da pirueta.

08 julho 2024

O DIA DO 7-1 DA ALEMANHA AO BRASIL

8 de Julho de 2014. O placard do jogo acima acabou com um Brasil 1 x Alemanha 7. Acresce à humilhação do muito mau aspecto da derrota, o facto de ela ter ocorrido em Belo Horizonte, durante o Mundial de Futebol, em que o Brasil estava a ser o anfitrião e quando as duas selecções disputavam já a meia-final, visando o jogo que decidiria o título. Para além da tragédia nacional que aquele placard representou, o Brasil destacou-se pela rapidez como fizeram humor da situação e como arranjaram logo um bode expiatório, o treinador Felipão.
E como é costume no Brasil, o(s) paineleiro(s) é que tinha(m) explicação para tudo! (abaixo) Aquele é um país em que o que é bom é ser-se paineleiro. Aliás, ontem e a propósito dos comentários nacionais às eleições franceses e aos golpes de rins a que se assistiu, percebeu-se que Portugal também é um bom país para se ser paineleiro

30 junho 2024

A NOITE DAS «FACAS LONGAS»

(Republicação)
30 de Junho de 1934. Depois de 17 meses no poder, Adolf Hitler procede a um ajuste de contas com aqueles que, dentro do próprio aparelho do partido e mesmo das áreas ideológicas que lhe são adjacentes, ele considera ainda passiveis de o desafiar. Para ilustrar a vaga de execuções que então teve lugar, o cabeça de cartaz costuma ser Ernst Röhm (acima vemo-lo ao lado de Adolf Hitler e na foto abaixo, autoconfiante, aparece acompanhado de um Heinrich Himmler que parece escutá-lo atentamente). A entrada da Wikipedia em alemão relativa aos acontecimentos, em vez da referência às facas longas comuns a todos os outros idiomas, tem até o título de «Röhm-Putsch», como que a validar a versão oficial de que houvera uma tentativa de golpe a justificar a violência que se seguiria. A identidade dos executados caracterizou-se afinal pela sua heterogeneidade, porque para além de Röhm e outros que lhe eram considerados próximos, incluiu pessoas de perfis tão díspares quanto um antecessor do próprio Hitler como chanceler (chefe de governo), dissidentes da ala esquerda do partido nazi e políticos bávaros com quem os dirigentes nazis tinham contas pessoais a ajustar. Quanto ao número de assassinados, cerca de uma centena, talvez menos, ele pode afinal ser considerado pequeno, considerando tudo aquilo que o III Reich virá a fazer, mas convém não perder de vista a forma intimidatória como os acontecimentos foram apreciados na época, ao assistir-se ao próprio regime que está no poder a permitir-se recorrer a execuções extrajudiciais para regular as suas disputas políticas internas, qual gangue de mafiosos. Esta última comparação até faria sentido se na Alemanha houvesse mafiosos; ora na Alemanha não há mafiosos: os alemães são um povo muito organizado em tudo, menos no crime - o crime organizado que exista na Alemanha deve-se às mafias italianas, turcas, russas, etc. Mafias alemãs não há, nem nunca ninguém ouviu falar...

24 junho 2024

A ESTREIA DA CANTATA «CRISTO NOSSO SENHOR VEIO AO (RIO) JORDÃO» DE JOHANN SEBASTIAN BACH

24 de Junho de 1724. Por ser dia de São João, dá-se a estreia em Leipzig de mais uma das cantatas compostas por Johann Sebastian Bach, Cristo nosso Senhor veio ao Jordão (Christ unser Herr zum Jordan kam - BWV 7). O título e a inspiração da obra remete para um hino que fora originalmente escrito ainda no século XVI pelo reformador Martinho Lutero. Leipzig e a Saxónia eram então, e permaneceriam por mais duzentos anos, o bastião do protestantismo luterano.

23 junho 2024

A ÓPERA INFANTIL DE THERESIENSTADT

A ópera infantil Brundibár foi composta originalmente em 1938 pelo compositor Hans Krása, baseada num libreto de Adolf Hofmeister (os dois autores são judeus checos). E porque Krása fora inicialmente internado no gueto de Theresienstadt (hoje Terezín), a ópera veio a ser representada umas dúzias de vezes naquele gueto durante a Segunda Guerra Mundial. Uma dessas representações aconteceu há precisamente oitenta anos, a 23 de Junho de 1944, quando o gueto foi visitado por uma delegação do Comité Internacional da Cruz Vermelha. A delegação era composta por três elementos, encabeçada pelo suíço Maurice Rossel, acompanhado de dois funcionários dinamarqueses (a Dinamarca estava ocupada pela Alemanha). A visita foi programada para durar todo o dia, mas seguia uma cenografia preparada pelos alemães de antemão, uma verdadeira encenação de aldeia Potenkin, onde se incluía a representação da ópera do vídeo acima. A realidade era outra: o menino com bigode que acima vemos a desempenhar o papel principal - o de Brundibár - chamava-se Hunze Triechlinger e foi um dos 33.000 mortos que viriam a morrer de subnutrição, doença e outras más condições que vigoravam no gueto de Theresienstadt. Outros 88.000 internados - como o compositor Hans Krása - foram deportados para Auschwitz, onde a grande maioria veio a morrer. Dos 140.000 internados que passaram por Theresienstadt durante a guerra, cerca de 23.000 terão sobrevivido. O instante de felicidade aparente do vídeo acima também não deve esquecer o facto de que o relatório de Maurice Rossel nada assinalava de anómalo, era um endosso da narrativa que os alemães das SS haviam preparado. Mais do que o homem, é um dos momentos mais embaraçosos da história da Cruz Vermelha que falhou clamorosamente nos objectivos que se proclama defender. Significativamente o relatório de Maurice Rossel só se tornou público em 1992, 48 anos depois dos factos.
Embora não haja a certeza que o vídeo inicial seja da representação de Brundibár feita para os membros da delegação da Cruz Vermelha de há 80 anos, esta última fotografia foi tirada pelo próprio Maurice Rossel nesse dia 23 de Junho de 1944, fotografia que apensou ao seu relatório.

80º ANIVERSÁRIO DA OPERAÇÃO «BAGRATION»

(Republicação)
23 de Junho de 1944. Início da Operação Bagration. Para os soviéticos, o desencadear da Operação Úrano, em Novembro de 1942, foi mais uma proeza de astúcia do que de força, cercando, para o aniquilar, e apenas devido à dispersão das forças do inimigo, o exército alemão que se obcecara em excesso com a conquista de Stalinegrado. Em Julho de 1943, na Batalha do Kursk (a Operação Cidadela, segundo o nome dado pelos alemães), já as forças presentes dos dois lados se equivaliam, e a vitória soviética resultou da habilidade de, conhecendo-lhe as intenções, dar a iniciativa ao inimigo, desgastando-o na sua ofensiva, para depois o contra-atacar depois disso. Mas nesta Operação Bagration, a coincidir com o início do Verão de 1944 e prometida aos Aliados por Stalin para a fazer coincidir com o desembarque na Normandia, já a superioridade passara inteiramente para o lado soviético. A questão já não se poria em saber qual o desfecho da ofensiva que o Exército Vermelho iria desencadear, a dúvida consistia apenas em saber qual a dimensão da derrota táctica da Wehrmacht. Essa derrota será colossal (como os cenários macroeconómicos de Vítor Gaspar...). Em duas semanas, pouco mais, serão destruídas 25 divisões alemãs, perder-se-ão 400.000 combatentes, haverá uma hecatombe entre os oficiais generais alemães: 9 mortos e 23 prisioneiros (na fotografia abaixo, da capitulação de Vitebsk, os dois generais alemães vencidos do lado direito, são o general Gollwitzer, comandante do 53º Corpo de Exército e o general Hitter, comandante da 206ª Divisão). O avanço soviético cifrou-se em 400 km e alcançou as antigas fronteiras da União Soviética com a Polónia e as repúblicas bálticas, a dinâmica da ofensiva veio a ser mais perturbada pelos problemas da logística de acompanhar um exército fortemente motorizado, do que pela capacidade de resistência das unidades alemãs ainda em condições de combater. No lugar das 25 divisões destruídas restaria o equivalente a 8 enquanto se aguardava a chegada de outras 8 em reforço. Diante delas, o estado-maior alemão enumeraria 126 divisões soviéticas de infantaria e outras 6 de cavalaria, para além de 62 brigadas blindadas. Naquele sector da Frente Leste e em termos de potencial de combate os alemães defrontar-se-ão a partir daí numa desproporção de um para dez! Hitler's Greatest Defeat é um livro já com 30 anos mas que cumpre a sua missão de explicar sucintamente uma tão grande e tão decisiva ofensiva em 170 páginas. Que é muito mais do que se pode dizer de evocações de jornal (em 2019) que mostram que quem as escreveu nem sequer quis perder muito tempo na wikipedia a documentar-se (para dizer mais que trivialidades misturadas com asneiras...).

22 junho 2024

A ALEMANHA CONTRA A ALEMANHA

22 de Junho de 1974. O serão deste Sábado prometia um curioso jogo de futebol na televisão em que, para o campeonato do Mundo então em curso, se enfrentavam as duas selecções alemãs: a selecção anfitriã da Alemanha Ocidental contra a sua vizinha da Alemanha Oriental. Este jogo era o primeiro entre as duas selecções e o facto concitava uma curiosidade suplementar (e, não se sabendo então, seria o único jogo entre as duas selecções). Venceu a Alemanha Oriental por 1-0. Mas seria contudo a Alemanha Ocidental, apesar de derrotada neste jogo, que se viria a sagrar campeã mundial no torneio. Uma nota adicional: nesta época, que se seguiu imediatamente ao 25 de Abril, ainda a designação das Alemanhas aparecia desprovida de qualquer subtil conteúdo ideológico. Havia apenas a geografia: era a Alemanha Ocidental e a Oriental. Só depois é que se procurou trabalhar as designações das Alemanhas, com uma Federal (Ocidental), que até era federal, e a outra Democrática, que, apesar da designação e da militância do lóbi comunista em promovê-la por cá, nunca teve nada de democrático.

26 maio 2024

A SAGA DO PAQUETE SERPA PINTO

(Republicação)
Ao contrário do Quanza de que se falou noutro lado deste blogue, o Serpa Pinto já era um navio veterano quando passou a navegar com bandeira portuguesa. Construído em 1915, originalmente para um armador britânico, a Primeira Guerra Mundial fizera com que ele fosse requisitado pela Royal Navy durante o conflito; depois fora devolvido ao proprietário que o explorara até o revender em 1935, por causa da crise mundial, a um armador jugoslavo. Em 1940, reagindo à escassez de transporte marítimo desencadeada pela eclosão da Segunda Guerra Mundial, o navio que se chamara até então Ebro e Princesa Olga acabou sendo comprado por uma companhia portuguesa, a Companhia Colonial de Navegação (CCN) - não a confundir com a sua grande rival, a Companhia Nacional de Navegação (CNN), que era a proprietária do Quanza. O navio deslocava 8.267 toneladas, tinha 142,5 metros de comprimento e 17 de largura máxima, e podia atingir uma velocidade máxima de 15,5 nós. À sua chegada a Portugal, além do novo nome e da aposição da pintura de guerra, que tornava o navio e a sua nacionalidade identificáveis a grande distância (veja-se a fotografia acima), o navio sofreu algumas transformações em termos de alojamento: passou a ter capacidade para transportar 329 passageiros nas três classes tradicionais, para além do acrescento de uma classe suplementar nas cobertas para 375 passageiros adicionais.
Sendo duas das três únicas companhias que podiam fornecer serviços de transporte marítimo regular sob uma bandeira neutral durante a Segunda Guerra Mundial (a terceira companhia era espanhola), a concorrência entre Colonial (CCN) e Nacional (CNN) tornou-se acesa porque o mercado era muito lucrativo apesar da guerra. Na Linha da América (do Norte) o Serpa Pinto podia ser considerado a resposta da CCN à CNN e a navios como o Quanza. Daí aquela adição de 375 passageiros para a classe popular, viajando nas cobertas, a fazer recordar as cenas do filme O Imigrante de Charlie Chaplin. Em Maio de 1944, quando do anúncio acima da próxima partida dia 15 do Serpa Pinto para o porto de Filadélfia, o passageiro-tipo já não era o mesmo passageiro de ascendência judaica e das mais variadas proveniências, abastado mas indocumentado, que protagonizara a saga do Quanza no Verão de 1940. Continuava a predominar o cosmopolitismo - no Serpa Pinto chegou-se a registar a presença simultânea de passageiros de 42 nacionalidades diferentes! - e a ascendência judaica mas a selecção fazia-se agora pelo engenho e perseverança de quem conseguira fugira às malhas que cercavam o continente europeu, quase totalmente ocupado pela Alemanha. Mas aquilo que aconteceu ao Serpa Pinto em 26 de Maio de 1944, durante a viagem acima anunciada, demonstrava que a travessia do Atlântico nem sempre era isenta de vicissitudes.
Sala de Jantar e Bar da 1ª Classe
O Serpa Pinto saíra de Lisboa a 15 de Maio com 385 passageiros. Próximo da meia noite de 26 de Maio, quando se encontrava a cerca de 600 milhas a Leste das Bermudas foi interceptado por um submarino alemão, o U-541. Após o exame da documentação do navio, o imediato do Serpa Pinto, que a apresentara, foi feito refém a bordo do submarino, enquanto o comandante deste informava o capitão Américo dos Santos da sua intenção de torpedear o navio português. Era-lhe dada ordem de abandonar o navio com passageiros e tripulação no prazo de vinte minutos. Felizmente o mar estava calmo, e a operação de transferência das mais de 500 pessoas do navio para as baleeiras processaram-se sem incidentes graves, mas foi nessa fase que se registaram as três vítimas mortais do incidente: o médico de bordo, que acabou (paradoxalmente) por falecer vítima de crise cardíaca; um membro da tripulação, um cozinheiro português, que se terá atirado (ou caído) ao mar para nunca mais ser visto; e um passageiro, uma criança polaca de alguns meses de idade que desapareceu da vigilância dos pais nas circunstâncias confusas do embarque nocturno.
O navio foi abandonado à deriva, sem ninguém, durante horas, enquanto tripulação e passageiros aguardavam expectantes que fosse torpedeado de um momento para o outro. Próximo da alvorada, o comandante do Serpa Pinto, Américo dos Santos, foi levado a bordo do U-541 onde o respectivo comandante, o Capitão-Tenente Kurt Petersen (abaixo), o informou que aguardava instruções de Paris (cidade onde estava localizado o QG da arma de submarinos da Kriegsmarine) a confirmar a autorização para o torpedeamento. Petersen deveria estar compenetrado e ansioso: afinal seria o seu primeiro afundamento, e logo de um paquete de 8.000 toneladas! Mas a resposta que acabou por chegar às oito da manhã era afinal negativa. Por muito que isso enriquecesse o palmarés de Petersen, algum Almirante mais avisado terá temido que o afundamento de um navio daquelas dimensões de um país neutral, naquelas circunstâncias, arriscar-se-ia a ser excessivamente contraproducente para o valor militar da presa. Recorde-se que, desconhecido dos intervenientes, o desembarque da Normandia teria lugar dali por dias, a 6 de Junho de 1944. Sem ressentimentos, procedeu-se ao reembarque dos passageiros e tripulantes e o Serpa Pinto lá prosseguiu a viagem até Filadélfia, sem mais incidentes.
O Serpa Pinto continuou ao serviço nas rotas da América da CCN até 1954. Kurt Petersen conseguiu finalmente afundar o seu navio em 3 de Setembro de 1944 ao largo do Canadá: o cargueiro britânico Livingstone, de 2.000 toneladas. Morreu em 2010 com a provecta idade de 93 anos. E não me surpreenderia nada que Petersen tenha morrido convicto que os passageiros e tripulantes do Serpa Pinto e os portugueses em geral lhe deviam agradecer a magnanimidade de que deu provas. É aquele muro de incompreensão basal que nos separará dele, de pessoas como Wolfgang Schäuble e de uma apreciável percentagem de alemães...

14 maio 2024

DOS FRACOS (DE ESPÍRITO) NÃO REZA A HISTÓRIA...

Esta história havia começado em Janeiro de 1963, quando um artista de trapézio da Alemanha Oriental, chamado Horst Klein, alcançara a notoriedade por ter fugido daquele país, atravessando o Muro de forma original, escalando um grande poste de electricidade e pendurando-se num dos cabos de sustentação em aço. Tudo terá corrido bem até à sua chegada a - por cima de - Berlim Ocidental, quando Horst Klein se terá desequilibrado e caído de uma altura apreciável, já que a consequência foi a de ter fracturado os dois braços. Mas, mesmo de braços partidos ou, se calhar, até por causa deles, o homem tornou-se um daqueles pequenos heróis da Guerra Fria, entre aqueles poucos que haviam vencido o Muro que separava as duas Alemanhas. Mas a pequena notícia (acima, ao centro) de 14 de Maio de 1964 desfaz o mito: é que, chegado ao Ocidente, o homem deixou-se enganar depois pelos apelos da sua mulher Sylvia, que ficara do lado de lá, e regressara à Alemanha Oriental para ser - naturalmente - preso e condenado a 30 meses de trabalhos forçados. Suprema humilhação para Horst Klein: a mulher divorciara-se e casara-se com outro. A propaganda da Guerra Fria aceitava heróis desastrados e de braços partidos, agora assim tão estúpidos, não!

12 maio 2024

O FIM DO BLOQUEIO DE BERLIM OCIDENTAL

12 de Maio de 1949. Depois de assinalarmos no Herdeiro de Aécio os 75 anos do estabelecimento do bloqueio de Berlim ocidental pelos soviéticos, assinalamos agora os 75 anos do fim desse bloqueio. Socorrendo-nos das contas do New York Times, o cerco («siege») a Berlim ocidental durara 328 dias. A fotografia do jornal mostra que a propaganda não estava desatenta e o cartaz que as crianças empunham - Blockadefrei - traduzir-se-á por «livre do bloqueio», mas uma boa parte da alegria demonstrada pelos pequenos berlinenses é até capaz de ser genuína e dever-se-á ao facto de não ter havido aulas como celebração do acontecimento...

24 abril 2024

O ESPIÃO QUE FOI PRESO NA VÉSPERA DO 25 DE ABRIL

(Republicação)
A história passou praticamente desapercebida em Portugal, porque ocorreu quase toda durante a fase eufórica que vai do 25 de Abril de 1974 até ao 1º de Maio, mas um dos maiores, senão mesmo o maior escândalo de espionagem ocorreu na Alemanha Federal durante esse período. Depois de uma investigação metódica dos seus serviços de contra-espionagem, o governo alemão descobriu que um dos homens de maior confiança do chefe do governo, o Chanceler Willy Brandt, havia sido, desde sempre, um espião plantado pelos serviços de informações da vizinha e rival Alemanha Democrática (abaixo).
De seu nome Günter Guillaume, o homem que conquistara a confiança de Brandt viera do Leste em 1956 no meio dos quase 2.750.000 alemães que atravessaram a fronteira no mesmo sentido entre 1949 (data da fundação das duas Repúblicas alemãs rivais) e 1961 (data da construção do Muro de Berlim). Só que Guillaume vinha com instruções específicas de Markus Wolf (abaixo) – hoje considerado uma referência entre os profissionais da espionagem – para se infiltrar no aparelho político do SPD (o Partido Social Democrata da Alemanha Federal), o que ele fez com o sucesso que agora se conhecia…
A prisão de Guillaume, quando as provas angariadas contra si já eram indesmentíveis, ocorreu precisamente a 24 de Abril de 1974 e foram, e aqui o termo pode empregar-se com propriedade, um verdadeiro terramoto político. Tanto mais que o próprio visado assumiu imediatamente a verdade, mal foi preso. Embora tenha vindo a compor o seu comportamento nas suas memórias (*), a verdade é que Willy Brandt ainda tentou minorar os estragos e verificar as suas possibilidades de sobrevivência política. Só dali a duas semanas (6 de Maio) é que se demitiu e, mesmo assim, só do cargo governamental de Chanceler.
Willy Brandt foi substituído no cargo de Chanceler por Helmut Schmidt (acima). Interditado a partir dali de ocupar quaisquer lugares de relevo, Brandt passou os anos que se seguiram a mexer os cordelinhos nos bastidores, quer com o cargo (que reteve até 1987) de presidente do SPD, quer com o de presidente da Internacional Socialista até 1992, que foi também o ano da sua morte. Quanto a Günter Guillaume, ele foi julgado e condenado a uma pena de 13 anos de prisão. Acabou por cumprir apenas metade da pena, porque em 1981 veio a ser libertado numa troca de espiões entre Leste e Oeste.
Curiosamente, nesse mesmo ano de 1981, uma operação que teria causado na Alemanha Democrática um embaraço simétrico à do Caso Guillaume, foi evitada: um quadro dos serviços de espionagem da RDA chamado Werner Teske tinha estado a preparar-se para desertar para o Ocidente (**) levando um amplo dossier com as actividades do seu serviço quando foi descoberto, julgado, condenado e executado. Tudo isso se passou no maior silêncio informativo e só se veio a descobrir depois da queda do Muro. É por comparar casos destes que sempre achei que em vez das mais amplas liberdades democráticas foi sempre preferível usufruir das outras

(*) – A versão que agora se tenta fazer correr é que Brandt já estava muito desgastado politicamente naquela altura e que se demitiu por outras causas que não o escândalo. É preciso frisar que Willy Brandt sempre desfrutou desde o princípio da sua carreira, como burgomestre de Berlim, de uma boa publicidade na imprensa, nomeadamente do maior grupo editorial alemão, o de Axel Springer.
(**) – Houvera um outro desertor, mas de menor graduação, chamado Werner Stiller, que fora bem sucedido em Janeiro de 1979.

22 abril 2024

AS OFENSIVAS DIPLOMÁTICAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

(Republicação)
22 de Abril de 1944. Um par de notícias de conteúdo aparentemente anódino numa das páginas centrais da edição do jornal desse dia, dá conta daquilo que era uma discreta, mas violenta, ofensiva diplomática por parte dos Aliados para que alguns países neutrais cortassem o fornecimento de alguns itens considerados vitais para a indústria de armamentos do III Reich. Numa das notícias, originária de Ancara, dava-se conta da reacção da Turquia a essas pressões, suspendendo as exportações de minério de crómio para a Alemanha, invocando a sua própria condição de aliada da Inglaterra. Noutra, oriunda de Londres, era a Suécia que ainda não respondera à nota dos Aliados, em que se lhe era pedido que suspendesse as exportações de esferas de rolamentos para a Alemanha. Havia uma campanha de bombardeamento em curso para destruir a capacidade de as produzir no próprio território alemão, e a indústria de armamentos alemã havia recorrido ao reforço das importações da Suécia para suprir as carências. A resposta sueca irá ser tão evasiva que a importância e as consequências dessa decisão ainda hoje são objecto de discussão académica: a Suécia colaborou ou não com a Alemanha? Contudo, a Turquia e a Suécia não eram os únicos países neutrais a serem pressionados naquela altura pelos Aliados: dali por mês e meio, na edição de 7 de Junho, era ocasião para ser notícia o anúncio pelo governo português da suspensão das exportações de volfrâmio para os países beligerantes. Fazia-o a pedido da Grã-Bretanha. Repare-se como os Estados Unidos pareciam nunca aparecer nestas iniciativas...

07 março 2024

HÁ UMA PEQUENA CIDADE QUASE IGNORADA NO CENTRO DA ALEMANHA...

...que nos faz a nós, que nos exprimimos em português, virar automaticamente as cabeças com mais atenção, quando nos deparamos com o seu nome...

15 fevereiro 2024

A BATALHA DAS BOLAS DE NEVE

Algures em França, no Inverno de 1944, cumprem-se por estes dias 80 anos, alguns soldados alemães travam uma divertida batalha de bolas de neve numa estação de caminho de ferro, no que se presume ser o intervalo de um transporte de uma colocação para outra. Os intervenientes têm razões para estar contentes, eles serão uma minoria entre os militares alemães que não estão numa frente activa combatente, como é o caso da gigantesca frente Leste, contra os soviéticos, ou da frente de Itália, contra os exércitos anglo-saxónicos. Aqui, apesar do frio, o ambiente é descontraído e a função é apenas de guarnição. Mas a invasão é esperada e a sua hora em breve soará, antes do Verão, com o desembarque aliado na Normandia a 6 de Junho.

02 fevereiro 2024

»DESCASCANDO» UMA PEÇA DE PROPAGANDA ALEMÃ DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

2 de Fevereiro de 1944. Esta notícia acima publicada nesse dia teria sido apenas mais uma peça de propaganda alemã da Segunda Guerra Mundial, que não me teria merecido especial atenção, não se desse o caso de nela os alemães quererem denunciar a distorção dos factos que, pelo seu lado, a propaganda britânica estaria a fazer. Aqui a acusação era que os britânicos estavam deliberadamente a minimizar a escala e as destruições provocadas por dois ataques aéreos que haviam sido realizados recentemente pela Luftwaffe nos céus do Reino Unido. Os números de referência serão os 900 aviões participantes no «raids», 750 dos quais seriam bombardeiros que haviam largado sobre Londres «muito mais de mil toneladas de bombas explosivas e incendiárias». As baixas haviam-se ficado por 4% dos aviões participantes («34 aparelhos»). Hoje podemos saber que, na realidade, os números alemães eram um exagero disparatado: a Luftwaffe dispunha naquela altura na Europa Ocidental de apenas 547 aviões, dos quais só 478 estavam operacionais, ou seja, capazes de voar. E havia sido verdade que a Luftwaffe lançara quase tudo o que tinha no primeiro raid de 21/22 de Janeiro (447 aviões) - ou seja (a conta é fácil de fazer) metade do que a propaganda acima anunciava. O resto do que aconteceu é apenas consequente com todo aquele exagero: o ataque de 29/30 de Janeiro já havia envolvido apenas 285 aviões alemães; nos dois ataques a Luftwaffe perdera 57 aparelhos (8% dos aviões engajados), muito mais do que os 34 admitidos, uma parte das perdas devera-se mesmo a questões mecânicas e não à acção britânica. Em suma, tudo aquilo que acima se pode ler era uma aldrabice de grande escala. Chamo a atenção para este caso para mostrar que as propagandas de guerra costumam ser aldrabices mas que podem ser aldrabices de escala e natureza diferente. Como aqui já chamei a atenção noutros casos, os britânicos eram mais finos, e tentavam distrair a atenção das notícias das derrotas ou dos fiascos militares, suprimindo-os ou dando publicidade a «vitórias alternativas»: por exemplo, o afundamento do Bismarck. Enquanto isso, os alemães, como neste caso acima se pode apreciar, eram de um primarismo que não se coibia de recorrer às mentiras mais grosseiras nas notícias de guerra. É o mesmo contraste de estilos de propaganda que agora se observa com a Ucrânia a seguir o estilo britânico, e a Rússia a mentir descaradamente, à alemã.

26 dezembro 2023

O AFUNDAMENTO DO SCHARNHORST

(Republicação)
26 de Dezembro de 1943. O Scharnhorst, um dos navios mais emblemáticos da Kriegsmarine, é afundado no decurso da batalha naval do Cabo Norte. Não é a primeira vez que aqui se fala do navio: já o mencionáramos quando o Scharnhorst, conjuntamente com o seu irmão Gneisenau, afundara o porta-aviões britânico HMS Glorious em Junho de 1940, numa batalha naval de que não se fala muito, porque vai ao arrepio do que iriam ser os padrões da superioridade aeronaval do futuro; e já o mencionáramos quando, ainda acompanhado do mesmo Gneisenau, mais ainda do Prinz Eugen, se escapulira pelo Canal da Mancha sob as barbas da Royal Navy em Fevereiro de 1942. Contudo, as histórias dos feitos de guerra do Scharnhorst vão literalmente soçobrar neste dia de há 80 anos e, mais uma vez, sem a glória que a reputação dos seus feitos decerto mereceria. Se o afundamento do Bismarck se tornou num épico algo exagerado, este afundamento do Scharnhorst passará por um olvido quiçá imerecido.
O principal inimigo do Scharnhorst foi o HMS Duke of York (que podemos apreciar em fotografia durante a acção), sob as condições meteorológicas extremas do Inverno ártico que impossibilitavam o emprego da aviação embarcada. O engajamento foi, por isso, clássico e o Scharnhorst acabou afundado sob o fogo da artilharia do Duke of York e dos torpedos dos navios que o escoltavam. Apenas 36 dos 1.968 homens que constituíam a tripulação foram resgatados, uma taxa abaixo de 2%, o que é inferior aos 5% registados quando do afundamento do Bismarck (onde houvera 114 sobreviventes). Sendo a guerra o que é, nem mesmo isso os dispensou, aos 36 sobreviventes, de serem usados como material de propaganda, ao serem fotografados humilhantemente vendados a desembarcarem como prisioneiros de guerra na base naval Scapa Flow na Escócia. Na antiga base naval do outro lado, na cidade de Wilhelmshaven, um memorial recorda hoje os mais de 1.900 que não regressaram.

09 novembro 2023

QUANDO AINDA NEM SABIAM ESCREVER CORRECTAMENTE O NOME DE ADOLF HITLER

A 9 de Novembro de 1923, a Alemanha vivia então uma fase crítica de hiperinflação, quando as autoridades puseram fim ao putsch de Munique (ou da Cervejaria, veja-se mais abaixo um vídeo detalhado - em inglês - sobre o acontecimento), que fora desencadeado no dia anterior e encabeçado por um Adolf Hitler até aí praticamente desconhecido. Tão desconhecido que as notícias que os jornais portugueses publicavam a seu respeito ainda não sabiam muito bem como escrever o nome, apostando numa consoante dobrada (Hittler), que isto, com nomes alemães, nunca se sabe bem como se escreve, e eles são um gajos naturalmente complicados...

01 novembro 2023

O OUTONO DA HIPERINFLAÇÃO NA ALEMANHA

(Republicação)
Mais do que as descrições abrangentes das consequências de um episódio na sociedade, há aqueles que ganham interesse quando são contados de uma perspectiva individual. Façamo-lo com a hiperinflação que assolou a Alemanha no Outono de 1923, a partir do impacto que ela teve na vida quotidiana de um casal com um bebé em Berlim. O casal era composto por um jovem pianista e compositor de ascendência polaca e judia chamado Mischa Spoliansky (acima) e sua esposa Elsbeth e a filha de ambos. Na Quinta-Feira, 1 de Novembro de 1923, Mischa saiu do seu apartamento, situado na zona leste de Berlim (daí por 38 anos iria ficar do lado de lá do Muro), para ir buscar um cheque aos seus editores com o pagamento dos seus direitos de autor. O dinheiro estava a fazer-lhe muita falta...
Levava um enorme rolo de notas no bolso, correspondendo a um valor nominal de 28 milhões de marcos. Quando quis comprar o seu jornal, o liberal Berliner Tageblatt, apercebeu-se que não tinha dinheiro que chegasse. De facto, apercebeu-se até que se distraíra com a evolução dos preços, que nem tinha dinheiro suficiente para pagar o bilhete de eléctrico até ao destino. Teve que fazer uma parte do caminho a pé. Aquilo que recebeu em direitos montava a 3.700 milhões de marcos. Era mais de 100 vezes do que o dinheiro com que saíra de casa, mas ao ritmo com que o dinheiro perdia o seu valor, era bem possível que dentro de dias aquilo que acabara de receber nem chegasse para comprar um litro de leite para a filha.
No dia seguinte, Elsbeth, que estava grávida de um segundo filho, foi às compras. Os preços eram diariamente actualizados. Havia um coeficiente chamado multiplicador que se aplicava aos preços de referência de 1913, de antes da (primeira) guerra (mundial). Em 2 de Novembro esse multiplicador atingira os 76.200 milhões. Assim, um grande pão de 2 kg. que custara 14 pfennig em 1913 (com um marco compravam-se 7 pães), cotava-se agora por quase 10.700 milhões de marcos (10.668 para ser mais preciso). Um quilo de batatas por 28.000 milhões. Estava-se a uma Sexta-Feira. Passado o fim-de-semana, na Segunda-Feira seguinte, o preço multiplicara-se por cinco: 140 mil milhões de marcos e começaram a eclodir revoltas e saques por toda a Berlim. Os alvos naturais foram as padarias, mercearias, talhos, leitarias... e os judeus que, tal como os Spoliansky, também se concentravam nos bairros de Berlim Leste, nas imediações de Alexanderplatz. Houvera um certo consenso entre a elite política e financeira alemã que não se devia colaborar de nenhuma forma com o pagamento das indemnizações de guerra exigidas pela França mas, com o efeito colateral da hiperinflação, pagava-se agora o preço da decisão num eminente colapso da sociedade alemã. A polícia, tão perturbada pela situação quanto os desordeiros, havia prendido uma cinquentena deles, de entre os milhares que se haviam aproveitado da ocasião. A 8 de Novembro o chanceler Gustav Stresemann encontrou-se em segredo no Hotel Continental com o banqueiro Hjalmar Schacht para que este, com os seus contactos, patrocinasse um programa de estabilização da moeda alemã que pusesse fim àquela loucura. Shacht veio a presidir ao Reichsbank e a criar o tal programa com o indispensável apoio de empréstimos externos, mas chegou tarde demais para salvar o governo de Stresemann, que caiu duas semanas depois.
Entretanto, até que o programa fosse aplicado, o dia-a-dia do cidadão comum era recheado de episódios bizarros. Escrever uma carta tornou-se um luxo: quando Spoliansky quis enviar uma a um seu parente de Munique descobriu que o preço do selo era 100 milhões de marcos – ou seja quase quatro vezes mais do que aquilo que ele trazia na carteira quando saiu de casa no dia 1 de Novembro. Para ler o seu jornal favorito, o Berliner Tageblatt (aprecie-se acima a primeira página da edição de 5 de Novembro de 1923), teve que fazer fila para ler o exemplar de um café. Naquele da custava 10 mil milhões de marcos, quase três vezes mais do que aquilo que recebera de direitos de autor dias antes. Mas, para além dos problemas pessoais, havia o problema das empresas: os empregados passaram a preferir ser pagos ao dia e era uma dificuldade arranjar o dinheiro em caixa para o fazer. E mesmo para as empresas que o faziam, havia uma vantagem para aqueles que conseguissem receber antes: havia quem se considerasse um felizardo porque o caixa era seu amigo e o pagava uma hora antes dos colegas, o que lhe permitia converter o dinheiro em mercadoria com vantagem, tal era o ritmo de desvalorização. Spolansky conseguiu um emprego nocturno como pianista num cabaré e recebia o pagamento cada noite: uma saca de notas que se tornava progressivamente maior a cada dia que passava. Para as bandas da Friedrichstrasse e da Kurfürstendamm, as zonas mais quentes de Berlim (abaixo, cenas do filme Cabaret passado na Berlim dessa época), a crise parecia funcionar como um estímulo, compreensível quando se pensa naqueles que tinham poupanças em dinheiro e que agora se viam incentivados a desembaraçarem-se delas. Outros especulavam comprando, que havia muitos em situações desesperadas e incentivados a vender.

Possuir qualquer tipo de moeda estrangeira era um privilégio e viveram-se imensas histórias estranhas a esse respeito. Houve quem tivesse vindo da Suécia imediatamente antes da crise com 20 coroas suecas (uma quantia irrisória) em notas de uma coroa. Trocando as notas a um ritmo cuidado, uma de cada vez, essa importância conseguiu sustentar uma família de quatro pessoas durante seis semanas. Um grupo de quatro jovens literatos que incluía Bertold Brecht fez uma habilidade parecida (embora com muito maior estadão) com uma nota de cem dólares emprestada por um amigo norte-americano. Jantavam em restaurantes caros e apresentavam no fim a nota para pagamento. Não houve restaurante algum capaz de a trocar: à velocidade a que evoluíram os câmbios, a nota chegou a representar muito mais que a facturação mensal de um qualquer estabelecimento comercial. Ao fim de duas semanas deste expediente devolveram a nota ao proprietário e liquidaram as despesas que entretanto se haviam desvalorizado para um quinquagésimo do valor original.
O ritmo da desvalorização tornara a concessão de crédito numa actividade sem sentido. Elsbeth deu entretanto à luz uma menina e foi com muita sorte – o mercado do arrendamento estava também, obviamente, caótico – que Mischa encontrou uma outra casa maior em Berlim Oeste. Na terceira semana de Novembro, a economia alemã regredira até à fase pré-histórica da troca directa (acima, uma fotografia de uma mercearia berlinense nesse louco mês de Novembro de 1923). Entretanto, em Munique, um grupo de radicais considerava que a desestruturação económica e social causada pelo desaparecimento da moeda abria uma oportunidade para que se processasse uma tomada violenta do poder. Desencadearam um putsch na noite de 8 para 9 de Novembro e falharam clamorosamente. Adolf Hitler, o seu líder, iria passar os próximos meses na prisão. No fim do mês de Novembro, foi criada uma nova moeda provisória a que se deu o nome de Rentenmark que valia 4,2 biliões (milhão de milhões) de marcos antigos. A nova moeda era garantida por uma Grundschuld (dívida hipotecária, obrigação imobiliária) de 4% sobre todos os bens agrícolas, florestais e industriais da Alemanha mas também e sobretudo por um empréstimo de 200 milhões de dólares concedido por um sindicato de bancos mobilizado pelos contactos de Schacht. A associação que, depois disso, se fez entre o impacto social da hiperinflação na Alemanha e a ascensão dos nazis ao poder é uma das fábulas que se perpetua até hoje. Iriam decorrer mais sete anos e quatro eleições legislativas até que os nazis passassem a ter relevo político na Alemanha; e outros dois anos e meio e mais três eleições adicionais até eles alcançarem o poder. A fotografia abaixo, entre o simbólico e o irónico, é de Frank Horvat.
Mischa Spoliansky (1898-1985), que sobreviveu como se pôde apreciar acima à crise do marco do Outono de 1923 em Berlim, emigrou em 1933 (ano da chegada dos nazis ao poder na Alemanha) para Londres. Veio a naturalizar-se britânico.

19 outubro 2023

A ALEMANHA ABANDONA A SOCIEDADE DAS NAÇÕES

19 de Outubro de 1933. Seguindo o exemplo japonês de 27 de Março, também a Alemanha abandona a Sociedade das Nações. Mas, ao contrário da forma crispada como havia sido coberta e noticiada a saída do Japão, há uma diferença substancial para o formato quase cordato como as autoridades alemãs se encarregam de amenizar a sua atitude, atente-se à maneira como a imprensa portuguesa do dia seguinte dava conta do que acontecera: «o discurso de Hitler» tranquilizara «a atmosfera internacional»... Sendo isso uma suposição d«os jornais alemães», é mais do que razoável admitir que há aqui um dedo de Joseph Goebbels.

14 outubro 2023

A BATALHA AÉREA PELA PRODUÇÃO DE ROLAMENTOS

(Republicação)

14 de Outubro de 1943. A USAAF lança um raid de bombardeamento estratégico sobre a Alemanha que envolve 291 bombardeiros B-17. O alvo é a anónima cidade de Schweinfurt na Baixa Francónia, situada nas plácidas margens do rio Meno (49.000 habitantes em 1939), onde os norte americanos elegeram como alvo a adjacente, mas única, fábrica de rolamentos que existe em toda a Alemanha. O ambicioso objectivo do raid é entravar a produção industrial de guerra do III Reich, privando-a do discreto mas precioso dispositivo, que é indispensável para múltiplas aplicações de equipamentos industriais. Cada B-17 transporta duas toneladas de bombas: são quase 600 toneladas de explosivos que aquela verdadeira armada aérea transporta para arrasar com as instalações fabris. E, ao invés do que faz a RAF, a USAAF continua a preferir realizar os seus raids durante o dia, para que se obtenha uma maior precisão de bombardeamento. Este raid de há precisamente oitenta anos sobre a Alemanha vai mostrar o preço terrível que se pode pagar por estas acções quando as forças de caça do inimigo estão preparadas para reagir. De uma forma simétrica ao que acontecera três anos antes sobre a Grã-Bretanha, a Luftwaffe caiu em cima das formações da USAAF. Dos 291 aviões B-17 que participaram na missão, 60 foram abatidos em voo,...

...17 regressaram tão danificados que acabaram descartados, outros 121 receberam danos que eram reparáveis. Apenas 32%, ou seja, só um em três dos B-17 que participaram no raid é que aterraram incólumes. Os custos humanos foram ainda mais terríveis: dos 2.910 homens das tripulações (um B-17 possuía uma tripulação padrão de 10 homens) houve 650 baixas (22%), sendo 600 dados como desaparecidos em combate (os tripulantes dos aviões abatidos) e ainda 50 mortos e feridos entre as tripulações dos aviões que conseguiram regressar. A esmagadora maioria dos 600 desaparecidos havia morrido com os aviões que se despenhavam. No final da guerra, em 1945, só se vieram a encontrar 65 prisioneiros que haviam participado no raid (11%). E contudo, o mais irónico perante tão sérias perdas é que o apuramento dos factos veio a revelar que o objectivo estratégico fora mal configurado. É verdade que a fábrica de rolamentos de Schweinfurt ficara destruída e que a sua produção cessara durante seis semanas. Mas nunca houvera qualquer problema de aprovisionamento da parte da indústria alemã. Havia stocks de segurança e, além disso, não se tratando de uma produção directamente conotada com material militar, os alemães abasteciam-se regularmente de rolamentos em produtores suecos e suíços, que eram países neutrais.