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04 setembro 2010

UMA ESTRELA DA NOSSA GALÁXIA INTELECTUAL

No fundo, José Medeiros Ferreira é uma daquelas estrelas da nossa galáxia intelectual que se torna cómica de tão pretensiosa. A ele lhe devo ter escutado a mais soporífera apresentação de um livro de que me recordo. Medíocre mesmo! Tanta presunção só aumenta, aliás, os seus momentos ridículos, a ponto de me perguntar se será decente evidenciar-lhe todas as figuras de palhaço em que o apanho… E quando me disponho a conter-me, descubro textos seus em que, a coberto do dito fervor futebolístico, José Medeiros Ferreira se permite fazer processos de intenções (Mais do que seleccionador Carlos Queiroz gostaria de ser presidente da FPF), método que, se fosse aplicado à sua pessoa, o ridicularizaria ainda mais. Mais desinibido quanto à minha possível maldade, e em vez de processos de intenções, deixem-me contar-vos uma história a propósito de outra história contada por uma terceira pessoa e que se pode seguir parcialmente aqui na blogosfera. Começa em Novembro de 2005, quando José Medeiros Ferreira escreveu o seguinte no seu blogue de então (bicho-carpinteiro): Esta noite recebi dois telefonemas, (…), ambos estavam a ler as memórias de Filomena Mónica, minha colega na Faculdade de Letras de Lisboa nos anos sessenta e estavam entusiasmados. Disseram-me que sou referido, e até me leram uma ou outra passagem. Nada tenho a obstar à forma como a Mena Mónica recorda um menino vindo dos Açores antes dos vinte anos. Mas agora a curiosidade é enorme e urgente. Já tenho um exemplar prometido para segunda-feira! Ora uma das passagens que lhe devem ter lido então seria certamente a que se segue (na página 303 do dito livro – Bilhete de Identidade), em que a autora não é mesmo nada lisonjeira para o seu ex-colega de faculdade, dando relevo à inépcia de Medeiros Ferreira em inglês, a ponto de não se atrever a discursar naquele idioma em Inglaterra, notando a sua condição de desertor do exército português, que o transformava numa espécie de fugitivo à David Jansen, para além de o sentar à direita de Amílcar Cabral, numa sugestão passageira de colaborador com aquela organização nacionalista guineense: (…) em Outubro de 1971 (…) a oposição portuguesa organizou uma reunião em Westminster Hall. Para minha surpresa, ao chegar à sala, vi, ao lado de Amílcar Cabral, o José Medeiros Ferreira. Ao contrário do que sucedera com o líder do PAIGC, ninguém aplaudiu o seu discurso, porque, tendo-se exprimido em francês, teve de ser traduzido por um intérprete. Ainda tentei abordá-lo, mas, suponho que por ser desertor, desapareceu tão subitamente quanto tinha emergido. Pelos comentários que (não) publicou posteriormente no seu blogue, a tal curiosidade enorme e urgente de José Medeiros Ferreira terá desaparecido tão subitamente quanto a sua saída da tal reunião de Westminster Hall, da forma como a descreveu a Mena Mónica. Só passado mais de um mês, e de passagem para um outro tema, é que José Medeiros Ferreira faz uma última referência ao livro (que não à forma como satisfizera a sua curiosidade enorme e urgente…), escrevendo: Consta que o Bilhete de Identidade de Maria Filomena Mónica já vai em mais de 20.000 exemplares vendidos, e imensa gente me faz saber que já o leu. Imagine-se lá o porquê de tanta gente ter para com ele essa atenção sacaninha!?... Uma coisa é certa: aquele José Medeiros Ferreira que naquela passagem fora recordado por Maria Filomena Mónica já nada podia ter a ver com o tal menino vindo dos Açores antes dos vinte anos (o jovem labrego que viera estudar para a cidade) que o próprio nos tentara impingir. Em Outubro de 1971 (nascido a 20-02-1942) e a estudar (salvo erro) na Suíça, Medeiros Ferreira já estava quase com trinta anos…

16 maio 2010

A VITÓRIA DA LINHA NEGRA SOBRE A LINHA VERMELHA

Há 110 anos, Rafael Bordalo Pinheiro dedicou duas páginas no seu jornal humorístico A Paródia a desenhos alusivos às cerimónias do funeral de Eça de Queirós (acima), aproveitando a ocasião para mostrar como se podia ser irónico sobre a sociedade da época sem desrespeitar a memória do escritor então falecido. É esse o espírito que vou tentar manter neste poste a respeito do recém-falecido Saldanha Sanches e dos tempos gloriosos do PREC.
O que eu me recordo é que, logo depois do 25 de Abril, Saldanha Sanches se tornou conhecido, não propriamente como um rosto¹, mas como um nome repetidamente pintado por quase todas as paredes aproveitáveis de Lisboa, que denunciavam a prisão do director do Luta Popular (acima). Parecia coisa grave, mas os apelos para que todos promovêssemos a sua libertação imediata eram pincelados com uma redacção irritantemente imperativa...
Com a minha cultura política actual, percebo agora que essa ausência da imagem do injustiçado director preso não era casual. Estava-se em tempos onde os dirigentes eram grandes, mas as tolerâncias à discordância eram mínimas, onde, como os acontecimentos de Oriente tinham mostrado, a organização onde Sanches militava apenas deveria dever obediência a um Grande Dirigente e Educador do Proletariado Português como o do cartaz acima: Arnaldo Matos.
Depois de se promover dentro do MRPP uma espécie de mini-revolução cultural muito à nossa maneira, a Linha Vermelha do Grande Matos tinha de triunfar sobre a Linha Negra do Renegado Sanches (acima). Mas, perante esta reacção de simpatia que a morte de Saldanha Sanches tem gerado, apesar do tempo, não pude deixar de sorrir à ideia de que esta onda de simpatia se trate de uma desforra tardia da sua Linha Negra sobre a Linha Vermelha

¹ Ao contrário do que pretende Fernando Rosas, sucessor de Saldanha Sanches como director do Luta Popular. Além do de Arnaldo Matos, o único rosto promovido pelo MRPP era o do mártir Ribeiro Santos.

03 maio 2010

UM GRANDE EUROPEU

Este poste é para ser lido ao som de Die Europahymne do vídeo abaixo.
Estes tempos que a Europa está a atravessar são sérios, parecem não se poder resolver com grandiloquências, muito menos com cerimónias adicionais de assinaturas de mais Tratados... São tempos que têm contribuído para iluminar muitos insignes pensadores da coisa europeia. E são tempos oportunos para recuperar grandes nomes da História da Europa que têm andado esquecidos em baús nos sótãos da inconveniência histórica.
É o caso de George Clemenceau (1841-1929), cognominado O Tigre, o político radical francês que corporizou o espírito de desforra da França depois da derrota de 1871 e da perda da Alsácia-Lorena para a Alemanha até à sua recuperação em 1919, depois do fim da Primeira Guerra Mundial. O seu percurso político radical não terá sido brilhante mas foi a sua eloquência parlamentar que o fez merecer a alcunha que recebeu.
Tornou-se o homem chave dos interesses franceses ao representá-la nas negociações que tiveram lugar entre os Três Grandes (França, Reino Unido e Estados Unidos) que vieram a culminar com a assinatura do Tratado de Versalhes. Nessas ocasiões, tornou-se proverbial a sua irascibilidade, que o levava a começar aos berros com os seus homólogos britânico e americano antes de abandonar intempestivamente a sala.
Os puristas franceses nunca lhe perdoarão o facto de, por falar fluentemente inglês (até casara com uma americana), ter permitido que essas acesas discussões tivessem lugar nessa língua, começando por aí a substituição gradual do francês como língua diplomática. Mas permaneceu até ao fim o protagonista de um certo espírito de confronto francês: pediu para ser enterrado de pé e virado para Leste, encarando a Alemanha…

18 julho 2008

NELSON MANDELA – 90 ANOS

Mesmo pouco dado a efemérides e a personalidades consensuais, gostava hoje de assinalar neste blogue o dia em que se cumprem os 90 anos de Nelson Mandela, nem que seja para que esse assunto seja um bom pretexto para que eu realce aquilo que me parece uma confusão muito comum na sociedade portuguesa entre o que deve ser o respeito e a veneração por uma figura e uma apreciação objectiva sobre quais são as suas reais capacidades.
Ainda ontem li uma opinião que classificava o professor Adriano Moreira (a caminho dos 86 anos) como o nosso melhor especialista em relações internacionais. Poder-se-ia tratar de um caso excepcional de longevidade, não pudesse eu juntar outros casos, como o do nosso melhor cineasta Manoel de Oliveira (a caminho dos 100) ou o nosso melhor futebolista Luís Figo (a caminho dos 36), mais a falta que ele faz à selecção
Poderia aqui multiplicar os exemplos, que costumam ser normalmente acompanhados da alusão à melhoria da qualidade com o tempo, como o Vinho do Porto… Só que os ciclos da vida são implacáveis e as grandes figuras não estão destinadas a envelhecer em cascos de carvalho: nascimento, crescimento, maturidade, decadência e morte. É uma inércia, muito nacional, aquela que nos leva a recorrer sempre os mesmos nomes...
Os problemas da África do Sul podem servir de exemplo daquilo que nos distingue do resto do Mundo. É que ali existe um potencial problema político enorme entre as duas alas do partido dominante, o ANC*, chefiadas respectivamente por Thabo Mbeki (acima) e por Jacob Zuma (abaixo). E suponho que também haverá sul-africanos que se terão lembrado do regresso da figura veneranda de Nelson Mandela para atenuar essas tensões…
A diferença entre a África do Sul e Portugal (lembram-se da candidatura de Mário Soares - a caminho dos 84 - à presidência?...) é que, entre nós, os proponentes de tais soluções que apenas pretendem congelar a evolução dos acontecimentos costumam ser levados a sério e os que são propostos também se costumam levar a sério… Agora a sério: as figuras venerandas (como o aniversariante Nelson Mandela) são para venerar; mantenhamo-las no pedestal...
* African National Congress (Congresso Nacional Africano), o partido no poder na África do Sul.

11 julho 2008

AS VÍSCERAS DO PEIXE DE ÁGUAS PROFUNDAS

O aparecimento do You Tube tornou muito mais fácil o acesso àqueles vídeos que fizeram a sua história, onde amachucaram violentamente a reputação dos seus protagonistas, como terão sido os casos do bolo-rei de Cavaco Silva ou das contas por fazer de António Guterres. Mas, pelos vistos, há quem se dedique a fazer montagens e que fez uma que ali surgiu recentemente em que Jaime Gama surge a fazer duas intervenções, separadas por 16 anos, que, mais do que amachucar, parece arrasar totalmente com a reputação do actual presidente da Assembleia da República.
O que é dito em cada uma das intervenções contradiz frontalmente o que é dito na outra. Ou o respeito pela prática democrática é um valor absoluto em si mesmo (1992) ou a avaliação do desempenho político se faz pelos resultados independentemente da prática (2008). Costuma dizer-se de Jaime Gama (que chegou a passar por delfim de Mário Soares…) que, por causa do seu calculismo e das suas cautelas extremas, terá passado ao lado de uma carreira maior na política portuguesa… Os amigos de Jaime Gama que fizeram a montagem e que a colocaram no You Tube parecem ter conseguido a proeza de levar as pessoas que a vêem a suspirar: Felizmente!…

04 junho 2008

SAVONAROLA

O modelo que se comenta estar a servir de inspiração, ainda que involuntária, a Francisco Louçã nasceu em 1452, na cidade de Ferrara. A sua família de origem, não pertencendo às elites urbanas, era suficientemente remediada para ter conseguido que ele tivesse ido estudar e conseguido – Savonarola era um estudante bem acima da média – uma formação superior em Filosofia. De acordo com a tradição, mais do que os clássicos como Platão e Aristóteles, o filósofo que mais o influenciou terá sido São Tomás de Aquino.

Depois, seguindo a recomendação paternal, haveria que assentar e passar a ser mais prático, obtendo uma outra formação superior em Medicina. No entanto, segundo consta de uma história que não se sabe se será verdadeira ou terá sido reconstituída à posteriori para justificar o resto da sua vida, a sua vida pessoal foi fortemente afectada pela rejeição de uma apaixonada que pertencia à família aristocrática florentina dos Strozzi. Em 1475, com 23 anos, Jerónimo Savonarola tornou-se monge na Ordem dos Dominicanos.
A aplicação demonstrada no estudo da Teologia mostrou à hierarquia da Ordem que o jovem Savonarola era um quadro promissor. Entre 1479 e 1481 foi continuar os seus estudos para Ferrara. E em 1482 veio a ser colocado em Florença como leitor no Mosteiro de São Marcos. Recorde-se como estamos numa época anterior à invenção da imprensa e da alfabetização maciça, mesmo entre as classes com posses. Savonarola era o orador que explicava as escrituras e pregava a purificação e a renovação da Igreja aos fiéis.

Numa das versões, foi o sucesso de Savonarola como orador que levou os Médici, os detentores do poder na cidade, a moverem as suas influências para o fazer retornar a Ferrara. Noutra, mais verosímil, esta primeira passagem de cinco anos (1482-1487) de Savonarola por Florença passou quase totalmente desapercebida. Fosse qual fosse a verdade, o que é certo é que ele retornou a Florença passados três anos (1490), com uma pregação melhorada. ainda mais carregada e com elementos de conteúdo oracular e apocalíptico.
Uma dessas previsões era a de que, brevemente, um poderoso soberano, um novo Ciro, desceria dos Alpes para saquear e castigar os dissolutos italianos. Também previsível e mais importante para o que veio a suceder em Florença do que aquelas profecias de Savonarola foi a morte do velho Lourenço-o-Magnífico em 1492, a quem sucedeu seu filho, Pedro-o-Jovem. O enfraquecimento consequente do regime florentino, não o ajudou a resistir à invasão de Itália que Carlos VIII, Rei de França, promoveu em 1494.

A 17 de Novembro de 1494 Carlos VIII de França entrou solenemente em Florença e esse terá sido o dia 1 do Ano I do regime da Florença teocrática do presciente Jerónimo Savonarola, que antecipara a chegada do poderoso soberano vindo do outro lado dos Alpes. A Guerra que ali levara Carlos VIII era outra, envolvendo as esferas de influência que França e Aragão (Catalunha) possuiriam na península italiana. Mas em Florença a guerra do novo poder revolucionário era contra as práticas e os costumes dissolutos.
470 anos antes dos Guardas Vermelhos da Revolução Cultural chinesa de Mao Zedong (acima), Savonarola recrutou uma força animada de um fervor semelhante entre a juventude florentina. Tão revolucionários e iconoclastas uns quanto outros, também no Século XV, sob o impulso moral de Savonarola, os jovens vasculhavam as casas particulares à procura de objectos chocantes ou prejudiciais à moral para os confiscar. Foram feitas fogueiras com espelhos e caixas de maquilhagem, cartas de jogar e dados, pinturas e livros, etc.

Mas foi a geopolítica e não os excessos do seu regime que abateram Savonarola. O sucesso excessivo da campanha de Itália do seu protector Carlos VIII acabou por criar uma enorme coligação contra o Rei francês e, por consequência, contra si, o seu aliado principal na Itália central. A coligação incluía o Imperador Germânico Maximiliano I, os Reis Católicos, Fernando e Isabel e o Papa, Alexandre VI. Apesar de todos os defeitos, Alexandre (abaixo) era o superior de Savonarola que não era um reformador revolucionário como Huss, Lutero ou Calvino.
Por efeito da diplomacia e das manobras das potências da coligação, todas as conquistas italianas de Carlos VIII esfumaram-se em 1495 e Savonarola, isolado, veio a ser excomungado por Alexandre VI em Maio de 1497. Caracteristicamente, o episódio da sua deposição também foi acompanhado de uma cenografia adequada em benefício da opinião pública florentina. Um monge franciscano, a soldo do Papa, desafiou Savonarola para um Juízo de Deus (uma prova de fogo) a que o próprio franciscano também se submeteria.

Esse Juízo de Deus decidiria se a excomunhão lançada sobre Savonarola era ou não justa, se ele seria ou não um enviado de Deus… A notícia do desafio correu logo a cidade e Savonarola viu-se enredado numa armadilha da qual não podia fugir. O Juízo foi marcado para 7 de Abril de 1498 e construiu-se um estrado de madeira que, depois de ser incendiado, os dois competidores (Savonarola far-se-ia representar por um dos seus mais fieis partidários) deveriam percorrer por duas vezes em chamas: uma em cada sentido.
O dia chegou e, perante a expectativa geral, a prova não teve lugar. No dia seguinte, a oposição devidamente municiada com a ausência de Savonarola lançou os boatos necessários para que o fizessem prender com a concordância da população indignada. O monge dominicano foi interrogado com os devidos requintes de tortura que o fariam confessar tudo o que se entendesse. Mas foi devido a essa confissão que Savonarola teve o privilégio de ser enforcado antes de ser queimado na fogueira a 23 de Maio de 1498…

09 maio 2008

A APOSTA PERDIDA DE GEORGE S. PATTON

Os conflitos modernos deram origem ao aparecimento de figuras iconográficas entre os generais, que depois se perpetuaram em reputações que raramente têm a ver com a sua real valia em termos da ciência militar ou, pelo menos, cuja superioridade para com o comportamento dos seus homólogos e dos rivais não justifica, objectivamente, o destaque que lhes é dado. Dando exemplos concretos dos Grandes Conflitos do Século XX, existem os casos de Joffre em França (abaixo) e de Hindenburg na Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial, do britânico Montgomery ou do norte-americano Patton, durante a Segunda.
No entanto, houve uma evolução natural na maneira como a imagem iconográfica dos ídolos evoluiu de um conflito para outro. Mais institucional com o francês e o alemão, a dos dois generais anglo-saxónicos parecia ser genuína porque parecia espontaneamente oriunda da imprensa, quando na realidade era afinal habilidosamente gerida por detrás. Tratava-se de uma habilidade característica de países onde se desfrutava de um certo nível de liberdade: durante a Segunda Guerra, nunca houve uma promoção de imagem interna de qualquer general alemão ou soviético da mesma forma de Patton ou Montgomery. Hitler ou Staline não as tolerariam…
Insira-se aqui um parágrafo como curiosidade pela forma como em Portugal, durante as Guerras em África, de 1961 para 1974, se transitou de um regime autocrático puro, ao nível das ditaduras totalitárias da Segunda Guerra Mundial (Salazar seria tão ciumento quanto à projecção pública dos seus generais quanto Hitler e Staline…) para um regime mais aberto depois da chegada de Marcello Caetano ao poder (1968), com o destaque dado na comunicação social às figuras de Spínola e os seus aspectos folclóricos do monóculo e do pingalim (acima) ou as explicações das operações de guerra em Moçambique, dadas por Kaúlza de Arriaga (abaixo).
Este extenso intróito serve para tentar colocar George S. Patton (abaixo) na devida hierarquia de mérito dos generais norte-americanos da Segunda Guerra Mundial, numa posição muito inferior à da proeminência que gozou entre jornalistas (pelas obscenidades e sound bites que caracterizavam os seus discursos) e fotógrafos (pelos adereços com que se enfeitava, especialmente um par de Colts 45, niquelados, com os punhos em marfim). De alguma maneira a imagem vingou, porque há um filme sobre si intitulado Patton (de 1970), e nenhum intitulado Eisenhower ou Bradley, e ambos foram seus superiores hierárquicos directos…
A forma como se conta o início da história da conquista de Brest é uma daquelas versões para jornalista. Não tendo participado no desembarque da Normandia, a 6 de Junho de 1944, foi só a 1 de Agosto que George Patton veio assumir o comando do recém-criado III Exército norte-americano. Ao fazê-lo, pegou nas únicas 4 Divisões operacionais que lhe atribuíram e mandou um par delas (a 4ª Blindada e a 8ª de Infantaria) para Rennes e o outro (6ª Blindada e 70ª Infantaria) para Brest, o porto que está localizado na extremidade da península da Bretanha (como se vê no mapa abaixo), que ficava precisamente no sentido oposto…
Segundo essa versão para a imprensa, ao tomar conta do cargo, Patton fizera uma aposta de 5 libras esterlinas com Montgomery (então ainda responsável por todas as Operações terrestres, até à posse de Eisenhower) em como as suas tropas estariam em Brest no Sábado seguinte (dia 9 de Agosto). E a versão continuava: ao encontrar o comandante da 6ª Divisão Blindada, Robert Grow (abaixo), num entroncamento, foi ter com ele quase casualmente e deu-lhe instruções para que conquistasse Brest até dia 9. Quando este protestou que o objectivo estava a 400 km de distância, ouviu: Não me vais fazer perder as 5 libras que apostei com Monty?!...
Teve a sua piada, deve ter feito vender bastantes mais jornais, mas é mentira que a definição dos objectivos a conquistar pelos Aliados pudesse depender assim dos caprichos e das apostas dos seus oficiais generais… Na verdade, a planificação das operações a realizar depois do desembarque em França atribuía uma alta prioridade à conquista dos portos franceses do Atlântico (abaixo) para facilitar o desembarque das tropas e do apoio logístico aos exércitos que estavam extremamente carentes de reabastecimentos como eram tradicionalmente os casos dos anglo-americanos. E Patton estava apenas a cumprir esse plano…
Aliás, do outro lado (alemão) já se haviam apercebido da importância que esses portos representavam para os adversários e, em vez de tentar retirar, impossibilitadas de bater em velocidade as unidades aliadas que estavam motorizadas, as unidades alemãs que guarneciam a França (algumas como aquelas que faziam a clientela (abaixo) do Café do René em ´Allo! ´Allo!…) haviam recebido ordens para se reagruparem nos portos e defendê-los a todo o custo, procedendo à destruição de todas as infra-estruturas portuárias na impossibilidade de não serem bem sucedidos na sua defesa.
Regressando à aposta de Patton e Montgomery sobre a data da conquista de Brest, quando Bob Grow e a sua 6ª Divisão Blindada chegaram aos seus arredores, a 7 de Agosto, já os alemães se haviam reagrupado. Entre as unidades cercadas, num total estimado em 40.000 homens, contavam-se elementos da 2ª Divisão de Pára-quedistas, que era uma unidade de elite alemã... A Divisão sitiante não dispunha dos meios necessários para desencadear uma guerra de cerco e Patton perdeu a aposta… Foram precisas 4 Divisões norte-americanas* e 6 semanas de combates (abaixo) para conquistarem Brest mas com o seu porto totalmente destruído...
Os recursos alocados à libertação de Brest, quando comparados com as vantagens que se extraíram depois da sua conquista, alteraram as prioridades aliadas quanto à libertação dos portos marítimos franceses que ainda permaneciam em mãos alemãs. Devidamente cercados por forças aliadas (constituídas sobretudo pelos antigos resistentes franceses, agora saídos da clandestinidade), as guarnições alemãs dos portos franceses de Lorient, Saint Nazaire e La Rochelle só se vieram a render a 9 de Maio de 1945 (há precisamente 63 anos), ao receberem as notícias da Assinatura da Rendição do III Reich.

* 6ª Divisão Blindada e as , e 29ª Divisões de Infantaria, com um reforço excepcional de artilharia, para além de apoio de bombardeamento aéreo.

22 janeiro 2008

A AUDIÊNCIA E A INFLUÊNCIA

Estou para descobrir qual será a parcela de audiência e qual será a verdadeira parcela de influência de Marcelo Rebelo de Sousa nas suas intervenções semanais de Domingo à noite. Conheço quem não perca e quem apenas veja, quem o ouça com a atitude de quem assiste a um espectáculo de Luís de Matos e quem confesse não acreditar em nada do que ele diz mas afinal acredite, e di-lo apenas porque está in não dar confiança a Marcelo em público...
No último Domingo, segui Marcelo com atenção enquanto ele desmontava Correia de Campos: as pessoas, instintivamente, prefeririam ter um médico ao pé da porta, embora houvesse razões científicas para justificar como esse instinto se enganava, mas afinal o problema principal do ministro é que ele não explicava a sua política de saúde e, quando explicava, explicava a reboque dos acontecimentos, e assim perdera definitivamente toda a credibilidade...
Este convívio continuado com Marcelo começa a desenvolver-nos cumplicidades e reconhecimentos de padrões. Embora Marcelo não se ensaie nada em se meter em explicações técnicas sobre qualquer assunto (ainda não o ouvi falar sobre física nuclear, mas não perdi a esperança…), o problema destas questões em que o titular da pasta é mais reputado tecnicamente costuma vir a ser sempre atribuído à insuficiência das explicações…
Fica a sensação que, tivesse havido a oportunidade, num hipotético governo de Marcelo tudo teria sido muito bem explicadinho. Não teria havido oportunidades para esses erros políticos da falta de explicações, de que acusou Correia de Campos. Basta lembrar a audiência alcançada pelas próprias explicações de Marcelo Rebelo de Sousa a propósito do último referendo sobre a despenalização do aborto, e do sucesso registado…mas por Ricardo Araújo Pereira.

10 novembro 2007

CHAVEZ: UMA INSOLÊNCIA À MCENROE…

John McEnroe foi um tenista que, no seu apogeu, no princípio dos anos 80, terá sido um dos melhores, senão mesmo o melhor jogador de ténis do mundo. E tornou-se desmesuradamente popular em relação aos seus rivais mais directos, mas não por ser assim tão melhor que eles, antes porque se mostrava em campo de um comportamento imprevisível que não demorou a tornar-se insuportável…
Tanta era a sua reputação que as impertinências de McEnroe se tornaram notícias autónomas dentro da cobertura tradicional dos Torneios de Ténis onde participava: discussões com o árbitro, atirar com a raquete, etc. É algo parecido ao que parece ter acontecido a Hugo Chávez, o Presidente venezuelano, na Cimeira Ibero-Americana a decorrer no Chile, quando vários países apanharam com as suas insolências…
Apanharam a Espanha e o Brasil, a Argentina e o Uruguai também levaram. Segundo dizem as notícias, Portugal safou-se… Em abstracto, devo dizer que a causa originalmente proclamada por Hugo Chávez sempre me pareceu simpática: a de tentar equilibrar a distribuição da riqueza num país como a Venezuela, onde a dimensão (enorme) das assimetrias económicas pode ser sintetizada em imagens simples como esta fotografia aérea de uma área da sua capital Caracas (abaixo).
Mas a bondade dos objectivos proclamados não pode perdoar tudo. O próprio John McEnroe descobriu que as suas atitudes modificaram a sua audiência nos campos, daqueles que iam lá para o apoiar, para aqueles que iam para o ver dar barracada… Com o tempo, também McEnroe parece ter aprendido e hoje, 25 anos passados, tenista veterano e grisalho (abaixo), mostra-se muito mais calmo em campo... Não sei é se a política latino-americana dará esse mesmo tempo a Chávez…
A tradição do continente é que quem comete destes erros de isolamento e arrisca assim hostilidades tão fortes, também corre um risco sério de não chegar a veterano…

12 dezembro 2006

AS CAUSAS DAS GUERRAS

Serão muito poucos os que sabem quem é Humpá-pá, o pele vermelha, um herói da banda desenhada que foi também criado pelos mesmos autores (René Goscinny e Albert Uderzo) do muito mais famoso Astérix. A acção das histórias passava-se no Século XVIII, e a maior parte delas tinham lugar na América do Norte quando os franceses ainda ali tinham interesses coloniais.

Um dos pormenores cómicos, por absurdo, da história, eram as causas que levavam os países europeus a entrarem em guerra: dois reis (o de França e o da Prússia) jogavam civilizadamente às cartas num dos seus castelos quando subitamente um deles acusava o outro de batota, este retorquia, o outro ameaçava e acabavam arrastando os respectivos países (e suas possessões) para uma guerra.

Concebida no final dos anos cinquenta, a piada perdeu actualidade e hoje pode ser interpretada por mau gosto, ao vermos a animosidade pessoal que grassa entre alguns dos mais destacados protagonistas mundiais. Ao retirado Schroeder, além de elogiar Putin, pouco faltou para chamar imbecil a Bush. Agora foi Kofi Annan que guardou o seu discurso final como Secretário-Geral da ONU para arriar uma descasca monumental às políticas do mesmo Bush.

Ficamos na expectativa sobre o que nos poderão dizer Blair e Chirac, depois das suas retiradas políticas, previstas para breve. Este Século XXI tem-se revelado uma má época para quem procura analisar a evolução da política internacional partindo do pressuposto que os seus actores se comportam de forma racional. Felizmente, ainda ninguém declarou guerra a ninguém por causa de uma desavença num jogo de cartas ou por causa do mau hálito do interlocutor…

Mas também creio que nunca assistimos a tanta animosidade pessoal reprimida, que é espalhada na praça pública tão logo haja oportunidade!

06 outubro 2006

O OUTRO AÉCIO


O Aécio de quem este blogue não reclama nenhuma herança, mas que é a causa de imensas visitas a este blogue, chama-se Aécio Neves da Cunha, é brasileiro, mineiro, natural de Belo Horizonte e tem 46 anos. Economista de formação e político de profissão é originário de famílias que sempre se dedicaram a essa actividade, nomeadamente o avô materno, de quem Aécio guardou o apelido por que é conhecido, Tancredo Neves, que chegou a ser eleito Presidente da República (1985), não tomando depois posse por problemas de saúde.

Já tendo sucedido a seu avô como Governador do Estado de Minas Gerais, para onde foi eleito em 2002 com 58% dos votos, e tendo obtido altos índices de popularidade no desempenho do cargo, concretizados na sua reeleição recente (Outubro de 2006) com uns esmagadores 73% da votação (o limiar do resultado de uma eleição esmagadora passar a tornar-se suspeita por tanta unanimidade…), o seu estilo faz-me lembrar um pouco os extremos cuidados comunicacionais usados pelo estilo de Tony Blair (e de outra esquerda europeia – como Zapatero ou Sócrates), só que adaptados naturalmente para uma sociedade latino-americana.

Numa sociedade propensa aos mitos do sebastianismo – não tivessem os brasileiros ganho a independência de quem ganharam… – já são muitos os que talharam a carreira futura de Aécio Neves como o próximo sucessor de Lula na presidência. Ora como eu acabei ganhando simpatia também por este Aécio, responsável por tanta animação no meu blogue, a última coisa que desejaria é que ele entrasse naquele perigoso palácio (Planalto - responsável pela ruína de muitas reputações…) ainda por cima sobrecarregado pelas expectativas como só os brasileiros conseguem depositar nas capacidades de um só homem.

Desejo-lhe muita sorte para si na sua carreira política que bem pode chegar à presidência, Aécio! Vai precisar de alguma sorte para lá chegar. Mas, se lá chegar, pelas expectativas que me apercebo que está gerando, vai precisar de toda a sorte do Mundo quando lá chegar...

26 setembro 2006

FLÁVIO AÉCIO (396-454)

Para todos os que chegam a este blogue à procura de saber coisas sobre Aécio, nomeadamente os que procuram detalhes sobre Aécio Neves, jovem promessa política mineira, deixem-me explicar-lhe que o Aécio de quem este blogue reclama a herança se chama Flávio Aécio e era uma jovem promessa política… romana, há 1600 anos.

A data de nascimento de Aécio mais aceite pelos historiadores é 396, e o local Silistra, uma cidade na margem direita do rio Danúbio, muito próxima da sua foz, na Bulgária actual. Na época o Danúbio era a fronteira do Império Romano e por isso não é surpreendente que, segundo as crónicas, embora se atribuísse à mãe de Aécio uma ascendência romana latina (e mesmo uma origem italiana), a do seu pai Gaudêncio já é mais disputada, referindo as fontes origens germânicas senão mesmo góticas. Isso não o impediu de alcançar o posto proeminente de Magister Militum (o equivalente antigo ao cargo de comandante chefe de um teatro de operações, neste caso a Mésia – Bulgária).

Terá sido por isso que, como era prática naquela época, Aécio foi usado mais do que uma vez como refém junto das cortes das tribos que dominavam as regiões fronteiriças do Império. Como segurança para a demonstração da boa fé negocial era prática estabelecida que os negociadores trocassem reféns que lhes fossem próximos. Aécio, o filho do representante principal da parte romana passou assim, enquanto jovem adolescente, largas temporadas (de anos) nas cortes do soberano godo (Alarico) e huno (Rugila) adquirindo assim um conhecimento e empatia com as suas culturas que lhe virá a ser muito útil mais tarde, nas sua carreira política.

Esta parece até ter começado mal. O primeiro registo histórico de uma proeza de Aécio é uma enorme gaffe. Tendo sido encarregado, por causa dos seus contactos, de recrutar uma tropa mercenária de cavaleiros hunos por conta de um pretendente ao trono que pretendia derrubar o Imperador, descobriu, quando regressou a Itália, que o usurpador havia fracassado e sido executado. Aécio devia ser muito persuasivo (algo que lhe será muito útil, e ao Império, trinta anos mais tarde) e conseguiu virar a casaca e obter ao serviço do poder legítimo os pagamentos que ele havia prometido aos mercenários, que estes não iriam deixar de exigir a Aécio e que agora só o Imperador poderia honrar.

Sendo considerado dentro do Império como uma espécie de o amigo dos hunos e poderoso por isso, Aécio foi afastado de Itália com o engodo do cargo de Magister Militum, como seu pai, mas para a muito mais prestigiada – possivelmente a mais prestigiada de todas – província da Gália. Na meia dúzia de anos seguintes o governo da metade ocidental do Império é um equilíbrio precário entre o centro – onde mandam os que rodeiam Gala Placídia, a mãe do imperador Valentiniano III – a Gália, onde Aécio reforçou a sua posição, reforçando a do poder romano, derrotando e contendo os visigodos a quem havia sido concedida licença a instalarem-se num recanto da Gália (a Aquitânia) e África, onde mandava Bonifácio, uma espécie de Nemésis de Aécio.

A importância da província africana e de quem a dirigia consistia na sua produção de cereais, que serviam para a alimentação da população italiana (especialmente romana). Depois da província do Egipto, rival de África nessa produção ter ficado sob o domínio do Império do Oriente, qualquer bloqueio de Bonifácio podia provocar carestia e enormes perturbações sociais nas sociedades que estavam junto à direcção central do Império. Para a corte do Ocidente, se Aécio e as suas ligações aos hunos a intimidavam, por outro lado, os poderes de Bonifácio sobre o abastecimento de Roma tornavam-no indispensável.

O choque entre os dois ocorreu em Itália em 432, numa batalha no norte de Itália. A sorte esteve com Aécio que, perdendo tacticamente a batalha, veio a vencê-la politicamente porque Bonifácio saiu dela mortalmente ferido vindo a morrer alguns meses mais tarde, embora haja quem ventile a hipótese de Bonifácio tenha sido envenenado. Em contrapartida, não há grande controvérsia quanto às consequências do desaparecimento de Bonifácio e da ascensão de Aécio que se tornou depois disso, em tudo, menos no título, soberano do Ocidente romano. Como comprovativo e prática comum da época entre os que efectivamente detinham o poder, Aécio deixou-se eleger como cônsul por 4 vezes: em 432, 437, 446 e 454.

O grande feito de armas de Aécio, que é também considerado o episódio mais controverso da sua vida, foi a vitória que obteve, à frente de uma confederação de contingentes de romanos, visigodos e alanos, contra uma outra confederação dirigida por Átila, o rei dos hunos e composta predominantemente por hunos, ostrogodos e burguinhões, na Batalha dos Campos Cataláunicos em Junho de 451. É muito possível que a composição dos dois exércitos fosse muito mais confusa do que a que acima foi descrita (exemplo: haveria hunos mercenários a lutar com Aécio) mas não há confusão quanto aos projectos políticos por que lutavam: Átila queria atingir a suserania sobre o que restava do Império de Ocidente e Aécio estava disposto a negá-lo.

Embora o resultado da batalha pareça ter sido um empate táctico – como aconteceu em Waterloo, por exemplo – Aécio alcançou naquele dia uma vitória estratégica porque era Átila – como Napoleão 1364 anos depois – que necessitava desesperadamente de obter a vitória para poder consolidar a sua frágil confederação de interesses. Derrotado na Gália, Átila fez uma inflexão nos seus esforços e regressou no ano seguinte atacando a Itália, ocasião em que Aécio, falho da coligação que havia mobilizado no ano anterior apenas pode ir fazendo a cobertura das forças invasoras e utilizando o instrumento diplomático até conseguiu persuadir Atila a retirar através de argumentos que hoje desconhecemos.

Este retrato de Aécio, como um político multifacetado, que já havia colocado o seu filho na família imperial casando-o com a filha do Imperador, em que se conjugava e se empregavam tanto as habilidades militares como as diplomáticas, de uma forma indistinta, era como um verdadeiro percursor do perfil dos grandes estadista bizantino do futuro. A carreira de Aécio também acabou da mesma forma de intriga bizantina, com o seu compadre Valentiniano III - o imperador – a mandá-lo assassinar em Setembro de 454. Após tantos anos, permanece uma figura controversa, e é apenas de lamentar que as únicas narrativas a seu respeito pertençam ao bispo Gregório de Tours (540-594), baseado nos relatos de um historiador contemporâneo de Aécio no século V, Renatus Frigeridus, cuja obra infelizmente se perdeu.

15 novembro 2005

QUEM É AÉCIO

Flávio Aécio foi um general romano do século V (c.396 – 454), considerado por alguns historiadores como o último dos romanos. O Império Romano no Ocidente terminou 22 anos depois da sua morte.

O Império Romano foi também o último projecto de unidade europeia que vingou de uma forma consistente. Fala-se muito da sua decadência, mas esquece-se que perdurou como entidade política predominante durante 500 anos, a que há que adicionar mais outros 500 anos na sua metade oriental.

Depois dele, qualquer projecto de unidade europeia (Carlos Magno, Sacro Império, o Papa, Napoleão, o III Reich), só durou o tempo de uma geração, embora alguns talvez tenham perdurado mais do que isso, mas esvaziados de conteúdo e apenas de uma maneira formal. O que acontecerá à União Europeia?

A relevância actual do estudo da Antiguidade Clássica pode ir bem mais para diante do que a aparente petulância de aprender latim ou estudar os clássicos. Mas investigar o que pode ter mantido o interesse em manter uma associação mútua por parte das diferentes comunidades que constituem os países modernos é um assunto de supremo interesse na actualidade. Aécio é assim como um símbolo de alguém que deteve os segredos de uma unidade europeia funcional. Talvez estudando-os possamos reaprender qualquer coisa.