...agora parece ser a hora do sucesso da bebinca goesa. Será quase todo um continente que se rende aos encantos da doçaria euro-asiática baseada nas gemas de ovos e açúcar. Atente-se nas instruções do vídeo acima, a partir dos 3:45, o cuidado e a paciência que são postos na disposição metódica das camadas até ao doce vir a ser desenformado por volta dos 5:15. Neste caso, não o do vídeo, o outro, houve ali uma ou duas camadas que correram o risco de ficar um bocadinho mais esturradas, mas parece que a bebinca se compôs.
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09 junho 2024
A ALEMANHA SERÁ NEUTRALIZADA OU INCLUÍDA NO PACTO DO ATLÂNTICO?
(Republicação)
A edição de há setenta e cinco anos do Diário de Lisboa continha um importante artigo de Maurice Duverger (então jovem estrela em ascensão com 32 anos) que colocava a questão em título: qual o papel da Alemanha no futuro da Europa? Tinha uma chamada de primeira página. Não asseguro que o leitor comum do jornal da época se apercebesse da importância do tema, mas vale a pena ter a oportunidade de o reler com a presciência de conhecermos o futuro e sabermos as consequências das opções então tomadas.
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Todas as questões de pormenor que podem surgir na Conferência de Paris estão subordinadas á solução de um problema fundamental: a posição futura da Alemanha e o seu papel na rivalidade latente entre a Rússia e o Ocidente. A situação em Berlim, a fiscalização aliada, o regime de ocupação, a orientação da economia, tudo isso só será duradouramente resolvido se precisamente se esclarecer o fundo do debate em curso há quatro anos. E o debate consiste em saber se a Alemanha vai entrar na esfera de influência soviética, ingressar no Pacto do Atlântico ou ser neutralizada.
A escolha entre estas três soluções pode ser adiada. Mas impor-se-á mais cedo ou mais tarde. Todo o jogo diplomático a que assistimos não tem outro objectivo.
O Reich na esfera de influência russa
Se a Alemanha se comunizar, a segunda guerra mundial terminará por uma derrota esmagadora das democracias ocidentais. Para estas a situação será pior do que em Setembro de 1939. Hitler era menos perigoso do que Estaline, precisamente porque na retaguarda do primeiro estava o segundo e na retaguarda do segundo não está ninguém. Até Hong-Kong, até Singapura, não há contrapeso para o poder da URSS.
Nessa hipótese, a terceira guerra mundial será inevitável. Trata-se apenas de aguardar a data da sua eclosão.
Esta solução está, naturalmente, afastada, não em nome de um anti-comunismo obtuso e sistemático, mas por uma preocupação compreensível de salvaguardar a paz. Evitar que a Alemanha ingresse na esfera de influência soviética é um imperativo da diplomacia ocidental.
Praticamente, restam portanto, duas soluções possíveis: a neutralização ou a “atlantização” dos vencidos.
Por muito dolorosa que a segunda pareça aos olhos dos povos da Europa, sobretudo daqueles que ainda recentemente suportaram os horrores da ocupação, é inútil dissimular a sua importância, pois, ninguém certamente terá dúvidas de que vão para ela as boas graças da poderosa América.
Os perigos da “atlantização”
Não falta quem, com certo fundamento, evoque sempre que se põe o problema da “atlantização” da Alemanha, o risco de um renascimento do militarismo e do expansionismo germânicos. A assinatura do Reich ao Pacto do Atlântico implica automaticamente o seu rearmamento.
“A Alemanha no Pacto do Atlântico? Nunca!” Tal era a expressão empregada ainda não há muitos dias por uma personalidade respeitável da política francesa.
Mas, se há quem pense assim, vamos nós, que já fizemos a guerra de 1939 com a estratégia de 1914, fazer a paz de 1949 com a diplomacia de 1919?
A entrada da Alemanha na comunidade atlântica podia ser o epílogo da rivalidade franco-alemã. A ideia de guerra e de invasão entre a França e a Alemanha tornar-se-ia anacrónica. Franceses e alemães tornar-se-iam aliados amanhã, como hoje já o são franceses e ingleses.
Para os franceses esta transformação não seria mais profunda do que aquela que se registou em 1815, no Congresso de Viena. Há apenas a objectar que uma tal aliança teria que ser cuidadosamente vigiada. A Alemanha apoiada pela América tornar-se-ia rapidamente a nação preponderante na Europa.
Se a Alemanha, depois do rearmamento, quisesse um dia retirar-se do pacto, a França poderia continuar a contar com a protecção americana? O problema da “atlantização” da Alemanha deve por isso considerar-se pelo prisma das sua possíveis repercussões no equilíbrio europeu, na paz do Mundo e não pelo prisma da luta secular entre franceses e alemães, a qual pertence a uma época já ultrapassada.
O ponto de vista anti-comunista
Do ponto de vista da defesa armada da Europa contra a propagação do comunismo, a adesão da Alemanha ao sistema atlântico oferece incontestáveis garantias.
É certo que a eficácia militar do pacto é por enquanto limitada e que continuará a sê-lo enquanto a Europa não começar a receber as armas de procedência americana. Mas a inclusão permitirá precisamente encurtar esse prazo de espera, graças á contribuição que a indústria alemã pode prestar para o rearmamento dos países ocidentais.
Assim, a retirada das forças de ocupação ocidentais ficaria ligada ao restabelecimento de uma força militar alemã, pois as tropas anglo-saxónicas e francesas que estacionam naquele país passariam automaticamente a ser aliadas do exército alemão reconstituído.
A missão dessas forças não consistiria em vigiar para que a ordem fosse mantida no interior da Alemanha, mas para que a sua fronteira continuasse inviolada. Completar-se-ia assim uma evolução iniciada com o bloqueio de Berlim. A pressão russa não encontraria na sua frente o vácuo, mas uma resistência organizada.
A ideia da neutralização
É certo que a ideia da neutralização, com uma garantia conjunta dos Estados Unidos e da URSS nos termos da qual a neutralidade alemã não poderia ser violada por aquelas potências ou por qualquer outra pode conduzir ao mesmo resultado. Mas não devemos esquecer que nessa garantia o factor russo seria muito mais importante do que o americano, dada a proximidade da URSS e o afastamento dos Estados Unidos. É, portanto, legítimo perguntar se a exclusão da Alemanha do Pacto do Atlântico o não enfraquece e se a defesa efectiva da Europa não está de antemão comprometida se for organizada no Reno em vez de ser organizada no Elba.
Tendo apenas em conta os dados militares da situação não há dúvida de que assim é.
Mas a experiência destes últimos anos demonstra que a infiltração política é mais frequente do que a invasão armada é tão perigosa quanto ela. É, portanto, em função da primeira e não da segunda que devem considerar-se as vantagens relativas das duas soluções propostas: a neutralização e a “atlantização”. De momento, julgamos impossível dizer qual delas é preferível.
Quer se trate do Pacto do Atlântico, quer de um tratado garantindo a neutralidade da Alemanha, não será possível definir, com suficiente rigor, uma fórmula que permita fechar completamente a porta a todas as tentativas de infiltração. Haverá sempre maneira para aqueles que não quiserem cumprir lealmente os seus compromissos, de as iludir ou ladear.
Esta realidade é demasiado complexa e movediça para ser condicionada.
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Todas as questões de pormenor que podem surgir na Conferência de Paris estão subordinadas á solução de um problema fundamental: a posição futura da Alemanha e o seu papel na rivalidade latente entre a Rússia e o Ocidente. A situação em Berlim, a fiscalização aliada, o regime de ocupação, a orientação da economia, tudo isso só será duradouramente resolvido se precisamente se esclarecer o fundo do debate em curso há quatro anos. E o debate consiste em saber se a Alemanha vai entrar na esfera de influência soviética, ingressar no Pacto do Atlântico ou ser neutralizada.
A escolha entre estas três soluções pode ser adiada. Mas impor-se-á mais cedo ou mais tarde. Todo o jogo diplomático a que assistimos não tem outro objectivo.
O Reich na esfera de influência russa
Se a Alemanha se comunizar, a segunda guerra mundial terminará por uma derrota esmagadora das democracias ocidentais. Para estas a situação será pior do que em Setembro de 1939. Hitler era menos perigoso do que Estaline, precisamente porque na retaguarda do primeiro estava o segundo e na retaguarda do segundo não está ninguém. Até Hong-Kong, até Singapura, não há contrapeso para o poder da URSS.
Nessa hipótese, a terceira guerra mundial será inevitável. Trata-se apenas de aguardar a data da sua eclosão.
Esta solução está, naturalmente, afastada, não em nome de um anti-comunismo obtuso e sistemático, mas por uma preocupação compreensível de salvaguardar a paz. Evitar que a Alemanha ingresse na esfera de influência soviética é um imperativo da diplomacia ocidental.
Praticamente, restam portanto, duas soluções possíveis: a neutralização ou a “atlantização” dos vencidos.
Por muito dolorosa que a segunda pareça aos olhos dos povos da Europa, sobretudo daqueles que ainda recentemente suportaram os horrores da ocupação, é inútil dissimular a sua importância, pois, ninguém certamente terá dúvidas de que vão para ela as boas graças da poderosa América.
Os perigos da “atlantização”
Não falta quem, com certo fundamento, evoque sempre que se põe o problema da “atlantização” da Alemanha, o risco de um renascimento do militarismo e do expansionismo germânicos. A assinatura do Reich ao Pacto do Atlântico implica automaticamente o seu rearmamento.
“A Alemanha no Pacto do Atlântico? Nunca!” Tal era a expressão empregada ainda não há muitos dias por uma personalidade respeitável da política francesa.
Mas, se há quem pense assim, vamos nós, que já fizemos a guerra de 1939 com a estratégia de 1914, fazer a paz de 1949 com a diplomacia de 1919?
A entrada da Alemanha na comunidade atlântica podia ser o epílogo da rivalidade franco-alemã. A ideia de guerra e de invasão entre a França e a Alemanha tornar-se-ia anacrónica. Franceses e alemães tornar-se-iam aliados amanhã, como hoje já o são franceses e ingleses.
Para os franceses esta transformação não seria mais profunda do que aquela que se registou em 1815, no Congresso de Viena. Há apenas a objectar que uma tal aliança teria que ser cuidadosamente vigiada. A Alemanha apoiada pela América tornar-se-ia rapidamente a nação preponderante na Europa.
Se a Alemanha, depois do rearmamento, quisesse um dia retirar-se do pacto, a França poderia continuar a contar com a protecção americana? O problema da “atlantização” da Alemanha deve por isso considerar-se pelo prisma das sua possíveis repercussões no equilíbrio europeu, na paz do Mundo e não pelo prisma da luta secular entre franceses e alemães, a qual pertence a uma época já ultrapassada.
O ponto de vista anti-comunista
Do ponto de vista da defesa armada da Europa contra a propagação do comunismo, a adesão da Alemanha ao sistema atlântico oferece incontestáveis garantias.
É certo que a eficácia militar do pacto é por enquanto limitada e que continuará a sê-lo enquanto a Europa não começar a receber as armas de procedência americana. Mas a inclusão permitirá precisamente encurtar esse prazo de espera, graças á contribuição que a indústria alemã pode prestar para o rearmamento dos países ocidentais.
Assim, a retirada das forças de ocupação ocidentais ficaria ligada ao restabelecimento de uma força militar alemã, pois as tropas anglo-saxónicas e francesas que estacionam naquele país passariam automaticamente a ser aliadas do exército alemão reconstituído.
A missão dessas forças não consistiria em vigiar para que a ordem fosse mantida no interior da Alemanha, mas para que a sua fronteira continuasse inviolada. Completar-se-ia assim uma evolução iniciada com o bloqueio de Berlim. A pressão russa não encontraria na sua frente o vácuo, mas uma resistência organizada.
A ideia da neutralização
É certo que a ideia da neutralização, com uma garantia conjunta dos Estados Unidos e da URSS nos termos da qual a neutralidade alemã não poderia ser violada por aquelas potências ou por qualquer outra pode conduzir ao mesmo resultado. Mas não devemos esquecer que nessa garantia o factor russo seria muito mais importante do que o americano, dada a proximidade da URSS e o afastamento dos Estados Unidos. É, portanto, legítimo perguntar se a exclusão da Alemanha do Pacto do Atlântico o não enfraquece e se a defesa efectiva da Europa não está de antemão comprometida se for organizada no Reno em vez de ser organizada no Elba.
Tendo apenas em conta os dados militares da situação não há dúvida de que assim é.
Mas a experiência destes últimos anos demonstra que a infiltração política é mais frequente do que a invasão armada é tão perigosa quanto ela. É, portanto, em função da primeira e não da segunda que devem considerar-se as vantagens relativas das duas soluções propostas: a neutralização e a “atlantização”. De momento, julgamos impossível dizer qual delas é preferível.
Quer se trate do Pacto do Atlântico, quer de um tratado garantindo a neutralidade da Alemanha, não será possível definir, com suficiente rigor, uma fórmula que permita fechar completamente a porta a todas as tentativas de infiltração. Haverá sempre maneira para aqueles que não quiserem cumprir lealmente os seus compromissos, de as iludir ou ladear.
Esta realidade é demasiado complexa e movediça para ser condicionada.
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22 maio 2024
O PRIMEIRO PRIMEIRO-MINISTRO INDIANO SEM SER DE RELIGIÃO HINDU
22 de Maio de 2004. Manmoham Singh de 71 anos toma posse como primeiro-ministro da Índia. É o 13º primeiro-ministro indiano desde a independência do país em 1947, mas é o 1º a ocupar aquele cargo que não professa a religião hindu, que é a religião de uma ampla maioria - cerca de 80% - da população indiana. A Índia já fora dirigida por uma primeira-ministra - Indira Gandhi - entre 1966 e 1977 e depois entre 1980 e 1984. Mas trata-se de uma estreia para um membro de uma minoria religiosa, no caso a minoria sique. Manmohan Singh irá ocupar o cargo durante dez anos (2004-2014). E entretanto, a Índia tem-se tornado notada por, por assim dizer, exportar primeiros-ministros para a Europa: começou por Portugal, depois foi a Irlanda, depois o Reino Unido... A ascendência indiana parece funcionar como um certificado de qualidade; é mais ou menos como os treinadores portugueses de futebol além fronteiras!
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12 maio 2024
O FIM DO BLOQUEIO DE BERLIM OCIDENTAL
12 de Maio de 1949. Depois de assinalarmos no Herdeiro de Aécio os 75 anos do estabelecimento do bloqueio de Berlim ocidental pelos soviéticos, assinalamos agora os 75 anos do fim desse bloqueio. Socorrendo-nos das contas do New York Times, o cerco («siege») a Berlim ocidental durara 328 dias. A fotografia do jornal mostra que a propaganda não estava desatenta e o cartaz que as crianças empunham - Blockadefrei - traduzir-se-á por «livre do bloqueio», mas uma boa parte da alegria demonstrada pelos pequenos berlinenses é até capaz de ser genuína e dever-se-á ao facto de não ter havido aulas como celebração do acontecimento...
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05 maio 2024
A ASSINATURA DO TRATADO DE FUNDAÇÃO DO CONSELHO DA EUROPA
Londres, 5 de Maio de 1949. Representantes de dez países europeus - Bélgica, Dinamarca, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia - assinam naquela cidade um tratado que é também o acto fundador da organização conhecida por Conselho da Europa. Como se pode ler no subtítulo da notícia do New York Times, no acto a Grécia e a Turquia foram convidados a aderir à organização. Aparecem assim associados ao acontecimento quase todos os países europeus situados fora da esfera de influência soviética. As excepções são os dois países ibéricos, um gesto de marginalização que tem um evidente significado político, tanto mais que se segue à assinatura do Tratado da Nato, realizada no mês anterior. Depois da adesão à NATO, esta proscrição é uma desfeita para o país, para o regime e para a diplomacia portuguesa. Por isso não é de estranhar o silêncio da nossa imprensa a não noticiar aquilo que acontecera em Londres. Como se comprova, a omissão não se devera à dificuldade em seleccionar os assuntos em destaque: a primeira página do Diário de Lisboa dedicava quase uma coluna inteira ao óbito aos 88 anos do dramaturgo belga Maeterlinck - quem?!...
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01 maio 2024
QUANDO A EUROPA QUE SE ATASCAVA EM TRATADOS...
(Republicação com uma nova redacção)
1 de Maio de 1999. Entrava em vigor o Tratado de Amesterdão que fora assinado 19 meses antes na cidade holandesa (fotografia acima). Substituía o Tratado de Maastricht que, entrado em vigor em 1 de Novembro de 1993, quer dizer que também durara apenas uns cinco anos e meio. Mas este Tratado de Amesterdão também estava, por sua vez, fadado a não durar muito, substituído daí por menos de quatro anos pelo Tratado de Nice, que entraria em vigor em 1 de Fevereiro de 2003... E o de Nice seria por sua vez substituído pelo Tratado de Lisboa, entrado em vigor dali por menos de seis anos, a 1 de Dezembro de 2009 - é o tal em que entra o Sócrates a dizer Porreiro, pá! Porreiro! De 1991 a 2009, durante cerca de uma dúzia e meia de anos, as opiniões públicas europeias foram brindadas com uma coreografia de tratados e acordos que lhes foram sempre apresentadas como extremamente positivas, até que a dinâmica da encenação colapsou perante uma grande crise financeira internacional. A União Europeia é uma coisa que existe, que sobreviveu à saída do Reino Unido (gesto que lhe terá até conferido, paradoxalmente, mais consistência), e que, com excepção das correntes políticas mais radicais (que nunca quiseram que existisse), ninguém parece saber muito bem o que lhe há-de fazer mais - quem mexer, arrisca-se a estragar. A verdade é que, de há quinze anos para cá, já ninguém se costuma referir de forma grandiloquente à construção europeia e a outras banalidades pseudo-visionárias que foram tão comuns ouvidas a toda uma geração de líderes europeus, muitos dos quais aparecem a fazer figuração nesta fotografia acima. Vinte e cinco anos depois, fartaram-se de assinar coisas mas não se pode dizer que tenham deixado obra - pelo menos todos aqueles tratados estão esquecidos.
25 abril 2024
25 DE ABRIL DE 1974
Reportagens de época da televisão francesa (acima) e britânica (abaixo). Mais do que os acontecimentos, servem ambas para recordar como éramos então vistos no resto da Europa.
24 abril 2024
HISTÓRIAS PROSAICAS QUE NÃO CONTRIBUIRAM PARA A ALVORADA DE ABRIL
Quarta Feira, 24 de Abril de 1974. Na véspera do 25 de Abril, numa página interior (p. 16) do Diário de Lisboa, dava-se nota de que a UEFA varrera para debaixo do tapete uma tentativa de suborno - fracassada - a um árbitro português que fora denunciada pelo jornal britânico Sunday Times. O caso, que datava já da época anterior (1973), fora protagonizado por dirigentes da Juventus num jogo da meia-final da Taça dos Campeões Europeus contra o Derby County e a descrição das medidas tomadas pelo UEFA para investigar aquilo que acontecera evidenciava o amadorismo inepto - voluntário ou não... - das autoridades do futebol europeu. Neste caso, e para variar das tradicionais insinuações sobre as arbitragens domésticas, vale a pena elogiar Francisco Lobo, porque se assistia a um árbitro português que se mostrava demasiado honesto para os padrões europeus...
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16 abril 2024
O ÚLTIMO RETOQUE NA «TEIA» DE TRATADOS DE AMIZADE E COOPERAÇÃO DO LESTE EUROPEU
Praga, 16 de Abril de 1949. Como dá conta a notícia do New York Times, Antonin Zapotocky pela Checoslováquia (à esquerda) e Istvan Dobi pela Hungria (à direita) assinavam naquela cidade um daqueles tradicionais tratados de amizade e cooperação que os países comunistas costumavam assinar entre si durante o período da Guerra Fria. Como o jornal americano fazia questão de frisar, este era o vigésimo primeiro e último tratado de uma rede de tratados do mesmo género que interligavam entre si a União Soviética e os seis países - o jornal empregava a expressão "democracias populares" entre aspas - do Leste da Europa. De fora, ficara apenas a Albânia e a Finlândia, concluía-se no jornal. Na Primavera de 1949 e ao mesmo tempo da constituição da NATO, aquele que costuma ser denominado por Bloco Leste - a esfera de influência russa até ao centro da Europa - estava tão formalmente definido quanto o seu rival ocidental. O exercício argumentativo a que os comunistas muito tempo se dedicaram a invocar depois disso, que o Pacto de Varsóvia só havia surgido seis anos depois da NATO, é apenas isso: um exercício argumentativo. Como se percebe aqui, os blocos já estavam claramente formados em 1949: a constituição do Pacto de Varsóvia em Maio de 1955 é apenas a criação de uma organização militar simétrica à NATO.
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14 abril 2024
...E SE EU JÁ TIVER LIDO O ARTIGO ORIGINAL DA «THE ECONOMIST»?
Entrando no domínio da análise dos cenários possíveis, se eu já tiver lido o artigo original da revista The Economist em que Teresa de Sousa se pendura hoje para escrever o seu no Público, então tudo aquilo que ela escreve é uma insuportável repetição de ideias alheias a que há que adicionar, ainda para chatear mais, um exercício escusado de name dropping: «Timothy Garton Ash, o historiador de Oxford que tem estudado a Europa como poucos...». Se o artigo é supérfluo, então este último requinte petulante era completamente dispensável... Para uma apreciável percentagem de leitores que se interessam a sério por estes assuntos, onde me incluo, estamos diante de um exercício gratuito de Teresa de Sousa que pediu umas ideias emprestadas para preencher uma página inteira de um jornal. Já tinham lido o original... Depois há uma outra apreciável percentagem de leitores do Público que não se interessam substancialmente por estes assuntos, aqueles para quem a visão de uma página inteira dedicada a este tema da hipotética vitória de Putin na Ucrânia não cativará a leitura. O que restará na intersecção destes dois grupos é um tipo de leitor que, um dos comentadores do artigo de Teresa de Sousa compara, com muita felicidade, com os leitores clássicos das Selecções do Reader's Digest, uma revista octogenária composta de condensações traduzidas de artigos norte-americanos de tendência conservadora (abaixo). Já teve os seus dias, agora o principio está obsoleto, porque uma maioria dos potenciais leitores consegue aceder aos artigos originais e tem capacidade de os ler. Ao ler este artigo de Teresa de Sousa, e fazendo minhas as palavras do comentador a que me referi mais acima «sinto-me como se estivesse a ler as Selecções do Reader's Digest» e eu acrescento, sinto-me a ser tratado como um leitor típico daquela revista, o que está longe de ser um elogio. Teresa de Sousa que se aplique!
Aliás, só para chatear e contraditar aquilo que a Teresa de Sousa escolheu transcrever, a mesma edição da The Economist contém um artigo de opinião de um especialista chinês (este não terá estudado a Europa como poucos, porque é chinês...), artigo esse em que a ideia prevalecente é que os problemas mais graves do conflito se colocam à Rússia, não à Ucrânia. Recorde-se que as maiores críticas à orientação ideológica das Selecções sempre estiveram no critério da sua escolha dirigida dos artigos que publicavam...
28 março 2024
É SÓ UMA QUESTÃO DE (EXPLORAR A) OPORTUNIDADE...
O que é notícia nesta notícia não é o conteúdo da dita, mas a ressonância que lhe é dada por um canal (Euronews) enfeudado à comissão europeia e a Bruxelas. Estes denominados escândalos de corrupção ocorrem com costumeira regularidade por todos os países membros da União. (Vale a pena referir entre parêntesis que aquela organização misteriosa e pouco transparente, ela própria, denominada Transparência Internacional, publicou no princípio deste ano um relatório a que deu o nome de Índice das Percepções de Corrupção 2023, abrangendo os países da União Europeia. A Hungria ficou em último lugar, mas a pouca distância da Bulgária, Roménia e Grécia. Nós não demos pelo relatório porque nele Portugal aparece a meio da tabela. Se estivéssemos no fim, tínhamos dado por isso com certeza e o Paulo Morais tinha-se fartado de aparecer na televisão...) Mas, regressando ao último escândalo de corrupção na Hungria, este merece o destaque que acima se pode apreciar especialmente por ter ocorrido na Hungria, um país europeu que é dirigido pelo pária de extrema-direita Viktor Orbán. E como Orbán é detestado por Bruxelas, tudo aquilo que o embarace politicamente é bom para propagandear. Parafraseando: para quem dirige a União «Pimenta no cu do Orbán é refresco». E, já agora e falando agora do nosso caso, se lhes dermos oportunidade à malta do Ventura que acabou de chegar, também havemos de os encontrar com as mãos sujas, não se armem eles por agora em ingénuos a falar da corrupção apenas dos outros...
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15 março 2024
ATÉ MESMO O BALDRICK TINHA UM PLANO!
15 de Março de 2019. A catorze dias da data prevista para a saída do Reino Unido da União Europeia, a primeira-ministra Theresa May conseguia fazer aceitar um adiamento pelo parlamento britânico. A desqualificação da classe política inglesa perante a opinião pública que se importava e que importava já começara há muito, desde a decisão de realizar o referendo de 23 de Junho de 2016, e continuara com a forma absolutamente atarantada como as elites políticas do partido conservador no poder (e responsável pela realização do referendo) haviam reagido ao desfecho. Parecia não haver ali ninguém com siso que fizesse a mínima ideia do que havia que fazer. E o desnorte comparava-se com uma das personagens mais estúpidas das séries britânicas de humor: Baldrick, o criado/adjunto de Blackadder. Porque até mesmo Baldrick era conhecido por ter sempre um plano (a cunning plan): estúpido, disparatado e inexecutável. Mas tinha um plano. Theresa May parecia não ter nenhum. O Brexit só veio a ter lugar a 31 de Janeiro de 2020, já o primeiro-ministro era Boris Johnson que, esse dizia ter um plano, só que era como os do Baldrick...
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14 março 2024
OS PRIMÓRDIOS DA NATO E A IMPORTÂNCIA RELATIVA DE QUEM A VIRIA A INTEGRAR
(Republicação)
14 de Março de 1949. Tendo-se os Estados Unidos decidido a criar uma Organização político-militar em parceria com os seus aliados europeus, e estando em pleno curso as negociações para a constituição daquilo que viria a ser a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte), eram notórias, porém encapotadas, as intenções da diplomacia portuguesa, expressas, de resto, nas notícias que ela soprava para os jornais da época e que só a distância histórica nos permite hoje ler com uma outra transparência.
Assim, a primeira página do Diário de Lisboa de há 75 anos dava destaque em primeira página ao facto da «Islândia não aceitar que fossem instaladas bases militares no seu território». Na última página, mencionava-se que «a adesão da Dinamarca ao Pacto do Atlântico estava a ser negociada». A edição do dia seguinte referia-se, com igual destaque, a que «a melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Espanha depende da medida em que Franco tornar mais liberal o seu regime.» De uma penada, varriam-se os outros países com presença insular a meio do Atlântico Norte.
As preocupações e intenções portuguesas percebiam-se nitidamente na passagem sublinhada: «Na hipótese da Dinamarca e Islândia aderirem ao Pacto do Atlântico, o único país fora desse Pacto com ilhas importantes no Atlântico será Portugal que possui o arquipélago dos Açores. Não são ainda conhecidas as intenções do governo de Portugal, embora em Washington conste não haver informações substanciais de que Portugal não deseje, eventualmente, alinhar com as outras potências ocidentais.» Lido assim, até parece que Portugal estava a fazer um favorzinho aos outros...
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07 março 2024
É COM EXEMPLOS CONCRETOS COMO ESTE QUE SE PERCEBE A «CONFIANÇA» QUE PODEMOS DEPOSITAR NOS CONTEÚDOS DO GOOGLE NOTÍCIAS PARA ESTARMOS INFORMADOS
No princípio desta tarde, a imprensa britânica começou a dar conta da intenção do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán jogar por fora em relação aos seus parceiros da União Europeia, prestando-se a ir fazer uma visita ao candidato Donald Trump. É interessante, sem ser surpreendente: não se costuma comentar tais encontros com plebeismos, mas apetece antecipar que será um encontro de chibos cheios de chibança. A esse respeito, só espero que os húngaros não esperem que gostemos deles por eles gostarem daquela personagem... que eles elegem. Mas não é nada disso que interessa agora. O que eu quero é mostrar aquilo que obtive como resultado da pesquisa que efectuei quatro horas depois da notícia acima, ao consultar o nome de Viktor Orbán no Google Notícias em português. É isto que se pode apreciar abaixo: uma notícia de uma referência que Rui Tavares fez ao húngaro vai para quatro dias; uma outra, de hoje, mas de um outro Orbán (que não faço a mínima ideia quem seja...) que levou um empurrão num jogo de futebol. E é (era) isto... O Google Notícias parece não encontrar mais nada com o nome Orbán escrito pela imprensa em português. E depois deparamo-nos nos jornais portugueses com colunistas às mãos-cheias, lamentando-se que «a política externa (...) não aparece na campanha eleitoral» ou que «os nossos políticos (...) não sabem o que é a política externa». Este é um exemplo muito concreto que, quanto a política externa, os jornais que publicam tais lamentos são tão negligentes quanto os políticos que os seus colunistas criticam.
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28 janeiro 2024
A VAGA DE FRIO QUE ASSOLAVA A EUROPA NO INVERNO DE 1954
Notícias vindas de variadíssimas capitais europeias (Paris, Londres, Madrid, Bona, Atenas e Ancara) davam conta do rigor do Inverno que assolava a Europa.
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05 novembro 2023
OS PRIMÓRDIOS DA TELEVISÃO POR CABO
Sábado, 5 de Novembro de 1983. O artigo acima dá ao leitor uma antevisão daquilo que poderão ser as capacidades da televisão se as transmissões começarem a ser distribuídas por cabo. De uma escolha entre dois (Portugal e Espanha), três (França) ou quatro canais (Reino Unido), as opções do espectador poder-se-ão vir a multiplicar no futuro - embora, para isso, fosse preciso dominar outros idiomas que não o seu. Esses problemas diluíam-se em países que compartilhavam os seus idiomas nacionais com os países da vizinhança, caso da Bélgica, que seria, não por acaso, o país europeu onde a televisão por cabo estaria mais avançada. Um espectador belga teria acesso a uns impressionantes - para a época - 16 canais de televisão (belgas, holandeses, franceses, britânicos e alemães). O que a notícia não explorava era uma das consequências dessa maior liberdade do espectador: até aí, na Europa, a televisão estivera sempre sobre controle estatal, os governos nacionais possuíam o (quase) monopólio daquilo que era transmitido aos seus cidadãos (a excepção eram as zonas fronteiriças). Com a adopção da TV por cabo, tornava-se óbvio que esse (quase) monopólio se perderia. Nem de propósito e para além do caso belga e também do da Alemanha Ocidental, os outros dois exemplos referidos - a Finlândia e a Áustria - eram países que, embora Democracias a sério, se situavam a cavalo da Cortina de Ferro que então dividia a Europa. Mas, sobre o futuro da TV por cabo em países que se situavam para lá dessa Cortina, por muito que as simpatias do Diário de Lisboa pendessem para aquele outro lado, nem uma palavra...
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03 setembro 2023
O PLANO MARSHALL
Se, numa perspectiva histórica, o Plano Marshall é hoje considerado um dos maiores sucessos da política externa norte-americana do após guerra, quem lesse esta notícia de 3 de Setembro de 1948 concluiria que a sua implementação se afigurava muito difícil, pela dificuldade dos países europeus chegarem a acordo quanto à repartição das verbas. É a diferença entre a perspectiva do momento (acima) e a perspectiva distanciada (abaixo). Nos dias que correm opina-se quase exclusivamente com base na perspectiva do momento.
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19 julho 2023
O DESERTOR
Um qualquer canal de televisão norte-americano (acima, escolhemos o exemplo da NBC) consegue dedicar alguns minutos (neste exemplo, quase 4 minutos e meio) a noticiar o caso de um soldado norte-americano que se encontra detido (note-se a subtileza da expressão...) na Coreia do Norte, sem que, em algum momento da minuciosa exposição do que aconteceu, se procure adiantar uma explicação para ao que aconteceu ou se coloque a hipótese de que o soldado em causa tenha desertado voluntariamente. Noutras estações o caso é ainda mais dissecado, como acontece na CNN, envolvendo quatro especialistas(!) que, ao longo de dez minutos e meio(!), onde conseguem ter ainda mais tempo para (não) fazer precisamente o mesmo - (não) adiantar alguma explicação para o gesto do soldado americano. Compreende-se: na narrativa mediática nos Estados Unidos ninguém foge para a Coreia do Norte; é sempre ao contrário. Em contraste, a cadeia Euronews europeia (abaixo) explica num singelo minuto o que aconteceu, embora se note o cuidado em evitar tratar o soldado por aquilo que ele é: um desertor.
Adenda: A ficção continua. A administração americana pretende agora que «é provável» que o desertor «não esteja a pensar claramente». É irónico que era isto mesmo que as autoridades soviéticas diziam, há 30 anos, quando isso acontecia com os desertores deles. Os americanos devem pensar que, como a Guerra Fria acabou há mais de 30 anos, já podem ser eles a recuperar uma explicação que era já então tão ridicularizada... Outra Adenda: e foi preciso mesmo procurar muito, até se conseguir encontrar na revista The Economist (que, por sinal, é britânica...), a expressão tabu que as autoridades e toda a comunicação social americana se recusam terminantemente a empregar para descrever o que aconteceu: deserção, desertor.
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25 junho 2023
O COMEÇO DO BLOQUEIO DE BERLIM OCIDENTAL
(Republicação)
Há 75 anos, o bloqueio de Berlim ocidental não se consumou de um dia para o outro. A partir de 18 de Junho de 1948, data em que as restantes potências ocidentais (Estados Unidos, França e Reino Unido) anunciaram a introdução de uma nova moeda, o Deutsche Mark, nas suas respectivas regiões de ocupação, os soviéticos retaliaram colocando progressivas dificuldades ao tráfego rodoviário, ferroviário e fluvial entre Berlim ocidental e as regiões administradas pelos Aliados ocidentais. Até que em 24 de Junho, escassos dias depois, todo o tráfego foi parado. E a 25 de Junho, cumprem-se hoje precisamente 75 anos, os russos chegaram ao limite de cortar o fornecimento de víveres aos sectores ocidentais de Berlim, como noticiava acima o Diário de Lisboa desse dia, numa página do interior. Será o dia em que, considerada a gravidade da situação (havia reservas alimentares em Berlim para 36 dias), as potências ocidentais colocaram pela primeira vez a hipótese de reabastecer a cidade pelo ar. Se a situação internacional parecia quente, pelo destaque que era conferido à situação na Alemanha naquele jornal, o leitor português não o compreenderia. Este é apenas mais um dos milhares de exemplos em que o jornalismo passou ao lado da História. Em contraste, verdadeiramente quentes apresentavam-se as temperaturas na capital, com a crónica do lado a falar de uma «cidade de mármore» a passar por uns «37, 6º graus à sombra». Eram ondas de calor que já aconteciam mesmo antes do clima estar todo alterado...
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07 junho 2023
«CHARME» SOVIÉTICO
7 de Junho de 1983. Num banquete de gala oferecido no dia anterior em Moscovo ao presidente da Finlândia, o secretário-geral do PCUS, Yuri Andropov, fizera um discurso anunciando que o seu país se dispunha a retaliar contra aqueles países da Europa que se dispusessem a acolher no seu território misseis de cruzeiro norte-americanos e Pershing II. A NATO anunciara que esses mísseis seriam destinados a fazer a sombra dos mísseis SS-20 que a União Soviética estava a instalar do seu lado da Cortina de Ferro. O desagrado de Moscovo de há muito já se manifestara pelos canais diplomáticos tradicionais, mas este recado fora criteriosamente preparado para as opiniões públicas ocidentais. A este crescendo de tensão entre blocos, depois do degelo dos anos 70, dá-se o nome de «Crise dos Euromísseis». Todavia, o que é importante nesta evocação é recordar este modo agressivo, mesmo intimidatório, como os russos se dirigiam publicamente aos países da Europa ocidental que haviam decidido acolher aqueles sistemas: Grã-Bretanha, Alemanha Ocidental, Itália, Países Baixos e Bélgica. Era um meio de combate em que os países comunistas tiravam vantagem, já que a "opinião pública" a Leste só sabia (oficialmente) aquilo que a comunicação social controlada era autorizada a publicar. A Guerra-Fria terminou há mais de 30 anos, mas estas circunstâncias e estes episódios deixam o seu rasto: quando Vladimir Putin se comporta internacionalmente de maneira reminiscente à dos seus antecessores soviéticos, as simpatias dos países da Europa vão instintivamente para quem estiver do outro lado.
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