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25 dezembro 2017

RELEMBRAR PARA QUE SERVEM AS MAIORIAS QUALIFICADAS

O presidente peruano Pedro Pablo Kuczynski acabou de sobreviver a uma moção promovendo a sua destituição. A acusação é de corrupção e a votação foi cerrada: houve mais de metade (79) dos 130 congressistas a votarem favoravelmente a destituição. Porém, apesar da fragilidade como o presidente peruano sai da situação (a maioria do Congresso votou contra si), a moção não chegou a atingir a maioria de ⅔ (87 congressistas) para produzir efeito. É nestas ocasiões que vale a pena recordar, já que o Brasil está nesta jogada e por muito desagradável que seja o gesto, que Dilma Rousseff possuía também essa salvaguarda de se necessitar de uma maioria qualificada de ⅔ para a sua destituição em qualquer das duas câmaras: a Câmara de Deputados e o Senado. Foi uma esmagadora maioria de parlamentares votou a destituição de Dilma Rousseff. O resto, e porque o tempo reduz tudo às suas devidas proporções, foi tudo propaganda.

11 abril 2016

FUJIMORI E KUZCYNSKI

Ainda bem que o título da notícia é esclarecedor a esse respeito porque, se nos orientássemos apenas pela origem dos apelidos, estas eleições presidenciais envolvendo alguém de ascendência nipónica e alguém de ascendência polaca poderiam ter tido lugar em qualquer país do Novo Mundo onde se tivesse registado uma forte imigração no passado. Paradoxalmente, e quando comparado com destinos como a Argentina, a Venezuela ou o Chile, o Peru nem se destaca entre os países da América hispânica como destino de imigração. Nesse campo do exotismo, nós também temos os nossos pergaminhos, mas não propriamente por causa dos apelidos, é preciso ver a fotografia do nosso primeiro-ministro...

29 março 2015

A PERSISTÊNCIA DA FURTIVIDADE DA OPERAÇÃO «URSO FURTIVO»

Os utilizadores da Wikipedia sabem quanto a versão dela em inglês é muito mais desenvolvida que as outras versões noutros idiomas (englobando 4,8 milhões de artigos versus quase 2,0 da edição sueca, surpreendentemente a que se situa em segundo lugar). Por isso, é algo rara a existência de artigos na Wikipedia de que não exista uma versão em inglês. Mais raro ainda é que isso aconteça quando o artigo em causa envolve anglófonos – no caso, norte-americanos. Pois bem, é isso mesmo que se passa com o incidente decorrido há mais de vinte anos no Peru, a propósito de uma operação que os norte-americanos terão baptizado na altura por Furtive Bear (Urso Furtivo) e passados todos estes anos permanece semi-furtiva, já que a narrativa dos acontecimentos apenas está disponível na Wikipedia em espanhol (acima) com a visão da perspectiva peruana do incidente.
Reproduzindo em parte o que mais acima consta do artigo da Wikipedia, em 24 de Abril de 1992, um avião C-130 (acima), que depois veio a ser identificado como norte-americano com uma tripulação de 13/14 militares a bordo, foi localizado pelos controladores aéreos peruanos a sobrevoar uma região de plantações de coca situado nos vales do Alto Huallaga. Instado a identificar-se o avião não apenas não reagiu como assumiu uma trajectória evasiva. As suspeitas peruanas de que se tratasse de um avião de traficantes combinaram-se com um período de relações políticas bastante tensas entre os Estados Unidos e o Peru. Não havendo qualquer solicitação formal dos primeiros para a realização de qualquer operação em território peruano, as autoridades peruanas sentiram-se à vontade para que a sua Força Aérea fizesse descolar dois Sukhois Su-22 de concepção soviética (abaixo) para interceptarem o avião que sobrevoava clandestinamente o seu espaço aéreo. Entretanto este, obedecendo às ordens da base de origem situada no Panamá, dirigira-se para o mar afastando-se o mais possível da costa peruana antes de inflectir para Norte, regressando à base. A intenção era afastar-se o mais rapidamente possível das suas águas territoriais, fora da jurisdição peruana. Fazia-o há poucos minutos, numa rota já afastada 60 milhas da costa, quando os dois Su-22 alcançaram o C-130. Aqueles fizeram-lhe o sinal internacional para os seguir e do Panamá veio a ordem ao piloto para os ignorar, uma daquelas corajosas decisões que se tomam muito mais à vontade da solidez das instalações de uma torre de controlo do que dentro de um avião: os Sukhois alvejaram o C-130. Os tiros furaram a fuselagem do aparelho, causando uma descompressão interna que sugou para o exterior um dos tripulantes. Além desse morto, outros seis membros da tripulação ficaram feridos nos repetidos ataques dos Sukhoi. Foi em muito mau estado, com um dos motores em chamas, em situação de emergência que o C-130 aterrou numa pequena base aérea militar do Norte do Peru. Aí os peruanos descobriram que se tratava de um avião transportando vários dispositivos de espionagem.
O resto do incidente foi um jogo caricato praticado pelas diplomacias dos dois lados, carregado de apontamentos de hipocrisia. Os peruanos alegaram o C-130 estava mal identificado e que o haviam considerado como um avião a realizar tráfico de cocaína. Os norte-americanos, por sua vez, notaram que o C-130 é um avião militar, improvável de ser usado por narcotraficantes. Os peruanos perguntaram, pelo seu lado, o que é que o avião andava a fazer no espaço aéreo peruano e porque não haviam sido notificados da sua missão. A isso os norte-americanos não respondiam mas sugeriam que as próprias chefias militares da Força Aérea peruana estariam corrompidas. Os pilotos peruanos foram condecorados, os norte-americanos indignaram-se e instaram o Peru a indemnizar a família do sargento Joseph Beard, Jr., que morrera. Como contrapartida (ou retaliação...), os peruanos apresentaram-lhes a factura dos custos de intercepção (US$ 20 mil) e não autorizaram a partida da aeronave sinistrada sem que aquela fosse liquidada. A lista das provocações é mais extensa mas, quase 23 anos depois, a Wikipedia parece apontar que os norte-americanos terão mais razão para se envergonhar do incidente do que os peruanos.

27 março 2015

...ESTE FICOU COM O NÚMERO 1509

A prática de destacar o número prisional de um detido para realçar a sua submissão forçada perante a lei é prática antiga e bastante difundida. O senhor da fotografia acima foi colocado decerto num estabelecimento prisional bastante maior que o de Évora, para ter recebido um número assim tão elevado. Chama-se Abimael Guzman (1934-...), é peruano e havia sido, até há alguns dias antes de a fotografia ter sido tirada, o líder incontestado de um movimento guerrilheiro de inspiração maoista designado por Sendero Luminoso (Caminho Luminoso). A personalidade de Guzman, muito cultivada como costuma acontecer em qualquer organização genuinamente maoista e que se fazia tratar deferentemente por presidente Gonzalo, pode ser comparada pela ambição, pela brutalidade e pela discricionariedade de como exercia o poder ao angolano Jonas Savimbi da UNITA, mas também pela arrogância e pelo estardalhaço da sua retórica aos nossos estimados camaradas Arnaldo Matos e Garcia Pereira do nosso MRPP. O problema é que, para lá da retórica, os membros do Sendero Luminoso comportavam-se para com as populações das regiões que pretendia libertar de uma forma tão ou mais repressiva do que os agentes do governo peruano que combatia. A popularidade do presidente Gonzalo não seria particularmente elevada entre os peruanos quando, em 12 de Setembro de 1992, ele foi capturado escondido num apartamento de um bairro de classe alta dos arredores de Lima. E a fotografia acima, encenada pouco mais de uma semana depois numa conferência de imprensa, destinava-se a diminuir ainda mais essa popularidade, exibindo um presidente num fato riscado de presidiário, atrás de grades, gordo, de óculos e barba e sofrendo de psoríase, uma doença de pele que contribuíra para a sua captura (tubos de pomada vazios encontrados no caixote do lixo aumentaram as suspeitas dos vigilantes de que Guzman – que se sabia sofrer dessa doença – ali se escondia). A raiva do detido não consegue camuflar a humilhação pública de quem fora, até aí, incensado pelos seus seguidores como a Quarta Espada do Marxismo...
Passados mais de 22 anos após a sua captura, Abimael Guzman continua preso. Os anos de prisão tê-lo-ão feito perder alguma raiva, perder toda a barba e perder bastante peso. Agora, ao regressar a tribunal para novos julgamentos por outros crimes pelos quais foi considerado responsável, parece um velhote simpático (a fotografia abaixo é de 2013), algo alheado do que o rodeia, que, como aconteceu com Adolf Eichmann, nos suscita a pergunta se ele teria sido mesmo capaz de ser responsável por tudo aquilo de que é acusado. Segundo os melhores cálculos, a insurreição no Peru terá custado a vida a um total de 70.000 pessoas (entre mortos e desaparecidos); segundo outros cálculos, esses mais contestados pelo governo, pela igreja e pelos militares, atribui-se a responsabilidade de ½ das vítimas à guerrilha e de ⅓ ao governo.

26 agosto 2009

A GUERRA HISPANO-SUL-AMERICANA (1864-1866)

Se os interesses coloniais portugueses na América Latina se podem dar por concluídos em Julho de 1823, data da rendição do destacamento do exército português que estava estacionado na Baía comandado pelo Brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, a história colonial espanhola na América ainda perduraria por mais 75 anos. Mas, mais do que isso, se os portugueses não se imiscuíram de forma significativa nas convulsões internas de carácter separatista que ocorreram na sua antiga colónia do Brasil ao longo do Século XIX, registe-se que o comportamento dos espanhóis foi muito diferente.

A época em que esse envolvimento da Espanha se tornou mais evidente foi a década de 1860, não por acaso o período que coincide com a eclosão da Guerra Civil nos Estados Unidos (1861-65), e o período também aproveitado por outras potências europeias para tentar regressar à América, como foi o caso da aventura mexicana da França de Napoleão III, episódio já por mim tratado num poste anterior. A Espanha, embora se tivesse associado à França na questão mexicana, também desenvolveu iniciativas próprias, uma das quais a levou à Guerra Hispano- Sul-Americana (1864-66).
Em 1862 a Espanha, que entretanto havia recuperado após 41 anos, a colónia de Santo Domingo (a actual República Dominicana*), enviou uma expedição científica à América do Sul. Era constituída pelos mais modernos navios da armada espanhola (acima), a expedição era uma evidente exibição de força em águas que outrora havia dominado, a que não faltava o requinte de cortesia do facto do comandante deliberadamente escolhido para a expedição ser o Almirante Luis Hernández-Pinzón y Álvarez de Vides, que era um descendente directo de um dos célebres companheiros das viagens de Cristóvão Colombo...

Não se sabe quais as instruções que o Almirante recebera para a sua expedição mas, se é provável que não fosse à procura de sarilhos, também é provável que, considerados os acontecimentos subsequentes, também não fosse obrigado a agir com o maior tacto e diplomacia caso eles surgissem. As razões que levaram os expedicionários a assumir uma posição de força permanecem ainda hoje um pouco confusas. De qualquer modo, a reacção espanhola pareceu desproporcionada, ao ocuparem as ilhas Chincha (abaixo) que, por causa do guano, eram uma das principais fontes de receitas do Peru na época.
A manobra diplomática espanhola foi um verdadeiro fiasco e, em vez de obter os aliados locais de que necessitaria para a apoiar no conflito com o Peru, a arrogância da conduta do almirante espanhol acabou por conseguir o milagre da formação de uma aliança de antigas colónias espanholas (Peru, Chile, Equador e Bolívia) que, apesar de Repúblicas rivais**, viram com receio os (improváveis) projectos imperiais espanhóis nas costas sul-americanas do Pacífico. Houve alguns combates entre a armada espanhola e a aliada, formada pelas marinhas chilena e peruana, mas nenhum deles se revelou decisivo.

Contudo, a situação estratégica era insustentável para a armada espanhola. Por um lado, com a hostilidade do Chile, as suas ligações com a metrópole espanhola através do Sul da América, apesar de possíveis, haviam-se tornado muito mais complicadas. Por outro, as sanções infligidas ao comércio externo do Chile e do Peru passaram a interferir seriamente com os interesses económicos das outras grandes potências marítimas, a começar pelo Reino Unido e a acabar nos Estados Unidos que entretanto já haviam saído da sua Guerra Civil. Foi uma demonstração de força da Espanha que acabou pateticamente mal…
* A República Dominicana voltou a ser uma colónia espanhola entre Março de 1861 e Março de 1865.
** Dali por 15 anos (1879-84), Chile, Peru e Bolívia envolver-se-iam entre si numa nova Guerra.

12 junho 2006

IN ILLO TEMPORE*

Já houve um tempo em que os alinhamentos internos na América Latina se faziam entre os países com governos mais pró-americanos e os outros, que os tinham menos pró-americanos. De fora ficavam os jokers, apontados a dedo, como a eterna Cuba e episodicamente países como a República Dominicana, o Chile ou a Nicarágua, fazendo o papel igual ao dos miúdos que, de castigo e costas voltadas para a parede, mostravam ao resto da turma o que acontecia aos mal comportados.

Com estas novas técnicas educativas mais permissivas e, sobretudo, com uma equipa dirigente nos Estados Unidos que é candidata séria ao título de mais desastrada desde a fundação do país, vê-se neste episódio de Alan Garcia, o recém-eleito presidente do Peru, que vai fazer uma visita ao Brasil de Lula da Silva ainda antes de tomar posse, que os alinhamentos de hoje naquela região se fazem entre os países menos anti-americanos e os que se mostram mais anti-americanos.

* Naquele tempo (Loc. Latina)