30 janeiro 2019

O «ROOFTOP CONCERT» DOS BEATLES


30 de Janeiro de 1969. Data da última actuação pública dos Beatles que, ainda por cima, teve lugar no terraço do edifício do nº3 de Savile Row em Londres, onde estava sedeada a Apple, a editora discográfica dos músicos da banda. A actuação durou uns três quartos de hora até a polícia ter aparecido - saudada pelo hit Get Back (abaixo) - a pedir que baixassem o volume de som. Por essa altura, já substancial parte de toda a vizinhança se tornara espectador da actuação. Hoje o evento é recordado como o rooftop concert dos Beatles.

29 janeiro 2019

S(TARB)UCKS

Em honestidade, começo por confessar que não aprecio o conceito do franchise Starbucks. Não terei entrado muito mais do que umas três vezes nas suas lojas. É um estrangeirismo que não acrescentou valor aos espaços de lazer que já possuíamos naquele mesmo género. Mas o que possa pensar sobre as especificidades da actividade são irrelevantes para o que quero deixar expresso da protocandidatura deste senhor Howard Schultz. Como se assinala no título, também eu não gosto, embora creia que o faça por razões diferentes das dos democratas e de Donald Trump. É que me parece que a protocandidatura assentará no pressuposto que se poderá substituir a disfuncionalidade de Donald Trump por um outro multimilionário, mais qualificado, mais cultivado, com um ego mais suportável e com os pés mais assentes na terra que o actual inquilino da Casa Branca. Ora essa ideia que os Estados Unidos podem ser governados como se se tratasse de uma gigantesca corporação - a U.S.A. Inc.- constitui um daqueles mitos que, de quando em vez, reaparece à superfície - a última vez precisamente em 2016. Ressurgência que está a ser flagrantemente desmentida pela evidência dos factos: o Congresso dos Estados Unidos não é uma daquelas complacentes assembleias de accionistas que aprovam de mão beijada tudo o que o CEO quer e com que esta gente (Trump, mas também Schultz) está habituada a lidar. Penitenciando-me porque o trocadilho é primário e, ainda por cima, está em inglês, esta candidatura do ex-patrão da Starbucks just sucks.

«I DON'T LIKE MONDAYS»

29 de Janeiro de 1979. Segunda Feira. Brenda Ann Spencer de 16 anos, pegou na espingarda que recebera pelo Natal começou a disparar de sua casa para o recreio da escola primária que ficava do outro lado da rua. Matou dois adultos, feriu oito crianças e ainda um polícia que acorrera ao incidente. Teria sido mais um episódio do género nos Estados Unidos, rapidamente suplantado na atenção mediática por outro igualmente horroroso, não fora a celebridade da resposta que deu a um repórter que a conseguiu contactar por telefone enquanto se encontrava barricada em casa: quando questionada porque estava a agir daquela maneira respondeu que «Não gostava de Segundas -Feiras. E que o que estava a fazer animava o dia.» Se a violência e a associablidade alguma vez puderem ser qualificadas de cândidas, esta seria uma grande ocasião para o fazer. Apesar da ser menor, Brenda Spencer veio a ser julgada como adulta e condenada a uma pena entre os 25 anos de prisão e a perpetuidade. Quarenta anos depois ela continua a cumprir a pena, mas quem terá ganho a maior notoriedade com tudo aquilo que aconteceu terá sido a banda irlandesa Boomtown Rats que lançou naquele mesmo ano a música I Don't Like Mondays, que alcançou o top de vendas. Considerado o sucesso que alcanço, na época e ainda hoje, haverá quem (re)conheça a melodia sem conhecer, para além do refrão da música, os detalhes sinistros da história que está por detrás.

28 janeiro 2019

PORQUE É QUE OS ESCÂNDALOS NA ALEMANHA SÃO MENOS ESCANDALOSOS QUE NO RESTO DO MUNDO?

Berlim tem um aeroporto novo, (quase) pronto a estrear, que anda há mais de meia dúzia de anos à espera para ser utilizado. Ao contrário do da Portela, que só foi baptizado depois de usado até à exaustão, este novo de Berlim até já foi baptizado antes de ter préstimo, e com o nome apropriado de Willy Brandt. Desde a unificação (que já ocorreu há 28 anos!), que se percebeu a necessidade de concentrar os vários (três!) aeroportos que serviam uma cidade dividida: Berlim Ocidental era servida pelos de Tegel e Tempelhoff (este entretanto foi encerrado em 2008) e Berlim Oriental usava o de Schönefeld. Junto a este último decidiu-se construir um novo aeroporto, muito maior, que substituísse os dois primeiros, que já não tinham possibilidades de expansão porque localizados dentro da cidade (onde é que já se ouviu isto?). As obras para a construção do novo aeroporto iniciaram-se em Setembro de 2006 e... ainda não acabaram. A última data prevista para a inauguração, depois de dezenas delas terem sido anunciadas, é Outubro de 2020 - o que corresponde a um atraso de nove anos em relação às previsões iniciais! É daquelas coisas que não se explicam mas, quem me estiver a ler e se quiser entreter, tente fazê-lo nas páginas da wikipedia ou em outras publicações. Mas aquilo que considero mais peculiar em todo o assunto não tem nada a ver com a engenharia, mas com a cultura: não se consegue traduzir a expressão obras de Santa Engrácia para alemão. Nesta coisa de aeroportos, podemos ter problemas como o português, de ir protelando a implementação de uma solução aeroportuária para a cidade de Lisboa; podemos ter problemas como o espanhol do aeroporto de Ciudad Real, uma solução complementar desnecessária para a cidade de Madrid (o verdadeiro mamarracho); mas não parece haver problemas com a solução que há anos se aguarda para Berlim: se não forem devidamente explorados pelos actores políticos e, através deles, pela comunicação social, os escândalos e as malversações de dinheiro público deixam de existir na consciência da esmagadora maioria das pessoas.

27 janeiro 2019

DUAS NOTÍCIAS DIALÉCTICAS DE HÁ SESSENTA ANOS

27 de Janeiro de 1959. Emparelhadas na última página do jornal, duas notícias importantes para os comunistas de todo o mundo, unidos:
a) Ocorrera a inauguração, em Moscovo, do 21º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Expressamente ao contrário do que acontecera durante o congresso precedente, ainda hoje reputado pelo secretismo do discurso de Khrushchev onde fizera a denúncia dos excessos do estalinismo. Este congresso, que consagrava a consolidação no poder do secretário-geral, era uma exuberância de cobertura noticiosa quando em comparação (abaixo). Mais, quando se percebia que desta vez o discurso de abertura do mesmo Khrushchev durara sete(!) horas, assaltar-nos-ia a dúvida se não seria merecido conservar todos os discursos dele em segredo...

b) Ficava-se a saber que, em Cuba, Fidel Castro estabelecera uma ordem de sucessão revolucionária e que designara o seu irmão Raúl para lhe suceder no caso de lhe acontecer um «acidente». Apesar do dramatismo da decisão, e de hoje se saber que algumas ameaças eram sérias num país onde o preço das vidas era muito barato (vejam-se as notícias dos fuzilamentos), o «acidente» só viria a ocorrer 45 anos depois e quis a ironia da história que não passasse de um trôpego tropeço no degrau de um palco (que fracturou o joelho do velho revolucionário), ocorrido diante das câmaras de televisão. Raúl Castro só veio a tornar-se presidente de Cuba, sucedendo ao irmão, de 2008 a 2018.

26 janeiro 2019

...DEPOIS DO «SHUTDOWN» NA AMÉRICA


Quem não tenha inglês suficiente para acompanhar a entrevista acima que me desculpe, mas eu não podia deixar de a publicar. Foi transmitida hoje na CNN e serve para mostrar de que é composta a sociedade americana. Que é diversíssima e que nós aqui da Europa não compreendemos de todo. Não sei quantos mais existirão, que percentagem representarão estes funcionários públicos americanos que, apesar de terem sido licenciados e por isso terem passado um mês sem receber, continuam inabaláveis no seu apoio ao presidente Donald Trump e nos seus propósitos. Esquecemo-nos de quantas decisões cruciais foram tomadas derrotando democraticamente minorias muito significativas do outro lado: quantos ainda se lembram que um escroque como Vale e Azevedo foi removido da presidência do benfica recebendo ainda 38% dos votos?... Ora isso são números bastante próximos daqueles que as sondagens vão dando a Donald Trump.

25 janeiro 2019

AINDA SE LEMBRA COMO ERA IMPORTANTE A GRÉCIA DE HÁ QUATRO ANOS?


25 de Janeiro de 2015. Realizam-se eleições legislativas na Grécia em que, pela primeira vez, o Syriza, além de as ter vencido, quase alcançou a maioria absoluta da representação parlamentar (149 em 300 lugares), vindo posteriormente a formar governo em coligação com uma formação política nacionalista de direita. Mas a data precisa das eleições é apenas pretexto para evocar e relembrar o que aconteceu nas semanas que se seguiram entre certos círculos político-informativos portugueses, que desencadearam uma ferocíssima barragem opinativa sobre o que acabara de acontecer no outro canto da Europa. A razão de tal afã é hoje perfeitamente evidente: combater o efeito de contágio, nem que para isso, e por algum tempo e de uma forma que a distância temporal tornou ridícula, quisessem tornar a Grécia um dos países europeus mais importantes do panorama noticioso nacional. Hoje, que já se conhecem os desenvolvimentos da história (além do Syriza ter tornado a vencer outras eleições em Setembro seguinte, foi encerrado o procedimento por défice excessivo, a economia do país está a gerar excedentes primários - e tudo isso sob a égide do Syriza!), é de toda a justiça evocar quem então se prestou a emitir tais opiniões... para sobretudo compreender a quantos deles lhes assaltou, a respeito do tema, aquele sentimento - sempre nobre - da contrição. É que entre as figuras abaixo está Paulo Almeida Sande, que Pedro Santana Lopes escolheu para cabeça de lista do seu partido às próximas europeias. É para nós não nos esquecermos, apesar de só se terem passado quatro anos...
Como nota de rodapé e ainda a respeito da Grécia de há quatro anos, gostaria de relembrar que, se a cobertura do enviado especial da RTP a essas eleições (José Rodrigues dos Santos) se tornou famosa e caricata pelo seu facciosismo, e por isso escolhi uma das suas intervenções para encabeçar este poste, a da SIC (de que não se fala), não lhe fica atrás em incompetência. Logo no primeiro minuto da reportagem abaixo o enviado especial Pedro Cruz consegue enganar-se consecutivamente dizendo que em Portugal há 260 deputados (não: são 230) e que na Grécia são 500 deputados (não: são 300). A partir daí, Pedro Cruz entusiasma-se com uma diatribe baseada no facto do «parlamento grego ter perto do dobro do número de deputados em Portugal» (0:50s). Por acaso, é mentira. Olhem se isto fosse discutido como o são os erros de arbitragem ou como se no Bloco de Esquerda se tivesse verdadeiro interesse em denunciar as incompetências dos repórteres de televisão...

24 janeiro 2019

ESTADO DE EMERGÊNCIA EM ESPANHA

24 de Janeiro de 1969. Francisco Franco decretava o estado de emergência em Espanha. Depois do que acontecera em França em Maio de 1968, os países europeus, e por maioria de razão, as ditaduras, não se arriscavam a que a contestação dos estudantes universitários transbordasse para níveis que se tornassem incontroláveis. Há cinquenta anos, o ministro da Informação, Manuel Fraga Iribarne, anunciava um conjunto de medidas repressivas que o Diário de Lisboa do dia seguinte detalhava numa página interior (abaixo). Ali, um subtil, mas que não cremos casual, critério de paginação, anexava á notícia de primeira página uma outra da condenação de cinco nacionalistas bascos, numa sugestão que os problemas em Espanha eram mais complexos do que apenas a agitação estudantil em Madrid. Um pouco mais acima, lia-se que a situação em Paris ainda não fora totalmente pacificada. E, do outro lado da página, percebia-se que as cautelas não se cingiam apenas a este lado da Cortina de Ferro: do lado de lá, entre outras ditaduras, e por causa de um protesto, da (hoje famosa) imolação de um estudante checoslovaco (Jan Palach) que ocorrera alguns dias antes, as forças «da ordem» haviam entrado «em estado de alerta».

23 janeiro 2019

OS POTENCIAIS DOADORES DE MERDA

A imagem acima do abstract do artigo acabadíssimo de publicar (21 de Janeiro) destina-se a certificar o leitor quanto o assunto sobre o qual aqui se discorre é cientificamente sério. O que eu consegui perceber da leitura é que, se todos nos cagamos, há quem o produza com mais atributos objectivos que outros. Há uns eleitos que, descobriu-se agora, conseguem produzir laradas de reputada qualidade terapêutica para o tratamento de doenças inflamatórias intestinais e de diabetes tipo 2. O tratamento por transplante fecal já é conhecido de há muito, mas este novo estudo, realizado na Universidade de Auckland na Nova Zelândia, terá vindo revelar que existem super-doadores, aquilo que, à falta de melhor e ainda que o façamos provisoriamente, poderemos designar por cus vintages. É tudo uma questão de microbiologia. A ser verdade, por alteração dos pressupostos, antecipo um futuro menos risonho àquele sábio provérbio popular que estabelecia que «...se merda valesse dinheiro, os pobres não tinham cu...»

O FUTEBOL NÃO É PARA QUEM TENHA MEMÓRIA E VERGONHA

Há sete anos, e no seguimento de uma outra derrota diante do futebol clube do porto, o presidente do benfica «desafiava» o árbitro do jogo a deixar de «apitar jogos do benfica» (abaixo). Ontem, o benfica tornou a perder um jogo diante do mesmo futebol clube do porto e o ultraje do presidente que lá continua no cargo foi o mesmo, a culpa tornou a ser do árbitro, que «não pode apitar mais!». Suprema ironia: o presidente do benfica assistiu ao jogo sentado mesmo ao lado do «senhor Pedro Proença», o tal que há sete anos devia ter «deixado de apitar jogos do benfica»... Este mundo do futebol é um mundo sem princípios ou coerência, de uma completa mediocridade moral. E por isso, eu até nem sou contra a que ele subsista (naturalmente...) entre os medíocres. O que sou contra é que o veja a ser patrocinado desta maneira muito para além do círculo daquela mediocridade... Os órgãos de informação deviam ter aprendido qualquer coisa com o episódio Bruno de Carvalho.

O DIA EM QUE FINGIRAM QUE NÃO QUISERAM ASSASSINAR LEONID BREJNEV

23 de Janeiro de 1969. A notícia que dominava o noticiário internacional era um intrigante e absurdo atentado de que haviam sido vítimas os quatro cosmonautas soviéticos das naves espaciais Soyuz 4 e 5, quando cumpriam em Moscovo as celebrações do sucesso do seu voo conjunto (abaixo). Era uma semi-verdade. Como já foi explicado há uns bons anos aqui no Herdeiro de Aécio, o alvo do atentado era o próprio secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética, Leonid Brejnev, que foi confundido na ocasião com um outro cosmonauta de um voo anterior de uma outra missão Soyuz, também presente no cortejo, e fisionomicamente muito parecido com Brejnev. Com a captura do autor dos disparos, as autoridades russas aperceberam-se rapidamente do que acontecera e porque acontecera, mas o assunto ficou propositadamente por esclarecer, já que a versão inexplicável lhes era mais conveniente do que a compreensível. Numa sociedade avançada como o socialismo os cidadãos não desenvolviam ganas de matar os seus dirigentes. Isso eram fraquezas do capitalismo...

22 janeiro 2019

O TESTE DOS OITOCENTOS FUNCIONÁRIOS QUE NÃO RECEBEM SALÁRIO

A notícia é de hoje já tem algumas horas, a sua origem é indisputável, a agência Lusa, e o tópico são as iniciativas desencadeadas por alguns congressistas norte-americanos para desbloquear o impasse que por lá se verifica desde há um mês. Ah, e a notícia contém uma gralha óbvia bem logo no início do texto, quando refere a existência de 800 funcionários públicos que não estão a receber salários... Num país com mais de trezentos milhões de habitantes tal pormenor dificilmente seria relevante. O número correcto, porém, aliás repetido exaustivamente ao longo deste último mês, são oitocentos mil os funcionários que não têm recebido os seus ordenados. Pois bem, tente-se descobrir, pela amostra abaixo, quantas publicações não se deram ao incómodo de rever minimamente a notícia que haviam recebido da Lusa e o publicaram, com gralha e tudo...
Atendendo à hora a que este poste está a ser redigido (11H00 da manhã), deito-me a imaginar quantos se disporiam a tolerar um bolo de arroz amaçarocado ou uma bola de Berlim de creme azedo a acompanhar o café que a esta hora tanta falta faz. Mesmo que aquele bolo não se revista da importância de ser o momento gastronómico do dia, convinha que, ao menos, estivesse em condições. Não será caso para reclamar com o dono da pastelaria, para que ele reclamasse com o fornecedor, senão éramos nós que mudávamos de pastelaria? Mas, então, porque é que parece rebuscado fazer-se com a informação aquilo que não o parece quando feito a propósito de bolos de pastelaria?...

O ASSASSINATO DO COMANDANTE OPERACIONAL DO SETEMBRO NEGRO


22 de Janeiro de 1979. Quem visse estas imagens recolhidas pela Associated Press no dia seguinte numa rua comercial de Beirute, com carros destruídos e edifícios danificados, jamais se poderia aperceber da importância do que ali acontecera. Ali Hassan Salameh (1940-1979) era o chefe de operações da organização palestiniana Setembro Negro cuja notoriedade mundial se produzira seis anos e meio antes (no Verão de 1972), ao patrocinar o sequestro em Munique da delegação israelita aos Jogos Olímpicos. A retaliação engendrada pelos israelitas sobre os autores do que veio a ser um massacre dos reféns, veio a ser popularizada pelo filme Munich de Steven Spielberg (2005). Mas nem mesmo esse filme exibe a operação retaliatória israelita de há quarenta anos contra Ali Salameh, aquele que terá sido o principal responsável operacional pelo que acontecera em Munique. A carrinha Chevrolet em que ele seguia naquela tarde (15:35) com os seguranças, passou mesmo ao lado de um Volkswagen carocha carregado com 100 kg de explosivos, que foram detonados à distância à sua passagem por um agente do Mossad. Quatro guarda-costas de Salameh e mais quatro transeuntes morreram na explosão. O visado ainda sobreviveu mas, apesar de transportado de imediato para um hospital, morreu meia hora depois enquanto estava a ser operado. Outras dezasseis pessoas ficaram feridas. A casualidade como os afectados parecem lidar com a situação no vídeo acima explica-se pelo facto de, desde há quatro anos, o Líbano viver uma destrutiva guerra civil em que tais incidentes eram comuns. O tempo veio demonstrar que Ali Hassan Salameh fora também um canal de comunicação entre a OLP e a CIA, e, por causa disso (mas não só...), especula-se que esse estatuto o terá levado a pensar que o colocaria razoavelmente a coberto das intenções vingativas dos israelitas. Enganou-se. Nas notícias do dia seguinte (abaixo), a OLP, numa raiva despeitada, proclamava que «decidira intensificar a luta contra Israel». E então?...

21 janeiro 2019

AQUILO QUE LHES INTERESSA «CHECKAR»

Começo por avisar que esta notícia abaixo, com a pretensa checkagem dos resultados da execução orçamental portuguesa é uma montagem: escusam de a ir procurar ao Observador porque a notícia não está lá. Mas atenção: a primeira parte da notícia, os resultados da execução orçamental, são mesmos verdadeiros, o que eu forjei foi esta pretensa iniciativa daquele mesmo jornal em checkar o apuramento de contas feito pelo Eurostat. A habilidade da utilização destas rúbricas de fact check para fins políticos consiste precisamente no critério com que se elegem os factos a serem checkados. E este caso não presta para o Observador: não só a confirmação (muito provável) da sua veracidade representaria um bónus ao governo, como o carácter neutro do seu autor (o Eurostat) nem sequer lhes permitiria inseminar a dúvida quanto à objectividade de quem fez as contas. A ironia da situação é que o trimestre em questão parece ter sido atípico - já o diziam as conclusões apresentadas a semana passada pelo Conselho das Finanças Públicas. E nesse âmbito e por causa disso, faria todo o sentido checkarem-se os factos do que terá acontecido/estará a acontecer. Mas como qualquer conclusão a que se chegasse nunca afectaria negativamente a imagem governamental, não será coisa com que o Observador perca tempo. Sim, porque se a preocupação aparente do jornal é com os factos, o que ele quer concluir com os factos tem sido sempre de natureza política, não tem nada a ver com o que lhe está associado, neste caso, finanças públicas.

20 janeiro 2019

O ASSALTO AOS PAIÓIS DE LEBACH

20 de Janeiro de 1969. Em Lebach, povoação do estado alemão federal do Sarre, situada a uns 30 km da fronteira com a França e por volta das 03H00 da madrugada, dois homens armados acompanhados de um cúmplice, assaltaram os paióis do Batalhão Paraquedista 261, matando a tiro quatro dos guardas em serviço enquanto estes dormiam, e ferindo gravemente os dois restantes membros da guarnição. O produto do roubo torna-se ridiculamente desproporcionado quando em comparação com o massacre perpetrado: duas pistolas Walther P38 com 50 cartuchos de 9 mm e ainda três espingardas automáticas G-3, complementadas com mil munições de calibre 7,62 mm NATO. Foi realmente o aspecto sangrento do roubo, mais do que o facto dele ter ocorrido numas instalações militares, que mais chamou a atenção para o acontecido, a ponto de ele ser destacado para a primeira página da edição do Diário de Lisboa daquele dia (acima). A evocação deste acontecimento de há cinquenta anos tem também a pertinência de poder ser apresentado em contraponto aos acontecimentos de Tancos de há ano e meio e ao alarmismo então produzido por entendidos como o Nuno Rogeiro. Os assaltantes vieram a ser julgados no Verão de 1970: ambos foram condenados a prisão perpétua (por causa dos homicídios); o cúmplice que os acompanhava foi-o a seis anos de prisão. Um dos réus ainda permanecia preso em 2016. Quando percebemos do assunto em notícia, aí conseguimos colocá-lo em contexto; quando não percebemos, o que acontece numa maioria de vezes, a ideia seria contar com alguém - os jornalistas - que o fizesse por nós: a notícia acima enfatiza a gravidade do que aconteceu mas sem perder a sobriedade. A comparação do como era com o como é, mostra o que é que mudou na informação nestes cinquenta anos.

19 janeiro 2019

O PROCURADOR GERAL QUE FOI «DENTRO»

19 de Janeiro de 1979. John N. Mitchell (1913-1988), que fora o antigo procurador-geral dos Estados Unidos durante a Administração Nixon entre 1969 e 1972, sai em liberdade condicional da prisão federal onde cumprira até aí (apenas) dezanove meses da sentença de um total de dois e meio a oito anos a que fora condenado por conspiração, obstrução à justiça e perjúrio no quadro dos vários acontecimentos associados àquilo que veio a ser conhecido colectivamente por Caso Watergate. Se, de Watergate, aquilo que mais se retém é a resignação do presidente Richard Nixon em 8 de Agosto de 1974, em antecipação à sua demissão forçada, perde-se com frequência a perspectiva de que Richard Nixon arrastou consigo em todos aqueles processos 69 dos seus colaboradores, 48 dos quais foram considerados culpados nos tribunais. Mais do que um evento isolado, Watergate foi uma derrocada de pinos de bowling até ao próprio ocupante da Casa Branca. E John Mitchell, que superintendera a faceta executiva do aparelho judicial norte americano enquanto procurador-geral dos Estados Unidos será provavelmente o mais anacrónico de todos aqueles pinos. A completar a ironia haviam decorrido quase precisamente dez anos (22 de Janeiro de 1969) que John Mitchell tomara posse do cargo diante desse mesmo presidente que o arrastará para a ignominia da prisão.
Frequentemente, e agora cada vez com mais frequência, se refere a analogia do caso de Richard Nixon com o de Donald Trump. Há aspectos análogos, há outros muito distintos. Mas uma das formas que creio mais úteis de interpretar a tendência dos acontecimentos, pode não ter a ver com os acontecimentos que envolvem directamente o presidente, mas concentrarmo-nos antes no ritmo a que estão a ser derrubados os pinos de bowling que o rodeiam...

18 janeiro 2019

ABERTURA DA CONFERÊNCIA DE PAZ DE PARIS

18 de Janeiro de 1919. É o dia da abertura da grande Conferência da Paz que, em Paris, se propunha criar a nova Ordem Internacional que se seguiria ao fim da Grande Guerra. Para o efeito, o próprio presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, cometera a proeza inédita de se deslocar pessoalmente à Europa para as conversações com os outros representantes das potências vencedoras. Na capa do livro acima, vêmo-lo à direita, acompanhado do anfitrião francês Georges Clémenceau ao centro e do primeiro-ministro britânico David Lloyd George à esquerda. As personagens principais estão de cartola, as secundárias de palhinha. O livro em questão, intitulado Paris 1919 - Seis Meses que Mudaram o Mundo é um excelente livro para nos explicar aquilo que aconteceu durante a Conferência. Está muito bem escrito e estruturado, recebeu por isso o Prémio Samuel Johnson em 2002 (é considerado o mais prestigiado prémio literário britânico para obras de não ficção). O único óbice é que não está traduzido - pelo menos para português europeu. E é nestas ocasiões que apetece descarregar a nossa ira frustrada:
a) Nos críticos literários domésticos que se especializaram em não perceber um avo de obras de não ficção.
b) Nas editoras portuguesas, por não se darem ao trabalho de traduzir e editar em tempo estas obras de referência (para vergonha, a versão turca de Paris 1919)
c) Nas mesmas editoras portuguesas, porque, quando finalmente editam uma dessas obras, ao fim de uns vinte anos, fazem uma promoção que apenas as menoriza.

16 janeiro 2019

DUAS SÉRIES CLÁSSICAS DE TELEVISÃO DA BBC

Entre as prendas que ofereci este Natal contam-se estas duas antigas séries televisivas, ambas de 1974 e ambas produzidas pela BBC, por muitos anos reputada pela qualidade das suas produções. Gostei de as ver (rever no primeiro caso, já que Fall of Eagles foi transmitida pela nossa RTP ao longo do Outono de 1975), embora compreendendo quanto a linguagem televisiva evoluiu muito nos 45 anos entretanto decorridos. A esmagadora maioria das cenas (talvez 90% do tempo) decorrem em cenários interiores e o género dos diálogos tem fortes reminiscências teatrais. Estou convencido que a grande maioria dos espectadores actuais, habituados a outras gramáticas televisivas, não as iriam apreciar. Sobretudo porque, tanto num caso como noutro, Fall of Eagles e Microbes and Men assentam as suas narrativas no pressuposto que o espectador possuirá uns conhecimentos escolares mínimos (de História no primeiro caso e de Ciências no segundo) que o fazem conseguir envolver-se com a trama. Se calhar, isso nunca foi verdade, havia apenas a vergonha social em admitir que os ensinamentos escolares há muito estavam esquecidos, e em 1974 apenas algumas elites apreciavam genuinamente aquelas séries de televisão. Era uma outra época, em que as televisões se propunham informar, educar e entreter e séries como estas pretendiam associar os dois últimos objecivos. Na actualidade, aquela pretensão de educar o espectador perdeu-se completamente. Canais que se pretendiam originalmente temáticos, casos do canal História ou do Odisseia tiveram que inflectir nitidamente nos conteúdos da sua programação para permanecerem competitivos na disputa das audiências marginais: como se comprova pelo facto de se programar aliens para o canal História. Ora os aliens não têm nada a ver com História; aliás, do ponto de vista científico, os aliens não têm a ver com nada...

15 janeiro 2019

A POROROCA DE MELAÇO QUE INUNDOU UMA PARTE DO PORTO DE BOSTON


15 de Janeiro de 1919. Na zona portuária da cidade de Boston, aproximava-se a hora de almoço (12H30), quando rebentou um enorme depósito de melaço praticamente cheio, um colossal cilindro de 15 metros de altura e quase o dobro de diâmetro (27 metros), com uma capacidade de 8.700 m³. Em consequência da explosão, o melaço espalhou-se aceleradamente (a uma velocidade estimada de 50 km/h) por todas as redondezas, na forma de uma gigantesca pororoca viscosa e peganhenta, inicialmente com cerca de uns 12 metros de altura, embora tivesse vindo a perder progressivamente altura e potência à medida que o melaço se esparramava pelas várias ruas circundantes e por uma área progressivamente maior. No final, a inundação de melaço cobria uma extensão de inúmeros quarteirões mas ficava-se apenas pelo meio metro de altura. Contudo, até aí, a torrente, de uma substância de uma densidade e viscosidade assaz superior às torrentes tradicionais de água, derrubara edifícios à sua passagem, engolindo pessoas e animais incapazes de fugir. O acidente deixou um rasto de 21 pessoas mortas debaixo dos escombros dos edifícios esmagados ou afogadas naquela substância viscosa. Para além disso, registaram-se 150 feridos, cobertos de melaço da cabeça aos pés. Cem anos depois, o acidente reveste-se do insólito suficiente para ser evocado.

14 janeiro 2019

O INCÊNDIO NO PORTA AVIÕES ENTERPRISE


14 de Janeiro de 1969. O enorme porta-aviões norte-americano USS Enterprise (342 metros e 95.000 toneladas de deslocamento) navegava a umas 70 milhas a sudoeste de Pearl Harbor nas ilhas Hawaii quando, pelas 08H18, um míssil instalado sob a asa de um F-4 Phanton estacionado explodiu, desencadeando por sua vez um incêndio e uma cadeia de explosões de outros misseis e também de bombas instaladas nos aviões estacionados adjacentes. Ainda para mais a dantesca cena era ampliada pelo vigoroso incêndio que se alimentava dos depósitos de combustível de aviação. No total, deram-se dezoito explosões, ao longo das quatro horas que o incêndio durou até conseguir ser dominado. Morreram 28 membros da tripulação, 314 ficaram feridos, 15 aviões foram destruídos, a reparação dos estragos montou a uns 126 milhões de dólares (da época). Este tipo de acidentes eram raros, mas mais frequentes do que se possa pensar. Ainda um ano e meio antes acontecera algo de semelhante no USS Forrestal (já referido no Herdeiro de Aécio) e este género de acidentes haviam sido objecto de um cuidado esforço de prevenção por parte da US Navy. Uma das medidas de segurança entretanto implementadas fora a instalação de câmaras de TV nos conveses dos porta-aviões para que as imagens não só facilitassem a investigação das causas dos acidentes como também para aprender com elas como combater mais eficazmente os incêndios. Com resultados: no Forrestal haviam morrido 134 marinheiros, aqui apenas 20% disso, o incêndio havia demorado 24 horas a ser dominado, aqui apenas 4 horas. E com consequências práticas na operacionalidade dos navios: o USS Forrestal perdera oito meses em reparações, o USS Enterprise perderá apenas dois. Mas a outra consequência da instalação dessas longínquas percursoras de CCTV é a obtenção das imagens arrepiantes que se podem apreciar no vídeo acima.

13 janeiro 2019

CRÓNICA DE UMA COREOGRAFIA ANUNCIADA

Pronto, aí está! Não se pode dizer que tivesse sido surpresa esta coisa de Luís Montenegro. A atitude, mas sobretudo o patrocínio do Observador (ainda há um mês aqui o antecipava). E o engraçado é que o episódio tem escassos dias, mas já vemos aquela publicação entusiasmada, com sentido de missão e em velocidade de cruzeiro, a terçar armas pelo candidato que ainda não o é. Uma oportuna sondagem (abaixo) reveste-se logo da virtude de pôr o PSD a atingir «mínimos históricos», com isso robustecendo a argumentação de Montenegro e a oportunidade do desafio. Será isso verdade, a crise? Nada melhor do que consultar a página da Marktest, que exibe o histórico das sondagens de todas as empresas do ramo desde Setembro de 2009 (mais abaixo). Se esta é uma crise, comparemos com as crises dos últimos dez anos. A evolução dos resultados do PSD está naturalmente assinalado a cor de laranja. As eleições estão assinaladas por traços verticais. O pequeno rectângulo a amarelo e com moldura preta abrange a banda dos 25 a 30% das intenções de voto que o PSD não tem conseguido superar desde que Rui Rio se tornou presidente do partido há menos de um ano. Mas repare-se que não foi com o actual presidente do PSD, mas antes com o seu antecessor, que as intenções de voto nas sondagens no partido desceram até aquela banda dos 25 a 30%. A culpa de Rui Rio é a de não conseguir fazer subir o partido desses valores que herdou e nisso, quem critica Rio exigindo resultados, tem objectivamente razão. Porém, interessante para avaliar a coerência do desafiante Montenegro, é o outro rectângulo amarelo, emoldurado a vermelho, que assinala os seis anos (2011-17) em que Luís Montenegro presidiu ao grupo parlamentar do PSD e os resultados que o partido ia obtendo nas sondagens, sem que ele manifestasse o incómodo de que agora se fez porta-voz. Talvez porque, e o mapa da Marktest demonstra-o claramente, o aproximar das datas de eleições e a realização das mesmas provoque substanciais alterações nos dados anteriores. Tendo-o dado por mais do que uma vez a Passos Coelho, porque é que, desta vez, Luís Montenegro, não quer mesmo dar o benefício da dúvida a Rui Rio?... É porque já estão a elaborar as listas de deputados e então assim é adeus empregos, é?

12 janeiro 2019

O «YOGI BEAR» E O «YOGA BEAR»


Havia o Yogi Bear, personagem de uma antiga série de desenhos animados (acima), mas este abaixo é o Yoga Bear, captado em pleno acto de se espreguiçar sobre a neve, com a perna alçada e os braços a desenharem uma sugestão de saudáveis alongamentos. A fotografia é de Roie Galitz.

10 janeiro 2019

A RETIRADA CUBANA DE ANGOLA

10 de Janeiro de 1989. Os soldados cubanos começavam a abandonar finalmente Angola: há treze anos que eles lá estavam (logo depois, e muito provavelmente até mesmo antes, da independência concedida pelos portugueses em Novembro de 1975) e há treze anos que andavam a prometer que de lá saíam (veja-se esta notícia de Maio de 1976!). Em comparação, outros treze anos de guerra (1961-1974) haviam esgotado a força anímica dos portugueses em quererem defender Angola como sua. Mas estes treze anos de guerra (1975-1989) pareciam não ter beliscado a determinação dos cubanos em defender um país irmão na ideologia situado a 11.000 km de distância! Ou é a constatação da superioridade moral do marxismo-leninismo, ou é a constatação de que a ditadura cubana era particularmente mais eficaz do que a portuguesa quanto à supressão das manifestações sociais de revolta a respeito do engajamento numa guerra distante. Os últimos soldados cubanos só abandonarão Angola em 1991 e durante esses quinze anos terão sido cerca de 310.000 os cubanos  mobilizados para lá combater, deixando um saldo oficial de 2.016 mortos.  

09 janeiro 2019

A PRIMEIRA CONVERSA EM FAMÍLIA DE MARCELLO... CAETANO


8 de Janeiro de 1969. Acabado de chegar ao poder há três meses, em substituição do imprescindível doutor Salazar, o novo presidente do Conselho encetava naquele serão de há cinquenta anos (pelas 22H00!) um novo formato de comunicação com os portugueses. A conversa em família de Marcello Caetano podia parecer muito moderna na circunstância aos portugueses, mas limitava-se a copiar um modelo - as «fireside chats» - que o presidente Franklin Roosevelt adoptara já nos Estados Unidos 35 anos antes, então apenas no formato radiofónico. Esta conversa inaugural teve uma duração de 17 minutos e foi transmitida em simultâneo tanto pela televisão quanto pelas várias emissoras de rádio. No entanto, no dia seguinte, também os mais tradicionais meios de comunicação, os jornais, traziam a publicação da comunicação na íntegra. Abraçando o clima de abertura, o título deste jornal procurava transmitir uma (estudada) fragilidade governamental: o governo estava embaraçado...

07 janeiro 2019

ENTÃO FICÁMOS ASSIM...

Para a sentença do julgamento do caso dos Vistos Gold, o meritíssimo juiz terá formado a convicção que o ex-ministro é apenas um malandro, mas não um escroque. É assim que o réu Miguel Macedo é absolvido, porque apenas os ex-ministros escroques - do calibre de um Armando Vara, por exemplo - é que têm direito de ir para a prisão. Agora, quanto ao facto de Macedo ser considerado um malandro e quanto à sanção moral e política a esse respeito, o presidente do PSD deixou claro que sempre acreditara na inocência do réu, que não o acha «capaz de utilizar um cargo público em benefício próprio», deixando o pressuposto que fazê-lo em benefício dos amigos é toda uma outra atitude ética, serão enternecedoras histórias de amizade... e isso até constitui uma malandrice bonita. Então ficámos assim... e nem fica claro se podemos descartar um regresso para breve de Miguel Macedo à política.

POIS, ELE É MESMO SEGUNDA FEIRA...

A fotografia é de Danielle D'Ermo.

06 janeiro 2019

PREVISÕES FALHADAS... OU APENAS TÍTULOS BOMBÁSTICOS

Para nos recordar o quanto a relação do jornalismo com o Rigor e a Verdade sempre se revestiu de alguma controvérsia, destaquemos nesta primeira página de há cinquenta anos (6 de Janeiro de 1969), aquela "previsão" da NASA que o Homem chegaria a Marte dentro de dez anos que, no momento em que era publicada, era potenciada pelo facto de "o Homem" ainda não havia sequer chegado à Lua, feito que só viria a acontecer dali por seis meses.
Mas, o leitor que se desse ao trabalho de ler o conteúdo da notícia que era desenvolvida numa página interior, aperceber-se-ia das condicionantes que eram levantadas pelos dirigentes da própria agência espacial norte-americana, numa passagem final que estava, aliás, destacada a bold. «Os dirigentes da NASA admitem, por outro lado, a possibilidade de um desembarque humano em Marte dentro de uns dez anos. No entanto, acentuam que este programa exigiria tais créditos que a sua realização terá que se subordinar a considerações de carácter político, tais como o regresso à paz e a solução do problema da pobreza nos grandes centros urbanos dos Estados Unidos
Ou seja, a chegada do Homem a Marte dependeria das prioridades políticas da alocação de recursos, antes de se colocarem as questões técnicas a respeito dos voos espaciais tripulados. E isso era uma ressalva que no jornal se considerava que não interessaria nem captaria a atenção do leitor mediano. O tempo, e agora as redes sociais, apenas acentuaram essa diferença entre uma maioria que só quer ler as gordas e aqueles que porfiam e se dispõem a ler tudo até ao fim.

05 janeiro 2019

OS «INCÊNDIOS POLÍTICOS» NÃO SE PROPAGAM AOS RADICAIS «MOLHADOS»?

A propósito da celeuma provocada pelo convite da TVI a uma personagem (Mário Machado), com algum impacto mediático, conotada com a extrema direita e que acima vejo a ser comparado a um "incêndio político", lembro-me de um episódio semelhante, ocorrido há apenas um ano e através de um convite dessa mesma TVI, a uma outra personagem (Arnaldo Matos), também com algum impacto mediático, só que oriunda do outro extremo do espectro político, da extrema esquerda. Não sei quantos ainda se lembrarão da aparição deste último no programa televisivo Governo Sombra, contracenando com os habitués do programa. Eu lembro-me e comecei logo por não gostar. Por várias razões, a começar pelo facto de ter Arnaldo Matos na conta de um façanhudo, sem ponta de espírito de humor. E lembro-me que não me senti só nesse meu desagrado que se confirmou com o programa (para quem o quiser rever). Recupero uma parte do comentário que Francisco Seixas da Costa escreveu então no seu blogue a respeito daquela iniciativa da TVI:
«Entrámos no último dia do ano com o programa televisivo "Governo Sombra" a ter como convidado Arnaldo Matos. O atual "dono" do PCTP-MRPP foi recebido com um tom visivelmente complacente pelos "residentes" do programa, ansiosos por lhe extraírem declarações chocantes e expressões radicais, à altura daquilo a que o velho político sempre habituou o seu auditório. Conhecedor do palco que pisava, Matos não se fez rogado e, no meio de elogios táticos aos anfitriões, esteve à altura da "performance" aguardada, chamando "nazis" aos gestores alemães da Auto-Europa e mostrando compreensão pelos ataques do Estado Islâmico. Foi notório o gozo com que continua a ser recebida a qualificação de "social-fascista" que o MRPP sempre aplica ao PCP. É que o MRPP continua a ser o "enfant chéri" (para ser simpático) de certos meios, que sempre o cobrem com uma espécie de juízo de inimputabilidade, que nos dias de hoje o coloca ao nível de uma caricatura de comédia
Suponho que o parágrafo sintetiza bem o mau gosto, a indulgência e o desconforto de um programa que se pretendia de humor e que o perdeu em grande parte. Ouvir Arnaldo Matos a relativizar os ataques terroristas dos jiadistas em Paris e em Londres foi chocante. E também não houve coragem de se lhe perguntar o que é que ele pensava de Estaline... Mas era uma questão de opiniões e o incidente ficou-se - e bem! - por aí: tratara-se de uma escolha assaz infeliz da TVI (e da TSF). Tanto assim que, de então para cá, já houve ocasião para que os habitués do "Governo Sombra" se desforrassem de um convidado que desconfio tenha sido pouco empático (veja-se o vídeo abaixo). Se me perguntassem agora que reservas teria para um programa com Mário Machado como convidado, seriam as mesmas que dispensara ao com Arnaldo Matos. Tudo o resto me pareceu comparável embora não tenha assistido inicialmente ao segundo. Só que a ressonância nas redes sociais se veio a revelar incomparável. Há um enorme e (para mim) incompreensível contraste entre aquilo que (não) aconteceu há um ano com Arnaldo Matos e o que está a acontecer agora por causa de Mário Machado: há um arrepiante clamor histérico, uma tal incongruência e uma tal dualidade de critérios que, pelo fanatismo e pela irracionalidade, me chocam mais do que todos os disparates que os dois radicais possam proferir. Sejamos claros: eu concordo com quase todos os que criticam Mário Machado e pelo que lhe criticam. Mas, mais do que a ressurgência do fascismo, assusta-me a veemência com que tantos se sentem na obrigação de, neste caso, se manifestarem e nos termos em que o fazem, quando nos outros se demitem de se manifestar. Quero aproveitar todo este barulho para destacar a insuportabilidade do silêncio no passado.

OS PRIMÓRDIOS DO PARTIDO NACIONAL SOCIALISTA DOS TRABALHADORES ALEMÃES

5 de Janeiro de 1919. Era fundado em Munique, capital da Baviera, um pequeno partido político que foi denominado por Deutsche Arbeiter-Partei (DAP). Os seus fundadores são hoje desconhecidos: incluíam o seu primeiro presidente Anton Drexler (1884-1942, na fotografia acima), o jornalista Karl Harrer (1890-1926), o engenheiro Gottfried Feder (1883-1941) e o jornalista Dietrich Eckart (1868-1923). E a militância era pouco mais do que os fundadores, situava-se na ordem das dezenas de militantes, mas em Setembro de 1919 o DAP iria ser enriquecido com a adesão de um militante (o 55º) cujo nome já será bastante mais familiar ao leitor: Adolf Hitler (1889-1945). A presença deste último militante entre o núcleo dirigente do DAP veio a provocar uma inflexão significativa no partido. Meses depois, em Fevereiro de 1920, o DAP mudou o seu nome para NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiter-Partei). E em Julho de 1921, e por causa da popularidade que granjeara como orador, Adolf Hitler substituiu Anton Drexler à frente do NSDAP. O resto da ascensão do partido com o seu novo dirigente são episódios tão conhecidos, que se dispensa a sua menção nesta ocasião da celebração do centenário da organização.

04 janeiro 2019

O PERCURSO DISCRETO DA DESCOLONIZAÇÃO ESPANHOLA

4 de Janeiro de 1969. As autoridades marroquinas e espanholas chegavam a acordo em Rabat para a transferência para Marrocos da soberania do pequeno território de Ifni (ver mapa abaixo). Com 1.500 km² e habitado por um pouco mais de 50.000 habitantes, o território fora violentamente disputado dez anos antes (do Outono de 1957 à Primavera de 1958) por espanhóis e marroquinos, no decurso de uma guerra que hoje está esquecida. Se os espanhóis salvaram militarmente as aparências, mais para consumo doméstico do que do ponto de vista estritamente militar, por outro lado, a sua permanência ulterior nas possessões que detinha na fachada atlântica de Marrocos, afigurava-se definitivamente comprometida após o término do protectorado francês em Março de 1956. Aliás, a notícia que o Diário de Lisboa publicava na edição de há cinquenta anos era falsa logo a partir do primeiro parágrafo: «O enclave do Ifni é o primeiro dos territórios administrados pela Espanha, (...) que é reintegrado no território marroquino». Ora o tratado que fora firmado entre Marrocos e a Espanha na sequência da Guerra de 1957-58, o tratado de Angra de Cintra, já se saldara pela cedência por parte da Espanha do território espanhol de Cabo Juby a Marrocos (32.875 km² e uns 10.000 habitantes). Mas essa estava a ser a habilidade do regime franquista no que diz respeito à descolonização, em contraste flagrante com o que acontecia simultaneamente com os seus vizinhos portugueses: ceder em quase tudo, embora dando a aparência contrária. Passada uma decorosa década (para não se dizer que haviam sido corridos), em Ifni a cerimónia simbólica da transferência de soberania iria ter lugar a 30 de Junho de 1969. Ficava por resolver o problema do Sáara Espanhol...

03 janeiro 2019

MATEMÁTICA «BOLÁCHICA»

Passe a publicidade à marca, reconheça-se que se trata de uma interessante explicação sobre arranjos e combinações recorrendo às bolachas (O) e ao seu recheio (RE).

02 janeiro 2019

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES

Há uns precisos (e preciosos) quarenta anos a separar os dois textos supra. O antifascista João Espada, que vemos como impulsionador de uma «comissão para a defesa da liberdade de informação» (em 1979) tornou-se, com os anos, num imensamente diferente João (Carlos) Espada, «conversador civilizado» e «re-descobridor das boas tradições demo-liberais» (para 2019). Confesso que, quando a canção de José Mário Branco se tornou um hit na sequência imediata do 25 de Abril (1974), não me apercebi então de como era perene e profundo o ensinamento contido no soneto de Camões, e de como seria capaz de se vir a virar no futuro com mordacidade revolucionária contra tantos dos revolucionários daquela altura...

Adenda: Uma das maneiras mais clássicas como se tenta por vezes baralhar a discussão a respeito das grandes circunvoluções político-filosóficas, como é o caso da protagonizada acima por João (Carlos) Espada, é misturá-las com os tradicionais taticismos da política, de que fui recuperar um exemplo acabado de ocorrer, a inflexão do antigo candidato presidencial americano Mitt Romney a respeito de Donald Trump, depois de dois anos da presidência deste. Não tem nada a ver. Espada era, em 1979, um comunista, a queixar-se (cinicamente) de uma falta de liberdade que só as Democracias lhes concediam. Está a queixar-se de algo que lhe concediam mas que ele não fazia tenção de manter caso ele e os seus alcançassem o poder.
Mas foi preciso ter mudado todos os alicerces filosóficos das suas convicções políticas para que ele viesse a defender tudo o que agora o vemos defender politicamente - o Churchill que hoje Espada tanto gosta de citar não era(é) propriamente um autor favorito entre os marxistas-leninistas como Espada era... Enquanto Romney deu apenas "corda" a Trump até à altura em que considerou que este se "espetou" para além de qualquer possibilidade de recuperação política para então se dissociar. Não é bonito, mas Romney não deixou de ser quem era. Espada sim. Pode alguém ser quem não é?

ULTIMA THULE: JÁ HÁ FOTOS; JÁ SE COMPÔS UMA MUSICA; E JÁ SE ESCREVERAM AS TRADICIONAIS ASNEIRAS QUANDO A NOTÍCIA É SOBRE ASSUNTOS CIENTÍFICOS

Conforme fora programado e (muito) propagandeado, a sonda New Horizons (que se celebrizou pelas primeiras fotografias de Plutão) já realizou a aproximação (3.500 km) a um muito pequeno corpo celeste (com cerca de 32 km de diâmetro, apenas) que tendo vindo a ser oficiosamente denominado por Ultima Thule, para efeitos de promoção mediática desta fase da missão. A notícia publicada pelo Diário de Notícias dá conta disso ou, como se lê no subtítulo acima, dá conta que «já há fotos do lugar mais distante do sistema solar» (por acaso, não é...) e que «Bryan May (dos Queen) compôs (um)a música». Já agora, permitam-me acrescentar (mantendo uma tradição jornalística quando as notícias versam sobre ciência), a jornalista Valentina Marcelino também contribuiu para o acontecimento com a sua ignorância e as suas asneiras. Como a que acima sublinhei, inventando temperaturas abaixo do zero absoluto!!! Será que a senhora jornalista percebe o que se entende por zero absoluto? Duvido. Pergunta-se: para que é que põem uma pessoa completamente ignorante a redigir uma notícia sobre um assunto sobre o qual nada entende? Mas o pior nem é isso; o pior é o desdém como não são incorporadas as rectificações das chamadas de atenção de quem ainda se dá ao trabalho de lhes apontar os erros na caixa de comentários (abaixo).

01 janeiro 2019

OS «SAUDOSOS» DISCURSOS DE ANO NOVO DO ALMIRANTE AMÉRICO THOMAZ

2 de Janeiro de 1969. Enterrado numa das páginas mais discretas do interior da edição do Diário de Lisboa repousa a pièce de résistance do discurso de Ano Novo que fora pronunciado no dia anterior pelo presidente da República, almirante Américo Thomaz, nessa altura devidamente transmitida pela rádio e pela televisão e que agora era reproduzido pelos jornais. O aspecto da página (que hoje qualificaríamos por wall of text de apresentação desencorajante) transmite a essência, o interesse e a vivacidade da comunicação presidencial, para mais vinda de um locutor que todos reconheciam fraco, tanto na forma, quanto no conteúdo. Cinquenta anos passados, já são poucos os que têm memória de como os discursos de época desta época eram insuportavelmente chatos.