Mostrar mensagens com a etiqueta Quénia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quénia. Mostrar todas as mensagens

23 janeiro 2024

OS PROBLEMAS COMPLEXOS DAS NOVAS NAÇÕES AFRICANAS

23 de Janeiro de 1964. Cerca de 700 membros do 1º Batalhão dos Tanganyika Rifles amotinaram-se contra os seus oficiais britânicos e assumiram brevemente o controle da capital de Tanganica, Dar es Salaam. As reivindicações dos amotinados era por salários mais elevados e para que oficiais africanos substituíssem os seus comandantes britânicos; a revolta começara em Lugalo e depois estendeu-se aos quartéis de Tabora e Nachingwea. Os rebeldes prenderam 30 dos seus oficiais britânicos, construíram barreiras para impedir a entrada e saída de Dar es Salaam, assumiram o controlo do aeroporto, da estação de rádio, da estação ferroviária e das esquadras de polícia, bem como do palácio do governo, embora o presidente, Julius Nyerere estivesse ausente na altura. Esta já é a noticia da acalmação da revolta, depois de o ministro da Defesa, Oscar Kambona, ter acedido às exigências dos militares amotinados enquanto - embora isso não apareça mencionado na notícia - tropas britânicas estacionadas no vizinho Quénia foram rapidamente transportadas para Tanganica para debelar a revolta. De toda a maneira, os oficiais superiores britânicos encarregues de enquadrar o exército local - não havia até então qualquer oficial tanzaniano com patente superior a capitão - foram expulsos do país. Assinale-se que estas centenas de amotinados representavam uma assustadora (elevadíssima) proporção dos parcos efectivos militares das novas nações africanas. Mas que o problema radicava em questões estruturais e não circunstanciais comprova-se pelo facto que, no dia seguinte ao desta notícia, iria ocorrer um motim completamente idêntico no 11º Batalhão dos Kenya Rifles que estava aquartelado em Nakuru, que é a terceira maior cidade do Quénia. Também aqui as reivindicações dos amotinados incidiam nas suas condições e na exigência da substituição dos oficiais de origem britânica. E também aqui foram as tropas britânicas que procederam à contenção do motim. O batalhão foi dissolvido e 43 amotinados foram levados a tribunal marcial pelo governo de Jomo Kenyatta. Para além de noticiados em Lisboa com desvelo, estes acontecimentos eram acolhidos pelo regime com uma indisfarçável dose de malícia: o caminho para as independências africanas preconizado por Londres não era desprovido de problemas muito sérios.

12 dezembro 2023

A CERIMÓNIA DE PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA DO QUÉNIA

(Republicação)
A 12 de Dezembro de 1963 o Quénia tornava-se independente. O novo homem forte do país será Jomo Kenyatta (1891-1978), que se identifica discursando de pé na foto acima. O contraste entre os adereços que lhe conferem autoridade não podia ser maior com os das autoridades coloniais sentadas que, ali e naquele momento, lhe cedem os seus poderes, desde a cabeleira branca e toga do juiz até à imaculada farda branca tropical do príncipe Filipe de Edimburgo, encarregue de representar a rainha na cerimónia. Apesar do fato, Kenyatta usava um colorido cofió tradicional e empunhava na mão esquerda um espanta-moscas, símbolo consagrado de autoridade entre os Masai e entre muitas outras tribos da África Oriental; os mais atentos hão de reparar ainda que Kenyatta usava sandálias, para se distinguir dos europeus normalmente avessos a tal tipo de calçado. É uma mudança substantiva na coreografia do poder mas que se traduzia também na sua gramática como é o caso, por exemplo, da africanização da democracia. Uma africanização que fazia com que, a neutralidade do Estado se submetesse aos ditames do poder existente, e as democracias deixassem de ser democráticas. Se, nas últimas eleições havidas sob domínio colonial (Maio de 1963), a KANU de Kenyatta havia obtido a esmagadora maioria dos votos e dos representantes (83 em 124), nas eleições seguintes, que virão a ter lugar em Dezembro de 1969, a mesma KANU vai alcançar a totalidade dos votos e dos eleitos - os partidos da oposição foram entretanto proibidos. A indumentária de Jomo Kenyatta também evoluía em conformidade com o aprofundamento das instituições africanas mais genuínas.

21 outubro 2022

A REVOLTA DOS MAU-MAU

21 de Outubro de 1952. A notícia que era oriunda de Nairobi, capital da então colónia britânica do Quénia, informava detalhadamente o leitor português do teor da alocução que fora proferida naquele dia pela rádio pelo governador da colónia, com excepção do detalhe mais importante: que nessa alocução Sir Evelyn Baring (o governador) proclamara o estado de emergência naquela colónia (...assim se detectam as teias da censura em Portugal). Começara uma espécie de semi-guerra colonial que virá a ficar conhecida como «a Revolta dos Mau-Mau» (1952-1960) A primeira fase deste estado de emergência acabado de proclamar há 70 anos será a detenção dos 180 líderes nacionalistas mais proeminentes (foto acima), incluindo aquele aquele que virá a ser o primeiro presidente do país: Jomo Kenyatta. A consequência é que a revolta virá a ser conduzida predominantemente pela ala militar (e menos sofisticada) do movimento nacionalista queniano. Outra característica é que esta revolta, ao contrário de praticamente todas as outras ocorridas em África contra o domínio colonial depois da Segunda Guerra Mundial, não recebeu apoio material significativo de nenhuma potência externa - nomeadamente os suspeitos do costume, a União Soviética e a China. Os rebeldes Mau-Mau bateram-se contra as autoridades britânicas com equipamento primitivíssimo (abaixo). No seu computo global, a operação de contra subversão revestiu-se, do ponto de vista estritamente militar, da simplicidade de uma operação policial, dada a discrepância dos meios de combate em presença. E no entanto, de maneira ridícula, os britânicos adoram enumerar este episódio menor como um dos seus sucessos numa guerra contra-subversiva, colocando-o em contraponto a fracassos dos seus aliados, como o dos franceses na Argélia ou o dos americanos no Vietname.

12 setembro 2007

QUÉNIA, A TERCEIRA POTÊNCIA MUNDIAL… EM ATLETISMO

Quem consultar o palmarés dos Campeonatos Mundiais de Atletismo de 2007, realizados recentemente em Osaka, no Japão, constata que, para além da tradicional Rússia, a grande potência capaz de desafiar a hegemonia norte-americana não é a Alemanha, herdeira das tradições atléticas da saudosa RDA do passado, nem a emergente China do futuro, mas o prosaico Quénia, cujos atletas conquistaram 5 títulos mundiais, de um total de 13 medalhas averbadas pela sua equipa naquele certame.

Como é tradicional nos países da África sub-sahariana, a história da nação é recente, embora se possa fazer remontar a da região que hoje constitui o país a alguns séculos atrás. No caso do Quénia, os primeiros registos escritos existentes acerca da região são árabes, datam do Século VII e concentram-se sobre as povoações costeiras – destinadas a tornarem-se portos disputados no futuro – que os comerciantes muçulmanos visitavam e onde se começaram a registar algumas conversões à fé.

No entanto, as relações comerciais entre as costas orientais de África, a Arábia, o Egipto e a Índia devem ter-se iniciado em data muito anterior, possivelmente no Século I da era cristã. Mas os conhecimentos que existem sobre a evolução dos acontecimentos que ali foram tendo lugar até ao Século XIX estão muito distorcidos pelo destaque dado ao que aconteceu na sua província costeira – que apenas representa 1/7 da área total do Quénia moderno, albergando menos de 9% da sua população.
Assim, a chegada dos portugueses, nos princípios do Século XVI, que capturaram quase todos portos comerciais ao longo da costa oriental como Mombaça, Melinde, Zanzibar ou Quiloa, acabou por não ter reflexos significativos na situação política que regia entre as populações do interior, que mantiveram o mesmo padrão de comércio (ouro, marfim e escravos) já existente. A mesma lógica se aplica quando os omanitas – que também estiveram sobre suserania portuguesa – recuperaram as suas posições originais, nos finais do Século XVII.

Contudo, se a disputa pelo controlo das feitorias comerciais se travou entre estrangeiros, a língua franca na qual se passou a comerciar era distintamente local, o suaíli, de origem banto na sua estrutura e gramática, embora possuísse inúmeros vocábulos de origem árabe, persa, portuguesa, gujarati, tamil ou malaiala (as três últimas são línguas indianas). Escrita originalmente em caracteres árabes (Século XVI), foi já nos inícios do Século XX que se criou uma pronúncia de referência (a de Zanzibar), usando o alfabeto latino.

O conhecimento do interior por parte dos europeus só começou verdadeiramente na segunda metade do Século XIX. Os nomes de baptismo dos lagos Vitória e Alberto, então soberana (1837-1901) e príncipe-consorte do Reino Unido servem de registo quanto a presença britânica naquelas regiões tem menos de 200 anos. Mas as condições climáticas afiguraram-se promissoras para a colonização europeias e entregues a uma companhia britânica: apesar de situado sobre o Equador, boa parte do Quénia é um planalto de clima temperado, devido à altitude (1.600 metros em média).
Em 1895 o Quénia tornou-se um protectorado e em 1920 passou a ser uma Colónia da Coroa. A capital fora transferida em 1905 da insalubre Mombaça, na costa, para a muito mais confortável (para os europeus…) Nairobi, situada a 1.660 metros de altitude. Foram os tempos gloriosos dos pioneiros europeus que se arriscavam em projectos agrícolas tal qual foram descritos por Karen Blixen em Out of Africa, livro depois passado para o cinema…Mas a sociedade do Quénia colonial era bastante mais complexa do que a descrita no filme de Sidney Pollack

Havia evidentemente a sociedade europeia, anglófona, proprietária de terras e com o controlo político exclusivo, que chegou a atingir mais de 100.000 pessoas. Depois havia, evidentemente, a sociedade africana negra, numericamente de uma maioria esmagadora – talvez mais de 97% da população. No filme, a ameaça da sua revolta é sublimada no aparecimento dos indomáveis caçadores masai. Mas havia também a comunidade de descendentes dos comerciantes árabes que, dificeis de identificar porque quase completamente assimilados, continuava a dominar informalmente a sociedade no litoral.

E, finalmente, havia uma outra remessa de imigrantes, estes indianos e que, também membros do Império Britânico, haviam substituído a comunidade anterior apropriando-se de quase todo o pequeno comércio no Quénia. Como acontecia com quase todas as colónias da África Oriental em relação às suas homólogas da costa atlântica (com Moçambique em relação a Angola, por exemplo), também o Quénia do período colonial tinha uma composição populacional muito mais cosmopolita do que era comum às colónias africanas.
A revolta anti-colonial no Quénia é precoce a assumir um carácter subversivo (1952), mas trata-se de uma subversão suave, quando em comparação com outras a que o continente assistiria (Argélia, Guiné-Bissau, Moçambique, Zimbabué…), que foi baptizada pelos britânicos de Revolta dos Mau-Mau. Terminada em 1956, o episódio faz hoje parte, com o da Malásia, da galeria de sucessos em contra-subversões que os britânicos tanto gostam de mostrar, ao invés dos fracassos que gostam de esconder, como os do Iémen e de Chipre*…

No entanto, para vencer a subversão foi preciso estabelecer um calendário de transferência do poder da minoria branca para a maioria negra, protagonizado por Jomo Kenyatta, pertencente ao grupo étnico mais numeroso do Quénia, o dos Kikuyu. Em 1963, o Quénia tornou-se independente e tornou-se numa República no ano seguinte, com Kenyatta como presidente. Durante o período da Guerra-Fria, onde as fidelidades de quase todos os países africanos oscilaram entre o Ocidente e o Leste, a do Quénia manteve-se firme, pró-ocidental.

Respeitador escrupuloso das encenações eleitorais, muito apreciadas no Ocidente, o Quénia foi pioneiro em mostrar, ainda na década de sessenta, o entendimento muito particular que as culturas africanas podem dar às cerimónias eleitorais, ao elegerem, por mais do que uma vez, o candidato que havia entretanto falecido, mas que pertencia ao clã e à tribo certa… Compreende-se facilmente porque é que as eleições quenianas não costumam ser acontecimentos inesperados…
Jomo Kenyatta foi presidente de 1964 até à sua morte em 1978, sucedeu-lhe o seu vice-presidente Daniel arap Moi, que foi sendo sucessivamente reeleito e ainda lá estaria se não tivesse sido impedido de se reapresentar por imperativo constitucional em 2002… Na única eleição verdadeiramente aberta que o Quénia terá tido desde a sua independência, Mwai Kibaki venceu a eleição presidencial, com 62% dos votos contra os 31% recebidos por Uhuru Kenyatta, filho de Jomo, o primeiro presidente.

Como curiosidades finais, refira-se que a língua nacional do Quénia é o suaíli**, um dos raros casos em que um país da África sub-sahariana não tem um idioma europeu por língua nacional. E que o segredo para a obtenção de tantas medalhas no atletismo reside no facto de que uma boa parte da sua população vive no planalto e a altitudes superiores e desenvolvem, desde a nascença, capacidades respiratórias invulgares que favorecem os atletas quenianos nas provas de resistência.

* O que comprova que, ao contrário do que por vezes se pretende fazer crer, não existe ainda nenhuma receita comprovada para vencer uma guerrilha subversiva.
** O inglês também é língua oficial.