6 de Julho de 1917. Os irregulares árabes comandados por Auda Abu Tayi e com este último assessorado por Lawrence da Arábia conquistam o porto de Aqaba (hoje pertencente à Jordânia). Apesar de aparecer descrito como um «grande combate» na página correspondente da Wikipedia, foi um daqueles episódios menores da Primeira Guerra Mundial. Na mesma página é possível saber que os efectivos da guarnição turca da cidade atacada (750 homens) equivaleriam a um batalhão, o género de unidade militar que era destroçada às dúzias numa prosaica manhã ofensiva na Frente Ocidental daquele mesmo conflito. O génio responsável por transformar a insignificância num grande feito de armas foi T. E. Lawrence (1888-1935). Fosse hoje e Lawrence não estaria decerto a malbaratar os seus talentos no exército, antes teria criado a sua agência de comunicação e seria um importante (mas discreto) agente político que faria e desfaria presidentes e primeiros-ministros. Do ponto de vista militar, aquilo que os árabes alcançaram durante a Primeira Guerra Mundial foi reconhecidamente negligenciável; do ponto de vista político, as iniciativas britânicas estiveram muito longe de decisivas, serve de argumento para o provar o facto de os franceses terem ficado no fim da guerra com o seu quinhão de territórios (Síria, Líbano) sem terem precisado de lá ter tido um rival de Lawrence (francês) no terreno; contudo, do ponto de vista de relações públicas a passagem de Lawrence por aquelas paragens foi uma obra de mestre, 45 anos depois (1962) ainda se andava a fazer filmes épicos à volta da sua figura, como se aquilo que ele fomentara (no trecho abaixo, a conquista de Aqaba) tivesse sido muito importante para a História. É conhecido, mas não é assim tão importante...
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06 julho 2017
23 maio 2014
A BATALHA DE KARAMÉ
A Batalha de Karamé foi travada em Março de 1968 junto a uma vila jordana que lhe deu o nome, tendo como antagonistas o exército israelita contra os guerrilheiros palestinianos da OLP e o exército jordano. Próximo de Karamé, que se situa nas margens do rio Jordão, rio que passara a constituir desde a Guerra dos Seis Dias em Junho de 1967 a fronteira de facto entre Israel e a Jordânia, fora construído um campo de refugiados palestinianos, que a Fatah de Yasser Arafat passara a usar como base para as suas operações de infiltração no território controlado pelos israelitas, na outra margem. Desde Fevereiro que se vinham a acumular os incidentes mas a razão próxima que foi invocada por Israel para desencadear a operação que esteve na origem da batalha foi a detonação de uma mina A/C por um autocarro escolar que causou a morte a dois adultos e ferimentos em dez crianças.
A operação planeada pelos israelitas, que obrigaria a mais uma incursão em território jordano, foi realizada mais em força do que em rapidez e subtileza: os israelitas concentraram mais de uma dezena de milhar de homens de duas brigadas e de outros sete batalhões independentes antes de a desencadear, movimentos esses que, obviamente, não escaparam à observação dos palestinianos e jordanos da outra margem. Os israelitas fizeram chegar previamente aos jordanos, através de canais diplomáticos, as suas intenções de limitar os seus objectivos aos guerrilheiros palestinianos e, por isso, estavam a contar com alguma neutralidade, ou pelo menos com um empenho muito moderado, do lado jordano. Mas, na realidade e quando chegou a hora da verdade, tudo não passara de wishful thinking.
Quando os israelitas desencadearam finalmente a operação, os grandes combates travaram-se, não com os guerrilheiros palestinianos, mas com os blindados, a aviação e a artilharia jordana. Os invasores depararam-se com uma resistência feroz que implicava custos desproporcionados para os objectivos da operação. Mesmo assim, os objectivos mínimos foram cumpridos, o campo de refugiados foi arrasado (acima), fizeram-se cerca de 150 prisioneiros. Mas a densidade do fogo inimigo tornava a manutenção das posições conquistadas insustentável e os israelitas evacuaram-nas no próprio dia. Haviam-lhes custado uma trintena de mortos e uma centena de feridos. Os jordanos haviam perdido mais (84 mortos e 150 feridos) e os palestinianos ainda mais (150 mortos, 100 feridos, além dos 150 capturados já mencionados acima). Acrescente-se, para comparação, que numa outra operação realizada nesse mesmo dia, mas com mais discrição e souplesse, os israelitas haviam entrado noutro local da Jordânia, haviam abatido cerca de 20 jordanos e 20 palestinianos, capturados outros 27 e haviam-se retirado sem sofrer qualquer baixa.
Mas, se os israelitas conseguiram, ainda assim, cumprir os mínimos e saíram da batalha como os seus vencedores tácticos, o grande vencedor estratégico da mesma foi a Fatah e Yasser Arafat. Não se incomodando com exageros, proclamou-a como a primeira batalha que os israelitas haviam perdido, e os simpatizantes por todo o mundo árabe, ainda marcados pela humilhação que constituíra a Guerra dos Seis Dias de 1967, estavam ansiosos por ouvir notícias de vitórias militares, mesmo que elas fossem mais do que duvidosas. O financiamento vindo dos países ricos do Golfo e os voluntários vindos da diáspora palestiniana multiplicaram-se e a Fatah, de uma entre várias, tornou-se na organização preponderante na OLP, com o seu dirigente máximo, Yasser Arafat, a passar a presidi-la em 1969, enquanto adquiria um protagonismo internacional charmoso reservado apenas a alguns líderes guerrilheiros (Mao, Fidel, Che Guevara).
Dito isto, e mudando totalmente de tema mas não de forma de raciocínio, o que interessará depois de contados os votos no próximo dia 25 não será propriamente a crueza dos resultados, que acredito sejam uma derrota mais ou menos severa para a coligação governamental. Isso, como em Karamé, é a própria batalha eleitoral de que depois ninguém se lembrará. O que me interessa descobrir é quem vai conseguir (se houver quem o consiga…) convencer os seus da valia dos resultados alcançados.
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06 março 2008
O CALOR DO MÊS DE SETEMBRO DE 1970
Cronologicamente, a narrativa dos acontecimentos que então transformaram o Médio Oriente, pode começar pelo dia 1 de Setembro de 1970, quando o Rei Hussein da Jordânia (abaixo) sofreu um atentado perpetrado por desconhecidos nas ruas de Amã. O acontecimento é apenas o clímax de um enorme e evidente mal-estar resultante da convivência entre as Forças Armadas jordanas e os guerrilheiros palestinianos das várias facções da OLP*, que estavam aboletados desde 1967 nos campos de refugiados situados à volta da capital jordana.
Estava a haver uma verdadeira disputa de soberania sobre o território jordano entre os locais e os deslocados palestinianos, traduzida em escaramuças quotidianas entre os dois lados, o exército jordano e os guerrilheiros da OLP; para agravar o problema, a direcção recém-empossada da OLP (uma coligação encabeçada por Yasser Arafat) só conseguia exercer uma autoridade razoável sobre o braço militar da organização de Arafat (a Al-Fatah), e quase nenhuma sobre as restantes organizações ainda mais radicais que compunham a OLP.Foi uma delas, a FPLP* dirigida por George Habash (abaixo), que resolveu subir a parada do conflito, montando uma operação onde se pretendiam desviar simultaneamente vários aviões comerciais ocidentais. Em 6 de Setembro, um Boeing 707 da TWA (norte-americana) e outro da Swissair (suíça) foram desviados para a Jordânia, mas a tentativa de desviar um terceiro Boeing-707 da El Al (israelita) fracassou, registando-se a morte de um dos assaltantes e a prisão do outro – uma activista destinada a ficar famosa, de nome Leila Khaled.
Simultaneamente, um outro grupo da FPLP, ao ser-lhe barrado o acesso ao voo que pretendiam desviar, teve de improvisar, e acabaram por vir a desviar um Boeing-747 da Pan Am (norte-americana). O fracasso no avião da El Al, juntamente com o improviso, estragou um pouco o plano de operações de Habash, pois os aviões desviados estavam destinados a concentrarem-se numa antiga base militar britânica controlada por eles, situada em pleno deserto jordano (Zarka - abaixo), cuja pista não tinha capacidade de receber um Boeing-747.O Boeing-747 da Pan Am acabou por ser redesviado para o aeroporto do Cairo, onde a atitude surpreendentemente pouco encorajadora do regime egípcio de Gamal Nasser para mediar a situação, levou George Habash a decidir mandar fazer explodir o aparelho depois de o evacuar, logo no dia seguinte (dia 7). E dia 9, a FPLP dava mostras da sua versatilidade ao desviar mais um avião para Zarka, um VC-10 da BOAC (britânica) com quem se impunha negociar, pois eram os britânicos que tinham ficado com a custódia de Leila Khaled.
Num ciclo negocial complexo onde houve libertações, mas também aquisições (as dos passageiros do avião de dia 9) a FPLP chegou a ter 298 reféns consigo. No dia 11, por decisão de Arafat, os reféns foram transferidos para o Hotel Intercontinental em Amã, que estava em poder dos guerrilheiros, e no dia seguinte a OLP resolveu ordenar a libertação de todos os passageiros, com excepção dos israelitas que estivessem em idade militar. Cumprindo, mas protestando, a FPLP fez explodir simultânea e espectacularmente os aviões vazios (abaixo).Tudo isto se passara em território jordano, e o que se passara colocava totalmente em causa a autoridade do Rei e do próprio Estado. A partir de dia 15, desencadeia-se uma verdadeira guerra civil para submeter os palestinianos, que receberam apoio militar dos vizinhos sírios e iraquianos, enquanto os Estados Unidos caucionaram a acção jordana enviando para o Mediterrâneo Oriental a sua esquadra. O Egipto e a União Soviética (apenas) verbalizaram os protestos que se esperavam e Israel manteve-se prudentemente calado.
Consta dos relatos que o exército jordano foi perfeitamente implacável na forma como desalojou os guerrilheiros que se abrigaram nos campos de refugiados, aproveitando o momento psicológico favorável para se mostrarem insensíveis às baixas entre os refugiados civis que os confrontos pudessem provocar. Mesmo descontando exageros, os números que se falam para os 10 dias de combate, rondam os 10 mil mortos… A 25 de Setembro, Yasser Arafat viu-se obrigado a assinar um cessar-fogo com o Rei Hussein.Os Palestinianos acabaram baptizando toda esta sequência de eventos por Setembro Negro, nome que ainda mais se veio a justificar para eles quando a 28, Gamal Abdel Nasser, o Presidente do Egipto (abaixo), veio a morrer subitamente de ataque cardíaco. O apoio de Nasser à causa palestiniana era mais verbal que substancial (note-se a forma como se demarcara do Jumbo que a FPLP fizera aterrar no aeroporto do Cairo…) mas o seu prestígio junto das massas árabes era inegável, e o seu discurso confrontacional com Israel um endosso à sua causa.
Quase precisamente 31 anos antes do 11 de Setembro de 2001, as acções da FPLP de George Habash nesse Setembro quente assustaram seriamente os países ocidentais, pela facilidade demonstrada como podiam desencadear operações de terrorismo concertadas e bem sucedidas para um determinado fim político. Mas se, do ponto de vista operacional, é possível ligar a FPLP à Al-Qaeda, fazendo da primeira uma antepassada longínqua da segunda, ideologicamente essa associação é um disparate monumental.George Habash morreu recentemente (em Janeiro de 2008), e houve muitos obituários que abusaram dos disparates, especialmente das analogias com o terrorismo islâmico de Ossama Bin-Laden. É que os movimentos terroristas mais radicais dentro da OLP, como a FPLP ou a FDPLP* (símbolo abaixo), além de se reclamarem de uma ideologia marxista-leninista laica, foram fundadas e/ou foram dirigidos por palestinianos árabes mas de origem cristã, como eram os casos de George Habash, Nayef Hawatmeh ou Wadie Haddad…
* Acrónimos:FDPLP – Frente Democrática Popular de Libertação da Palestina. Actualmente FDLP.
FPLP – Frente Popular de Libertação da Palestina
OLP – Organização de Libertação da Palestina
21 julho 2007
OS MIRAGE III E OS MIG 21, OS COW-BOYS E OS ÍNDIOS DO AR
O Estado de Israel passou os primeiros 20 anos da sua existência (1948-67) a desenvolver um notável programa de capitalização das simpatias alheias, a começar pelos sentimentos de remorso dos países vencedores da Segunda Guerra Mundial. Poucos saberão que a União Soviética de Estaline foi a primeira potência a reconhecer o Estado de Israel e que a Checoslováquia foi um dos seus primeiros fornecedores de material de guerra. Só depois, a lógica da Guerra-Fria os colocou em campos opostos.
O sucesso do programa constatava-se nos princípios de 1967 quando o bloco ocidental em peso tomava como suas as penas de Israel no conflito israelo-árabe. Depois, Israel passou os 40 anos seguintes a ser muito mais selectivo nas opiniões públicas que procurava cativar (Estados Unidos), até chegar à situação actual, onde a hostilidade europeia o levou a desenterrar o fantasma do congénito anti-semitismo europeu… Mas isso, não interessa agora para a nossa história.
O sucesso do programa constatava-se nos princípios de 1967 quando o bloco ocidental em peso tomava como suas as penas de Israel no conflito israelo-árabe. Depois, Israel passou os 40 anos seguintes a ser muito mais selectivo nas opiniões públicas que procurava cativar (Estados Unidos), até chegar à situação actual, onde a hostilidade europeia o levou a desenterrar o fantasma do congénito anti-semitismo europeu… Mas isso, não interessa agora para a nossa história.
Pelo contrário, nessa outra encarnação eram os norte-americanos que eram antipáticos e não queriam fornecer a aviação militar aos israelitas que se equilibrasse áquela que os soviéticos estavam a fornecer aos países árabes. Foi a oportunidade de ouro de ver os produtos da indústria francesa (os caças Mirage III – primeira fotografia) a participarem no que era percebido como uma frente de combate da Guerra-Fria contra o último grito da tecnologia soviética (os caças Mig 21 – fotografia de baixo).
Nesta disputa explicada com a simplicidade de um jogo de crianças, com cow-boys bons e índios maus, a reputação do Mirage III cresceu subitamente, como se fosse impulsionada por um afterburner (ou pós-combustão*), devido ao sucesso israelita na Guerra dos Seis Dias, em Junho de 1967, que começou a ser ganha quando os israelitas adquiriram superioridade aérea sobre os árabes: os combates terrestres – donde Israel saiu sempre vitorioso – foram todos travados sob um céu israelita…Sob essa impressão de superioridade técnica, o Mirage III tornou-se um poderoso argumento da política externa francesa junto da generalidade dos países árabes, especialmente os produtores de petróleo. Assim, em 1970, por exemplo, a França acordou vender 50 Mirages III à Líbia, numa transacção aparentemente absurda para um país que tinha naquela época uma força aérea militar incipiente. O tema foi levado também para a ficção, nomeadamente através da BD de Tanguy e Laverdure (abaixo).
O emirato dessa ficção chamava-se Sarrakat, ficava algures na península Arábica, era riquíssimo em petróleo (claro está!) e o emir designado chamava-se Azraf, estava a formar-se incógnito como piloto de caça na força aérea francesa e era baixinho e com um bigode fino, parecia decalcado da figura do rei Hussein da Jordânia. Os maus tinham usurpado o trono e comprado Migs 21 e Azraf, quando chegasse ao trono, iria provavelmente comprar muitos Mirages III, que os bateriam em combate aéreo (abaixo)…
A verdadeira História é outra… A esmagadora maioria da aviação árabe (incluindo os Mig 21) foi abatida no solo – como se vê na fotografia abaixo, onde ainda se nota a silhueta do Mirage III de reconhecimento, encarregado de avaliar os estragos… – e os resultados dos combates individuais no ar travados naquela Guerra, embora fossem globalmente favoráveis aos israelitas, isso resultava muito mais do melhor treino fornecido aos seus pilotos do que às características técnicas dos aparelhos que pilotavam…
O que os israelitas pensavam realmente da superioridade dos Mirage III face à tecnologia soviética, veio a compreender-se depois, quando eles não descansaram enquanto não equiparam a sua força aérea, no final da década de 70, com caças F-15 de origem norte-americana e não impediram os seus potenciais oponentes – nomeadamente o Egipto – de os vir a adquirir. Hoje, os F-15 – um caça que é só operado por israelitas, sauditas e japoneses, além do país de origem... – ainda constituem a coluna vertebral da sua força aérea…* Dispositivo acoplado aos tradicionais motores a reacção que permite, à custa de um consumo de combustível múltiplo do normal, obter acelerações significativas. Só costuma ser usado pela aviação militar.
17 maio 2007
AS TRÊS GUERRAS E AS TRÊS COMISSÕES EM ISRAEL
As três guerras convencionais e de alta intensidade que Israel travou desde a sua existência (1956, 1967 e 1973) foram todas muito breves. Dados os factores estratégicos dominantes, Israel nunca se pôde dar ao luxo de vencer os seus inimigos por exaustão. A guerra que durou mais tempo foi precisamente a última com tais características que Israel travou, e que foi baptizada de Guerra de Yom Kippur, por referência à data do feriado religioso judeu (6 de Outubro de 1973) em que egípcios e sírios desencadearam o seu ataque simultâneo.
Durou precisamente 21 dias (de 6 a 26 de Outubro), o que foi imenso pelos padrões das guerras anteriores (9 dias em 1956 e 6 dias em 1967) e isso aconteceu porque Israel passou metade desse período a perder a guerra tacticamente: o seu contra-ataque contra os egípcios só data de 15 de Outubro de 1973. E, para o levar a cabo, ficou a percepção que, se não fosse o armamento e munições que os Estados Unidos enviaram de urgência em ponte aérea para Israel (Operação Nickel Grass), o contra-ataque nunca teria condições materiais para ter tido lugar…
Durou precisamente 21 dias (de 6 a 26 de Outubro), o que foi imenso pelos padrões das guerras anteriores (9 dias em 1956 e 6 dias em 1967) e isso aconteceu porque Israel passou metade desse período a perder a guerra tacticamente: o seu contra-ataque contra os egípcios só data de 15 de Outubro de 1973. E, para o levar a cabo, ficou a percepção que, se não fosse o armamento e munições que os Estados Unidos enviaram de urgência em ponte aérea para Israel (Operação Nickel Grass), o contra-ataque nunca teria condições materiais para ter tido lugar…
Essa foi uma grande humilhação para quem tanto prezava a sua autonomia estratégica, que tinha até levado Israel, numa fase anormal de embriaguez na fase final da guerra precedente (8 Junho de 1967), à provável ousadia de atacar por mar e ar um navio de espionagem electrónica norte-americano (USS Liberty), causando 34 mortos e 173 feridos entre a sua tripulação. É um episódio que permanece ainda hoje controverso (as explicações israelitas permanecerão duvidosas) e sobretudo esquecido, dada a vontade das duas partes em minorá-lo.Mas a outra verdade é que a Guerra terminou tacticamente de uma forma claramente vantajosa para Israel. A suspensão das hostilidades foi um alívio para o exército egípcio que se encontrava completamente cercado. Na outra frente (síria), os blindados israelitas estavam prontos para avançarem até Damasco. Tudo acabou bem mas, como no apuramento do Benfica para a final da Taça dos Campeões de 1990 contra o Marselha, ficou nos israelitas um travo amargo na vitória, como o do golo irregular de Vata…
Tratar-se-á adiante do impacto da Guerra na sociedade israelita mas, entre as suas elites e em termos estratégicos, os países árabes haviam conseguido demonstrar-lhes, que a sua opinião sobre a situação estratégica de Israel se assemelhava aquela que o IRA veio a sintetizar no futuro, depois de falharem um atentado contra Margaret Thatcher em Brighton em 1984: Hoje não tivemos sorte, mas lembrem-se que só é preciso que tenhamos sorte uma vez. Vocês vão precisar de ter sempre sorte*.
Na sociedade israelita, a forte sensação de segurança colectiva que ficara da vitória esmagadora de Junho de 1967 perdeu-se logo na primeira semana de guerra, quando as notícias das frentes pareciam tão graves que levavam a pôr em causa a própria sobrevivência do Estado de Israel. E foi esta sensação geral de que a Guerra acabou bem, mas correu mal, que esteve por detrás da decisão do governo de Golda Meir da formação de uma Comissão, denominada Agranat a partir do nome do juiz presidente.
Tratava-se de uma Comissão com aqueles objectivos clássicos de encontrar bodes expiatórios que aliviassem uma situação política incómoda ao governo, como se percebe das conclusões e recomendações finais: as demissões do Chefe de Estado-Maior do Tsahal**, dos dois responsáveis principais das Informações do Estado-Maior, a aposentação compulsiva do comandante da Frente do Sinai (que combateu contra o Egipto) e a transferência compulsória de outros oficiais de informações de patente inferior.No entanto, as conclusões do relatório, saído em Abril de 74, foram consideradas como demasiado benignas quanto às responsabilidades políticas atribuíveis quer à primeira-ministra Golda Meir, quer ao ministro da Defesa, Moshe Dayan. O facto acabou por provocar um efeito de ricochete e os dois políticos tiveram que se demitir. E assim se criou o precedente de que relatórios de objectivo semelhante ultrapassassem a fronteira da avaliação técnica dos acontecimentos para se pronunciarem também sobre a responsabilidade política.
Quanto às lições estratégicas de Outubro de 1973, elas foram absorvidas e parcialmente solucionadas com a redução dos inimigos externos de Israel, através da assinatura dos Tratados de Camp David entre Israel e o Egipto (1978). Meia dúzia de anos depois da Guerra do Yom Kippur (1973) e uma dúzia depois da dos Seis Dias (1967), Israel havia estabelecido acordos e um modus vivendi com dois dos três países inimigos com cujos exércitos o seu se confrontara naquela altura (Egipto e Jordânia).
Na perspectiva israelita, apenas restava o problema civil dos palestinianos dentro das fronteiras de segurança de Israel e o militar dos dois países do Norte de Israel, Síria e Líbano, muito embora o problema do segundo fosse passível de gestão através de um sistema de apoios e equilíbrios entre as facções militares em que o poder libanês se decompusera no seguimento da Guerra Civil libanesa de 1975. No entanto, o status quo foi considerado insatisfatório por Israel em 1982, quando o Tsahal invadiu o Líbano, para desalojar dali os guerrilheiros da OLP, que flagelavam o norte de Israel.
A invasão do Líbano em Junho de 1982 tornou-se o padrão dos novos conflitos para onde Israel se tem visto arrastado, onde não existe uma verdadeira contestação ao seu poder militar mas onde os seus oponentes se evadem a reconhecer-lhe politicamente as vitórias militares, fazendo o tempo arrastar-se a seu favor. Entretanto, enquanto se espera, a disputa transfere-se para a conquista das simpatias da opinião pública. Foi o que fizeram Yasser Arafat e a OLP naquela altura, cercados pelo Tsahal em Beirute.Do ponto de vista militar o Tsahal invadiu o Líbano pelo Sul, derrotou os dispositivos militares que se lhe opuseram, chegou até Beirute onde cercou a OLP, podê-la-ia ter eliminado militarmente. Mas a solução política para a disputa já se arrastava há três meses quando Israel deixou que se cometesse uma manobra colateral por parte de milícias libanesas suas aliadas que ficou conhecida pelo Massacre de Sabra e Chatila*** (acima) e que se tornou para si num completo desastre em termos mediáticos.
Também nesta ocasião se formou posteriormente uma Comissão (Kahan) que, a propósito das responsabilidades israelitas no referido massacre, analisou também o beco estratégico para onde Israel fora conduzido com a invasão do Líbano. Dados os precedentes, a Comissão foi severíssima nas conclusões do seu relatório, recomendando a demissão do ministro da Defesa (Ariel Sharon), do responsável dos serviços de informações do Estado-Maior e a despromoção efectiva do oficial responsável pelo comando em Beirute.
É irónico como o conteúdo do relatório chegou mesmo ao limite de sugerir que Sharon não devesse voltar a ocupar mais cargos como governante israelita para o futuro… Mas também é simbólico como, após o precedente da Comissão Agranat, esta Comissão quis evitar o erro da redacção de um relatório anódino e, na dúvida, preferisse arriscar pelo excesso. Na realidade, essa sugestão da Comissão Kahan não teve efeito e Ariel Sharon veio mesmo a tornar-se primeiro-ministro de Israel…
Recordando os acontecimentos da invasão do Líbano de 1982, foi impressionante quanto a de 2006 repetiu precisamente os mesmos erros estratégicos de 24 anos antes, até nos pretextos demasiado despropositados para justificar o começo das operações****, e apenas tendo mudado o oponente, da OLP para o Hezbollah. Pior, o dispositivo táctico de defesa do terreno do Hezbollah havia evoluído comparativamente melhor com o estudo da invasão precedente do que parecia ter acontecido com as tácticas ofensivas de Israel…Depois de um mês (entre Julho e Agosto de 2006) em que Israel progredia penosamente no terreno e andava à procura de um interlocutor válido que lhe fizesse concessões políticas rapidamente, mas sem o encontrar (sempre o factor tempo…), houve que apelar para a ONU, para as tais forças de interposição robustas e para o seu bluff (pífio) que Israel ainda podia desencadear uma escalada militar – como se Israel se dispusesse a sofrer uma outra degradação da sua imagem com as vitimas da escalada, igual à das vítimas do massacre de 1982…
A Comissão Winograd, cujas conclusões foram recentemente tornadas públicas, em 30 de Abril de 2007, foi constituída precisamente para se pronunciar sobre o conflito travado no Verão passado. Neste caso – e não surpreendentemente, conhecidas as conclusões das suas antecessoras – a Comissão concluiu por críticas severas à conduta do primeiro-ministro Ehud Olmert, à do ministro da Defesa Amir Peretz e à do Chefe de Estado-Maior do Tsahal, Dan Halutz.
Há que reconhecer que escrever postes pode implicar um exercício de simplificação. No entanto esse exercício não pode ser levado a extremos que deturpem a essência das ideias. Por tudo aquilo que escrevi atrás, considero que tentar associar e equiparar, ainda que subtilmente, as conclusões das Comissões Agranat e Winograd além das guerras que as antecederam, para além de platitudes que sempre se podem escrever a esse propósito (ambas serem israelitas ou terem sido presididas por juízes...), é um exercício descabido, como o que José Pacheco Pereira fez no seu blogue, num poste do passado dia 6 de Maio*****.
José Pacheco Pereira excede-se tanto na imagem de erudição que cultiva tão cuidadosamente para o exterior que, às vezes, mesmo involuntariamente e por falha nossa, somos levados por ela. Ele não é obrigado a saber tudo. Ele nem sequer é obrigado a saber muito. Mas talvez devesse reconhecer que há assuntos em que o radicalismo das suas opiniões o leva a escrever demais sobre assuntos em que afinal parece saber pouco. Talvez este seja um desses casos… Podemos compartilhar a sua simpatia por Israel, como bastião do ocidentalismo numa terra que o não é, não podemos é adoptar uma atitude de simpatia e tolerância acrítica (qual nacionalismo emprestado…) em relação aos erros estratégicos que comete…*Today we were unlucky, but remember we only have to be lucky once. You will have to be lucky always.
** Tsahal – Tsva Hahagana LeYisrael (Forças de Defesa de Israel), Forças Armadas israelitas
*** Campos de refugiados palestinianos situados no Líbano.
**** Em 1982 foi uma tentativa de assassinato de um grupo terrorista radical (Abu Nidal) ao embaixador israelita em Londres, em 2006 foi o rapto de dois soldados israelitas.
*****O recente relatório Winograd sobre a Segunda Guerra do Líbano, muito crítico do governo de Olmert e da liderança militar, não é inédito na tradição da democracia israelita. A Comissão Agranat, analisando a guerra conhecida como a do Yom Kippur, por se ter iniciado nesse dia de feriado judaico em 1973, foi também um documento duríssimo, que levou ao afastamento de alguns dos militares mais prestigiados do exército israelita, como o general Elazar e o chefe dos serviços de informação militar, e atingiu Moshe Dayan e Golda Meir, respectivamente Ministro da Defesa e Primeiro-Ministro. O Relatório Agranat (como o Relatório Winograd) gerou manifestações violentas contra a liderança política e militar de Israel e acabou por ter consequências políticas a médio prazo muito significativas.
E no entanto... os israelitas ficaram a um passo de ganhar a guerra e colocar os seus tanques nos arrabaldes de Damasco e do Cairo e só não foram mais longe porque os americanos lhes fizeram um ultimato, obrigando-os a parar. (…)
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