23 outubro 2018

A ESTREIA DOS «SCHTROUMPFS»

23 de Outubro de 1958. No número 1071 da Spirou, uma revista semanal belga de BD, aparecem pela primeira vez os schtroumpfs. As simpáticas criaturas azuis completam hoje 60 anos, o que não é nada para quem conheça o seu universo: os schtroumpfs tem todos largas décadas de idade, aquilo que confere, por exemplo, ao Grande Schtroumpf a sua autoridade de ancião são os seus 542 anos. O meu primeiro contacto com eles aconteceu quase precisamente treze anos depois, a 21 de Outubro de 1971, que foi a data da saída do primeiro número da Spirou portuguesa, que incluía uma aventura dos schtroumpfs intitulada A Schtroumpfzinha (abaixo). Recordo-me ainda que um dos momentos mais interessantes do início da história (veja-se a última prancha exibida) é o momento em que o feiticeiro Gargamel cria por artes mágicas a schtroumpfzinha, especialmente a forma como enumera os ingredientes que usa para conferir uma «natureza feminina a uma estatueta»: «Um pouco de garridice... Um pouco de espírito de decisão... Três lágrimas de crocodilo... um cérebro de pintarroxo. Pó de língua de víbora... um bocadinho de manha... um dedo de tecido de mentira, cozido com fio branco, evidentemente... um alqueire de gulodice. Um quarteirão de má-fé... um dedal de inconsciência... um traço de orgulho... um pouco de inveja... uma fatia de pieguice... uma parte de estupidez e uma parte de esperteza...» Enfim, estão lá todos os preconceitos que fariam as activistas da causa do género de agora entrar num transe de indignação! Um pouco mais a sério e na minha opinião, as histórias do schtroumpfs, apesar do seu sucesso comercial subsequente, circunscrevem-se a um nível etário limitado de leitores e não são, por isso, grandes histórias de BD. Mas talvez seja isso que faz de mim um tradicionalista férreo a seu respeito: schtroumpfs e nunca smurfs; schtroumpfzinha e não estrumpfina

22 outubro 2018

A TROCA DE CIDADÃOS NA ÍNDIA PORTUGUESA

22 de Outubro de 1943. Em Mormugão (Goa), dão-se por concluídos os procedimentos de mais uma permuta de cidadãos de países beligerantes que se encontravam do lado errado quando da eclosão da guerra. Neste caso, a permuta envolvia cidadãos de países aliados que se encontravam em territórios controlados pelo Japão e cidadãos nipónicos que residiam na América do Norte ou do Sul. Cada uma das partes transportava os cidadãos do inimigo num navio até um porto neutral escolhido por ambas, para aí proceder ao transbordo e identificação dos cidadãos entregues e recebidos. No caso da guerra na Ásia, Portugal desempenhava nestas operações um papel incontornável, pois era o único país que permanecera neutral e que dispunha de territórios e portos no Oceano Índico onde se podiam processar tais operações. Para não serem atacados pelos submarinos, os navios que as realizavam estavam enfaticamente identificados como se pode ver pelas fotografias acima. O navio usado pelos Aliados navegava até sob pavilhão sueco, o Gripsholm; o usado pelos japoneses era um antigo navio francês, o Aramis, que haviam rebaptizado de Teia Maru depois de o apresarem em 1942. A viagem deste último, desde a saída de Yokohama em 14 de Setembro até chegar a Mormugão um mês e um dia depois, explicará mais em concreto em que consistiam estas «trocas de cidadãos». Saído com 80 passageiros do Japão, foi embarcar mais 975 a Xangai a 19 de Setembro, 24 a Hong-Kong a 23 de Setembro, foi buscar mais 130 às Filipinas a 26 de Setembro, 27 ao Vietname em 30 de Setembro e ainda 289 a Singapura em 5 de Outubro. Ao chegar a Mormugão, em 15 de Outubro de 1943, o Teia Maru trazia 1.525 passageiros. Havia muitos membros do clero, padres e freiras, também missionários protestantes, também havia executivos de empresas norte-americanas que operavam na Ásia e respectivas famílias. A grande maioria era norte-americana (1.233), mas também havia canadianos (217), alguns britânicos, mas também cidadãos de outros países neutrais (15 chilenos) que haviam preferido abandonar os países que os albergavam. No dia seguinte chegou o Gripsholm, que havia realizado uma viagem semelhante, trazendo a bordo os 1.340 cidadãos japoneses que regressavam também ao seu país. Os dois navios ficaram acostados próximos, como a fotografia acima documenta, mas foi só três dias depois, a 19 de Outubro, após a identificação de todos os passageiros, que o transbordo de pessoas e bagagens teve lugar. Depois de conferido, o Teia Maru largou a 21 de Outubro para Yokohama, via Singapura e Manila, o Gripsholm fê-lo no dia seguinte (há precisamente 75 anos) para Nova Iorque, via Porto Elizabeth (na África do Sul) e Rio de Janeiro. Nesse dia a United Press publicava dois pequenos despachos em que dava conta da satisfação das duas partes pela forma como a operação tinha decorrido. Era um ponto a favor de Portugal.

21 outubro 2018

AZAD HIND - O COLABORACIONISMO QUE NÃO FOI RENEGADO

21 de Outubro de 1943. Constitui-se em Singapura o Governo Provisório da Índia Livre (Arzi Hukumat-e-Azad Hind), encabeçado por Subhas Chandra Bose (1897-1945). Subhas Bose fora um dos dirigentes destacados do Congresso indiano antes da Guerra, mas acabara por entrar em conflito com Gandhi e abandonara a organização em 1939. Com a eclosão daquela, as divergências acentuaram-se: ao neutralismo pacifista de Gandhi, contrapunha-se a aliança tácita com o inimigo do inimigo que era proposta por Bose, no que era acompanhado por uma facção mais radical dos nacionalistas indianos. Bose acabou por fugir para a Alemanha, onde ajudou a formar uma unidade militar indiana formada por antigos prisioneiros de guerra que depois combateu ao lado dos alemães. Já aqui foi referida no Herdeiro de Aécio. Mas o interesse de Subhas Bose (e a utilidade de o empregar pelas potências tutelares...) estava muito longe da Europa. Era na Ásia, onde os exércitos japoneses que ocupavam a Birmânia ameaçavam a Índia, que se combinavam o interesse do próprio e de quem se dispunha a patrociná-lo. Em 1943, Subhas Chandra Bose realizou uma prolongada e complexa viagem de submarino que o levou para o outro lado do mundo. Partido em Fevereiro desse ano da Alemanha num submarino alemão, a viagem envolveu um transbordo para um submarino japonês em Madagáscar, a meio do percurso, que só se veio a concluir com a sua chegada a Singapura em Maio. Os japoneses também já haviam pensado em recrutar entre os seus prisioneiros de guerras de origem indiana um exército de auxiliares que combatesse ao seu lado contra os britânicos. Contudo, terá sido a alavanca política representada pela presença e propaganda de Subhas Bose, a quem se passara a dar o título honorífico de Netaji (Líder Respeitado em hindi/urdu), que terá feito com que os efectivos desse exército indiano de libertação (o INA - 43.000) correspondesse a cerca de ⅔ dos efectivos totais de prisioneiros indianos capturados pelos japoneses durante o conflito (64.500).
Claro que nem todos os membros do INA haviam sido prisioneiros, como se pode constatar, aliás, por esta fotografia acima, em que a unidade é feminina, mas a elevadíssima percentagem de alistamentos tornou-se um daqueles embaraçosos segredos de guerra, guardado ferreamente pelos britânicos, tanto mais que ela contrasta com a percentagem de 20% de adesões que se havia registado no caso dos prisioneiros de guerra indianos na Europa. Aliás, tão ou mais importante do que a quantidade, a maioria dos oficiais e sargentos de origem indiana que enquadravam as tropas também aderiu ao INA. O Governo Provisório que se constituiu há precisamente 75 anos é o apex político desse esforço de mobilização. Apesar de aparecer fardado nas fotos, Subhas Chandra Bose nunca havia tido qualquer experiência militar. A avaliação séria do desempenho deste outro exército indiano é afectada pelos preconceitos distintos (mas coexistentes) de britânicos e japoneses e dos seus relatos. Como projecto político, a Azad Hind não iria durar dois anos. Afundou-se conjuntamente com o Japão em Agosto de 1945. Pessoalmente, Subhas Chandra Bose morreu em 18 de Agosto de 1945, em consequência dos ferimentos resultantes de um acidente de aviação. Mas a questão política daqueles que haviam pegado em armas contra a Índia colonial continuou a subsistir. Quando as autoridades britânicas quiseram, depois do fim da guerra, levar a julgamento os responsáveis políticos e militares que haviam pegado em armas contra o Raj, depararam-se com a oposição dos nacionalistas. Terá sido até a última vez em que o Congresso e a Liga Muçulmana agiram de forma concertada, pois entre os réus tanto havia hindus como muçulmanos. Para surpresa dos britânicos, e ao contrário dos princípios que vigoravam na Europa que fora ocupada, ter-se sido colaboracionista ao serviço de uma potência hostil não funcionava como um estigma na Índia. Num ambiente que cada vez mais se adensava contra a sua presença, os britânicos tiveram que desistir da sua intenção. Mais do que isso, na Índia actual e como se pode constatar pelo vídeo abaixo, Subhas Chandra Bose é considerado um grande herói nacional.

20 outubro 2018

«QUE A SUA ALMA DESCANSE EM PAZ» (JÁ QUE O SEU CORPO FOI SERRADO AOS PEDAÇOS...)

Finalmente as autoridades sauditas admitiram o que todos estavam cansados de saber: que os próprios haviam assassinado o antigo assessor governamental, agora jornalista exilado, Jamal Khashoggi. A explicação é ridícula mas, num remate de falta de jeito, perante um audiência já bem pouco tolerante, reconheça-se, a nota do reconhecimento remata com a invocação piedosa para que a alma do defunto descanse em paz (Que a sua alma descanse em paz). É bonita de se ver tal preocupação das autoridades sauditas com a alma já que, por aquilo que se foi sabendo entretanto e em contraste, o corpo terá sido serrado em bocados mais portáteis de transportar para fora do consulado na Turquia, onde o assassinato teve lugar. Mas todo este processo merecer-nos-á algumas reflexões políticas adicionais, que não tenho encontrado exploradas na comunicação social. Não há nada de mais humilhante para um regime do que uma operação de serviços secretos que corre mal. E não importa a natureza desse regime: a grande França, potência nuclear e país de pergaminhos democráticos, passou uma vergonha imensa ao ser apanhada a afundar um barco do Greenpeace na Nova Zelândia em 1985. Nós, por cá também tivemos algo idêntico àquilo que agora aconteceu em Istambul, quando do assassinato de Humberto Delgado em Espanha em 1965. As especulações sonsas e hipócritas então feitas por Salazar à frente das câmaras de televisão («...a nós convinha que falasse, a outros conviria mais o silêncio...») bem podem servir de inspiração agora para aquilo que possamos ouvir dizer ao príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman. Mas, para que um fiasco seja consagrado, é preciso que um serviço rival exponha a operação. Não aconteceu de forma exuberante no caso de Delgado com os espanhóis, mas os americanos, que tinham (e mantêm) o Greenpeace sob protecção, e os turcos neste último caso, que decorreu, aliás, no seu próprio país, foram prestimosos em alimentar a comunicação social com os detalhes sórdidos das operações. Eloquente quanto ao papel importante da Turquia em todo o incidente, o secretário de Estado norte americano Mike Pompeo deslocou-se primeiro à Arábia Saudita, mas depois também à Turquia, muito embora os holofotes tivessem ficado quase todos em Riade, quando o que é importante é o que os Estados Unidos têm para oferecer à Turquia em troca do seu capital de queixa. Por esta vez, a atitude da administração Trump não se distingue das que a antecederam (talvez com a excepção da de Obama) na indulgência como lida com os sauditas: arrasta os pés no reconhecimento daquilo que é óbvio, embora Donald Trump confira à obtusidade um requinte muito pessoal. Em suma, tudo aponta para que, na grande ordem internacional, o assassinato de Jamal Khashoggi, depois deste apogeu de escândalo, se resuma a um momento embaraçoso de Mohammad bin Salman, como outrora os outros haviam sido para Salazar e François Mitterrand. Ou, para fazer um trocadilho irónico ao jeito daquelas declamações sentidas de Pedro Abrunhosa, que podiam significar tudo e o seu contrário (atente-se à letra): «É preciso ter calma, não dar o corpo pela (i)alma»...

19 outubro 2018

QUANDO A POLÍTICA AMERICANA SE TORNA UMA PALHAÇADA SÉRIA...

Eu cresci a considerar que passagens de entrevistas como a que se pode ler acima seriam cenas de uma comédia. Podemos imaginar, por exemplo e há 75 anos, a famosa personagem do bigode pintado de Groucho Marx a gabar-se absurdamente de ter um tio que lhe transmite saber científico por ondas electro-magnéticas e isso com o ar mais sério deste mundo. Porque é isso que acima faz Donald Trump. O problema é que actualmente e na América, a coisa é publicada como se fosse a sério e há que esperar pelos programas humorísticos da noite, para gozar com aquilo.

A NOITE SANGRENTA

19 de Outubro de 1921. Nessa noite desencadeia-se a revolta militar e os acontecimentos trágicos que culminarão com o assassinato de António Granjo, presidente do Ministério, e de outros políticos de nomeada da República portuguesa. Mas, mais do que os desmandos sangrentos e inconsequentes da acção revolucionária, o que é interessante recordar é o destaque e o estilo como os acontecimentos eram noticiados há 97 anos, aprecie-se a sobriedade das primeiras páginas das edições dos três dias seguintes do Diário de Lisboa. Como é que hoje se noticiaria o assassinato de um primeiro-ministro em funções?...

UMA PROIBIÇÃO CONTRAPRODUCENTE


19 de Outubro de 1988. O governo de Margaret Thatcher, na pessoa do ministro do Interior, Douglas Hurd, emite uma proibição que impede os órgãos de comunicação britânicos de transmitir as vozes dos membros de onze organizações radicais do Ulster. Pretendendo-se aparentemente abrangente, e elegendo na proibição organizações tanto católicas quanto protestantes, a medida tem como alvo mais evidente o IRA. Como sempre dissera a «dama de ferro», «era preciso encontrar formas de privar os terroristas do "oxigénio de publicidade" que os alimentava». Foi (mais) uma daquelas ideias que são brilhantemente formuladas do ponto de vista teórico e depois desastradamente implementadas do ponto de vista prático. A proibição não contava, evidentemente, com a colaboração da corporação de rádios e televisões. E a letra da lei prestava-se a ser contornada. As imagens de Gerry Adams (acima, dirigente do IRA e MP absentista por Belfast West) podiam ser transmitidas, apenas aquilo que dizia não e a solução residiu em pôr alguém a dobrar Gerry Adams. Além do capital de queixa, o método acrescentava-lhe a vantagem de tornar a mensagem do visado mais inteligível para o grande público, visto que Gerry Adams tinha um sotaque irlandês cerrado... Falo por experiência própria: quando o comecei a "ouvir" em canais ingleses, via satélite na Sky News, estranhei o expediente mas nunca tive problemas em "o" entender; mas quando a proibição foi levantada em 1994, já sob o governo de John Major, passei a perder metade do que o Gerry Adams genuíno dizia... A esta distância de trinta anos, pode dizer-se que, se a ideia estava certa, não foi uma medida muito inteligente da senhora Thatcher.

18 outubro 2018

O PRESENTE E O PASSADO

18 de Outubro de 1978. Esta notícia de há quarenta anos prova quanto as guerra comerciais entre a Europa e os Estados Unidos são assunto antigo. A dias de se realizarem as mid-term elections de 1978, os congressistas endureciam as suas posições negociais tendo em conta os interesses dos seus eleitorados domésticos. O passado não foi tão risonho quanto, às vezes, o querem fazer. Mas isso obriga a que se identifique qual é o verdadeiro problema actual nas relações transatlânticas que o distingue do que acontecia no passado: a ameaça que se percebe à estabilidade internacional, causada por um aumento indisfarçável da conflitualidade, está a ser provocada pelo actual presidente dos Estados Unidos.

O SALTO PERFEITO


18 de Outubro de 1968. Jogos Olímpicos do México. Provas de Atletismo. Competição de Salto em Comprimento. O primeiro saltador a iniciar o concurso é um norte-americano longilíneo (1,91 de altura!) de 22 anos chamado Robert (Bob) Beamon. É considerado o favorito, apesar da sua qualificação para a final ter sido algo acidentada: falhara as marcações nos dois primeiros saltos e só ao último é que se apurara. O salto que (acima) os telespectadores viram Bob Beamon realizar é tecnicamente irrepreensível, como se pode comprovar visivelmente pela localização das marcas que ele deixa na areia ao aterrar. Beamon abandona o local do salto satisfeito com o mesmo, mas ainda sem ter tomado total consciência do feito que acabara de realizar. Depois disso, encadeiam-se os episódios bizarros. Por um lado, não se conseguia medir o salto com o sistema óptico ali instalado porque o local de aterragem de Beamon estava situado para além do local coberto por esse sistema de medida (ia apenas até aos 8,50); foi preciso ir buscar uma fita métrica e recorrer aos velhos processos manuais para a medição. O resultado obtido, quando anunciado, 8,90 metros, tornava-se um novo recorde mundial da especialidade. Mas que recorde!!! Representava uma progressão de 55 cm em relação ao recorde anterior num só salto, numa modalidade onde o recorde mundial demorara 30 anos (1935 a 1965) a aumentar uns míseros 22 cm, dos 8,13 metros de Jesse Owens (famoso pela sua participação nos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936) para os 8,35 metros alcançados por Ralph Boston, que também estava presente naquela mesma competição. Foi esse mesmo Boston, atleta mais experiente (campeão olímpico em Roma), que teve de fazer a conversão da famosa marca de 8,90 metros para as medidas norte-americanas em pés e polegadas, de maneira a que o próprio Beamon se apercebesse da dimensão da proeza atlética que acabara de realizar... Quando isso aconteceu, Beamon teve um ataque de cataplexia, foi-se abaixo das pernas. Só realizou mais um salto válido (8,04), mas isso deixara de ser importante: o título olímpico ficara decidido, o seu recorde mundial iria perdurar por 23 anos, ainda é o recorde olímpico. Cinquenta anos passados, é considerado um dos momentos históricos do atletismo, aquele que foi o Salto Perfeito.

17 outubro 2018

AL CAPONE E DONALD TRUMP

17 de Outubro de 1931. Al Capone é condenado por evasão fiscal. Depois de anos de esforços para o condenar por acusações mais substantivas e graves (veja-se na sua ficha criminal acima as tentativas que se faziam, desde 1919, para o condenar, sempre sem efeito), o famoso gangster acabou por ser condenado a dez anos de prisão, devido ao seu nebuloso estatuto como contribuinte... Haverá uma certa hipocrisia na sentença, já que a nebulosidade seria compreensível, bastaria atentarmos nos ramos de actividade ilegais a que Al Capone se dedicava. Este destino de Al Capone, assassino e muitas outras coisas mas condenado por evasão fiscal à falta de melhor acusação, mostrou que, para a cultura americana e quando necessário, todos os expedientes podem ser lícitos. O exemplo de Capone voltou recentemente à ordem do dia: se e quando se tornar necessário afastar Donald Trump, a questão da evasão fiscal já foi ventilada, na eventualidade de não existir melhor pretexto para o remover da presidência.

16 outubro 2018

PORTUGAL E AS GUERRILHAS DE ÁFRICA

Para quem (como eu) esperasse de um livro com este título uma outra abordagem dos três conflitos africanos, uma obra que rivalizasse com o (tornado) clássico Contra-Insurreição em África de John P. Cann (de 1998), este livro vem a revelar-se uma completa desilusão. Melhor que o título, são as imagens da capa, avulsas e desgarradas, as que melhor descrevem o conteúdo. Este é o relato de um punhado de visitas (não se chega a perceber quantas, talvez meia dúzia) que o autor realizou aos três teatros de guerra (Angola, Guiné e Moçambique) quando Portugal ali esteve empenhado entre 1961 e 1974. Al Venter é um jornalista sul-africano que se especializou em cobrir conflitos militares. O livro resulta extenso (mais de 500 páginas) mas absolutamente superficial porque é uma colagem de reportagens e, como tal, fica-se sempre pela rama dos aspectos que aborda. Resultaria mais palatável se Venter ao escrevê-las não tivesse adoptado aquela atitude tão tipicamente britânica - que depois veio a ser herdada por rodesianos e sul-africanos - de pretender que «nós (eles) é que percebemos de contra-subversão: olhem para os nossos sucessos na Malásia e no Quénia». Isso por contraponto ao que aconteceu aos americanos no Vietname, aos franceses na Indochina e na Argélia e aos portugueses nestas suas três colónias. Irrita ler a atitude sobranceira de Venter quando a História é o que foi e o desmente. Rodesianos e sul-africanos acabaram precisamente no mesmo sítio que os outros três, derrotados politicamente: África do Sul e Zimbabwe têm hoje governos de maioria negra. E quanto aos britânicos, se o seu domínio das tácticas de contra-subversão era assim tão excelente porque é que saíram de outras colónias - estou a lembrar-me da Palestina em 1948 ou do Iémen do Sul em 1967- com o rabo entre as pernas? Venter é um veterano cuja curva de aprendizagem evoluiu lentamente, quando chegou a evoluir. A repetição das suas visitas, por exemplo, não o motivou a aprender um português mínimo. Aquilo que ele consegue recolher dos locais que visita ressente-se disso, já que apenas uma fracção ínfima dos combatentes (dos dois lados) domina o inglês. E isso agrava a superficialidade do que escreve. Neste livro, que é uma versão traduzida para português do original, o leitor é confrontado com um chorrilho de asneiras facilmente detectável por um nacional. São muitas, são demasiadas e de vários géneros, aqui vão quatro exemplos sortidos.
Esta vem nos livros de História: Bartolomeu Dias foi o primeiro homem a dobrar o Cabo da Boa Esperança. O Cabo da Boa Esperança fica na África do Sul e Venter é sul-africano... 
Esta seria só para especialistas, se não estivesse acessível na wikipedia: o NRP Pacheco Pereira foi a fragata HMS Bigbury Bay da classe Bay. O detalhe é irrelevante mas, se é para o mencionar, que o faça correctamente.
Acredito que, antes dos portugueses em geral, a primeira pessoa a surpreender-se com a sua própria descrição como um intelectual terá sido Otelo Saraiva de Carvalho («Se tivesse mais cultura política, seria o Fidel Castro da Europa»). Também não se sabia que as FP-25 eram anarquistas...
Esta de fazer do Avante!, jornal oficial do Partido Comunista Português, um «jornal de Luanda» é simbólica de que Venter, estando a pretender escrever reportagens sobre portugueses em guerra, não sabe nada sobre Portugal.

Em suma, livro medíocre, apenas recomendável aos incondicionais do tema. O autor tem muitas opiniões sobre o que os portugueses deveriam ter feito, normalmente copiando o que os ingleses haviam feito na Malásia ou o que os rodesianos iriam fazer no Zimbabwe, mas por outro lado, e através do quilate destes erros constantes, é perceptível que uma boa parte da guerra, e sobre o que ela pensavam os seus protagonistas, lhe passou completamente ao lado...

A DETENÇÃO DE AUGUSTO PINOCHET. SERÁ QUE OS DITADORES PODEM SER JULGADOS?

16 de Outubro de 1998. Augusto Pinochet é detido em Londres às ordens de um tribunal britânico, respondendo às solicitações de extradição oriundas de um tribunal espanhol. O general chileno e antigo presidente da Junta Militar que governara o país de 1973 a 1990, então com quase 83 anos (mas que apenas abandonara o comando das Forças Armadas chilenas há uma meia dúzia de meses), deslocara-se ao Reino Unido para tratamento médico a uma hérnia e encontrava-se até internado quando a ordem de detenção fora executada. Entre os especialistas legais das diplomacias chilena e britânica que haviam analisado a deslocação, ninguém se apercebera das potencialidades acrescidas da integração europeia da década de 1990. Contudo, essas potencialidades haviam feito ruminar uma ideia num juiz espanhol sedento de publicidade (Baltazar Garzón) que, querendo indiciar Augusto Pinochet pela execução de cidadãos espanhóis durante a ditadura, se aproveitou da sua presença num país da União Europeia para lhes solicitar a sua extradição. As acusações tinham ressonância: genocídio, terrorismo, tortura, desaparecimento de pessoas.
Mais do que as manifestações pró e contra a detenção que as televisões se apressaram a transmitir, a iniciativa foi um descomunal embaraço para as diplomacias envolvidas e para todo um protocolo de comportamento adoptado por elas. Um protocolo onde se subentende que um país anfitrião não inferniza a vida de antigos ditadores quando eles abandonam o poder e se exilam - afinal, o próprio Chile fizera isso mesmo quando acolhera Erich Honecker, o antigo ditador comunista da República Democrática Alemã, após a reunificação alemã. Neste caso dos britânicos e de Pinochet, acrescia o facto de os primeiros lhe deverem favores concedidos em tempos de necessidade, pelo apoio dado pelo Chile ao Reino Unido quando da Guerra das Malvinas (1982). Ao pedido de extradição e ao estupor que se seguiu (mas estas coisas não era só para fazer aos nazis?), seguiu-se uma complexa batalha legal onde era inequívoca para que lado pendia a posição do governo britânico (apesar de ser trabalhista). Em termos mediáticos e como se pode observar pelas fotos, a canónica de Pinochet, de óculos escuros e braços cruzados desafiantes, em 1973, foi substituída pelas de um velhinho amparado que mal se conseguia mexer.
Do outro lado, furos jornalísticos oportunamente surgidos faziam saber que o general que tanto se empenhara pela salvação da sua pátria, afinal detinha milhões em contas no estrangeiro. Em termos judiciais, os que interessam, o governo britânico recusou-se terminantemente a extraditar Augusto Pinochet para Espanha, alegando razões de saúde. Mas a situação gerada pelo pedido espanhol, considerando a gravidade das acusações que sobre si pendiam, era, só por si, um impasse: o antigo ditador esteve em prisão domiciliar mais de um ano (503 dias), até que alguém se lembrou do expediente de o levar a uma junta médica britânica que o declarou irremediavelmente senil e incapaz de ser submetido a julgamento. Os britânicos aproveitaram a oportunidade para o extraditar... mas para o Chile. Mas, nem mesmo no Chile natal, Pinochet se livrou da perseguição jurídica pelos seus actos no poder. A iniciativa de Gárzon desencadeara uma moda, mas a facção dos que o defendiam era aí também mais substancial. Quando morreu, em Dezembro de 2006 (ou seja, mais de oito anos depois desta notícia de há vinte anos), ainda Pinochet estava a contas com a justiça... que nunca lhe conseguiu pôr a mão em cima.

15 outubro 2018

NOTÍCIAS À VOLTA DO QUE PARECE ÓBVIO


Convém realçar o que é óbvio: que a melhor solução para resolver o problema do desaparecimento do jornalista saudita seria que ele reaparecesse. É por isso que, ou ele resolveu pregar uma partida à noiva e quis deixá-la plantada à porta do consulado saudita em Istambul, ou então esta atitude rufiã que está sendo adoptada pela Arábia Saudita, ao sentir-se ameaçada se não der explicações aceitáveis sobre o incidente, me parece mais do que eloquente sobre aquilo que lhe terá acontecido. E o óbvio é que, mesmo que a Turquia não seja um comparsa neutro na trama, não deve haver agora maneira de o desaparecido reaparecer. É que os mistérios da ressurreição são mais fenómenos teológicos do cristianismo que não do islão... E, vem a propósito, vale a pena agora recordar o que na revista Foreign Policy se escrevia há onze meses, analisando as rivalidades naquela região na perspectiva norte-americana e os desequilíbrios que a nova política externa de Donald Trump lá fora provocar: «Donald Trump soltou a Arábia Saudita que sempre desejámos - e tememos». Aí está ela...

A DESTITUIÇÃO DE LIU SHAOQI

15 de Outubro de 1968. Um canto da última página do Diário de Lisboa informava o leitor da destituição de Liu Shaoqi (escrevia-se então Liu Shao-Chi). Liu era o presidente da República Popular da China, embora o poder na China, como era tradicional em todos os países comunistas, pertencesse a quem dirigisse o partido, e o partido era dirigido por Mao Zedong (Mao Tse Tung). Como também era comum com as modificações políticas importantes ocorridas nos países comunistas, esta notícia fora obtida indirectamente, captada em Hong Kong através de uma transmissão da rádio Pequim, a leitura de um editorial do jornal Bandeira Vermelha, artigo onde se anunciava que «todos os elementos anti-revolucionários, dirigidos pelo Khrushchev da China» (forma elíptica de o insultar, por referência ao antigo dirigente soviético que fora o oponente de Mao durante a fase da cisão sino-soviética), «haviam sido descartados e jogados no caixote do lixo da história». Liu (cujo nome nunca fora mencionado) «deixara de ter poder e autoridade tanto no partido quanto no governo. E a proclamação da grande vitória proletária constitui mais do que uma afirmação, tornou-se num facto». As imagens da China daquela época da Revolução Cultural, livrinhos vermelhos brandidos ferozmente e palavras de ordem declamadas como invectivas (na foto abaixo o visado é Liu Shaoqi ) são um desafio para a compreensão das gerações que se seguiriam.

14 outubro 2018

A BATALHA AÉREA PELA PRODUÇÃO DE ROLAMENTOS


14 de Outubro de 1943. A USAAF lança um raid de bombardeamento estratégico sobre a Alemanha que envolve 291 bombardeiros B-17. O alvo é a anónima cidade de Schweinfurt na Baixa Francónia, situada nas plácidas margens do rio Meno (49.000 habitantes em 1939), onde os norte americanos elegeram como alvo a adjacente, mas única, fábrica de rolamentos que existe em toda a Alemanha. O ambicioso objectivo do raid é entravar a produção industrial de guerra do III Reich, privando-a do discreto mas precioso dispositivo, que é indispensável para múltiplas aplicações de equipamentos industriais. Cada B-17 transporta duas toneladas de bombas: são quase 600 toneladas de explosivos que aquela verdadeira armada aérea transporta para arrasar com as instalações fabris. E, ao invés do que faz a RAF, a USAAF continua a preferir realizar os seus raids durante o dia, para que se obtenha uma maior precisão de bombardeamento. Este raid de há precisamente setenta e cinco anos sobre a Alemanha vai mostrar o preço terrível que se pode pagar por estas acções quando as forças de caça do inimigo estão preparadas para reagir. De uma forma simétrica ao que acontecera três anos antes sobre a Grã-Bretanha, a Luftwaffe caiu em cima das formações da USAAF. Dos 291 aviões B-17 que participaram na missão, 60 foram abatidos em voo,...

...17 regressaram tão danificados que acabaram descartados, outros 121 receberam danos que eram reparáveis. Apenas 32%, ou seja, só um em três dos B-17 que participaram no raid é que aterraram incólumes. Os custos humanos foram ainda mais terríveis: dos 2.910 homens das tripulações (um B-17 possuía uma tripulação padrão de 10 homens) houve 650 baixas (22%), sendo 600 dados como desaparecidos em combate (os tripulantes dos aviões abatidos) e ainda 50 mortos e feridos entre as tripulações dos aviões que conseguiram regressar. A esmagadora maioria dos 600 desaparecidos havia morrido com os aviões que se despenhavam. No final da guerra, em 1945, só se vieram a encontrar 65 prisioneiros que haviam participado no raid (11%). E contudo, o mais irónico perante tão sérias perdas é que o apuramento dos factos veio a revelar que o objectivo estratégico fora mal configurado. É verdade que a fábrica de rolamentos de Schweinfurt ficara destruída e que a sua produção cessara durante seis semanas. Mas nunca houvera qualquer problema de aprovisionamento da parte da indústria alemã. Havia stocks de segurança e, além disso, não se tratando de uma produção directamente conotada com material militar, os alemães abasteciam-se regularmente de rolamentos em produtores suecos e suíços, que eram países neutrais.

O ÚLTIMO COMBATE DO NRP AUGUSTO DE CASTILHO

14 de Outubro de 1918. A Grande Guerra está a menos de um mês do seu fim mas disso não sabia a tripulação do NRP Augusto de Castilho (acima) quando recebeu a missão de escoltar o navio San Miguel, que transportava 54 tripulantes, 206 passageiros, assim como várias toneladas de carga e que, tendo partido originalmente de Lisboa, acabara de escalar o Funchal (Madeira), prosseguindo agora a viagem até Ponta Delgada nos Açores. Como se percebe pela silhueta, o Augusto de Castilho não era um verdadeiro navio de guerra, concebido de origem para o efeito, apenas um arrastão armado (um naval trawler para empregar a terminologia de referência da Royal Navy),...
...uma antiga embarcação de pesca que fora reconvertida para uso militar através da colocação de peças de artilharia. Neste caso concreto do Augusto de Castilho, haviam sido duas: uma de 65 mm à proa e outra de 47 mm na ré. A comandá-lo encontrava-se o 1º Tenente Carvalho Araújo. Pelo raiar da aurora de há cem anos, os dois navios foram detectados pelo submarino alemão SM U-139, comandado por um veterano dos U-Boot, o capitão-tenente Lothar von Arnauld de la Perière. Dispondo de duas peças de 150 mm, o poder de fogo do submarino, mesmo à superfície e não fazendo uso dos torpedos, era incomensuravelmente superior ao da embarcação armada portuguesa.
Os alemães começaram a fazer fogo às 06H15. O que os navios portugueses podiam fazer eram apenas acções evasivas, nomeadamente criar uma cortina de fumo artificial que lhes permitisse a fuga enquanto o Augusto de Castilho atraía para si as atenções disparando a peça situada à ré. Em desespero de causa, o capitão Carvalho Araújo acabou por ordenar que o seu navio desse meia volta, aproando ao submarino, num sacrifício consciente, para que se aumentasse as possibilidades de fuga do San Miguel. A acção durou umas duas horas ao fim das quais o NRP Augusto de Castilho fora seriamente danificado, o seu capitão fora mortalmente atingido mas o San Miguel conseguira fugir.
Na perspectiva portuguesa tratou-se de um feito de armas que enobrece a sua Marinha de Guerra, o comandante Carvalho Araújo foi condecorado e promovido a título póstumo. Mas do ponto de vista da Kaiserliche Marine, há qualquer coisa de perturbador na banalidade como aquele assunto terá sido encarado pelos veteranos dos U-Boot, ao descobrir-se que uma parte da acção esteve a ser filmada(!). Ora, isto de transportar uma pesada máquina de filmar para o espaço confinado de um submarino e depois instalá-la na ponte, durante um combate, não deve ter sido tarefa simples. Mas, para o terem feito, é porque não devem ter considerado o combate muito renhido...

OS «FACT CHECK» DO OBSERVADOR: É COMO ENCARREGAR UM LADRÃO DE DESCOBRIR QUEM FOI O AUTOR DE UM ROUBO...

Observador strikes again. No caso, elege um daqueles argumentos de discussão política que apenas são formalmente verdadeiros e que foi apresentado por João Galamba do PS nas redes sociais - a Moody's colocou Portugal no lixo quando o primeiro-ministro era Passos Coelho, não Sócrates - para concluir com o veredicto de que a frase é enganadora. Para além do que se seguirá, apetece-me comentar que que aquele jornal se notabiliza acima na denúncia daquilo em que, nos casos em que a posicionamento político é o inverso, tanto se esmera: mostrar-se económico com a Verdade. No caso em referência, o que no Observador acusam - e bem - Galamba é que ele não se pode esquecer que quando a Moody's baixou o rating da dívida portuguesa para uma categoria de "lixo" (e logo 4 níveis! - veja-se o gráfico abaixo) tinha o governo de Passos Coelho um par de semanas de vigência. Não é que eu não tenha visto naquele jornal argumentos mais forçados que esse mas, a bem da isenção, resulta forçado atirar a responsabilidade da desclassificação efectuada por aquela agência de notação em Julho de 2011 exclusivamente para o colo de Passos Coelho.
Mas o assunto resulta muito maior do que a frase de Galamba. Porque há outras agências de notação que a frase de Galamba não menciona mas que, mesmo assim, no Observador se sabe que existem. E essas agências de notação foram mais cautelosas na avaliação da situação, nomeadamente levando em conta que em Portugal houvera uma mudança de governo. Nomeadamente a S & P, como se vê no gráfico abaixo, concedeu ainda ao governo de Passos Coelho o benefício da dúvida seis meses depois, mantendo a notação, para depois, já em Novembro de 2012 e com o governo em exercício já há cerca de ano e meio baixar efectivamente a notação em dois níveis, para o nível de "lixo". Se, no caso da Moody's, o facto de João Galamba ter endossado a responsabilidade do rebaixamento do rating da dívida pública para Passos Coelho era excessivo, abandonando a frase e no quadro mais vasto do que aconteceu com a nossa reputação junto das agências de rating, há uma evidente co-responsabilização de Passos Coelho por nos ter prometido a reversão da situação para onde Sócrates nos atirara e que fracassou colossalmente.
Porque convém não esquecer - e sobre isto desconfio que no Observador não estarão interessados em realizar fact checks - aquilo que o PSD prometia aos portugueses três meses antes da sua chegada ao poder, em Março de 2011 (abaixo). Na opinião do então dirigente do gabinete de estudos do partido, Carlos Moedas, hoje comissário europeu (o que leva a concluir que, quando destinados a singrar, os mariolas bem podem prometer não importa o quê...), prometia então o comissário europeu Moedas que as reformas que um futuro governo do PSD iria aplicar fariam o rating de Portugal subir: «essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal». Por muito que o ministro Centeno faça umas celebrações despropositadas a respeito da saída da categoria de "lixo" pela Moody's, é de rigor reconhecer que, sete anos e meio depois, o rating de Portugal nas várias agências de notação nem sequer voltou aos níveis que possuía em Março de 2011. Os tais que Moedas prometeu que subiriam com o PSD no governo... E que tal o Observador realizar um Fact Check sobre as profecias visionárias do comissário Moedas quando regressarmos à reputação que tínhamos em princípios de 2011?...
Em suma, se foi José Sócrates quem nos pôs na merda, não foi Pedro Passos Coelho que nos conseguiu tirar de lá.

13 outubro 2018

A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA

13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
 
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
 
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.

12 outubro 2018

A ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS DO MÉXICO

12 de Outubro de 1968. Abertura oficial dos Jogos Olímpicos do México. Embora já em 1964, nos jogos de Tóquio, tivesse havido alguns (poucos) eventos olímpicos que haviam sido transmitidos pela televisão para todo o Mundo, em directo e via satélite, foi só em 1968, nestes jogos olímpicos do México e com o desenvolvimento exponencial das telecomunicações por satélite, que a transmissão desses acontecimentos desportivos em directo se veio a banalizar. Por uma primeira vez, e como tão bem chamava a atenção este programa de época da BBC, para acompanhar ao vivo a programação dos jogos era preciso levar em conta a diferença horária de 7 horas existente entre Londres (e Lisboa) e a cidade do México.

E, transmitido em directo, o exercício de uma ginasta não desaparecia no meio da montagem de um documentário genérico sobre a Olimpíada. Percebeu-se que várias modalidades desportivas podiam ser um espectáculo televisivo em si.

A INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ EQUATORIAL

12 de Outubro de 1968. Há cinquenta anos, a Espanha concedia a independência à sua pequena colónia da Guiné Equatorial. A relação histórica da Espanha com a África subsaariana fora apenas um acidente e, por acaso, da nossa responsabilidade, portugueses, quando, em 1778, lhes havíamos dado uns territórios naquelas paragens à troca de outros na América do Sul. Numa das fotografias da cerimónia podemos ver os altos responsáveis espanhóis paramentados com aquelas fardas claras e bandas atravessadas no peito, que se tornaram tão simbólicas da Espanha franquista e dos regimes ditatoriais latino-americanos. Do outro lado, as novas elites, mais escuras, tanto nos fatos como na cor da pele, parecem muito compenetradas com a solenidade do momento. A presença dos primeiros torna-se depois discreta na fotografia que exibe a tribuna de honra, onde apenas se nota a presença de Manuel Fraga Iribarne, o ministro da obscura pasta da Informação e Turismo, que ficou encarregue de representar Espanha nas cerimónias.
Todo o processo de transferência desse frete é eloquente do que a Espanha franquista pensava da Guiné Equatorial e da importância da descolonização daquele novo país: descartada - evidentemente! - a possibilidade da presença do próprio generalíssimo Francisco Franco na cerimónia, a representação de Espanha competiria na ordem protocolar de precedências ao chefe de governo, o almirante Carrero Blanco, que se descartou transferindo a função para o seu ministro dos Assuntos Exteriores, Fernando María Castiella, que arranjou qualquer coisa urgentíssima para fazer em Washington DC precisamente nessa altura. Quando a música desse jogo das cadeiras parou, foi Manuel Fraga Iribarne que não se conseguiu sentar, e é assim que o temos a dar a cara pela Espanha franquista na entrega do poder ao futuro ditador Francisco Macías Nguema. Quanto à (mitigada) ressonância que o acontecimento teve então entre os espanhóis, vale a pena apreciar a primeira página de um dos jornais franquistas desse dia 12 de Outubro de 1968 - o Pueblo - em que a proclamação sobre o Dia Histórico que se viveria não aparece muito sustentada em palavras; em contraste e em imagens, a foto que o jornal escolhe para destaque é a de Franco - que, recorde-se, não quisera ir à Guiné - a cortar umas fitas de uns novos acessos a Madrid, bem ao jeito das cerimónias que por cá nós tão bem conhecíamos quando protagonizadas pelo presidente Américo Thomaz.
A propósito e cá por Portugal, na reacção a um gesto que não podia deixar de ser lido pela comunidade internacional como uma brecha na solidariedade ibérica (se até os espanhóis concedem a independência às suas colónias, porque é que os portugueses persistem em recusar-se a falar sequer do assunto?), o enfâse da notícia era dado ao facto de que uma guarnição militar de 3.500 homens permaneceria no país.