19 junho 2021

A INDISSOCIÁVEL AMIZADE LUSO-BRASILEIRA

19 de Junho de 1971. Um dos axiomas da imagem da política externa do último período do Estado Novo era a da indissolubilidade da aliança luso-brasileira. E podemos apreciar uma expressão desse entusiasmo (que não era propriamente recíproco) nesta notícia de há cinquenta anos, que nos fala da aceitação do emprego de sucedâneos nos cafés solúveis. Sendo ambos grandes países produtores, e como seria de esperar, os dois países mostravam-se contrários à prática de adicionar outros produtos torrefactos (cevada, chicória, centeio) ao café original, uma prática que apenas desvalorizava o produto. Por causa desse estatuto conjunto, os dois países também não desdenhariam cooperar na gestão do preço do café nos mercados internacionais. Mas também ainda por causa disso, sendo o Brasil o maior produtor mundial e Portugal o quarto produtor mundial através da produção angolana, também eram evidentes as rivalidades dos dois países pela conquista de quotas de mercado. Mas destas últimas disputas não se falava nos jornais portugueses...

QUANDO OS INCÊNDIOS, MESMO GRANDES, SÓ ERAM NOTICIADOS NA PÁGINA 11

19 de Junho de 1981. A notícia do controle do incêndio que grassara na Serra de Sintra era remetida para uma discreta página 11 do jornal. E contudo, o sinistro tinha tudo para ser um destaque: perdurara durante quatro dias; tivera lugar nas redondezas de Lisboa, na serra de Sintra; tivera dimensão, mobilizara «cerca de 500 homens de quase vinte corporações de bombeiros» e fora mesmo «considerado o segundo maior de sempre naquelas riquíssimas matas»; para rematar, e infelizmente, registara-se um acidente de viação que custara a vida de um bombeiro. Mas, apesar de todos esses atributos, não era a moda do jornalismo da época puxar tais tragédias para primeira página. Isso estaria guardado para o aparecimento das televisões privadas e a popularização dos directos ígneos. Até ao clímax de mau gosto mórbido representado pela cobertura do incêndio de Pedrógão Grande, dominada pelas imagens dos carros ardidos na estrada, que terá constituído o desmoronar desse voyeurismo em 2017. Porém, ainda sinal daqueles tempos, se a notícia termina com a costumeira atribuição da origem do incêndio aos incendiários, «provavelmente a soldo». Eram tempos em que, sem qualquer hesitação, Marx e as razões económicas prevalecia sobre Freud e as razões psiquiátricas, quanto a explicações quanto ao que motivava a pulsão dos incendiários.

18 junho 2021

VOCACIONADO PARA UMA CARREIRA MUITO PROMISSORA...

18 de Junho de 1931. «Doutoramento em Direito. Terminaram ontem na Faculdade de Direito de Lisboa, as provas de doutoramento em Ciências Económicas e Políticas do sr. dr. Marcelo Caetano, que concluiu brilhantemente a defesa da sua tese, tendo merecido do juri uma honrosa aprovação.» Há que esclarecer que, por detrás do destaque noticioso, há 90 anos, os doutoramentos eram muito mais raros do que na actualidade. Em vias de completar 25 anos, Marcelo Caetano (ainda não adquirira o duplo l identificativo no seu nome próprio - Marcello) desabrochava para a carreira académica e, sobretudo, para a carreira política que o guindaria à presidência do Conselho de Ministros no Outono de 1968.

«A PAREDE DE LETRAS»

18 de Junho de 1951. A página 4 do Diário de Lisboa ostenta este artigo de Tavares da Silva, jornalista e treinador de futebol. Ocupa uma página inteira, descontando duas fotografias para aliviar(?) a leitura e um canto com publicidade. O interminável texto tem por tema a selecção belga que actuara no nosso país, mas, nem me disponho a transcrever uma passagem que seja, só para demonstrar o quão soporífero é. Não é o relato de um jogo, não é um tratado de táctica de futebol, é uma dissertação. E a dissertação ocupa uma página inteira, sem folgas. Há 70 anos tinha-se a ousadia de publicar coisas destas em jornais, sob a impunidade de que não haveria coragem para as classificar por aquilo que são: insuportavelmente chatas para os leitores medianos. Hoje, felizmente, há um outro dinamismo e até se criaram expressões próprias para estes episódios: isto denomina-se «Wall of Text» - concretamente, uma parede de letras. Só mesmo os mais dedicados é que a lêem.

17 junho 2021

PASSOS COELHO E AS REFORMAS «EM CONFRONTO»

Não vale a pena perder tempo... à excepção dos/das groupies de Pedro Passos Coelho, sempre exuberantíssimos nas redes sociais.

A HERANÇA DE ROMA

Porque me escapou a data certa para comemorar a efeméride, assinalo assim desta maneira endireitada os vinte anos (e um mês!) do lançamento de A Herança de Roma. Como quase se tornou lugar comum confessá-lo nestas ocasiões, se fosse escrito agora o livro seria muito diferente. Aliás, nem sei se ainda valeria a pena ser um livro.
O que se mantém é o meu fraquinho pela capa, e por aquela águia cravada em plenas terras lusitanas, projectando a sua sombra sobre a Europa, copiando um dos desenhos de contracapa dos álbuns de Astérix.

«O MAIS BEM PAGO CORO MASCULINO DE TODO O MUNDO»

17 de Junho de 1941. Só num regime como a Alemanha nazi, em que o poder estava personalizado completamente em Adolf Hitler, é que os rumores do anúncio de uma próxima convocação da assembleia nacional (o Reichstag) podiam ser levados à conta de uma hipotética ameaça política, que urgia desmentir. como se comprova naquela notícia de jornal de há oitenta anos. As muito conhecidas eleições alemãs de Março de 1933, incluindo o conhecido episódio do incêndio do edifício do Reichstag, haviam dado a primeira maioria clara (mas não absoluta!) ao partido Nacional Socialista. Estes, tiveram que proceder depois a algumas purgas (comunistas) e alianças (nacionalistas) para que os nazis dispusessem da maioria de deputados que votasse as leis que representaram a emasculação das prorrogativas legislativas da própria câmara de que faziam parte. Logo depois de constituído esse novo quadro legal nazi, com o Führer a concentrar todos os poderes em si, é que tiveram lugar umas outras eleições para o Reichstag, ainda em 1933, em 12 de Novembro, só que desta vez apenas concorreu uma lista única... que recebeu 92% dos votos e ocupou todos os lugares do parlamento. A cena repetiu-se em 1936 e 1938, como scores eleitorais ainda melhores, se possível: 99% dos votos e, obviamente, a mesma unanimidade na representação! As sessões parlamentares passaram a ser muito raras: por exemplo, o Reichstag só se reuniu por sete vezes durante os quase seis anos da Segunda Guerra Mundial. E era um disparate especular que possuiriam alguma autonomia, como a notícia acima levaria a crer. Para as raras sessões, os parlamentares compareciam uniformizados nas suas fardas SA e SS, batiam muitas palmas, e claro que não havia propriamente debates, porque, depois da abertura da sessão pelo presidente Hermann Göring, só costumava haver um orador: Adolf Hitler. Como essas sessões costumavam acabar ao som dos dois hinos nacionais, Deutschlandlied e Horst Wessel Lied, cantados com todo o entusiasmo, o característico espírito de humor sarcástico dos berlinenses - as cenas passavam-se em Berlim - classificava o conjunto de 876 deputados como «o mais bem pago grupo coral masculino de todo o mundo».

16 junho 2021

A DESERÇÃO DE RUDOLF NUREYEV

16 de Junho de 1961. Rudolf Nureyev (1938-1993), considerado o mais destacado bailarino russo e a cabeça de cartaz do ballet Kirov, que se encontrava então em digressão pelo Ocidente, deserta, pedindo asilo político em França. Seria um acontecimento perfeitamente inócuo se: a) Os países comunistas não investissem nestas digressões culturais como actos de propaganda de regime e b) Os cidadãos desses países comunistas pudessem viajar para o exterior com liberdade. Assim como era, esta foi mais uma de muitas defecções que a propaganda ocidental adorava publicitar.

15 junho 2021

O QUE É SOCIALMENTE EXÓTICO ENTRE OS «FAMOSOS», NOS DIAS QUE CORREM...

Através de uma publicação denominada Hiper, fiquei a saber que a locutora e humorista Joana Marques havia estado, esta Segunda Feira «no programa “Casa Feliz” da SIC, conduzido por Diana Chaves e João Baião.» Passando adiante rapidamente os pormenores da estadia, o que se me tornou interessante na notícia foi o seu remate, que a dá como mãe de dois filhos, ambos do marido. Pelos vistos, e por valer a pena ser especificado, tratar-se-á de algo exótico entre as famosas nos dias que correm, ter logo um par de filhos, assim, com a mesma pessoa...

OS «PREOCUPANTES GRAUS DE EROSÃO» DOS PARTIDOS NO PODER

15 de Junho de 1981. Quarenta anos depois e invertidas as posições, não nos surpreenderia ler do PSD um comunicado salientando o «preocupante grau de erosão» do PS. Talvez não no mesmo suporte, que os comunicados saíram há muito de moda e a comunicação política processa-se agora em tweets pretensamente pessoais.

14 junho 2021

O FARELO E A FARINHA DA CENSURA PORTUGUESA

No provérbio tradicional português, critica-se quem poupa no farelo para depois gastar em farinha. O exemplo que aqui quero recuperar, desta notícia de jornal de há precisamente 75 anos é uma derivação dessa mesma ideia, mas aplicada aos mecanismos da censura da imprensa portuguesa em vigor à época. Repare-se como, na notícia, se evita empregar a expressão sindicatos, recorrendo-se em vez disso à expressão inglesa «trade-unions». É demasiado óbvio para ser casual, para mais quando, se fosse para preservar a expressão original, não seria a da língua inglesa, mas a da língua alemã: «Gewerkschaft». Afinal, a notícia é originária de Berlim... Constatados todos estes cuidados dedicados à semântica da designação do cargo do orador da conferência de imprensa, um senhor chamado Roman Chwalek, quem conhecesse (e ainda conheça) quais as posições defendidas pelas potências aliadas ocupantes da Alemanha, aperceber-se-ia que a transcrição do discurso constituía uma defesa completa das posições então defendidas pela União Soviética: «somos absolutamente contrários a qualquer espécie de separatismo ou federalismo na Alemanha». Ou seja: na forma a palavra sindicato era censurada; mas na substância, a mensagem soviética (comunista) era transmitida cristalinamente. E se dúvidas houvesse, e se o censor se tivesse dado ao trabalho de analisar o curriculum de Roman Chwalek, o orador que dissera aquelas coisas tão interessantes em prol da unidade alemã, descobriria que ele era militante comunista desde 1922, e que fora mesmo deputado daquele partido no Reichstag entre 1930 e 1933. Nem valia a pena adivinhar quem o colocara naquele cargo e lhe estava a dar aquela projecção... E claro que Chwalek estaria previsivelmente fadado para uma carreira ministerial na futura República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), onde o podemos apreciar nesse cargo na fotografia abaixo de 1954. Com uma censura como a portuguesa, os comunistas até podiam passar as suas mensagens, que a preocupação era não mencionar que eram oriundos dos «sindicatos»! 

13 junho 2021

AQUILO QUE LHE FAZ FALTA PARA ALÉM DO ESTUDO...

A estes artigos não se deve dar demasiada importância, parece que valem imenso no fim de semana em que são publicados, mas depois acabam enterrados nos escaninhos da memória. Contudo, este texto de José Pacheco Pereira publicado ontem mereceu-me o destaque por ser surpreendentemente medíocre. É um texto que, para além de arrogante, demonstra uma inteligência limitada, demonstrativo que, para certas circunstâncias, o estudo não é tudo. Eu explico.
Tomemos o exemplo deste quiz, de que eu gosto muito, porque simbólico, daquilo que, por vezes, se torna necessário para responder com sucesso a um problema. Neste caso concreto, a questão é a de saber qual o número que está escondido por debaixo do carro que está estacionado. Não vou deixar aqui a resposta correcta (vou escondê-la na caixa de comentários deste poste), mas posso adiantar que, para lá chegar, é preciso recuar naquilo que tomamos por convencionado, para procurar uma nova abordagem para o problema. E asseguro-vos que, para obter a resposta certa, não há qualquer estudo que se substitua à inteligência (a não ser a hipótese de já se ter encontrado um quiz semelhante...). Há ocasiões em que o estudo não é tudo... Parece-me ser, mais acima, o problema de José Pacheco Pereira (e da sua geração), que, nunca o tendo permitido nos seus tempos de activo, já não consegue alcançar como reformado (72 anos!) o distanciamento intelectual para aceitar que haja avaliações sectoriais válidas do desempenho do Estado Novo, que não o condenem obrigatoriamente (ao Estado Novo) pelos resultados. Não é questão de estudar, é questão de preconceito, de estar amarrado a uma só formulação do problema. A argumentação de José Pacheco Pereira não apenas não é inteligente; também não trata os que o lêem como tal. Por causa disso, merece esta retribuição.

...A FRACÇÕES DE SEGUNDO DOS DISPAROS

As duas fotografias deste poste têm precisamente um mês de diferença entre elas: 13 de Maio de 1981 a de cima e 13 de Junho de 1981 a de abaixo. Trata-se de dois atentados contra Chefes de Estado, o Papa João Paulo II em Roma e a Rainha Isabel II em Londres e dá-se ainda a espantosa circunstância das duas fotografias terem sido acidentalmente tiradas precisamente antes dos autores dos atentados terem começado a disparar sobre os seus alvos. Mas o resto das histórias diferem substancialmente. Os tiros da pistola de Mehmed Ali Agca atingiram João Paulo II por quatro vezes. O revólver de Marcus Sarjeant estava carregado com balas de salva¹ que se limitaram a assustar o cavalo de Isabel II. João Paulo II foi submetido a uma intervenção cirúrgica de urgência que o salvou mas que durou cinco horas. Isabel II limitou-se a apanhar um susto enorme. Ali Agca era turco e muçulmano e até hoje permanecem algo nebulosas as intenções por detrás do seu acto. Sarjeant era britânico e queria adquirir notoriedade. ¹ Também designadas por festim.

12 junho 2021

SÃO PETERSBURGO RECUPERA O SEU NOME ORIGINAL

12 de Junho de 1991. Num referendo local, que se realizou no mesmo dia que as primeiras eleições presidenciais russas, sai vencedora a proposta para que a cidade de São Petersburgo recuperasse o seu nome original. À época ainda existia a União Soviética - que só desapareceria no final de 1991 - e esta reversão do nome da cidade, de Leninegrado, nome que lhe fora atribuído em 1924 em homenagem ao fundador do império soviético, para o nome que a cidade possuíra entre a fundação (em 1703) e 1914 revestia-se de um inegável significado político. De um significado político menor, mas ainda relevante, fora a opção pelo nome germanizado original da cidade, e não a versão eslava, Petrogrado, que fora usada entre 1914 e 1924. Era uma sugestão de retorno à faceta mais europeia da identidade russa. Porém, se hoje se pode fazer um balanço destes últimos trinta anos, o retorno do nome original da cidade que fora a capital dos czares, prometia na altura muito mais da evolução da Rússia do que aquilo que hoje é constatável com a presença no Kremlin em Moscovo de um déspota oriental clássico como Vladimr Putin.

11 junho 2021

AS SETE VIDAS DO GENERAL PHIBUN

Há dias, por ocasião da evocação do 75º aniversário da misteriosa morte do rei da Tailândia, Ananda Mahidol (Rama VIII), havia ali deixado a promessa de exemplificar em ocasião posterior quanto a política tailandesa daqueles tempos estava salpicada de episódios pitorescos de natureza palaciana que tornavam aceitável o que acontecera ao monarca em 9 de Junho de 1946. O protagonista desta história exemplar foi o general (posteriormente marechal) Luang Phibunsongkhram, correntemente citado pela versão reduzida do seu nome: Phibun. No período de grandes transformações políticas e sociais na Tailândia no quarto de século que vai de 1932 a 1957, o general Phibun foi o primeiro-ministro e o detentor do poder no país por 15 desses 25 anos: 1938-44 e 1948-57. Explicada a importância do homem, contemos a história, que começa numa noite de Novembro de 1938, estava a general a fardar-se no seu quarto para uma soirée - e apreciemo-lo acima fardado de gala! - quando uma bala lhe acertou de raspão no braço. O estupefacto general descobriu que o potencial assassino era, nada mais, nada menos, do que o seu próprio criado de quarto, que se escondera debaixo da cama e que, saindo lá de baixo, se preparava para lhe assestar um segundo tiro mais certeiro. O general fugiu assim como estava, em cuecas, e a perseguição pela casa fora, com o criado pessoal atrás de si de pistola em riste, terminou em bem para o primeiro-ministro, com o seu potencial assassino detido, embora a sua dignidade tivesse ficado algo amachucada. Já nessa altura, Phibun adquirira uma reputação de alguém com sorte. Anteriormente, ainda ele era ministro da Defesa, fora atingido a tiro, também de raspão, no pescoço, quando assistia a um jogo de futebol. Mas a sua mística só ficou definitivamente consagrada quando, cerca de um mês depois do segundo atentado, um terceiro teve lugar, desta vez tentando envenená-lo durante um jantar de cerimónia que ele próprio organizara, mais uma vez em sua própria casa. Este último episódio levou a que 38 convidados tivessem sido levados de urgência para o hospital para lavagens ao estômago. Apesar daquilo que estes dois episódios podem indiciar quanto à completa falta de jeito do general Phibun para contratar pessoal doméstico - criados de quarto mas também pessoal de cozinha... - eles não parecem ter perturbado a sua reputação junto das elites, descontando uma evidente - e previsível - relutância da alta sociedade tailandesa em aceitar convites para jantar em sua casa. Ironias à parte, Phibun prosseguiu a sua carreira nesta fase (1938-44) até se transformar numa espécie de Mussolini à tailandesa (abaixo). Conhecendo estas histórias rocambolescas de tentativas de assassinato envolvendo o homem-forte do país naquele mesmo período, creio que se pode argumentar que a morte misteriosa do monarca em 1946 até se torna compreensível.

EM QUE SÍTIO É QUE FICA O PSD?

11 de Junho de 1981. Já há quarenta anos, se punha a questão do por onde andaria o PSD, como pretexto para as disputas internas do partido. Claro que a pretensão do PSD daquela altura de ser «de centro-esquerda» era uma daquelas ilusões que só o próprio partido sustentava.  

10 junho 2021

O DEZ DE JUNHO DE 1971 COM DOIS FUTUROS PRESIDENTES - e um deles até usa camuflado!

Bissau, 10 de Junho de 1971. Mimetizando aquilo que acontecia nesse dia nas principais cidades do país, também na capital da Guiné o governador-geral António de Spínola organizava uma cerimónia do 10 de Junho envolvendo tropas em parada, discurso, desfile e imposição de condecorações. A que a fotografia mostra reveste-se da curiosidade de envolver dois futuros presidentes da República: o próprio governador- geral e general comandante-chefe António de Spínola (1974-1974) e o major António Ramalho Eanes (1976-1986). Repare-se como, numa contemporização ultramarina para com as regras de etiqueta em vigor na metrópole, era admissível que o condecorado comparecesse na cerimónia envergando o uniforme camuflado. O camuflado era então considerado uma farda de trabalho, pouco adequado a cerimónias e ainda não adquirira aquele prestígio que o faz hoje ser envergado até por almirantes que coordenam planos de vacinação... A condecoração atribuída na ocasião a Eanes foi a medalha de prata de Serviços Distintos com palma.

09 junho 2021

O TRIBALISMO DA POLÍTICA PORTUGUESA

O que é óbvio neste episódio da nomeação de Pedro Adão e Silva para o «fofíssimo» cargo de comissário executivo para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, é que quando a crítica é tão certeira, não há como a refutar, e a única técnica que resta a António Costa é armar uma «cena de teatro» a fingir-se ultrajado, para que não tenha de dizer nada de concreto sobre o assunto. Isso é o óbvio. O lado caricato do episódio é pensar no que se seguiu, e identificar quem saiu em apoio de Pedro Adão e Silva, e quem o está a criticar, e cruzar essa lista com aquela que se formou aqui há dois anos, a pretexto da nomeação de João Miguel Tavares para presidir à comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal em 2019 (abaixo). Ainda nem toda a gente se manifestou desta vez, mas as duas listas parecem um quase perfeito negativo fotográfico uma da outra - quem apoiava agora crítica, quem criticava agora apoia. É tão previsível o tribalismo das opiniões que se ouvem por aí, que transformam os humoristas nas pessoas mais sérias do palco.

A MORTE DO REI DO SIÃO

9 de Junho de 1946. A notícia chegava via Nova Iorque, oriunda de Banguecoque: morrera o rei do Sião. (Benditos aqueles dias em que as regras ainda permitiam que se pudesse escrever Nova York e Bangkok...) O Sião é aquele país asiático que hoje conhecemos por Tailândia. E o que tornava a notícia em... notícia era o facto de que o rei Ananda Mahidol - Rama VIII, segundo denominação oficial - tinha apenas 20 anos e era um rapaz saudável, daí o cepticismo como se acolhia a explicação contida na notícia acima de «que o rei» sucumbira «a um ataque apoplético». Rapidamente se soube que não fora apoplexia, fora uma bala que o atingira na cabeça, no seu quarto de dormir, por volta das 9H20 da manhã. A arma fora um Colt .45. Mas o que não se sabia, nem nunca se veio a esclarecer, foram as circunstâncias precisas em que a morte ocorreu: foi um assassinato, um suicídio ou um acidente? Convém esclarecer o leitor que a história política da Tailândia daquela época está cravejada de atentados palacianos (assunto que poderemos exemplificar num próximo poste). Para benefício de uma das facções políticas tailandeses, e da tese da conspiração que essa facção abraçara, três cortesãos vieram a ser julgados, condenados à morte e executados pelo assassinato do rei. Mas isso só veio a acontecer depois de essa facção ter subido ao poder e as execuções tiveram lugar em 1955, ou seja quase nove anos depois dos acontecimentos. O sucessor foi o irmão mais novo do defunto, Bhumibol Adulyadej, então com 18 anos, que tomou o nome de Rama IX e que virá a ocupar o trono por 70 anos, até à sua morte em 2016. Depois de relembrar o 20º aniversário da execução da família real nepalesa que aqui fiz no princípio deste mês, adiciono-lhe o 75º aniversário de mais um episódio bizarro ocorrido entre as pouco conhecidas monarquias asiáticas, aquelas que não costumam aparecer nas revistas cor-de-rosa.

08 junho 2021

A DESCOBERTA DO «ÚLTIMO ELEMENTO QUÍMICO»

8 de Junho de 1931. «O professor dr. Fred Allison, Edgar Murphy, professor R. Bishop e Anna Sommer demonstraram ter encontrado no Laboratório do Instituto Politécnico do Alabama o último elemento químico ainda desconhecido, dos 92 elementos químicos que existem. Como é sabido, segundo o «sistema periódico dos elementos», descoberto na segunda metade do século passado pelo químico russo Mendeleiev, não pode haver mais de 92 elementos químicos. Os elementos dispõem-se em ordens, conforme o seu peso específico, e cada um deles tem um número na série, de acordo com o peso. A maioria dos elementos é já conhecida, mas alguns deles, cujo lugar tinha sido calculado no sistema periódico, só mais tarde foram descobertos. Assim, no ano passado, o professor Allison pôde descobrir o elemento 87, o penúltimo dos elementos conhecidos, e ultimamente descobriu o último elemento desconhecido, que tem o número 85 da série. Este elemento ainda não recebeu nenhum nome.»

O primeiro aspecto interessante desta notícia é aquela passagem que sublinhei. O jornalista escreve o artigo pressupondo que o leitor possui os conhecimentos de química suficientes para saber o que é a tabela periódica. E, no entanto, sabe-se como em 1931 o grau de escolaridade da população era mínimo* quando em comparação com o da actualidade. Porém, o paradoxo é que nenhum jornalista actual se atreveria a escrever um artigo deste mesmo género, sobre a descoberta de novos elementos químicos, com esta mesma desenvoltura de assumir que o leitor (que agora aprende química nos seus anos de escolaridade obrigatória) ainda se lembra de alguma coisa sobre o assunto. Se em 1931 o conhecimento do leitor era obrigatório, em 2021 a sua ignorância é uma espécie de benção («- ...já não me lembro nada disso!»).
O segundo aspecto interessante é a grandiosidade radical do título, como se as Ciências Químicas tivessem chegado ao fim da sua função com a descoberta do «último elemento químico». Faltava-lhe, no entanto, ao jornalista, o distanciamento e a capacidade de antevisão para se aperceber que, para além dos 92 elementos naturais, se poderiam vir a criar elementos artificialmente. Noventa anos passados, o assunto de descobrir o último elemento químico está longe de estar encerrado: até agora foram criados 26 elementos artificiais e o elemento mais pesado que hoje consta da tabela periódica é o 118 - Oganésson.
O terceiro aspecto interessante é mais concreto, e tem a ver com a descoberta propriamente dita: era uma treta. Não fora descoberto o elemento 85, nem anteriormente o havia sido o 87. O método do professor Allison viria a revelar-se um fiasco quando foi testado pelos seus pares. Mais, as descobertas do professor deram o nome a um efeito Allison, um dos exemplos agora clássicos de distorção científica denominada ciência patológica.

Claro que isto foi noventa anos antes de José Gomes Ferreira se dedicar à economia e a tantas outras disciplinas científicas...Vale a pena ouvir a abordagem deste último, para perceber como os tempos mudaram no que diz respeito à divulgação científica:
* Para dar uma ideia, havia 62% de analfabetos em 1930.