18 outubro 2021

A PREVISÍVEL DITADURA MILITAR MARXISTA-LENINISTA NA POLÓNIA

18 de Outubro de 1981. Depois de, oito meses antes, o general e ministro da Defesa Wojciech Jaruzelski, se ter tornado o chefe do governo polaco, agora era a vez de, por sua vez, se ver eleito para dirigente do partido comunista polaco. Na Polónia, uma sociedade socialista, a liderança política, administrativa e militar concentrava-se num só general. À concentração dos poderes num só homem, isso até era uma marca de água de qualquer regime comunista. Agora que esse homem fosse um militar de carreira, um general, isso era indiscutivelmente uma novidade na teoria histórica do marxismo-leninismo. Ao contrário do que anunciava o título da notícia, o problema não era a apreensão do papa (João Paulo II, um polaco) nem as prudências das duas superpotências. A questão centrava-se mais na incógnita de se começar a navegar em mares que as cartilhas do marxismo-leninismo nunca haviam cartografado. Marx falara da ditadura do proletariado, não da ditadura do generalato. Para mais, havia a propaganda comunista contra os regimes militares, normalmente de origem sul-americana e oligárquicos, embora houvesse alguns exemplos sul europeus, casos da Grécia ou da Turquia. Mas esta situação na Polónia era ao contrário das que os comunistas estavam acostumados a atacar: o que diria a doutrina  quando os ditadores militares eram progressistas, como chegara a ser o espectro em Portugal em 1975, por ocasião do PREC?... Nesse caso, um ditador militar e a imposição de uma ditadura militar torna-se bom? Isso ia contra toda a genética da subordinação dos militares ao poder dos sovietes, um princípio que fora estabelecida desde o princípio da União Soviética por Lenine, com Trotsky a protagonizá-lo à frente do Exército Vermelho. Normalmente, estas questões da doutrina da Fé seriam decididas em Roma Moscovo pelo camarada Mikhail Suslov, mas, quem estivesse atento ao que se estava a passar, aperceber-se-ia que o «"nerd" do socialismo soviético tardio» até aparecia por detrás da solução do general Jaruzelski...

17 outubro 2021

A CENSURA QUE CHEGOU IMPORTADA DE PARIS

17 de Outubro de 1961. No quadro das movimentações políticas da guerra da Argélia, a FLN convocava uma manifestação entre a comunidade argelina emigrada em Paris. A manifestação, que se pretendia pacífica (já que se realizava na capital da potência colonial - o inimigo), visava protestar contra o recolher obrigatório imposto especificamente à comunidade argelina emigrada em França. Dos cerca de 90 mil imigrantes argelinos que então haveria na região da Grande Paris, cerca de uns 20.000 a 25.000 terão comparecido na manifestação. Ao contrário do que noticiavam os títulos dos jornais franceses que se podem ler acima, a manifestação não foi «violenta», hoje sabe-se que, por detrás da camuflagem mediática, o que foi violenta foi a repressão policial sobre os manifestantes. O balanço oficial foi de 3 mortos e 77 feridos (64 manifestantes e 13 polícias). Porém, cálculos posteriores e conforme o autor e o período abrangido, o verdadeiro número de mortos - por exemplo - terá sido de 30 a 50, ou 120 ou ainda 200. Onde não parece haver controvérsia é nos muitos milhares de manifestantes que foram detidos nessa noite: 7.500 é o número que se lê na primeira página do Le Figaro, 11.538 é o número publicado pelo Diário de Lisboa (abaixo) que noticiava aqueles acontecimentos à distância. No jornal português é notória a escalada entre a notícia publicada no dia 17 de Outubro, quando a prisão envolvera uns meros «sessenta a oitenta argelinos», e a do dia seguinte, quando as atenções já tinham sido desviadas para os 1.500 repatriamentos e o pormenor que um dos três mortos (oficiais) era «um francês de 30 anos». A realidade estava a ser escamoteada mas, por esta vez, a censura chegava importada, vinda de Paris.

QUESTÕES SOBRE EM QUE CONSISTIRÁ UM«A VITÓRIA PIRRÓNICA»

Ao ouvir ontem o programa de discussão política Bloco Central, fui confrontado, logo ao início (aos 2:09, para ser preciso), com o conceito, apresentado por Pedro Marques Lopes (acima, à esquerda, a rir), de uma «vitória pirrónica», quando descreveu o resultado do PSD nas recentes eleições autárquicas. Confesso ter ficado completamente na dúvida sobre o que Marques Lopes quereria dizer com aquele adjectivo assaz rebuscado. Estar-se-ia ele a referir a «vitória pírrica» (vitória extremamente difícil que deixa o vencedor em piores condições que o vencido) e, porque o protagonista da expressão se chamava Pirro, rei do Épiro, a coisa ter-lhe-á saído mal? Ou teria ele empregue deliberadamente e com consciência o adjectivo pirrónico, esse sim, derivado de Pirro de Elis, um percursor dos filósofos cépticos, que viveu nos séculos IV e III a.C? Mas, a ser assim, em que consistirá, de acordo com Pedro Marques Lopes, a vitória céptica do PSD? Uma última hipótese que coloquei, muito mais actualizada, é que o adjectivo pirrónico não tenha nada a ver com o mundo helenístico, e que o comentador pretendesse referir-se ao condutor de fórmula 1 Didier Pironi (também já falecido), por alguma analogia que eu desconheço com as suas vitórias (3) em grandes prémios daquela modalidade... Considerando a prodigiosa cultura de que Pedro Marques Lopes tem dado mostras, cultura que o tem, de resto, ajudado a perpetuar-se pelo mérito no espaço de comentário da comunicação social portuguesa, não sei qual destas hipóteses fará mais sentido.

A DELEGAÇÃO DOS FUTUROS CHEFES DE ESTADO-MAIOR DAS FORÇAS ARMADAS

17 de Outubro de 1941. Esta pequena notícia acima do Diário de Lisboa dava conta de uma visita à Alemanha protagonizada pelos majores Manuel Gomes de Araújo e Júlio Carlos Alves Dias Botelho Moniz e pelo capitão José António da Rocha Beleza Ferraz. Apesar de composta apenas por oficiais superiores e não por oficiais generais, as aparências iludiam quanto à importância da delegação. No futuro, qualquer dos três oficiais referidos ir-se-á tornar sucessivamente Chefe de Estado Maior das Forças Armadas: Botelho Moniz de 1955 a 1958, Beleza Ferraz de 1958 a 1961 e Gomes de Araújo de 1961 a 1962. Para além disso, Gomes de Araújo virá a ser ministro das Comunicações (1947-1958) e da Defesa (1962-1968), enquanto Botelho Moniz virá a ser ministro do Interior (1944-1947) e da Defesa (1958-1961). Sem o querer parecer, tratava-se de uma delegação importante esta que o Exército português enviava à Alemanha «em missão de estudo» dos métodos de uma Wehrmacht que se apresentava mais vitoriosa que nunca, num momento histórico em que a queda de Moscovo parecia eminente, segundo o que se podia ler numa outra notícia desse mesmo jornal nesse mesmo dia. O corpo diplomático já abandonara a cidade, e as conversas giravam à volta da localização da «capital provisória» da URSS.

16 outubro 2021

OS QUARENTA ANOS DA ESTREIA EM PORTUGAL DE «HILL STREET BLUES»

16 de Outubro de 1981, Sexta-Feira. Ao serão, pelas 21H05 a RTP1 estreia a série policial americana «Hill Street Blues», (mal) traduzida para «Balada de Hill Street» (a referência blues não tem nada a ver com o estilo musical, antes com a cor tradicional dos uniformes policiais). Era uma série policial de um formato diferente dos tradicionalmente emitidos pelas televisões americanas. Focava-se em acompanhar o dia a dia dos membros de uma esquadra de polícia e, sobretudo, a América urbana que ali aparecia era, na sua crueza, uma surpresa para os europeus que se haviam habituado a referenciar uma outra América que lhe entrava pela televisão. a da classe média. Só que esses raramente tem problemas com a polícia. O fundo da sociedade é que está sempre a ter problemas com a polícia. E Hill Street era escrupulosamente verdadeiro a mostrar isso, por exemplo na desproporção de minorias que constavam do elenco.

O ASSASSINATO DO PRIMEIRO-MINISTRO DO PAQUISTÃO

16 de Outubro de 1951. Assassinato em Rawalpindi do primeiro primeiro-ministro paquistanês, Liaquat Ali Khan (1895-1951). O assassino era afegão e, porque foi morto de imediato, como se lê na notícia acima, nunca se pôde esclarecer se agira sozinho ou a mando de alguém. Depois das independências simultâneas da Índia e do Paquistão em Agosto de 1947, já não era o primeiro grande dirigente dos dois países herdeiros da Índia britânica a morrer assim, assassinado a tiro. Acontecera o mesmo a Mohandas Gandhi em Janeiro de 1948, no país rival. Foram os primeiros, mas o recurso à eliminação física dos protagonistas políticos ir-se-á banalizar em qualquer dos países do subcontinente indiano, até se tornar quase uma espécie de tradição. Na pessoa de Benazir Bhutto (1953-2007), aquela mesma cidade de Rawalpindi irá voltar a assistir ao assassinato de uma outra primeira-ministra paquistanesa, em Dezembro de 2007.

15 outubro 2021

A BURGUESIA MOTORIZADA FRANCESA DA DÉCADA DE SESSENTA

15 de Outubro de 1961. Por coincidência, em duas páginas adjacentes do mesmo jornal, encontra-se publicidade a dois modelos emblemáticos e simbólicos da indústria automóvel francesa daquela década: o Citroën DS-19 (mais conhecido por boca de sapo) e o Peugeot 404. São concorrentes directos porque correspondem ambos a uma concepção muito próxima de elevado estatuto social. Possuir uma viatura daquelas era uma expressão de exclusividade: naquele ano de 1961 produziram-se para todo o Mundo cerca de 80 mil Citroëns DS-19 e 115 mil Peugeots 404.

A DETENÇÃO DO HOMEM QUE FAZIA DESCARRILAR OS COMBOIOS

15 de Outubro de 1931. Embora a data permaneça controversa (7, 10 ou 15 de Outubro) esta é uma das datas possíveis em que se realizou finalmente a prisão de Szilveszter Matuska. Matuska era um húngaro (embora nascido em território que hoje faz parte da Sérvia), que se celebrizou por, num determinado período de apenas dois meses (Agosto-Setembro) de 1931, ter sido o autor de dois descarrilamentos de importantes comboios que ligavam capitais da Europa central (Basileia-Berlim e Budapeste-Viena). As repercussões dos actos tornaram-se mais importantes que as consequências dos próprios e um prémio de 100 mil marcos foi atribuído à captura do homem que fazia descarrilar os comboios. A investigação revelou-se até rápida. Matuska foi capturado em Viena de Áustria (onde vivia), confessou os atentados, e aí foi condenado a seis anos de prisão, dos quais cumpriu quatro, tendo sido depois transferido para a Hungria, onde ocorrera o atentado mais grave (22 mortos), país que o condenou por sua vez a prisão perpétua. No entanto, em Dezembro de 1944, a prisão onde Matuska estava preso libertou todos os seus prisioneiros diante do avanço do Exército Vermelho. Matuska desapareceu a partir daí, dando uma nova vida à lenda da sua pessoa, para a qual nunca se arranjou uma explicação razoável para ter feito o que fez. Tão forte era esse mito que cerca de 40 anos depois, ainda se fazia uma BD contando a sua história (abaixo) e, mais de 50 anos depois (1983), um filme.

14 outubro 2021

OPERAÇÃO «SKY SHIELD II»

14 de Outubro de 1961. Repetindo e aprimorando um outro exercício que tivera lugar em Setembro de 1960, as Forças Aéreas dos Estados Unidos e do Canadá levaram a efeito um gigantesco exercício militar em que se simulavam as condições para um gigantesco ataque aéreo oriundo - como seria de esperar... - da União Soviética. Só que, para que esta Operação Sky Shield II tivesse lugar, todos os voos da aviação civil no Canadá e nos Estados Unidos tiveram que ser suspensos durante doze horas(!). Como se lê na notícia, a medida terá afectado «273 aparelhos civis canadianos e 1.850 norte-americanos» e, como não se pode ler na notícia, isso terá afectado cerca de 125.000 passageiros. Ao contrário daquilo que se costuma frequentemente escrever a respeito dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, estas foram as primeiras ocasiões em que as operações aéreas civis foram completamente suspensas no espaço aéreo norte-americano. As conclusões dos resultados da Operação Sky Shield II só vieram a tornar-se públicos - e mesmo assim com algumas restrições - em 1997: e não eram brilhantes. Por deficiências de detecção, ou por deficiências de intercepção, cerca de ¾ dos «bombardeiros soviéticos» teriam atingido os seus "alvos". Mas pior, uma outra questão era a do incómodo que a realização destes exercício causava, numa época em que o transporte aéreo crescia exponencialmente a cada ano que passava. No ano seguinte, em Setembro de 1962, uma terceira versão da Operação Sky Shield, a III, mas a suspensão dos voos civis restringiu-se apenas a cinco horas e meia. A avaliação das consequências desta vez foi menos patriótica e apareceu com uma factura de prejuízos apresentada pelas companhias de aviação: 1 milhão de dólares (da época). A Operação Sky Shield IV, prevista para 1963, acabou por ser cancelada e nunca mais se falou em operações àquela escala. Em Setembro de 2001, quando o tráfego aéreo civil foi efectivamente suspenso, o assunto estava esquecido.

EM QUE É QUE RAQUEL VARELA É IMPORTANTE? E PORQUE SERÁ ELA IMPORTANTE?

Quando leio um opinador a perguntar-se, na sua coluna de jornal, se Raquel Varela é importante, apetece-me devolver-lhe a pergunta: em que é que ela é importante? e porque é que ela é importante? Pensando nisso, o que a projectou mediaticamente terá sido a sua atitude assertiva e arrogante, que é excelente para a figuração em espectáculos televisivos de mud wrestling (acima), só que em versão verbal. Ora as mud wrestlers são para ser detestadas pelos espectadores. Se recordarmos o momento televisivo abaixo, em que Manuela Moura Guedes abandona com espavento um programa de televisão desse género, hão de reparar que as quatro presentes compartilham o mesmo retrato psicológico de pessoas que se detestam entre si e que todos adoramos detestar por sua vez: Isabel Moreira, Manuela Moura Guedes, Raquel Varela e Sofia Vala Rocha. Umas são más, outras são piores, há umas que se conseguem fazer detestar mais do que outras, mas é essa capacidade de se fazerem detestar que é simultaneamente a força e a sua fraqueza de tais figuras mediáticas. Os detalhes que têm rodeado as revelações sobre a carreira académica de Raquel Varela, e que estão na origem da pergunta do opinador, são aquilo mesmo: detalhes. Quem estivesse, ainda que vagamente, interessado em acompanhar o que Raquel Varela produz, sabe que a produção científica de Varela é uma merdaSempre foi. É a identidade da visada que torna interessante o assunto do percurso académico tortuoso, não o assunto em si. Repare-se que, se fossem as revelações sobre outro docente universitário, o interesse público seria uma fracção do que é. Em contraste, se as revelações fossem sobre outro assunto escabroso qualquer, mas sobre Manuela Moura Guedes (por exemplo), ninguém perderia um bocadinho sequer e ter-se-iam acumulado os comentários, como aqui tem acontecido. Em conclusão, Raquel Varela não tem importância alguma, Pedro Tadeu. Mas parece ser muito divertido (e também merecido) vê-la a rojar-se pela lama. Mas isso é - sempre foi - do domínio do espectáculo, não de quaisquer preocupações com a produção científica.

13 outubro 2021

OS SESSENTA ANOS DA INVENÇÃO DOS «ÖST AMPELMÄNNCHEN»

13 de Outubro de 1961. É o dia em que se considera que foram oficialmente adoptados os ampellmänn na sinalização para os peões em Berlim Oriental, na antiga República Democrática Alemã (foto acima). Quem se dedicava ao estudo das questões de trânsito no país, considerou que, para além das próprias luzes, vermelha e verde, seria vantajoso adicionar um desenho de um peão avançando ou parado. Mas o que tornou os ampelmmän populares até hoje terá sido o design dos bonecos e não o facto da ideia ter sido pioneira - rapidamente copiada de resto nos outros países, mas com bonecos não tão castiços. Para mais, a questão do design colocou aos alemães de Leste problemas que só uma sociedade socialista avançada como a sua poderia conceber.
Um desses problemas era questão de os bonecos terem chapéu, o que, como se sabe, poderia ser considerado um adorno desnecessário, capitalista mesmo. O problema veio a ser ultrapassado quando se produziram fotografias (como esta abaixo) em que os dirigentes Walter Ulbricht e Erich Honecker apareciam de chapéu, o que esclareceu as dúvidas. Outro problema sério que se colocou foi o de saber se o boneco em movimento se apresentaria a caminhar da esquerda para a direita, acompanhando o sentido natural da leitura, ou se, pelo contrário, e porque a República Democrática Alemã se assumia como uma sociedade socialista a caminho do comunismo, o boneco devia caminhar da direita para a esquerda. Apesar do desenho acima ser o mais lógico, foi a versão ideologicamente mais pura que prevaleceu... o boneco ia da direita para a esquerda.
Descontando a ironia dos comentários às questões da concepção, os bonequitos dos ampelmännchen tornaram-se um dos pormenores identificativos da sociedade leste-alemã, um dos poucos aspectos em que ela se mostrava mais rica e interessante do que a ocidental. E talvez por isso os bonequitos tenham vindo a tornar-se, depois do desaparecimento do país, a mascote da «ostalgie», uma nostalgia - estranhamente material, já que muitas vezes se expressa pela aquisição de gadgets - por aquela sociedade que terminou com a queda do muro de Berlim em 1989.

O GREVISTA DA FOME QUE A SUSPENDEU AO FIM DE DEZ DIAS

13 de Outubro de 1981. Numa pequena notícia local, pode saber-se da decisão de um recluso da cadeia de Custóias, que decidira pôr termo à greve da fome que iniciara dez dias antes. Com 21 anos e trolha de profissão - que complementava com uns assaltos a automóveis que o haviam levado até Custóias - depreende-se que Domingos dos Santos Costa também seria um jovem atento às novidades. E entre essas novidades contavam-se as greves da fome que os presos do PRP-BR haviam desencadeado naquele Verão na mesma prisão de Custóias onde ele estava (abaixo), e que, muito agitadas por parte da comunicação social de então, pretendiam fazê-los sair - aos do PRP - da prisão. E terá sido assim que Domingos se terá deitado a pensar que também era filho de Deus e que não perderia nada em fazer a sua greve de fome. A diferença - que o Domingos não antecipou - está na máquina de propaganda que se mobiliza para promover essas iniciativas. Assim, enquanto as faltas de apetite de Carlos Antunes eram o ai jesus! que a notícia abaixo documenta (publicada a 23 de Junho), as mesmas faltas de apetite do trolha Domingos Costa são tratadas com a condescendência sobranceira que a notícia de há quarenta anos mostra. Diz um ditado popular que o pão do pobre quando cai, cai com o lado da manteiga para baixo. Este exemplo mostra que até na ausência voluntária do pão, o pobre é distratado. Vê-los, aos do PRP, a assumirem-se por vanguardas da classe operária só mesmo por piada.

TODOS ESTES ACONTECIMENTOS POLITICAMENTE "EXCITANTES"

Consta que existe uma pessoa importante no PSD chamada Miguel Pinto Luz que, por acaso, ninguém sabia quem fora, até Miguel Relvas ter lançado o seu nome numa entrevista ao Expresso aqui há uns quatro anos. Desde aí, em concreto, e descontando a projecção mediática que continuamente recebe, Miguel Pinto Luz teve oportunidade de a disputar, à liderança, por duas vezes. Da única vez que o fez, em Janeiro de 2020 (há 19 meses), recebeu 3.030 votos em 32.082 votantes. Objectivamente diga-se que, se se tivesse tratado de uma eleição para uma câmara municipal, nem tinha dado para ele ser eleito vereador. Mas isso – o facto de ele não arregimentar votos - é como diz a Teresa Guilherme: não interessa nada. Tornou-se secundário para uma certa forma de avaliar a importância política de alguém. Porque hoje ele lançou um livro. E a malta da ala direita do PSD tem-se manifestado túrgida e húmida nas redes sociais, porque na primeira fila da assistência, a acarinhar Miguel Pinto Luz, estavam Pedro Passos Coelho, Paulo Rangel e Carlos Moedas. E também valerá a pena acreditar que, desta vez, estarão assim tão excitados porque, porventura, o livro será realmente muito bom. Intitula-se Voltar a acreditar na política. A literatura dos ambiciosos do PSD sempre se mostrou excelente (não na qualidade do conteúdo mas para coscuvilhar a respeito de quem foi ao lançamento). Ainda o mês passado foi Jorge Moreira da Silva a editar um prometedor Direito ao Futuro onde estava muita gente interessante. (ninguém já se lembra disso...) E onze anos passados, também não há nenhum militante social-democrata que se preze que se possa esquecer do famoso Mudar de Pedro Passos Coelho, lançado também diante de imensa gente interessante (em contraste, nunca encontrei ninguém que o tivesse lido...).

12 outubro 2021

A CELEBRAÇÃO DOS 2.500 ANOS DO IMPÉRIO PERSA


12 de Outubro de 1971. Com a chegada do Xá a uma base militar próxima de Persépolis, iniciavam-se as cerimónias das celebrações dos 2.500 anos da fundação do império persa por Ciro, o Grande. A data escolhida foi, obviamente, tão especulativa quanto arbitrária - estava-se a celebrar algo que teria acontecido em 529 a.C.! Contudo, o que era importante era o significado político da celebração e não o seu rigor histórico. Através dela, o regime iraniano procurava demarcar-se daquela que seria a sua «civilização» (para empregar uma terminologia que então não existia, só veio a ser popularizada vinte e dois anos depois com Samuel Huntington) e para ir buscar as suas raízes a várias estruturas políticas muito bem sucedidas que haviam precedido o Islão: os impérios aqueménida, arsácida e sassânida. Era uma movimentação ousada, mas intelectualmente brilhante, que procurava atribuir ao Irão uma especificidade outra que não a religiosa, nomeadamente o xiismo, que o distinguia das outras correntes do Islão. Com a valorização que se pretendia com o gesto de atribuir àquelas raízes pré-islâmicas, procurava-se fomentar ainda mais o laicismo da sociedade iraniana, aquilo que, na época, parecia condição favorável para as reformas sociais e a sua ocidentalização, conforme se comprovara com o que acontecera nos cinquenta anos precedentes com a vizinha Turquia. Se a ideia se apresentava teoricamente brilhante, a sua implementação, tal qual ela pôde ser apreciada nestas cerimónias, revelou-se um desastre. Cerimónias como o cortejo histórico (que se pode ver no vídeo mais abaixo) só podiam suplantar na magnificência dos meios, que não na imaginação, aquilo que já se vira noutras celebrações equivalentes, até mesmo por cá, por ocasião da exposição do Mundo português de 1940.
O ponto frágil de todas as celebrações, contudo, percebe-se hoje, foi a prioridade que se deu a projectar as cerimónias para o exterior, e a falta de cuidado que houve em transformá-las em festas populares. Houve uma preocupação extrema em ter presentes as mais destacadas figuras políticas internacionais (especialmente monarcas - Bélgica, Dinamarca, Etiópia, Jordânia, Nepal, Noruega,...), mas isso apenas acentuou o carácter aristocrático das cerimónias - significativamente, os banquetes que foram servidos, previstos para 500/600 convidados, um deles para durar cinco horas e meia(!), foram encomendados em Paris, ao restaurante Maxim's. Não é por isso de estranhar que todos os vinhos e espumantes que acompanhavam os banquetes fossem franceses. Enquanto isso, e porque Persépolis se situa numa das regiões remotas do Irão e nada fora pensado em termos de transportes colectivos para o local, o melhor que qualquer iraniano poderia fazer para acompanhar as cerimónias que proclamavam a grandiosidade e perenidade do seu país era segui-las pela... televisão. Caso o conseguisse, porque as emissões de cobriam apenas 30% dos iranianos. Escolhi uma fotografia que me parecesse simbólica da ocasião: nela se vê, à direita, o Xá a discursar, por detrás dele vê-se toda a comitiva que o acompanhava, doméstica e internacional, mas não se chega a ver para quem é que o Xá está a discursar. Na realidade, o que a fotografia não mostra é que não estaria lá ninguém, o povo iraniano brilhou pela ausência nestas cerimónias que, não fora a seriedade política que o regime iraniano lhes pretendeu atribuir, bem podiam ser comparadas no seu exclusivismo aristocrático a uma daquelas caçadas à raposa típicas da gentry inglesa.

11 outubro 2021

«ÉVORA TEM MAIS ENCANTO NA HORA DA DESPEDIDA...»

É interessante olhar para o artigo de hoje anunciando a saída da prisão de Armando Vara, ver a fotografia e perdermo-nos nos dizeres da parede: «estabelecimento prisional de évora». Foram tantas as fotos àquela mesma parede por detrás de um corrupio de tantos camaradas (abaixo, apenas uns poucos) que apetece logo perguntar quantos deles - dos vivos, já que nas fotos abaixo, postas para exemplo, Mário Soares e Almeida Santos já faleceram - quantos deles, perguntaria, estavam hoje neste mesmo local por ocasião da saída de Armando Vara. Provavelmente nenhum dos muitos camaradas socialistas que a comunicação social interceptou noutras visitas àquele estabelecimento prisional, a deduzir pelo silêncio a esse respeito nas notícias postas a circular. E se elas hoje consolariam Armando Vara!... O fado original era com Coimbra, mas, para ele, Évora também poderia ter um certo encanto na hora da despedida...

FORMAÇÃO DA HARZBURGER FRONT, UMA TENTATIVA FRUSTRADA DE UNIFICAR A EXTREMA-DIREITA ALEMÃ

11 de Outubro de 1931. Realização da conferência de Bad Harzburg, na Baixa Saxónia. A conferência foi uma mistura de reunião política mas que, para além das centenas de quadros reuniu também uma pequena concentração de militantes (uns 10.000), ao jeito do que a extrema-direita alemã da época costumava fazer, nomeadamente o NSDAP de Adolf Hitler. Essas actividades periféricas - desfiles e cerimónias afins, protagonizados pelas SA e outras organizações paramilitares - também permitiram a Hitler mostrar que o seu partido era, de longe, o mais forte pela lógica da mobilização. Porque a ideia central da conferência era unificar as várias formações da extrema-direita alemã: o NSDAP mas também o DNVP, o Stalhelm (a liga de veteranos de guerra), o Reichslandbund (a liga de - grandes - agricultores) ou ainda o Alldeutscher Verband (liga imperialista). Outras figuras compareceram a título individual, como o general Hans von Seeckt ou o economista Hjalmar Schacht - recém evocado aqui no blogue - que impressionou a audiência com um daqueles discursos catastrofistas da situação financeira, à Medina Carreia. (em paralelo, e como se lê abaixo, em Berlim davam-no como fugido para o estrangeiro para não ser preso...) Na fotografia acima Adolf Hitler aparece no uso da palavra. Ao seu lado estavam Alfred Hugenberg, Otto Schmidt-Hannover e Theodor Duesterberg. Mas Adolf Hitler veio para a conferência disposto a conceder muito pouco, apesar de naquela época os nazis disporem apenas de 107 deputados num total de 577. (E o DNVP de 41) O Harzburger Front gorou-se totalmente e em pouco tempo. Foi uma manobra calculada de Adolf Hitler que acabou por vingar. A força política do seu partido estava em ascensão. Nas eleições seguintes (Julho de 1932) os nazis mais do que duplicaram a sua representação parlamentar para 230 lugares. Mas note-se que o crescimento não foi à custa do DNVP que elegeu 37. Hitler tratou mal estes seus aliados em 1931 mas eles não se mostraram vingativos depois em 1933. Apesar de todos os expedientes de intimidação, o NSDAP não conseguiu alcançar sozinho a maioria absoluta no Reichstag em 1933. Se os nazis instalaram a ditadura de Hitler da forma legal como o fizeram foi porque estas pequenas formações políticas lhes deram o seu apoio e os seus votos parlamentares no momento crucial.

10 outubro 2021

CRÍTICAS A PESSOAS IMPOLUTAS, DAQUELAS QUE MESMO JOSÉ PACHECO PEREIRA NÃO CENSURA COM MUITA VEEMÊNCIA

Gostaria de começar este poste remetendo o leitor para um outro que eu aqui publiquei há quase dez anos (7 de Maio de 2012), a propósito de uma iniciativa da cadeia de supermercados Pingo Doce, às críticas que a mesma suscitou, e a um estranho artigo crítico de José Pacheco Pereira, que passou o primeiro ¼ do artigo num desenvolvido trecho acautelatório quanto à consideração que o patrão da organização lhe merecia: Alexandre Soares dos Santos.
«Quem tiver lido o artigo que José Pacheco Pereira assinou o Sábado passado no Público dedicado à questão da campanha do 1º de Maio do Pingo Doce poderá ter reparado no conteúdo e na inusitada extensão do seu preâmbulo (acima, assinalado com uma tarja amarela lateral). Desconfio que tanto zelo não se tratará somente de uma questão da estima e consideração pessoal como o autor ali confessa ter por Alexandre Soares dos Santos, o patrão da organização, e que o fez alongar-se em várias considerações elogiosas sobre atitudes e gestos recentes do visado.

Embora seja reputado pelos seus rigorosos critérios de exigência, José Pacheco Pereira já terá certamente criticado muitas outras pessoas a quem dedicaria semelhante estima e consideração pessoal e, todavia, não me estou a lembrar de nenhum caso em que ele tivesse dedicado assim cerca de ¼ do espaço (ou do tempo) à sua disposição para fazer elogios prévios que amenizassem a contundência das críticas que se iriam seguir…

É verdade que poderia haver uma outra possível explicação para aquele alongado preâmbulo: a questão do espaço, que na esmagadora maioria das vezes falta para que caiba o que foi escrito, mas que excepcionalmente pode sobrar. Mas não se está a imaginar José Pacheco Pereira no frete de encher chouriços para adequar a sua opinião à extensão da página que lhe está semanalmente concedida.

Quem montou o artigo destacou dele a frase: A corrida aos 50% diz mais sobre o Pingo Doce e Portugal do que sobre a CGTP ou o 1º de Maio. No caso, adaptando-a, fico com a impressão que aquele preâmbulo preemptivo de José Pacheco Pereira dedicado a Alexandre Soares dos Santos dir-nos-á quase tudo o que há para saber sobre o feitio do visado e sobre as relações entre os poderes económicos e os opinion makers em Portugal… E não se interprete isto como uma crítica absoluta a José Pacheco Pereira – é que há quem prefira não dizer/escrever nada…»
Regressemos ao presente, quando, infelizmente, o referido Alexandre Soares dos Santos já faleceu (em 2019), mas quando ele é figura ainda suficientemente poderosa para ser a escolhida para enfeitar a notícia publicada este fim de semana pelo Expresso, no seguimento das revelações dos denominados Pandora Papers, explicando-nos como a família Soares dos Santos criara em 2006 - portanto ainda em vida do patriarca - um fundo num paraíso fiscal. Ora, ao ler a notícia, e porque o autor deste blogue tem memória (como acima se comprova), ele está disposto a apostar que esta notícia, independentemente da gravidade das revelações que conterá, não vai ter qualquer ressonância nos órgãos de informação, a não ser, claro, as folclóricas denúncias do site do Bloco de Esquerda. É engraçado porque, mesmo sem nos podermos pronunciar sobre as especificidades do esquema denunciado pelo Expresso, o teor da resposta, focando-se no «cumprimento rigoroso da lei», pela minha experiência é poderoso indício que, sendo legal, o esquema não terá moralidade alguma. Aliás, alguém ainda se lembra da contínua evasão fiscal da Jerónimo Martins à taxa de segurança alimentar criada pelo governo Passos Coelho?... Quantos contribuintes é que se podem arrogar esse mesmo direito de dizerem: não concordo, não pago?...

O PROFESSOR PICKERING E A VIDA NA LUA

10 de Outubro de 1921. Há cem anos "havia" vida na Lua. Pelo menos, era esse o resultado do trabalho de observação e fotografia que decorrera entre «Agosto de 1920 e Fevereiro de 1921» levado a cabo por um «celebre astrónomo de Harward» (sic) chamado William Pickering. Segundo essas observações, viam-se na superfície lunar «vastos campos de vegetação, que florescem rapidamente e desaparecem num prazo máximo de 11 dias». Hoje sabemos que as observações do «célebre astrónomo» eram uma total fantasia. E, no entanto, esclareça-se que, desta vez o jornal não inventara o estatuto do cientista e que William Pickering era realmente um reputado astrónomo, que já recebera dois prémios científicos (1905 e 1909) pelos seus trabalhos. Para além disso, Pickering foi o criador de uma escala que mede a turbulência atmosférica que afecta as observações astronómicas. Tratava-se portanto de alguém que se levava e era levado a sério na astronomia. Só que, e porque as ciências são mesmo assim, nesta sua "descoberta" de "vegetação" na Lua, Pickering estava completamente enganado. Mas estas lições de há cem anos não se perdem, porque elas nos permitem acolher as notícias científicas da actualidade, como esta abaixo, de um exoplaneta (planetas de outro Sistema Solar) que é tão quente que chega a chover ferro(!), com a indispensável circunspecção. O que é que a Humanidade já poderá saber a respeito do exoplaneta WASP-76b, situado a 636 anos-luz da Terra, em princípios de Outubro de 2121?...

09 outubro 2021

SER-SE REPUBLICANO NA AMÉRICA EM 2021...

...assemelha-se muito ao que era ser-se comunista na Europa ocidental de 1989: há (havia) que acreditar numa realidade virtual e acreditar nessa realidade virtual é (era) importante para definir a identidade de quem é (era) republicano (comunista). O que mudou foram as ilusões. Agora há «53% de republicanos que vêem Trump como o verdadeiro presidente dos Estados Unidos» e «59% dos que costumam votar naquele partido dizem que acreditar que Trump venceu a eleição presidencial de 2020 é importante para se ser republicano». Naqueles outros tempos não se faziam sondagens entre os comunistas, mas era patente que uma maioria deles diziam acreditar que a União Soviética era uma sociedade muito mais evoluída do que as da Europa ocidental e era um traço identitário entre os votantes comunistas acreditar que se vivia muito melhor na União Soviética do que por cá. E a analogia conclui-se com a tolerância ao pluralismo de opiniões: «63% dos republicanos consideram que o seu partido não deve apoiar candidatos que critiquem abertamente Trump». Recorde-se que os militantes comunistas que não comungassem daquelas ilusões também acabavam rapidamente marginalizados. Todas estas parvoíces colectivas são (e eram) parvas mas tornam-se importantes por serem colectivas e, como se constata, renovam-se em ciclos, parece que nada se aprende com elas. O que não é muito comum é emparelhá-las, considerado o antagonismo entre os dois conjuntos de parvos.

A IMPORTÂNCIA DE UM GOLPE DE ESTADO... NO PANAMÁ

9 de Outubro de 1941. Os americanos promovem um golpe de estado no Panamá. Os Estados Unidos a promoverem golpes de estado em países da América Central - vulgo repúblicas das bananas - não era propriamente uma novidade nem notícia que merecesse destaque por cá. Contudo, alguma circunstância misteriosa, quiçá a guerra em curso, terá levado a que o Diário de Lisboa do dia seguinte tivesse dado o destaque de 25% da sua primeira página ao que ocorrera na referida república das bananas. O novo presidente do Panamá seria o senhor cuja fotografia inseri acima e que se chama Ricardo Adolfo de la Guardia. Não deixou história. O que não surpreende.