14 abril 2021

A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA EM ESPANHA

14 de Abril de 1931. Proclamação da república em Espanha. Como acontece muito frequentemente com estes regimes em fase agónica, a monarquia espanhola caiu, mas não chegou sequer a ser derrubada, esboroou-se perante um obstáculo político que não conseguiu superar: umas eleições municipais onde os republicanos haviam vencido em todas as principais cidades de Espanha.

13 abril 2021

QUANDO UM CONGRESSO PARTIDÁRIO ALGURES NA EUROPA CENTRAL ERA MOTIVO DE DESTAQUE

13 de Abril de 1981. Se, no poste anterior, nos confrontámos com as idiossincrasias do jornalismo sob a censura, antes do 25 de Abril, neste confrontamo-nos com as idiossincrasias do novo jornalismo depois do 25 de Abril em que, deixando de haver censura, se instalou, em certos órgãos de informação que haviam anteriormente adquirido prestígio, uma certa padronização das notícias, por muito absurda que fosse a relevância jornalística daquilo que se noticiava. Tomemos o exemplo acima, na página internacional de há 40 anos desse mesmo Diário de Lisboa que, 20 anos antes noticiara de forma censurada o golpe Botelho Moniz, onde se noticiava agora, com um amplo desenvolvimento e até a contribuição da ANOP (a agência de notícias nacional), a forma como estavam a decorrer em Berlim os trabalhos do X Congresso do Partido Socialista Unificado da Alemanha (de Leste).
Tendo desaparecido a censura era difícil compreender o critério jornalístico que justificaria tal destaque a uma reunião magna num país que nem sequer nos era próximo. Assim como não era comum cobrirem-se com todo este destaque o que acontecia nos congressos de partidos de poder no Ocidente, casos, por exemplo, do congresso do Partido Social Democrata sueco ou então o da Democracia Cristã italiana. Mas, mais do que essa disparidade de critérios, a verdade é que o interesse do que acontecera era nulo, a cenografia era sempre a mesma: começava-se sempre por um enfadonho discurso do líder - no caso Erich Honecker - gabando os resultados económicos alcançados (25,4%) e havia sempre na notícia uma referência ao infindo número de delegações de partidos irmãos ali presentes (125). Uma apreciável parcela do texto era, aliás, dedicada ao que fora à Alemanha dizer um russo, Mikhail Suslov, que representava a ortodoxia de pensamento comunista. O que é que isto tinha a ver com o leitor típico português que não fosse comunista? Tendo acabado a censura oficial, passara-se dessa externa e formal, e que bloqueava as notícias importantes, para uma outra interna e informal, que forçava a publicação de outras, irrelevantes. (Esclareça-se que este X Congresso terminaria a 16 de Abril com a eleição por unanimidade dos 2.700 delegados presentes dos membros do Comité Central... - que emocionante!)

O QUE ERA POSSÍVEL NOTICIAR DE UM GOLPE PALACIANO FALHADO

13 de Abril de 1961. Há sessenta anos o chefe de governo não tinha que se preocupar com problemas de comunicação: mandava-se uma nota oficiosa para a comunicação social e o governo estava remodelado. «Por decreto publicado no Diário do Governo de hoje, foram exonerados dos seus cargos Suas Excelências o ministro da Defesa Nacional, o ministro do Exército e o ministro do Ultramar; e os subsecretários de Estado do Exército e da Administração Ultramarina. O chefe de Estado nomeou para o lugar de ministro da Defesa Nacional Sua Excelência o Presidente do Conselho, sr. dr. António de Oliveira Salazar; para o lugar de ministro do Exército, o brigadeiro Mário Silva, e para o lugar de ministro do Ultramar, o dr. Adriano Moreira. Para os cargos de subsecretários de Estado do Exército e da Administração Ultramarina foram nomeados, respectivamente, o tenente-coronel Jaime da Fonseca e o dr. João da Costa Freitas. Foi, também, nomeado chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas o general Manuel Gomes de Araújo.» E pronto. Nada mais se esclarecia, nem nada mais viria a poder ser esclarecido nos dias que se seguiram. Competia ao leitor tentar perceber o que acontecera e que estivera por detrás desta súbita remodelação ministerial. Esta era a informação possível antes de 25 de Abril.

12 abril 2021

O PRIMEIRO VOO ESPACIAL TRIPULADO

12 de Abril de 1961. O cosmonauto russo Yuri Gagarine realiza o primeiro voo espacial tripulado. Esta é uma daquelas efemérides batidas pela comunicação social tradicional, por isso, para quem quiser saber mais, substituo essas eventuais explicações por este vídeo abaixo, descrevendo detalhadamente o voo. O vídeo tem uma duração superior a 20 minutos, correspondente a 20% do tempo de duração real do voo. 

11 abril 2021

...MAIS UMA PETIÇÃO, RECORDANDO A HISTÓRIA DO PITBULL «ZICO»

Tenho que aceitar que não será o ridículo que consegue dissuadir os jornalistas de dar grande relevo noticioso às petições públicas on-line, publicitando-as nos seus órgãos de informação mas fazendo-o sem contexto e sem que se pronunciem sobre a sua oportunidade, pertinência e exequibilidade. Assim, e a propósito do contexto, esta última, acabada de aparecer e dedicada ao afastamento do juiz Ivo Rosa, «já tem mais de 114 mil assinaturas», escreve Ivo Neto, mas ainda está abaixo dos 150 mil que se pronunciaram contra «a presença de José Sócrates como comentador da RTP», embora já tenha superado a marca das 85 mil assinaturas dos que se condoeram com o abate do famoso pitbull «Zico». O pitbull «Zico» não foi salvo, mas serve desde então (2014) de meu benchmark da popularidade efectiva em Portugal: o cão recebeu em assinaturas mais do que os votos recolhidos nas últimas eleições legislativas pelo Chega, pela Iniciativa Liberal, pelo Livre ou pela Aliança... Apesar disso, acabou por não ser salvo pelo canil de Beja. Por outro lado, também as 150 mil assinaturas, mesmo sendo muitas mais, não promoveram a supressão do programa dominical de José Sócrates na RTP, terá sido mais o seu comportamento. Agora, e ainda a propósito das antipatias que José Sócrates tem o condão de gerar por todos os sítios onde passa, esta iniciativa desta petição para o afastamento de Ivo Rosa é mais outro disparate. Mas aquilo que se mostra mais verdadeiramente absurdo em tudo isto, é que, e como se vê, a comunicação social tradicional passa o tempo a criticar as redes sociais pela sua volubilidade e mais uma porção de defeitos, mas nestes casos concretos lá aparece ela - comunicação social - a cavalgar a onda, dando realce ao disparate. E, para mostrar quanto o comportamento está disseminado pela comunicação social dita respeitável, mostre-se que o assunto aparece no formato que descrevi - sem contexto - no Público (acima), mas também no Expresso, no Diário de Notícias, no Correio da Manhã ou no Observador (uma ressalva para este último, com trabalho feito na identificação e reputação do primeiro subscritor).

HARRY TRUMAN DEMITE DOUGLAS MACARTHUR

Há 70 anos, e com um estardalhaço que faz com que até um jornal português dê à notícia as honras de quase toda a primeira página, o presidente dos Estados Unidos demite o general de todos os comandos que exercia. O impacto da demissão era tanto mais surpreendente quanto, entre aqueles, se contavam o comando militar das forças das Nações Unidas (norte-americanas na sua esmagadora maioria), que permaneciam então engajadas na Guerra da Coreia (1950-53). Ao longo da sua carreira, MacArthur nunca fora um subordinado muito respeitador e o estatuto de herói que construíra para si durante a Segunda Guerra Mundial tornara as relações com superiores ainda piores. MacArthur tivera uma ascensão distinta e precoce na carreira, fora promovido a oficial general ainda durante a Primeira Guerra Mundial, com apenas 38 anos. E tornara-se no mais novo chefe de Estado-Maior do exército em 1930, com apenas 50 anos. É óbvio que uma carreira tão fulgurante como esta não se construiu apenas por causa do - indiscutível - mérito de MacArthur, para ela foram precisas também preciosas conexões políticas que ele usou habilmente. Em 1935 MacArthur reformara-se do exército americano e tornar-se-á no ano seguinte, ainda devido às suas conexões, marechal das Filipinas! Será reincorporado no exército americano em 1941, e a propaganda de guerra transformá-lo-á num herói. Depois, numa espécie de vice-rei do Japão. Os efeitos da auto-promoção e da idade (71 anos em 1951) ter-se-ão feito sentir quando, a respeito da condução do conflito coreano, MacArthur resolveu comprar uma briga com o presidente Harry Truman. Truman, um democrata, não pertencia naturalmente ao mesmo círculo das conexões políticas de MacArthur e para além disso e ao contrário do que a fotografia abaixo pretende sugerir, os dois homens não se estimavam reciprocamente. As cautelas de Truman, demonstradas por este exercício abaixo de relações públicas, tiveram contudo que ser ultrapassadas quando a Casa Branca descobriu que MacArthur estaria a desenvolver uma diplomacia paralela e a tomar atitudes deliberadamente provocatórias para arrastar abertamente a China para o conflito. A decisão de Truman provocou alguma agitação, especialmente entre a ala republicana conservadora, a popularidade de Truman afundou-se, mas o episódio acabou por se saldar por uma reconfirmação da proeminência do poder político sobre as chefias militares.

10 abril 2021

O MARECHAL JOFFRE EM PORTUGAL

10 de Abril de 1921. Há cem anos sentiamo-nos muito honrados com a visita do marechal Joseph Joffre a Portugal, acompanhado do italiano Armando Diaz. Joffre fora um militar muito importante da Primeira Guerra Mundial, mas apenas da sua primeira parte; fora afastado em 1916.  Quem compreendesse as hierarquias militares da Grande Guerra na hora da Vitória, em Novembro de 1918, aperceber-se-ia nesta embaixada militar da ausência dos grandes protagonistas: Philippe Pétain e Ferdinand Foch, o britânico Douglas Haig ou o americano John Pershing. Assemelhava-se assim à digressão de uma equipa muito famosa, mas onde, em Portugal, só tínhamos direito, para já, a ver jogar os suplentes...

APARENTEMENTE E DURANTE ANOS A FIO, «PINTOU-SE» UMA HISTÓRIA SOBRE JOSÉ SÓCRATES QUE NÃO SE SUSTENTOU QUANDO FOI FINALMENTE APRECIADA POR UM MAGISTRADO...

Foram sete anos de investigações e não se vão apurar os responsáveis judiciais por este desfecho?...

09 abril 2021

OS X FILES E A VERDADE

Tendo tido um mote como este (A Verdade anda por aí) percebe-se que X Files foi uma série televisiva de ficção que permaneceu fixada nos valores do século passado, numa era em que a Verdade parecia algo elusivo e difícil de alcançar, algo que escapava, episódio após episódio, à dupla Fox Mulder/Dana Scully. Com as redes sociais a verdade deixou de ser um bem escasso, pelo contrário, agora além de andar por aí, transborda por aí, e já não são precisas personagens de ficção em busca dela, porque qualquer dos nossos interlocutores na internet parece ter uma (verdade), pronta a nos explicar. Pode ser a verdade a respeito das melhores vacinas contra a covid, mas também pode ser uma recomendação de uma série da Netflix... Este é um século de onde terão desaparecido as dúvidas.

PORTUGAL NA CAUDA DA EUROPA...

Desta vez e para desenjoar, é mentira que Portugal esteja na cauda da Europa... Na verdade, citando a discreta notícia: «esta é a quarta semana consecutiva em que Portugal ocupa a melhor posição na União Europeia em termos de incidência da covid-19.» Contudo, ninguém duvida que, se Portugal ocupasse a «pior posição» por quatro semanas consecutivas, o facto seria a capa e a notícia de abertura de todos os telejornais. Ora, manda a lógica que, ou as duas são notícia destacada, ou nenhuma delas o é. O que não precisamos é de jornalismo enviesado. 

A MAIS DE UM ANO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS FRANCESAS... EMMANUEL MACRON ACABA DE SER REELEITO POR JOÃO MARQUES DE ALMEIDA

Ele há pessoas que são verdadeiramente infalíveis. E ele há pessoas, como João Marques de Almeida, que são absolutamente falíveis. Se elas antecipam qualquer coisa, então isso é uma garantia de que isso não vai acontecer. É por isso importante acompanhar o que João Marques de Almeida escreve. Afinal, também nos podemos orientar por uma bússola que aponte sempre para o sul. E, não fosse para marcar a indispensável presença política, Marine Le Pen bem deveria desistir de concorrer às eleições presidenciais francesas de Maio de 2022, porque garantidamente não as pode ganhar.

08 abril 2021

A EVOLUÇÃO DA NOTÍCIA DA MORTE DE JORGE COELHO

Se cheguei a acompanhar todas as versões que foram noticiadas ontem ao fim da tarde a respeito da maneira como Jorge Coelho havia morrido, ele começou por morrer num acidente de viação, depois esse acidente de viação fora causado por um ataque cardíaco que o acometera enquanto conduzia, depois uma corrente dissidente substituiu o ataque cardíaco por um AVC com as mesmas consequências fatais, para finalmente uma versão posterior o retirar de dentro do automóvel sinistrado, para o fazer falecer em casa. Afinal, como se percebe lendo acima, estando numa casa, Jorge Coelho também não estaria em sua casa. Tudo isto é eloquente quanto à fiabilidade da informação que se pratica em Portugal, sobretudo quando os seus agentes têm de optar entre o rigor da informação e a celeridade de informar. Eloquente também, e aí não lhes faltará o engenho que falta para o resto, foi a habilidade como os traços de todas estas várias versões provisórias da notícia desapareceram agora dos registos, submersas pelas dúzías de encómios ao defunto.

A ÚLTIMA SESSÃO DA SOCIEDADE DAS NAÇÕES

8 de Abril de 1946. Começa em Genebra aquela que seria a última reunião da Sociedade das Nações (SdN). O propósito desta reunião era a auto dissolução da organização, que se veio a verificar a 20 de Abril. A recém criada Organização das Nações Unidas (ONU) seria designada como a herdeira do espólio e das infraestruturas da SdN que desaparecia. É por isso que algumas das agências da ONU, como a OMC (Comércio) ou a OIT (Trabalho) estão domiciliadas em Genebra na Suíça, utilizando as instalações que haviam sido da SdN, e isso apesar da Suíça não ser um país membro da ONU durante os primeiros 56 anos de existência da organização... Ultrapassando esse anacronismo do legado físico, o legado histórico da SdN nos seus 26 anos de existência é muito decepcionante: a eclosão da Segunda Guerra Mundial em Setembro de 1939, acontecimento para o qual a organização fora expressamente concebida, revelou-se o golpe final na sua reputação, de que esta sessão de há 75 anos veio a ser apenas a respectiva formalização. Como cantariam os Heróis do Mar, muitos anos depois: «Dos fracos, não reza a história...»

07 abril 2021

HOJE, FELIZMENTE, JÁ NÃO HÁ «LINCHAGENS»...

A 7 de Abril de 1921 o Diário de Lisboa iniciava a sua publicação. E logo nessa sua primeira edição lia-se esta pequena notícia de ressonâncias estranhamente actuais. Os negros norte-americanos dirigiam-se ao presidente recém empossado - Warren G. Harding tomara posse há um mês - pedindo-lhe os «direitos» que supostamente já deteriam, mas que, aparentemente, eram letra morta no sul do país e que «fizesse aprovar qualquer medida legislativa» que pusesse termo «às linchagens e aos trabalhos forçados». Supostamente, questionar-se-ia o leitor de há cem anos (e o de hoje!), houvera uma Guerra Civil na América sessenta anos antes deste apelo (de 1861 a 1865), e por causa precisamente desses assuntos...? O leitor de hoje já está esclarecido que essa guerra só aparentemente se travara por causa da questão da escravatura, e também que o linchamento de negros já se tornou num assunto muito menos permissivo, mais complexo, sobretudo por causa das filmagens dos telemóveis... Esta primeira fotografia abaixo é um clássico daqueles tempos: teve lugar em Duluth, estado do Minnesota, em 1920. A segunda fotografia, que quase todos reconhecerão, teve lugar em Minneapolis, no mesmo estado do Minnesota em 2020. Não foi tudo, mas alguma coisa se progrediu nestes cem anos...

O «EMBAIXADOR FERIDO A TIRO»

7 de Abril de 1971. Aquilo que se pode ler na notícia do Diário de Lisboa sobre o que acontecera na embaixada da Jugoslávia em Estocolmo era pouco e era propositadamente vago. Por exemplo, já se sabia (embora a notícia não o mencione) que os «dois terroristas armados com revólveres» eram nacionalistas croatas porque os dois haviam-no proclamado audivelmente em frente às câmaras de televisão quando eram transportados algemados depois de presos (no vídeo abaixo), gritando vivas ao Estado Independente da Croácia e a Ante Pavelić. Pela concisão, notava-se que não houvera muito empenho em desenvolver a notícia. Especular sobre o que motivara a acção. E havia imensos aspectos de interesse. A escolha da embaixada entre as várias que a Jugoslávia possuía na Europa Ocidental não fora acidental: o embaixador, Vladimir Rodović, um montenegrino, era um coronel da polícia política jugoslava e dirigira um campo de concentração de presos políticos. E andava normalmente armado. Ele ainda tentou reagir aos dois assaltantes, mas estes dominaram-no e manietaram-no. Depois executaram-no, no quadro da guerra suja que se travava entre a organização terrorista croata e os serviços secretos jugoslavos. Morreria dali por uma semana. O terrorismo croata era, contudo, um assunto chato de abordar. Em primeiro lugar porque as suas acções visavam destruir a Jugoslávia e com ela, o equilíbrio europeu, e isso não interessava nada. Em segundo lugar porque a organização que promovia esse terrorismo estava historicamente conotada com o fascismo e também não convinha recordar isso. E em terceiro lugar porque o país que dava santuário a essa organização era a Espanha franquista. Além disso, o assunto ocorrera na Suécia, com quem Portugal não mantinha as melhores da relações - apoiavam as organizações nacionalistas africanas das colónias portuguesas - e onde se falava uma língua que ninguém percebia (ouça-se o vídeo abaixo...). Portanto, quanto menos se falasse do assunto, melhor: oito linhas tem a notícia. Os dois terroristas croatas vieram a ser condenados a prisão perpétua, mas depois libertados pouco mais de um ano depois do acontecimento, em Setembro de 1972, na sequência do sequestro de um avião da SAS, organizado mais uma vez pela sua organização.

06 abril 2021

A INVASÃO SIMULTÂNEA DA GRÉCIA E DA JUGOSLÁVIA

6 de Abril de 1941. A Alemanha invade simultaneamente a Jugoslávia e a Grécia. Não se trataria de uma notícia surpreendente, se se atentasse à impaciência da Alemanha com o comportamento pouco conforme à sua hegemonia continental que estava a ser assumido por qualquer daqueles dois países (como aquimencionáramos). Mas, mesmo assim, a notícia de mais um alargamento da Segunda Guerra Mundial não deixa de constituir um choque. E, por se tratar de um Domingo, toda a primeira página do Diário de Lisboa é dedicada ao acontecimento. Abaixo, o mapa das operações. Invadida a partir de cinco dos sete países com que a Jugoslávia fazia fronteira (Itália, Áustria, Hungria, Roménia e Bulgária), o país é indefensável nos moldes clássicos da constituição de frentes de combate e cairá rapidamente (pouco mais de uma semana), numa nova reedição da «blitzkrieg». Um pequeno contingente britânico ainda participará em assistência aos gregos, mas o desfecho foi o mesmo: como se pode perceber pelas datas do mapa abaixo, a resistência grega no continente terminará ainda antes do final do mês de Abril.

05 abril 2021

«SE CALHAR, A FARDA AJUDA...»

Eu já aqui apontei o caricato da situação de apresentar um almirante responsável por um programa de vacinação fardado de camuflado, mas tenho que me resignar aos resultados e concordar com o próprio almirante quando ele concede que, «se calhar, a farda ajuda». E ajudará mais do que apenas nas funções de coordenação, porque ainda aqui há uns dias e - para recuperar a descrição feita por António Araújo no Diário de Notícias - «com a conivência de um país inteiro, vimos professores sorridentes, com 20 ou 30 aninhos, a esticarem os braços para as picas milagrosas, e ninguém se questionou, ninguém se indignou, ninguém interpelou as autoridades máximas da nação» - almirante incluído, acrescento meu - «sobre como é possível, como é moral e humanamente admissível que jovens sem risco algum estejam alegremente a tirar o lugar aos mais indefesos, aos mais carentes. As vacinas e os recursos mobilizados para vacinar professores por atacado poderiam servir para salvar muitas vidas - cálculo que não foi feito, de todo, até porque ninguém o reclamou.» Submeto-me à constatação: o camuflado do almirante é despropositado para a sua função, mas gera um capital de respeitabilidade e é eficaz a dissipar eventuais contestações impertinentes. Ninguém chateia o almirante. Constatação e conclusão que, por associação de ideias, me transportou de imediato ao problema pessoal de Rui Rio, expresso nestas sondagens expressivas que se publicam rotineiramente quando a posição de António Costa se mostra politicamente mais periclitante. Também ajudaria Rui Rio a domesticar os sebastiano-passistas do seu partido. Mas, já que, para o fazer aparecer fardado, não faz sentido que ele volte a assentar praça com aquela idade, que tal distribuir estas suas fotografias do tempo em que foi magala para lhe aumentar a respeitabilidade?

04 abril 2021

A REVOLTA DA MADEIRA

4 de Abril de 1931. Desencadeia-se no Funchal mais um pronunciamento contra a Ditadura Militar que se mantinha no poder desde Maio de 1926. O pronunciamento militar ficará conhecido como a Revolta da Madeira, mas um outro nome que recebeu, o de Revolta dos Deportados, parecer-me-ia mais adequado. Isso porque a prática da Ditadura havia sido a de deportar para as ilhas adjacentes (Açores e Madeira), e também para as colónias, os oposicionistas político-militares que se haviam pronunciado em diversas intentonas para o derrube da Ditadura a que esta, com pertinácia, mas também com alguma dose de sorte, soubera resistir. Contudo, um subproduto desta sanção do ostracismo, é que todos estes locais, outrora remotos, se encontravam agora guarnecidos de uma plétora de oficiais oposicionistas à situação exilados, que, apesar de desprovidos de qualquer comando e funções, dispunham de todo o tempo do mundo para conspirar - em locais onde os recursos ao dispor dos representantes da autoridade do estado eram escassos. Contudo, a ameaça não se afigurava importante: havia um oceano a interpor-se entre os conspiradores e o seu objectivo último: Lisboa. Só que há precisamente 90 anos houve um grupo que resolveu não levar isso em consideração e promoveu este pronunciamento no Funchal.
A fase da insurreição e da prisão das autoridades locais foi tão fácil que não teve história. E tão embaraçosa que no continente a censura bloqueou as notícias sobre o que acontecera na Madeira durante 72 horas. Foi só em 7 de Abril (acima) que os jornais puderam dar conta do que se passara, só que agora incluía já «as providências do Governo para dominar os revoltosos». Mas a história ainda se encontrava longe do fim porque no dia seguinte, 8 de Abril, registava-se um pronunciamento semelhante em quatro ilhas dos Açores e em 17 de Abril aconteceria o mesmo em Bissau, capital da Guiné Portuguesa. E outros pronunciamentos similares vieram a ser abortados em São Tomé e em Lourenço Marques. O episódio mostrava como um punhado de oficiais deportados ou para ali desterrados administrativamente, podiam com alguma facilidade assumir o poder nesses entrepostos distantes do império português. Quanto à reacção governamental, que acima se esboçava, ela veio pôr a nu a carência de meios militares e navais do regime: aquilo que era possível mobilizar em termos de resposta imediata (48 horas) era uma «coluna composta exactamente por 704 homens» transportados em dois navios civis fretados à Companhia Nacional de Navegação (CNN), o paquete «Pedro Gomes» (foto acima) e o cargueiro «Cubango» (foto abaixo).
Este último transportaria os meios de combate mais pesados, assim como quatro hidroaviões que ainda seria preciso acomodar a bordo. Quanto à marinha de guerra, e ainda de acordo com a notícia mais acima do Diário de Lisboa, o cruzador «Carvalho Araújo» «largara para a baía de Cascais onde ficaria a aguardar a saída do «Pedro Gomes», a fim de o comboiar até ao Funchal». A canhoneira «Zaire» estivera a fazer experiências de mar para depois se lhe juntar nessa mesma função. Quanto ao contratorpedeiro «Guadiana» «ficou assente em princípio que não largará do Tejo por não ter raio de acção suficiente para fazer a viagem de ida e volta sem se reabastecer». Como se constata, se os insurrectos não tinham meios de projectar a sua insurreição para o continente, a inversa também se afigurava um grande problema. A esquadra lá acabou por partir, mas apenas a 24 de Abril. O primeiro desembarque foi infrutífero, mas um segundo, a 27 de Abril, foi bem sucedido. Os combates duraram uma semana e em princípios de Maio o assunto estava encerrado, com a rendição dos insurgentes. Mas deixem-me acrescentar um último detalhe, simbólico da impreparação militar e naval que esta Revolta dos Deportados evidenciara: durante as operações, a 30 de Abril de 1931, ao largo do Funchal, o paquete »Pedro Gomes» abalroou acidentalmente o contratorpedeiro »Vouga», afundando-o em horas. Apesar de não se registarem desastres pessoais, foi a perda material mais significativa da campanha...

A EFEMÉRIDE E O CONTEXTO EM QUE OCORREU

Esta semana houve quem assinalasse - «e bem!», como diria enfaticamente o Jorge Coelho - a passagem do 45º aniversário da aprovação da Constituição da República Portuguesa. Porém, aquilo de que eu normalmente sinto falta nestas evocações é de um contexto explicativo, não apenas do acontecimento, mas da época. Um contexto que, se devidamente explorado, estou em crer que tornaria aquilo que se escreve a respeito da ocasião mais vivo, menos soturno e formal. Vale a pena recordar que, nessa mesma semana em que se aprovava a constituição, o top de vendas discográfico era encimado pela música petite demoiselle, interpretada pelo belga Art Sullivan. Aparentemente, o povo cansara-se de tanta qualidade em todas aquelas canções de intervenção que blindavam as rádios contra a música burguesa e, como não havia produção pimba doméstica, substituíra-a pelo que conseguira arranjar, em francês, adoptando os padrões de gosto que lhes chegavam via emigração...
Outra abordagem contextualizada para a época, seria inquirir o que fazia então o actual presidente da Assembleia da República. Entre outras actividades, Eduardo Ferro Rodrigues era o director do jornal Poder Popular de que exibimos abaixo a edição dessa semana. O momento não parecia ser de grandes celebrações, como se depreende pelo título enviesado que o jornal publica, concentrando-se em atacar a direita e não em celebrar o documento que acabara de ser aprovado por ampla maioria. Nas páginas do interior era-se mais explícito quanto às razões para que no MES não fossem uns grandes entusiastas: «É que a Constituição, apesar de não conter as mais importantes conquistas revolucionárias das massas trabalhadoras, reflecte o período de luta de classes anterior ao 25 de Novembro...» Era assim naqueles tempos, hoje estou convencido que Ferro Rodrigues teria uma certa relutância em emprestar o seu nome a uma publicação onde se propusesse rever aquela mesma Constituição pela esquerda... mudou (muito) de opinião.
Constituição essa que já foi muito revista, mas pela direita... Mas registem como, relembrando duas ou três coisas como estas, as narrativas se tornam muito mais interessantes. 

03 abril 2021

AS «HOT PANTS» LUXEMBURGUESAS

3 de Abril de 1971. Repare-se como a edição do dia realçava em página inteira a expectativa para a realização do Eurofestival daquele ano, que se iria desenrolar em Dublin. A novidade da transmissão do festival para países africanos (e a notícia detalhava-os: Tunísia, Marrocos, Mauritânia, Quénia, Uganda, Serra Leoa e Etiópia) acrescentava uma nota pueril à notícia. O contraste era composto pela caixa onde se falava da ameaça «de rapto da cançonetista inglesa», consequência das más relações anglo-irlandesas por causa dos problemas do Ulster. Mas, como melhor evocação do que aconteceu nessa noite, deixem-me recuperar algo que escrevera sobre este certame.
Começando por recordar que na temporada Outono-Inverno de 1970/71 assistiu-se à moda fugaz das hot-pants, uns calçõezinhos minúsculos que serviam para mostrar as pernas até bem cá acima, uma moda que bem depressa ficou esquecida. Depois disso, as hot pants viram-se passadas à condição de fato de trabalho de algumas prostitutas... Mas, por ocasião do Eurofestival de 1971 ainda as hot pants eram moda e respeitáveis e a concorrente luxemburguesa apresentou-se a concurso com uma canção engraçada intitulada Pomme, pomme, pomme (Maçã, maçã, maçã), envergando umas hot pants – conforme o vídeo de apresentação – muito tentadoras
O Eurofestival desse ano realizou-se na Irlanda, que, no seu catolicismo, não seria propriamente um dos países mais avançados da Europa em termos de costumes. A canção luxemburguesa apresentava-se em 8º lugar, a intérprete chamava-se Monique Melsen que tinha então 20 anos, com uma figura e a idade apropriada para usar as tais hot pants… Mas o que se torna engraçado ao fim de todo este tempo é observar as habilidades com os planos de que se socorreu o realizador televisivo (acima) para evitar que se desse o destaque merecido a um dos melhores – talvez mesmo o único… – argumentos da canção luxemburguesa: as pernas de Monique…