19 agosto 2018

NOVOS TEMPOS REVOLUCIONÁRIOS: DOS «SANS CULOTTES» FRANCESES AOS «BRAINLESS» AMERICANOS

Com distanciamento, acredito que se vivem tempos verdadeiramente revolucionários na América, reminiscentes daqueles que há quase 220 anos (1789) se viveram em França. Só que, o enfâse que era dispensado aos apoiantes populares recebido pela Revolução francesa, incidia sobre aquilo que tinham, ou melhor, sobre aquilo que eles não tinham, conhecidos como eram por «sans culottes», sendo a culotte a peça de vestuário que, naquela época, conferia distinção social. Em contraste, os apoiantes populares da actual Revolução americana (2016) são também uns destituídos, mas já não de bens materiais, antes de cultura, educação e/ou inteligência, enfim de tudo aquilo que remotamente possam ser considerados bens intelectuais. Se as convenções tradicionais obrigavam os revolucionários das revoluções delfins da francesa a serem - ou passarem-se por - pobres, a partir de agora, pelos cânones da verdadeira Revolução americana, os revolucionários têm que ser - ou fingirem-se - altivamente ignorantes e estúpidos, impermeáveis a qualquer argumentação racional¹. Aos «sans culottes» parisienses (que seguiram acriticamente as derivas cada vez mais radicais de Maximilien de Robespierre até à sua perdição), sucedem-se-lhes agora os «brainless» americanos, a quem nada na conduta política e moral de Donald Trump parecerá incomodar - uma maioria silenciosa, como se exibe no cartaz acima, incluindo não apenas os que votam nele e o apoiam, como todos os outros a quem a sua conduta não os impele sequer a ir votar pelo outro (seja ele qual for...).

¹ É por causa dessa óptica que há que considerar Kellyanne Conway, criadora da expressão «factos alternativos» e da tecnologia dos «microfones a micro-ondas», uma das grandes revolucionárias do Século XXI.

18 agosto 2018

A GESTÃO (NOTICIOSA) DA DÍVIDA PÚBLICA - A NOSSA E, AGORA, A DOS OUTROS

Eu sempre gostei aldrabices quando nos são pregadas com a regularidade de um folhetim mensal. E o Observador é um jornal com muito estilo para elas. Já aqui, aliás, falei disso. O tema é a evolução da dívida pública portuguesa, a que todos os meses o Observador dedica um cabeçalho pessimista (veja-se acima...) a não ser que a dívida diminua e aí esquece-se de publicar a notícia dando conta da evolução da dívida pública nesse mês. Como aconteceu este mês.
E a informação até estava disponível... Mas é preciso consultar um jornal concorrente para saber o que aconteceu à dívida pública portuguesa. Já houve tempos - quando Pedro Passos Coelho era o primeiro-ministro - em que a prática do Observador era precisamente ao contrário: sonegava a notícia nos meses em que havia crescimento da dívida e enfatizava as diminuições. No fundo, nada que nos surpreenda, se conhecermos o engajamento da publicação.
Porém, verdadeiramente surpreendente acabou por ser esta muito recente inflexão do Observador, ao dar em preocupar-se com a dívida pública espanhola. Naquele jornal e mostrando o mesmo zelo em acompanhar os detalhes das finanças de um dos nossos parceiros europeus, só mesmo a Grécia, em que José Manuel Fernandes passou até todo o ano de 2015 a rogar-lhes pragas. Cobriu-se de ridículo. E agora, caído Rajoy, é que lhes deu em preocuparem-se com o endividamento público espanhol. Será que se trata de um caso de urticária congénita do Observador às geringonças?...

17 agosto 2018

A ÚLTIMA REMODELAÇÃO GOVERNAMENTAL DE SALAZAR

Edição do Diário de Lisboa de 17 de Agosto de 1968. Já se haviam passado duas semanas depois do então desconhecido, mas hoje imensamente invocado, episódio da queda da cadeira do presidente do Conselho, quando se noticia que Salazar procedera à que seria a última remodelação ministerial do seu governo. Tudo normal, portanto, tratava-se de uma daquelas remodelações de fundo e alargadas, sem a pressão política dos acontecimentos, aproveitando o período de férias (como fora a de 1958, depois da posse de Américo Tomás), remodelação essa que passava pelo aparecimento de seis novos ministros para as pastas do Interior, Educação, Saúde, Finanças, Exército e Marinha. Também haviam sido escolhidos outros quatro novos subsecretários de Estado. A aparência da situação política estava, por isso, muito longe de deixar adivinhar aquilo que estaria para acontecer daí por um mês. Reforço formalmente anacrónico da continuidade do regime, esclareça-se que o governo estava em funções há trinta e dois anos e meio (tomara inicialmente posse a 18 de Janeiro de 1936*). Desde lá, todos os seus titulares já haviam (naturalmente) rodado, com excepção do omnipresente presidente do Conselho...

* Nessa altura, e só para dar um exemplo, o recém empossado ministro do Exército, brigadeiro Bettencourt Rodrigues, então com 17 anos, ainda frequentaria o sétimo ano do liceu.

A ASSINATURA DO ACORDO DAS LAJES


17 de Agosto de 1943. Há precisamente 75 anos, após pouco mais de um mês de negociações (que se haviam iniciado em 5 de Julho), era assinado o Acordo das Lajes, contemplando a «utilização das facilidades do porto e baías da Ilha Terceira, necessária ao abastecimento e manutenção do campo das Lagens (sic). A protecção dos navios mercantes, britânicos ou Aliados, a esse fim destinados, será dado por navios de guerra e aviões da Comunidade Britânica». Ademais, seria permitida, a «utilização sem restrições do campo das Lagens (sic), na Ilha Terceira, pela aviação da Comunidade Britânica» e «o Governo Português continua(ria) a ter a seu cargo a defesa marítima, terrestre e aérea dos Açores, com excepção da defesa próxima do campo das Lagens (sic), que será assegurada por forças britânicas». Ao contrário do que pretende a versão portuguesa, este Acordo surge já depois dos Aliados se terem assegurado da supremacia aeronaval que lhes estava a permitir a vitória contra os submarinos alemães na Batalha do Atlântico (veja-se uma entrada neste blogue referente ao dia 30 de Julho de 1943). Contudo, a utilização da posição geográfica privilegiada dos Açores reforçaria - e de que maneira! - a posição britânica nessa Batalha contra os submarinos. Por outro lado, e ao contrário do que sugerirá a versão britânica, o timing do Acordo dever-se-á mais aos britânicos do que à gestão da sua neutralidade por parte dos portugueses. As facilidades que então se concediam nas Lajes não tem nada que se lhe assemelhe nos anais da Segunda Guerra Mundial* salvo, talvez, a ocupação da Islândia pelos britânicos em Maio de 1940, com a ressalva importante (e um grande alibi político!) de que essa ocupação teve lugar simultaneamente com a ocupação pelos alemães da Dinamarca (de quem a Islândia então dependia). No geral, os países que haviam conseguido permanecer neutrais durante a Segunda Guerra Mundial mostravam-se ferozes na preservação desse estatuto*. Na verdade, o mapa da Guerra no Verão de 1943 evoluíra de forma tão mais favorável para os Aliados ocidentais (neste 17 de Agosto de 1943 eles estão a acabar de expulsar os alemães da Sicília), que eles podem sondar Lisboa a respeito das Lajes suportados pela ameaça (agora) credível que alternativamente poderiam desencadear uma operação anfíbia de desembarque nos Açores. Seria uma medida extrema, desagradável de executar, mas, agora, que auxílio é que os portugueses (ainda ) contariam receber da parte alemã?... A operação recebeu um nome de baptismo (Operação Lifebelt) e foi mais um daqueles inúmeros segredos militares assinaláveis por não serem mantidos em segredo, antes preferencialmente conhecidos pela parte visada, para a (im)pressionar. O segredo funcionou. Não foi preciso invadir ilha alguma. Assinado discretamente o Acordo em Agosto, a chegada dos primeiros contingentes britânicos a que se referem as imagens acima teve lugar em princípios de Outubro de 1943. Mas esta é apenas a evocação do Acordo para a cedência da Base das Lajes aos britânicos. A sua posterior transferência para os americanos é toda uma outra história.
* Alguém conceberia porventura, mesmo em 1940/41, a Espanha a assinar um acordo simétrico com a Alemanha, a respeito da concessão de facilidades militares semelhantes nas Baleares ou nas Canárias?...

16 agosto 2018

CERTAS RELATIVIDADES CULTURAIS SÃO ACEITÁVEIS. OUTRAS NÃO.

Há uma diferença enorme (que muitos porém confundem) entre aquilo para o qual devemos até ter a modéstia de nos mostrarmos abertos e empáticos, e aquilo para o qual não há tolerância possível. O quadro acima evidencia o quanto (se se abandonar a nossa tradicional perspectiva eurocêntrica) nos podemos consciencializar que, em certas circunstâncias, podemos passar por analfabetos - naquela página da wikipedia nem conseguimos identificar sequer de que idiomas se tratam, já que se ignora em que alfabetos estão escritos os textos. Mas não será esse analfabetismo (que nos obriga, por sua vez, a entender o aviso abaixo só quando escrito no internacional inglês) que nos deve induzir a aceitar de forma casual e displicente a prática de impedir as mulheres de aceder a um mero estabelecimento de fast-food. É retrógrado, está mal. E, como se deduzirá pelos logotipos à vista (que esses não mudam com os alfabetos...), casos do McDonald's, dos cartões Visa ou MasterCard, o capitalismo, manifestando ter uma moral, tem-na muito específica.

15 agosto 2018

PEDRO SANTANA LOPES NA AMÉRICA ERA UM MENINO


Se a leitura atenta da carta de despedida de Pedro Santana Lopes aos militantes do PPD/PSD pode realçar o ridículo de uma redacção superficial e de uma revisão desatenta, como aqui outro dia mostrei, ocorreu-me recuperar um outro caso mais exuberante, porque televisivo e porque em vez de enumerar tópicos em excesso e depois esquecer-se de os desenvolver, no caso o protagonista sabia que eram três, mas depois esqueceu-se de qual era um deles... Veja-se acima o momento em que o candidato presidencial norte-americano Rick Perry, em pleno debate, está embalado a comprometer-se a um programa de equilíbrio financeiro do estado, que passará pela extinção de três ministérios (departamentos na nomenclatura americana) da sua futura administração. O problema é que, ao enumerá-los, já não sabe qual é o terceiro dos departamentos que quer extinguir... Ridículo, ficou conhecido pelo momento «Oops». Neste caso, reconheça-se que Pedro Santana Lopes se safou melhor porque mais vale enumerar a mais do que a menos... Mas o ridículo da história de Perry ainda não acabou: convidado por um Donald Trump quiçá sarcástico, Rick Perry aceitou vir a dirigir o departamento de Energia da sua administração, precisamente o departamento que ele queria extinguir e de que se esquecera o nome... Por muito que ele se esforce para arranjar pretextos para figurar nas notícias, na América, Pedro Santana Lopes era um menino.

NIXON ANÚNCIA MEDIDAS PARA PROTEGER O DÓLAR


15 de Agosto de 1971. Um Domingo. Aproveitando o facto de se estar num fim de semana e no meio das tradicionais férias de Agosto, o presidente Richard Nixon anuncia pela televisão um conjunto de medidas de cariz económico, mas sobretudo financeiro, visando o reequilíbrio das contas externas dos Estados Unidos e a dinamização da sua economia: um congelamento de preços e salários por um período de três meses, a adopção de uma sobretaxa de 10% sobre as importações e, sobretudo, o abandono da indexação do dólar ao ouro, que fora um dos esteios das regras de comércio internacional entre as economias capitalistas desde os acordos de Bretton Woods de Julho de 1944. Na verdade, 27 anos passados, o sistema concebido em Bretton Woods já estaria a caducar: em Maio daquele ano, a Alemanha Federal abandonara-o, e em princípio de Agosto acontecera o mesmo com a Suíça. Só que a saída dos Estados Unidos - anunciada por Nixon naquele serão de Domingo como uma suspensão - tinha como consequência desfazer o sistema. A acrescer às repercussões financeiras (já que os Estados Unidos queriam forçar as economias dependentes a desvalorizarem também as suas moedas) havia as repercussões políticas, já que a decisão de Nixon fora tomada em segredo, sem qualquer consulta aos seus aliados. Por uma vez, lembro-me de quanto aquela tradicional placidez noticiosa do mês de Agosto foi profundamente perturbada pelas consequências de uma decisão por uma vez verdadeiramente importante (e, ao mesmo tempo, complicada de explicar à opinião pública interessada). As manchetes das edições da semana que se seguirá àquele anúncio vão ser grandes e, para não se pensar agora que tudo foi sempre um mar de rosas nas relações transatlânticas durante esses anos, relembre-se por alguns dos cabeçalhos abaixo a reacção negativa dos europeus à iniciativa norte-americana. A diferença para a actualidade era que Richard Nixon, mesmo que não merecesse (e isso então ainda não se sabia...), era respeitado.

14 agosto 2018

FOTOGRAFIA DE UMA PRAIA CHEIA DE INGLESES, COMO ELES GOSTAM

Circula por aí uma notícia típica de silly season, que nos conta as desventuras de uma avózinha inglesa de 81 anos, que foi passar um par de semanas de férias a Benidorm, Espanha, em Maio passado e que veio de lá muito desapontada. Aparecida inicialmente num jornal local britânico, o Lancashire Telegraph, a notícia propagou-se rapidamente aos tablóides e a outros jornais de maior circulação em Inglaterra, acabando por regressar aos jornais do país da origem da questão, a Espanha. Por cá, a coisa também não escapou ao Correio da Manhã. Toda a «popularidade» da notícia deve-se à forma como a velhota redigiu a reclamação que endereçou à agência de viagens que contratara. Segundo a senhora, Benidorm, e especialmente o hotel em que ficou alojada, estaria «repleto de espanhóis» e estes, na sua opinião, não se sabiam comportar (os clientes, os empregados não...). Em abono do seu cosmopolitismo, na reclamação, ela refere que já fizera férias na Grécia, Turquia, Portugal e (sic) Tenerife e que esta seria a primeira vez que reclamava por umas férias que qualificou de «desastrosas do principio ao fim». A acrescer, e como os tablóides britânicos não gostam de abandonar um assunto destes sem o explorar até ao tutano, houve um deles que foi investigar as reviews do hotel em causa, para concluir que já vários compatriotas da avózinha se haviam queixado da profusão de espanhóis alojados naquele hotel (que se situa em Benidorm, Espanha, relembre-se...). Eu sempre suspeitei que existe em todo o inglês em férias aquela opinião secreta, escondida, que os verdadeiros destinos turísticos ideais seriam aqueles que só eles os frequentariam. Já todos nos teremos cruzado com vários ingleses no Algarve que nos exprimem de uma forma inequívoca que quem está ali a incomodá-los seremos nós. E no entanto... os ingleses têm destinos turísticos deles e só para eles no seu próprio país: a fotografia acima é de Frank Horvat e foi tirada em 1960, da magnífica praia de Brighton que se estende por mais de 8 quilómetros. É verdade que o Sol - que é escasso - não impressiona nesta foto pela sua luminosidade. É verdade também que areia, nem vê-la, já que o solo é pedregoso, polvilhado de calhaus. Reconheço que também não se vê ninguém na água. Mas aqueles pontões são uma beleza e o conjunto tem a ineludível vantagem da frequência, já que, para além das duas banhistas que, em primeiro plano, compostamente se mudam, estou tentado a apostar que, até aonde a vista alcança, não haverá banhistas de uma nacionalidade diferente que não a britânica. Porque é que eles não ficam por lá? É que isto de vagar os nossos países só para que eles se instalem ao Sol mais à vontade é logisticamente complicado, não é?...

O PRIMEIRO PETRÓLEO TRANSPORTADO PELO OLEODUTO «BIG INCH»

14 de Agosto de 1943. Entre as proezas mais engenhosas - e desconhecidas - da engenharia que se realizaram durante a Segunda Guerra Mundial, conta-se a construção destes dois oleodutos, o Big Inch e o Little Big Inch, que foram construídos em menos de dois anos e que atravessavam o interior dos Estados Unidos, conectando as regiões produtoras de petróleo do Texas com os grandes portos do Nordeste dos Estados Unidos. Tradicionalmente, e até à entrada dos Estados Unidos na guerra, em finais de 1941, o abastecimento petrolífero das regiões industriais do Nordeste fizera-se por transporte marítimo. Depois disso, os ataques dos submarinos alemães junto às costas dos Estados Unidos (uma média de uma dúzia de petroleiros afundados por mês nos primeiros quatro meses de 1942!), incentivaram fortemente que esse transporte passasse a ser feito por terra e que a construção de um oleoduto se iniciasse rapidamente. Por outro lado, e dado o engajamento dos Estados Unidos na guerra na Europa, havia também a necessidade de aumentar o volume de transporte da matéria-prima para que ela fosse dali transportada em petroleiros para as forças expedicionárias americanas na Europa. Foi há 75 anos que, completado o troço principal do oleoduto (tinha um diâmetro de 610 mm), o primeiro petróleo, saído de Longview no Texas, chegou a Phoenixville na Pennsylvania, a quase 2.000 km de distância. O débito médio do oleoduto era de um milhão de barris cada três dias. Comparado com os níveis de consumo da actualidade esses volumes são mínimos, mas esta é mais uma daquelas discretas proezas da logística que possibilitaram que as grandes proezas das operações militares pudessem ter sido como foram. Pode-se dizer que uma impressionante fracção do Dia D da Normandia e de tudo o que se lhe seguiu se fez à custa do petróleo texano!

13 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: UMA ÚLTIMA REUNIÃO ENTRE DUBČEK E ULBRICHT

Em contraste com o que acontecera três dias antes com a visita de Tito da Jugoslávia, o encontro de Alexander Dubček com Walter Ulbricht caracterizou-se pela discrição. Os checoslovacos estavam interessados em promover encontros com os socialismos desalinhados (das directivas de Moscovo) da Jugoslávia e da Roménia. Mas o alemão, incomodado - quiçá ciumento - com as aproximações mais recentes da Checoslováquia à Alemanha Ocidental, fizera-se convidado, para passar um último recado. Como se lê na notícia abaixo, o encontro teve lugar em Karlovy Vary, uma «sossegada estância termal, situada a 160 quilómetros de Praga», que tinha a vantagem (para o visitante) de se localizar a uns escassos 25 quilómetros da fronteira com a Alemanha. A impopularidade de Ulbricht - considerado a face da linha mais dura anti-reformista do Bloco Leste - era evidente entre checos e eslovacos, e aquele novo formato de socialismo de rosto humano até permitia que o exprimissem: da última vez que Ulbricht estivera na Checoslováquia, em Bratislava, em vez das entusiasmadas bandeirinhas que acolhiam obrigatoriamente os estadistas dos países socialistas, o líder alemão fora vaiado! Com uma curta viagem de 25 quilómetros em território hostil permitir-se-ia assim reduzir as hipóteses que essa desagradável cena se repetisse. Do lado dos checoslovacos e em contraste com a discrição dos soviéticos e dos seus títeres, registe-se o interesse a publicitar as enormes pressões a que estavam a ser submetidos. Terminada há cinquenta anos, nada de construtivo sairá da reunião e aquilo que hoje se sabe ser a contagem decrescente para a invasão continuará até ao dia 21 de Agosto. Uma nota curiosa a respeito da notícia abaixo: o jornalista consegue-a redigir sem por uma vez utilizar aquela que era a designação oficial da Alemanha Oriental, República Democrática Alemã, talvez por imposição da Censura.

12 agosto 2018

OS DOIS MIGS SÍRIOS QUE ATERRARAM POR ENGANO EM ISRAEL

12 de Agosto de 1968. Há cinquenta anos, dois caças Mig-17 da Força Aérea síria aterravam inesperadamente num antigo aeródromo militar no Norte de Israel. Apesar de as autoridades israelitas terem noticiado que se devera a causas acidentais, a explicação foi acolhida com um cepticismo que se justificava por vários precedentes. Em 1962, numa operação de espionagem que correra mal, os israelitas haviam tentado aliciar um piloto egípcio de um Mig-17 a desertar para Israel. A operação correra mal, a rede de espionagem foi denunciada e três agentes acabaram executados. Porém, em 1964, uma operação semelhante foi bem sucedida, quando o capitão Mohammad Abbas Helmy  da Força Aérea egípcia desertou com o seu Yak-11 de treino para Israel. O desertor veio a ser executado no Cairo dois anos depois. E em Agosto de 1966, realizara-se uma terceira operação do mesmo género, protagonizada agora pelo capitão Munir Redfa da Força Aérea iraquiana, tendo em vista a obtenção de um caça Mig-21. Perante este historial, percebe-se o cepticismo internacional que acolheu as explicações oficiais de que o a aterragem dos Migs-17 do tenente Walid Adham e do 2º tenente Radfan Rifai, da Força Aérea síria, se devera a erros de navegação. Contudo, os pilotos sírios haviam aparentemente usado mapas datados de 1945, haviam entrado no espaço aéreo libanês, haviam-se desorientado e pensavam estar a aterrar numa base aérea do Líbano, quando estavam a aterrar num aeródromo praticamente desactivado em Israel, numa manhã soalheira (eram 08H45), e sem combustível suficiente para tornar a descolar . Era uma história suficientemente estúpida para ser verosímil. Não abonava nada em favor da preparação da navegação que era ministrada pela Força Aérea síria aos seus quadros, mas os factos posteriores vieram corroborá-la: os dois pilotos permaneceram aprisionados até 1970, aquando da realização de uma troca de prisioneiros entre israelitas e sírios. Acrescente-se que, em Outubro de 1989, um major sírio virá a desertar aos comandos de um Mig-23.

...E SE O DOMINGO ESTIVER CHATO, HÁ SEMPRE A OPINIÃO SURREAL DE JOÃO MARQUES DE ALMEIDA...

Já não é a primeira vez que, com aquele mesmo título acima, venho aqui notar quanto as opiniões de João Marques de Almeida vêm, com o seu humor involuntário, salvar um Domingo politicamente aborrecido. O humor desta crónica, fino como sempre, concentra-se naquela passagem em que o autor se refere, logo ao início mas à vol d'oiseaux, ao «novo partido de Santana Lopes». A finura do humor deve-se ao facto de, há apenas sete meses, João Marques de Almeida ter sido mais um de entre muitos que se engajaram na campanha de Pedro Santana Lopes para a presidência do PSD (abaixo), uma campanha que, merece a pena recordar (mais abaixo), teve por mote: Unir o Partido, Ganhar o País. Ora os factos aí estão a demonstrar que, e ainda a respeito desse mote, para Pedro Santana Lopes, a unidade do partido só teria sido importante se ele tivesse ganho o partido... Como perdeu, é o que se está a ver...
Mas o julgamento sobre as atitudes de Santana Lopes recairão sobre o próprio. Ele que se encarregue de fazer pela vida. Agora, de toda aquela horda que ainda há sete meses se manifestava a seu favor é que não se ouve nada. Ou melhor, porque o contraste é enorme, o silêncio é ribombante. E é aqui que um passarinho como João Marques de Almeida se destaca, porque, ao não ter memória daquilo que ele próprio escreve, pressuporá que os outros a não tenham também. Ora, neste caso, quase todos aqueles que estiveram com Santana Lopes acabaram agora politicamente encornados. Isso já todos percebemos. O que torna a cena ainda mais cómica são as relutâncias actuais de Marques de Almeida e de tantos outros como ele em reconhecer os chifres (políticos) que ostentam...

11 agosto 2018

O TELEGRAMA DOS CEM ENFORCADOS DE LENINE

11 de Agosto de 1918. Desta vez, não se pode pedir aos nossos simpáticos leitores que consigam decifrar o conteúdo do texto abaixo. Trata-se de um texto manuscrito por Lenine para depois ser convertido num telegrama enviado às autoridades bolcheviques da província de Penza. A tradução será como se pode ler abaixo: (nota: kulak era a designação depreciativa dos bolcheviques para os camponeses mais prósperos)
«(Enviar isso para Penza - para os camaradas Kuraev, Bosh, Minkin e outros comunistas de Penza.)

Camaradas! A revolta dessas cinco regiões de kulaks deve ser suprimida sem misericórdia. O interesse da Revolução exige isso, porque temos agora diante de nós a nossa batalha final decisiva contra os kulaks. Precisamos que se dê um exemplo.
1.Enforquem (e certifiquem-se de que o enforcamento seja público) pelo menos uns 100 kulaks conhecidos, aqueles que sejam os mais ricos e parasitas.
2. Publicitem os seus nomes.
3.Confisquem-lhes todas as suas colheitas.
4. Seleccionem reféns de acordo com as instruções do telegrama de ontem.
Telegrafem-nos acusando a recepção e a execução do telegrama.

Ass: Lenine

Usem os camaradas mais duros nesta tarefa.» 
O teor desse telegrama de que hoje se celebra o centenário é inequívoco quanto à forma implacável como o Lenine genuíno entendia que se devia lidar com as resistências à sua autoridade. Todavia, 50 anos depois (e há cinquenta anos), alguma propaganda comunista criara um outro Lenine moderado e mítico, a que os checos apelavam por ocasião da invasão do seu país pelos soviéticos. Em resposta à presença dos blindados nas ruas de Praga, havia quem pintasse apelos nas paredes, montras ou em faixas, em checo (acima) ou em russo (abaixo), em que se pedia a Lenine que acordasse, porque o seu discípulo, Brejnev, ensandecera. Ingenuidade pura! Comparado com a forma como o seu mentor teria actuado (a fazer fé no telegrama acima), e mesmo que o desfecho tenha sido o que foi, a conduta de Brejnev fora, comparativamente, a imagem da contemporização...

10 agosto 2018

10 DE AGOSTO: UMA DATA DE CALENDÁRIO APARENTEMENTE PROPÍCIA A EVASÕES DE PODEROSOS

Neste dia de 1874, quem se evadiu foi François Achille Bazaine (1811-1888), Marechal de França, que fora condenado a vinte anos de prisão por ter capitulado com o exército que comandava aquando da Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Ainda nem um ano cumprira, na ilha de Santa Margarida, quando o marechal se evadiu conjuntamente a esposa (que o acompanhara na prisão!), refugiando-se depois em Madrid, onde veio a falecer dali por 14 anos, não sem se ver alvo de um atentado por parte de um francês mais intolerantemente patriota. Também neste dia de 1983, outro poderoso que se evadiu foi Licio Gelli (1919-2015), um financeiro italiano associado ao escândalo da falência de um banco e com uma poderosíssima rede de contactos devida ao facto de ser o grão-mestre de uma organização maçónica denominada P2. Preso na Suíça a pedido das autoridades italianas, também ele não chegou a cumprir um ano na prisão, enquanto os seus advogados tentavam atrasar o processo de extradição. Sinal dos novos tempos, não há nada melhor do que plantar uma manobra de desinformação (abaixo) para tentar diluir o impacto do episódio da evasão que constituía, afinal, uma completa admissão de culpa de Gelli...
O futuro dos acontecimentos viria a provar que o hipotético «refém» afinal fugira para a América Latina, onde permaneceria na clandestinidade por quatro anos, antes de retornar à Europa, para um fim de vida repleto de incidentes judiciais. Mas neste caso, talvez por se tratar de uma questão de dinheiro e não de honra, não há registo de quem tenha atentado contra a sua vida.

09 agosto 2018

HÁ CINQUENTA ANOS: TITO VISITAVA PRAGA


9 de Agosto de 1968. O presidente Tito da Jugoslávia visitava Praga, acolhido no aeroporto com uma manifestação de regozijo de uma espontaneidade verdadeiramente socialista (no Ocidente não se conseguia ser assim tão espontâneo, com as bandeirinhas e tudo...). Paradoxalmente, aquilo que ali levava Tito, o mais destacado dirigente socialista dissidente na Europa, era a procura desesperada por parte de Alexander Dubček de uma solução conciliando a manutenção da Checoslováquia sob um regime comunista, mas com uma maior liberdade de actuação a respeito das questões domésticas, como acontecia com a Jugoslávia. Contudo, como a própria informação da época reportava (abaixo, as notícias do Diário de Lisboa de 9 e 10 de Agosto de 1968), se a Jugoslávia desenvolvera - e a que custo! - o poder e o prestígio de se defender da intromissão dos soviéticos, uma outra coisa seria projectá-los para o resto da Europa do Leste. A Jugoslávia «reservava-se»... e a Checoslováquia via-se mais sozinha. Não se sabia então, mas a invasão soviética estava apenas a 12 dias de distância.

A BATALHA DE ADRIANÓPOLIS

9 de Agosto de 378. Há precisamente 1.640 anos disputava-se a batalha de Adrianópolis. Sabe-se a data precisa em que foi travada, sabe-se a identidade dos intervenientes, sabe-se o seu desfecho (uma ressonante derrota imperial, incluindo a morte de um dos imperadores romanos, Valente), mas, sobre a própria batalha em si, não se sabe verdadeiramente muito mais. A comprová-lo, este quadro abaixo, que retirei da página da wikipedia em castelhano e que inclui doze cenários distintos de especialistas a respeito da constituição dos dois exércitos em presença. As forças bárbaras podem ter ido de mais de 10.000 homens até mais de dez vezes isso (155.000); as dos romanos, de 15.000 efectivos até ao quádruplo (60.000). A relação de forças é maioritária para os bárbaros em sete dos casos, mas os romanos estariam em maioria para cinco dos especialistas. E essa relação pode variar numa proporção em que os godos seriam o triplo dos romanos, até à versão oposta em que os romanos seriam 50% mais do que os seus adversários. Todas estas discrepâncias mostram que, sabendo-se o desfecho da batalha, tacticamente não se sabe o que aconteceu. Ao contrário do que aparece escrito no quadro abaixo, o resultado da batalha não foi uma «vitória visigoda decisiva». Foi uma acção importante no quadro das Guerras Góticas que se travaram de 376 a 382, mas vale a pena referir que essas guerras terminaram com a assinatura de um Tratado no Outono de 382. Só que, a partir daquela ignorância sobre o que verdadeiramente aconteceu há 1.640 anos, construiu-se ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX, uma narrativa a respeito da batalha ter representado o crepúsculo do papel da infantaria da Antiguidade em detrimento da ascensão da cavalaria que atingirá depois o apogeu na Idade Média. Foi engraçado de contar, mas é muito bem capaz de não ter sido assim. E é sempre de louvar quando, em vez de inventar, confessamos a nossa ignorância.

08 agosto 2018

O «DIA NEGRO» DO EXÉRCITO ALEMÃO

8 de Agosto de 1918. Pelas 04H20 de uma madrugada enevoada, os Aliados desencadeiam mais uma ofensiva na Frente Ocidental. Completados os quatro anos de guerra, ao longo dos quais se completara uma paulatina e custosa aprendizagem, os procedimentos para o desencadear das ofensivas haviam-se finalmente aprimorado e estandartizado: as 10 divisões francesas e as 9 divisões britânicas (incluindo australianos e canadianos) que atacaram numa frente de 23 km, eram apoiados por quase 1.500 peças de artilharia, por 600 tanques (ligeiros e pesados) e por mais de 1.700 aviões, numa combinação ar-solo que era a novidade táctica da estação. Apesar da formação de alguns pontos de resistência pelos alemães, ao fim do dia os atacantes haviam conseguido progredir cerca de 11 km nas linhas adversárias e conquistado 285 km² de território anteriormente detido pelo inimigo. Eram resultados que replicavam, de forma espetacular e simétrica, os sucessos tácticos que haviam sido alcançados pelas armas alemães nas suas ofensivas da Primavera. Mais, da mesma forma como os soldados britânicos (e também os portugueses...) se haviam deixado abater quando das ofensivas germânicas, desta vez coube a vez ao exército germânico baixar os braços e fugir, ou então deixar-se capturar: ao anoitecer, 281 oficiais e 12.131 homens, assim como cerca de 400 peças de artilharia haviam sido capturados. Nas suas memórias de guerra, Erich Ludendorff virá a qualificar os acontecimentos como o «dia negro» do exército alemão. Como se vê, o desaparecimento do ânimo para continuar a guerra chegou a todos os exércitos.

07 agosto 2018

LARANJA COM CASCA DE PLÁSTICO

Hão-de me explicar o propósito de remover a casca natural de uma laranja para a reacondicionar numa outra casca, esta transparente de plástico, onde, ainda por cima, se apensam os dizeres que o produto é fresco (fresh produce) e que foi feito ali mesmo (made right here). Dá vontade de pedir para que, em vez das prateleiras, mostrassem as laranjeiras onde se fizeram estas laranjas tão higienizadas e de aspecto tão conforme as directivas comunitárias... (as cascas de laranja não devem ser regulamentares)

COMO EVOLUÍRAM AS CANDIDATURAS AO ENSINO SUPERIOR EM SESSENTA ANOS

De 1958 (acima, notícia de há precisamente 60 anos) até 2018 (abaixo, notícia de ontem), as candidaturas ao ensino superior passaram de 1.235 para 44.148, sendo este último um número ainda provisório. Tomando os números do ano passado por referência, nestes sessenta anos as candidaturas multiplicaram-se por mais de 40 vezes. E não nos esqueçamos que as candidaturas de antanho se destinavam a fornecer os quadro superiores não apenas à metrópole como também às colónias, um conjunto de populações que somavam o dobro da população portuguesa da actualidade.

06 agosto 2018

MANDOU UMA CARTA EM PAPEL PERFUMADO E COM LETRA BONITA, ELE DIZIA QUE ELE TINHA...

Pedro Santana Lopes é uma espécie de Madonna da política portuguesa. Os dois não têm talento algum a não ser que talento seja uma indiscutível capacidade para se imporem nas notícias. Porém, como não têm talento, aquilo que se noticia a respeito deles não são verdadeiras notícias mas coisas que se escrevem a seu respeito. Contudo, para que essas banalidades passem impunes, têm que contar com a negligência cúmplice da opinião publicada para que esta não diga o que muitas vezes é óbvio. Por exemplo, este fim de semana Pedro Santana Lopes escreveu uma carta de despedida aos militantes do PPD/PSD. Muitos órgãos de informação se referiram à carta, mas só o Observador a publicou na íntegra. Ninguém estará interessado em lê-la. E, como recorda a letra de Viriato do Cruz na inesquecível canção de Fausto, Namoro, o que é mais importante numa carta como essas é que ela seja em papel perfumado e escrita com letra bonita. Quanto ao que contém, isso será o menos. Eu também confesso que não lhe prestei atenção, até alguém me ter alertado de como uma das suas passagens passaria por um símbolo perfeito do que é o estilo Santana Lopes...Na área do texto assinalada acima, veja-se como Pedro Santana Lopes nos diz que «quer sublinhar quatro áreas», para, logo no parágrafo que se segue, enumerar cinco! Não dei por que alguém mencionasse o lapso, que me fez lembrá-lo na cerimónia de posse do seu governo em Julho de 2004, a passar aceleradamente as páginas do seu discurso sem as ler, só porque estava muito calor. Não sendo má pessoa, o homem não tem categoria nem emenda...
Adenda: