13 dezembro 2018

O PRIMEIRO PRESIDENTE AMERICANO NA EUROPA

13 de Dezembro de 1918. Depois de uma viagem de nove dias, o presidente Woodrow Wilson chega à Europa, desembarcando no porto francês de Brest. Trata-se da primeira vez que um presidente norte-americano em funções se deslocava à Europa, mas a sua presença torna-se indispensável para as negociações de pós guerra que iriam culminar com a assinatura do Tratado de Versalhes. Esta ia ser a primeira visita de muitas visitas de muitos presidentes americanos ao velho continente mas, ao vermos o instantâneo em que se vê o presidente a passar o portaló, tendo dado a precedência à sua esposa Edith, percebe-se que, algures nestes cem anos, houve qualquer coisa que se perdeu em termos de boa educação entre os ocupantes da Casa Branca...

12 dezembro 2018

VEJA AQUI AS NOTÍCIAS DO OBSERVADOR, DE UM RIGOR CIENTÍFICO INULTRAPASSÁVEL

Antes de ler o que escrevi, sugiro que os leitores comecem pela notícia abaixo, publicada ontem no Observador, tomando nomeadamente em consideração a passagem repetidamente enfatizada.
Se acabou de ler o artigo, o que lhe proponho em alternativa à audição do barulho do vento marciano que ali lhe é proposta, é a assistência - ainda que por pouco mais de três minutos - a uma conferência que já teve lugar há mais de seis anos, onde a conferencista, a professora de astronomia Carolin Crawford, recorda o episódio (considerado épico) da chegada da sonda Huygens a Titã. Como ela recorda, durante a descida, um microfone instalado na sonda foi captando os sons da atmosfera de Titã. Aconteceu em 14 de Janeiro de 2005 (no próximo mês completar-se-á o 14º aniversário...).

A jornalista responsável pela redacção não terá lido em nenhum site de confiança (como o da NASA) a afirmação de que se tratava d"o primeiro som captado noutro planeta". Deu-lhe para ali. Tivesse feito uma pesquisa mínima e teria chegado à conferência acima de Carolin Crawford onde ela explica até o que aconteceu (de mal) com as tentativas anteriores de captar o som da atmosfera marciana. Isso mas também o facto de já existirem registos sonoros da atmosfera de Titã (abaixo). Há um pormenor que servirá para Marta Leite Ferreira brandir, na tentativa de amenizar a dimensão da incompetência:
É que Titã não é tecnicamente um planeta, mas sim um satélite de Saturno. É frequente assistir-se a discussões assim, em que a parte perdedora se agarra a tecnicismos para não conceder a razão. Neste caso (se o caso se puser, pois suspeito que a questão estará muito para além dos conhecimentos da jornalista), convém ter presente que Titã é até ligeiramente maior que Mercúrio. Mas não valerá a pena elaborar muito mais sobre um caso que se afigura transparente: quem escreveu sobre o assunto não percebe a ponta de um corno dele. José Manuel Fernandes é que não se arrisca a escrever sobre astronomia para o apanharmos assim...

O MASSACRE DE BATANG KALI

Já aqui demonstrei neste blogue por mais do que uma vez a minha admiração, acompanhada do meu desdém, pela forma como os britânicos deturpam hipocritamente a sua História quando os factos se mostram desagradáveis para a sua reputação. O caso que hoje evocarei, ele situa-se no quadro de uma guerra colonial que os britânicos travaram na Malásia entre 1948 e 1960. Mas, como as designações são muito importantes, neste caso, não terá havido uma guerra colonial, mas apenas uma «emergência», ficção que ainda hoje perdura (acima). Porém e tirando a nomenclatura, e como «emerge» da crueldade da fotografia central, o que ali se passou assemelhou-se em quase tudo às guerras de retardamento da retirada que outras potências europeias travaram naquelas mesmas paragens da Ásia, como aconteceu com os franceses na Indochina (1946-54) e os holandeses na Indonésia (1945-1949). Até nos aspectos mais sangrentos das acções de subversão e contra-subversão, como é o caso dos massacres perpetrados pelos combatentes sobre a população civil. O que nos transporta até ao dia 12 de Dezembro de 1948, cumprem-se hoje 70 anos. Quando um pelotão de soldados britânicos dos Scots Guards ocupou a aldeia de Batang Kali no estado de Selangor e ali executou 24 aldeões, queimando depois a aldeia, que era povoada por chineses e, por isso, considerada muito mais permeável à subversão. Episódios como este terá havido, infelizmente, milhares em todas as guerras com aquelas características. Mas o que merece o destaque deste massacre é a atitude hipócrita, sempre sob a aparente cobertura do primado da lei, que as autoridades britânicas adoptaram nos 70 anos que se lhe seguiram. Havia testemunhas, havia uma proclamada disponibilidade dos britânicos em reanalisar o assunto e depois, há os resultados: em 42 anos, de 1970 a 2012 (veja-se abaixo a referência ao 'massacre'), conseguiu-se sempre concluir (oficialmente!) que não se conseguia concluir coisa alguma.

11 dezembro 2018

É SEMPRE UM «ORGULHO» TER UM PRESIDENTE QUE PROJECTA UMA IMAGEM INTELECTUALMENTE PRIMÁRIA DE SI PRÓPRIO

Os portugueses já passaram por uma experiência vagamente parecida quanto tiveram um presidente (Mário Soares) que estava convencido que falava bem francês. E vai daí... Os presidentes dos Estados Unidos, ao menos, não têm a pretensão de falar outros idiomas que não o seu. Mas os americanos passam agora por uma vergonha ainda pior quando o presidente deles comete erros de ortografia (mesmo em inglês!) quando escreve para o twitter. Desta vez foi escrever Smocking Gun (e logo por duas vezes!) quando se estava a referir a smoking gun (literalmente arma fumegante), empregue naquela circunstância com o sentido de prova indesmentível de delito. A letra c suplementar, inserida no meio da palavra pelo presidente (ou por alguém por ele), só por ter sido um erro de ortografia cometido por alguém de alto estatuto, está a ser pretexto para uma interessante discussão sobre semântica. O problema é o conceito algo indefinível e dificilmente traduzível da palavra smocking. Smock pode ser uma de várias peças de vestuário, enquanto smocking pode ser um de entre vários estilos de bordadura. De entre as várias abordagens para solucionar a controvérsia, esta pistola em croché pareceu-me ser a contribuição mais positiva (e visual) para a definição daquilo em que consistirá a tal smocking gun do presidente Trump.

O COLAPSO DAS HIGHLAND TOWERS NA MALÁSIA

11 de Dezembro de 1993. Colapso de um bloco habitacional de 13 andares que havia sido edificado em 1977. A causa foi atribuída a um deslizamento de terra (que se identifica no lado superior direito da fotografia) que se devera a dez dias de chuvas contínuas. Os apartamentos eram habitados por membros da classe média alta local. De entre as 48 pessoas que morreram no acidente, 12 eram estrangeiras e, entre os malaios, contava-se o filho e nora de um antigo vice-primeiro-ministro, o que deu uma outra notoriedade mediática ao episódio. Foi nomeadamente o rastilho de uma chamada de atenção para as condições de segurança menos que satisfatórias como muitas vezes se constrói nos países asiáticos, e toda uma outra atenção passou a ser dedicada a acidentes semelhantes que haviam ocorrido e que vieram a ocorrer em países como a Coreia, a Tailândia, ou muito especialmente a China, onde eles constituem uma infeliz rotina.

10 dezembro 2018

O 70º ANIVERSÁRIO DA APROVAÇÃO DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM

10 de Dezembro de 1948. Há setenta anos a Assembleia Geral da ONU aprovava a Declaração Universal dos Direitos do Homem. E a aprovação realizava-se por uma esmagadora maioria - 48* dos 58 estados membros com que então contava a organização (Portugal não era ainda estado membro, por exemplo). Mas importa recordar os detalhes da votação. Para além de uma taxa de aprovação de 83% e de duas ausências do plenário no momento da votação (as das Honduras e do Iémen), o acto de aprovação notabilizou-se pela inexistência de votos contrários e também pela existência de oito discretas abstenções. Duas delas seriam expectáveis: a da África do Sul, por causa do racismo vigente no país, e a da Arábia Saudita, por causa do medievalismo islâmico retrógrado que a caracterizava (a escravatura só viria a ser abolida ali em 1962). Mas as outras seis abstenções vinham de uma surpreendente Europa de Leste, da União Soviética e dos seus aliados comunistas. Por ocasião deste 70º aniversário importa recordar quanto esta cena dos Direitos Humanos nunca foi do agrado dos comunistas quando eram eles a deterem o poder. Mais uma vez convém lembrá-lo e lembrar-lhes, que eles esquecem-se.

* Afeganistão, Argentina, Austrália, Bélgica, Birmânia, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dinamarca, Egipto, El Salvador, Equador, Estados Unidos, Etiópia, Filipinas, França, Grécia, Guatemala, Haiti, Islândia, Índia, Irão, Iraque, Líbano, Libéria, Luxemburgo, México, Nicarágua, Noruega, Nova Zelândia, Países Baixos, Panamá, Paquistão, Paraguai, Peru, Reino Unido, República Dominicana, Suécia, Síria, Tailândia, Turquia, Uruguai e Venezuela.

09 dezembro 2018

OS PROBLEMAS DA FRANÇA E QUANDO OS PROBLEMAS DA FRANÇA NÃO PODEM SER CULPA DO COSTA

Alguém me chamou a atenção para as colunas de opinião do Público de hoje, pletóricas quanto a opiniões explicativas sobre aquilo que está a acontecer em França: Ana Sá Lopes, Vicente Jorge Silva, Teresa de Sousa, Jorge Almeida Fernandes. Honestamente, há ali redundância opinativa a mais e quiçá jornalismo a menos, porque se as imagens são inúmeras e ricas em impacto, os factos são escassos. Mas o contraste com a cobertura do Observador ao mesmo assunto não podia ser maior. Como se vê acima, apenas um peso pluma da opinião daquele outro jornal (chamado Diogo Prates) se dedicou ao tópico, talvez porque, mesmo para os exercícios de argumentação mais elaborada a que se costumam dedicar José Manuel Fernandes, Helena Matos ou Rui Ramos, iria ser preciso um prodigioso salto de lógica para culpabilizar para já António Costa por tudo aquilo que vemos a acontecer em França. Mas não se espere pela demora...

KENNEDY, ADENAUER E ROMMEL

Uma curiosidade de há cinquenta anos: a revista alemã Stern havia mandado fazer um inquérito de onde havia resultado que a personalidade histórica do século XX mais admirada pelos alemães ocidentais era o antigo presidente norte-americano John F. Kennedy, a que se seguia o antigo chanceler oeste-alemão Konrad Adenauer, seguido do marechal Erwin Rommel. Os resultados da sondagem apareciam publicados na edição de há cinquenta anos do Diário de Lisboa. E constata-se o quão antigo é este hábito de os alemães engraçarem mais com uns presidentes americanos do que com outros.

08 dezembro 2018

A PARÓDIA DA CASA BRANCA EM TRÊS ACTOS

Recapitulando: há dezasseis meses John Kelly era o novo chefe de gabinete que iria disciplinar a Casa Branca; há apenas quatro meses ainda era um elemento indispensável da equipa de Donald Trump, garantido até ao fim do mandato presidencial; e hoje é alguém que vai abandonar o cargo até ao fim do ano.

Parafraseando Bill Murray em Tootsie: - That is one *nutty* White House!

O MASSACRE DE TADJENA

8 de Dezembro de 1998. Ocorre o massacre de Tadjena, que consistiu no assassinato de 81 aldeões de duas povoações de montanha, próximas da cidade de Tadjena (assinalada no mapa acima). Os autores foram identificados vagamente na comunicação social como extremistas islâmicos, sem grande informação adicional. O realce dado a este massacre é meramente simbólico. Infelizmente, nem pelo número de mortos ele se distingue de tantos outros que ocorreram no Norte da Argélia naqueles anos (veja-se o mapa acima), no quadro de uma guerra civil argelina da qual nunca se perceberam muito bem nem os contornos políticos, nem as intenções dos beligerantes, apenas as consequências sangrentas. Mas não deixa de ser irónico pensar que, se o mesmo massacre tivesse ocorrido 40 anos antes (1958) e tivesse ocorrido no quadro da guerra da independência da Argélia (1954-1962), e independentemente de qual dos lados desse outro conflito tivesse sido o seu autor, seria adquirido que as suas repercussões históricas ainda hoje se fariam sentir. Ao contrário do que acontece. De onde se conclui que a importância dos massacres é relativa e independente do número de mortos.

07 dezembro 2018

OBSERVADOR: SEIS MESES PARA MOSTRAR O QUE VALE

O presidente marcou a data das eleições legislativas para daqui a dez meses, 6 de Outubro de 2019. E com isso deu um prazo final - cerca de seis meses, daqui até Maio - ao forcing que as gentes do Observador terão de fazer para conseguirem derrubar de alguma forma a direcção do PSD de Rui Rio. Se o não conseguirem até lá, já as novas listas de candidatos a deputados estarão elaboradas e poderá ser o verdadeiro princípio do fim para algumas dezenas de insignes carreiras parlamentares, de que a meia dúzia de eleitos social-democratas da imagem acima é apenas a expressão da sua nata de maior visibilidade mediática.

Adenda: As gentes do Observador nem perderam tempo: apenas duas horas e meia depois da notícia da marcação da data das eleições, apareceu logo um artigo onde se enfatizam as rivalidades entre Salvador Malheiro e José Silvano (ambos apoiantes de Rio), como se o principal problema do PSD fosse esse. Enfim, mais um começo de fim de semana em que se fica com a sensação de que é desta vez que se devia jogar no euromilhões. A questão é que o segredo dos números e das estrelas nada tem a ver com a transparência dos propósitos de certos actores políticos, disfarçados de jornal.

06 dezembro 2018

COISAS QUE SE DISSERAM E COISAS QUE SE ESCREVERAM


6 de Dezembro de 1938. Com o aspecto cerimonioso que as imagens de cima mostram, os ministros dos negócios estrangeiros francês (Bonnet) e alemão (Ribbentrop), reunidos em Paris, reconheciam solenemente como definitiva a fronteira entre os seus países, tal como fora traçada em 1919, e «partilhavam plenamente a convicção de que as relações pacíficas e de boa vizinhança entre a França e a Alemanha constituíam um dos elementos essenciais para a consolidação da situação na Europa e na manutenção da paz geral...» O Diário de Lisboa daquele dia qualificava o acontecimento de histórico. A Segunda Guerra Mundial iria começar nove meses depois... É assim com esta facilidade que se passa das mais belas palavras de amizade para uma situação de beligerância.

A CONSTITUIÇÃO ESPANHOLA FOI APROVADA HÁ QUARENTA ANOS


6 de Dezembro de 1978. Os espanhóis pronunciavam-se em referendo sobre o projecto de constituição que lhes era apresentado, previsto para reger a Espanha depois do fim da ditadura franquista. A afluência não foi muito elevada para o que se esperaria de um acto eleitoral com aquela importância (67%), mas o resultado em favor da aprovação foi, ainda assim, robusto: 88% de votos a favor versus 8% de votos contrários e ainda 4% de votos em branco. Uma efeméride com quarenta anos que me pareceu oportuno assinalar depois do tão apregoado surgimento do Vox por ocasião destas últimas eleições autonómicas na Andaluzia. É que as pessoas mais novas a terem podido participar naquele referendo têm hoje 58 anos. E quem hoje se reclama herdeiro do franquismo é bem capaz de não ter experiência directa daquilo em que ele consistiu.

05 dezembro 2018

EM INGLATERRA, A GASOLINA PORTUGUESA TORNA-SE RELATIVAMENTE MAIS BARATA

A contestação desencadeada pelos coletes amarelos em França e o motivo originalmente invocado pelo movimento para a contestação, levou o The Guardian a publicar um artigo onde se compara a fiscalidade e o preço dos combustíveis no conjunto dos países da União Europeia. Só que, por terem sido publicados no Reino Unido, dados e conclusões aparecem depurados dos enviesamentos como o assunto costuma ser tratado na comunicação social portuguesa. No quadro da direita aparece-nos o preço médio do litro de gasolina, onde Portugal aparece colocado em 7º lugar (a sétima gasolina mais cara entre os países da União Europeia). Como se costuma ler na imprensa doméstica: Portugal está no top 10. Verdade. Mas também interessa saber quem mais compõe esse top, e não será certamente informação irrelevante o facto de que na Grécia, na Irlanda e, agora, na Itália, tudo países que connosco atravess(ar)am um mau momento quanto ao equilíbrio das suas contas públicas, se praticam preços mais elevados que os nossos. Assunto (a venda de combustíveis como fonte mais imediata de receitas fiscais) que nos leva ao segundo cabeçalho comum quando em Portugal se noticia sobre o assunto: Mais de metade do preço dos combustíveis resulta de taxas e de impostos. Na verdade é mais de 60%, mas quem olhar mais atentamente para o mapa da esquerda aperceber-se-á que em todos os países da União Europeia o peso da fiscalidade é superior a metade do preço final ao consumidor (o que fica sempre por dizer nas notícias a esse respeito).
 
Vale a pena acrescentar mais alguma coisa sobre o que é a desinformação a respeito deste assunto que as petrolíferas plantam na nossa comunicação social?

O PRIMEIRO TROÇO DE AUTO-ESTRADA DO REINO UNIDO


5 de Dezembro de 1958. Foi apenas há sessenta anos que os britânicos inauguraram o primeiro troço de auto-estrada, numa pequena extensão de 13 km contornando a cidade de Preston, no Lancashire. Em cerca de 25 anos, a maioria dos países da Europa ocidental estariam cobertos por uma rede de autoestradas. Mas, tão pouco seria então o significado atribuído ao acontecimento que a cerimónia de inauguração foi presidida pelo 1º ministro de então, Harold MacMillan, e não pela rainha, como é obrigatório em todas as cerimónias de gala no Reino Unido. Tomando o Reino Unido como referência, o Portugal do Estado Novo não se encontraria muito atrasado: haviam-se passado apenas dois anos e meio quando, em 28 de Maio de 1961, o indispensável almirante Américo Thomaz presidia a uma idêntica cerimónia em Portugal, abrindo ao trânsito os 24 km que ligavam Lisboa a Vila Franca de Xira. Porém, o próprio jornal que a anuncia (abaixo) contem, na mesma página, uma outra notícia com a explicação para o hiato na qualidade da rede rodoviária que se irá ampliar depois entre Portugal e o resto da Europa ocidental ao longo das décadas seguintes: envolvido num conjunto de guerras em África, Portugal não tinha recursos para investir simultaneamente nas suas infraestruturas rodoviárias.

04 dezembro 2018

A VIAGEM PRESIDENCIAL

4 de Dezembro de 1918. Início da viagem transatlântica do USS George Washington, transportando a bordo o presidente Woodrow Wilson (1856-1924) com destino à Europa. Voltaremos a falar do ilustre passageiro quando do centenário da sua chegada à Europa, mas, por ora, concentremo-nos na curiosa história do navio, que fora lançado à água em 1908. Com um deslocamento de 33.000 toneladas (o que o tornava então o terceiro maior paquete do mundo), o George Washington fora originalmente construído nos estaleiros de Stettin e operava sob bandeira alemã para a Norddeutscher Lloyd. A escolha do nome devera-se ao facto de o navio ter sido destinado a fazer a carreira que ligava os portos da Europa do Norte (Bremen, Southampton, Cherbourg) aos da costa Leste dos Estados Unidos (especialmente o de Nova Iorque), servindo uma clientela internacional. Tradicionalmente, os paquetes alemães eram mais lentos mas também mais confortáveis que os seus rivais britânicos. Aquando do afundamento do Titanic em Abril de 1912, o George Washington encontrava-se naquelas mesmas paragens, tendo assinalado a presença de um iceberg que se crê ter sido o que veio a afundar o grande navio da White Star. Foi a chegar a Nova Iorque que o início da Grande Guerra o foi encontrar, em Agosto de 1914. E, porque os Estados Unidos haviam permanecido neutrais, ali ficou internado até à sua entrada no conflito, quando o navio foi requisitado pelos americanos para o transporte de tropas e a sua tripulação foi totalmente substituída. O que não foi preciso mudar foi mesmo o seu nome... Na fotografia acima vêmo-lo durante esta viagem, acompanhado (ao fundo) por um dirigível que o escolta.

03 dezembro 2018

A IMPORTÂNCIA SOCIAL DOS MILITARES

3 de Dezembro de 1928. Sem o fazer de uma forma ostensiva, uma página interior da edição do Diário de Lisboa de há 90 anos deixa perceber a proeminência que os militares haviam assumido na condução da sociedade portuguesa depois do golpe de 28 de Maio de 1926. Uma pequena notícia a respeito da Exposição de Sevilha (que virá a ter lugar em 1929), anunciava o retorno daquela cidade do comissário português àquela exposição, o senhor coronel Silveira e Castro, acompanhado do major Sá da Costa. Mesmo ao lado, e a respeito do Liceu Passos Manuel, a notícia era a tomada de posse do novo reitor, o tenente senhor doutor José de Sousa Carrusca. Temos aqui dois exemplos de oficiais no desempenho de funções culturais, algo que hoje seria perfeitamente impensável. Aliás, os noventa anos transcorridos assistiram a uma mudança tal que se tornou um excesso de sinal contrário: hoje o que seria completamente surpreendente seria a nomeação de um oficial como titular da pasta da Defesa!

02 dezembro 2018

A CIMEIRA DO G20

Repare-se como o produto da acção de Donald Trump tenderá a depositar-se no fundo do penico, na região meridional da América do Sul, precisamente onde se localiza a Argentina, que foi a anfitriã da cimeira.

MIKHAIL SERGUEIEVICH

Esta fotografia tem quase precisamente 30 anos. A visita oficial de Mikhail Gorbachev aos Estados Unidos começou precisamente por Nova Iorque, aonde chegou a 7 de Dezembro de 1988. Apesar da limpidez dos céus poder induzir-nos em erro, os sobretudos protegem os fotografados (Bush, Reagan e Gorbachev) da temperatura de um Outono bem avançado. O recém falecido George (H. W.) Bush aparece na fotografia não como um vice presidente supletivo, mas como o presidente recém eleito dos Estados Unidos. O enquadramento da fotografia, com as Twin Towers, enormes, em destaque em fundo, está muito longe de ser casual, é uma sugestão da superioridade finalmente alcançada pelos Estados Unidos na Guerra Fria, subliminarmente validada pela presença do líder soviético. Contudo, depois deste fim de semana e a uma semana de se celebrar o 30º aniversário da foto, importa lembrar que só Mikhail Sergueievich Gorbachev continua por cá, depois não só dos óbitos dos dois presidentes americanos em 2004 e agora em 2018, como também do derrube das Torres Gémeas em 2001.

A IMPORTÂNCIA DAS FRONTEIRAS INTERNAS DA JUGOSLÁVIA

1 de Dezembro de 1918. Proclamação do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, país que mais tarde se viria a denominar Jugoslávia. Hoje, que seria a ocasião do seu centenário, não passa de uma memória. Não durou o tempo sequer de celebrar as suas bodas de diamante. Sempre foi um país em que, mais importante do que as fronteiras com o estrangeiro, o problema eram os contornos das fronteiras interiores. No quadro acima exibem-se quatro modelos distintos da sua organização política e administrativa (de cima para baixo e da esquerda para a direita): as sete províncias (1918-1922), reorganizadas em trinta e três oblasts (1922-1929), depois reconvertidas em nove banovinas (1929-1939). Depois em 1945 passou-se a seis repúblicas, complementadas em 1974 com duas províncias autónomas (a tracejado). Foi o formato mais estável, mas colapsou em 1991.