20 junho 2018

OS REGIMES DOS «SONOFABITCHES» TAMBÉM EXECUTAM AMERICANOS


20 de Junho de 1979. Atribui-se a Franklin Roosevelt, que foi presidente entre 1933 e 1945, uma citação a respeito do ditador da Nicarágua que em breve se tornou famosa: «Ele (Anastasio Somoza) até pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta» (son of a bitch). O pronome possessivo é para ser pronunciado enfaticamente e a expressão teve tanto sucesso que bem depressa foi estendida para retratar as relações dos Estados Unidos com os países (normalmente ditaduras militares) da América Central e mesmo de toda a América Latina. Contudo, há precisamente trinta e nove anos, aos americanos e via televisão, entrou-lhes pela casa adentro a constatação que o sonofabitchismo desses regimes se podia virar contra os próprios norte-americanos, quando encarregues de cobrir os conflitos locais. Se a guerra do Vietname habituara os telespectadores a imagens chocantes de execuções sumárias, as imagens podiam tornar-se muito mais chocantes se o executado não fosse um beligerante, mas um jornalista e, ainda por cima, norte-americano. É sob esse peso que se devem ver as imagens acima do jornalista William Stewart (1941-1979), da ABC News, a ser executado por um membro da Guarda Nacional. Se a situação do regime dos Somoza já se encontrava então periclitante, com uma guerra civil entre mãos, o impacto das imagens na opinião pública americana e, por arrasto, na administração Carter, teve como consequência o seu descalabro em apenas mais quatro semanas.

19 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (12)


AVIÕES NO CONVÉS DO «USS YORKTOWN»

Fotografia de há 75 anos do convés do porta-aviões USS Yorktown. Nela aparecem uma três dúzias de caças aeronavais Hellcat (Grumman F6F). Apenas num navio (da dúzia que a frota norte-americana contaria à época) e numa fotografia de propaganda, exibe-se uma capacidade aérea que é superior à de quase todas as forças aéreas dos restantes países da América Latina daquele tempo.

18 junho 2018

«ACHILLE TALON EN VACANCES ET HOP!»

Visitar por acaso uma feira de Sábado numa cidade banal da Normandia como Lisieux e depararmo-nos com estas duas relíquias em 2ª mão a 5€. Uma simbólica nota de boa disposição!

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (11)


O LANÇAMENTO DO DISCO COM O FORMATO LP


18 de Junho de 1948. Em Nova Iorque, a Columbia Records americana apresenta um novo formato de disco a que atribui a designação de Long Playing (LP). Com um diâmetro de dez ou doze polegadas (25 a 30 cm) e uma velocidade de 33⅓ rpm (rotações por minuto), o novo formato tem uma capacidade tripla a quádrupla do formato então mais popular, de 78 rpm, que apenas suportava menos de cinco minutos de gravação em cada uma das faces do disco. Ao ser lançado, e com uma capacidade para um pouco mais de meia hora de música, este novo formato parecia pensado sobretudo para as peças de música clássica, tanto mais que no ano seguinte, a concorrente RCA Victor reagira com um terceiro modelo de disco também muito bem sucedido, menor, de mais curta duração e de 45 rpm. O formato permaneceu marginalizado por mais de uma década. Foi só em meados da década de 1960 que o LP se consagrou, de que um dos exemplos de mais popularidade foram The Beatles (acima). Nos finais da década de 1980, a tecnologia do vinil foi substituída pelos CDs, mas, desde há dez anos para cá assistiu-se a uma sua ressurgência e, com ela, a uma recuperação do formato LP, apresentado ao Mundo cumprem-se hoje setenta anos.

17 junho 2018

O «SOPHIA» QUE TRANSPORTOU A SOFIA

Permitam-me chamar-vos a atenção para as publicações da concorrência, especificamente o Defender o Quadrado, que está a publicar uma série de crónicas de viagem, de que se assinalam aqui alguns notáveis exemplos (1),(2) ou (3). Mas, como na Bíblia, tudo tem uma génese, e a desta viagem por uma França em guerra, começou por uma viagem num A-319 da TAP com o poético nome de «Sophia de Mello Breyner», um excelente presságio, a excitar-nos a imaginação de que, por uma vez, em vez da conversa tradicional da localização das portas de socorro, das máscaras de oxigénio e do enchimento dos coletes de salvação, o pessoal de bordo, instalado em pleno corredor, declamasse em uníssono, com outros gestos exuberantes como os do costume:

«Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo» 

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (10)


16 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (9)


O CASAL IMPROVÁVEL

16 de Junho de 1943. Numa cerimónia discreta, Charlie Chaplin casa por uma quarta vez com Oona O'Neill, actriz e filha do dramaturgo Eugene O'Neill. Mesmo pelos padrões de uma Hollywood habituada ao insólito, este casamento destacava-se pelo facto do noivo (54) ter o triplo da idade da noiva (18 anos). Adivinham-se as repercussões e os comentários, se o mesmo acontecesse setenta e cinco anos depois... E contudo, o improvável casal irá permanecer casado por mais 34 anos, até à morte de Chaplin no dia de Natal de 1977, tendo tido oito filhos nos dezoito anos que vão de 1944 a 1962.

14 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (7)


CAMPANHA PARA QUE MARCELO DEIXE DE USAR GRAVATAS COMO O TRUMP

Não haja dúvida que, ou se tem uma vocação congénita para fazer certas figuras, como acontece com Marcelo ali sentado na relva entre os jovens, ou então a coisa fica com aspecto constrangido, como é o caso do ar afectado da ministra Maria Manuel Leitão Marques que aparece a seu lado. O único aspecto que se deve censurar em Marcelo é o comprimento trumpeano da sua gravata: as gravatas compridíssimas até podem estar na moda, mas ele é o presidente, e um presidente cool não usa gravatas como as do outro...

13 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (6)


«ZUIDERZEEWERKEN»

13 de Junho de 1918. Há cem anos, e apesar da Grande Guerra em curso, ou talvez também por causa dela, o parlamento holandês aprovava o financiamento para os Zuiderzeewerken, um ambicioso plano de engenharia que iria proceder ao encerramento do Zuiderzee e à recuperação de 1.650 km² de terras. A intenção do gigantesco projecto era proteger as terras baixas das províncias holandesas das tempestades marítimas do Mar do Norte, criar novas terras de cultivo e pastagem, ampliando a autonomia alimentar dos Países Baixos, e ainda melhorar a gestão dos recursos hídricos, criando um novo lago artificial de água doce em substituição da água salobra do Zuiderzee. Os trabalhos ir-se-iam iniciar em 1920 mas só viriam a estar concluídos em 1975, 55 anos depois. Aliás, um dos pólderes projectados, com uma área de cerca de 400 km² (Markerwaard) ficou por realizar.

12 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (5)

O «MEME» DO DIA

Excelente meme, combinando a incompetência da cobertura informativa mundial com a doméstica. A mensagem flui acriticamente, mesmo perante os comportamentos mais intempestivos e/ou associais, sopesando o absurdo e o normal como se tivessem o mesmo valor. Também tive um amigo que não queria aceitar que o xeque-mate é o fim de um jogo de xadrez, mas ele tinha doze anos e as regras do jogo bastante mais. As regras da diplomacia também têm mais do que os 72 anos que Donald Trump completa esta semana. Tal é esta degenerescência que, se fosse hoje e se estivesse no lugar de Heinrich Himmler, e com o perigo de que o sentido da próxima ironia se perca, teria sido uma boa hipótese que as SS contratassem uma daquelas boas agências de comunicação (uma boa agência de comunicação não tem ética, tem apenas clientes...), que organizasse visitas guiadas de jornalistas aos campos de concentração, para que se explicasse - com factos alternativos - aquilo que se fazia por lá. A História do Holocausto teria sido completamente diferente...

A REINSPECÇÃO MÉDICA

12 de Junho de 1943. A afixação deste cartaz pelas paredes das cidades da Bretanha Ocidental constituíra uma surpresa bem desagradável para alguns jovens franceses das classes de 1940-1941-1942, que haviam mantido a expectativa de que a Segunda Guerra Mundial lhes passaria ao lado. Se o armistício de 1940 não fora particularmente honroso para a França, pelo menos suprimira a conscrição dos seus jovens para o serviço militar e isso também contara para uma inconfessável popularidade inicial do Estado Francês do marechal Pétain. Três anos depois constatava-se quanto a promessa de Vichy de manter a França fora das sequelas da guerra fora uma ilusão. O cartaz dirige-se a todos os jovens residentes nas cidades de Rennes (que acabara de ser bombardeada duas semanas antes), Fougères, Saint-Malo, Saint-Servain, Paramé, Vitré, que anteriormente houvessem ficado isentos do cumprimento de serviço, para se apresentarem nesse Sábado, 12 de Junho, pelas 8 horas para uma reinspecção médica em local designado pelo Maire. As necessidades alemãs de mão de obra haviam obrigado as autoridades francesas a instaurar o Serviço de Trabalho Obrigatório (STO) em 16 de Fevereiro de 1943, mobilizar os jovens franceses para ir trabalhar na Alemanha. Mas, disso já eu havia falado aqui. Mas o propósito e o significado deste cartaz é mais amplo, mostrando, quatro escassos meses depois, que a imposição do STO fora um fiasco e que o regime se via agora obrigado a remexer as gavetas, para ir repescar quem pudesse ter escapado numa primeira triagem...

11 junho 2018

MARTIN MILAN - A EMBOSCADA (4)

A CAPITULAÇÃO DE PANTELÁRIA

Situada entre África e a Europa, constituindo um monte vulcânico que sobressai 836 metros acima do nível do mar e reputada como inconquistável, a ilha de Pantelária, com os seus 83 km²,era uma cópia, em escala menor e em sentido táctico contrário, à ilha de Malta. Os Aliados decidiram-se a conquistá-la ainda antes do assalto à Sicília. A guarnição da ilha, cifrada em cerca de 11.800 soldados dos quais 78 são alemães, superava a população civil que rondaria os 10.000 habitantes. A intenção dos Aliados foi desgastá-los através de bombardeamentos aéreos contínuos de saturação. Para o efeito, dedicou-se-lhes dois esquadrões de B-25, três esquadrões de B-26, quatro esquadrões de B-17. 11 de Junho de 1943. Quando a frota de desembarque, transportando a 1ª Divisão de Infantaria Britânica do general Walter Clutterbuck, se apresenta ao largo da ilha, esta sofrera um tratamento continuado durante os doze dias precedentes. Nesse dia de há precisamente 75 anos, a ilha aparecia envolta numa coluna de fumo como se o seu vulcão estivesse activo. O destroyer HMS Laforey, uma das unidades navais ocupadas a cobrir o desembarque das lanchas com o fogo da sua artilharia, assinala uma bandeira branca. A chegada dos britânicos a terra confirma as intenções italianas: o almirante Gino Pavesi que comanda a guarnição local está disposto a assinar a sua rendição, tudo muito célere, a questão estará terminada por volta da hora de almoço. Tanto assim, que a rendição de Pantelária ainda pôde ser despachada nas notícias desse dia, como se comprova pela edição abaixo do vespertino Diário de Lisboa. Os atacantes haviam sofrido apenas uma baixa, pormenor acintoso pela descrição de como ocorrera: o cabo Sanderson do 2º Batalhão dos Sherwood Foresters, fora atingido pelo coice de uma mula... Porém, o ridículo tem percursos sinuosos. Aos italianos, faltara tanto o empenho em resistir quanto o empenho em deixarem-se matar. Protegidos pelos abrigos escavados dentro da montanha, apesar da intensidade e da meticulosidade dos bombardeamentos, as baixas italianas militares e civis haviam-se ficado pelas 58, ou seja 5 por cada dia de bombardeamento e um outro disparate se se comparar a tonelagem das bombas despejadas (6.200) e os efeitos. Porém, os relatórios da Força Aérea aliada atribuíram vaidosamente à sua actividade o comportamento acobardado dos defensores. Nem mesmo o ridículo episódio que acontecerá dois dias depois, quando a guarnição de uma outra ilha italiana próxima, a de Lampedusa, se renderá a um aviador britânico que ali aterrará em catástrofe, conquistador involuntário de uma ilha, abrirá os olhos ao estado-maior aliado sobre o que acontecera: os italianos haviam simplesmente abdicado de combater, por um lado, ou por outro. O que acontecera era uma predisposição da população italiana e não uma consequência dos bombardeamentos. A sobrestimação quanto ao impacto que os bombardeamentos aéreos poderão ter no moral dos defensores ir-lhes-á custar muito caro no futuro, como no caso de Monte Cassino.