04 dezembro 2022

O AVIÃO «CONCORDE» E OS QUE SE LHE OPUNHAM

4 de Dezembro de 1972. O jornal inglês The Times publica na sua terceira página (abaixo) um anúncio publicitário de página inteira(!) criticando o projecto do avião Concorde que,apresentado cinco anos antes, enfrentava agora dificuldades múltiplas para ser colocado ao serviço em exploração comercial. Esta publicidade negativa era mais uma delas. Observado a esta distância temporal, o mais engraçado é a ingenuidade associada. A notícia atribuía a iniciativa a «um grupo britânico denominado "o Projecto anti-Concorde"». A causa tinha os seus méritos, mas há que reconhecer que o mundo está repleto de defensores de causas tão ou mais meritórias do que aquela e que não conseguem angariar fundos para comprar uma página tão nobre de publicidade no mais prestigiado dos jornais ingleses. Este conseguia. E, mais do que isso, o anúncio recebia um impulso adicional pela ressonância que a agência Reuters lhe conferia, ao tornar a sua publicação uma notícia sua, já que foi nesse formato que o episódio chegou às páginas do Diário de Lisboa desse mesmo dia (acima). Curiosamente, a página da wikipedia que fala desta agremiação, refere outros jornais onde foram publicados anúncios semelhantes de página inteira, como o The Guardian ou o The Observer, e insiste-se na tese que todos aqueles espaços publicitários foram comprados à custa de doadores espontâneos... Pois. Se já era inverosímil há cinquenta anos, os anos decorridos tornaram-no ainda mais.

«MARY CELESTE», O NAVIO FANTASMA EM PLENO ATLÂNTICO

4 de Dezembro de 1872 foi o dia em que foi encontrado à deriva, em pleno Atlântico, entre os Açores e a costa portuguesa um bergantim norte-americano denominado Mary Celeste. Toda os oito homens da tripulação haviam desaparecido assim como a esposa e filha do capitão que seguiam também a bordo. O navio havia deixado Nova York quase um mês antes com destino a Génova na Itália, e apresentava-se com as velas içadas, o cordame danificado e o porão estava parcialmente inundado, mas ainda se apresentava em condições satisfatórias de navegação. A sua carga de barris de álcool desnaturado estava quase intacta, assim como o interior das cabines. Desaparecera o barco salva-vidas. A última entrada do diário de bordo datava de 25 de Novembro, nove dias antes do navio ser encontrado. Nenhum dos membros da sua tripulação veio a ser encontrado. O mistério sobre o que acontecera e em torno do desaparecimento dos marinheiros nunca veio a ser resolvido e o Mary Celeste tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de um navio fantasma inexplicável.

03 dezembro 2022

AINDA A PARTIÇÃO DA PALESTINA

As notícia que chegavam a 3 de Dezembro de 1947 de Jerusalém era que a decisão da partição fora muito mais mal acolhida entre a população árabe do que pela população judaica. Mais, a decisão desagradara sobremaneira aos estados árabes vizinhos. Setenta e cinco anos entretanto decorridos e os dados do problema inverteram-se completamente. Mas o problema continua a ser um problema.

«SETENAVE EM LUTA»: CONTRA QUEM E CONTRA O QUÊ?...

3 de Dezembro de 1982. A Setenave fora um enorme estaleiro de construção naval, concebido em 1971 com a Lisnave e a CUF como accionistas principais para Setúbal. As instalações, contudo, só vieram a ser inauguradas em 6 de Agosto de 1974, depois do 25 de Abril e quando o sector da construção e reparação naval atravessava uma crise mundial. Não que isso parecesse incomodar os milhares que lá trabalhavam. Os trabalhadores adquiriram uma reputação nacional, não por causa do que faziam, mas pela militância. Se nos estaleiros da Lisnave se dizia mata, nos da Setenave dizia-se esfola. Depois do 11 de Março de 1975 uns e outros foram nacionalizados. Mais de oito passados depois da inauguração, já a soberba dos tempos revolucionários de 1975 não passaria de uma memória, a situação apresentava-se como acima o Diário de Lisboa a descreve: não há clientes, não há trabalho e não há ordenados. O subtítulo do jornal demonstrava contudo que os dirigentes sindicais nada haviam aprendido com a degradação progressiva da empresa: a Setenave estava «em luta» mas contra quem e contra o quê, já que o destino da empresa e dos seus 6.100 trabalhadores se afigurava inexorável?... Esta apropriação da actividade sindical de grandes massas de trabalhadores por parte dos comunistas destruiu as empresas em que se alicerçava. Esta gramática da palavra luta hoje só aparece nos cabeçalhos, quando a entidade patronal é o Estado (ou seja, Arménio Carlos, Isabel Camarinha, Mário Nigueira, travam grandes lutas contra o interesse público). Por outro lado e quando, muitos anos mais tarde, se fundou a Auto Europa (com os seus mais de 5.000 trabalhadores) nesta mesma península de Setúbal que conhecera a Setenave e a Lisnave, as negociações e a defesa dos interesses dos trabalhadores tiveram de ser relançada em bases completamente novas.

02 dezembro 2022

A PRIMEIRA REACÇÃO NUCLEAR CONTROLADA

2 de Dezembro de 1942. Escondida da atenção mediática que então se concentrava nos vários teatros de guerra da Segunda Guerra Mundial (África, Pacífico, Rússia), tinha lugar a primeira experiência em que se conseguia proceder a uma reacção nuclear controlada. A proeza teve lugar nas instalações vagas de um estádio desportivo desactivado em Chicago. A documentação que comprova o feito tem a falta de espetacularidade da imagem acima, o crescimento exponencial da intensidade dos neutrões na folha de registo, que consta da página 441 do livro abaixo. Em retrospectiva, conhecendo-se os problemas posteriores que se vieram a colocar sobre a questão da segurança nuclear e considerando que se tratava de uma experiência pioneira, em que muito poderia ter corrido mal, não deixa de ser tremendamente irónico que o feito tivesse tido lugar num sítio tão povoado quanto a cidade de Chicago. Mas, mais do que a preocupação com a produção de energia, o que era importante no processo ali concretizado há 80 anos, era um subproduto resultante da reacção, o plutónio-239. Dali por dois anos e meio(Verão de 1945), o conjunto de reactores entretanto activados já havia conseguido produzir a quantidade suficiente de plutónio para construir (e detonar) duas armas nucleares: a experimental de Alamogordo e também a utilizada sobre Nagasáqui.

«A RAPARIGA DE AVINHÃO»

Sábado, 2 de Dezembro de 1972. A RTP começa a transmitir um folhetim de origem francesa que recebera um acolhimento fenomenal quando inicialmente transmitido no seu país em Janeiro daquele ano. Apesar do título original (La Demoiselle d'Avignon), que constitui um parónimo do célebre quadro de Pablo Picasso, neste caso estamos perante um folhetim romântico clássico, adaptado aos gostos de então. Em síntese, numa peregrinação turística à cidade francesa de Avignon, Koba, originária do reino de Curlândia, uma ilha (e uma monarquia imaginária) no mar Báltico, conhece François Fonsalette, um diplomata francês apaixonado por arqueologia. Os dois apaixonam-se, mas Koba deve regressar ao seu país. François Fonsalette, determinado a reencontrar a sua namorada com o seu sotaque maravilhoso (a actriz que desempenha o papel, Marthe Keller, é suíça), candidatou-se ao cargo de embaixador francês na Curlândia. Acabam por se reencontrar no aeroporto de Orly: Koba, que é na verdade uma princesa da Curlândia (e François não sabe disso), tinha por sua vez regressado a França para trabalhar, incógnita, como perceptora de crianças. O resto da história - a série é constituída por um total de seis episódios de 50 minutos cada - narra os desencontros dos dois namorados até finalmente se reunirem. Quando se revê a série - possível para quem a consiga seguir no original (1) (2) - percebe-se facilmente porque é que constituiu um sucesso também em Portugal.

01 dezembro 2022

XEIDAFOME PIZARRO E A REENCENAÇÃO DO «SKETCH» DO PAPAGAIO MORTO DOS MONTHY PHYTON

Dois meses depois da sua posse em substituição de Marta Temido, já se percebeu o estilo que Manuel Pizarro irá adoptar para a gestão da pasta da Saúde: negar o óbvio. Com o óbice adicional do ministro, com os seus olhos esbugalhados e uma língua que parece não caber toda na boca, ser muito menos fotogénico que a antecessora. Pegando apenas nestes dois exemplos desta semana, suponho que todos adivinharemos que, depois de nos dizer num desses dias que a «situação nos hospitais» está «muito melhor» do que há oito dias, quando ela voltar a piorar - e vai piorar certamente ao longo deste mês de Dezembro - o nosso amigo ministro xeidafome vai desaparecer da mira dos microfones para que não lhe façam perguntas chatas, pedindo-lhe comparações com o que a situação piorou em relação à semana passada. Da mesma forma que as suas preocupações com «três ou quatro ou cinco urgências» são uma outra forma de «relativizar o problema». Se não fosse, ele não teria precisado de «ressalvar» que não estava a fazê-lo (relativizar o problema). Os «problemas sérios» não ocorrem apenas nessas urgências em que, mais do que a realidade como estão a funcionar, são as demissões dos intervenientes que tornam impossíveis ao ministro xeidafome esconder que existem (os problemas). Existem e existirão em muitas mais urgências dos "80 e tal" hospitais deste país. Em vez de a comunicação social se fiar nas declarações do ministro xeidafome, valeria a pena irem lá perguntar... Também não me parece que os interessados acreditem que seja - outras declarações apaziguadores do ministro xeidafome - «o“amplo processo de diálogo” com os profissionais de saúde» que aporte soluções para problemas que decorrem de «uma situação absolutamente crónica, (que) não é nada de novo» (ministro dixit). Se não é nada de novo, então não será o «amplo processo de diálogo» que as resolverá. O que os resolverá serão medidas concretas, já que o problema é conhecido e, mais do que isso, crónico. A não ser que o ministério da Saúde venha a admitir que não tem soluções para o problema... Isso é que eu desconfio que o ministro xeidafome não pode fazer. Porém, antes que chegue o Domingo e que Ricardo Araújo Pereira arrase com mais este ministro no seu programa humorístico «Isto é gozar com quem trabalha», lembremos que este exercício à xeidafome de negar as evidências para lá do limiar do absurdo, já foi objecto há mais de 50 anos de um sketch cómico dos Monty Python, com um cliente de uma loja de animais que se queixa de lhe terem vendido um papagaio morto, ao que o vendedor contrapõe justificações descabidas que estão ao mesmo nível das que são apresentadas pelo nosso actual ministro da Saúde.

OS BOMBISTAS E OS OUTROS

«Numa noite de pavor, a explosão de duas bombas provocou em Dublin a morte de duas pessoas, ficando feridas cerca de duzentas. Os atentados ocorreram no centro da cidade quando o Dail (o parlamento) se preparava para votar as propostas governamentais visando o Exército Republicano Irlandês (IRA). As notícias do derramamento de sangue, do pânico e terror, modificaram a atitude do principal partido da oposição que deixou de contrariar a legislação proposta pelo Governo de Jack Lynch. O resultado da votação na Câmara de 144 lugares foi de 70 votos a favor e de 23 contra. A nova legislação determina que um suspeito de pertencer a organizações clandestinas tenha de provar em tribunal que as suspeitas são infundadas, em vez de ser o Ministério Público obrigado a provar a culpabilidade dos réus. Entretanto, tanto o IRA Provisório como o Sinn Fein afirmaram que nada tinham a ver com os atentados, atribuindo-os a agentes secretos ingleses

Foi há precisamente cinquenta anos. Por aquela vez, aqueles que eram tradicionalmente descritos como os terroristas - o IRA e o Sinn Féin - estavam a dizer a verdade. A razão para que os serviços secretos britânicos estivessem por detrás da colocação daquelas bombas estava à vista de todos. Tanto assim que até uma pequena peça jornalística como a que acima se transcreve a explícita: condicionar o voto dos TDs do parlamento irlandês na aprovação de legislação que tornaria mais difícil a vida aos seus adversários. Estes (os operacionais do IRA) foram, aliás, prestabilíssimos a auxiliar as investigações da polícia irlandesa para descobrir quem perpetrara os atentados. Em escassas semanas descobriu-se que os operacionais que haviam colocado os engenhos (automóveis armadilhados) eram militantes da UVF (organização lealista do Ulster). Por detrás deles adivinhava-se a assessoria dos serviços secretos britânicos, muito mais difícil de provar (já que são assim as operações clandestinas bem montadas...) Além do impacto político e noticioso primário, Londres passara um recado discreto a Dublin: o IRA não podia operar na, e a partir da, Irlanda (do Sul) com a liberdade que o governo irlandês lhe havia concedido até aí. Senão a tensão alastrar-se-ia... Os profissionais do outro lado tomaram boa nota daquele recado. As actividades do IRA perderam a indulgência (ostensiva) de Dublin. A opinião pública irlandesa, contudo,teve que esperar 32 anos, até à publicação do Relatório Barron em Novembro de 2004, para que houvesse um reconhecimento oficial da parte irlandesa quanto ao jogo sujo que os britânicos haviam praticado. Nessa época (2004) a noite de pavor em Dublin já era uma recordação antiga e o Sinn Féin uma respeitável formação política legal em qualquer das duas Irlandas.

30 novembro 2022

O ANTI-SEMITISMO NA POLÓNIA (...E NA UCRÂNIA)

Esta notícia de 30 de Novembro de 1932 comprova quanto as manifestações de anti-semitismo podiam ser frequentes nos países da Europa de Leste, nomeadamente na Polónia. Como pormenor inconveniente adicional, refira-se que a cidade de Lwow (hoje Lviv), que em 1932 era polaca, hoje é ucraniana. O anti-semitismo também se estendia aos ucranianos.

O PRIMEIRO JOGO «INTERNACIONAL» DE FUTEBOL ENTRE SELECÇÕES

30 de Novembro de 1872. Tem lugar aquele que é considerado pela FIFA o primeiro jogo «internacional» de futebol disputado ao nível de selecções. Disputado em Glasgow, Escócia, perante uma assistência de uns 3.500 espectadores, o jogo disputou-se num campo de cricket, como se pode ler no cartaz do anúncio acima. A palavra «internacional» do cartaz deveria levar umas aspas porque o jogo foi disputado entre a Escócia e a Inglaterra, que não são propriamente duas nações distintas - o governo é comum e está sediado em Londres (em 1872 o 1º ministro era William Gladstone). Porém a regra de constituir selecções distintas para a Inglaterra e a Escócia, e posteriormente para a Irlanda e Gales, manteve-se. Noutros países onde se quis copiar essa ideia do desdobramento de selecções pelas nações constituintes de um mesmo país, como foi o caso da Catalunha em Espanha, a coisa não correu assim tão bem...

29 novembro 2022

A SIC NOTÍCIAS, A SENADOR(A) DA CAROLINA DO SUL, O NUNO LUZ E A JOANA MARQUES QUE NOS PÕE TODOS A RIR

Isto é transposição de um parágrafo de uma notícia publicada na SIC Notícias, onde destaquei a referência a uma «senadora da Carolina do Sul, aliada de longa data de Trump.» Ao lado adicionei uma fotografia da tal senadora em causa, presumivelmente depois de uma operação a que se submeteu para mudança de sexo... Deduzo que quem traduziu a notícia do inglês não fazia a mínima ideia a quem se estaria a referir quando nomeou os três senadores norte-americanos que criticaram Donald Trump e, como o nome Lindsey é originalmente neutro mas agora predominantemente feminino, e já havia um Bill e um Rick na notícia, acabou por sair isto... Isto é apenas mais um episódio quotidiano da exibição da incompetência da SIC. Para que não nos fique a impressão que as crónicas que Nuno Luz nos tem enviado do Qatá são trabalhos que destoam do padrão de qualidade da SIC, cujo mérito na divulgação popular do disparate vai todo para a apreciação matinal feita por Joana Marques na RR: (1) e (2). Só que, como neste último caso se trata da cobertura do futebol, há um maior escrutínio...

O 75º ANIVERSÁRIO DA APROVAÇÃO DA PARTIÇÃO DA PALESTINA

29 de Novembro de 1947. A assembleia geral da ONU aprova por maioria (33 votos a favor, 13 contra, 10 abstenções) a sua resolução nº 181, que preconiza a partição de uma futura Palestina independente (até aí fora ocupada pela Grã-Bretanha) em dois estados, um árabe e outro judeu. É uma decisão que irrita os árabes (primeira página do jornal do dia seguinte), satisfaz os judeus, mas o que importa aqui relembrar é a atitude da administração colonial britânica que, numa comparação particularmente apropriada dado se tratar da Terra Santa. lava do assunto as mãos, como um Pôncio Pilatos do século XX: A Grã-Bretanha tenciona retirar as suas tropas da Palestina o mais rapidamente possível é o que se lê no cabeçalho da página interior do lado direito acima, recordando mais outro episódio de um crepúsculo colonial pouco digno por parte dos britânicos.

28 novembro 2022

O EDITOR QUE EU TIVE DE IR DESCOBRIR A QUE EDITORA PERTENCE...

Apesar da autoridade que o jornalista do Observador confere às suas opiniões, tenho que admitir que não fazia a mínima ideia a que editora pertence Francisco Vale, e a que aqui é que ele se refere quando anuncia que jamais publicaria ali Cristina Ferreira ou José Rodrigues dos Santos. Pelos vistos, é a Relógio D'Água. Não sabia, assim como também não sabia que se poria a questão de qualquer daqueles dois terem grande vontade de serem publicados sob tal chancela. Eu supunha que não...

CRISE POLÍTICA: O GOVERNO DEMITIU-SE!

28 de Novembro de 1922. «Ao contrário do que muitos políticos supunham, o sr. António Maria da Silva declarou a crise fora do parlamento» - assim começa a coluna destacada acima do lado direito. E ainda bem que a crise foi declarada fora do parlamento já que, como se lê na outra coluna assinalada, a do lado esquerdo, «a sessão fo(ra) encerrada por falta de número»: à «chamada feita às 15 horas» responderam 39 deputados do total de 163 que compunham a Câmara de Deputados (¼). E também «fora do parlamento» haviam sido encetadas «as "demarches" para resolver a crise». Terminaria o 35º governo, começaria o 36º governo, o presidente do governo - António Maria da Silva - seria o mesmo, o seu elenco também quase o mesmo. O que se perdera nesta entrada por saída coreografada fora apenas mais um pouco de respeito pelas instituições da Democracia parlamentar.

27 novembro 2022

UMA REFLEXÃO SOBRE ESPONTANEIDADE

Só consegui saber que esta fotografia foi tirada em Filadélfia em 1947. Não descobri a identidade do autor, mas impressiona-me a maneira como ele conseguiu captar o momento, que dificilmente imagino ensaiado, em que a rajada de vento terá obrigado os transeuntes a jogar a mão à cabeça para segurar o chapéu, ao mesmo tempo, mas cada um ao seu estilo. À sua maneira a fotografia funciona como uma parábola visual de uma conversa que hoje ouvi sobre a maneira como os autocratas (no caso, Vladimir Putin) subestimam sistematicamente as capacidades de resolução e de resistência das Democracias (no caso, falava-se do apoio da Europa e dos restantes países ocidentais à resistência da Ucrânia). Em Democracia, muitas vezes as circunstâncias podem bastar para formar uma resolução; e uma resolução assim formada, porque cada um está convencido de ser própria, acaba por ter muita força, a força que baste acima para não deixar que nenhum chapéu voe com o vento. (lamento a ligação ao programa GPS da CNN não estar traduzida, mas o leitor pode ver a versão traduzida aqui, aos 10:00 de programa)

DARLAN E A “GLÓRIA EM TOULON!”

27 de Novembro de 1942. O octogésimo aniversário do auto afundamento da frota francesa em Toulon é pretexto para a recuperação de um texto a esse respeito, publicado originalmente em 2006.
Qualquer descrição geoestratégica apresentará França e Alemanha como potências continentais por contraponto a um Reino Unido como potência marítima. A realidade é muito menos binária: mesmo à vista desarmada, os cerca de 1.600 km de costas francesas, quando medidos em linhas rectas grosseiras (Mancha e Mar do Norte 600, Atlântico 400, Mediterrâneo 600) quase que duplicam a extensão das costas alemãs medidas da mesma forma. Dentro dos exemplos europeus, a França será o caso que mais se aproxima de uma potência híbrida, tanto militar como naval, muito embora os pergaminhos históricos dos seus exércitos superem de muito longe os feitos das suas armadas. Mesmo assim, na relação histórica mais moderna entre os dois ramos das forças armadas francesas nunca se notou a predominância gozada noutros países, por exemplo pelo exército alemão ou pela marinha britânica em relação ao outro ramo. Essa rivalidade que se veio solidificando enquanto, a partir do século XVIII, a França se vai transformando num estado moderno, também se transpôs para a leitura das ameaças à soberania francesa. Cada ramo adquiriu o seu inimigo de estimação: para o Exército era a Alemanha e para a Marinha era o Reino Unido. Por causa das vicissitudes da História, em Junho de 1940, era preciso remontar a 1856 e à Guerra da Crimeia para testemunhar a Marinha francesa empenhada numa grande acção militar. Todo este percurso pode servir para desculpar um pouco o discurso descabido da Marinha francesa, a começar pelo do topo da sua hierarquia, quando, a propósito da assinatura do Armistício com a Alemanha em Junho de 1940, se arrogou a gloríola de que o seu ramo não havia sido derrotado pelos alemães no conflito que havia terminado com a referida assinatura. Como se não fossem evidentes naquele momento as fraquezas da França – contra as quais a sua Marinha nada podia fazer! Uma das cláusulas do Armistício assinado incidia precisamente sobre a frota francesa que teria de permanecer neutral no conflito que continuava. Era um ponto de honra francês que assim fosse, a que os alemães naturalmente cederam porque não era sua intenção virem a precisar dela: as operações conducentes à invasão da Grã-Bretanha nunca foram implementadas em profundidade. Em contrapartida, apenas a sua existência e o seu potencial emprego contra si - à distância de uma coacção alemã mais forte sobre o novo governo francês - tornavam-na muito desconfortável para os britânicos. Em 5 de Julho de 1940, em Mers-el-Kébir, uma base naval francesa na Argélia, houve um daqueles episódios da Segunda Guerra Mundial que as duas partes envolvidas estão de acordo que não vale a pena recordar. Apresentou-se ao largo uma frota britânica com um ultimato para o comandante da parte da frota francesa ali fundeada. O Almirante francês deparava-se com várias hipóteses, desde zarpar para portos britânicos até mudarem-se para portos franceses nas Antilhas, onde ficariam sob supervisão norte-americana (neutros, naquela altura). A resposta negativa francesa também é compreensível: os alemães poderiam ali ter o pretexto para denunciar o Armistício recém assinado e apoderarem-se dos navios fundeados nos portos da França metropolitana, nomeadamente os mais importantes da base naval de Toulon, no Mediterrâneo. No recontro naval que se seguiu, todos os navios franceses ficaram fora de combate, tendo sido mortos 1.300 marinheiros franceses, e acirrando ainda mais, se isso for possível, o ódio institucional do ramo contra os britânicos. Naquele momento, a Marinha francesa era comandada pelo Almirante Darlan, um almirante político que não tardará a fazer a sua carreira singrar até se tornar no nº 2 do regime francês saído do Armistício de Junho de 1940, à frente do qual emergia o Marechal Pétain, e a que se convencionou designar por Regime de Vichy. E é esse delfim do Marechal que se encontrava por acaso na Argélia, quando os norte-americanos - entretanto entrados na guerra em Dezembro de 1941 - ali desembarcam em 7 de Novembro de 1942. Vichy permanecera neutral no conflito e os americanos haviam previamente tentado encontrar uma solução política e militar para o problema francês na pessoa do General Giraud que se revelara, mesmo em cima da hora, um verdadeiro fiasco. A presença em Argel do Almirante Darlan ofereceu-lhes um interlocutor que tinha tanto de valioso quanto de inesperado. Foi ele quem deu ordem de cessar-fogo às forças franceses que defendiam o território contra os invasores e foi ele quem deu ordem à frota de Toulon para se lhes juntar em Argel. É um sinal do prestígio que este almirante político gozava junto dos seus homólogos de convés o facto de, do total da frota, apenas 4 submarinos tivessem obedecido às suas ordens para se juntarem aos aliados. Todos os restantes navios – 3 couraçados, 1 porta hidroaviões, 7 cruzadores, 16 contratorpedeiros, 13 torpedeiros, 15 submarinos, além de outros navios menores – auto-destruíram-se e afundaram-se no porto para evitar a sua captura pelos alemães que aproveitaram o gesto e a ocasião para denunciarem as cláusulas do Armistício que lhes desagradavam. Os jornais aliados deram ao relato e por razões de propaganda óbvia o título Glória em Toulon! É um exagero ridículo a que não escapa a ironia adicional de que a participação na Segunda Guerra Mundial da famosa frota que não fora derrotada pelos alemães se limitara a um gigantesco acto de imolação colectiva. E, ironia das ironias, menos de um mês passado sobre o suicídio da frota, o comandante a quem ela não obedecera também tinha sido assassinado…

26 novembro 2022

EVOCAÇÃO «ARQUEOLÓGICA» DE UM GRANDE MOMENTO DA ARQUEOLOGIA

26 de Novembro de 1922. O arqueólogo britânico Howard Carter (1874-1939) penetra pela primeira vez no túmulo do faraó egipcio Tutankhamon. Tutankhamon fora um faraó que reinara por nove anos, durante o século XIV a.C. (aproximadamente 3.250 anos antes...) e várias circunstâncias haviam-se conjugado para que o tesouro que fora depositado no seu túmulo não houvesse sido substancialmente pilhado como acontecera com os restante túmulos reais egípcios. O que perdurara no túmulo era de uma riqueza indescritível. Este achado tornou-se a mais espectacular das descobertas arqueológicas de todos os tempos. A máscara mortuária de Tutankhamon, folheada a ouro, tornou-se mesmo a imagem emblemática do Antigo Egipto. E para assinalar o grande momento da arqueologia, creio ser oportuno ir recuperar uma pequena história da arqueologia da BD narrando precisamente a descoberta do tesouro de Tutankhamon e que foi desenhada por Edgar Pierre Jacobs em 1964 no meio das suas pranchas de Blake & Mortimer (as genuínas!...).

25 novembro 2022

JORNALISMO DE MEMÓRIA DE PASSARINHO PARA UMA CLIENTELA COM IGUAL «CAPACIDADE DE RETENÇÃO»

No passado dia 13 de Novembro celebrou-se mais uma vez no Reino Unido o tradicional Dia da Memória (Remembrance Day), dia evocativo do fim da Primeira Guerra Mundial, ocasião em que se celebra uma cerimónia à qual é imperativo comparecer todo o Who's who da classe política britânica, e isso inclui não apenas os que estão, mas também aqueles que já foram, nomeadamente os antigos primeiros ministros, que normalmente desaparecem das atenções mediáticas depois de abandonarem o cargo. Costuma ser uma oportunidade para os rever todos juntos. Todavia, o ritmo acelerado como a política britânica tem funcionado nos últimos tempos, multiplicou essa segunda fila de eminentes e o jornalismo mais sensacionalista não perdeu a oportunidade de enfatizar esse assunto, como se vê no exemplo acima. Mas, como se vê, esse registo apela a uma memória muito limitada dos leitores: dez semanas. Foi o tempo que envolveu a saída de Boris Johnson, a passagem meteórica pelo cargo de Liz Truss e a mais recente tomada de posse de Rishi Sunak. Se mudarmos ligeiramente o ângulo como a fotografia é tomada (abaixo), o número de primeiros-ministros conservadores sobre para cinco, com a inclusão de David Cameron (1), Theresa May (2) ao elenco já citado (Boris Jonhson (3), Liz Truss (4) e Rishi Sunak (5). Estes cinco representam os primeiros-ministros do Reino Unido neste últimos 76 meses (ou seja, menos de 6 anos e meio), depois da realização do referendo do Brexit, e representam um encadeado de insucessos quanto à forma como lidar com a consequência da saída do Reino Unido da União Europeia. Olhando para aquela fila de trás (onde já não caberão outros antigos primeiros ministros como John Major, Tony Blair e Gordon Brown) teria valido mais a pena abordar o problema nessa perspectiva mais aprofundada... para quem já se tenha esquecido do verdadeiro problema do país.

«SAUDADES» DA «INFORMAÇÃO» DOS JORNAIS COMUNISTAS!

Quinta Feira, 25 de Novembro de 1982, parece-me uma data apropriada para evocar graficamente como se noticiavam comparativamente num jornal comunista (Diário de Lisboa) a presença americana em El Salvador e a presença soviética no Afeganistão. Note-se o espaço, o detalhe e a terminologia distintas que são dedicados pelo jornal às duas realidades, apesar da sua semelhança. No caso de El Salvador «os americanos» aparecem logo no cabeçalho, mas no caso do Afeganistão só no detalhe é que se percebe que «a intervenção estrangeira» é protagonizada... pelos soviéticos. A reputação da imparcialidade não parecia ser uma grande preocupação destes jornalistas militantes.

24 novembro 2022

UMA HISTÓRIA ANTIGA

Se há coisa que me irrita nesta história das antipatias pela realização do campeonato mundial de futebol no Qatar, é a pretensão, da parte de quem o está a defender, de que as críticas só se congregaram muito recentemente. Estas imagens que aqui exibo desmentem essa mentira. Datam de 2015, já têm sete anos! No vídeo acima, mais espectacular e irónico, um humorista irrompe pela conferência que o então presidente da FIFA (Joseph Blatter) se preparava para realizar, para lhe depositar um maço de notas (falsas) na sua frente, apelando para que, depois de escolhido o do Qatar, o Mundial seguinte, em 2026, se realizasse... na Coreia do Norte. A cena acaba com uma chuva de notas atiradas ao ar, numa alusão evidente à corrupção que se descobrira grassar no topo da FIFA e que iria levar o próprio Blatter a ter de se demitir e a ser sancionado com o banimento da actividade. O outro vídeo é do astro argentino Diego Maradona, entretanto falecido em 2020, a criticar de uma forma contundente a escolha do Qatar para sede deste Mundial que agora começou. Portanto, comprovadamente, aquilo que se está a assistir é apenas à erupção de uma antiga controvérsia que esteve a fermentar praticamente desde a escolha do emirado para local de realização do Mundial. É inaceitável assistir à hipocrisia de pretender que tudo o que está a acontecer irrompeu do nada, como o fez, por exemplo, António Lobo Xavier, que o utilizou como um dos argumentos fortes da sua intervenção (viscosa, como é seu timbre) no programa O Princípio da Incerteza da CNN desta semana. (quem quiser, pode ouvi-lo a argumentar nesse sentido a partir dos 31:10s) Haja pachorra!