16 janeiro 2022

»REFRESCANDO» A OPINIÃO SOBRE A QUALIDADE DOS PARTICIPANTES DE PROGRAMAS DE OPINIÃO

Ontem, depois de almoço, vim no carro a ouvir um daqueles programas de opinadores, este na Antena 1 com Carlos Coelho, Nuno Severiano Teixeira e Maria Flor Pedroso. Calhou. Estiveram a apreciar as prestações dos dirigentes políticos durante os debates, um por um, partido por partido. E reparei que todos os três "se conseguiram esquecer" de Inês Sousa Real nessa apreciação. (adenda: podemos ouvir essa passagem do esquecimento colectivo accionando este link, a partir dos 12:25) O que diz imenso sobre a "ressonância" que o PAN tem nestes meios que procuram, sem o admitir claramente, formar as opiniões alheias. E o preconceito, apesar dos 175.000 votos recebidos e dos 4 deputados eleitos pelo PAN nas eleições de 2019. Mas também diz muito sobre o rigor e a "qualidade" como os participantes se empenham naquela tarefa de «mais análise do que opinião, mais explicação», nos dizeres que apresentam (acima) o programa. Uma vez por outra vale a pena refrescar a opinião porque não vale a pena ouvir estas programas...

A ELEIÇÃO DE VINCENT AURIOL COMO O PRIMEIRO PRESIDENTE DA IV REPÚBLICA FRANCESA

16 de Janeiro de 1947. Eleição (pelo parlamento) do socialista Vincent Auriol como primeiro presidente da IV República francesa. Desde a libertação de França, no Verão de 1944, portanto dois anos e meio antes, que a França nunca tivera um chefe de Estado formalmente empossado (de Gaulle e os seus três sucessores haviam-no sido a título provisório). Apesar de um desejo professo para que isso não voltasse a acontecer, as estruturas políticas delineadas pela Constituição da IV República francesa vão manter as características de instabilidade política que haviam sido típicas durante a III República: obviamente não se sabia então, mas ao longo dos sete anos (1947-54) em que Vincent Auriol ocupará o palácio do Eliseu, suceder-se-ão 18 governos encabeçados por 11 primeiros-ministros diferentes.

15 janeiro 2022

«O FOSSO...»(2)

A notícia acima é de 3 de Janeiro de 2021 (assinalei o seu aniversário aqui no Herdeiro de Aécio como alerta e preparação para o que previa que aí viria com a campanha eleitoral). A notícia abaixo é de hoje, 15 de Janeiro de 2022. O jornal - não por acaso - é o mesmo: Diário de Notícias. E a ideia também: dar da situação uma imagem de superioridade tal - 13 pontos, 14 pontos - que dê a vitoria do PS como definitiva. Note-se que, desta vez, aquilo em que «Costa supera Rio» é uma coisa assim a dar para o inédito: «o potencial de voto». Não se percebendo lá muito bem do que se trata pela explicação do subtítulo («mercado eleitoral»?), retira-se dali pelo menos a frase: «mas ambos têm margem para chegar em primeiro». Contudo o título principal dá a ideia completamente oposta: a de que Costa tem um tal avanço que as eleições estão ganhas para o PS. É o tal fosso...da propaganda descarada.

A CORAGEM

Este notabilíssimo cabeçalho do Diário de Notícias e esta entrevista a José Maria Ricciardi completam hoje 10 anos. Na época entendi coragem num certo sentido, tanto mais que o governo tomara posse cerca de seis meses antes. Hoje confesso que perdi as certezas a que coragem se estaria Ricciardi a referir. Ou então seria o próprio autor da frase que andava enganado. Enfim, a frase continua com ressonância, não sei é se já então tinha substância.

A BATALHA DO MAR DE ARAFURA

Para explicar os antecedentes desta pequena batalha naval de há 60 anos, convém frisar que, quando a Indonésia alcançou a independência em 1949 (assinalado no mapa acima a vermelho), o novo país, apesar de ameaçado por diversos movimentos separatistas (Aceh, Molucas), possuía, ainda assim, ambições territoriais em direcção a três colónias vizinhas. A Malásia (assinalada a cor de laranja), pela qual a Indonésia chegou a travar um conflito intermitente na ilha de Bornéu com os britânicos entre 1962 e 1966; Timor (assinalado a verde) que os indonésios ocuparam em 1975 a pretexto do vácuo da autoridade portuguesa e que tiveram de desocupar quando finalmente organizaram um referendo que não perceberam que lhes iria correr muito mal(1999); e finalmente a Nova Guiné Ocidental (assinalada a azul claro), colónia holandesa adjacente mas independente da Indonésia, que aqueles continuaram a administrar depois de 1949 e pela qual se travou esta batalha naval do Mar de Arafura.
A Nova Guiné era em 1949 (e continuava a sê-lo em 1962) um dos sítios mais recônditos do mundo, a segunda maior ilha do Mundo com 786 000 km², um clima inóspito e uma população (especialmente no interior) sobre a qual se sabia muito pouco: o que se sabia é que havia uma estrutura tribal enraizada e também que havia pouca convivência entre as tribos: no total, falam-se 1.073 idiomas distintos! Em 1884, a ilha fora dividida em três colónias: a Alemanha ficara com a parcela de Nordeste, o Reino Unido (através da Austrália) com a de Sudeste e a Holanda com a metade Ocidental. Em consequência do desfecho da Primeira Guerra Mundial (1919), os australianos acabaram depois por ficar com a metade Oriental. Era essa a situação em 1949, quando a Holanda resolveu reter a administração da colónia para vir a dar aos seus habitantes a futura possibilidade de, em regime de autodeterminação, se unificarem com a colónia britânica (que viria a alcançar a independência em 1975).
As ambições da Indonésia eram outras: anexar a Nova Guiné Ocidental. E as relações entre a ex-colónia e a antiga metrópole não eram, por isso, propriamente as melhores. Os holandeses mantinham naquelas águas meios navais importantes, um destroyer, duas fragatas (HNLMS Evertsen, mais acima), para demover os indonésios das suas intenções agressivas. A operação que estes últimos lançaram em 15 de Janeiro de 1962 consistiu em transportar 150 comandos em três lanchas rápidas para os desembarcar clandestinamente em território da Nova Guiné. Porém, os holandeses conheciam a operação de antemão e haviam posto aeronaves P-2 a patrulhar o Mar de Arafura. Uma delas encontrou as lanchas e os navios holandeses dirigiram-se para as interceptar. A clara superioridade de fogo dos holandeses fez com que uma das lanchas fosse afundada e as outras duas destruídas. Entre os mortos da batalha naval contou-se o comandante da flotilha indonésia, o comodoro Yos Soedarso.
Do ponto de vista estritamente militar, o desfecho da batalha, a vitória holandesa, foi inequívoca. Mas o aproveitamento político das acções militares consegue subverter essa lógica. Para que se esquecesse a imprudência do comodoro, ele veio a ser transformado em mártir nacional. Em Portugal (acima), quiçá por uma solidariedade instintiva entre potências coloniais, as simpatias iam inequívocas para com a Holanda. Mas esta iria desistir rapidamente da sua intenção: não querendo arcar com os custos de um conflito, ainda que de baixa intensidade, com a Indonésia, através da mediação americana, a Holanda veio a ceder os seus direitos administrativos à ONU, que por sua vez os cedeu à Indonésia em Maio de 1963. Uma hipocrisia total. A Batalha do Mar de Arafura acabou recontada de uma certa maneira diferente entre a Marinha de Guerra da Indonésia (TNI-AL), mas o processo como um desastre naval se pode transformar num sucesso político (e vice-versa...), não lhes deve ter escapado quando foi a vez deles interceptarem o Lusitânia Expresso no Mar de Timor em 1992...

14 janeiro 2022

A PRIMEIRA EMISSÃO DO PROGRAMA «TODAY»

14 de Janeiro de 1952. Na cadeia norte-americana de televisão NBC tem lugar, a partir das 07H00 locais, a primeira emissão do programa Today. Foi um programa pioneiro no formato (depois institucionalizado) dos programas matinais (formato esse que só uma três décadas depois chegará a Portugal) e o programa continua a ser emitido desde há setenta anos. É com evocações deste género - 70 anos! - que se percebe que a televisão, como forma de comunicação, há muito que atingiu a terceira idade. Como tantas outras coisas artísticas na vida, com aquela idade, há sempre aquela faceta que nos torna nostálgicos, mas não devemos esperar dali - da TV - grandes novidades.

13 janeiro 2022

VAMOS LÁ A TIRAR AQUI UMAS IDEIAS DO QUE SE PODE ESPERAR DO VENTURA

Expliquemos a relevância destas imagens vindas da Bulgária para o nosso contexto político: o partido Renascimento (Възраждане - Vazrazhdane - no original) é o Chega lá da Bulgária. E o André Ventura lá do sítio chama-se Kostadin Kostadinov. Comparem-nos mais abaixo: eles até são muito parecidos, só que o outro parece mais macambúzio e não consta da sua carreira uma fase de comentador televisivo ao serviço do CSKA de Sófia. Para o que interessa, o Renascimento, fundado em 2014, tem registado um crescimento eleitoral na Bulgária, como aquele que todos antecipam que se venha a registar com o Chega, nestas próximas eleições de 30 de Janeiro. Na Bulgária, as eleições tiveram lugar em Novembro último e nelas o Renascimento alcançou quase 5% dos votos e uma representação parlamentar de 13 lugares em 240 (um desfecho que não estranharíamos por cá). E no entanto, como se pode apreciar pelas imagens acima, o partido parece mais interessado com aquilo que pode fazer mobilizando centenas de manifestantes à volta do parlamento do que com aquilo que faça com os seus 13 deputados dentro desse mesmo parlamento. O pretexto, neste caso, foram os certificados de vacinação. Poderão ser outros. Contudo, isso não é garantia que Ventura venha a fazer o mesmo ou parecido invocando este ou outro pretexto. Pode não acontecer. Agora, se acontecer, que não haja surpreendidos.

ASSIM SE VIA A FORÇA DO PC

13 de Janeiro de 1922. Uma pequena nota do Diário de Lisboa desse dia dava conta da apresentação de uma candidatura comunista pelo círculo de Moçambique às próximas eleições legislativas que teriam lugar no final daquele mês. Transcreve-se então a notícia que será capaz de animar o pós-operatório de Jerónimo de Sousa, mostrando que a tão evocada, nos slogans, «força do PC», se parece estar a esvair-se nas votações eleitorais, pelo menos já é centenária nas candidaturas.
«Segundo informações que recebemos de Lourenço Marques, os organismos operários apresentam como candidatos no próximo acto eleitoral os nomes do sr. Manuel Ribeiro e Eduardo de Freitas para deputados e o do sr. Manuel Ricardo de Miranda para senador.
O sr. Manuel Ribeiro, que não é desconhecido dos leitores do Diário de Lisboa, pois a ele já por mais de uma vez nos referimos, é a figura de maior destaque do Partido Comunista Português e o autor da Catedral, uma das mais brilhantes produções literárias da moderna geração. Quanto ao sr. Eduardo de Freitas, operário serralheiro, é bem conhecido dos meios sindicalistas de Lisboa pelas suas qualidades de orador revolucionário.
Estas candidaturas não devem ter a sanção do Partido Comunista, que se desinteressou das próximas eleições, tratando-se, pois, de uma simples manifestação da força do proletariado organizado da província de Moçambique. Na hipótese de serem eleitos, os srs. Manuel Ribeiro e Eduardo de Freitas declinarão os seus mandatos».
A notícia vale pela curiosidade, desnecessário será esclarecer que a hipótese da eleição dos candidatos comunistas não se chegou a pôr: Manuel Ribeiro recebeu 161 votos e Eduardo de Freitas 117, contra os 978 de Delfim Costa (democrático) e os 954 de Álvaro Xavier de Castro (independente), os dois eleitos. Desnecessário será esclarecer que não consegui encontrar nada a respeito deste episódio nos arquivos comunistas. Aparentemente, para eles nada disto aconteceu. Como se sabe, para os comunistas no passado só aconteceu aquilo que interessa que se saiba que tenha acontecido, e porque esse interesse varia com os tempos, é que esse passado pode ser, para eles, um assunto bastante imprevisível (pessoas que lá estiveram deixaram de lá estar...).

12 janeiro 2022

SOBRE OS «ADEREÇOS» À VOLTA DA CAMPANHA

Eu considero que esta campanha não tem estado a ser nenhum«a lufada de ar fresco», como a classifica Manuel Carvalho no seu editorial de hoje no Público (acima, canto superior direito). Eu analiso a situação de outra maneira: é que, devido às circunstâncias, o esforço dos partidos se tem aplicado nas formas de promoção intermediadas pela comunicação social e descurou as outras. Repare-se como, para além do desaparecimento (natural) das acções de campanha presenciais, até a própria publicidade em outdoors está a ser muito mais reduzida, quando em comparação com campanhas anteriores. Desconfio que deve ser por causa desta proeminência da comunicação social na promoção politica que Manuel Carvalho se mostra tão contente e elogioso. E com ele, desconfio que a alegria se deve espalhar a toda uma fauna que se especializou no opinionismo político (também acima, aparecem referências a alguns desses exemplares). Eu não preciso, eu não pedi, qualquer tipo de ajuda para que me explicassem o que aconteceu durante o debate, muito menos a opinião deles sobre quem o ganhou e quem o perdeu, mas a fauna dá-as (às opiniões) na mesma. Lamento, mas não há qualquer «ar fresco» e eu continuo a ver a mesma menorização do espectador, só que agora ele está dispensado - excepcionalmente! - de ver nas televisões as tradicionais imagens enfadadas das arruadas. Agora parece que se tem de apelar ao lado mais intelectual do espectador. O João Miguel Tavares pode estar optimista sobre o novo discurso dos políticos em 2022, mas eu continuo a pensar que o discurso nem é novo, nem eu passei a ser consumidor das opiniões alheias sobre o que se passou à minha frente, ainda que em televisão. Quanto à profundidade das análises que por aí grassam, deixo um exemplo apenas: no debate entre Catarina Martins (BE) e Inês Sousa Real (PAN), alguém, entre os comentadores políticos, se atreveu a ventilar depois aquilo que constava em surdina ainda há dois meses, que partira do Bloco a iniciativa de pôr cá fora o escândalo das estufas da porta-voz do PAN? Não, ninguém. Se calhar, terei sido mal informado. Mas, mesmo não tendo sido o Bloco, decerto que a tal história das estufas não apareceu por investigação dos jornalistas. Porque não se prestam a isso (investigar) e porque não me interessa o que eles preferem fazer (opinar), este último vídeo é-lhes dedicado: a eles e às suas opiniões.
Adenda de dia 15. Nem de propósito e ainda a pretexto de saber quem andará a alimentar uma campanha de informação negativa tendo por alvo o PAN, apreciem mais este recente escândalo que encontrei no jornal Novo: “Perseguição e controlo”: PAN acusado de assédio moral e laboral E ninguém nas redacções dos jornais parece saber nada sobre as origens de tanta má-lingua súbita a respeito sempre do mesmo partido...

A «CONJURA PREPARADA CONTRA A SEGURANÇA DO ESTADO» - QUAL CONJURA?

Se já algumas vezes se exibiram aqui exemplos de como podem ser exageradas acutalmente as descrições das consequências do funcionamento da censura nos jornais, desta vez podemos apreciá-la, à censura, em todo o seu esplendor, exibindo esta primeira página da edição do Diário de Lisboa de há 70 anos. Quem lesse a pequena notícia do canto inferior esquerdo com o título Ordem Pública, ou sabia de antemão a que «conjura» se estariam a referir os «telegramas, ofícios, cartas e outras missivas» que o «sr. ministro do Interior» recebera, ou então não era certamente pelo que constava da notícia que ficava informado. E também não havia outras notícias noutro local do jornal esclarecendo o leitor quem fazia parte da conjura, como havia sido descoberta, nem o que acontecera aos conjurados. E também não encontrei notícias a respeito nas edições do Diário de Lisboa dos dias seguintes. Mas prometo que o leitor do Herdeiro de Aécio vai ficar mais esclarecido que o do jornal de há 70 anos. Os conjurados eram os membros da «Organização Cívica Nacional» e haviam sido presos no dia 7 de Janeiro pela PIDE durante uma das suas reuniões na sede da organização, na rua da Assunção, nº 4. Compunham-na o brigadeiro reformado António de Sousa Maia, o coronel reformado Luís Gonzaga Tadeu, o major reformado Daniel Alexandre Sarsfield Rodrigues, o capitão reformado Henrique Galvão, o capitão na reserva Henrique Pereira Monteiro de Macedo e o capitão-tenente reformado José Moreira de Campos. Eram tudo nomes de militares tradicionalmente associados a conspirações para derrubar o Estado Novo, uma novidade da lista seria o capitão Henrique Galvão, que fora até há pouco tempo um dos deputados do regime, e que agora se mudara para o outro lado. Mas, nitidamente, a censura velava para que o assunto não fosse noticiado. Tanto assim que depois de presos, os conjurados vieram a ser julgados no Tribunal Militar de Santa Clara, um julgamento que terminou em 11 e 12 de Dezembro daquele mesmo ano. As penas (de dois e três anos) será o menos importante. Veja-se abaixo, à esquerda, o que o Diário de Lisboa noticiou - conseguiu noticiar - naqueles dois dias. Não contêm nada de substantivo sobre o que ocorrera. Em contraste (e talvez o jornal o tivesse feito expressamente), chega a ser ridículo a comparação dessas duas notícias com o conteúdo de uma outra, também publicada num desses dois dias, de evocação de um outro julgamento, também em Tribunal Militar, que ocorrera precisamente 30 anos antes.

11 janeiro 2022

COMO O JOÃO RENDEIRO JÁ FOI «PRESO PARA A TELEVISÃO», PARECE QUE O RESTO JÁ NÃO INTERESSA...

Vale a pena recordar que se completa hoje, a 11 de Janeiro, precisamente um mês sobre a magnífica operação de relações públicas que se sucedeu à prisão de João Rendeiro na África do Sul. Ocasião em que o primeiro-ministro se apressou a «felicitar a Polícia Judiciária» e que se tratava de «um sinal de que se podia confiar nas instituições e que tínhamos de as deixar funcionar». Na notícia abaixo, temos essas mesmas instituições a funcionar: em letras muito mais pequeninas do que as parangonas de há um mês e numa redacção quase casual, ficámos a saber que «Portugal ainda não enviou para a África do Sul o pedido de extradição de João Rendeiro». Um mês!... E a pergunta é: não há nenhum director que se disponha neste caso a dar «uma conferência de imprensa de manhã, RTP às 13H, CMTV às 17H, CNN às 19H, etc.» explicando porque é que ainda não se apresentou o pedido de extradição? E António Costa não quer felicitar ninguém em particular pela demora de um mês para apresentar tal pedido? Ou isto é para ser tratado como o prazo da entrega de uma declaração de IRS (das antigas)? (Guarda-se para os últimos dias) Sobretudo: como é que os jornalistas não se colocam estas mesmas questões? E porque não as põem especialmente a quem se promove quando as circunstâncias são precisamente as opostas? É que, se só andam nisto para «ver passar os comboios», não são precisos para nada. E, pelos vistos, Rui Rio estava mesmo errado quanto ao «azar de Rendeiro». Se deixadas «a funcionar» por si, as coisas parecem tender a correr tão mal que nem António Costa as consegue aproveitar depois como peças de propaganda...

OS JAPONESES ENTRAM EM KUALA LUMPUR

11 de Janeiro de 1942. Os japoneses entram em Kuala Lumpur, a capital da Malásia. A assinalar e explicar o acontecimento, a wikipedia tem uma entrada denominada «Battle of Kuala Lumpur». Na realidade, não houve batalha alguma. Os ingleses pegaram em praticamente tudo o que tivesse rodas e motor e fugiram à frente dos japoneses. Não deixa de conter uma certa ironia que uma das principais unidades envolvida nessa retirada sobre rodas fosse a 11ª divisão indiana, cujo emblema era... uma roda de 11 raios. Aquele que era o correspondente na Malásia do jornal The Times, Ian Morrisson, veio a descrever depois - mas não para o jornal... - aquilo que testemunhara na cidade nesse dia. «Acumulavam-se as cenas de caos. A grande maioria dos soldados britânicos já haviam partido mas havia ainda pequenas unidades a cobrir o avanço japonês a uns 25 km a norte da cidade, enquanto dentro dela destacamentos de sapadores demoliam as últimas pontes. Com o desaparecimento da autoridade, a lei e ordem desaparecera e os grandes estabelecimentos comerciais do centro estavam a ser saqueados. As ruas estavam pejadas das caixas de cartão que embrulhavam os artigos roubados e que os saqueadores haviam logo deitado fora. Via-se gente a carregar de tudo: móveis, carpetes, rolos de tecido, maquinas de costura, rádios, latas de conserva de todos os produtos imagináveis, e até mesmo havia quem se tivesse interessado por um jogo completo de tacos de golfe... O edifício do governo, onde também estivera instalado o quartel-general, estava deserto, com o mastro já despojado da «Union Jack». No drawing-room e numa pequena mesa, um copo de whisky e soda que ficara por acabar. Numa das escrivaninhas do primeiro andar via-se documentação vária, endereçada ao governador, que já fora passada à maquina, mas que ninguém chegara a assinar. Nos gabinetes do rés-do-chão parecia que os ocupantes haviam pousado subitamente as canetas e partido. Um camião, ainda operacional, estava estacionado num dos lados do edifício. O hall da entrada, estava repleto de vitrines exibindo joalharia em prata e punhais exóticos. Os retratos oficiais do rei e da rainha lá permaneciam imponentes no seu mudo sorriso institucional. Mas o que mais terá irritado Morrison foi a sua descoberta, nos serviços de cartografia, de milhares de mapas, completamente disponíveis para que os japoneses se viessem a servir deles...» (The Battle for Singapore, p. 299). O panorama era este quando os japoneses chegaram horas depois (e Morrison já se fora embora...). Os japoneses que vemos na fotografia inicial não estavam a combater contra ninguém. Mas até parece...

10 janeiro 2022

PARA IR LENDO AO LONGO DAS TRÊS SEMANAS QUE NOS SEPARAM DAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES...

Harold Wilson ganhou quatro eleições britânicas, o que é muito mais do que se pode dizer - até agora - de António Costa. É razoável considerar que duas das vitórias de Wilson (1964 e 1974/1) foram tangenciais, enquanto que a vitória de Costa de 2015 foi mais engendrada do que conseguida. Mas é interessante ler como foi a carreira de um líder de uma grande formação da esquerda europeia, mesmo considerado da ala esquerda desse mesmo partido, embora classificado assim mais pelas alianças pessoais e pelo alinhamento de grupos do que propriamente por aquilo que poderíamos classificar por pensamento ideológico. Trata-se de um tacticista, portanto, e por isso mesmo, e apesar dos 60 anos que os separam, podem recolher-se da leitura do livro algumas inspirações oportunas do que pode vir a ser o comportamento de António Costa, conforme o desfecho das eleições de 30 de Janeiro. (Uma curiosidade: o livro foi originalmente publicado há quase 30 anos, ainda o partido trabalhista não passara pelas derivas da liderança de Tony Blair; o biografado morreu  em 1995, o autor em 2004; tem 734 páginas - coisa para se ler em dia e meio, agora que está na moda aldrabar descaradamente quanto ao ritmo de leitura)

O REGRESSO DE MUJIBUR RAHMAN

10 de Janeiro de 1972. Chegada triunfal a Dacca, a capital do recém independente Bangladesh, do xeque Mujibur Rahman. Só com o retorno daquele que era considerado o pai daquela pátria se pode considerar encerrado o complicado processo que culminou com a divisão do Paquistão e a fundação da nação bengali predominantemente muçulmana. Essencialmente, e no grande xadrez estratégico, este desfecho é uma uma vitória do Bangladesh e, por associação, dos seus aliados, a Índia e a aliada desta, a União Soviética, ao mesmo tempo que é uma clara derrota paquistanesa e dos seus grandes aliados, os Estados Unidos e a China. Por sinal, tudo isto está a acontecer enquanto discretamente Henry Kissinger estava a realizar, via Paquistão, a manobra de aproximação à China que culminará com a visita do presidente Richard Nixon àquele país em Fevereiro de 1972. Essa virá a ter promoção. Este fiasco da diplomacia norte-americana é que nem por isso.

09 janeiro 2022

QUANDO A ALBÂNIA APARECE NOS NOTICIÁRIOS...

...raramente é por uma boa razão. O país passou do comunismo para o capitalismo, mas continua a ser o mais atrasado da Europa, e esta história que nos é contada pelo canal Euronews não se me afigura lá muito convincente (faz mais sentido tratar-se de uma guerra entre facções rivais, em vez d«o descontentamento pelas lutas internas no partido»...). Sobretudo, torna-se-me irresistível relembrar os outros tempos em que a Albânia era conhecida por um eremitismo marxista-leninista caricato, de propaganda bombástica, ridícula e kitsch. Se já foi um absurdo ter continuado a acreditar no comunismo em versão soviética à medida que os indícios contrários se acumulavam, foi preciso ter-se sido mesmo muito estúpido para ter acreditado nesta outra versão recôndita.  
(O postal evocativo pertence originalmente ao blogue Verão Quente e outras Estações)

O DIA DO FICO

9 de Janeiro de 1822. Em reacção às instruções que haviam chegado de Lisboa para que regressasse a Portugal, o príncipe D. Pedro acolhe uma petição com 8 mil assinaturas instando-o a que ficasse no Brasil e anuncia a sua decisão publicamente. O episódio ficou conhecido como o dia do Fico.

08 janeiro 2022

«CROSSFIRE» - O «NOVO» PROGRAMA DA CNN PORTUGAL QUE JÁ TINHA «MORRIDO» EM DIRECTO, NA TELEVISÃO AMERICANA, EM 2004

«Crossfire» foi um programa de televisão da CNN (original!) que foi transmitido entre 1982 e 2005. O figurino do programa consistia na presença simultânea de dois apresentadores, um conservador e outro liberal, que confrontavam as suas ideias sobre inúmeros assuntos, predominantemente de carácter político. A dinâmica esperada do programa era o contraste e a divergência das opiniões dos dois participantes, e o programa teve a sua época, como se percebe pela sua duração - 23 anos. Contudo, aquele que terá sido o programa mais lembrado ocorreu em 15 de Outubro de 2004, quando os dois anfitriões, Paul Begala (liberal) e Tucker Carlson (conservador) tiveram por convidado Jon Stewart, ele próprio apresentador de um programa humorístico - «The Daily Show» - num canal concorrente. Para resumir aquilo que se pode ver no video acima, Jon Stewart deu cabo dos anfitriões, arrasando o extremismo encenado em que o programa degenerara. (Quando Begala argumentou que o programa era um forum para o debate, Stewart respondeu-lhe que, se «Crossfire» era para ser considerado um debate, então um espectáculo de wrestling podia ser considerado uma competição atlética) Durante e depois da emissão, Begala aceitou razoavelmente bem as críticas de Stewart, Carlson nem tanto, e na escalada de argumentos, o convidado acabou tratando-o por «dick» (literalmente «pila», mas mais injurioso do que isso naquele contexto). Com razão ou sem ela, Jon Stewart ficou com a aura de ter contribuído para a decisão de terminar com o programa, que ocorreu em Janeiro de 2005.
Tão ou mais importante que uma eventual saturação dos espectadores americanos com aquele figurino necessariamente confrontacional, Stewart levantara a questão do perfil daqueles que se vieram a tornar os dois últimos protagonistas do «Crossfire» (Begala e Carlson). Quando a SIC Notícias quis copiar o mesmo figurino para um programa seu, com aquele mesmo nome (acima, em 2003), a escolha também se mostrou desastrada. Alfredo Barroso (pela esquerda) e Nuno Rogeiro (pela direita) mostravam-se mais implicativos e quezilentos do que propriamente capazes de debater com substância os tópicos a que se propunham. O programa também teve uma vida muito curta, mesmo que não tivesse aparecido um terceiro a explicar-lhes que o programa deles não prestava para nada. Por isso, assistir à ressurreição do figurino e do nome do «Crossfire» pela CNN Portugal, depois de passados quase 20 anos e com tais resultados, é uma daquelas decisões que, logo à partida, é de difícil explicação. Eu não fazia tenção de ver. Mas, pior, descubro agora que o programa está a ser protagonizado por políticos no activo, em que descubro esta preciosidade de ver Fernando Medina, que é o quinto candidato das listas do PS por Lisboa que descubro abaixo a comentar a actuação de António Costa - "António Costa coloca a tónica no ponto certo" - que é por sinal o primeiro colocado dessa mesma lista... É de tal maneira descarado e despropositado que só me ocorre, por curiosidade, perguntar a Jon Stewart o que ele tem a dizer sobre a independência de um comentador do «Crossfire» que concorre às mesmas eleições que comenta...

O GENERAL GEORGE MARSHALL TORNA-SE SECRETÁRIO DE ESTADO DA ADMINISTRAÇÃO AMERICANA DO PRESIDENTE TRUMAN

8 de Janeiro de 1947. A notícia do dia é a demissão do secretário de Estado americano James F. Byrnes e a escolha surpreendente do general George Marshall para lhe suceder. Embora as razões oficiais para a saída de Byrnes fossem a sua saúde, a verdadeira causa prendia-se com as (más) relações funcionais entre o presidente Harry Truman e o seu secretário de Estado. A escolha de Marshall, um antigo chefe de Estado Maior do Exército durante a Segunda Guerra Mundial e que então se encontrava na China como enviado pessoal do presidente, encarregado de negociar um acordo entre nacionalistas e comunistas que evitasse a eclosão de uma guerra civil, foi acolhida com surpresa. A intenção de Truman, com a escolha de um militar para o cargo, era de alguma forma despartidarizar a condução da política externa, depois dos democratas terem perdido a maioria no Congresso nas eleições de finais de 1946. Mas a admissão de militares nos altos escalões da administração americana também gerava o efeito inverso: o de provocar comentários a respeito das perspectivas políticas das altas patentes saídas da, e popularizadas com a, Segunda Guerra Mundial. Note-se como na notícia e logo no título, se lia a referência que a nomeação de Marshall podia ser «apontada por alguns» como «o primeiro passo para a presidência». Uma previsão que não se viria a verificar no caso de Marshall, mas a verdade é que o sucessor do presidente Truman será o general Dwight Eisenhower. A cena da tomada de posse, que vemos abaixo, teve lugar duas semanas depois.

07 janeiro 2022

A FUNDAÇÃO DA COLÓNIA QUE SEMPRE TEVE VERGONHA DE SE ASSUMIR COMO TAL

7 de Janeiro de 1822. É a data que assinala o estabelecimento das primeiras infraestruturas nas costas do que viria a ser a Libéria, por uma sociedade americana conhecida por American Colonization Society. O propósito desta última era promover o retorno a África daqueles americanos de ascendência africana que mostrassem dificuldades de integração na sociedade - sendo essas dificuldades tanto a rebeldia daqueles que estavam escravizados, como a discriminação de que eram vítimas aqueles já nascidos na América que, tendo sido emancipados e evoluído na escala social, eram vítimas de discriminação racial. O território, que fora originalmente conhecido como a Costa da Pimenta pelos portugueses quando ali haviam chegado no século XV, por causa do comércio da pimenta local (um sucedâneo competitivo da original da Índia), veio a receber o nome de Libéria (de liberdade). O nome era feliz, mas a ideia era mais simpática na teoria do que na prática: por exemplo, os escravos retornados eram depositados na Libéria embora pudessem ser originários de locais tão díspares e distantes quanto o Senegal, o Gana, a Nigéria ou Angola, portanto sem quaisquer afinidades com a população local; e as dificuldades de instalação dos mais evoluídos eram rigorosamente as mesmas dos europeus, por causa da insalubridade do clima: dos 4.571 imigrantes que foram para a Libéria entre 1820 e 1843, só 40% permaneciam vivos em 1843. A American Colonization Society continuou a promover a imigração de afro-americanos até 1904, mas a tendência natural foi para que estes se consorciassem entre si, criando gradualmente um grupo social distinto, que se identificava pelo idioma materno (inglês) e pela religião (cristianismo protestante), cujos membros assumiam, na maioria das vezes, as responsabilidades pela administração do território. Em 26 de Julho de 1847, ou seja 25 anos depois da data que aqui se evoca, declararam uma espécie de independência em que quase tudo, a começar pela bandeira, mimetizava os Estados Unidos. Já aqui publiquei um poste a respeito desses primeiros presidentes dessa República supostamente independente. Tal era a escassez de protagonistas políticos que o primeiro deles, de 1848 a 1856, voltou a ser o sétimo presidente, de 1872 a 1876, e o quarto presidente (1868-70) foi também o oitavo (1876-78). Embora, na prática, a Libéria não fosse formalmente uma colónia dos Estados Unidos, a sua estrutura social, política e económica assemelhava-se muito ao tipo de dependências coloniais de outros países onde predominava uma elite local miscigenada, com muitos traços comuns com o caso (não muito distante) de Cabo Verde. Esse regime, imposto por uma minoria e copiando um modelo político de uma metrópole tímida quanto à admissão dos seus interesses coloniais (os Estados Unidos), só veio a desaparecer em 1980, cinco anos depois da saída dos portugueses de África.

NÃO HAVIA NECESSIDADE...

Neste género de notícias, do anúncio da morte de alguém que a esmagadora maioria dos leitores não faz a mínima ideia de quem se trata, torna-se indispensável primeiro tornar famoso o famoso, para depois se tornar pertinente a notícia de que o famoso faleceu. Só que, pior neste caso, a acrescer ao facto de que ninguém por cá saber quem terão sido os gémeos Bogdanoff, a notícia trágica da morte dos dois é ridicularizada pela exibição de uma fotografia de ambos, em que, à força de operações plásticas, eles se assemelham a caricaturas ou a bonecos do contra-informação. Quanto à evocação de que, apesar de desconhecidos por cá, se tratavam dos «gémeos mais famosos de França», vale a pena dar uma vista de olhos a um artigo de 2019 da revista de fofocas francesa «Paris-Match» a propósito precisamente de gémeos famosos, onde eles aparecem em 14º lugar entre 17 pares de gémeos colunáveis. Sobre (falta de) fama, estamos esclarecidos. E como incentivo à vacinação, arranjem outro género de pessoas.