20 maio 2022

GRANDES CITAÇÕES DO SÉCULO XX QUE SE DESCOBRIU NO SÉCULO XXI SEREM AFINAL UM DISPARATE

«A Guerra! É uma coisa demasiado grave para a confiar a militares.» - Georges Clemenceau (1841-1929)
A conhecida frase de Clemenceau terá recuperado a sua pertinência quando da eclosão nos ecrãs de um robusto estado maior de generais pró russos, que nos apareceu a comentar a invasão da Ucrânia. Os seus comentários que mostravam uma equidistância que era equivalente à de um João Gobern (antes do seu outing benfiquista) ou então à dos comentadores da Benfica TV, geraram desconforto, tanto mais que os acontecimentos militares subsequentes os descredibilizaram completamente.
Arruinadas assim as reputações castrenses, e a meu ver com muita injustiça, porque ao longo desse mesmo período compareceram em estúdio muito outros militares que produziram comentários mais interessantes e balanceados do que os daqueles três, há que reconhecer que ficou o caminho aberto para os civis, civis esses que levarão as coisas com a seriedade que a guerra merece, corroborando afinal o ditado de Clemenceau, com a respeitabilidade dos seus mais de cem anos.
Só que afinal percebe-se que não, e eu exibo aqui três exemplos idiotas demonstrativos disso: Marques Mendes, Diana Soller e Maria Vieira, que só hoje se pronunciou publicamente sobre por quem torce no conflito da Ucrânia, e a quem há que reconhecer a contenção de ter aguardado quase três meses para se pronunciar. Pensando bem, até me sinto em falta por só agora ter reparado que a generala parrachita ainda não havia tornado pública a sua opinião sobre o que pensar sobre a invasão da Ucrânia.

A INDEPENDÊNCIA DE TIMOR E ONDE É QUE HAVIA ESTADO MÁRIO SOARES ANTES DO 25 de ABRIL

Mário Soares, Portugal Amordaçado, 1972, p.457 (edição portuguesa de 1974)

20 de Maio de 2002. Há precisamente 20 anos Timor Leste tornava-se independente. 30 anos antes disso (1972), Mário Soares escrevera no seu livro Portugal Amordaçado avaliara os desejos para a auto-determinação dos seus habitantes da forma que se pode ler acima: ««...Timor, que é uma ilha indonésia com bastante pouco a ver com Portugal.» Humilhando ainda mais as considerações completamente superficiais de Mário Soares em 1972, o percurso dos timorenses depois da ocupação indonésia (1975), estavam as circunstâncias dificílimas, únicas de sofridas, que haviam conduzido a nova nação de Timor à primeira independência formal do século XXI. Entre as celebrações da independência de Timor cabe esta referência à superficialidade de Mário Soares. Excelente nos instintos, de uma mediocridade confrangedora em tudo o que envolvesse reflexão. Era o seu estilo, simples: inspirando-se no que acontecera com as possessões portuguesas na Índia em 1961, Mário Soares tirava umas pelas outras e prognosticava também ali a anexação da colónia portuguesa de Timor Oriental pelo grande vizinho... Ficara escrito, mas, para o engrandecer, faltou ouvi-lo depois - e teve 30 anos para isso! - confessar que se enganara redondamente. Há grandes figuras da nossa História que nos aparecem atranvacadas de pequenezas destas nas suas grandezas.

19 maio 2022

QUANDO O INTERESSE PELOS PROTAGONISTAS DE UMA FOTOGRAFIA SE DEIXA SUPERAR...

...pelos adereços que aparecem pendurados na parede.
Ninguém se incomodará com o pormenor de que uma das fotografadas apareça com os olhos completamente cerrados.
E não, pelo que aparece na parede, não me estarei a referir ao poster do tigre...
...e contudo, para que finalidade servirá aquele objecto curvo mais acima, com duas mãos em poses estranhas?...

(prometo afixar as respostas de todos os que quiseram comentar, excepto, naturalmente, as do Lavoura, previamente desclassificado por estupidez excessiva...)

OS MAIS FAMOSOS «PARABÉNS A VOCÊ»

19 de Maio de 1962. Quem os canta. aos «Parabéns a Você», é a actriz e sex-symbol Marylin Monroe (1926-1962) e o destinatário desses quentes votos é o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy (1917-1963) que, por sinal, só fazia verdadeiramente os anos que ali celebravam dali por dez dias. Mas que interessa isso, não é verdade?... A ocasião vale porque dali por poucos meses estavam os dois mortos e isso é um passaporte para a eternidade.

18 maio 2022

UMA VELINHA PARA ILUMINAR A OBTUSIDADE/PARCIALIDADE DE COMENTADORES PRÓ RUSSOS DAS REDES SOCIAIS

São obviamente ridículas, mas este género de manifestações não surpreenderá quem conheça o estilo de manifestações populares da Europa oriental. O que é estupidamente desonesto é vê-las publicadas pelos comentadores pró-russos das redes sociais portuguesas, em fotografias sugerindo o ridículo do tema e induzindo nos leitores a opinião de que se tratará de uma especificidade ucraniana, e contudo, sem mostrar que a prática do culto de personalidade é corrente há décadas entre os russos, como se comprova pela variedade dos gadgets com a imagem de Putin que se comercializam na Rússia (abaixo). Façam a vossa propaganda mas com menos aldrabices!
Tinteiros e facas corta-papel.
Cadernos escolares
Anéis
Bonecos representando-o como o super-homem ou o pai natal
Em estilo de agente secreto 007
Ou em estilo de Rambo
Como homem de acção e de reflexão
Mas também a embrulhar tabletes de chocolate
Como um ícone religioso, no domínio do quase divino
Mas também do fedorento, a enfeitar os pés
E até como guardião do café de casa 
E a representação mais controversa desta colecção: como tapete de sala...

ERDOGAN E A NATO

Para quem já se tenha esquecido, aqui há quatro anos e meio, a Turquia era considerado um país com um pé fora da NATO. Durante um exercício militar realizado na Noruega, o país de onde é originário o actual secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, os organizadores usaram descaradamente fotografias do próprio Erdogan representando um dos «inimigos» da NATO. Parecia ser mais uma daquelas gaffes que os sacanas dos escandinavos são useiros e vezeiros em congeminar naquelas circunstâncias. Aconteciam coisas muito parecidas a Portugal e aos seus representantes no seio da NATO antes de 1974, quando os referidos escandinavos não perdiam ocasião nem pretexto para demonstrarem a sua discordância com a política colonial portuguesa, por muito aliados que fôssemos. Aqui, o agravo terá sido maior e os turcos foram mais bruscos, retirando com espavento os 40 militares que havia destacado para o referido exercício militar. A notícia que acima se publica, de Novembro de 2017, apanha o acontecimento quando o secretário-geral da NATO e o ministro da Defesa da Noruega apresentam desculpas, mas o mal já estava feito. A evocação deste episódio serve apenas para recordar quanto a reputação da Turquia entre os países do bloco Ocidental se mantém em baixa há muito tempo, quando em 2019 decidiu comprar um sistema anti-míssil S-400 à Rússia, reputação que tem até piorado nos últimos meses: ainda em Outubro do ano passado Erdogan protagonizou uma daquelas bazófias caricatas e inconsequentes quando ameaçou expulsar os embaixadores dos Estados Unidos, França, Alemanha, Canadá, Finlândia, Países Baixos, Dinamarca, Nova Zelândia, Noruega e Suécia. Depois teve que se retractar. Creio que, a estas duas notícias abaixo, lhes faltará transmitir o estado de espírito como os restantes aliados da Turquia na NATO estarão actualmente dispostos a acolher as idiossincrasias do líder turco. Talvez também por causa do que resultou ter contemporizado com Putin, a disposição para aturar os cromos mais desalinhados da ordem mundial parece ter-se tornado subitamente muito escassa, e insista muito Erdogan nos seus propósitos de emperrar a admissão à NATO de Suécia e Finlândia nas presentes circunstâncias, será capaz de ouvir a versão turca do ditado popular português: «a porta da rua é serventia da casa».

A PIRATARIA DOS SARAUÍS E DE COMO O ANTIGAMENTE NUNCA É AQUILO QUE DELE FAZEMOS...

18 de Maio de 1922. Uma das notícias daquele dia é esta acima, em que se dá conta que a tripulação de um navio de pesca português que se encontrava a pescar nas costas sarauís (veja-se o mapa abaixo, o famoso cabo Bojador de Camões aparece expressamente assinalado) fora capturada por piratas oriundos daquele território. Na entrevista em que dá conta do sucedido, a frustração do ministro dos Negócios Estrangeiros de então é evidente, tanto mais que, supostamente, os piratas deviam estar sob uma tutela colonial - espanhola ou francesa - que, comprovadamente, é apenas teórica. Por outro lado, a política da canhoneira, que as potências europeias tanto gostavam de evocar na época, não se pode aplicar dada as circunstâncias específicas dos reféns estarem na posse dos piratas. Conclusão: há que pagar os resgates pedidos pelos piratas. O consolo moral que o Diário de Lisboa acaba por dar aos seus leitores é remetê-los para um antigamente, um antigamente que nunca existiu. A pirataria, assim como a recuperação de salvados era uma prática tradicional e disseminada por aquelas paragens onde os naufrágios eram frequentes.
Mas não apenas o antigamente nunca fora o que o Diário de Lisboa de 1922 sugeria que tinha sido. O futuramente também não o será. O mesmo Diário de Lisboa, mas em 1980, voltará a publicar uma outra história de pirataria dos sarauís e de outros pescadores portugueses raptados quando pescavam por aquelas mesmas paragens. O acontecimento era essencialmente o mesmo, mas o jornalistas e o jornal é que haviam mudado tanto, que agora os piratas haviam passado a ser bons. De uma forma dialéctica, no Diário de Lisboa passou a haver pirataria boa e pirataria . E quando a pirataria era boa, quem era mau era o «governo português» que era «obrigado a negociar com...» os piratas. Era tudo uma questão de contemporizar com a nomenclatura: os reféns passavam a denominar-se «prisioneiros de guerra»...

17 maio 2022

QUEM VÊ UM BURACO NEGRO, JÁ TERÁ VISTO TODOS...

O mundo noticioso-científico terá sido muito recentemente abalado com a revelação da primeira imagem do buraco negro existente no centro da nossa galáxia. No frenesim noticioso, terá ficado ofuscado o facto de já se tratar da terceira vez que o assunto da primeira imagem de um buraco negro saltava assim para a ribalta noticiosa. Como se constata acima, antes de 12 de Maio de 2022, já em 10 de Abril de 2019 e outra vez repetida em 23 de Setembro de 2020 se evocara o carácter histórico desse outro buraco negro que estava situado no centro da galáxia M87. O pormenor que escapará aos leitores em geral é que a galáxia M87 se situa a 53 milhões de anos-luz da Terra. Este buraco negros que agora foi descoberto - ou melhor fotografado - no centro da nossa galáxia, a Via Láctea, situa-se apenas a 26 mil anos-luz de nós. Portanto, pode ser - hipoteticamente - muito mais ameaçador, embora estas dimensões verdadeiramente galácticas perturbem completamente aquilo que possamos realmente compreender sobre o fenómeno e a ameaça de sermos engolidos pelo dito cujo. Ou, como diziam os gauleses de Astérix a propósito da catástrofe do céu lhes vir a cair em cima da cabeça: amanhã não há de ser a véspera desse dia. Concretamente é apenas isto que se me ocorre sobre o tema. Mas superficialmente e sobre aquilo em que a comunicação social tem posto o maior empenho em nos dar a conhecer, o aspecto do buraco negro, acho muito honestamente, e para os padrões de tecnologia à vista, quem já viu um buraco negro, já viu todos...

A CONDECORAÇÃO DO GENERAL SPÍNOLA E O RESTO

17 de Maio de 1972. Por portaria do ministro da Defesa Nacional, Horácio José de Sá Viana Rebelo, é condecorado com a medalha de ouro de Valor Militar com palma o general António Sebastião Ribeiro de Spínola «pelos serviços prestados no exercício das funções de governador e comandante-chefe das Forças Armadas na Guiné». Tratava-se de uma condecoração militar de elevado significado - superior, por exemplo, à cruz de Guerra - mas era impossível não compreender as fundamentações políticas que haviam estado por detrás da sua atribuição. Tanto assim, que o nome de António de Spínola nem aparece na lista dos agraciados por aquela alta condecoração militar na respectiva página da wikipedia. Dois dias depois organizava-se uma «sessão de cumprimentos das forças vivas da província» (da Guiné) onde o distinguido «proferirá» um «improviso» que, como se constata pela «reprodução» abaixo, não se afigura muito improvisado a começar pela alusão ao padre António Vieira. Implacáveis, os cinquenta anos que entretanto passaram tornaram ridículas estas cerimónias coreografadas para auditórios que nos perguntamos hoje se chegaram a existir. Como decerto nos perguntaremos, daqui por cinquenta anos, se havia alguém a quem se destinasse certo género de intervenções do primeiro-ministro António Costa quando ele se contradiz num intervalo de menos de 48 horas...  

15 maio 2022

O INCÊNDIO DO PAQUETE FRANCÊS GEORGES PHILIPPAR

16 de Maio de 1932. Quando regressava da sua viagem inaugural, que o levara até ao Japão, o paquete francês Georges Philippar incendeia-se ao largo do Iémen, que era então uma colónia e protectorado britânicos. A maioria dos passageiros e tripulação (767+253) salvaram-se transferindo-se para 3 navios que navegavam nas proximidades mas, ainda assim, e ao contrário do que é anunciado pelo Diário de Lisboa daquele dia (...«foram salvos todos os passageiros»...), morreram 54 passageiros. O navio continuou à deriva e a ser consumido pelas chamas e afundou-se três dias depois. As causas do incêndio foram atribuídas a deficiências estruturais da instalação eléctrica, que causara problemas desde o princípio da viagem. Estes episódios de incêndios no mar alto excitavam a imaginação do público, como se percebe pela recreação colocada na capa de uma das edições daquele ano da revista Science & Vie.

14 maio 2022

A LIÇÃO DO GRANDE PRÉMIO DO MÓNACO DE 1972

Domingo, 14 de Maio de 1972. A minha tarde foi passada a seguir pela televisão o Grande Prémio do Mónaco em Fórmula 1, um Mónaco onde se fartava de chover, e onde eu achava que, por isso, o meu piloto favorito, o belga Jacky Ickx, num Ferrari, tinha todas as hipóteses de vencer. Tudo isso porque Ickx possuía a reputação de ser um piloto muito difícil de bater sob chuva. Afinal, a vitória foi para o francês Jean-Pierre Beltoise, ao volante de um BRM, precisamente à frente do meu favorito Ickx. Foi a primeira e única vitória de Beltoise num Grande Prémio de Fórmula 1. Foi também um grande desapontamento para mim. Na altura não me terei apercebido da lição de vida de que as reputações se constroem, mas nem sempre são de fiar.

13 maio 2022

DAS OBRAS ESCOLHIDAS DE LENIN AOS LIVROS DE BOLSO SOBRE PUTIN

Quando se vê um digital influencer a pretender exibir a sua compreensão acrescida da personalidade controversa de Vladimir Putin fotografando-se no seu facebook a empunhar um livro de bolso de 150 páginas (acima, à direita), percebe-se como os tempos evoluíram desde a época dos tomos solenes das obras escolhidas de Lenine (esquerda), passando para uma pedagogia de imagens (centro), em que se tenta impingir a posse de conhecimento, sem ter que o ter. O pedantismo bacoco passou da exibição dos tomos clássicos para a dos opúsculos desclassificados.

COMO SE FOSSE UM VENDEDOR DE ASPIRADORES DE PORTA EM PORTA

O Principio da Incerteza de Domingo passado tinha uma surpresa: Lobo Xavier fizera-se substituir por Nuno Melo. Grande oportunidade para o novo líder do CDS aparecer e, mesmo que não ganhasse com ela simpatias, estabelecesse ao menos uma reputação. Mas não. Logo na sua primeira intervenção, Nuno Melo mostrou uma sofreguidão tal em passar os recados todos que trazia, que se apresentou como se fosse um daqueles antigos vendedores de aspiradores de porta em porta, daqueles que explicava as características técnicas do aparelho de um fôlego, sem se deixar interromper pela dona de casa, que tradicionalmente «tinha qualquer coisa ao lume». Mas o truque é conhecido de tão batido, e, para o caso, o dono de casa, ou melhor o dono do programa, José Pacheco Pereira, até tinha preparado algo em contraponto à verborreia insubstanciada, mais do previsível, do convidado. E vai daí, fez uma análise de frequência de palavras da moção que fora apresentada por Nuno Melo e compinchas no último congresso do CDS. O que, depois da cena do vendedor de aspiradores, tornou o programa ainda mais antigo. Aquelas moções não são para se ler! Desconfio que, para além de militantes e jornalistas, ninguém (até mesmo o Pacheco Pereira!) se deu ao trabalho de ler tudo aquilo que se escreveu para aquela ocasião do CDS. Já é suficientemente entorpecente apenas ouvir Isabel Galriça Neto, quanto mais ler o que ela teria para dizer sobre cuidados paliativos! E o Pacheco Pereira pode muito ter feito o que fez e com os meus efeitos dragando apenas os textos e feito contagens e pesquisas automáticas dos termos e palavras empregues («...54 referências a empresas e 7 referências a pobreza, uma das quais em África...»). Um demagogo do século XXI, estilo André Ventura, não perderia muito tempo a rebater o conteúdo de textos que todos sabemos que quase ninguém lê. Não têm importância. Mas Nuno Melo é uma coisa da década de 1990 do século passado e não propriamente perspicaz ou inteligente. Tentou enfrentar Pacheco Pereira num terreno onde não tem arcaboiço para tal. É verdade que Nuno Melo nunca iria salvar o CDS do nadir onde se encontra com uma aparição muito conseguida num programa da CNN que muito pouca gente vê. Mas escusava de se ter enterrado mais!...

12 maio 2022

A SEGUNDA BATALHA DE CARCÓVIA - O ÚLTIMO DESASTRE DO EXÉRCITO VERMELHO

12 de Maio de 1942. O exército soviético desencadeia a ofensiva que virá a constituir a Segunda Batalha de Carcóvia. No fim da Segunda Guerra Mundial, esta cidade do Leste da Ucrânia virá a ser a cidade mais disputada de todo o conflito, contando-se nada menos do que seis batalhas travadas pelo seu controle: uma em 1941, duas em 1942 e três em 1943. Esta batalha, que durará um pouco mais de duas semanas (12-28 de Maio) terminará com um desfecho catastrófico para os soviéticos. Ao contrário das grandes derrotas precedentes de 1941, em que as formações do exército vermelho se haviam deixado cercar pela superior mobilidade do exército alemão, aqui tratou-se de um caso canónico de uma ofensiva russa que correu mal em todos os aspectos, e que acabou com as frentes atacantes cercadas por um movimento em pinça dos alemães nas suas retaguardas. Os atacantes possuíam sensivelmente o dobro dos efectivos dos defensores mas terão sofrido o décuplo das baixas. O que então não se sabia, e que o historiador militar francês Jean Lopez assinala neste livro abaixo, é que aquela constituiria o último desastre daquela amplitude sofrido pelo exército vermelho. Por coincidência e precisamente 80 anos passados, o nome da cidade continua a dominar os noticiários.

O PAPA JOÃO PAULO II EM PORTUGAL

12 de Maio de 1982. O papa João Paulo II vinha a Portugal para comparecer nas cerimónias de Fátima do dia seguinte. E mesmo um jornal pró-comunista como o Diário de Lisboa tinha de dar destaque de capa a esse acontecimento, arredando para o lado os assuntos que lhe eram mais queridos dos números da adesão à Greve Geral que ocorrera no dia anterior - números obviamente fornecidos pelos grevistas - e o contínuo esmiuçar dos incidentes que tinham ocorrido no Porto no dia 1º de Maio. Pelo seu lado, o governo da AD aproveitava esta mesma visita para fazer a maior propaganda possível. Ainda no dia 12, mas à noite e por ocasião da procissão das velas no santuário, João Paulo II iria ser alvo de um atentado perpetrado por um extremista católico.

11 maio 2022

QUANDO A MÁQUINA VENCEU O HOMEM

Nova Iorque, 11 de Maio de 1997. Num torneio de desforra, um computador da IBM, concebido especificamente para o jogo de xadrez, denominado Deep Blue, vence por 3,5-2,5 o Grande Mestre Garry Kasparov, o então campeão do Mundo da modalidade. Esta vitória foi considerada um marco na história da inteligência artificial. Que marco histórico teria representado essa vitória, é que se tornou cada vez mais duvidoso para mim, depois dos 25 anos entretanto decorridos. Recorde-se que este encontro era uma desforra de um outro no ano anterior, que Kasparov vencera (4-2). Parecia ter-se estabelecido uma competição taco-a-taco entre Homem e Máquina. Mas a verdade é que não houve, depois deste, novos encontros para uma outra desforra, apesar das repetidas solicitações de Kasparov para tal, o que acabou por conferir consistência às acusações que o projecto de desenvolver o Deep Blue não passara de uma gigantesca manobra promocional da IBM, sem qualquer interesse científico por detrás, e sem grande margem de progressão no campo do desenvolvimento da inteligência artificial. Dali saíram máquinas que jogam muito bem xadrez, mas a inteligência - natural ou artificial - é muito mais do que o xadrez e pode exprimir-se de variadíssimas outras maneiras.

OS MARINHEIROS QUE SE ESQUECERAM DE LARGAR O CABO

11 de Maio de 1932. O USS Akron foi um grande dirigível posto ao serviço da US Navy em Setembro de 1931. Há 90 anos, aquela tecnologia já tinha décadas de aplicação prática, mas continuava a registar acidentes muito imprevisíveis. Vindo de uma viagem transcontinental de três dias, de Nova Jersey na costa Atlântica até São Diego, Califórnia, junto ao Pacífico, o USS Akron preparava-se para atracar, recorrendo a uma equipa de atracação improvisada, quando o dirigível foi subitamente puxado para cima por uma rajada de vento ascensional. Como se vê nas imagens, a esmagadora maioria dos homens da equipa não conseguiu aguentar a força que arrastava o veiculo e largou instintivamente os cabos, excepto quatro marinheiros. Um deles soltou-se ainda a cinco metros do solo e partiu um braço. Mas o mais dramático foi acompanhar o que aconteceu aos restantes três: dois acabaram por não aguentar, soltaram-se e caíram para a morte 150 metros mais abaixo. O terceiro conseguiu manter-se agarrado ao cabo por uma hora até ser recolhido pela tripulação do USS Akron. Podemos perceber a satisfação deste último mas perguntamo-nos se não terá sido uma decisão de mau gosto ser ele a rematar as imagens de toda a tragédia...

10 maio 2022

(...MAIS UM) JOGO DO SÉCULO

10 de Maio de 1947. No Hampden Park de Glasgow (Escócia), e perante uma assistência de 137.000(!) pessoas, uma selecção de futebol do Reino Unido vence por 6-1 uma selecção do resto da Europa. Apesar de se tratar de um jogo particular para assinalar o retorno dos britânicos ao seio da FIFA depois de 25 anos de afastamento, o desnível do resultado torna-se uma excelente ocasião para aqueles celebrarem uma pretensa supremacia na modalidade (as selecções britânicas não haviam competido nos campeonatos mundiais de futebol até então - 1930, 1934 e 1938). Em Portugal, a imprensa mostrava a ressonância da exuberância britânica (acima), mas em versão ignorante: a selecção vencedora não fora a de Inglaterra, mas a do Reino Unido (United Kingdom), um combinado de cinco ingleses, três escoceses, dois galeses e ainda um jogador da Irlanda do Norte. Do outro lado, a equipa dita europeia, era formada por dois suecos(?!), dois dinamarqueses(?!), um francês, um suíço, um italiano, um irlandês, um checo, um belga e um holandês. Há precisamente 75 anos, os britânicos mostravam sentir-se impantes (pelo menos, no futebol): o futuro se encarregaria de os desenganar.

09 maio 2022

O SEQUESTRO DO GENERAL DODD

9 de Maio de 1952. O interesse mediático e público pelos acontecimentos da Guerra da Coreia tinham vindo a esmorecer desde o Verão de 1951. Começara um período de conversações entre beligerantes que se arrastava desde essa altura, cheio de incidentes menores e que não progrediam. De quando em vez um episódio colateral tornava a chamar a atenção para o conflito suspenso. Como aconteceu há 70 anos. Os dois lados tinham feito milhares de prisioneiros. O principal dos campos de prisioneiros que haviam sido estabelecido pelos Estados Unidos localizava-se na ilha de Geoje, uma ilha de 402 km² (cerca de metade da área da ilha da Madeira), que se situa no sul da península coreana. Em 1952, o complexo albergava o impressionante número de 170.000 prisioneiros de guerra(!), dos quais cerca de 85% eram coreanos e 15% chineses. Para além das duas nacionalidades, a composição da população prisional coreana era heterogénea, uma vez que juntava pessoal que fora capturado combatendo de armas na mão, com civis que haviam sido aprisionados por suspeitas de colaboração com o inimigo. No princípio de 1952, os americanos haviam decidido iniciar uma grande operação de escrutínio dos prisioneiros, interrogando-os, incluindo quais seriam as suas intenções no final da guerra: - regressar ao Norte ou à China ou ficar no Sul ou ir para Taiwan? Dada a parcialidade dos interrogadores, o número de respostas favoráveis à permanência posterior no dito mundo livre cifrava-se nuns expectáveis 60%, o que constituía um embaraço de propaganda para a causa comunista, que se dispôs a contra-atacar. O contra-ataque consistiu em interditar os questionários nos blocos que eram firmemente controlados pela sua hierarquia. Já tinha havido confrontos sangrentos, 55 prisioneiros mortos em Fevereiro, outros 12 em Março, e os comunistas mostravam estar dispostos a pagar em sangue a sua intenção de não deixar os americanos escrutinar a sua população prisional. Por seu lado, os sul coreanos não consideravam a questão de matar prisioneiro insurrectos a sangue frio como um problema que os incomodasse. Fora para apaziguar esse enorme clima de tensão que o brigadeiro-general Francis Dodd, conhecido por ser uma pomba, acabou sendo nomeado para o comando do enorme campo de prisioneiros.
Era uma boa intenção e uma excelente escolha, mas numa ocasião péssima, porque o outro lado não estava com qualquer interesse em transigir e as boas vontades de Dodd iriam ser gastas sem contrapartida. A análise dos acontecimentos veio a demonstrar que os prisioneiros comunistas haviam preparado de antemão a operação em que o comandante do campo foi capturado por eles. Minutos depois de o fazerem já havia grandes cartazes pintados à mão (antecipadamente) a anunciar o feito, para que a notícia corresse depressa por todo o campo. Típico do que podiam ser as incongruências da censura à imprensa em Portugal, a notícia do rapto do general Dodd não pôde ser publicada. O facto só foi relatado no dia seguinte, acompanhado da explicação de que já havia um plano para o libertar. Só aí é que o leitor português ficava a saber que tinha havido um rapto de um general americano na Coreia... Os sequestradores-prisioneiros esforçaram-se por tratar o melhor possível o seu refém. Afinal, a sua operação era sobretudo uma batalha da guerra de propaganda, fazendo-se eco de que estavam a ser mal tratados. Mas essa era apenas a parte da verdade que interessava aos comunistas promover. Subjacente ao incidente estava a disputa sobre quem controlava efectivamente os campos de prisioneiros... Os americanos, os prisioneiros comunistas, os prisioneiros não comunistas?... Quanto ao problema imediato, o brigadeiro-general Dodd veio a ser libertado dois dias depois, após negociações e um show de força americano, composto por carros de combate, infantaria equipada de lança chamas, etc. O general Mark Clark (foto abaixo), que entretanto (12 de Maio) assumira as funções de comando supremo na Coreia foi severíssimo nas sanções: Dodd foi, não só demitido do comando, como despromovido a coronel. Tradicionalmente, comandar campos de prisioneiros durante períodos de guerra nunca deu grande reputação a quem exerceu esses comandos, mas é significativo da reputação a que descera o campo de prisioneiros de Geoje, o facto do sucessor de Dodd, o brigadeiro general Haydon Boatner, ter substituído todos os oficiais do Estado Maior logo nos primeiros dias em que assumiu o cargo. E, como é evidente, os americanos detestam falar deste assunto.

FALTAVA-LHE ENCONTRAR A PALAVRA... MAS ELOGIO É QUE NÃO ERA

Esta pequena cena de Lucky Luke lembra-me as relações modernas que se estabelecem entre alguns protagonistas mediáticos e as opiniões de um certo género de público que as costuma expressar nas redes sociais. Tem vezes em que aos segundos, como acontece acima ao intérprete índio, lhes falta uma palavra específica, mas alguém arguto e rotinado (como Lucky Luke) sabe de antemão que elogio é que não é...