17 junho 2019

A PERSEGUIÇÃO A O.J. SIMPSON

17 de Junho de 1994. Como principal suspeito pelo assassinato da ex-mulher, uma antiga estrela de futebol americano, O.J. Simpson (até aí relativamente desconhecido na Europa), é perseguido pela polícia ao volante do seu jeep pelas auto-estradas de Los Angeles, enquanto os helicópteros das várias estações de TV faziam a cobertura em directo da perseguição. Foram mais de duas horas e quase 100 quilómetros de um nada informativo, mas que, ainda assim, terá alcançado uma audiência de 95 milhões de telespectadores. Satisfeita a curiosidade mórbida do auditório norte-americano, com a rendição do foragido O.J. Simpson (para onde haveria ele de ir, com 95 milhões de compatriotas a segui-lo?...), o episódio só teve ressonância nos Estados Unidos, e a repercussão fora dele foi quase nula. O fim da Guerra Fria determinara que desaparecesse uma preocupação anterior, de décadas, de mostrar uma sintonia de interesses entre americanos e o resto do Mundo por certos temas mediáticos, como seriam os casos de acontecimentos desportivos como os Jogos Olímpicos ou então a chegada do primeiro homem à Lua. Ao contrário do que acontecera com a comoção como fora acompanhado o assassinato de John F. Kennedy, ele havia coisas dos americanos que interessavam apenas aos americanos e não ao resto do Mundo, e o contrário também era verdade. Por exemplo, naquele mesmo dia 17 de Junho de 1994 começava em Chicago o Campeonato Mundial de Futebol (com a presença do próprio Bill Clinton), mas os americanos, nem por curiosidade, atribuíram ao evento uma importância comparável à que haviam dedicado a esta perseguição a Simpson. A maior audiência doméstica que o torneio veio a gerar foram 11 milhões de telespectadores para um jogo entre o Brasil e os Estados Unidos a 4 de Julho (e porque era feriado).

16 junho 2019

OS ALIADOS ENDEREÇAM UM ULTIMATO À ALEMANHA

Versailles, 1919. Acima vemos Clemenceau, com a cartola levantada, Wilson, preparando-se para a levantar, e Lloyd George, que, de sorriso malandro e agarrado à bengala, parece não fazer tenção de saudar os presentes como os seus homólogos. Apesar da cortesia sugerida pela imagem, a 16 de Junho de 1919, há precisamente cem anos, os Aliados endereçaram um ultimato à Alemanha: em Berlim tinham cinco dias para se decidirem a aceitar incondicionalmente os termos do Tratado que viera a ser negociado até aí. Negociado sobretudo entre os vencedores, entenda-se. Se Berlim não o fizesse, os Aliados ameaçavam revogar as condições de armistício que se mantinham desde 11 de Novembro de 1918, o que constituía uma forma eufemística e rebuscada de invocar o reinício das operações militares e da ocupação da Alemanha, num momento em que a Alemanha se desmoronara militarmente por dentro. Mas mesmo desmoronada, as reacções populares na Alemanha sobre o assunto eram as que se podem deduzir pela fotografia abaixo, de uma manifestação de protesto diante do Reichstag (de uma certa forma irónica, muito idênticas às que os gregos faziam aqui há uns poucos de anos na praça Sintagma de Atenas). Mas, acompanhado da ameaça expressa que a situação só podia piorar, a aceitação do Tratado lá acabou por passar com uma votação de 237 votos favoráveis versus 138. O Tratado foi assinado dia 28 de Junho, mas o que nos interessa aqui são os bastidores da História.
ADENDA: Nem de propósito e a coincidir com o centenário do ultimato, numa daquelas coincidências que torna a opinião expressa ainda mais ridícula, temos um dos mais desastrados opinadores das colunas de opinião da imprensa portuguesa ((1),(2),(3)), a desprezar os ensinamentos do passado, para reencenar a actualidade, agora com Londres no lugar que há cem anos era de Berlim. A estes opinadores a História não ensina nada, mas creio que eles também não andam nisto para aprender, muito menos ensinar, resume-se a uma questão, como escrevia ontem João Miguel Tavares, de nos fornecer «chaves de interpretação»... embora desconfie que as «portas» onde essas «fechaduras» estão aplicadas, guardam salas onde o conhecimento não é a preocupação principal.  

UMA DAS MAIS FAMOSAS «MUGSHOTS» DA HISTÓRIA POLICIAL DOS ESTADOS UNIDOS

O incidente ocorreu em Março de 2011 numa pequena cidade do Connecticut, o protagonista acima, que se chama David Davis, tinha então 21 anos, e o acidente que o conduziu até à celebridade foi uma altercação em que se envolveu no barbeiro, enquanto cortava o cabelo, na sequência da qual foi detido, sob a acusação de ter esfaqueado o seu adversário com uma tesoura. Mas foi a fotografia que lhe tiraram aquando da detenção, a famosa «mugshot», que elevou Davis ao estrelado, num país em que a mugshot é assumida como um aborrecido assunto administrativo, nada propício a criatividades artísticas, mas que envolve, surpreendentemente, cerca de 30% da população americana. Entre os 70 milhões de cidadãos americanos fotografados naquelas mesmas circunstâncias ingratas, dificilmente se encontrará outro em que a expressão «foi apanhado a meio» (de qualquer coisa...), terá uma expressão visual com mais impacto.

15 junho 2019

MAIS DO QUE DE POETAS E TAXISTAS, SOMOS UM PAÍS DE «JORNALISTAS»

«...eu, ao contrário do Daniel Oliveira, não faço política. Eu escrevo sobre política. Eu falo sobre política. Eu critico políticos. Mas eu não faço política. Certamente que não escondo o meu posicionamento ideológico, e com certeza que dou palpites sobre o que devem ser as prioridades do país. Mas nunca fiz, não faço e não creio que venha a fazer “política”. O que eu faço, com muito orgulho, é jornalismo. Não no sentido estrito do termo, de dar notícias e saber o que diz A e o que diz B, mas no sentido geral, de contribuir de forma independente para uma compreensão do país, oferecendo chaves de interpretação úteis a quem me lê e a quem me ouve.»


A aceitar esta «chave de interpretação» que nos «oferece» João Miguel Tavares então tenho que admitir que José Manuel Fernandes até é mesmo um jornalista, que o Observador é mesmo um jornal, que até o Avante! o pode ser, se se levar a sério aquela perspectiva da oferta das «chaves de interpretação» aos leitores e ouvintes. Mas mais do que isso, e extrapolando para lá do ramo, é muito frequente, cada vez que apanhamos um táxi (ou um uber), depararmo-nos com um jornalista ao volante, disposto a fornecer-me as tais «chaves de interpretação» para «uma compreensão do país» enquanto dura a viagem. Desse, do do João Miguel Tavares ou do do Daniel Oliveira, há jornalismo por todo o lado; pena que o outro, o «do sentido estrito do termo», que se encontra nos jornais propriamente ditos, seja frequentemente uma merda.

O PRESIDENTE POMPIDOU

15 de Junho de 1969. Vitória de Georges Pompidou na 2ª volta das eleições presidenciais francesas. Era uma vitória esperada (como se vê abaixo num jornal publicado dois dias antes das eleições, os resultados das sondagens davam a Pompidou uma vantagem demasiado significativa para chegar a pôr em dúvida o desfecho), mas era sobretudo uma vitória clarificadora quanto ao rumo que viria a ser assumido pela França da V República, após a saída de cena do seu fundador, o general de Gaulle. Com a eleição daquele que era considerado o seu delfim, o gaullismo, mesmo sem de Gaulle, perpetuava-se, pelo menos por mais uns anos. Depois de ontem ter falado de Mbeki na África do Sul, este foi mais um caso de uma transição política sensível, após a saída do fundador do regime.

14 junho 2019

NÃO SE VAI DAR PELA FALTA DA VOZ DA PORTA-VOZ...

...porque há mais de três meses que ela não convoca qualquer conferência de imprensa. Não preocupará os observadores o facto de não haver ainda substituto escolhido: é um cargo que não faz falta nenhuma. Significativamente, o anúncio da saída da porta-voz não foi feito de viva voz, mas por tweet (abaixo). E também significativamente, o anúncio consagra-se com mais uma mentira: Trump ocupa a Casa Branca há menos de dois anos e meio e, além disso, Sarah Sanders já não foi a porta-voz original da administração Trump, mas Sean Spicer, que só lá se aguentou por seis meses. Note-se este paradoxo, de que a legitimidade dos tweets atribuídos a Donald Trump acabam por receber um acréscimo de legitimidade se lá contiverem uma mentira grosseira!

A TOMADA DE POSSE DE THABO MBEKI

14 de Junho de 1999. Com a tomada de posse como presidente de Thabo Mbeki terminava aquilo que se poderia denominar por fase experimental da transição na África do Sul. Aos oitenta anos, Nelson Mandela, que fora o garante dessa transição, afastava-se para dar lugar a uma nova geração - Mbeki era 24 anos mais novo. As duas principais comunidades sul-africanas dão mostram de boa vontade e procuram acomodar-se uma à outra mas a falta de à vontade é patente no vídeo acima (por volta do 01:00), quando Mbeki mostra não saber muito bem como se comportar diante da chefe da guarda de honra, que, ainda por cima, depois tem que se fazer discreta e pequenina para que madame Mbeki também caiba nas fotografias. Mas, embora caricatural, este ainda era o lado benigno do ANC. A degradação estava guardada para daí a dez anos, com a chegada ao poder de Jacob Zuma.

13 junho 2019

EIS O QUE QUEREMOS QUE VOCÊ PENSE

Tem precisamente seis anos e considero-o um dos momentos memoráveis de televisão falada em português. O apresentador fez tudo o que pôde para explicar aos espectadores o que é que deviam votar antes de lançar a pesquisa. Mas os espectadores não colaboraram. Depois o apresentador tentou mudar as regras a meio do jogo. Também não funcionou. A parcialidade era tanta que eu estou convencido que terá excitado as pessoas a votar contra os desejos do apresentador: eu, se estivesse a assistir ao programa teria ido votar pela baderna, e quanta mais baderna melhor, porque o que passara a estar em causa já não eram as imagens, mas as palavras do apresentador recriminando quem não se dispunha a votar conforme ele mandara, sugerindo. Quem é que estes palhaços de ecrã pensam que são?

OS VITALÍCIOS E OS TRUQUES DO COSTUME

A história decorreu toda à nossa frente. O mês passado, Mário Nogueira terá considerado que o seu partido lhe puxou o tapete debaixo dos pés. Agora, ainda a três anos da recondução, dá uma espécie de entrevista em que se arma em caro, um expediente recorrentemente usado pelos vitalícios em Portugal, aprecie-se para comparação a relutância de Pinto da Costa em 2003 (há dezasseis anos!) em permanecer como presidente do FC Porto, ele que lá continua, e cujas apostas, fortes, é que vai morrer a ocupar o cargo... Pelos vistos, o jornalista da Lusa que entrevistou Mário Nogueira acredita que com ele (Nogueira) vai ser certamente diferente, ao fim de trinta e tal anos o homem está mesmo com vontade de ensinar e que não vai aparecer uma vaga de fundo, patrocinada sabe-se lá por quem, pedindo-lhe que continue como sindicalista. Eu suponho que jornalismo, não se precipitando em processos de intenção, é também não publicar histórias tão imbecis quanto esta. A dinâmica da nossa sociedade tem uma outra argúcia: convém que o jornalismo a acompanhe.

AS ELEIÇÕES EM TRIESTE (MAS SÓ NA ZONA A)

13 de Junho de 1949. Realizam-se eleições municipais no território livre de Trieste, região encravada entre a Itália e a Jugoslávia, mas na zona que era administrada pelos Aliados (Zona A). Trieste, cuja história do Século XX já aqui foi contada neste blogue. Na notícia do jornal, a vitória dos partidos italianos é apresentada como se eles se tivessem apresentado conjuntamente, o que não é verdade: os 63% que se mencionam resultam da adição da votação da Democracia Cristã (39%), Socialistas (6%), Neo-Fascistas (6%), Republicanos (5%), Liberais (5%), etc. De qualquer maneira, a maioria que exprimira a sua opção por uma futura reunião com a Itália era significativa, ainda que a eleição em si fosse meramente simbólica: a maioria das decisões administrativas pertenciam ao governo militar. Mas para os países ocidentais, a organização de eleições era um imperativo, na esperança que isso forçasse o padrão do comportamento dos ocupantes soviéticos, que nos países do Leste da Europa se actuasse da mesma forma. Mas não: é verdade que havia eleições, mas não livres. Quanto ao caso particular de Trieste, a situação veio a ficar resolvida em 1954 com a anexação da Zona A pela Itália e da Zona B pela Jugoslávia. Actualmente, os territórios que haviam pertencido a esta última Zona estão divididos entre a Eslovénia e a Croácia.

12 junho 2019

PAPELINHOS AO VENTO EM MÃOS DE POLÍTICOS DESACREDITADOS

É nestas ocasiões que se percebe a dimensão da ignorância de Donald Trump quando acompanhada da sua presunção de que a política só terá começado com a sua chegada à Casa Branca. Não fosse assim e ele teria evitado brandir um papelinho ao vento com um tratado qualquer com o México que daqui por duas semanas já ninguém recordará. É que ele há o precedente histórico igualzinho de um outro político desacreditado a tentar correr atrás dos acontecimentos, brandindo o seu papel (abaixo), pedindo-nos que acreditássemos que aquilo era a paz para o tempo deles. Não foi. Registo porém o quanto a natureza foi generosa para com Trump, ao contrário do que aconteceu com Chamberlain: o vento absteve-se de soprar quando o exibiu, dobrando o papel a que ambos os protagonistas atribuem tanto valor, o que acentua subliminarmente a imagem de fragilidade do troféu exibido.

REFLEXÕES DIANTE DE UMA PORTA POLITICAMENTE FAMOSA

Tantas serão as indefinições que se colocam ao futuro próximo do Reino Unido (isto é, se o Reino Unido chegar a ter um futuro nessas condições: unido)...
...que os desenhos daqueles que serão os próximos potenciais ocupantes da residência oficial do cargo de primeiro ministro, nos transmitem muito menos seriedade e confiança...
...que fotografias que sabemos simuladas de protagonistas do mesmo cargo, feitas outrora em jeito de brincadeira naquele mesmo nº10 de Downing Street.
É que, sinceramente e pela forma como os segundos se conduziram até agora, eu não garanto que Jim Hacker faria pior figura que Boris Johnson ou Jeremy Corbyn.

11 junho 2019

UM «CHEIRINHO» DA VELHA GUERRA FRIA

11 de Junho de 1999. Nesse dia terminava a Guerra do Kosovo. Com a entrada em vigor do cessar fogo, fora previsto que uma força conjunta de manutenção de paz, composta por unidades militares de países da NATO e também russas, se instalassem na antiga região autónoma jugoslava. Os russos haviam querido um sector independente, mas os Estados Unidos, assim como os restantes países europeus da NATO, haviam rejeitado a ideia, com receio que isso predispusesse os russos a dividirem o Kosovo em duas regiões, uma menor de maioria sérvia a norte e a restante, de maioria albanesa, uma espécie de mini Alemanha Oriental balcânica, que esses bons velhos hábitos nunca saem de moda. Mesmo que não fosse essa a ideia dos russos, a sua posição negocial parecer-lhes-ia demasiado frágil na conjuntura da substituição das forças combatentes (sérvios e albaneses), e os russos decidiram-se a um golpe sujo: pela calada da noite de 11 de Junho, pegaram num destacamento seu estacionado na Bósnia vizinha, e mandaram-no percorrer os 600 km que os separavam da capital do Kosovo para ocuparem o aeroporto local, tudo isso sem passar cartão a ninguém da NATO. Apesar de comandado por um general, o destacamento russo era pequeno: cerca de 200 homens e umas 30 viaturas, sem grande potencial de combate. Mas isso seria irrelevante. Aquela era uma guerra para ser travada à frente das câmaras de televisão (acima). Quando as unidades da NATO encarregues dessa mesma missão chegaram, o aeroporto estava ocupado pelos russos, a CNN também já lá estava, ninguém se dispôs a facilitar a vida aos outros, e começava a crise. Era uma coisa nova, depois de dez anos (1989-1999) em que os russos haviam sido nossos amigos. Recorde-se que a Rússia de então era ainda dirigida por um sujeito pachola, permanentemente embriagado que dava pelo nome de Boris Yeltsin (Vladimir Putin só apareceu um ano depois). Mas a gestão de todo o incidente serviu também para exibir outras fracturas, não só as entre o Ocidente e o Leste, como também as entre a América e a Europa, dentro do Ocidente e da NATO. À atitude mais bélica do comando supremo americano da operação, contrapôs-se uma aproximação bem mais pragmática do comando militar britânico que estava no terreno. Apesar daquilo que parecia estar a acontecer na CNN, os 200 russos estavam isolados e impedidos pela aviação da NATO de serem reforçados e de se reabastecerem sequer. O único perigo da situação era ela detonar acidentalmente. Para a NATO, o tempo encarregar-se-ia de solucionar a questão. Foi o que aconteceu: os russos acabaram por ter que ser abastecidos de água e comida pela logística das unidades da NATO que eles não queriam deixar entrar no aeroporto. O impasse durou duas semanas, a Rússia acabou por salvar a sua face politicamente, e o susto passou.

QUANDO SE REFLECTE SOBRE O ASSUNTO, RECONHECE-SE QUE O «FACEBOOK» É MESMO UM CU...

10 junho 2019

É UM HOMEM COM UMA OPINIÃO TÃO «CONSIDERADA», QUE ELE ATÉ LEVITA QUANDO A EMITE

Segunda Feira. Folheia-se um jornal digital, e lá vem o palerma outra vez. Já aqui disse que nunca me esquecia de não ver o programa dominical de Marques Mendes. Também lhe dei o cognome de Marques Mendes, o Impingido. Optei por ser mais concreto e objectivo quanto às críticas que lhe fazia, desmontando-lhe as tretas, que o próprio tempo se encarregava de mostrar o que eram; défices antecipados de 3,7 ou 3,8% acabavam meses depois em 4,5% majorados para 7,2%(!); outras tretas foram tão mais flagrantes que a própria comunicação social tradicional se encarregou delas, como foi o caso do gestor da CGD que numa semana ficaria garantidamente na instituição, para, na semana seguinte, Marques Mendes dar uma pirueta de 180º, desdizendo-se do que havia garantido na semana anterior: o homem já não ia. Também o vimos a tentar limpar os sapatos do cocó de cão que lhe ficara agarrado em casos de corrupção que o rondaram. Pois bem, os anos vão passando e Marques Mendes continua a aproar sobre este mar gelado de erros, enganos e dissimulações com a impunidade e determinação indiferente de um quebra-gelos no pino do Inverno. Nada, no panorama da opinião publicada, parece capaz de perturbar o seu prestígio como comentador. O fenómeno - o da ressonância de tanto erro - é tanto mais surpreendente quando, de há uns anos para cá e à mesma hora e num canal da concorrência, Paulo Portas protagoniza um programa semelhante mas a este cortam-lhe o pio. Paulo Portas, reputado de saber manipular a comunicação social como mais ninguém o sabia fazer, e as suas opiniões, que afinal são tão boas quanto as de Marques Mendes, não tem hipótese alguma de serem retransmitidas no dia seguinte. O que é estranho - embora não tenha também qualquer desejo de ouvir o que Portas tem a dizer - e que me deixa a interrogação é da identidade dos misteriosos poderes omnipotentes que, nestes anos todos, têm controlado as opiniões a que se deve dar ressonância em Portugal. Uma coisa é para mim, certa: não sendo homem de fé, não acredito na capacidade da levitação...

O 75º ANIVERSÁRIO DO MASSACRE DE ORADOUR-SUR-GLANE

10 de Junho de 1944. Ocorre o massacre de Oradour-sur-Glane. Creio que não há nada a acrescentar ao texto que aqui publiquei depois de lá ter passado, no Verão de 2008.
Oradour-sur-Glane (há três povoações na região do Limousin que têm o mesmo nome de Oradour, distinguindo-se pelo curso de água que lhes passa próximo) é uma aldeia francesa situada a cerca de 25 km a Noroeste da cidade de Limoges. O destino dos seus habitantes durante a Segunda Guerra Mundial é um episódio cada vez mais esquecido, mas que permanece, ainda hoje, como um testemunho eloquente das consequências não só dessa Guerra, como de todas as guerras. Vale a pena contar aqui a sua História...

No seguimento do desembarque aliado na Normandia (6 de Junho de 1944) e do apelo dos Aliados à Resistência francesa para que esta dificultasse a progressão das unidades alemãs, um desses grupos clandestinos de guerrilheiros (conhecidos quando operavam em zonas rurais como maquis), organizou um golpe de mão em 9 de Junho em que se apoderou do Sturmbannführer SS (Major) Kämpfe e correu a notícia – que chegou naturalmente aos alemães – que os captores o pretendiam executar numa cerimónia pública.
A notícia, incluindo o local da suposta execução (Oradour-sur-Vayres, que fica a 28 km a Sul-Sueste de Oradour-sur-Glane) era falsa porque, como se veio depois a descobrir, Kämpfe fora executado pelos resistentes imediatamente depois da captura. Contudo, o oficial que ficou encarregue de investigar o caso, o Sturmbannführer SS Adolf Diekmann, pertencente à mesma unidade de elite de Kämpfe (a 2ª Divisão Blindada SS Das Reich - acima), acabou por confundir as duas localidades e conduziu o seu batalhão até Oradour-sur-Glane.

Estava-se a 10 de Junho de 1944, era um Sábado, fazia Sol, servia-se o almoço nos dois hoteis do centro da aldeia, o Hotel Abril e o Hotel Milord. Alguns citadinos, vindos de Limoges, andavam às compras daquelas provisões que tanto escasseavam naqueles tempos de racionamento. Mas, deixo o resto da descrição do que se passou a seguir para o trecho de introdução dos documentários da série O Mundo em Guerra (com a locução de Laurence Olivier):
Vindos desta estrada, num dia soalheiro de 1944… os soldados chegaram. Agora, ninguém cá vive. Ficaram apenas por umas horas. Quando partiram, a comunidade que aqui vivera por mil anos… morrera. Isto é Oradour-sur-Glane, em França. No dia em que os soldados chegaram, os habitantes foram reunidos. Os homens foram levados para garagens e celeiros, as mulheres e crianças foram levadas por esta estrada… e conduzidas… para esta igreja. Aqui ouviram os tiros enquanto os seus homens eram mortos. Então… também elas foram mortas. Algumas semanas depois, muitos dos que haviam matado tinha sido mortos por sua vez em combate. Nunca se reconstruiu Oradour. As suas ruínas são um memorial. O seu martírio representa os milhares e milhares de outros martírios na Polónia,… Rússia,… Birmânia,… China,… num Mundo em Guerra...*

O massacre fez 642 vítimas, com idades compreendidas entre os dezoito dias e os oitenta e cinco anos. Sobreviventes houve sete: uma mulher, cinco homens e uma criança. Valha a verdade que o episódio foi severamente condenado entre os alemães: o superior hierárquico de Diekmann, o Standartenführer (Coronel) Stadler mandou abrir contra ele um processo judicial. Mas a morte de Diekmann 19 dias depois do massacre, a derrota das tropas alemãs na Normandia e o veto de Hitler conduziram os resultados desse processo a nada. Só oito anos e meio depois do massacre (em Janeiro de 1953) é que o caso veio a ser julgado em tribunal, em Bordéus. Dos cerca de 150 a 200 participantes apenas 21 estavam no banco dos réus (abaixo). Além da ausência daqueles que haviam entretanto morrido (especialmente durante a Guerra), tanto a Alemanha Federal como a Alemanha Democrática haviam-se recusado a extraditar os seus nacionais envolvidos nos acontecimentos. E de uma forma que se revelava completamente paradoxal, dos 21 réus, havia 14 que eram franceses!

Tratava-se de franceses originários da Alsácia, a região que havido sido francesa desde os tempos de Luís XIV até 1871, que se tornara alemã entre 1871 e 1918, voltara a ser francesa de 1918 a 1940 e que novamente fora anexada pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Os seus naturais (que habitualmente até falam um dialecto germânico) tinham-se tornado dessa forma cidadãos do Reich e foi assim que muitos se viram incorporados nas unidades militares alemãs – os chamados malgré nous**. O julgamento assumiu assim um carácter político de confronto entre duas regiões de França, com o Conselho de Guerra a pronunciar em Março de 1953 duas condenações à morte (uma de um alsaciano) e ainda doze penas de trabalhos forçados, seguidas de um enorme clamor de protesto na Alsácia, seguidas de discretos despachos administrativos comutando as penas, seguidos de outro enorme clamor de protesto no Limousin... Até aos últimos actos, o massacre de Oradour-sur-Glane nunca se libertou das suas contradições.
Ao contrário de Auschwitz, com cuja escala nem se compara, Oradour-sur-Glane é um memorial que pode transcender a evocação da Segunda Guerra Mundial. É que massacres como aquele podem ter tido lugar em muitos outros locais – quem se recordará hoje do que aconteceu em Kragujevac (Sérvia), Marzabotto (Itália) ou Kortelisy (Ucrânia)? – e em quase todas as Guerras: não poderão os próprios soldados franceses ter procedido posteriormente de uma forma idêntica em alguns locais da Indochina ou da Argélia? Em Oradour-sur-Glane, conhecendo-se a sua História, trata-se da guerra em todo o seu absurdo. Começando por questionar se aquela operação de rapto de um mero oficial superior, quando foi desencadeada pelos maquis, valeria militarmente o risco das previsíveis retaliações alemãs?... Continuando pela troca dos nomes das povoações feita por Diekmann que acabou por massacrar a aldeia errada… E terminando tudo com um processo de apuramento de responsabilidades que teve que ser suavizado por razões superiores de Estado…

* Down this road, on a summer day in 1944. . . The soldiers came. Nobody lives here now. They stayed only a few hours. When they had gone, the community which had lived for a thousand years. . . was dead. This is Oradour-sur-Glane, in France. The day the soldiers came, the people were gathered together. The men were taken to garages and barns, the women and children were led down this road . . . and they were driven. . . into this church. Here, they heard the firing as their men were shot. Then. . . they were killed too. A few weeks later, many of those who had done the killing were themselves dead, in battle. They never rebuilt Oradour. Its ruins are a memorial. Its martyrdom stands for thousands upon thousands of other martyrdoms in Poland, in Russia, in Burma, in China, in a World at War... ** A tradução da expressão, não literal, será apesar da nossa vontade. Note-se contudo que no total dos 642 mortos em Oradour-sur-Glane, se contam 9 pertencentes a 3 famílias alsacianas que ali se tinham refugiado por causa da guerra.

09 junho 2019

A ALEMANHA SERÁ NEUTRALIZADA OU INCLUÍDA NO PACTO DO ATLÂNTICO?

A edição de há setenta anos do Diário de Lisboa continha um importante artigo de Maurice Duverger (então jovem estrela em ascensão com 32 anos) que colocava a questão em título: qual o papel da Alemanha no futuro da Europa? Tinha uma chamada de primeira página. Não asseguro que o leitor comum do jornal da época se apercebesse da importância do tema, mas vale a pena ter a oportunidade de o reler com a presciência de conhecermos o futuro e sabermos as consequências das opções então tomadas.
«
Todas as questões de pormenor que podem surgir na Conferência de Paris estão subordinadas á solução de um problema fundamental: a posição futura da Alemanha e o seu papel na rivalidade latente entre a Rússia e o Ocidente. A situação em Berlim, a fiscalização aliada, o regime de ocupação, a orientação da economia, tudo isso só será duradouramente resolvido se precisamente se esclarecer o fundo do debate em curso há quatro anos. E o debate consiste em saber se a Alemanha vai entrar na esfera de influência soviética, ingressar no Pacto do Atlântico ou ser neutralizada.
A escolha entre estas três soluções pode ser adiada. Mas impor-se-á mais cedo ou mais tarde. Todo o jogo diplomático a que assistimos não tem outro objectivo.


O Reich na esfera de influência russa
Se a Alemanha se comunizar, a segunda guerra mundial terminará por uma derrota esmagadora das democracias ocidentais. Para estas a situação será pior do que em Setembro de 1939. Hitler era menos perigoso do que Estaline, precisamente porque na retaguarda do primeiro estava o segundo e na retaguarda do segundo não está ninguém. Até Hong-Kong, até Singapura, não há contrapeso para o poder da URSS.
Nessa hipótese, a terceira guerra mundial será inevitável. Trata-se apenas de aguardar a data da sua eclosão.
Esta solução está, naturalmente, afastada, não em nome de um anti-comunismo obtuso e sistemático, mas por uma preocupação compreensível de salvaguardar a paz. Evitar que a Alemanha ingresse na esfera de influência soviética é um imperativo da diplomacia ocidental.
Praticamente, restam portanto, duas soluções possíveis: a neutralização ou a “atlantização” dos vencidos.
Por muito dolorosa que a segunda pareça aos olhos dos povos da Europa, sobretudo daqueles que ainda recentemente suportaram os horrores da ocupação, é inútil dissimular a sua importância, pois, ninguém certamente terá dúvidas de que vão para ela as boas graças da poderosa América.


Os perigos da “atlantização”
Não falta quem, com certo fundamento, evoque sempre que se põe o problema da “atlantização” da Alemanha, o risco de um renascimento do militarismo e do expansionismo germânicos. A assinatura do Reich ao Pacto do Atlântico implica automaticamente o seu rearmamento.
“A Alemanha no Pacto do Atlântico? Nunca!” Tal era a expressão empregada ainda não há muitos dias por uma personalidade respeitável da política francesa.
Mas, se há quem pense assim, vamos nós, que já fizemos a guerra de 1939 com a estratégia de 1914, fazer a paz de 1949 com a diplomacia de 1919?
A entrada da Alemanha na comunidade atlântica podia ser o epílogo da rivalidade franco-alemã. A ideia de guerra e de invasão entre a França e a Alemanha tornar-se-ia anacrónica. Franceses e alemães tornar-se-iam aliados amanhã, como hoje já o são franceses e ingleses.
Para os franceses esta transformação não seria mais profunda do que aquela que se registou em 1815, no Congresso de Viena. Há apenas a objectar que uma tal aliança teria que ser cuidadosamente vigiada. A Alemanha apoiada pela América tornar-se-ia rapidamente a nação preponderante na Europa.
Se a Alemanha, depois do rearmamento, quisesse um dia retirar-se do pacto, a França poderia continuar a contar com a protecção americana? O problema da “atlantização” da Alemanha deve por isso considerar-se pelo prisma das sua possíveis repercussões no equilíbrio europeu, na paz do Mundo e não pelo prisma da luta secular entre franceses e alemães, a qual pertence a uma época já ultrapassada.


O ponto de vista anti-comunista
Do ponto de vista da defesa armada da Europa contra a propagação do comunismo, a adesão da Alemanha ao sistema atlântico oferece incontestáveis garantias.
É certo que a eficácia militar do pacto é por enquanto limitada e que continuará a sê-lo enquanto a Europa não começar a receber as armas de procedência americana. Mas a inclusão permitirá precisamente encurtar esse prazo de espera, graças á contribuição que a indústria alemã pode prestar para o rearmamento dos países ocidentais.
Assim, a retirada das forças de ocupação ocidentais ficaria ligada ao restabelecimento de uma força militar alemã, pois as tropas anglo-saxónicas e francesas que estacionam naquele país passariam automaticamente a ser aliadas do exército alemão reconstituído.
A missão dessas forças não consistiria em vigiar para que a ordem fosse mantida no interior da Alemanha, mas para que a sua fronteira continuasse inviolada. Completar-se-ia assim uma evolução iniciada com o bloqueio de Berlim. A pressão russa não encontraria na sua frente o vácuo, mas uma resistência organizada.


A ideia da neutralização
É certo que a ideia da neutralização, com uma garantia conjunta dos Estados Unidos e da URSS nos termos da qual a neutralidade alemã não poderia ser violada por aquelas potências ou por qualquer outra pode conduzir ao mesmo resultado. Mas não devemos esquecer que nessa garantia o factor russo seria muito mais importante do que o americano, dada a proximidade da URSS e o afastamento dos Estados Unidos. É, portanto, legítimo perguntar se a exclusão da Alemanha do Pacto do Atlântico o não enfraquece e se a defesa efectiva da Europa não está de antemão comprometida se for organizada no Reno em vez de ser organizada no Elba.
Tendo apenas em conta os dados militares da situação não há dúvida de que assim é.
Mas a experiência destes últimos anos demonstra que a infiltração política é mais frequente do que a invasão armada é tão perigosa quanto ela. É, portanto, em função da primeira e não da segunda que devem considerar-se as vantagens relativas das duas soluções propostas: a neutralização e a “atlantização”. De momento, julgamos impossível dizer qual delas é preferível.
Quer se trate do Pacto do Atlântico, quer de um tratado garantindo a neutralidade da Alemanha, não será possível definir, com suficiente rigor, uma fórmula que permita fechar completamente a porta a todas as tentativas de infiltração. Haverá sempre maneira para aqueles que não quiserem cumprir lealmente os seus compromissos, de as iludir ou ladear.
Esta realidade é demasiado complexa e movediça para ser condicionada.
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08 junho 2019

A CRIAÇÃO DE MAIS OUTRO GOVERNO PROVISÓRIO

8 de Junho de 1969. Constituição do Governo Provisório Revolucionário da República do Vietname do Sul, uma metamorfose (com aspecto mais institucional) da Frente Nacional para a Libertação do Vietname, que a comunicação social norte-americana (e a do resto do Mundo, atrás dela) designava por os Vietcongs. Descobre-se neste gesto, paradoxalmente ou talvez não, uma inspiração francesa, a antiga potência colonial do Vietname. Como vimos neste blogue ainda há poucos dias, a proclamação de um governo provisório fora um expediente em tempo de guerra do general de Gaulle para lhe conferir uma pompa e circunstância reforçadas entre as populações e à mesa das negociações. Aqui a intenção era também essa (e foi conseguida na medida em que este governo foi reconhecido como parceiro nas negociações, a par dos governos dos dois Vietnames e dos Estados Unidos), mas as circunstâncias eram completamente outras: este governo não se destinava a prosperar, nunca deixou de estar sob o controle de Hanói, que não tolerava outra que não a narrativa da reunificação. Ao contrário daquele que o inspirara 25 anos antes, este governo provisório (e revolucionário) era um governo verdadeiramente provisório, no sentido que estava destinado a desaparecer depois de cumpridas as funções para que fora concebido. Instalado na povoação fronteiriça de Lộc Ninh (assinalada a vermelho no mapa abaixo), mesmo assim, o governo provisório (e revolucionário) não deixou de constituir uma certa inspiração entre movimentos guerrilheiros aparentados, caso da Guiné-Bissau em 1973, por exemplo.

07 junho 2019

A DIFERENÇA DA CNN PARA A BBC

Há ocasiões em que poucas imagens podem explicar quase tudo. O assunto é o mesmo, noticiado acima pela CNN e abaixo pela BBC. Acima, são três minutos e meio a repetir as mesmas imagens e uma senhora que passa por especialista a dizer porra nenhuma. Abaixo, a BBC dispensando a senhora da porra nenhuma, diz mais numa frase que os três minutos e meio da CNN: o nome dos dois navios envolvidos e uma localização aproximada do local do incidente. É que, mesmo antecipando que os capitães do navios vão atribuir as responsabilidades ao outro, quando se estão a ver as imagens da CNN, é de nos mordermos com tanta incompetência para saber ao menos qual é um deles: o número de identificação (pennant number) do navio russo está ali mesmo à vista e a wikipedia à distância de um clique para o identificar...

A PENDÊNCIA SUSCITADA POR MOTIVO DUMA DISCUSSÃO AUTOMOBILÍSTICA

«Pedem-nos a publicação da seguinte acta:

Acta Única: Aos sete dias do mês de Junho de mil novecentos e vinte e nove, ás quinze horas e trinta minutos se reuniram numa dependência do Club Tauromáquico os srs. tenente-coronel Cristóvão Aires de Magalhães e Pedro Bordallo Pinheiro, como representantes do sr. João de Ortigão Ramos (à esquerda), e os srs. drs. Manuel de Queiroz e Raul Barbosa Viana, como representantes do sr. Henrique Lehrfeld (à direita) a fim de derimirem (sic) uma pendência de honra entre os seus constituintes suscitada. Trocadas as respectivas credenciais pelos representantes do sr. João de Ortigão Ramos, foi presente como matéria prévia e antes de entrarem propriamente na discussão dos motivos da pendência a afirmação por parte do seu constituinte de que não obstante não ter sido acatada pelo sr. Henrique Lehrfeld a doutrina expressa nos Códigos de Honra na parte em que estes estabelecem prazos improrrogáveis para resposta ao envio de testemunhas, essa facto não impede que mesmo fora desses prazos o sr. João de Ortigão Ramos continue a insistir pela reparação a que se julga com direito, tendo as testemunhas deste julgado atendíveis as explicações dadas ácerca dessa falta pelas testemunhas do sr. Henrique Lehrfeld.
Entrando em matéria da pendência, pelos primeiros signatários foi dito que o seu constituinte se julgava ofendido na sua honra pela seguinte expressão contida numa carta publicada na revista O Volante, de 19 de Maio do corrente ano, assinada pelo sr. Henrique Lehrfeld:
«efectivamente tenho sangue alemão, com o que me honro bastante, e já não diria o mesmo se tivesse sangue de preto.»
Desta expressão exigem uma absoluta retratação ou reparação pelas armas.
Pelos representantes do sr. Henrique Lehrfeld foi declarado, em nome do seu constituinte, que este ao escrever a referida frase não teve a mínima intenção de ofender levemente o sr. João de Ortigão Ramos, pelo facto de que ignora a sua ascendência não podendo assim justificar-se qualquer sentido pejurativo (sic) que possa ter sido atribuído a essa frase.
Dadas estas explicações, pelos quatro signatários foi considerada finda esta pendência com honra para ambas as partes.
aa Cristóvão Aires de Magalhães
aa Pedro Bordallo Pinheiro
aa Manuel de Queiroz
aa Raul Barbosa Viana»
A "pendência", que é apresentada em ante-título como «entre dois "sportsmen"», é cómica de ridícula e não foram precisos terem-se passado noventa anos para que isso se torne evidente. Tão evidente quanto o elevado estatuto social que se depreende ser o de todos os envolvidos (não só os potenciais duelistas, como também as testemunhas), quando se reúnem no Club Tauromáquico(!), porque têm influência suficiente para que a acta da reunião se torne notícia de jornal. Nessa acta, por outro lado, convivem alegremente evocações aos Códigos de Honra (assim mesmo, em maiúsculas) com pontapés na gramática como dirimir com e e pejorativo com u. Mas o ápice do ridículo é a atitude do ofensor da pendência, Henrique Lehrfeld, que se retrata com uma explicação inverosímil: a sua evocação do «sangue de preto», se não era uma sugestão ofensiva, faz naquele contexto tanto sentido quanto uma viola num enterro. Ainda uma explicação adicional a respeito das ascendências: ter-se sangue alemão em 1929 não possuía a reputação que outrora gozara entre nós. Precisamente nesse mesmo dia, 7 de Junho de 1929, os vencedores da Grande Guerra reunidos em Paris engendravam o Plano Young, com o fito de ver se a Alemanha começava a pagar as dívidas do Tratado de Versalhes.