16 junho 2021

A DESERÇÃO DE RUDOLF NUREYEV

16 de Junho de 1961. Rudolf Nureyev (1938-1993), considerado o mais destacado bailarino russo e a cabeça de cartaz do ballet Kirov, que se encontrava então em digressão pelo Ocidente, deserta, pedindo asilo político em França. Seria um acontecimento perfeitamente inócuo se: a) Os países comunistas não investissem nestas digressões culturais como actos de propaganda de regime e b) Os cidadãos desses países comunistas pudessem viajar para o exterior com liberdade. Assim como era, esta foi mais uma de muitas defecções que a propaganda ocidental adorava publicitar.

15 junho 2021

O QUE É SOCIALMENTE EXÓTICO ENTRE OS «FAMOSOS», NOS DIAS QUE CORREM...

Através de uma publicação denominada Hiper, fiquei a saber que a locutora e humorista Joana Marques havia estado, esta Segunda Feira «no programa “Casa Feliz” da SIC, conduzido por Diana Chaves e João Baião.» Passando adiante rapidamente os pormenores da estadia, o que se me tornou interessante na notícia foi o seu remate, que a dá como mãe de dois filhos, ambos do marido. Pelos vistos, e por valer a pena ser especificado, tratar-se-á de algo exótico entre as famosas nos dias que correm, ter logo um par de filhos, assim, com a mesma pessoa...

OS «PREOCUPANTES GRAUS DE EROSÃO» DOS PARTIDOS NO PODER

15 de Junho de 1981. Quarenta anos depois e invertidas as posições, não nos surpreenderia ler do PSD um comunicado salientando o «preocupante grau de erosão» do PS. Talvez não no mesmo suporte, que os comunicados saíram há muito de moda e a comunicação política processa-se agora em tweets pretensamente pessoais.

14 junho 2021

O FARELO E A FARINHA DA CENSURA PORTUGUESA

No provérbio tradicional português, critica-se quem poupa no farelo para depois gastar em farinha. O exemplo que aqui quero recuperar, desta notícia de jornal de há precisamente 75 anos é uma derivação dessa mesma ideia, mas aplicada aos mecanismos da censura da imprensa portuguesa em vigor à época. Repare-se como, na notícia, se evita empregar a expressão sindicatos, recorrendo-se em vez disso à expressão inglesa «trade-unions». É demasiado óbvio para ser casual, para mais quando, se fosse para preservar a expressão original, não seria a da língua inglesa, mas a da língua alemã: «Gewerkschaft». Afinal, a notícia é originária de Berlim... Constatados todos estes cuidados dedicados à semântica da designação do cargo do orador da conferência de imprensa, um senhor chamado Roman Chwalek, quem conhecesse (e ainda conheça) quais as posições defendidas pelas potências aliadas ocupantes da Alemanha, aperceber-se-ia que a transcrição do discurso constituía uma defesa completa das posições então defendidas pela União Soviética: «somos absolutamente contrários a qualquer espécie de separatismo ou federalismo na Alemanha». Ou seja: na forma a palavra sindicato era censurada; mas na substância, a mensagem soviética (comunista) era transmitida cristalinamente. E se dúvidas houvesse, e se o censor se tivesse dado ao trabalho de analisar o curriculum de Roman Chwalek, o orador que dissera aquelas coisas tão interessantes em prol da unidade alemã, descobriria que ele era militante comunista desde 1922, e que fora mesmo deputado daquele partido no Reichstag entre 1930 e 1933. Nem valia a pena adivinhar quem o colocara naquele cargo e lhe estava a dar aquela projecção... E claro que Chwalek estaria previsivelmente fadado para uma carreira ministerial na futura República Democrática Alemã (Alemanha Oriental), onde o podemos apreciar nesse cargo na fotografia abaixo de 1954. Com uma censura como a portuguesa, os comunistas até podiam passar as suas mensagens, que a preocupação era não mencionar que eram oriundos dos «sindicatos»! 

13 junho 2021

AQUILO QUE LHE FAZ FALTA PARA ALÉM DO ESTUDO...

A estes artigos não se deve dar demasiada importância, parece que valem imenso no fim de semana em que são publicados, mas depois acabam enterrados nos escaninhos da memória. Contudo, este texto de José Pacheco Pereira publicado ontem mereceu-me o destaque por ser surpreendentemente medíocre. É um texto que, para além de arrogante, demonstra uma inteligência limitada, demonstrativo que, para certas circunstâncias, o estudo não é tudo. Eu explico.
Tomemos o exemplo deste quiz, de que eu gosto muito, porque simbólico, daquilo que, por vezes, se torna necessário para responder com sucesso a um problema. Neste caso concreto, a questão é a de saber qual o número que está escondido por debaixo do carro que está estacionado. Não vou deixar aqui a resposta correcta (vou escondê-la na caixa de comentários deste poste), mas posso adiantar que, para lá chegar, é preciso recuar naquilo que tomamos por convencional, para procurar uma nova abordagem para o problema. E asseguro-vos que, para obter a resposta certa, não há qualquer estudo que se substitua à inteligência (a não ser a hipótese de já ter encontrado um quiz semelhante...). Há ocasiões em que o estudo não é tudo... Parece-me ser, mais acima, o problema de José Pacheco Pereira (e da sua geração), que, nunca o tendo permitido nos seus tempos de activo, já não consegue alcançar como reformado (72 anos!) o distanciamento intelectual para aceitar que haja avaliações sectoriais válidas do desempenho do Estado Novo que não o condenem obrigatoriamente (ao Estado Novo) pelos resultados. Não é questão de estudar, é questão de preconceito, de estar amarrado a uma só formulação do problema. A argumentação de José Pacheco Pereira não apenas não é inteligente; também não trata os que o lêem como tal. Por causa disso, merece esta retribuição.

...A FRACÇÕES DE SEGUNDO DOS DISPAROS

As duas fotografias deste poste têm precisamente um mês de diferença entre elas: 13 de Maio de 1981 a de cima e 13 de Junho de 1981 a de abaixo. Trata-se de dois atentados contra Chefes de Estado, o Papa João Paulo II em Roma e a Rainha Isabel II em Londres e dá-se ainda a espantosa circunstância das duas fotografias terem sido acidentalmente tiradas precisamente antes dos autores dos atentados terem começado a disparar sobre os seus alvos. Mas o resto das histórias diferem substancialmente. Os tiros da pistola de Mehmed Ali Agca atingiram João Paulo II por quatro vezes. O revólver de Marcus Sarjeant estava carregado com balas de salva¹ que se limitaram a assustar o cavalo de Isabel II. João Paulo II foi submetido a uma intervenção cirúrgica de urgência que o salvou mas que durou cinco horas. Isabel II limitou-se a apanhar um susto enorme. Ali Agca era turco e muçulmano e até hoje permanecem algo nebulosas as intenções por detrás do seu acto. Sarjeant era britânico e queria adquirir notoriedade. ¹ Também designadas por festim.

12 junho 2021

SÃO PETERSBURGO RECUPERA O SEU NOME ORIGINAL

12 de Junho de 1991. Num referendo local, que se realizou no mesmo dia que as primeiras eleições presidenciais russas, sai vencedora a proposta para que a cidade de São Petersburgo recuperasse o seu nome original. À época ainda existia a União Soviética - que só desapareceria no final de 1991 - e esta reversão do nome da cidade, de Leninegrado, nome que lhe fora atribuído em 1924 em homenagem ao fundador do império soviético, para o nome que a cidade possuíra entre a fundação (em 1703) e 1914 revestia-se de um inegável significado político. De um significado político menor, mas ainda relevante, fora a opção pelo nome germanizado original da cidade, e não a versão eslava, Petrogrado, que fora usada entre 1914 e 1924. Era uma sugestão de retorno à faceta mais europeia da identidade russa. Porém, se hoje se pode fazer um balanço destes últimos trinta anos, o retorno do nome original da cidade que fora a capital dos czares, prometia na altura muito mais da evolução da Rússia do que aquilo que hoje é constatável com a presença no Kremlin em Moscovo de um déspota oriental clássico como Vladimr Putin.

11 junho 2021

AS SETE VIDAS DO GENERAL PHIBUN

Há dias, por ocasião da evocação do 75º aniversário da misteriosa morte do rei da Tailândia, Ananda Mahidol (Rama VIII), havia ali deixado a promessa de exemplificar em ocasião posterior quanto a política tailandesa daqueles tempos estava salpicada de episódios pitorescos de natureza palaciana que tornavam aceitável o que acontecera ao monarca em 9 de Junho de 1946. O protagonista desta história exemplar foi o general (posteriormente marechal) Luang Phibunsongkhram, correntemente citado pela versão reduzida do seu nome: Phibun. No período de grandes transformações políticas e sociais na Tailândia no quarto de século que vai de 1932 a 1957, o general Phibun foi o primeiro-ministro e o detentor do poder no país por 15 desses 25 anos: 1938-44 e 1948-57. Explicada a importância do homem, contemos a história, que começa numa noite de Novembro de 1938, estava a general a fardar-se no seu quarto para uma soirée - e apreciemo-lo acima fardado de gala! - quando uma bala lhe acertou de raspão no braço. O estupefacto general descobriu que o potencial assassino era, nada mais, nada menos, do que o seu próprio criado de quarto, que se escondera debaixo da cama e que, saindo lá de baixo, se preparava para lhe assestar um segundo tiro mais certeiro. O general fugiu assim como estava, em cuecas, e a perseguição pela casa fora, com o criado pessoal atrás de si de pistola em riste, terminou em bem para o primeiro-ministro, com o seu potencial assassino detido, embora a sua dignidade tivesse ficado algo amachucada. Já nessa altura, Phibun adquirira uma reputação de alguém com sorte. Anteriormente, ainda ele era ministro da Defesa, fora atingido a tiro, também de raspão, no pescoço, quando assistia a um jogo de futebol. Mas a sua mística só ficou definitivamente consagrada quando, cerca de um mês depois do segundo atentado, um terceiro teve lugar, desta vez tentando envenená-lo durante um jantar de cerimónia que ele próprio organizara, mais uma vez em sua própria casa. Este último episódio levou a que 38 convidados tivessem sido levados de urgência para o hospital para lavagens ao estômago. Apesar daquilo que estes dois episódios podem indiciar quanto à completa falta de jeito do general Phibun para contratar pessoal doméstico - criados de quarto mas também pessoal de cozinha... - eles não parecem ter perturbado a sua reputação junto das elites, descontando uma evidente - e previsível - relutância da alta sociedade tailandesa em aceitar convites para jantar em sua casa. Ironias à parte, Phibun prosseguiu a sua carreira nesta fase (1938-44) até se transformar numa espécie de Mussolini à tailandesa (abaixo). Conhecendo estas histórias rocambolescas de tentativas de assassinato envolvendo o homem-forte do país naquele mesmo período, creio que se pode argumentar que a morte misteriosa do monarca em 1946 até se torna compreensível.

EM QUE SÍTIO É QUE FICA O PSD?

11 de Junho de 1981. Já há quarenta anos, se punha a questão do por onde andaria o PSD, como pretexto para as disputas internas do partido. Claro que a pretensão do PSD daquela altura de ser «de centro-esquerda» era uma daquelas ilusões que só o próprio partido sustentava.  

10 junho 2021

O DEZ DE JUNHO DE 1971 COM DOIS FUTUROS PRESIDENTES - e um deles até usa camuflado!

Bissau, 10 de Junho de 1971. Mimetizando aquilo que acontecia nesse dia nas principais cidades do país, também na capital da Guiné o governador-geral António de Spínola organizava uma cerimónia do 10 de Junho envolvendo tropas em parada, discurso, desfile e imposição de condecorações. A que a fotografia mostra reveste-se da curiosidade de envolver dois futuros presidentes da República: o próprio governador- geral e general comandante-chefe António de Spínola (1974-1974) e o major António Ramalho Eanes (1976-1986). Repare-se como, numa contemporização ultramarina para com as regras de etiqueta em vigor na metrópole, era admissível que o condecorado comparecesse na cerimónia envergando o uniforme camuflado. O camuflado era então considerado uma farda de trabalho, pouco adequado a cerimónias e ainda não adquirira aquele prestígio que o faz hoje ser envergado até por almirantes que coordenam planos de vacinação... A condecoração atribuída na ocasião a Eanes foi a medalha de prata de Serviços Distintos com palma.

09 junho 2021

O TRIBALISMO DA POLÍTICA PORTUGUESA

O que é óbvio neste episódio da nomeação de Pedro Adão e Silva para o «fofíssimo» cargo de comissário executivo para as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, é que quando a crítica é tão certeira, não há como a refutar, e a única técnica que resta a António Costa é armar uma «cena de teatro» a fingir-se ultrajado, para que não tenha de dizer nada de concreto sobre o assunto. Isso é o óbvio. O lado caricato do episódio é pensar no que se seguiu, e identificar quem saiu em apoio de Pedro Adão e Silva, e quem o está a criticar, e cruzar essa lista com aquela que se formou aqui há dois anos, a pretexto da nomeação de João Miguel Tavares para presidir à comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal em 2019 (abaixo). Ainda nem toda a gente se manifestou desta vez, mas as duas listas parecem um quase perfeito negativo fotográfico uma da outra - quem apoiava agora crítica, quem criticava agora apoia. É tão previsível o tribalismo das opiniões que se ouvem por aí, que transformam os humoristas nas pessoas mais sérias do palco.

A MORTE DO REI DO SIÃO

9 de Junho de 1946. A notícia chegava via Nova Iorque, oriunda de Banguecoque: morrera o rei do Sião. (Benditos aqueles dias em que as regras ainda permitiam que se pudesse escrever Nova York e Bangkok...) O Sião é aquele país asiático que hoje conhecemos por Tailândia. E o que tornava a notícia em... notícia era o facto de que o rei Ananda Mahidol - Rama VIII, segundo denominação oficial - tinha apenas 20 anos e era um rapaz saudável, daí o cepticismo como se acolhia a explicação contida na notícia acima de «que o rei» sucumbira «a um ataque apoplético». Rapidamente se soube que não fora apoplexia, fora uma bala que o atingira na cabeça, no seu quarto de dormir, por volta das 9H20 da manhã. A arma fora um Colt .45. Mas o que não se sabia, nem nunca se veio a esclarecer, foram as circunstâncias precisas em que a morte ocorreu: foi um assassinato, um suicídio ou um acidente? Convém esclarecer o leitor que a história política da Tailândia daquela época está cravejada de atentados palacianos (assunto que poderemos exemplificar num próximo poste). Para benefício de uma das facções políticas tailandeses, e da tese da conspiração que essa facção abraçara, três cortesãos vieram a ser julgados, condenados à morte e executados pelo assassinato do rei. Mas isso só veio a acontecer depois de essa facção ter subido ao poder e as execuções tiveram lugar em 1955, ou seja quase nove anos depois dos acontecimentos. O sucessor foi o irmão mais novo do defunto, Bhumibol Adulyadej, então com 18 anos, que tomou o nome de Rama IX e que virá a ocupar o trono por 70 anos, até à sua morte em 2016. Depois de relembrar o 20º aniversário da execução da família real nepalesa que aqui fiz no princípio deste mês, adiciono-lhe o 75º aniversário de mais um episódio bizarro ocorrido entre as pouco conhecidas monarquias asiáticas, aquelas que não costumam aparecer nas revistas cor-de-rosa.

08 junho 2021

A DESCOBERTA DO «ÚLTIMO ELEMENTO QUÍMICO»

8 de Junho de 1931. «O professor dr. Fred Allison, Edgar Murphy, professor R. Bishop e Anna Sommer demonstraram ter encontrado no Laboratório do Instituto Politécnico do Alabama o último elemento químico ainda desconhecido, dos 92 elementos químicos que existem. Como é sabido, segundo o «sistema periódico dos elementos», descoberto na segunda metade do século passado pelo químico russo Mendeleiev, não pode haver mais de 92 elementos químicos. Os elementos dispõem-se em ordens, conforme o seu peso específico, e cada um deles tem um número na série, de acordo com o peso. A maioria dos elementos é já conhecida, mas alguns deles, cujo lugar tinha sido calculado no sistema periódico, só mais tarde foram descobertos. Assim, no ano passado, o professor Allison pôde descobrir o elemento 87, o penúltimo dos elementos conhecidos, e ultimamente descobriu o último elemento desconhecido, que tem o número 85 da série. Este elemento ainda não recebeu nenhum nome.»

O primeiro aspecto interessante desta notícia é aquela passagem que sublinhei. O jornalista escreve o artigo pressupondo que o leitor possui os conhecimentos de química suficientes para saber o que é a tabela periódica. E, no entanto, sabe-se como em 1931 o grau de escolaridade da população era mínimo* quando em comparação com o da actualidade. Porém, o paradoxo é que nenhum jornalista actual se atreveria a escrever um artigo deste mesmo género, sobre a descoberta de novos elementos químicos, com esta mesma desenvoltura de assumir que o leitor (que agora aprende química nos seus anos de escolaridade obrigatória) ainda se lembra de alguma coisa sobre o assunto. Se em 1931 o conhecimento do leitor era obrigatório, em 2021 a sua ignorância é uma espécie de benção («- ...já não me lembro nada disso!»).
O segundo aspecto interessante é a grandiosidade radical do título, como se as Ciências Químicas tivessem chegado ao fim da sua função com a descoberta do «último elemento químico». Faltava-lhe, no entanto, ao jornalista, o distanciamento e a capacidade de antevisão para se aperceber que, para além dos 92 elementos naturais, se poderiam vir a criar elementos artificialmente. Noventa anos passados, o assunto de descobrir o último elemento químico está longe de estar encerrado: até agora foram criados 26 elementos artificiais e o elemento mais pesado que hoje consta da tabela periódica é o 118 - Oganésson.
O terceiro aspecto interessante é mais concreto, e tem a ver com a descoberta propriamente dita: era uma treta. Não fora descoberto o elemento 85, nem anteriormente o havia sido o 87. O método do professor Allison viria a revelar-se um fiasco quando foi testado pelos seus pares. Mais, as descobertas do professor deram o nome a um efeito Allison, um dos exemplos agora clássicos de distorção científica denominada ciência patológica.

Claro que isto foi noventa anos antes de José Gomes Ferreira se dedicar à economia e a tantas outras disciplinas científicas...Vale a pena ouvir a abordagem deste último, para perceber como os tempos mudaram no que diz respeito à divulgação científica:
* Para dar uma ideia, havia 62% de analfabetos em 1930.

07 junho 2021

A IMPORTÂNCIA DA VOZ E DE QUEM A PORTA PARA AS FORMAÇÕES POLÍTICAS DO SÉCULO XXI

Esta notícia da eleição da nova líder do PAN como sua porta-voz desencadeou-me uma reflexão sobre os títulos dos cargos políticos, e como frequentemente eles nada têm a ver com a função desempenhada. Se formos a um passado quase centenário, torna-se um pouco embaraçoso perceber que a proeminência do cargo de secretário-geral, que se tornou indissociável do líderes dos partido de esquerda a partir do final do primeiro triénio do século XX, se deveu à pessoa de José Estaline que, a partir daquele cargo que até aí fora menor na estrutura do Partido Comunista Russo e, mantendo esse mesmo título de secretário-geral, veio depois a dominar partido e império (soviético). Foi um exemplo cristalino de como foi a pessoa que moldou a importância do cargo. Tão importante que todas as formações políticas da esquerda europeia passaram a adoptar aquela designação de secretário-geral para o seu líder, mesmo que o título não correspondesse à realidade do que fazia - por exemplo e no caso português, pensemos em Mário Soares, secretário-geral do PS entre 1973 e 1986, o tipo de pessoa que menos imaginaríamos a secretariar seja o que for!... Felizmente, as formações políticas modernas do século XXI quiseram romper com essa hipocrisia de designar por secretário-geral quem dirigia o partido e que afinal não secretariava nada, e quiseram experimentar outras designações mais convenientes para o cargo. Um dos exemplos dessas experiências foi o praticado em Portugal pelo Bloco de Esquerda. Ele houve um porta-voz (Francisco Louçã), para depois haver um coordenador (ainda Louçã), para depois haver dois coordenadores (um ele - João Semedo - e uma ela - Catarina Martins), para depois voltar a haver uma porta-voz (Catarina Martins). E terá sido este o modelo de maior sucesso. Tanto, pelo menos, que o PAN o copiou. A denominação de porta-voz que é adoptada mais acima por Inês Sousa Real tem a vantagem, sobre a de secretária-geral, de possuir mais ressonância mediática, considerando para mais a importância da voz na actualidade. O irónico da situação é que, tal como acontecia e acontece com os secretários-gerais, aquilo que se espera destas eleitas é que elas sejam muito mais do que apenas porta-vozes...

MISSÃO OSIRAK

Domingo, 7 de Junho de 1981. Uma formação de caças F-16 e F-15 israelitas bombardeia e danifica seriamente uma central nuclear iraquiana que ainda estava em fase de acabamento. A central nuclear denominava-se Osirak e estava a ser construída com a tecnologia e a colaboração francesa. Apesar das garantias prestadas pelas duas partes envolvidas (Iraque e França) de que os dois reactores nucleares não iriam ser utilizados - nem teriam capacidade - para a produção de armamento nuclear, os israelitas, cépticos, desencadearam unilateralmente o ataque preventivo. O único aliado circunstancial de Israel neste seu ataque clandestino ao Iraque terá sido - ironia suprema! - o Irão, que estava então envolvido na guerra Irão-Iraque e a quem também interessava descartar a hipótese, ainda que remota, de que o seu inimigo pudesse vir a possuir armas nucleares. Hoje, parece adquirido que essa hipótese era absurda. A paranóia israelita contara muito, mas o que mais terá pesado na decisão israelita terá sido o significado político do gesto, demonstrando aos países árabes vizinhos a que limites Israel estaria disposto a ir para manter a superioridade nuclear na região. Significativamente a operação, que permanecera secreta até à sua execução, foi depois propagandeada em todos os seus detalhes, numa página da wikipedia que lhe é dedicada em exclusivo (abaixo, assinalada a azul a rota dos aviões sobre a Arábia Saudita). A conclusão é que os israelitas são ainda melhores publicistas do que militares. Em contraste, dois meses antes, os iranianos tinham por sua vez também efectuado um muito bem sucedido raid aéreo a longa distancia para bombardearem uma base aérea iraquiana de retaguarda denominada H-3 (assinalado a verde no mapa). A esse raid mal se deu cobertura noticiosa na altura, e ainda hoje vale apenas meia dúzia de linhas nas páginas da wikipedia. E no entanto, do ponto de vista militar, a dos iranianos foi uma operação bem mais complexa e interessante do que aquela que motivou este poste.

06 junho 2021

A «CONVERSA DE MERDA» DE ANTÓNIO COSTA

Quando se lêem estas coisas plantadas e que ressoam em estéreo, como se se tratassem das vozes de um grupo coral, o ridículo do suporte faz-nos por vezes esquecer o ridículo do conteúdo. Pergunta-se: QUEM é que ataca o que António Costa defende? Há mesmo alguém que o faça? Não parece isto tudo mais um expediente para mudar de conversa e evitar confessar de quem é a responsabilidade da «bronca da bolha»? Uma «bronca» tanto mais bronca, se considerada a retirada posterior de Portugal da «lista verde» dos britânicos? Há alturas em que os políticos deviam descalçar os sapatos e andar em meias pela casa, para que a opinião pública não dê por eles. Esta é uma óptima altura para que António Costa se fizesse esquecido. E contudo, existem estes gabinetes, e os génios de comunicação que os guarnecem, que desconhecem o valor de não fazer a ponta de um corno para que não façam merda.    

O QUE SE PRETENDIA ERA A CONFISSÃO DE UM ERRO DE DECISÃO, NÃO A ADMISSÃO DE UM ERRO DE COMUNICAÇÃO

Passados um bom punhado de dias depois da bronca da bolha, presenciamos este exercício protagonizado por Mariana Vieira da Silva (mas que foi visivelmente preparado nos bastidores) em que ela «assume totalmente» o que é irrelevante assumir. Compete aos ministros assumir a responsabilidade pelas consequências das suas decisões, e é irrefutável que a decisão de acolher a final da liga dos campeões no Porto, com o inerente cortejo de hooligans a reboque, foi uma decisão péssima. E o que se esperaria, num mundo ideal, seria que alguém responsável admitisse que a tomara e que assumisse a responsabilidade por ter tido essa decisão. Aliás, só quer e pode ser responsabilizado por «erros de comunicação», são os porta-vozes dos ministérios, já que estes apenas tratam da forma e não do conteúdo daquilo que comunicam. Ora aqui, e não vale a pena estar a misturar uma coisa com outra, o que interessará aos portugueses - e o que o governo anda evitar responder há uma semana - é saber quem foram os responsáveis por ter validado a decisão de promover o jogo de futebol no Porto, mesmo correndo os riscos de que a bolha furasse (como furou). Não nos interessa saber se foi ou não bem explicado. Acho que todos percebemos sozinhos, sem ajuda, que presenciámos um fiasco, e os fiascos são como os desastres apanhados pelos vídeos caseiros: dispensam explicações. É por isso desprovido de qualquer valor político que Mariana Vieira da Silva venha agora a assumir totalmente (sic) aquilo que nos é irrelevante, a tal de comunicação defeituosa. A não ser que ela tenha funcionado para esta ocasião como a porta-voz governamental, de uma decisão governamental, circunstância em que aí a teremos de considerar, não como uma ministra que se escusa às responsabilidades, mas como uma ministra seleccionada para servir de escudo às responsabilidades políticas de António Costa.

AS NOVAS GARRAFAS DA CERVEJA SAGRES

6 de Junho de 1971. «A Sociedade Central de Cervejas, SARL tem o prazer de informar o público consumidor de que vai passar a fornecer a sua cerveja Sagres em garrafas com rótulo de papel, portanto diferente do actual rótulo pirogravado. Fá-lo no intuito de dar maior prestígio à marca e à garrafa, prestígio esse condizente com a grande aceitação que à Sagres de há muito vem sendo prestada pelo mercado. Porque não é obviamente possível lançar um novo rótulo simultaneamente em todo o país, haverá durante um tempo cerveja Sagres duas garrafas diferentes, qualquer delas contendo o mesmo produto e com a mesma alta qualidade.» Estando muito longe se ser o fim do produto e não sendo ainda o fim do slogan A Sede que se deseja, era o fim da apresentação estética que marcara uma época.

EM COMEMORAÇÃO DO DESEMBARQUE DA NORMANDIA

É um gag de que gosto muito, não por pedir muito da inteligência do leitor, mas por ser exigente na atenção e na sua capacidade de dedução, até ao último quadrado.

05 junho 2021

OS EXEMPLOS TÊM QUE VIR DE CIMA

Ontem lá houve jogo de bola em Madrid e, para não nos desapontar, lá estavam o Marcelo e o Costa e mais 24 mil espectadores autorizados a assistir ao jogo, num episódio que complementa a barracada da Champions e aquela sensação que nesta coisa das restrições há filhos e enteados. Reconheça-se que desta vez foi em Madrid, e as regras são lá com eles, mas, a propósito do que os dois (Marcelo e Costa) lá foram fazer a Madrid, para além de ir ver o jogo, eu gostaria de saber quando e de que forma é que foi submetida à discussão pública esta iniciativa da candidatura conjunta à organização do Mundial de Futebol de 2030? É que, imagine-se lá, eu sou contra! Pensei que tínhamos ficados vacinados depois do que aconteceu com as dívidas do Euro 2004. E, por outro lado, e já que a situação de pandemia está a dificultar os meus planos de férias no estrangeiro, gostaria que os parlamentares e a presidência me informassem se será assim tão indispensável que Marcelo se ande a passear pela Eslovénia, Bulgária e Madrid nesta altura, sem que se sinta na obrigatoriedade de prestar satisfações sobre os propósitos de tais visitas. Que terão de ser muito mais importantes do que a minha ansiada visita à Provença. Eu bem sei que a assembleia aprovou a «promenade» de Marcelo por unanimidade, mas, inspirado no episódio (também recente) da controversa aprovação (sem votos contra) da Carta Portuguesa dos Direitos Fundamentais na Era Digital, contestada depois, mas já fora do parlamento, predomina uma sensação difusa que a autoridade e o bom senso das instituições que são - têm de ser - os alicerces do Estado português - presidência, governo, assembleia, tribunais - a autoridade de todas elas anda pelas ruas da amargura. Para a conservar, dar o exemplo nestas circunstâncias difíceis sempre foi muito importante e é isso que não se vê.