04 agosto 2021

O «DIRECTO» DO NAUFRÁGIO DO «OCEANOS» AO LARGO DA ÁFRICA DO SUL

4 de Agosto de 1991. A começar pelo que é o mais famoso de todos, o do Titanic em 15 de Abril de 1912, não serão muito abundantes as imagens reais do naufrágio de grandes navios de passageiros. O Oceanos era um navio de cruzeiros de bandeira grega que navegava ao largo da costa da África do Sul quando as imagens acima foram filmadas. Agosto corresponde a um mês de Inverno naquele hemisfério e os mares estavam encapelados mas as razões para o naufrágio deveram-se a um problema estrutural interno do próprio navio. Nos seus últimos minutos já se havia procedido à evacuação de todos os 402 passageiros e 179 membros da tripulação que seguiam a bordo. Deve acrescentar-se que, de acordo com os relatos, o facto do naufrágio não ter causado nenhuma vítima aconteceu apesar do comportamento da tripulação, que terão sido os primeiros a abandonar o navio, com o capitão do navio a destacar-se nessa muito pouco gloriosa debandada. Para mais, depois da progressiva inclinação do navio ter tornado inoperacionais os salva vidas de estibordo, houve 225 pessoas (quase 40% do total) que tiveram de ser içados por cabos lançados de 9 helicópteros da Força Aérea Sul Africana. Por uma vez sem haver razões para grandes problemas de consciência por causa de desastres pessoais, uma estação de televisão, a ABC norte-americana, filmou os minutos finais do afundamento de um navio de cruzeiros de média dimensão (as 14.000 toneladas do Oceanos corresponderiam a um pouco menos de ⅓ das 46.000 do Titanic). Só que, apesar das imagens do navio a ser engolido pelo oceano, o naufrágio teve lugar a uns escassos 5 km da costa, num local onde a profundidade ronda apenas os 100 metros. Os destroços afundados do Oceanos vieram a tornar-se um lugar privilegiado para o mergulho.  

03 agosto 2021

O MAIS CONHECIDO EPISÓDIO ENVOLVENDO UM AVIÃO DE PULVERIZAÇÃO

Segundo descobri num daqueles sites de curiosidades, foi há precisamente 100 anos que se realizou a primeira operação de pulverização aérea de colheitas, um feito realizado em Dayton, cidade do estado americano do Ohio, e protagonizado pelos dois senhores da fotografia acima: o engenheiro Dormoy (à esquerda) e o tenente Macready. Para que a ficha fique completa, esclareça-se que o avião usado foi um Curtiss JN-4 "Jenny", sobras da produção de guerra (Primeira Guerra Mundial), provavelmente o avião civil mais corrente naquela época. Quanto ao processo que ali se experimentava, apesar de caro e por isso justificável (e muito mais rentável) nas extensas áreas de cultivo, ele veio a popularizar-se gradualmente, tornando-se mais complexo. O aparecimento dos drones nos finais do século XX veio a expandir esta prática até mesmo às regiões de minifúndio, antes de, já no século XXI, a questão das preocupações ambientais começar a reduzir a sua prática, nomeadamente no que diz respeito ao emprego de pesticidas. E no entanto, ao longo do ciclo que acima se descreve, o mais conhecido episódio que será lembrado a respeito do tema será um que não tem nada a ver com agricultura. Trata-se de uma cena do filme Intriga Internacional de Alfred Hitchcock (North by Northwest 1959) em que, aquele que parecia inicialmente um pacífico avião pulverizador ao longe se transforma numa arma mortífera perseguindo com ferocidade implacável o herói Cary Grant.

02 agosto 2021

A NOTÍCIA É INTERESSANTE, TIVE É QUE LHE MUDAR A FOTOGRAFIA

Quando no Expresso publicaram hoje uma notícia sobre Manuel Pinho, escolheram uma outra fotografia para a ilustrar em vez desta que acima aparece e que para sempre o celebrizou, precisamente por ter posto termo à sua prestação política. Por sinal, complementa muito melhor o título que escolheram, a admissão pelo próprio Manuel Pinho que a sua passagem pela política fora «um erro enorme». Tratar-se-á daquilo que em Julho de 2009 (data dos acontecimentos) já seria óbvio para alguns, depois de mais de quatro anos a sobraçar a pasta da Economia, a coleccionar gaffes políticas e a suscitar desconfianças técnicas. Mas enganem-se os que pensarem que o teor da notícia do Expresso é de penitência. Trata-se antes da transposição de algumas passagens mais significativas, sem contraditório e sem sequer comentários, da defesa que Manuel Pinho faz de si próprio num site que acabou de publicar na net. Mais do que isso, e porque Manuel Pinho é um gajo muito descontraído (como se deduziu pela publicitação das suas fotografias do Verão de 2008 a nadar numa piscina ao lado do campeão olímpico Michael Phelps), o site é também veículo de promoção de um próximo livro seu, daqueles clássicos em que, mesmo antes de o ler, se adivinha que se fartará de se vitimizar, livro esse intitulado Confinado. Desculpem-me, mas os do Expresso enganaram-se rotundamente na fotografia: a um tipo tão cheio de expediente, só há mesmo que o exibir desembolado...

O MARTELO E A PENA NA LUA

2 de Agosto de 1971. O astronauta David Scott, da missão Apollo 15, faz uma demonstração para todos os que seguiam a transmissão da sua estadia na Lua, que, num ambiente desprovido de ar, todos os objectos sofrem a mesma atracção gravitacional e caem à mesma velocidade, conforme Galileo estabelecera. Para o efeito, larga um martelo e uma pena de ave que caem no chão ao mesmo tempo. O chão não estava molhado...

01 agosto 2021

A (CAPITULAÇÃO DA) FORTALEZA DE SÃO JOÃO BAPTISTA DE AJUDÁ

1 de Agosto de 1961. Fora apenas com um pré-aviso de três dias (29 de Julho) explicado pela nota acima do S.N.I. (secretariado nacional de informação), que os portugueses ficaram a saber que o país estava envolvido numa disputa diplomática com o Daomé (hoje Benim), e isso por causa de uma possessão portuguesa de que quase todos nunca tinham ouvido falar. E há precisamente 60 anos, a disputa terminava com o incêndio da fortaleza, numa história que se compreenderá melhor se se conhecer o pomo da discórdia, descrito abaixo num texto que já aqui havia publicado em 2008.

«Publicada naquele tempo em que ainda era apropriado referir o dia 10 de Junho como o Dia da Raça, o volume nº1 da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira dedicava toda uma detalhada meia página à Fortaleza de São João Baptista de Ajudá. Mas da sua leitura resultava a desilusão de que a entrada continha apenas uma história algo resumida (desde 1680) daquela que era então a mais pequena possessão portuguesa e nenhuma informação adicional sobre qual seria a sua situação naquela época (anos 30).
A história da possessão estava resumida porque estivera associada ao tráfego de escravos entre o Reino do Daomé e o Brasil. Fora em terrenos doados por um dos reis que se erigira e mantivera a Fortaleza com as receitas dos impostos dos escravos que eram dali transportados e depois transaccionados em São Salvador da Baía. Os Reis do Daomé eram uma das partes que mais lucrava com aquele comércio e a Fortaleza (acima), apesar do seu nome, era mais um enorme entreposto comercial do que um estabelecimento militar.
A situação da Fortaleza dividia-se entre uma natural dependência geográfica da colónia portuguesa de São Tomé (acima - Ajudá (Ouidah) é uma cidade litoral do Benim) e a natural dependência económica do Brasil, que era o seu grande mercado de exportação. Durante o Século XIX, depois da independência brasileira (1822), houve um esboço de disputa entre os dois países, em que vieram a prevalecer os interesses de uma certa burguesia mestiça lusófona local de origem brasileira (cujo exemplo maior é a família de Souza).
A importância do tráfego de escravos foi decrescendo à medida que se aproximava o final do Século XIX. O Brasil aboliu a escravatura em 1888. Foi a França que veio a ocupar militarmente toda aquela região, tendo-a transformado numa colónia em 1894 e foi Portugal que veio a ficar com aquele fóssil colonial. A fortaleza foi-se esvaziando e os de Souza misturaram-se com as elites ocidentalizadas da colónia francesa do Daomé onde ainda hoje pontificam. A fortaleza tinha 5 habitantes em 1921 e apenas 2 em 1961…
Era essa a razão porque a entrada da Enciclopédia não possuía nenhuma informação adicional sobre a realidade da possessão: vegetava num longo estertor. Mas, invocando o famoso receio de criar um precedente na política colonial portuguesa, nem mesmo assim imperou ali o bom senso do lado português, e a cedência da fortaleza ao novo Daomé independente (1 de Agosto de 1961) foi mais um episódio (desnecessariamente) conflituoso em que o Intendente português (50% da população) acabou por incendiar as instalações antes de as abandonar…»

REFLEXÕES SOBRE DOIS PRIMEIROS DE AGOSTO SIMBOLICAMENTE MUSICAIS


1 de Agosto de 1971. No Madison Square Garden de Nova Iorque realizaram-se dois espectáculos ao vivo em prol dos refugiados do Bangladesh (The Concert for Bangladesh). Foi o primeiro grande evento de beneficência para uma causa daquele género a ser patrocinado por estrelas do Rock de que o promotor e a figura principal foi o antigo Beatle George Harrison.

1 de Agosto de 1981. Passados dez anos, arrancava o canal MTV, especialmente vocacionado para a emissão de vídeos musicais. Propositadamente por causa do título, o primeiro vídeo a ser emitido foi este Video Killed the Radio Star. O tempo veio provar que o vídeo havia morto mais do que apenas as estrelas da radio. Até os grandes eventos de beneficência passaram a ser produzidos em vídeo...
A respeito da primeira das efemérides, vale a pena recuperar aquilo que o Diário de Lisboa noticiou a respeito do assunto, uma notícia de uma sobriedade que as evocações actuais do concerto se esquecem de mencionar.

31 julho 2021

UMA POTENCIAL XERIFA PARA SAN MARINO?

Esta senhora chama-se Alessandra Perilli, tem 33 anos (o vídeo acima já é um bocadinho antigo...), e cometeu a proeza de conquistar anteontem a primeira medalha olímpica de sempre (bronze) para o seu pequeno país, São Marino, na disciplina de tiro (fosso olímpico). Depois de ter feito história (como agora se costumam empolar todos estes pequenos acontecimentos) e ainda não satisfeita, hoje ampliou a sua proeza histórica, conquistando uma segunda medalha olímpica, só que agora de prata, naquela mesma disciplina e em pares mistos! Temos portanto ali uma atiradora de pontaria indisputável, que, com a conquista de duas medalhas olímpicas, acabou de adquirir para si uma reputação, mais a sua espingarda Beretta DT11 (promoção no vídeo abaixo). Alguém que, tratando-se do velho Oeste americano, seria a candidata ideal no seu regresso, para assumir o lugar de xerifa da sua cidade-estado de 30.000 habitantes. Porém, São Marino, país milenar, situa-se na velha Itália, e com toda essa sabedoria adquirida é pouco atreito à crença na pacificação à lei da bala, não possuísse aliás a cidade-estado a designação oficial de Sereníssima República de São Marino... Mas, não fossem esses factores históricos, e num verdadeiro impulso tardio de genuíno western-spaghetti, teríamos ali a xerifa ideal para a cidade!

UM CONFLITO SUL AMERICANO COMPLETAMENTE OFUSCADO PELA OPERAÇÃO BARBARROSSA

31 de Julho de 1941. A assinatura de um armistício suspende o conflito fronteiriço entre o Peru e o Equador que eclodira no princípio desse mês, por questões do traçado das fronteiras entre aqueles dois países sul-americanos. Do ponto de vista militar, o desfecho foi claramente favorável ao exército peruano, do qual alguns oficiais aparecem na fotografia acima, impantes, sob a sua bandeira. O conflito terminou com uma centena de mortos do lado peruano e um pouco mais de um milhar do lado equatoriano, o que, pela sua gravidade, teria merecido toda uma outra atenção do resto do mundo, não estivesse o Mundo mergulhado simultaneamente em plena Segunda Guerra Mundial, especialmente quando a Alemanha acabara de invadir a Rússia a 22 de Junho de 1941. Nessas outras paragens, o número de mortos cifrava-se pelos milhares, mas a cada dia que passava. Assim, por uma questão de prioridades jornalísticas, e tendo ainda que atender às outras frentes da guerra mundial, a atenção que o Diário de Lisboa dedicou ao conflito sul-americano ao longo do (quase um) mês que durou cingiu-se àquela notícia acima, do lado esquerdo, dedicada ao apelo que a Argentina endereçara aos dois beligerantes para a cessão das hostilidades, notícia que foi publicada no dia 25 de Julho de 1941. Os leitores do jornal nem souberam da assinatura do armistício de que hoje se cumpre o 80º aniversário.

30 julho 2021

QUANDO PARECIA QUE ATÉ O CENSOR FORA DE FÉRIAS...

30 de Julho de 1971. Duas notícias inusitadas na página internacional da edição daquele dia davam ao leitor do Diário de Lisboa a impressão que o censor se distraíra e entrara de férias. Numa primeira (a da esquerda), questionava-se a existência de um português entre a missão que a ONU enviara à fronteira do Senegal com a Guiné-Bissau para investigar as queixas daquele país quanto a intrusões de militares portugueses no seu território. Uma encenação a que a diplomacia de Lisboa costumava não dar propositadamente a mínima atenção, uma regra que era ali quebrada. A outra regra que se quebrava era a referência a Agostinho Neto, o presidente do MPLA, estivesse ele em Pequim ou noutro lado qualquer.

29 julho 2021

JÁ AGORA, E PARA ESCLARECER (AQUILO QUE O PRÓPRIO DEVIA TER FEITO)

A edição de hoje do Público contém o editorial acima, dedicado à questão da (não) declaração do luto nacional por ocasião do falecimento de Otelo Saraiva de Carvalho e da forma habilidosa como tanto presidente como primeiro-ministro contornaram politicamente a questão. Uma questão que, na opinião de Amílcar Correia que assina o editorial, já se pusera anteriormente quando das mortes de Salgueiro Maia e Melo Antunes. O critério dos capitães de Abril seleccionados foi dele (porque não Vítor Alves e Marques Júnior? Ou Jaime Neves?), mas não é disso que aqui quero falar. A páginas tantas, e depois de um pertinente esclarecimento que a decisão de decretar luto nacional compete ao governo e não ao presidente, o texto contém uma passagem crítica pelos critérios erráticos que levaram a conferir tal distinção à irmã Lúcia e a D. José Policarpo, a Hassan II de Marrocos e ao imperador Hirohito do Japão. Na minha modesta opinião, não se teria perdido nada se Amílcar Correia, mesmo que fosse em nota de rodapé, identificasse, um por um, os primeiros ministros responsáveis por tais decisões. Faço-o eu, só para esclarecer, e pela ordem cronológica que o texto não respeita. O luto nacional pelo imperador Hirohito foi decretado por um governo de Cavaco Silva (Janeiro de 1989); o pelo rei Hassan II de Marrocos foi pelo primeiro governo de António Guterres (Julho de 1999); o pela irmã Lúcia foi decretado pelo governo (já demissionário) de Pedro Santana Lopes (Fevereiro de 2005); e o pelo cardeal patriarca D, José Policarpo foi da responsabilidade do governo de Pedro Passos Coelho (Março de 2014). Os exemplos evocados têm «uma coerência sui generis» (nas palavras do próprio editorialista) talvez porque foram decretados por governos de «uma coerência sui generis», digo eu, não sei.

COMO SE CHEGAVA A CONSEGUIR «NOTICIAR» UM CASAMENTO

29 de Julho de 1981. Tinha lugar em Londres o casamento de Carlos, o príncipe herdeiro, com Diana. O verdadeiro acontecimento glamoroso por excelência, que é transmitido em directo pelas televisões de quase todo o mundo, uma audiência potencial estimada na época em 750 milhões de espectadores. Mas a efeméride que quero evocar não é propriamente o casamento, nem sequer o facto de ter sido uma das transmissões de televisão mais globalizadas até aquela altura. Onde vale a pena pôr os olhos, para recordar, é no tratamento jornalístico que o Diário de Lisboa conseguiu dar ao acontecimento... Mesmo tendo-o colocado nas página centrais, é impressionante o esforço a que eles se deram para ir recolher os detalhes mais negativos e os depoimentos mais antipáticos a respeito do casamento: «Bandeiras negras em Belfast», «Explosivos em Buckhingam?» são os subtítulos escolhidos que sintetizam a animosidade da prosa que cobria, lembremo-lo,... um casamento, por muito que lá na redacção antipatizassem com os noivos. Que desagradáveis, que abutres ideológicos! Depois do 25 de Abril, o Diário de Lisboa tornara-se num jornal progressivamente mais faccioso (comunista) mas, por esta altura (1981), quando nos deparávamos com coberturas destas, percebíamos que já se tornara numa merda de um jornal faccioso. Nem a militância podia justificar coisas destas!

28 julho 2021

APONTAMENTOS SOBRE A «NEUTRALIDADE» SUECA DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

28 de Julho de 1941. A ofensiva alemã por terras russas, que começara no mês passado, prosseguia dinamicamente vitoriosa. A Wehrmacht aprestava-se a conquistar Smolensk. Estrategicamente, era ali que se estava a decidir o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Havia outras notícias acessórias, a respeito da guerra que os britânicos travavam no Norte de África contra os italianos (e alguns alemães). E havia ainda outras notícias, que o próprio jornal classificava de «diversas», algumas delas mais interessantes do que aquela classificação deixaria supor, como esta que dá conta da prisão pelas autoridades suecas de «17 (militantes) comunistas (suecos), acusados de terem provocado a explosão de dois comboios que transportavam tropas alemãs para a Finlândia, no momento em que estavam parados numa estação sueca.» O conteúdo da notícia é bem mais interessante do que aquilo que o relato seco dos factos deixa transparecer. Torna-se evidente que, com a invasão alemã, os soviético accionaram as redes dos partidos comunistas "irmãos" - neste caso o sueco - para o desenvolvimento de acções clandestinas que sabotassem o esforço de guerra alemão. É ilegal, mas é tão ilegal quanto o facto de que a movimentação de tropas alemãs pelo seu território se tratava de uma violação consentida pelo governo sueco da sua própria neutralidade! Ou seja, e embora o jornal não o expressasse, ficavam todos muito mal na fotografia. Mas não seria o governo sueco, por muito social-democrata que fosse, que iria criar dificuldades a uns alemães que então pareciam em vias de ganhar a guerra. A história da neutralidade sueca durante a Segunda Guerra Mundial contém muitos pormenores manhosos como este. O que eles não tiveram, ao que me consta, foi um professor Fernando Rosas e uma escola de historiadores para apreciar os acontecimentos com a parcialidade política que por cá se pratica.

AS TRADICIONAIS NOTÍCIAS ESTIVAIS SOBRE A DESCOBERTA DE ÁGUAS ESPACIAIS

É uma tradição. Por ser Verão (deve ser do calor) que, para refrescar, se regista uma quase compulsão jornalística para ir descobrir a presença de água noutros corpos celestes. Durante uma década, como aqui me fartei de gozar no Herdeiro de Aécio, o local era a Lua, onde todos as anos se redescobria água. Mas o mais irritante (e cientificamente medíocre) nem era essa insistência ser repetitiva: era o facto de que o anúncio da existência da descoberta de água na Lua ser feito sem qualquer contexto, nomeadamente esclarecendo que a concentração dessa água era 100 vezes inferior à que existia no deserto do Sahara na Terra(!). Assinale-se que a moda da temporada é a de viajar para longe da nossa Lua, ultrapassando Marte (que também tem água!), até às paragens das Luas de Galileu.

27 julho 2021

A ARITMÉTICA EMPOLADA DAS CATÁSTROFES

A 24 de Junho passado, portanto há pouco mais de um mês, um condomínio de luxo em Miami, na Florida, Estados Unidos, colapsou a meio da noite. Durante dias foi um dos assuntos a dominar a actualidade noticiosa mundial. Não vale a pena tornar a detalhá-lo, apenas relembrar o que então se escreveu sobre o número de vítimas, a grande maioria das quais haviam desaparecido debaixo do entulho. Os números que se publicavam cinco dias depois da catástrofe (notícia da esquerda acima), portanto já consolidados depois da confusão inicial, apontavam para um numero parco de cadáveres encontrados até aí (12), mas também para um número muito mais substancial de desaparecidos (149). Portanto, tudo apontaria para uma expectativa de vítimas a rondar as 160, se não se registassem aqueles casos milagrosos de sobreviventes entre os destroços. Infelizmente, não os houve. Ontem, a identificação da última vítima (notícia da direita), depois de uma prolongada e cuidadosa remoção dos escombros, pareceu pôr termo ao ciclo noticioso a respeito do acidente. Todavia, a questão chocante, que é tratada como um detalhe de que a comunicação social não tem que prestar contas ao público, é que o número de vítimas se ficou por um pouco menos da centena (98)! Por muito trágico que tenha sido o número de vítimas provocadas pelo colapso do edifício, alguém se havia enganado escabrosamente ali. Empolamentos de mais de 60% são relevantes em quaisquer circunstâncias e não apenas naquelas que não questionem a (in)competência dos jornalistas. (Outra hipótese, desagradável de alvitrar sequer, é que a incompetência seja de outros e subsistam 60 cadáveres por debaixo dos destroços em consequência da negligência do trabalho dos bombeiros...)

O PLANO QUE AINDA ESTÁ POR CONCLUIR

27 de Julho de 1946. O secretário de Estado norte-americano James F. Byrnes anunciava em conferência de imprensa em Washington que estava «concluído o plano para a partilha da Palestina». A História não se mostra muito simpática para Byrnes, que, aliás, só ocupou aquele cargo por ano e meio sob a presidência de Harry Truman, mas, neste caso, há que ser indulgente para com o seu optimismo ingénuo, que se veio a mostrar prematuro em - pelo menos - 75 anos. Ou, pelo menos, reconhecer que planos houve muitos: o que se tornou difícil foi implementá-los. À data, os técnicos batalhavam com os mapas da Palestina que mostravam a propriedade da terra em 1945 (ao centro - verde para árabes e vermelha para judeus) e também avaliavam as estimativas da população residente em 1946 (à direita - mais escuro para os judeus e mais claro para os árabes). A razão para a ingenuidade de Byrnes radicará provavelmente no parágrafo da notícia que sublinhei: «...esse plano tinha o apoio unânime dos delegados britânicos e americanos à conferência de Londres e fora igualmente aprovado pelo governo britânico.» Não se mencionam os árabes nem os judeus... Talvez devesse.

26 julho 2021

SETE LUGARES...

Uma coisa é garantida: se Portugal tivesse subido os mesmos sete lugares, neste ou até mesmo noutro qualquer ranking (rankings de que normalmente nunca antes ouvimos falar...), o destaque noticioso que o Público lhe daria seria completamente outro, bem diferente do do centro da primeira página. Aliás, apetece repegar os dizeres do título (Portugal cai sete lugares no ranking da inovação e inverte trajectória de subida), para pedir - hipoteticamente - aos responsáveis do jornal para irem aos arquivos mostrarem-nos com que destaque haviam noticiado no passado a trajectória de subida... Googlando o assunto (o ranking da inovação) e a publicação (o jornal Público), a impressão que recolho é que nem se pode falar em destaque, porque nem notícias sobre o tema terá havido no passado*. Ou seja, quando a classificação de Portugal sobe, o assunto nem é notícia, quando desce, vem logo para a primeira página! Até à aparição da concorrência das redes sociais, estaria estabelecido o axioma entre o jornalismo português - transmitido de veteranos para novatos - que o público adorava notícias em que se dissesse mal do próprio país e/ou das próprias instituições: Só neste país! - como no refrão da canção de Sérgio Godinho. O problema (e a ironia) é que, como aqui faço, as redes sociais se apropriaram dessa apetência para se ser auto-flagelatório, tomando agora por alvo a própria comunicação social tradicional que consagrou a prática. E desse dizer mal, desse escárnio e mal dizer, já o jornalismo português parece não gostar, por muito que, como acontece neste caso, as críticas tenham toda a razão de ser. Ou, escrito de outro modo, se as notícias tendem a destacar que o país é uma merda, a sua comunicação social está à altura do que o país é.

* Ainda no mês passado, noticiou-se que «Portugal subiu para 36º lugar num outro ranking qualquer (o da competitividade...), mas o facto não terá interessado de todo ao Público, que nem o noticiou.

25 julho 2021

COMO TRAQUES SONOROS QUE SE SOLTAM NA CASA DE BANHO

Leia-se o que escrevi abaixo sobre Espanha e perceba-se que, visto de fora, aquilo que por cá grassa enforma dos contornos de um fim de ciclo, falho de ideias e de dinâmica política na sua substância interior, mas ainda protegido pelas anteparas de um dispositivo comunicacional que marca os ritmos e os temas do que é publicado e discutido. Ninguém se atreve, no exemplo do destaque acima feito ao discurso do primeiro ministro, a perguntar a António Costa em que consiste concretamente a «libertação total da sociedade» que ele promete - sem prometer, já que só se «pode», não é garantido... - promete que se «atinja no final do Verão». De que aspectos precisos se revestirá essa «libertação»? É uma frase que, aposto, escreveram para ele dizer mas, quanto a conteúdos, António Costa não esclarece e, para além disso, não há condições - nem haverá jornalistas atrevidos... - para lhe pedir esclarecimentos a respeito do que dissera. Estas proclamações não significam nada, e só subsistem indisputadas porque costumam ser pronunciadas em ambientes mediáticos controlados. Estão, para a ciência política, como aqueles traques sonoros que se soltam na casa de banho: é verdade que provocam ressonância, mas não temos que nos preocupar com as suas repercussões... A analogia é cómica mas as consequências são graves: convencem os protagonistas políticos no poder que a ocupação do espaço mediático os perpetua naquele posto por si só.

CARTA DE ESPANHA*, ENTREGUE EM MÃO PELA UPS

Viajar pelo estrangeiro, especialmente em tempo de pandemia, é sempre enriquecedor. Depois de um pouco mais de uma semana na Andaluzia, em que me alojei em quatro estabelecimentos hoteleiros distintos, um conjunto que foi complementado por uma visita indesejada a umas urgências de um hospital, convém frisar que, quanto à importância que por ali se atribui à questão da covid, ela se pode consubstanciar no número de vezes que me solicitaram o por cá tão famoso certificado de vacinação digital: Zero. Nem sequer no hospital... Nesta era em que se tecem loas à globalização, afigura-se-me transparentemente claro que nem tudo se globaliza. O destaque das questões inerentes e decorrentes da pandemia são em Espanha uma fracção daquilo a que aqui assistimos, sobretudo se o avaliarmos pelo que é noticiado na comunicação social. Por lá, o almirante não teria sorte nenhuma em aparecer nas pantalhas, por muito que a herança do franquismo tenha lá deixado um respeito reverencial um pouco bacoco a respeito das altas patentes militares. Na comunicação social, ouvimos falar de outros assuntos, que tem a incomodativa característica de não os vermos discutidos por cá, apesar da semelhança da situação social e económica que os dois países não apenas atravessam como, sobretudo, irão atravessar no futuro. Está em curso, por exemplo, uma acesa disputa entre as comunidades espanholas quanto à repartição entre si (e com o governo central) dos fundos europeus para a recuperação depois da fase da pandemia. Eu bem sei que disputar a alocação do dinheiro não é mesma coisa que mostrar que se sabe o que se fará com ele, mas o contraste não podia ser maior com aquilo a que assistimos em Portugal onde António Costa e o seu governo passam o tempo a encher a boca com a bazuca sem que dêem mostras de fazer a mínima ideia de como a repartir e em que áreas a aplicar. Aqui a bazuca é referenciada como algo muito valioso - como se fosse um espólio sacado de Bruxelas - sem que se concretize em que consiste a valia...
Outra notícia em que descubro um Pedro Sánchez prospectivo e em busca de soluções - que contraste com a vacuidade em torno de António Costa - é numa viagem aos Estados Unidos procurando tranquilizar e captar capitais norte-americanos para o financiamento da economia espanhola. Foi uma visita semi-oficial (veja-se o cabeçalho que insiro) e Sánchez nem sequer foi à Casa Branca para se encontrar com o presidente Joe Biden e, por isso, a visita terá passado fora do radar da comunicação social norte-americana e, por arrasto, da portuguesa. Diga-se que há quem considere que a viagem foi um completo fiasco, mas o que aqui considero importante é que são estes assuntos que vejo a ser destacados na comunicação social e não as rupturas de fornecimento de vacinas ou as conclusões dos comités de sábios sobre quem vacinar. Claro que em Espanha se acompanha o ritmo de vacinação, mas não o transformaram num desígnio nacional! Suspeito que o que acontece em Portugal, nomeadamente quando ao padrão de atenções dispensada pela comunicação social, não é por acaso e não é inocente. Agora, quanto ao efeito da pandemia no quotidiano, a diferença não é grande. O uso da mascarilha (como por lá é designada) convencionou-se, com toda aquela sua ritualização acompanhada de ridículos, como as máscaras repuxadas para o pescoço e para o queixo ou o funcionarito que nos chama a atenção em voz alta para a sua falta, nuns claustros em que não estava mais ninguém e ele a uns 10 metros de nós(!). Igual. O país profundo e rural também. Parámos numa povoação de beira de estrada discreta no meio da Extremadura. Dois cafés gémeos que não devem concorrer entre si. À porta de cada um deles, destacados, autoritários, cartazes impondo a obrigatoriedade do uso de mascarilhas no estabelecimento! Lá dentro, ninguém mas mesmo ninguém as usava. O contraste com os urbanos a que estávamos acostumados, é que ali praticamente ninguém a envergava ao pescoço, ou no cotovelo ou no antebraço. Ali, ¡se cagavan en la leche, coño!
* Carta de Espanha era o título de um velho programa de televisão, com mais de cinquenta anos, quando Espanha representava algo de exótico. A referência à UPS é porque hoje praticamente ninguém envia cartas. E o filme Cast Away com Tom Hanks propiciou uma enorme publicidade à rival FedEx...

23 julho 2021

¡TRANQUILOS!

Cena da Espanha andaluza: um grupo de três clientes com sacos de compras sai de uma loja da Springfield (precisamente a acima fotografada) e a sua passagem desencadeia uma polvorosa do alarme. Continuam pela rua conversando entre si como nada se tivesse passado, os passantes não reagem, nem sequer em olhares, e também ninguém sai da loja procurando inquirir o que desencadeara o disparo do alarme. Nunca assistira a uma cena que me transmitisse de forma tão abrangente e imediata o conceito andaluz de ¡tranquilidad!

UMA INUSITADA «CONVERSA EM FAMÍLIA» NO ESTIO DE 1971

23 de Julho de 1971. Ao serão de há 50 anos tinha lugar na RTP uma singular, talvez a mais atípica, conversa em família de Marcello Caetano. Como se percebe escutando-a, o processo de revisão constitucional atrasara-se, obrigara a uma sessão extraordinária da Assembleia Nacional que se iniciara a partir de meados de Junho de 1971 entrando pelo mês seguinte, o que tornara o Verão de 1971 anormalmente tépido para o que era costume num regime já muito habituado a certos rituais, a suscitar a presença do presidente do Conselho nos ecrãs quase a meio de um Estio tradicionalmente plácido. Recomenda-se a quem não o conheça, a assistir a um pouco da conversa em família para lhe apreciar o estilo, de uma outra época, de um outro século. Com a duração de uma meia hora e preenchida completamente por um monólogo de Marcello Caetano a fazer valer os seus dotes didáticos de professor académico, o conteúdo da conversa que se pretendia íntima com o espectador, a complexidade de algumas passagens do que é explicado, ao nível de uma aula de faculdade de Direito, justificaria muito mais as explicações ulteriores dos Paulos Baldaia ou dos Ricardos Costa da actualidade. Mas nesse tempo não havia tais explicações mesmo quando pertinentes, já que não se pressupunha que a audiência fosse estúpida por defeito, muito menos havia estrelas do comentário televisivo. Mas, mais do que proceder a uma análise comparativa sumária dos procedimentos regimentais entre alguns parlamentos da Europa ocidental, o que terá tornado memorável esta conversa em família em particular, para além da altura do ano em que foi emitida, foi o seu alvo político: a denominada ala liberal. É que, para além do projecto canónico com o patrocínio governamental, houvera mais dois outros projectos de revisão da Constituição em discussão, de origens das franjas reformistas do regime. E, por essa vez, um parlamento que era conhecido pelo seu monolitismo e pelo carácter rígido da coreografia das suas sessões ter-se-á animado com os underdogs a granjearem as simpatias decorrentes do capital de queixa de quem joga as regras do jogo e o perde porque elas estavam viciadas desde o começo. A condescendência e menorização de que Marcello Caetano dá mostras nesta conversa em família em relação àquilo que seria a oposição possível no quadro da abertura do regime (a denominada a Primavera Marcelista), acabou por lhe assentar muito mal. Marcello Caetano não estava a ser gracioso na forma como vencera um desafio que as elites de uma outra geração (hoje octogenários) não concebera para ser assumido pessoalmente pelo chefe do governo. Para muitos daqueles que acompanharam e perceberam aquela pequena meia hora de conversa do presidente do Conselho, a Primavera terminara naquela noite quente de Verão...