01 junho 2020

O «ÓRFÃO» E O «PADRE AMÉRICO»

Se ainda mantenho a conta de facebook é apenas pelo privilégio de aceder a comentários e desabafos como o que aparece abaixo. São divertidos, embora eu tenha a impressão que, por muito que se note o desprendimento afectado no desabafo, o divertimento que ele (me) proporciona acabe por ser outro do que o pretendido. Tomando este exemplo do «órfão» que vegeta «à espera de dias melhores», ele seria curial lembrar que, mesmo que ostracizados no PSD e no CDS, continua ainda assim a existir o Observador, a instituição que reúne aqueles que, mesmo que agora não tenham partido, são os «órfãos» dos tempos de Pedro Passos Coelho, «o desejado». José Manuel Fernandes funciona assim como uma espécie de «Padre Américo» de todos estes «rapazes transviados» e o jornal que ele dirige é assim como uma espécie de «Casa do Gaiato».
Quanto àquilo de que o «órfão» se queixa, eu creio que é «uma constante da vida», como escreveu António Gedeão: ainda aqui há seis anos era eu que não me sentia representado no presidente (Cavaco Silva), no governo (Pedro Passos Coelho e Paulo Portas) ou na oposição (António José Seguro, Jerónimo de Sousa, Catarina Martins). Concordo que era frustrante, tanto mais quanto não havia um jornal no panorama editorial português que me propiciasse o consolo que o Observador propicia às gentes saudosas desses outros tempos. Mas são assim mesmo as coisas e há que se valorizar o que se tem.

A PRIMEIRA EMISSÃO DA CNN


1 de Junho de 1980. Foi o primeiro dia de emissão da CNN, um novo conceito televisivo, um canal de televisão dedicado exclusivamente às notícias. Vale a pena prestar atenção à primeira notícia lida pela anchor Lois Hart: o presidente Jimmy Carter fora a Fort Wayne, Indiana visitar o activista dos direitos cívicos Vernon Jordan. Jordan, um afro-americano de 44 anos, encontrava-se hospitalizado naquela cidade depois de, três dias antes, ter sido ferido a tiro com gravidade, vítima de uma atentado à saída de um hotel local (abaixo). Na perspectiva de ver, como se lê abaixo, um líder negro a ser alvo de um atentado, o tempo nem parece ter passado nos Estados Unidos, mas na perspectiva de ver um presidente a visitá-lo na convalescença, aí não haja dúvida que os tempos parecem estar muito mudados...

31 maio 2020

2020 - A «ODISSEIA» NO ESPAÇO (QUE É IGUAL À DE 1965)

Sobre aquilo que representa tecnologicamente o feito reclamado pela Space X, já aqui publiquei em 27 de Maio um poste em que enfatizava que se tratava de uma repetição de algo que fora alcançado há 55 anos! Só isso, tornava logo absurdo e ridículo o embandeirar em arco como o acontecimento foi publicitado nos Estados Unidos, envolvendo a presença do próprio presidente Trump e tudo! Compreende-se a intenção: é preciso tentar distrair as atenções dos americanos, quando se atinge a marca dos 100 mil mortos provocados pela covid-19, quando o número de pedidos de subsídio de desemprego supera os 40 milhões, e quando há 25 cidades americanas onde foi imposto o recolher obrigatório - e não por causa da pandemia. Mas nesta América de Trump consegue-se sempre levar o ridículo um pouco mais adiante. Uma das imagens de marca do presidente em exercício é a de culpar o seu antecessor, Barack Obama, por tudo aquilo em que o possa fazer. Neste caso, seria por ter descurado o financiamento do programa espacial americano que transforma a reedição de uma proeza tecnológica com 55 anos em algo passível de ser destacado (acima). Porém, ontem, quando Trump teria podido culpar Obama por isso e até desta vez tinha razão para o fazer, é que Trump se esqueceu de falar de tal... Mais do que ridícula, a administração Trump está a tornar-se balofa.

PELO NONAGÉSIMO ANIVERSÁRIO DO MANOEL DE OLIVEIRA AMERICANO

31 de Maio de 1930. Clint Eastwood completa hoje 90 anos. Teve uma excelente carreira como actor e realizador de cinema. Mas não precisa de a prosseguir até ultrapassar os cem anos realizando obras-primas atrás de obras-primas. Escrever coisas como «cada filme de Clint Eastwood em que a câmara do realizador filma o actor Clint Eastwood está destinado a ser uma obra-prima.» é, não apenas excessivo, como o ridiculariza desnecessariamente. Que neste dia lhe façam homenagens sim, mas que sejam contidas nos encómios. Já basta o que aconteceu com o cineasta português Manoel de Oliveira (1908-2015) que, dos noventa anos até à sua morte dirigiu nada menos do que quatorze(!) obras-primas, das quais desafio qualquer leitor a mencionar de memória hoje, cinco anos depois da sua morte, o título de cinco delas...

30 maio 2020

O HOMEM POR DETRÁS DO TWEETOGRAMA

Cada vez que a situação interna aperta para Donald Trump, arranjam-lhe mais qualquer coisa para ele dizer a respeito da relação dos Estados Unidos com a Organização Mundial de Saúde. Tantas vezes já se recorreu ao expediente que se descredibilizou e assumiu a aparência de uma novela. Numa semana em que os Estados Unidos superaram as barreiras psicológicas dos cem mil mortos devido à covid-19 e dos quarenta milhões de pessoas a apresentarem pedidos de subsídio de desemprego, aquilo que o presidente tem para dizer pessoalmente numa conferência de imprensa nos jardins da Casa Branca é que está muito chateado com a OMS, e que vai deixar de financiar a organização. Já desconfiávamos, mas também não há direito a que os jornalistas presentes façam perguntas. Que diferença a deste Donald Trump de carne e osso, para o outro Trump do tweet, que insulta, mata e esfola! Para além da palavra holograma, será que existe a palavra tweetograma?...

QUANDO (e não se) A UNIÃO SOVIÉTICA ATACAR O JAPÃO...

30 de Maio de 1945. Duas notícias discretas da última página do Diário de Lisboa desvelam aquilo que serão as intenções futuras da União Soviética em relação ao Japão, países que até aí se haviam mantido numa não beligerância, que contrastava com o que acontecia pelo resto do Mundo. Numa das notícias, oriunda de Washington, esclarecia-se que «nos círculos diplomáticos bem informados» daquela capital se afirmava que «durante a próxima reunião de Truman, Churchill e Estaline (...) será resolvida a data em que a Rússia (sic) entrará em guerra com o Japão»(...também sic). Na outra notícia, essa oriunda de Xunquim (que era então a capital provisória da China nacionalista), lia-se que os jornais locais haviam recebido «a informação de que os russos (sic) estão a concentrar importantes efectivos militares e muito material blindado e motorizado nas proximidades da fronteira da Manchúria». As duas notícias, conjugadas, forneciam uma imagem nítida das intenções soviéticas de atacar o Japão - o que só virá a acontecer daí por mais de dois meses. Já aqui falámos do assunto mas voltaremos a ele por ocasião destes 75º aniversários dos acontecimentos.

29 maio 2020

UMA DAS «VÍTIMAS» DA COVID-19...

...foi a fa...fa...fa...fama súbita de Joacine Katar Moreira que se desvaneceu, assim como aparecera. E ainda bem. Para a próxima, Joacine tem que arranjar outra organização que a patrocine e as gentes do Livre têm que ser mais criteriosas no processo de composição das suas listas de deputados. Ah, e tem que haver eleitores para votarem neles.

POSTAS DE PESCADA...

...especialmente se for cozida, acompanhadas de umas batatinhas e uns verdes, é um daqueles pratos da cozinha tradicional portuguesa que se reveste de um certo cunho quando é ingurgitado e de um outro, mais qualificado, não quando é regurgitado, mas quando é arrotado.

28 maio 2020

A CAPITULAÇÃO DA BÉLGICA

28 de Maio de 1940. Convém não esquecer que, em 1940, esta data de 28 de Maio era a da referência da implantação do Estado Novo de que, neste dia, se celebrava o 14º aniversário. O que só vem trazer significado ao facto de que a notícia da capitulação dos belgas capturou toda a primeira página do Diário de Lisboa daquele dia. Para os leitores do jornal terá sido uma notícia totalmente inesperada. E uma constatação de que a guerra não estaria afinal a correr como a propaganda franco-britânica a descrevera até então. Cumulativamente, o teor do comunicado alemão que anunciava a rendição dos belgas não era de molde a granjear simpatias: «Sob a impressão da eficácia exterminadora das armas alemãs, o rei dos belgas decidiu cessar a resistência insensata e pediu um armistício. O rei aceitou a exigência alemã de uma capitulação incondicional. Assim, o exército belga depôs hoje as armas e deixou de existir. (origem D.N.B.)» Ao ler isto percebe-se que Adolf Hitler teria podido ir inspirar-se à locução de Cícero: «Oderint, dum metuant».

27 maio 2020

COMO TRANSFORMAR EM NOVIDADE UMA «PROEZA» TECNOLÓGICA QUE JÁ TEM 55 ANOS...

cinquenta e cinco anos a separar as duas notícias dos extremos deste poste e, no entanto, elas anunciam o mesmo feito tecnológico: a colocação de dois astronautas americanos em órbita terrestre... Quanto ao facto da SpaceX, que irá ser a responsável pelo lançamento, ser uma sociedade privada, isso é mesmo conversa ideológica, que não tem qualquer pertinência para o assunto. Sociedade privada também a era a Martin Marietta que construiu o foguetão Titan II, que propulsionava a cápsula «Gémeos» de há 55 anos (vídeo abaixo). A corrida espacial foi disputada, do lado americano, por empresas privadas. A agência (estatal!) responsável, a NASA limitava-se a programar, especificar, coordenar e a criar concursos a que essas empresas privadas (Boeing, North American, McDonnell Douglas, etc.) concorriam. Foi com esse material construído por essas construtoras privadas que os americanos chegaram à Lua. A NASA ainda hoje existe, continua a funcionar do mesmo modo, e o logotipo da agência continua ostensivamente visível nas fotografias acima, tanto nos macacões dos dois futuros astronautas como no dispositivo da cápsula que os transportará para órbita.
O que acontecerá de novo é que os Estados Unidos recuperarão a sua capacidade de colocar astronautas em órbita, mas isso dificilmente poderá ser levado à conta de uma proeza. Será antes e apenas a correcção de uma asneira das administrações Bush (2001-09) e Obama (2009-17) que, subfinanciando o programa espacial norte-americano, os deixaram na contingência de depender exclusivamente dos meios disponibilizados pelos russos para a colocação de tripulações em órbita. A propensão (natural) de uma empresa privada (SpaceX) para se promover apenas preenche mais um pouco do absurdo* acima. Em contraste com a exuberância que acima se pode ler, a China testou no princípio deste mês uma nova nave espacial, mas como não publicou fotos, nem fez muito fogo de artifício, o acontecimento passou praticamente desapercebido. Mas o copo cheio do disparate é constituído pela demissão da responsabilidade de quem notícia estes assuntos, quando o faz sem qualquer preocupação crítica, limita-se a republicar o que o pessoal das RP da empresa em causa lhes forneceu. Por muito que a comunicação social se queixe, sobre estes assuntos, que necessitam de conhecimentos prévios superiores à tradicional tudologia, há sempre alguém numa qualquer rede social que aparece a comentar o assunto com mais profundidade do que aquilo que os profissionais fazem. Ainda por cima quando os das redes sociais o costumam fazer de borla.
* O absurdo de promover como excepcional a reedição de uma proeza tecnológica com 55 anos de idade. 

GOLPE DE ESTADO NA TURQUIA

27 de Maio de 1960. Golpe de estado na Turquia. Estávamos num tempo em que os golpes de estado perpetrados pelos militares ainda eram tolerados nos países sob a tutela dos Estados Unidos, desde que, e note-se a redacção dada à notícia acima, se tratasse de criar um período intercalar «até à realização de novas eleições». O problema destas iniciativas costumava ser o grau de liberdade como se realizavam essas eleições prometidas pelos militares. Mas aqui na Turquia e neste caso, pôs-se um outro problema mais imediato: o que fazer com as eminências do regime deposto? (que vemos na fotografia abaixo, da direita para a esquerda: o presidente Celâl Bayar (1883-1986), o primeiro-ministro Adnan Menderes (1899-1961), o ministro das Finanças Hasan Polatkan (1915-1961) , o ministro dos Negócios Estrangeiros, Fatin Rüştü Zorlu (1910-1961), etc.) Num julgamento dinâmico e rápido, realizado em Setembro de 1961 (quando a fotografia foi colhida), todos foram condenados à morte e, com excepção do septuagenário ex-presidente, cuja pena veio a ser comutada, todos foram realmente executados. As execuções foram um desastre de relações públicas da imagem do regime militar turco diante de toda a comunidade internacional. Por todo o Mundo, as cliques militares com ambições de intervir sob qualquer pretexto na arena política perceberam a mudança dos tempos, até - ou sobretudo... - na América Latina. Só ficou mesmo o general Alcazar do Tintin...

26 maio 2020

O LUÍS DE MATOS COSTUMA FAZER A MESMA COISA MAS É COM CARTAS DE JOGAR...

«Isto é do programa do (Paulo) Portas, (ante)ontem, na tvi e respeita a países (...) mais ou menos com a mesma população (que Portugal).» Por acaso, a Bélgica (11,4), a Suécia (10,2) e a Grécia (10,7) não constavam do mapa. Se calhar, porque os dois primeiros países esquecidos por Portas apresentem números quanto ao covid que desalojariam Portugal daquele primeiro lugar do quadro onde Portas o queria exibir. E depois o outro (Luís de Matos) é que faz truques na televisão!

«NYET» - O VETO RUSSO

26 de Maio de 1945. Nas negociações que estavam a decorrer então em São Francisco, a respeito do funcionamento da futura Organização das Nações Unidas (ONU), ficava-se a saber que aqueles que a notícia designava por «Quatro Grandes» haviam chegado a acordo quanto à concessão do direito de veto a qualquer dos países assim considerados: a notícia enumera as «delegações britânica,  norte-americana, russa e chinesa», mas o estatuto de «Grande» também fora reconhecido à França. Cinco países que tinham assento permanente no conselho de segurança da ONU e que, com o seu voto negativo, podiam impedir a aprovação de qualquer resolução emitida por aquele órgão, mesmo que a votação fosse maioritária. Como na notícia se explica, a figura do veto fora uma insistência russa, que se mostrava temente que a composição da nova organização colocasse a União Soviética em posição minoritária quanto à composição de países membros da nova organização. Durante os primeiros anos da ONU, o recurso ao veto pelos russos (soviéticos) foi um expediente tão frequentemente usado por estes, que se tornou recorrente empregar a expressão russa nyet (não) como sinónimo de uma atitude não cooperativa nem colaborante. Entre os vetos russos desses tempos contam-se dois, em Agosto de 1946 e em Agosto de 1947, que nos dizem directamente respeito, quando a admissão de Portugal à ONU nessas duas ocasiões foi vetada por eles. Mas, para aqueles que queiram ver nesse duplo veto fundamentos ideológicos anti-salazaristas, desenganem-se: precisamente nas mesmas duas ocasiões a União Soviética vetou as admissões da Irlanda e da Jordânia...

25 maio 2020

E DE REPENTE... COMEÇA UM TERRAMOTO

Um terramoto foi o que aconteceu ainda ontem à primeira-ministra neozelandesa, Jacinda Ardern, quando ela dava uma entrevista a um canal de televisão. Jacinda transformou-se numa coqueluche da comunicação social internacional (especialmente depois de discursar numa das recentes sessões da Assembleia Geral da ONU, onde protagonizou um significativo contraste com Donald Trump), mas o episódio que o vídeo acima exibe, demonstra o quanto ela tem pinta... e sangue frio. A pinta (muita) e o sangue frio (nenhum) que faltaram ao Chicão quando ele aqui há coisa de dois meses e meio se viu numa situação precisamente idêntica enquanto discursava no Funchal (abaixo). Para aqueles (como eu) que gostam de escrutinar os assuntos até ao pormenor (para estragar o trabalho dos encarregados de arranjar desculpas e obrigá-los a arranjá-las, às desculpas, ainda mais estúpidas e inverosímeis), esclareça-se que o terramoto da Jacinda (5,8 graus na escala de Richter) foi maior do que o do Chicão (5,2). Em contrapartida a expressão do Chicão é visivelmente mais assustada do que a da Jacinda (tipo 2,0 graus na escala da Cueca Borrada). Estes momentos são minudências numa carreira política, mas não se fingem nem se forjam. Estão lá. E é por isso que , por muito que ele venha a fazer, perdura a impressão que o Chicão não vai levar o CDS a lado nenhum.

O INÍCIO DAS TRANSMISSÕES DA PROGRAMAÇÃO DE TV À HORA DE ALMOÇO

25 de Maio de 1970. Como se anunciava acima de véspera, a RTP passava a transmitir durante um novo espaço televisivo durante a hora de almoço, com uma duração aproximada de duas horas (das 12H45 às 14H40, quando começavam as transmissões da telescola, aulas pela televisão, processo que foi recentemente redescoberto por causa da pandemia). O assunto já foi objecto de uma das minhas evocações nostálgicas (TV Nostalgia - 89) aqui no Herdeiro de Aécio, mas trata-se de tópico que não resisto a revisitar. Seja pelo genérico dos desenhos animados de Tintin:
Seja pela possibilidade de ver o próprio primeiro episódio completo da série «Ele & Ela» das 13 e 15 (embora neste caso ele tenha que ser visto, naturalmente, sem legendas).
Seja para recordar a crítica televisiva dessa primeira emissão, publicada no dia seguinte, arrasadora como era então convencional que o fossem todas as críticas de televisão (a fazer lembrar o espírito do comentário de rede social da actualidade).

A EVACUAÇÃO ISRAELITA DO SUL DO LÍBANO

25 de Maio de 2000. Cumprindo uma promessa eleitoral do primeiro-ministro Ehud Barak, o exército israelita evacua todas as posições militares que ocupava no sul do Líbano. As imagens acima exibem o tradicional regozijo exuberante que as populações árabes daquela região tanto gostam de fazer, para satisfação dos operadores de câmara das televisões para ali destacadas. Neste caso, as imagens até são consistentes com o resto. Os israelitas haviam ocupado aquela região-tampão desde a sua primeira invasão do Líbano em 1978 (Operação Litani), já ia para 22 anos. As populações libanesas locais professam maioritariamente o xiismo e eram, por isso, insuspeitas de grandes simpatias pelos ocupantes israelitas, uma antipatia que era, de resto, recíproca. A grande força político-religiosa (e também militar, que naquele país tudo isso está associado) no Líbano meridional era o Hezbollah, apoiado pelo Irão. Contudo, aqueles que Israel consideraria os inimigos prioritários eram a Síria (que também ocupava outra parcela do Líbano) e a OLP. Esta é uma retirada, cuja promoção do facto de ter sido o cumprimento de uma promessa eleitoral de Barak, ilude o problema de que, nem Barak, nem o seu muito mais agressivo rival Ariel Sharon, sabiam o que fazer depois de 22 anos na posse de um território-tampão que só lhe tinha trazido chatices (a começar pelas resoluções da ONU e a acabar nas iniciativas das guerrilhas locais), e nenhuma vantagem substantiva na mesa das negociações. Sem a exuberância dos árabes, a suspeita é que os israelitas também deviam estar muito aliviados, que por ali ninguém dá nada a ninguém se, em alternativa, puder ser vendido ou trocado. E todavia o tempo veio demonstrar que fora uma má opção para os israelitas - em 2006, já eles estavam de volta ao sul do Líbano, só que a realidade militar mudara sobremaneira.

24 maio 2020

OS CAMARADAS DA SEITA RELIGIOSA

24 de Maio de 1990. Num artigo de opinião publicado no semanário Tempo (jornal que irá deixar de se publicar no final daquele ano), o autor compara o comportamento dos comunistas a uma fé fanática e considera o ambiente vivido no PCP como sendo ainda mais retrógrado e menos adaptável às novas circunstâncias do que o da igreja católica. A associação entre o comunismo e uma forma de vivência religiosa, mais do que político-social, não é, como se vê, nada original e tem muitos anos - no caso, comprovadamente trinta. E, no entanto, ainda hoje, os visados (comunistas), cada vez que são menorizados por tal subserviência, assumem um comportamento ultrajado como se nunca tivessem ouvido falar de tal analogia.

23 maio 2020

O FIM DA AUTORIDADE FRANCESA SOBRE A SÍRIA E O LÍBANO

Ainda 23 de Maio de 1945. A reinstalação da autoridade francesa naqueles que haviam sido os seus mandatos no Próximo Oriente (Síria e Líbano) mostra-se mais do que problemática. Os dois países haviam aproveitado o período de extrema fraqueza da França depois da sua derrota de 1940 para ambos ganharem autonomia e até proclamarem a sua independência (1943 e 1944), sob a tutela das tropa de ocupação britânicas que ocupavam os países desde 1941. Com o fim da Guerra em 8 de Maio de 1945, pensara-se em Paris reencetar os programas de autonomia progressiva que haviam sido previsto ainda antes de 1939. Era esquecer cinco anos de acontecimentos decisivos, contar com a colaboração benévola dos britânicos, mais a solidariedade de americanos e russos, e ainda presumir a complacência benévola dos árabes. A França comportava-se como um daqueles seus aristocratas que foram corridos dos seus domínios por ocasião da Revolução de 1789 e que agora regressava a tomar posse dos seus palácios, pretendendo que nada de substantivo se alterara com os anos de ausência. Fica por saber se era ingenuidade ou se era apenas petulância gálica, mas iriam confrontar-se com uma resistência militar que superava a capacidade militar francesa em lhes fazer face - os exércitos coloniais locais haviam-se bandeado em peso (70% dos quadros e 40% dos soldados) para o lado das forças independentistas. Dia 28 de Maio os franceses viriam a receber uma nota americana a respeito da sua política na região e a 31 de Maio seriam os britânicos a exigir que os franceses aceitassem um cessar fogo. Os dias da França no Próximo Oriente estavam contados. Na revanche, nos anos que se seguiram, os franceses iriam cuidar de contribuir para emerdar o mais possível todas as iniciativas britânicas para resolver o problema palestiniano, do qual o Reino Unido iria sair dali por três anos e com o rabo entre as pernas...

A DISSOLUÇÃO DO ÚLTIMO GOVERNO NAZI

23 de Maio de 1945. Desde a data da rendição alemã em Berlim, que pusera fim à Segunda Guerra Mundial na Europa, pairava no ar o espectro da indecisão quanto ao que fazer com o governo alemão que sucedera ao de Adolf Hitler. Sediado no porto de Flensburgo, no Norte da Alemanha, junto à fronteira com a Dinamarca, aquele governo era encabeçado pelo Reichspraesident Karl Doenitz, a ocupar um cargo para o qual fora nomeado pelo próprio Adolf Hitler no seu testamento. Seguiam-se os titulares das pastas, de que o mais conhecido era Albert Speer, o ministro do Armamento de Hitler que transitara para a nova equipa governativa. Verdade seja que a capacidade de actuação da equipa que se reunia todos os dias pelas 10H00 era nula numa Alemanha fortemente destruída e onde os exércitos invasores haviam assumido as responsabilidades administrativas. Mas punha-se sempre a questão do carácter simbólico de tal equipa governamental, por muito que ela nada tivesse para fazer. Neste dia de há precisamente 75 anos, Doenitz, Speer, e o general Jodl, que ficara com o comando militar dos restos da Wehrmacht, foram convocados pelo general norte-americano Lowell W. Rooks para comparecerem logo pela manhã no paquete alemão Patria (que havia sido requisitado pelas autoridades aliadas) e ai foram presos. Exibidos perante os correspondentes da imprensa convocados previamente para o efeito, conjuntamente com eles, foi preso um verdadeiro exército de burocratas fardados, cujas cenas serviram para alimentar o noticiário cinematográfico dos aliados em mais uma humilhação dos alemães vencidos (acima).

22 maio 2020

UM FESTIVAL RTP DA CANÇÃO FORA DA DATA DO COSTUME

22 de Maio de 1970. Por razões que já expliquei num poste publicado já há muitos anos (pode lê-lo aqui), o tradicional festival RTP da canção teve lugar em finais de Maio. Venceu a canção nº 6  - Onde vais rio que eu canto, mas desta vez limito-me a assinalar o cinquentenário do concurso e a publicar os vídeos de todas as canções concorrentes, sem a adição da crónica subsequente - e frequentemente maledicente - de Mário Castrim no Diário de Lisboa.
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