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12 outubro 2018

A ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS DO MÉXICO

12 de Outubro de 1968. Abertura oficial dos Jogos Olímpicos do México. Embora já em 1964, nos jogos de Tóquio, tivesse havido alguns (poucos) eventos olímpicos que haviam sido transmitidos pela televisão para todo o Mundo, em directo e via satélite, foi só em 1968, nestes jogos olímpicos do México e com o desenvolvimento exponencial das telecomunicações por satélite, que a transmissão desses acontecimentos desportivos em directo se veio a banalizar. Por uma primeira vez, e como tão bem chamava a atenção este programa de época da BBC, para acompanhar ao vivo a programação dos jogos era preciso levar em conta a diferença horária de 7 horas existente entre Londres (e Lisboa) e a cidade do México.

E, transmitido em directo, o exercício de uma ginasta não desaparecia no meio da montagem de um documentário genérico sobre a Olimpíada. Percebeu-se que várias modalidades desportivas podiam ser um espectáculo televisivo em si.

27 agosto 2018

A BATALHA DE 27 DE AGOSTO, CONHECIDA DO OUTRO LADO DA FRONTEIRA POR «AMBOS NOGALES»

A batalha que se evoca travou-se a 27 de Agosto de 1918, há precisamente cem anos, mas a história que a explica começou mais de 60 anos antes, em 1853, quanto os Estados Unidos, representados pelo diplomata James Gadsden compraram ao México uma parcela de território de 78.000 km² (área acima assinalada a amarelo) por 10 milhões de dólares. O processo recebeu o nome de Aquisição Gadsden (Gadsden Purchase). O que interessa para a continuação da história é que o novo traçado das fronteiras, traçadas a esquadro no mapa, veio a dividir uma pequena e remota povoação com o nome de Nogales. Passou a haver a Sul uma Nogales mexicana, no estado de Sonora, e a Norte, uma Nogales norte-americana, no estado do Arizona. E uma fronteira internacional a separá-las, como se pode observar pela fotografia que se segue, tirada por volta dos finais do século XIX, em que a zona de fronteira aparece claramente demarcada por uma larga avenida, onde no lado esquerdo se está no México e no direito nos Estados Unidos. Instalaram-se depois uns marcos centrais assinalando o local preciso por onde passava a fronteira, mas, até 1918, não existiu propriamente qualquer barreira física que impedisse os habitantes de cada lado da cidade de se deslocarem ao outro.
Vinte anos passados, em 1918, a logística da separação da cidade ainda era essencialmente a mesma, mas a atitude dos nogalenses de cada lado mudara substancialmente. Vivia-se um decénio de grande instabilidade revolucionária no México e grande parte dessa disputa política, uma verdadeira guerra civil, travava-se a tiro. Alguns desses combates transbordaram para o lado norte-americano da fronteira. E os Estados Unidos reagiram a isso invadindo o México em busca dos prevaricadores, mas sem qualquer concertação diplomática com as autoridades mexicanas, desencadeando a hostilidade destas. Para piorar o ambiente, a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial em 1917 alterara a economia local, nomeadamente os tradicionais fluxos de contrabando que contribuem sempre para a prosperidade destas cidades fronteiriças. Produtos norte-americanos muito apetecidos no México eram agora racionados. O incidente que está na origem da suposta batalha envolve precisamente dois funcionários da alfandega: o do lado americano queria ainda revistar um passante mexicano quando este já se encontrava em zona neutra de regresso; o seu homólogo mexicano disse ao compatriota para ignorar a ordem. Uma das sentinelas do posto alfandegário americano terá então disparado um tiro de aviso. O transeunte, pensando-se visado, atirou-se para o chão. O funcionário do lado mexicano, pensando-o atingido, ripostou em direcção à sentinela, matando-a. O funcionário do lado americano matou o seu homólogo e em menos de nada, havia uma fuzilaria dos dois lados daquela avenida.
A fuzilaria, começada pouco depois das 4 da tarde, durou cerca de três horas e meia até quase ao pôr do sol, o suficiente para que uma das vítimas do tiroteio tivesse sido o presidente da câmara local (mexicano), que viera de lenço branco tentar pôr termo aos combates. No total morreram 4 militares e 2 civis do lado americano, enquanto os mexicanos reconheceram 15 mortos do seu lado. Os militares norte americanos reclamaram ter causado quase dez vezes isso: 130 mortos. Há um século, e tendo em conta a referência dos milhares de baixas que então se ouviam nas frentes europeais, ainda não devia ser politicamente desaconselhável dar uma imagem de se ser (desnecessariamente) carniceiro. Na sequência da batalha foi definitivamente construída uma cerca separando a cidade, cuja aparência (acima uma foto de 2011) pode ser um pouco enganadora. A cidade mexicana (à esquerda), que conta hoje com 234.000 habitantes, é onze vezes mais povoada do que a sua irmã do outro lado da fronteira, com os seus 21.000 habitantes. Com o assunto do Muro com o México a ser uma das coqueluches do discurso de Donald Trump, até me surpreende que esta administração não se tenha aproveitado deste centenário para, evocando o acontecimento, entusiasmar as suas hostes, amesquinhar os mexicanos, e arranjar mais uns sarilhos internacionais como o presidente Trump tanto gosta.

Adenda: Está explicado. Não vinha nada a calhar que Trump falasse do assunto quando, no mesmo dia, pretendia apresentar um novo acordo de tarifas com o México.

18 março 2018

A EXPROPRIAÇÃO DOS PETRÓLEOS MEXICANOS

18 de Março de 1938. Há oitenta anos, num discurso radiodifundido, o presidente Lázaro Cárdenas (1895-1970) anunciava a expropriação da indústria petrolífera no México, que fora até aí detida por empresas de capital maioritariamente norte americano (de que a maior era a Standard Oil de New Jersey) mas também capital anglo-holandês (uma sucursal da Shell). Nesses anos, quando as jazidas da Arábia Saudita apenas haviam acabado de ser descobertas, o México era o sexto produtor mundial de uma commodity onde os Estados Unidos detinham 60% da produção mundial. O que podia ter sido um episódio canónico, em que as forças do nacionalismo se enfrentavam contra o internacionalismo capitalista, acabou por não o ser. Não que as reacções das empresas expropriadas fossem distintas da hostilidade expectável: em conjunto, as multinacionais adoptaram um conjunto de medidas tendo por objectivo dificultar a actividade da nova empresa nacional de petróleos, a Pemex. Contudo, tanto o presidente Roosevelt, quanto britânicos e holandeses em menor destaque, tiverem que contemporizar, reconhecendo que, quanto maior a hostilidade demonstrada para com os mexicanos, mais os induziriam a aprofundar laços comerciais com alemães e italianos, manobra que se revelaria contraproducente numa época em que a tensão já aumentava na Europa (Hitler acabara de entrar em Viena). No quadro da grande disputa ideológica do século XX, este episódio é desconhecido porque se mostra imprestável para a propaganda dos dois lados. Porque houve razoabilidade das partes, esta derrota do capitalismo não foi uma vitória do comunismo. Dali por um pouco mais de vinte anos em Cuba, vai-se ver como é possível fazer-se diferente...

Adenda:
Se no México a notícia valia (naturalmente) o exclusivo da primeira página, em Portugal a questão valia o destaque que se pode apreciar numa página interior.

19 junho 2017

O FUZILAMENTO DO IMPERADOR MAXIMILIANO

Neste mesmo dia de há 150 anos o imperador Maximiliano I de Habsburgo (1832-1867) era fuzilado no México. Não chegou a completar 35 anos. Terminava dessa foram trágica uma aventura que já aqui contei neste blogue há uns dez anos. Para a relembrar sem me repetir, eis essa mesma história, agora recontada em quatro pranchas de Banda Desenhada.
O fuzilamento de Maximiliano foi tema de um interessante quadro do pintor francês Édouard Manet (1832-1883) que se pode apreciar abaixo. Mais do que pelo rigor, a pintura destaca-se pelo seu simbolismo, o soldado que fica para trás recarregando a sua espingarda tens as feições e o bigode de Napoleão III que Manet considera o responsável por aquele desfecho trágico.
E como que a corroborar que a aventura mexicana havia sido quase exclusivamente uma questão francesa, embora protagonizada por um príncipe austríaco demasiado ingénuo, até mesmo a única fotografia do fuzilamento é da autoria de François Aubert (1829-1906), outro francês. Nela percebe-se que Maximiliano estava do lado direito do paredão e não ao centro como acima o representam.

28 maio 2017

AS BODAS DE DIAMANTE DE UM ACONTECIMENTO QUASE TOTALMENTE IRRELEVANTE

A 28 de Maio de 1942 o México declarou guerra aos países do Eixo. Quem apreciasse o cabeçalho da edição do jornal daquele dia não adivinharia que nos três anos seguintes, até ao término da Segunda Guerra Mundial em 1945, a participação militar do país resumir-se-ia a um esquadrão de aviação de caça com 25 aparelhos e 30 pilotos, num total de 300 efectivos engajados. É daqueles casos em que o melhor é mesmo valorizar a atitude.

15 março 2016

O DIA EM QUE OS ESTADOS UNIDOS PRECISARAM DE INVADIR O MÉXICO

Há precisamente 100 anos, por instruções do presidente Woodrow Wilson, as tropas destacadas nas áreas fronteiriças do Texas, Arizona e Novo México, sob o comando do general John J. Pershing, cruzavam a fronteira e invadiam o México em perseguição dos guerrilheiros de Pancho Villa que, nos meses prévios, haviam realizado raids destrutivos em várias povoações fronteiriças dos Estados Unidos, causando um total de 34 mortos entre militares e civis. O cartoon que se exibe e que foi publicado naquela época, poderá ter cem anos passados um significado irónico quando se contrasta aquele arame farpado por cima do qual o Tio Sam pula com as proclamações do candidato Donald Trump a respeito do muro que irá erigir a expensas do México, se eleito. Além disso, e para quem conheça o desfecho da incursão norte-americana, há uma outra ironia que se pode extrair desta evocação (embora dessa Trump esteja inocente): é que durante os onze meses seguintes cerca de 10.000 soldados norte-americanos andaram a perseguir a trupe de 500 guerrilheiros de Pancho Villa pelo México fora; chatearam sobremaneira o governo mexicano mas falharam grosseiramente quanto ao objectivo de capturar o chefe rebelde. Propositadamente esquecido, este episódio parece-me ser um daqueles exemplos premonitórios quanto à falta de vocação dos norte-americanos para se engajarem em guerras assimétricas (os romanos poder-lhes-iam explicar como, dois mil anos antes e muito mais discretamente, se tinham visto livres do Viriato...).

17 fevereiro 2014

A BATALHA DA COLINA 3234, A CAMERONE SOVIÉTICA

Se o avaliarmos apenas em termos das consequências, Camerone foi um episódio militar menor de um acontecimento histórico menor, que está hoje completamente esquecido: a intervenção francesa no México (1862-67) – que eu já me referi neste blogue com um desenvolvimento mínimo. Mas aquela pequena batalha travada em 30 de Abril de 1863 entre algumas dezenas de legionários e cerca de dois milhares de insurrectos mexicanos que os cercavam ajudou não apenas a estabelecer a reputação da Legião Estrangeira francesa, como veio criar um formato de batalha táctica cuja narrativa se prestava a galvanizar os exércitos envolvidos em acções contra-subversivas no estrangeiro: apresentando-os em situações em que estavam numa inferioridade numérica esmagadora, e onde o punhado de combatentes expedicionários via-se obrigado a adoptar uma prolongada defesa estoica em algum local esquecido da Terra até deixarem de se encontrar em condições de resistir. No episódio de Camerone, para exemplo de coragem, os cinco legionários que ainda subsistiam no final das dez horas de batalha (dos 62 originais), quando já não lhes restavam munições para disparar, decidiram atacar à baioneta!
O tema foi repetidamente repegado nos 150 anos que se seguiram embora a evolução das mentalidades obrigasse a fazer algumas alterações. Ao desfecho trágico passou a preferir-se o final feliz, consagrado pelos filmes de Hollywood. Já aqui me referira à Batalha da Colina 488, travada entre norte-americanos (poucos e bons) e norte-vietnamitas (muitos e maus) em Hiêp Dúc no Vietname central em Junho de 1966. Aí, os fuzileiros sobreviventes cercados – a maioria deles feridos – foram (felizmente) resgatados no fim. Agora com esta batalha da Colina 3234 no Afeganistão, para além de se constatar que os progressos da cartografia militar retiraram muita poesia à forma de baptizar as batalhas, descobre-se que os soviéticos durante a sua invasão/permanência internacionalista no Afeganistão (1979-89) também tiveram a sua quota-parte deste género de pequenas batalhas intensíssimas, onde a descrição se circunscreve deliberadamente aos aspectos tácticos envolventes que levaram ao combate e à bravura das acções individuais dos combatentes, o que se torna bizarro quando nos lembramos que, com soviéticos, deveríamos estar perante verdadeiros marxistas-leninistas para quem a doutrina torna indispensável, antes de tudo, validar a justeza das razões que opunham os contendores...
Em Novembro de 1987, o 40º Exército Soviético encarregue das missões de contra-subversão no Afeganistão desencadeou a Operação Magistral, destinada a reabrir a estrada que ligava a cidade de Gardez à de Khost (situada mesmo junto à fronteira com o Paquistão), que havia sido cortada pelos mujahidin desde há vários anos, obrigando a que a cidade tivesse de ser reabastecida pelo ar. Para cobrir a coluna blindada que forçaria a reabertura, várias unidades aerotransportadas iam ocupando antecipadamente as posições mais elevadas, para cobrir tacticamente a coluna que progredia. Numa dessas operações, a 7 de Janeiro de 1988, uma desgastada (mas experimentada) companhia de pára-quedistas composta por 39 combatentes, foi desembarcada sobre uma colina designada pela sua altitude (3234), de onde se podia controlar uma extensa secção da estrada em disputa. Mas pouco tempo depois da chegada a unidade foi atacada por uma força bem armada de várias centenas de mujahidin que os pretendeu desalojar daquela posição. Note-se como as condições meteorológicas devem ter sido particularmente hostis para os dois antagonistas: estava-se no pico do Inverno e a mais de 3.000 metros de altitude. Em franca superioridade numérica, entre as 15H30 da tarde do dia da chegada e a alvorada do dia seguinte os mujahidin montaram 12 ataques (inconseguidos…) às posições sobranceiras ocupadas pelos soviéticos. No final, a 9ª companhia do 345º Regimento sofrera 6 mortos e 28 feridos e os sobreviventes tinham uma saga para contar (abaixo). Todos foram condecorados.

Importantes apenas para as pequenas histórias da História, importa lembrar que os dois episódios referidos e o que foi narrado terminaram todos com a derrota dos respectivos protagonistas: franceses no México, norte-americanos no Vietname, soviéticos no Afeganistão. Apenas em jeito de curiosidade adicional, pode-se perguntar se as forças armadas portuguesas terão tido episódios que se assemelhem aos acima referidos e narrados. Não tenho conhecimento de nenhum. A ter havido, o Teatro de Operações em que me parece mais provável que isso possa ter acontecido será o da Guiné. Mas no geral, a desproporção do poder de combate e da qualidade do treino entre os militares portugueses e os guerrilheiros era tal que os confrontos não se podiam prolongar por muitas horas.

29 março 2011

SOROR JOANA INÊS DE LA CRUZ

Entre as grandes figuras de cultura do Século XVII de origem ibero-americana, vale a pena contar os aspectos exóticos de Soror Joana Inês de La Cruz (1648-1695). Joana foi uma das filhas de uma relação entre um militar de origem basca destacada no México e de uma crioula – note-se que na América espanhola a classificação de crioulo se refere a alguém de ascendência exclusiva ou predominantemente europeia nascida localmente.

Por muito que eles tenham vindo a ser embelezados posteriormente, os relatos da sua infância parecem demonstrar que Joana era aquilo que actualmente se designa por uma criança sobredotada. E Joana nascera numa família (materna) que lhe podia propiciar os meios para satisfazer a sua curiosidade intelectual – terá aprendido por si a ler usando os livros da biblioteca do avô, adereço que naquele tempo não estava ao alcance de todos.

Por ter nascido numa sociedade colonial como a do México, a condição de ilegítima de Joana não se reflectiu num rebaixamento do seu estatuto social como teria acontecido certamente em Espanha. Foi aceite na Corte do Vice-Rei onde impressionou a ponto de se tornar dama de companhia da Vice-Rainha. Forçada a ser autodidacta (os estudos superiores estavam vedados às mulheres), veio a tomar votos na Ordem das Jerónimas.

Era difícil que Joana descobrisse uma alma gémea naqueles meios, que também não lhe impunham casamento: sua mãe tivera seis filhos de duas ligações sem se casar, uma das suas irmãs também. As condições em que a Ordem a autorizava estudar, escrever e receber visitas eram praticamente as mundanas. Possuía empregadas ao seu serviço. E Joana aceitava encomendas, daí o carácter heterogéneo das suas obras literárias.

Tendo sido excelente em tudo o que fazia, a vida de Soror Joana teve o ingrato resultado de nunca se poder tornar marcante porque a sua figura terá sido demasiado precoce para o tempo em que viveu. Simbólica e significativamente, o retrato pelo qual é mais frequentemente conhecida (acima) só foi pintado 50 anos depois da sua morte. Os mexicanos prestam-lhe a homenagem de a ter a ilustrar uma das suas notas de banco.

26 março 2010

VILLA, ZAPATA E OS OUTROS QUE TAMBÉM MORRERAM CALÇADOS

O período que acabou designado por Revolução Mexicana e que, iniciado em 1910, se prolongou pelos 20 anos seguintes, mais não passou do que uma prolongada Guerra Civil em que se confrontaram múltiplas facções num jogo muito fluído de alianças frágeis entre essas facções. Dos vários dirigentes que a Revolução produziu, os que se tornaram mais conhecidos no estrangeiro foram Pancho Villa e Emiliano Zapata, especialmente depois de se tornaram (nomeadamente o primeiro) personagens de filme. Porém, na história das Revoluções, dificilmente encontraremos personalidades tão contrastantes quanto as dos dois revolucionários, aliados ocasionais, ambos hoje presenças indicutíveis no panteão mexicano.
A fotografia acima foi tirada em Dezembro de 1914 (a Europa acabara de imergir em plena Primeira Guerra Mundial…), no Salão Nobre do Palácio Nacional do México, depois das colunas revoltosas dos dois, conjuntamente com as de mais alguns aliados terem acabado de conquistar a capital. Significativamente, é Villa que, numa pose exuberante, se deixa fotografar usurpando a cadeira presidencial, enquanto Zapata, acompanhado do seu tradicional sombrero pousado nos joelhos, parece assumir uma atitude mais discreta. A vitória dos revoltosos veio mais tarde a ser celebrada com um banquete no Palácio que, milagre das técnicas modernas, até foi filmado! - podemos ver as imagens abaixo.

Apesar de ambos serem oriundos de meios sociais humildes, o filme dos dois líderes a comer rodeados de um luxo a que não estariam habituados reforça a ideia do contraste entre a exuberância de Villa e a reserva timorata de Zapata. Para além dos caracteres, os seus objectivos políticos e estilos eram muito diferentes e os seus percursos não tardariam a divergir, embora os seus destinos acabassem por ser idênticos… Voltando à fotografia mais acima e aos quatro líderes que aparecem sentados (da esquerda para a direita): Tómas Urbina foi assassinado em 1915, Pancho Villa em 1923, Emiliano Zapata em 1919 e Otilio Montaño (de cabeça enfaixada) executado em 1917. Todos morreram calçados

27 junho 2007

BENITO JUÁREZ

Em complemento ao já comprido poste de ontem, vale a pena mostrar duas representações do presidente Benito Juárez – de quem acabei por pouco escrever. Juárez era totalmente de ascendência índia, e os índios representavam o enorme sopé da hierarquizada pirâmide social mexicana. Contudo, como em muitas sociedades dominadas intelectualmente por sacerdotes, também no México a cooptação de jovens de origem humilde mas que se revelassem intelectualmente prometedores também era um possível meio de ascensão social.
Foi o que aconteceu com Benito Juárez, educado a expensas do patrão da irmã (que era cozinheira) quando os pais de ambos morreram e que depois prosseguiu os seus estudos no seminário, até vir a tornar-se num advogado. No entanto, como se percebe pelas diferenças entre o rigor da fotografia mais crua de cima e os retoques mais cuidados da fotografia abaixo, onde os olhos e o resto da fisionomia estão retocados por forma a tornarem-no mais caucasiano, a aparência verdadeiramente popular de Juárez era encarada de uma forma relativamente desconfortável.
A verdade é que, confessando-se conservadoras ou liberais, as elites mexicanas eram unânimes na manifestação do desprezo pelas classes camponesas pobres, mesmo que proclamassem, entre os seus princípios teóricos, a sua libertação. Paradoxalmente, a causa que os membros daquelas classes devem ter abraçado com mais entusiasmo, naqueles tempos, deve ter sido a do imperador Maximiliano. Como acontecia na Rússia czarista, por exemplo, Maximiliano chegou a ser verdadeiramente popular e objecto de devoção entre as massas e, muito possivelmente, teria derrotado Juárez numa eleição moderna, feita por sufrágio universal…

26 junho 2007

MAXIMILIANO & JUÁREZ

Há episódios da História Universal que se conseguem ler como se tratassem de histórias de um bom livro de ficção. Nem é preciso que o autor esteja inspirado para que a galeria das personagens seja preenchida com heróis trágicos, um vilão e verdadeiros momentos de tensão. O episódio que quero destacar aqui é a Intervenção Francesa no México, um episódio que durou de 1862 a 1867, contemporâneo, mas muito menos conhecido do que a Guerra Civil que se travou nos Estados Unidos (1861-1865). Uma palavra final de agradecimento é merecida para o grande produtor de todo o episódio, o imperador Napoleão III de França (1852-1870), de quem aqui já falei, personagem histórica que muito aprecio pelo seu percurso e que considero ser uma espécie de Santana-Lopes-bem-sucedido-à-escala-europeia-no-Século-XIX.
O acto preliminar da história começa em Julho de 1861, quando o governo mexicano resolve suspender os pagamentos externos dos juros dos empréstimos contraídos junto das potências europeias. A decisão afectava (por ordem decrescente de prejuízo) o Reino Unido, a Espanha e a França. Numa decisão muito pouco diplomática, mas muito corrente na época, os três países decidiram enviar contingentes militares para o México, num gesto de reforço de argumentação dos três delegados encarregados de negociar o reescalonamento da dívida com os mexicanos. É que uma das maiores fontes de receitas fiscais dos estados eram os direitos de importação das alfândegas e os europeus ocuparam o porto e a alfândega de Veracruz, cativando as receitas, precisamente no sítio por onde passava a maior parte do comércio do México com o exterior.

De uma gigantesca operação de cobrança coerciva (Janeiro de 1862), a conjugação de vários factores fez com que tudo se transformasse, pela inspiração de Napoleão III (abaixo), os desejos dos conservadores mexicanos e uma grande dose de ingenuidade de um arquiduque austríaco apropriadamente destinado a um fim trágico, num grande enredo romântico. Tanto os britânicos como os espanhóis (que, recorde-se, ainda eram a potência colonial na vizinha Cuba) rapidamente se aperceberam que os franceses se estavam a entusiasmar demasiado e retiraram as suas tropas três meses depois (Abril de 1862). Mas os dados pareciam estar lançados, com os franceses a acreditarem nos seus próprios mitos de que o seu exército, vitorioso da Guerra da Crimeia (1854-1856) e da Guerra da Independência Italiana (1859), era o mais eficiente do mundo.
Essa reputação dos franceses foi completamente posta em causa quando fracassaram na conquista da cidade de Puebla, fornecendo uma vitória moral aos republicanos liberais mexicanos (Maio de 1862). É que, entretanto, a presença francesa acabara por ser utilizada como um factor da disputa (tradicionalmente musculada…) entre liberais e conservadores mexicanos. Mas houve que esperar todo o resto do ano de 1862 para reforçar o corpo expedicionário francês, enquanto o arquiduque Maximiliano (irmão do imperador austríaco Francisco José e genro de Leopoldo I, rei dos belgas) vacilava quanto à aceitação do título de imperador do México que lhe vinha a ser proposto pelos conservadores mexicanos. Entretanto, 1862 havia sido o ano da Guerra Civil Americana em que o Norte obteve a primeira vitória significativa, embora as suas tropas estivessem nessa altura estrategicamente na defensiva (em Antietam, em Setembro).

Em 1863, a campanha foi relançada pelo general Bazaine com os reforços entretanto chegados e que nunca chegaram a atingir, no total, os 40.000 efectivos. As suas tropas capturaram a cidade de Puebla quase precisamente um ano depois do fracasso anterior, após um cerco de dois meses. E em 7 de Junho de 1863 o exército francês entrava triunfalmente na capital, na Cidade do México. Contudo, eloquente do estilo da guerrilha que se travava então no México, data dessa mesma altura (Abril de 1863) o episódio de Camerone, onde uma companhia da Legião Estrangeira francesa se viu cercada por três batalhões mexicanos, com os legionários a baterem-se literalmente até ao último homem como preconizava o romantismo da época (houve apenas 6 sobreviventes – 3 deles feridos – entre os 65 participantes).
É no mínimo bastante engraçado verificar como muitas das advertências naquela época dirigidas aos franceses, quer sobre a insuficiência dos seus efectivos para se defrontarem contra uma guerra de guerrilha (na altura ainda não se empregavam os termos subversão e contra-subversão) num território demasiado vasto, hostil e distante, quer sobre a própria condução política dos assuntos mexicanos, provinham de comentadores de origem britânica e norte-americana, precisamente numa situação simétrica à que veio a acontecer 140 anos depois, quando da invasão do Iraque em 2003… Uma Junta conservadora sob a supervisão francesa proclamou o Império do México em Julho de 1863, cuja coroa foi oferecida a (e aceite por) Maximiliano em Outubro de 1863. Entretanto os dignitários da República Mexicana (Benito Juárez) haviam-se refugiado no Norte do país…

Contudo, Maximiliano (abaixo) só chegou ao México sete meses depois, nos finais de Maio de 1864. Por essa altura já o general Grant (que viria a ser um decisivo opositor à presença francesa no México) já havia sido nomeado Comandante dos Exércitos da União e a vitória dos federais na Guerra Civil era tida por certa: em Setembro de 1864 as tropas do general Sherman conquistavam Atlanta na Geórgia. Do outro lado do Rio Grande, as tropas francesas, as tropas imperiais mexicanas e as unidades de voluntários europeus continuavam a expansão da autoridade do império embora a segurança das comunicações continuasse precária. Não é de estranhar que os últimos redutos republicanos se situassem no extremo norte, junto à fronteira com os Estados Unidos, nem que as nacionalidades dominantes entre os voluntários europeus fossem as de origem do imperador (austríaca) e da imperatriz (belga).
A Guerra Civil norte-Americana terminou em Abril de 1865. O presidente Abraham Lincoln morreu assassinado nesse mesmo mês e a facção moderada da sua administração, liderada pelo Secretário de Estado William Seward (que também fora alvo de um atentado planeado simultaneamente com o de Lincoln), que se responsabilizara pelas subtilezas diplomáticas vigentes durante toda a Guerra (que induzira o Reino Unido e a França a não reconhecerem a Confederação, por exemplo), perderam grande parte da influência para a abordagem dura protagonizada pelos generais vencedores. É assim que os franceses se deparam com um importante contingente militar sob o comando do general Sheridan no Texas, na fronteira com os Estados Unidos, a partir do Verão de 1865. As perspectivas de que Napoleão III mandasse os franceses retirarem-se aumentaram exponencialmente.

Em mais um gesto trágico e romântico que embeleza toda a história, foi para o evitar que a imperatriz Carlota partiu para a Europa, apelando às cabeças coroadas do velho continente – nomeadamente a Napoleão III – que sustentassem o trono do marido. Ao fazê-lo, a imperatriz começou a manifestar sintomas de paranóia, nomeadamente numa audiência em Roma com o papa Pio IX. Sem solução política à vista, e apesar de inúmeros adiamentos e pretextos (como os que agora George W. Bush anda a fazer), em Maio de 1866 Napoleão III anunciou uma retirada faseada do corpo expedicionário francês a ter lugar em três fases: Outubro desse ano, Março e Outubro de 1867. Como é normal e compreensível, esses anúncios afectam significativamente a disposição das tropas combatentes no terreno e foi isso mesmo o que aconteceu no México.
Napoleão III nem chegou a cumprir o calendário que anunciara e, moralmente destroçados e diante de soldados devidamente abastecidos pelos norte-americanos em armamento, os símbolos de autoridade do Império do México (cuja bandeira se vê acima) desagregaram-se a um ritmo progressivamente mais acelerado. Ao contrário dos conselhos realistas de Napoleão III, Maximiliano, de uma consciência romântica dos seus deveres até ao fim, ficou no México e foi cercado em Querétaro (Fevereiro), capturado (Maio), julgado, condenado à morte e executado (19 de Junho de 1867), com as suas últimas palavras a destinarem-se a sua mulher Carlota. Tradicionalmente, as últimas linhas de toda esta grande história romântica e, ao mesmo tempo, trágica ficam sempre guardadas para o destino da ex-imperatriz Carlota, que sobreviveu 60 anos ao marido sem jamais recuperar a razão...

23 agosto 2006

DEMOCRACIA AFRICANA

É patente que, ao contrário do que as grandes potências ocidentais às vezes nos pretendem fazer crer (os Estados Unidos no Iraque, por exemplo), a existência da democracia não se cinge à realização de um acto eleitoral, mais ou menos livre, mais ou menos honesto, certificado pelo avalista mundial mais prestigiado para essas funções: o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter. Um acto eleitoral é um primeiro passo necessário para o estabelecimento de uma democracia mas não é, só por si, condição suficiente para se verificar a sua existência.

Para a existência de uma verdadeira democracia, a alternância democrática será o processo que se segue: começa com o partido A no poder e o B na oposição, depois B vence eleições e A passa para a oposição até este ter oportunidade de ganhar as eleições e regressar ao poder relegando B novamente para a oposição. Só quando este ciclo está completo é que se pode assegurar que tanto A como B estão dispostos a conquistar e a ceder o poder através de processos eleitorais democráticos.

O equilíbrio descrito é muito complexo de alcançar. Há sociedades que temos por muito avançadas que parecem demorar a incorporá-lo: o Japão, já tem eleições há mais de cinquenta anos mas sempre teve o mesmo partido no poder (PLD*) e no México, foi o PRI* que venceu as eleições durante mais de 70 anos a fio. A maioria dos países da América Latina sempre teve uma relação difícil com a eleição dos dirigentes pelo voto livre e mesmo a Europa meridional (ver post anterior) padece (ainda que muito menos) do mesmo problema.

Mas África é que é o continente onde os casos de sucesso se contam pelos dedos de uma mão (sendo um dos dedos para nomear Cabo Verde) e por isso é preciso considerar como uma enorme demonstração de boa vontade todos os meios que foram mobilizados pelos países que compõem a MONUC, a EUFOR e a EUPOL** (entre os quais se conta Portugal) para o apoio da realização de eleições presidenciais na República Democrática do Congo.

Depois de uma contagem dos votos que se arrastou por mais de 15 dias, o anúncio dos resultados fez desencadear o desagrado das partes e uma onda de violência, a fazer lembrar os acontecimentos ocorridos em 1992 na vizinha Angola. Também aqui, os partidários do presidente Kabila (que foi o candidato mais bem colocado com 44,81% dos votos) defendem a dispensa da realização da segunda volta, tal como fazia o MPLA em 1992 em Angola, brandindo os 49,57% de José Eduardo dos Santos***.

Muitas vezes, figurativamente, faz-se recair a responsabilidade do sucesso ou insucesso de um acto eleitoral no povo. Ora, do ponto de vista do povo, os actos eleitorais são de uma simplicidade infantil; ele até pode votar segundo critérios étnicos ou religiosos, subvertendo, aparentemente, as concepções ocidentais que acham que só os critérios políticos são válidos para eleições. Mas os resultados aparecem e o desinteresse popular tem sempre uma forma linear de se exprimir: a abstenção.

Os fracassos, como parece estar a tornar-se o caso da República Democrática do Congo e como foram os casos de Angola e de muitos mais sítios, não foram provocados pela maturidade ou falta dela por parte dos povos envolvidos, mas sim por uma falta de disponibilidade das respectivas elites em aceitar as regras da alternância democrática. Para elas, a eleição inicial, livre e supervisionada, confere-lhes o mandato para o exercício discricionário do poder a partir daí.

É defensável que se argumente que é sempre melhor apoiar estes esforços em prol da democracia, mesmo que eles depois não venham a ter seguimento. Para mim, que não partilho dessa visão evangelizadora, tudo depende dos recursos a eles afectos, que parecem não ter sido poucos no caso do Congo, e dos benefícios que esperamos colher. É que todos sabemos que os resultados destas acções dependem muito mais da disposição de quem as recebe do que da boa vontade de quem as pratica.

Os povos africanos já demonstraram repetidas vezes que convivem lindamente (com alegria, mesmo) com eleições democráticas. As elites que os dirigem é que nem por isso... e só muito retorcidamente é que a culpa disso ainda poderá ser dos colonizadores europeus...


* Partido Liberal Democrático e Partido Revolucionário Institucional, respectivamente.

** Acrónimos de missões sob a égide da ONU e da União Europeia para a segurança da realização das eleições presidenciais no Congo.
***Valha a verdade que também ouvi esse mesmo argumento, em benefício de Freitas do Amaral, apresentado por Daniel Proença de Carvalho na televisão no seguimento da apresentação dos resultados primeira volta das eleições presidências de 1986. Os acontecimentos subsequentes demonstraram até que ponto ele estava errado! Será de atribuir as declarações de Proença de Carvalho, inaceitavelmente não democráticas, a uma espécie de embriaguez momentânea, provocada pela vitória eleitoral do seu candidato…

06 julho 2006

MÉXICO


No Domingo passado realizaram-se eleições presidenciais no México. De acordo com os resultados preliminares, anunciados logo na Segunda-Feira, havia sido uma eleição muito renhida com Calderon, o candidato da Direita, a ultrapassar em cerca de 0,6% (uns 260.000 votos) Obrador, o candidato da Esquerda.

Dada a proximidade dos resultados dos dois candidatos mais bem colocados, a Comissão Eleitoral decidiu proceder a uma recontagem dos votos, uma saudável medida destinada a dissipar dúvidas futuras. Pelo menos, foi assim que ingenuamente a equacionei, visto que em termos absolutos, para uma recontagem, considerava que 260.000 votos seriam uma margem confortável.

Afinal o processo de recontagem está cerrado e parece estar a transformar-se numa guerra de comunicados, com Obrador aproveitando-se de uma vantagem sua aos 70% da recontagem para a anunciar, a que Calderon responde, aos 97%, para anunciar a sua, quase definitiva, a que Obrador depois riposta alegando fraude.

Perante a sobriedade noticiosa dos jornais internacionais, especialmente os do grande vizinho do norte do México, que nestas coisas de escrutínios em eleições presidenciais não podem dar lições a ninguém, só uma coisa parece certa: os resultados parecem apontar para um México fortemente dividido politicamente, com o Norte a votar à Direita e o Sul a votar à Esquerda.

13 maio 2006

UM FREI TOMÁS DE SOMBRERO

O México tem um presidente, Vicente Fox de seu nome, conhecido por usar umas botas castiças de vaqueiro e por ter trabalhado para a Coca-Cola Company, o que deve fazer dele um paladino do liberalismo.

Pelo menos isso se deve julgar; foi um dos chefes de estado que, na recente cimeira de Viena, entre os líderes da União Europeia e da América Latina, mais se destacou nas censuras à Venezuela e à Bolívia, nomeadamente à decisão recente do presidente boliviano Morales de nacionalizar os seus recursos energéticos.

O que Fox se deve ter esquecido, provavelmente por distracção, é que Morales está a tomar uma atitude (criticável, segundo os seus comentários) idêntica à que o seu longínquo antecessor Lázaro Cárdenas tomou em 1938, quando nacionalizou os petróleos mexicanos às companhias estrangeiras e fundou a PEMEX (Petróleo Mexicanos), a actual monopolista mexicana do sector.

Pode ter sido a antiguidade do acontecimento (68 anos!), a responsável pelo lapso, mas é conveniente que o presidente mexicano recupere intelectualmente alguma agilidade, o que é, aliás, o apanágio de um dos seus compatriotas mais famosos: Speedy Gonzalez.