2 de Junho de 1924. Nunca ficaremos a saber se o problema foi estudado. O que sabemos é o resultado do estudo: nenhum. Como tradicionalmente preconizava-se e confundia-se a oratória com a acção. Mas também não havia grande coisa a fazer. A França em 1924 perdera recentemente mais de um milhão de homens na Primeira Guerra Mundial (1914-18) e o efeito disso fazia-se sentir significativamente na sua economia. Precisa de mão de obra, mas a industrialização de França ainda não atingira um ponto em que se fizesse sentir a necessidade de ir buscar muita mão de obra permanente aos países adjacentes e às suas colónias norte-africanas. Este género de emigração é outro. Como se depreende pelo que consta da notícia, os trabalhos que aqui estarão em causa são sazonais e agrícolas e não permitem estabilidade das estruturas familiares. O verdadeiro «problema da emigração dos portugueses para terras de França» terá que aguardar mais uns quarenta anos, durante a década de 1960.
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02 junho 2024
15 abril 2024
A ASSINATURA DO ACORDO DE MARRAQUEXE
(Republicação)
15 de Abril de 1994. Assinatura do Acordo de Marraquexe, envolvendo a assinatura de 124 países e que se veio a revelar a antecâmara da criação da Organização Mundial de Comércio, organização que viria a nascer em 1 de Janeiro do ano seguinte. Foi um verdadeiro safanão no comércio internacional e na ordem internacional que existira até aí, mas também foi uma daquelas ocasiões históricas de cujo valor histórico todos os grandes observadores mediáticos - e, com eles, as opiniões públicas - só se terão apercebido bem depois de ter acontecido.
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12 abril 2024
PORTUGAL UNO E MULTIRRACIAL... MAS CONTAS À PARTE S.F.F.
12 de Abril de 1974. Em vésperas do 25 de Abril, o Portugal de Marcello Caetano continuava a ser o «uno e multirracial» de Salazar (o marcelismo até criara um novo slogan, melhor adaptado aos novos tempos, o dos «vinte e cinco milhões de portugueses»), mas a compartimentalização financeira do «Portugal Uno» perpetuava, por detrás da propaganda, a concepção imperial da estrutura do conjunto: Portugal e cada uma das suas colónias mantinham em circulação moedas distintas e os acertos de contas das transacções financeiras entre a metrópole e as colónias (e entre estas, também), faziam-se ao ritmo que fosse mais conveniente para Lisboa. E as colónias que registavam saldos comerciais superavitários no seu comércio externo, como era o caso mais flagrante de Angola, ficavam anos à espera que Lisboa procedesse à devida compensação. Esses montantes designavam-se eufemisticamente por «atrasados» e esta notícia acima, de há precisamente 50 anos, dá conta das queixas - muito suaves - apresentadas pelo então «secretário provincial das Finanças e Planeamento», Walter Marques, a respeito da situação que se percebe que já se arrastava desde 1971. Um dos aspectos realçados era que, apesar de - teoricamente - as cotações das duas moedas - o escudo metropolitano e o angolano - se equivalerem, as duas moedas já eram cambiadas em Luanda no mercado livre - ali denominado acintosamente «mercado negro» - à cotação de 0,70 ou 0,75 para 1. Os mercados demonstravam que a colónia (Angola) estava a ser lesada à custa da metrópole (Portugal). E, para além disso, as previsões de Walter Marques para 1975 é que o problema se continuaria a manter («... tal não implica que se inicie o período de licenciamento livre...»). Hoje sabemos que o ano de 1975 veio a ser completamente diferente daquele que Walter Marques estaria a antecipar naquela altura: a questão das finanças terá sido o menor dos problemas com que Angola se confrontou até à independência. Mas estes problemas que aqui recordo, e que acabaram sendo atropelados por outros de gravidade superior depois do 25 de Abril, mostram que, para além da questão política e militar, a estrutura do Portugal de Marcello Caetano, falho das reformas que ele não tivera a coragem de iniciar, essa estrutura estava a ranger em mais do que apenas aqueles aspectos que depois se tornaram mais evidentes.
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08 abril 2024
AFINAL ENGANARAM-SE QUANTO AO PIB DA ROMÉNIA ULTRAPASSAR O DE PORTUGAL, MAS O PIOR É QUE CONTINUAM ESTÚPIDOS E A DAR NOTÍCIAS DISTORCIDAS
Que me desculpem aqueles leitores que quiserem seguir a história da minha embirração com estes artigos malparidos do Expresso a respeito da nossa rivalidade paritária com a Roménia, mas quem as quiser compreender, a essas embirrações, terá que ir ler dois postes que aqui publiquei em Dezembro de 2022. Os dois postes - de 9 de Dezembro e 21 de Dezembro - desmontam notícias pessimistas então publicadas pelo Expresso (e validadas pelo Polígrafo SIC!), antecipando que a Roménia iria ultrapassar economicamente Portugal. Os problemas é que aquele indicador tem algumas limitações e não serve para comprovar aquilo que a notícia sugeria (que a economia portuguesa iria ser ultrapassada em valor global pela romena), e, por outro lado, aquilo que então o Expresso anunciava eram apenas projecções que podiam não se vir a concretizar.
Que não se concretizou, como se constata pela notícia acima, aparecida esta semana, dezasseis meses depois... Lá no Expresso enganaram-se, estão a admitir que se enganaram, mas poupem-se os elogios, porque o jornalismo ali praticado continua estúpido como o criticara originalmente: ainda não perceberam as limitações d«o produto per capita português, expresso em paridades (sic) de poder de compra»; mas, pior do que aquela ignorância, mantêm-se a capacidade de darem notícias propositadamente distorcidas. Na parte sublinhada acima pode ler-se que, entre os 27 países da União, Portugal subiu do 21º lugar em 2022 para o 18º lugar em 2023. Ou seja, Portugal ultrapassou três países este ano, mesmo que isso aconteça num indicador que eles, no Expresso, nem percebem o significado. Mas não foi essa a notícia do Expresso! O artigo nem sequer identifica os países que Portugal ultrapassou! O que é destacado para título é que a Roménia ainda - destaque-se a palavra ainda - não ultrapassou Portugal. A atitude é de um pessimismo recorrente. Este é o jornalismo que temos: a notícia que se quer publicar é aquela que diz mal de nós próprios, mesmo quando isso não é rigoroso. E tudo isto cria uma antipatia para com o jornal e para com o jornalista.
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13 fevereiro 2024
AINDA SE RECORDAM QUANDO A MODA ERA "ENCHER A BOCA" COM A PALAVRA "MERCADOS"?
13 de Fevereiro de 2004. A edição do Público desse dia dedicava, como era costume, três páginas à Economia, mas era tudo... Mercados! Falava-se de bolsas. Falava-se de câmbios. Por causa dessa moda, a Economia de há vinte anos era de uma estreiteza confrangedora. Foi uma fase estúpida que entretanto lhes passou. Actualmente o mesmo jornal Público ainda dedica três páginas à Economia (abaixo, trata-se da edição de 1 de Fevereiro deste ano), mas felizmente deixou-se de dar cotações e câmbios e produzir textos repetitivos, imbecis e inúteis sobre o que acontecera na última sessão de Bolsa, que só nos detalhes se distinguira das anteriores.
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25 janeiro 2024
OS ANÚNCIOS DO CAPITALISMO MAIS DESCARADO
25 de Janeiro de 1974. A General Motors (GM), que era então o maior construtor mundial de automóveis, anunciava na imprensa norte-americana a sua intenção de despedir 75.000 trabalhadores pertencentes a 14 fábricas localizadas nos Estados Unidos. Uma semana depois, a 1 de Fevereiro, a mesma General Motors anunciava que obtivera os seus maiores lucros de sempre - 2.400 milhões de dólares - no exercício de 1973, acabado de encerrar. Cada acção da GM seria remunerada a USD 8,34, um valor record em relação aos USD 7,51 (também ele um valor record), que havia sido pago em 1972. A relação entre factores - Capital e Trabalho - não oferecia dúvidas na América. O primado ia para o dividendo da acção, mesmo à custa de 75.000 despedimentos. A ironia embaraçosa para aquilo que hoje somos, é que todos os indicadores nos demonstram que, apesar desta brutalidade, esta sociedade norte-americana de 1973 era muito mais igualitária do que a actual.
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30 novembro 2023
O ACORDO DE FUSÃO ENTRE A EXXON E A MOBIL
(Republicação)
30 de Novembro de 1998. Assinatura do acordo de fusão das duas grandes petrolíferas Exxon e Mobil, de que resultaria a constituição da maior empresa mundial do ramo, a ExxonMobil. Apesar do acto, que veio naturalmente noticiado em toda a comunicação social nos dias seguintes, o processo de fusão demorou um ano a realizar-se, enquanto os dois parceiros aguardavam as concordâncias dos protagonistas políticos dos seus dois mercados principais, a União Europeia e os Estados Unidos. A data oficial da maior fusão à época e da criação da maior empresa internacional de petróleos, é, assim, a de 30 de Novembro de 1999, precisamente um ano depois da assinatura deste acordo. Não deixava de haver uma certa ironia no facto de, aproximando-se o final do século XX, se assistisse à reversão de um conjunto de leis (nos Estados Unidos denominaram-se leis antitrust) que, no princípio daquele mesmo século XX, haviam tido por objectivo domesticar os monopólios, os oligopólios e os abusos de posição dominante. Aliás, as duas empresas que se fundiam em 1999, eram o resultado da divisão da Standard Oil (da família Rockfeller), quando aquele colosso petrolífero fora forçado pelos tribunais a cindir-se em 34 empresas distintas em 1911. Há vinte e cinco anos, essas outras preocupações antigas pareciam não só esquecidas como despropositadas, a crença nas virtudes intrínsecas auto-regeneradoras de os mercados - e com que volúpia se pronunciava esta última palavra! - atingiam um zénite de ingenuidade ignorante.
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01 novembro 2023
O OUTONO DA HIPERINFLAÇÃO NA ALEMANHA
(Republicação)
Mais do que as descrições abrangentes das consequências de um episódio na sociedade, há aqueles que ganham interesse quando são contados de uma perspectiva individual. Façamo-lo com a hiperinflação que assolou a Alemanha no Outono de 1923, a partir do impacto que ela teve na vida quotidiana de um casal com um bebé em Berlim. O casal era composto por um jovem pianista e compositor de ascendência polaca e judia chamado Mischa Spoliansky (acima) e sua esposa Elsbeth e a filha de ambos. Na Quinta-Feira, 1 de Novembro de 1923, Mischa saiu do seu apartamento, situado na zona leste de Berlim (daí por 38 anos iria ficar do lado de lá do Muro), para ir buscar um cheque aos seus editores com o pagamento dos seus direitos de autor. O dinheiro estava a fazer-lhe muita falta...
Levava um enorme rolo de notas no bolso, correspondendo a um valor nominal de 28 milhões de marcos. Quando quis comprar o seu jornal, o liberal Berliner Tageblatt, apercebeu-se que não tinha dinheiro que chegasse. De facto, apercebeu-se até que se distraíra com a evolução dos preços, que nem tinha dinheiro suficiente para pagar o bilhete de eléctrico até ao destino. Teve que fazer uma parte do caminho a pé. Aquilo que recebeu em direitos montava a 3.700 milhões de marcos. Era mais de 100 vezes do que o dinheiro com que saíra de casa, mas ao ritmo com que o dinheiro perdia o seu valor, era bem possível que dentro de dias aquilo que acabara de receber nem chegasse para comprar um litro de leite para a filha.
No dia seguinte, Elsbeth, que estava grávida de um segundo filho, foi às compras. Os preços eram diariamente actualizados. Havia um coeficiente chamado multiplicador que se aplicava aos preços de referência de 1913, de antes da (primeira) guerra (mundial). Em 2 de Novembro esse multiplicador atingira os 76.200 milhões. Assim, um grande pão de 2 kg. que custara 14 pfennig em 1913 (com um marco compravam-se 7 pães), cotava-se agora por quase 10.700 milhões de marcos (10.668 para ser mais preciso). Um quilo de batatas por 28.000 milhões. Estava-se a uma Sexta-Feira. Passado o fim-de-semana, na Segunda-Feira seguinte, o preço multiplicara-se por cinco: 140 mil milhões de marcos e começaram a eclodir revoltas e saques por toda a Berlim. Os alvos naturais foram as padarias, mercearias, talhos, leitarias... e os judeus que, tal como os Spoliansky, também se concentravam nos bairros de Berlim Leste, nas imediações de Alexanderplatz. Houvera um certo consenso entre a elite política e financeira alemã que não se devia colaborar de nenhuma forma com o pagamento das indemnizações de guerra exigidas pela França mas, com o efeito colateral da hiperinflação, pagava-se agora o preço da decisão num eminente colapso da sociedade alemã. A polícia, tão perturbada pela situação quanto os desordeiros, havia prendido uma cinquentena deles, de entre os milhares que se haviam aproveitado da ocasião. A 8 de Novembro o chanceler Gustav Stresemann encontrou-se em segredo no Hotel Continental com o banqueiro Hjalmar Schacht para que este, com os seus contactos, patrocinasse um programa de estabilização da moeda alemã que pusesse fim àquela loucura. Shacht veio a presidir ao Reichsbank e a criar o tal programa com o indispensável apoio de empréstimos externos, mas chegou tarde demais para salvar o governo de Stresemann, que caiu duas semanas depois.
Entretanto, até que o programa fosse aplicado, o dia-a-dia do cidadão comum era recheado de episódios bizarros. Escrever uma carta tornou-se um luxo: quando Spoliansky quis enviar uma a um seu parente de Munique descobriu que o preço do selo era 100 milhões de marcos – ou seja quase quatro vezes mais do que aquilo que ele trazia na carteira quando saiu de casa no dia 1 de Novembro. Para ler o seu jornal favorito, o Berliner Tageblatt (aprecie-se acima a primeira página da edição de 5 de Novembro de 1923), teve que fazer fila para ler o exemplar de um café. Naquele da custava 10 mil milhões de marcos, quase três vezes mais do que aquilo que recebera de direitos de autor dias antes. Mas, para além dos problemas pessoais, havia o problema das empresas: os empregados passaram a preferir ser pagos ao dia e era uma dificuldade arranjar o dinheiro em caixa para o fazer. E mesmo para as empresas que o faziam, havia uma vantagem para aqueles que conseguissem receber antes: havia quem se considerasse um felizardo porque o caixa era seu amigo e o pagava uma hora antes dos colegas, o que lhe permitia converter o dinheiro em mercadoria com vantagem, tal era o ritmo de desvalorização. Spolansky conseguiu um emprego nocturno como pianista num cabaré e recebia o pagamento cada noite: uma saca de notas que se tornava progressivamente maior a cada dia que passava. Para as bandas da Friedrichstrasse e da Kurfürstendamm, as zonas mais quentes de Berlim (abaixo, cenas do filme Cabaret passado na Berlim dessa época), a crise parecia funcionar como um estímulo, compreensível quando se pensa naqueles que tinham poupanças em dinheiro e que agora se viam incentivados a desembaraçarem-se delas. Outros especulavam comprando, que havia muitos em situações desesperadas e incentivados a vender.
Possuir qualquer tipo de moeda estrangeira era um privilégio e viveram-se imensas histórias estranhas a esse respeito. Houve quem tivesse vindo da Suécia imediatamente antes da crise com 20 coroas suecas (uma quantia irrisória) em notas de uma coroa. Trocando as notas a um ritmo cuidado, uma de cada vez, essa importância conseguiu sustentar uma família de quatro pessoas durante seis semanas. Um grupo de quatro jovens literatos que incluía Bertold Brecht fez uma habilidade parecida (embora com muito maior estadão) com uma nota de cem dólares emprestada por um amigo norte-americano. Jantavam em restaurantes caros e apresentavam no fim a nota para pagamento. Não houve restaurante algum capaz de a trocar: à velocidade a que evoluíram os câmbios, a nota chegou a representar muito mais que a facturação mensal de um qualquer estabelecimento comercial. Ao fim de duas semanas deste expediente devolveram a nota ao proprietário e liquidaram as despesas que entretanto se haviam desvalorizado para um quinquagésimo do valor original.
O ritmo da desvalorização tornara a concessão de crédito numa actividade sem sentido. Elsbeth deu entretanto à luz uma menina e foi com muita sorte – o mercado do arrendamento estava também, obviamente, caótico – que Mischa encontrou uma outra casa maior em Berlim Oeste. Na terceira semana de Novembro, a economia alemã regredira até à fase pré-histórica da troca directa (acima, uma fotografia de uma mercearia berlinense nesse louco mês de Novembro de 1923). Entretanto, em Munique, um grupo de radicais considerava que a desestruturação económica e social causada pelo desaparecimento da moeda abria uma oportunidade para que se processasse uma tomada violenta do poder. Desencadearam um putsch na noite de 8 para 9 de Novembro e falharam clamorosamente. Adolf Hitler, o seu líder, iria passar os próximos meses na prisão. No fim do mês de Novembro, foi criada uma nova moeda provisória a que se deu o nome de Rentenmark que valia 4,2 biliões (milhão de milhões) de marcos antigos. A nova moeda era garantida por uma Grundschuld (dívida hipotecária, obrigação imobiliária) de 4% sobre todos os bens agrícolas, florestais e industriais da Alemanha mas também e sobretudo por um empréstimo de 200 milhões de dólares concedido por um sindicato de bancos mobilizado pelos contactos de Schacht. A associação que, depois disso, se fez entre o impacto social da hiperinflação na Alemanha e a ascensão dos nazis ao poder é uma das fábulas que se perpetua até hoje. Iriam decorrer mais sete anos e quatro eleições legislativas até que os nazis passassem a ter relevo político na Alemanha; e outros dois anos e meio e mais três eleições adicionais até eles alcançarem o poder. A fotografia abaixo, entre o simbólico e o irónico, é de Frank Horvat.
Mischa Spoliansky (1898-1985), que sobreviveu como se pôde apreciar acima à crise do marco do Outono de 1923 em Berlim, emigrou em 1933 (ano da chegada dos nazis ao poder na Alemanha) para Londres. Veio a naturalizar-se britânico.
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27 outubro 2023
ARAME FARPADO NA PRADARIA
27 de Outubro de 1873. O norte americano Joseph Glidden apresenta o seu pedido de patente para uma invenção sua: o arame farpado. Para além das suas funcionalidades óbvias de delimitar terrenos agrícolas de forma económica, que se estenderam depois a muitos outros campos, entre o político e o militar, delimitando fronteiras e frentes de combate, tornou-se um adereço indispensável para muitas histórias que agora se contam sobre o faroeste americano (acima), o conflito entre a pecuária e a sua substituição pela agricultura.
18 outubro 2023
INDICADORES ESTATÍSTICOS DE CRESCIMENTO ECONÓMICO
18 de Outubro de 1963. Há sessenta anos, a utilização do Produto Nacional Bruto como expressão da importância económica de um país era um conceito relativamente recente. Começara cerca de 20 anos antes nos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial, mas utilizado internamente pela própria Administração para avaliação das consequências do esforço de guerra na economia americana. Depois do fim da guerra, esse género de indicadores económicos haviam também sido adoptados pelos países europeus e a sua compreensão e conhecimento haviam-se difundido a ponto de, em 1963, poderem ser publicados na página especializada de um jornal diário. O quadro que se abaixo de destaca evidencia o crescimento económico anual da América do Norte e da Europa Ocidental durante a década de 1950.
17 outubro 2023
O EMBARGO DO PETRÓLEO ÁRABE
17 de Outubro de 1973. Reunidos no Koweit, os representantes dos países árabes produtores de petróleo anunciam um aumento de 17% do preço do produto sem quaisquer negociações prévias com as grandes petrolíferas. Mais do que isso, anunciaram a realização de uma nova reunião em que discutiriam o emprego dos fornecimentos do produto como arma negocial no quadro da guerra do Yom Kippur então em curso. Este é o exemplo típico da notícia cujas consequências não são completamente digeridas no momento da sua publicação. A primeira página do Diário de Lisboa do dia dedica apenas um espaço no seu canto inferior direito às conclusões da reunião (esquerda). Mas a edição do dia seguinte voltava ao tema, sobretudo interrogando-se quanto às suas repercussões para todos os países ocidentais: Estados Unidos, Grã-Bretanha e também Portugal.
A verdade é que o desenvolvimento técnico dos automóveis pouco apostara até aí na redução dos consumos de combustível, considerado um recurso abundante e relativamente pouco dispendioso. Pode-se apreciar nesta segunda fotografia, o impacto que as medidas de racionamento podiam vir a ter num proprietário de um banal VW Carocha familiar: os 10 galões autorizados por cliente (cerca de 38 litros) que se lê no cartaz, dar-lhe-iam para andar um pouco mais de 400 km. Todas essas motorizações sedentas de combustível foram rapidamente ultrapassadas por outras bem mais parcimoniosas.
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04 setembro 2023
O 25º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA GOOGLE
4 de Setembro de 1998. Fundação da empresa Google por dois estudantes da Universidade Stanford na Califórnia. Larry Page (à esquerda) Sergey Brin tinham ambos 25 anos. O negócio original era sólido e as suas possibilidades de expansão incomensuráveis mas, passados poucos anos de existência, os fundadores fizeram-se substituir por profissionais de gestão. Muito do seu crescimento foi resultado de aquisições de outros empreendimentos de sucesso da internet, de que o caso mais evidente é o You Tube. Da última vez que dei por lhe terem feito uma avaliação, em Novembro passado, a empresa valeria cerca de 251.700 milhões de dólares, era a quarta empresa mais valorizada de todo o mundo. Os dois fundadores aparecem nas listas como a 6ª e a 8ª maiores fortunas do mundo.
09 agosto 2023
A ASSINATURA DA CARTA DE INTENÇÕES COM O FMI
9 de Agosto de 1983. Ernâni Lopes, o então ministro das Finanças, e Jacinto Nunes, o governador do Banco de Portugal, assinam conjuntamente a carta de intenções que o governo português - o primeiro-ministro é Mário Soares - envia ao Fundo Monetário Internacional, depois de um prolongado processo de negociações com os quadros desta última organização. Os objectivos, expressos na notícia do dia seguinte que a imagem acima reproduz, consistiam em:
1 - A redução do défice da Balança de Transacções Correntes para 2.000 milhões de dólares em 1983 e para 1.250 milhões de dólares em 1984. No final de 1983 o saldo negativo dessa Balança atingira os 3.200 milhões de dólares.
2 - A limitação do endividamento externo total a 14.600 milhões de dólares em 1983 e 16.000 milhões de dólares em 1984. No final de 1982 a dívida externa total atingira os 13.600 milhões de dólares.
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09 julho 2023
O MARCO DE OURO
9 de Julho de 1873. Guilherme I, Imperador da Alemanha (que apareceria no reverso da moeda acima), decreta, após aprovação do Bundesrat e do Reichstag, a Lei da Cunhagem (Münzgesetz), que define o marco de ouro como a moeda imperial de referência, em substituição das oito moedas nacionais que haviam circulado até então na Alemanha. Esta União Monetária representava um passo significativo na unidade económica-financeira do recente (1871) Império Alemão. O Marco de ouro ir-se-ia tornar moeda de curso obrigatório a partir de 1 de Janeiro de 1876 (veja-se abaixo). Qualquer semelhança com aquilo que assistimos nas últimas décadas em relação ao €uro não terá sido mera coincidência.
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03 julho 2023
O FIASCO DA CONFERÊNCIA ECONÓMICA DE LONDRES DE 1933, ENTRETANTO ESQUECIDA
3 de Julho de 1933. Desde 12 de Junho daquele ano que estava a decorrer uma «magna» reunião em Londres, reunindo 66 países (praticamente todos os que existiam à época), com a intenção de procurar encontrar soluções concertadas a nível internacional para pôr fim à Grande Depressão. A ideia da dita reunião aparecera em 1931, e a sua agenda fora acertada numa reunião prévia, ocorrida em Genebra em 1932, reunindo as grandes potências. Só que, porque todas as outras lhe deviam dinheiro, havia uma das potências que era maior do que as grandes: os Estados Unidos. Acontece que, entre a fixação da agenda de trabalhos e o início desta «magna» reunião, o poder mudara nos Estados Unidos: em Março de 1933 o presidente Roosevelt e a sua administração democrática tomara posse. E em Abril, uma das suas primeiras decisões importantes fora que os Estados Unidos abandonassem o padrão-ouro, um dos elementos de referência de então para a fixação das taxas de câmbio entre moedas. Esta questão da fixação das taxas de câmbio das moedas principais constituía precisamente o primeiro ponto e o mais importante da agenda da reunião. Um ponto que Franklin Roosevelt não estava disposto a discutir com as restantes potências, agora que os Estados Unidos haviam abandonado o padrão-ouro. A intenção dos americanos foi, por causa disso e desde o princípio, sabotar a reunião. A composição da delegação dos Estados Unidos era, desde logo, uma mostra dessa intenção. Encabeçava-a Cordell Hull (1871-1945), o recém empossado secretário de Estado (como seria de esperar), mas o resto do elenco era uma caixinha de surpresas: incluía James M. Cox (1870-1945), antigo governador do Ohio e candidato democrático derrotado à presidência em 1920; o senador republicano pelo Michigan James Couzens (1872-1936), um proteccionista; o senador democrata pelo Nevada Key Pittman (1872-1940), um acérrimo defensor da remonetarização da prata, de que o seu estado era um grande produtor; e o congressista democrata pelo Tennessee Samuel D. McReynolds (1872-1939), em representação da Câmara de Representantes.
Uma delegação inatacável do ponto de vista da representatividade, mas nenhum deles tinha experiência prévia de uma conferência internacional, a maioria não sabia nada ou sabia muito pouco sobre assuntos económicos, muito menos sobre economia e finanças internacionais, e predominavam os isolacionistas. A ideia da escolha de uma tal equipa de trabalho parecia a de erguer uma parede de obtusidade aos negociadores especializados das partes contrárias. A única surpresa foram as três semanas que se arrastaram até que se concluísse pela «intransigência» de Roosevelt - atitude que é constatada nestes artigos surpreendentemente bem desenvolvidos da edição do Diário de Lisboa de 3 de Julho. Diga-se que os membros da delegação americana se destacaram por outros aspectos que não a propositada inabilidade negocial. Acima temos a fotografia do senador Key Pittman do Nevada, que se celebrizou então por diversos episódios. Como o de ter comparecido na recepção do Palácio de Windsor de fato e gabardina vestida e usando um notórios sapatos amarelos de ponta arredondada; melhor, quando apresentado ao rei Jorge V e à rainha Mary saudou-os com um bastante informal: «Rei, estou contente por o conhecer. E a si também rainha» (King, I'm glad to meet you. And you too queen) Mas as suas proezas eram ainda mais interessantes longe de suas majestades britânicas. Bebedor compulsivo, uma noite foi descoberto pelos empregados do Claridge's (o hotel de luxo londrino onde os membros da delegação estavam hospedados) sentado totalmente nu na pia da despensa do hotel tentando passar por uma estátua numa fonte. Noutra noite de bebedeira, o divertimento deu-lhe para pegar numa pistola e partir a tiro as lâmpadas dos candeeiros públicos de uma das ruas da vizinhança. Mesmo bêbado e como mascador de tabaco, o senador adquiriu uma reputação adicional por conseguir cuspir e acertar na escarradeira a respeitáveis distâncias. As habilidades do senador estão esquecidas. Os resultados da conferência também. Num blogue, reconheço que as primeiras são muito mais atractivas para o leitor.
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04 junho 2023
ASCENSÃO E QUEDA DE UM «BASÓFIAS» COM MUITO POUCOS ESCRÚPULOS
4 de Junho de 2013. A Portugal Telecom anuncia em comunicado que Zeinal Bava «aceitou o convite» e irá assumir a «presidência executiva» da Oi, uma «parceria estratégica» da PT com uma operadora telefónica brasileira. O momento terá sido o zénite da sua carreira - afigurava-se como um gestor fadado para dizer muitas coisas a respeito de muitas coisas... E talvez a essa sua fama de ser tão prolixo é que se deva o impacto de quando o chamaram à Assembleia da República e o puseram a gaguejar a respeito de ainda outras coisas... Que terá sido a causa do descalabro meteórico da sua reputação e, coincidentemente, da sua tão propagandeada carreira de gestor. Nem de propósito, menos de uma semana antes da celebração do decénio desta posse de Zeinal Bava acima, uma outra notícia, oriunda do Brasil, dava-o como multado em mais de 30 milhões de euros pelo «regulador» daquele mercado, por ter recebido um bónus irregular precisamente na sequência da fusão (a tal «parceria estratégica»...) da Oi com a PT! Ou seja, por detrás do comunicado que acima podemos ler, está uma vigarice em que Bava terá empochado (mais) alguns milhões de forma irregular... É engraçado que alguns jornais ilustram as notícias a seu respeito com fotografias suas a responder numa comissão da Assembleia da República (como é o caso abaixo), mas outros (aqui ou aqui) optam por o mostrar à porta do edifício da polícia judiciária... A escolha dessa imagem rebaixa a natureza daquilo de que o criticam e parece-me mais consentâneo com tudo aquilo que se veio (e se vem) a saber depois sobre Zeinal Bava...
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05 maio 2023
«PALAVRA» DE ECONOMISTA...
5 de Maio de 1983. Walter Marques, o então secretário de Estado adjunto e do Tesouro presta declarações à Anop em que, chamando a atenção para as dificuldades da situação financeira da economia portuguesa, se mostrava optimista quanto às perspectivas económicas para o ano seguinte. O governo de que ele fazia parte - o ministro da pasta era João Salgueiro - estava já então de saída, mas o que hoje se torna garantido assegurar é que ele estava redondamente enganado. Como se pode ver assinalado no gráfico acima, o ano de 1984 iria ser um dos anos de recessão económica, com a crise a «não abrandar» e a economia portuguesa a diminuir 1,3%. Olhando para trás, é possível concluir-se que, nestes outros tempos, era bem mais fácil ser-se político e economista, continuar a defender a reputação técnica construída à custa de um ou outro livro que se tivesse publicado, enquanto erros grosseiros deste género, porque facilmente esquecidos, acabavam por nem vir a ser sequer escrutinados. Felizmente que agora já não é assim: nem para os economistas em cargos políticos, nem para os economistas sem sequer essas responsabilidades.
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11 abril 2023
(MAIS DE) ⅓ DE ANALFABETOS... E O RESTO
11 de Abril de 1953. Com o vagar que as circunstâncias documentam, começam-se a saber dados significativos que haviam sido recolhidos pelo Recenseamento Geral da População que tivera lugar em 15 de Dezembro de 1950. Haviam-se passado 28 meses: outros tempos, outras dinâmicas... Ficava-se a saber que cerca de ⅓ - ou, mais precisamente, 34,5% - dos portugueses eram analfabetos. Mas essa era a conclusão que se extrairia da leitura do título da notícia. Para quem se dispusesse a ler o detalhe, ao mesmo tempo que fazia contas, aperceber-se-ia que essa proporção - cerca de ⅔ de alfabetizados - era apenas real para a população masculina com mais de 7 anos (67,6%). Entre a população feminina, essa mesma proporção era pouco mais de metade (52,2%). Combinando os dois géneros o número de alfabetos que se apurava era de 59,5% - 40,5% de analfabetos adultos. Estava-se em plena metade do século XX e os números que aqui se reportam equivalem aos registados em França, só que quase cem anos antes... (cerca de 1855-58, ver o gráfico mais abaixo). Esta questão é um dos grandes embaraços da nossa História recente.
Porém, a nossa História mais recente, a do século XXI, parece estar a demonstrar que ter resolvido aquela questão não foi a resposta que ansiaríamos. Se os padrões actuais de alfabetização e qualificação dos portugueses se equivalem aos da substancial maioria dos países desenvolvidos, a falta de condições da economia doméstica para os empregar, continua a alimentar um fluxo migratório para o estrangeiro, só que agora um fluxo de emigrantes qualificados, como anteriormente ocorrera especialmente para as colónias africanas. Em suma, e como tantas vezes acontece, passámos muito tempo obcecados com aquilo que era apenas um meio (a alfabetização e qualificação da população), pressupondo que, só por si, isso nos faria chegar ao fim desejado (o do desenvolvimento económico). Foi uma grande ilusão colectiva. Ou, para colocar a questão actual nos termos concretos que todos possam compreender: para trabalhar nas estufas alentejanas, não é preciso saber ler, nem escrever.
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07 abril 2023
QUEM É QUE NESTE PAÍS AUMENTA UM EMPREGADO SEU EM 50%?!...
O que este exemplo apresentado acima por Pedro Santos Guerreiro tem de rigor aritmético, tem, ao mesmo tempo, de falta de adesão à realidade das empresas portuguesas. Em décadas, nunca me deparei com uma empresa portuguesa que, para segurar um trabalhador seu, lhe tivesse oferecido um aumento de 50% (de € 1.000 para € 1.500), como no exemplo a que ele recorre no programa. E essas décadas de que falo englobam muitos anos em que as taxas de inflação foram de dois dígitos... Todo o português médio sabe que, ou negoceia bem a sua admissão a uma empresa, ou então não tem quaisquer condições de ser aumentado significativamente depois de estar "lá dentro". E tenho Pedro Santos Guerreiro na condição de "português médio", que já trabalhou em vários sítios: também terá passado pela experiência de, quando quis ser aumentado, mudou de emprego. Para que é que está ali a assumir o discurso exculpatório das empresas, para que elas não aumentem salários, invocando o chamado "hiato fiscal" com um exemplo mirabolante? A experiência das empresas portuguesas é que, quando alguém vem pedir um aumento "robusto", a hierarquia e a malta dos recursos humanos preferem deixar fugir os «colaboradores» mais cobiçados, a perturbar as grelhas rígidas de remuneração em vigor na empresa. É instintivo, é cultural e dura desde que eu me lembro. É por isso que não vale a pena dar-lhe um nome em estrangeiro, como "tax wedge". E Pedro Santos Guerreiro tem obrigação de saber que o Mundo das empresas é como é.
28 março 2023
A SÉTIMA «AVALIAÇÃO» DA TROIKA
28 de Março de 2013. Já lá vão dez anos, e os sebastianistas pelo regresso de Pedro Passos Coelho mostram-se incansáveis em reconstruir o passado à sua maneira. Naqueles dias, a sétima avaliação da troika vinha a Portugal constatar que os indicadores demonstravam que a economia e as finanças públicas não se comportavam de todo como os modelos tinham antevisto. Mas, presos na armadilha de terem o seu homem - Vítor Gaspar - na pasta das Finanças, como é que os avaliadores poderiam reagir de outra maneira senão avalizar tudo o que fora feito?...
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