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04 outubro 2019

«L'ÉTÉ INDIEN», JOE DASSIN E AS AGUARELAS DE MARIE LAURENCIN

Há quarenta e quatro anos o Outono que assistiu ao encerramento do PREC foi assinalado por um sucesso musical que se denominava, sem ironia, L'Été Indien (o Verão Indiano), uma estação que, conforme se escutava na letra, existia apenas existia na América do Norte (o que até nem é verdade: é o equivalente ao nosso Verão de São Martinho). Cantada em francês por Joe Dassin, num estilo entre o cantado e o declamado (um antepassado que terá vindo a inspirar Pedro Abrunhosa...), criando um ambiente apelante ao romantismo mais extremado, a canção tornou-se num sucesso do Outono tépido que se seguiu ao Verão Quente, em contraste com o predomínio do canconetismo revolucionário que imperava nas rádios. Aliás, e para quem compreendesse o francês, a petulância intelectual do que era declamado/cantado, acabava por funcionar como um desafio ao que por cá se escrevia para canções, com letras redigidas para serem claramente compreendidas pela classe operária. Joe Dassin clamava por coisas completamente burguesas: a páginas tantas, surgia uma evocação às «aguarelas de Marie Laurencin», o que só conferia robustez cultural às referência do apaixonado, mas nos deixava na mesma sob o padrão estético da amada.
Quem seria a Maria Laurencin e com que se pareceriam as suas aguarelas? É através de casos concretos como este que se percebe a diferença que as tecnologias modernas trouxeram hoje ao que é a nossa capacidade de conhecer, avaliar e escrutinar o que nos apresentam. Aquilo que há quarenta e quatro anos obrigaria a uma visita obrigatória a uma boa biblioteca, hoje está ao alcance de uma pesquisa internáutica. Não tive a resposta na altura, tive-a várias décadas depois: Marie Laurencin (1883-1956) foi uma pintora francesa (já desconfiava...) que se popularizou por um certo estilo (abaixo, uma das aguarelas que terá inspirado a comparação de Joe Dassin) nas década de 1920 e 1930. A Wikipedia dá-a como influenciada por Picasso e Braque e atribui-lhe um estilo cubista. Mas a mesma Wikipedia guarda aquele segredo de não publicar nada que seja verdadeiramente crítico. O que neste caso é uma pena, porque as aguarelas de Marie Laurencin, por muito que tenham estado na moda há noventa anos, me parecem ser obras medíocres: as fisionomias são estilizadas, os olhos inexpressivos, parece até que a pintora terá tomado para modelos uma colecção de bonecas. Tanto pior para a evocação de Joe Dassin, de que não conhecíamos o original.

25 agosto 2019

A JANGADA DE LA MÉDUSE

25 de Agosto de 1819. Primeira exibição no Salão de Pintura de Paris de um quadro hoje célebre: A jangada de La Méduse, da autoria do pintor Théodore Géricault (1791-1824). A cena representada inspira-se num naufrágio de um navio (o La Méduse) que ocorrera três anos antes nas costas da Mauritânia e que custara a vida a 160 pessoas, que morreram não de imediato, mas em consequência da exposição aos elementos. No quadro aparecem representados os sobreviventes e os moribundos embarcados na jangada de salvamento. O estilo adoptado é um desafio às convenções da época: o autor tinha então 28 anos. A obra permaneceu uma referência no imaginário francófono: quase 140 anos depois daquela sua primeira exibição, Hergé recupera-a para um apontamento de humor no meio da aventura Carvão no Porão de Tintin.
Adenda: Houve quem, muito pertinentemente e a propósito da BD franco-belga, recordasse Uderzo e Goscinny e esta outra reprodução do quadro em Astérix.

12 fevereiro 2019

A MELHOR PROMOÇÃO QUE SE PODE FAZER A UM QUADRO É ROUBÁ-LO (2)

12 de Fevereiro de 1994. Dois homens roubaram a versão do quadro O Grito que estava exposta na Galeria Nacional em Oslo, na Noruega, país natal do autor do famoso quadro, Edvard Munch. Um par de meses depois os ladrões pediram um resgate pelo quadro (pedido que foi recusado) e passado um mês eles haviam sido presos e a obra recuperada, numa operação conjunta das polícias norueguesa e britânica. Como o demonstrou o famoso caso do roubo de Mona Lisa do Museu do Louvre em 1911, aquilo que se pode fazer de melhor para promover uma obra de arte como esta, é dar-lhe um cheirinho de roubo, mas que não faça a obra desaparecer por muitos anos. Em 2012, uma outra versão deste mesmo Grito foi vendida por 90 milhões de euros.

02 setembro 2018

SETE MANEIRAS DIFERENTES DE REPRESENTAR A MESMA RENDIÇÃO

2 de Setembro de 1870. A espessura das muralhas de uma fortaleza de nada servem quando se perdeu o ânimo de combater. As da fortaleza de Sedan (acima) não impediram Napoleão III de França de se render a Guilherme da Prússia há 148 anos. Aparentemente, com essa rendição tinha acabado a Guerra Franco-Prussiana. Aparentemente... Numa época em que até já existiam fotógrafos, nenhum deles terá estado lá no momento preciso em que os dois monarcas se encontraram. E é por isso, que há reconstituições para todos os gostos desse momento. Para o caso, escolhi apenas sete: pode ter sido de manhã, de tarde ou já à noite, ter decorrido dentro de casa, em frente de casa ou ao ar livre, a cerimónia pode ter sido mais pública ou mais íntima, o único padrão que se consegue discernir em todas as sete gravuras abaixo é que o vencido aparece sempre do lado esquerdo e o vencedor sempre do lado direito (o imperador francês é reconhecível pelo seu bigode pontudo e a sua pera, o rei prussiano pelas suas imponentes suíças).

22 agosto 2018

A MELHOR PROMOÇÃO QUE SE PODE FAZER A UM QUADRO É ROUBÁ-LO (1)

Manhã de 22 de Agosto de 1911. No Museu do Louvre, o pintor Louis Béroud, que tinha planeado executar uma cópia da Mona Lisa encontra o sítio vazio. Ainda se pensou que alguém do Museu a levara e foi só por volta das 11H00 da manhã, depois de se ter esgotado a última hipótese disso ter acontecido com o fotógrafo oficial do Louvre, é que o famoso quadro foi dada como roubado, há 107 anos. Contudo, o roubo tivera lugar no dia anterior, logo de manhã cedo. O ladrão, veio-se a saber depois, fora um operário de origem italiana do próprio museu chamado Vincenzo Peruggia. O quadro esteve desaparecido por dois anos, foi recuperado em Dezembro de 1913 em Florença e regressou ao seu lugar no Louvre em 4 de Janeiro de 1914. Subsiste o mito urbano que, durante esses vinte e oito meses, o local vazio onde o quadro estivera exposto foi visitado por mais pessoas do que o havia sido nos anos precedentes em que ele lá estivera (recorde-se que o roubo só foi detectado ao fim de mais de 24 horas...). Quanto às razões que haviam estado por detrás do roubo, a mais difundida - e que consta da história de BD que abaixo se publica - é a do patriotismo, o ladrão teria querido que o quadro regressasse a Itália. Isso não conseguiu, mas, como evento promocional, o quadro é o mais famoso do mundo.

29 maio 2018

ROSIE, A REBITADEIRA

29 de Maio de 1943. A edição desta semana da revista The Saturday Evening Post aparece ilustrada por uma capa que é um desenho de Norman Rockwell, um desenho destinado a tornar-se célebre, muito depois do conflito que o motivara (a Segunda Guerra Mundial) ter terminado. Denominaram-no de «Rosie, the Riveter», que eu traduzi para Rosie, a Rebitadeira. Como muitos dos desenhos de Rockwell, também este é mais complexo do que parece à primeira vista. A Rosie - sabemos que se chama assim porque é esse o nome que aparece na lancheira - apresenta-se-nos sentada numa atitude que é descaradamente posada. Mas essa pose autoconfiante é o único retoque da feminilidade tradicional no conjunto. Mais do que gorda, a constituição de Rosie faz-nos lembrar aquelas mulheres maciças e robustas. Só a musculatura dos braços torna plausível que a rebitadeira a ar comprimido, que está depositada no seu colo, seja mesmo o seu instrumento de trabalho e não um adereço. A ganga da roupa, a graxa da cara, reforçam a identidade operária do ambiente. A sanduiche indica que se trata de um momento de pausa, assim como os óculos repuxados para a testa e o visor levantado por cima da cabeça. O segundo assemelha-se a um halo de santo, algo que Rosie não é, considerada a forma como ela simultaneamente espezinha um exemplar do «Mein Kampf». Naquele momento, o desenho é sobretudo um exercício de propaganda de guerra, a maneira de mostrar que os Estados Unidos estavam a mobilizar a sua mão de obra feminina para funções que não lhes eram tradicionais, com o objectivo de aumentar a sua produção industrial. Depois da guerra, o desenho adquiriu outras conotações simbólicas, mas essas já no âmbito das questões da igualdade dos géneros. E, por detrás de um desenho com história, há sempre a história do seu desenho. O modelo de Norman Rockwell para Rosie chamava-se Mary Doyle, tinha 19 anos e era... telefonista. Obviamente mesmo sendo ruiva e respeitando a fisionomia, Mary estava muito longe de possuir a compleição como Rockwell a desenhou. O artista posteriormente contactou-a, pedindo-lhe desculpa por a ter retratado daquela forma tão... avantajada. A última vez que o desenho original foi transacionado e se soube o preço, em 2002, alcançou o valor de 4,9 milhões de dólares.

03 maio 2018

«EL 3 DE MAYO EN MADRID»

3 de Maio de 1808. Há duzentos e dez anos os madrilenos haviam-se revoltado contra os soldados franceses - e não só, contra os mercenários egípcios a soldo dos franceses também - e, na sequência, os insurrectos pagavam o preço do seu insucesso, encostados ao paredón, num episódio que foi imortalizado pelo quadro acima de Goya, quadro que já foi aqui referenciado neste blogue numa série de cinco quadros de fuzilamentos.

08 fevereiro 2018

UMA PERGUNTA PARA A QUAL NUNCA OBTIVE RESPOSTA

A pintura apareceu-me inesperadamente numa rede social, descobri ser da autoria de uma artista grega que eu desconhecia de todo. Não virá para o caso apreciar-lhe os méritos, já que também não terão sido eles a incitar-me à invocação da obra no blogue, uma associação improvável de ideias e o regresso a uma pergunta que fizera vai para bem mais de trinta anos, pergunta para a qual nunca obtive resposta. Estava-se no ano de 1980 e a RTP estava a passar pela revolução de passar a emitir a cores. Para captar as novas emissões havia que comprar novos televisores a cores em substituição dos tradicionais a preto e branco, que haviam honrosamente servido durante os 23 anos precedentes. E havia também que os sintonizar... Imagine-se agora o desapontamento geral quando, antes de o fazer, e quando o ecrã da nova televisão a cores acabada de desembrulhar apenas transmitia ainda a tradicional chuva de estática, esta continuava a fazê-lo no desapontante preto e branco tradicional! Porque é que a chuva das televisões a cores não passara a ser também colorida (como o quadro acima) ?...

22 janeiro 2018

A CHEGADA DA CORTE PORTUGUESA AO BRASIL

22 de Janeiro de 1808. Há 210 anos a esquadra transportando a família real portuguesa acompanhada da sua corte chegava a Salvador da Bahia, Brasil. O quadro acima, mostrando João, o príncipe regente, passeando pela cidade é de Cândido Portinari e muito posterior à data dos acontecimentos (1952), mas é bem evocativa da ocasião histórica em que toda uma corte europeia se transfere para uma colónia extra continental. Aliás, convêm esclarecer que a cerimónia que é retratada só terá tido lugar a 24 de Janeiro, dois dias depois de os navios terem fundeado no porto. Era uma época em que tudo acontecia a um outro ritmo: tendo a esquadra saído de Lisboa a 29 de Novembro do ano anterior, já com o exército invasor francês a ocupar Santarém, a viagem tomara-lhes 55 dias, ou seja, praticamente oito semanas. É interessante comparar os ritmos de então com os actuais, em que essa mesma viagem transatlântica, em vez das oito semanas, demora umas aborrecidíssimas oito horas e meia...

13 novembro 2017

IMPRESSÃO, NASCER DO SOL

13 de Novembro de 1872. Pretende uma tese, robusta na argumentação, que este quadro pioneiro do impressionismo de Claude Monet foi pintado há precisamente 145 anos, às 7H35 da manhã (abaixo). A cena representa o amanhecer no porto francês de Le Havre, ainda coberto das brumas matinais comuns nos portos da Normandia, um ou dois botes mais nítidos em destaque e um fundo onde se divisam os vultos de um estaleiro, grandes barcos de velas e chaminés. O único foco de cor na tela é um Sol alaranjado e longínquo. O quadro está hoje exposto em Paris, no Museu Marmottan.

17 agosto 2017

OS LOUROS DE CÉSAR (11)

A montra da Casa Tifus vai-se inspirar a um quadro intitulado O Mercado dos Escravos (1882, abaixo) da autoria de um pintor francês menos conhecido, Gustave Boulanger. Apesar de toda a autopromoção os nossos dois heróis não conseguiram nada melhor do que ser exibidos à consignação.

31 julho 2017

O CENTENÁRIO DO INÍCIO DA BATALHA DE PASSCHENDAELE

31 de Julho de 1917. Os exércitos britânicos e do seu império dão início à que oficialmente foi dado o nome de Terceira Batalha de Ypres. Em frentes estáticas como as da Primeira Guerra Mundial as batalhas tendiam a travar-se nos mesmos sítios. Situada na Flandres belga, quase no extremo oeste da Frente Ocidental, a data escolhida para esta ofensiva tomara em conta a meteorologia e o facto do mês de Agosto ser o mais seco numa região tradicionalmente pluviosa. Mas nesse ano a meteorologia não colaborou e as chuvas precoces rapidamente tornaram intransitáveis os terrenos escolhidos para as operações. Operações essas que, mesmo naquelas condições, prosseguiram.
As imagens da Batalha de Passchendaele (designação alternativa) tornaram-se assim características e simbólicas, pintadas ou fotografadas (acima): tocos de árvores destruídas pelas explosões das granadas de artilharia, crateras das explosões dessa mesma artilharia que se haviam enchido de água pelos aguaceiros prematuros e lama por toda a parte, dificultando até a construção das trincheiras e dos abrigos que se haviam tornado nos ex-libris das frentes de combate daquele conflito. Mas também as retaguardas haviam mudado, que a imprensa britânica (abaixo) havia deixado de acreditar piamente nas proclamações vitoriosas oficiais, como acontecera no ano anterior no Somme...

19 junho 2017

O FUZILAMENTO DO IMPERADOR MAXIMILIANO

Neste mesmo dia de há 150 anos o imperador Maximiliano I de Habsburgo (1832-1867) era fuzilado no México. Não chegou a completar 35 anos. Terminava dessa foram trágica uma aventura que já aqui contei neste blogue há uns dez anos. Para a relembrar sem me repetir, eis essa mesma história, agora recontada em quatro pranchas de Banda Desenhada.
O fuzilamento de Maximiliano foi tema de um interessante quadro do pintor francês Édouard Manet (1832-1883) que se pode apreciar abaixo. Mais do que pelo rigor, a pintura destaca-se pelo seu simbolismo, o soldado que fica para trás recarregando a sua espingarda tens as feições e o bigode de Napoleão III que Manet considera o responsável por aquele desfecho trágico.
E como que a corroborar que a aventura mexicana havia sido quase exclusivamente uma questão francesa, embora protagonizada por um príncipe austríaco demasiado ingénuo, até mesmo a única fotografia do fuzilamento é da autoria de François Aubert (1829-1906), outro francês. Nela percebe-se que Maximiliano estava do lado direito do paredão e não ao centro como acima o representam.

06 maio 2017

A VOLTA À GÁLIA (7)

Repare-se que em Ruão os nossos dois heróis nem tempo têm de se abastecer de qualquer artigo da gastronomia local, quiçá uma cidra, Entre as referências possíveis à cidade, há a que Goscinny não pôde incluir, que são a dúzia e meia de quadros que Monet pintou da fachada da catedral local e há as que Goscinny não quis incluir, qualquer alusão a que Joana d'Arc foi ali queimada em 1431, por exemplo.

18 outubro 2016

HISTÓRIA DA RESTAURAÇÃO 1814-1830 (1)

Em 1823, Luís António, o duque de Angoulême foi enviado por seu tio, Luís XVIII de França, para Espanha, à frente de um corpo expedicionário de 60.000 homens. Apesar dos seus 48 anos, o duque não era um militar e a direcção da campanha ficou a cargo do seu chefe de estado-maior, o general Guilleminot, por ironia um general de Napoleão, veterano de Waterloo. Mas a missão política de que o duque fora encarregado é que era importante: repor Fernando VII no trono de Espanha como rei absoluto, o bisneto de Filipe V (que fora o fundador da dinastia Bourbon em Espanha). Essa vitória política de instalar um Bourbon nos seus devidos direitos, ainda que no reino vizinho, representava uma espécie de sublimação por interposto país (da falta) de prestígio da Restauração que acontecera em França depois da queda de Napoleão. A Restauração francesa original acontecera por imposição das potências inimigas e não existia um feito de armas condigno que a justificasse. É para contornar isso que o episódio foi vivido em França de uma forma desproporcionada e que Paris é, ainda hoje, embelezada por uma enorme praça baptizada de Trocadéro em homenagem a um episódio menor dessa campanha, ocorrido perto de Cádis. É nesse mesmo espírito que foi pintado o quadro acima, assinalando o retorno triunfante do duque e das suas tropas a Paris, em 2 de Dezembro de 1823. Ao centro, sentado, está obviamente o monarca, Luís XVIII, a quem o duque presta a competente homenagem. Por detrás do duque, vêem-se à distância as tropas que desfilam pelos Campos Elísios e, ainda mais longe, um Arco do Triunfo de significado (ainda) incomodamente napoleónico. Do lado esquerdo do rei está o seu irmão e sucessor, Carlos X, pai do homenageado. Do lado direito as mulheres e as crianças da família real. O pequeno duque de Bordéus (3 anos), que seria então o terceiro na ordem de sucessão ao trono, acena com um chapéu emplumado, mostrando a continuidade da dinastia dos Bourbons de França. O autor da pintura é Jean-Louis Ducis (1775-1847), um discípulo menos conhecido e menos inspirado de David.

16 março 2016

AQUILO QUE NOS É CONTADO E AQUILO QUE NÓS QUEREMOS SABER

O quadro é conhecido: foi pintado em 1830 por Eugène Delacroix e é provavelmente a sua obra mais famosa. Intitula-se A Liberdade Guiando o Povo. A descrição e a interpretação simbólica da pintura que consta da entrada da Wikipedia redigida em português é a seguinte:

Delacroix retratou a Liberdade, tanto como figura alegórica de uma deusa como uma mulher robusta do povo, uma abordagem que os críticos contemporâneos denunciaram como "ignóbil". O monte de cadáveres actua como uma espécie de pedestal de onde a Liberdade passa, descalça e com os seios nus, de lona e no espaço do espectador. O barrete que ela usa simbolizou a liberdade durante a primeira Revolução Francesa de 1789-1794. A pintura tem sido vista como um marco para o fim da Era do Iluminismo, assim como muitos estudiosos vêem o fim da Revolução Francesa como o início da era romântica.Os lutadores são uma mistura de classes sociais, que vão desde as classes mais altas, representadas pelo jovem com uma cartola, para a classe média ou a revolucionária burguesia, como exemplificado pelo menino segurando as pistolas (que pode ter sido a inspiração para o personagem Gavroche em Les Misérables de Victor Hugo). O que todos têm em comum é o ardor e a determinação nos olhos. Além da bandeira empunhada pela Liberdade, em tricolor, em segundo plano, pode ser vista também uma bandeira igual, muito longe, nas torres de Notre Dame. A identidade do homem da cartola tem sido amplamente debatida. A sugestão de que era um auto-retrato de Delacroix foi eliminada pelos historiadores da arte moderna. No final do século XIX, foi sugerido o modelo de teatro Etienne Arago, outros têm sugerido o futuro provedor do Louvre, Frédéric Villot; mas não há um consenso firme sobre este ponto.

As descrições da versão francesa, castelhana ou inglesa do quadro são ligeiramente diferentes, mas em nenhuma delas aparecem identificadas, quanto mais respondidas, algumas outras perguntas que a observação atenta do quadro poderá suscitar. Por um lado, em termos mais gerais e filosóficos, para onde é que a liberdade guia o povo? Em perspectiva, será para o sítio onde está o observador, mas que significado poderá isso ter? Por outro lado, e em termos mais concretos e só para exemplo de outras figuras da pintura que nem sequer são referidas, porque é que o morto que nos aparece no solo, do lado esquerdo, nos aparece nu da cintura para baixo e sem calças? Quem terá precisado delas e as terá arrancado com tal pressa e desrespeito que uma meia ainda aparece calçada e a outra não? É por estes exemplos que se percebe o quanto devemos ser sempre exigentes com aquilo que nos dão, tanto mais que chegámos a uma época em que, como nunca antes, se podem fazer ouvir as reclamações da assistência...

30 janeiro 2016

O «PATHOS» E O «LOGOS» DAS REDES SOCIAIS

Esta fotografia anda a ser partilhada pelo facebook como pretexto para uma insuperável manifestação de indignação para com o desinteresse das gerações mais jovens pelas artes. Uma corrente minoritária dispõe-se a interpretar a fotografia de forma diversa e avança com explicações plausíveis para que os jovens estejam a olhar para os seus phones em vez de apreciarem o quadro. Mas são escassíssimos os comentadores que no meio dos prós e dos contras se querem fazer úteis, identificando o quadro (A Ronda da Noite), o autor (Rembrandt) e a sua localização actual (o Rijksmuseum de Amsterdão). Nem vou especular quando dos que se decidiram a opinar sabiam de antemão qualquer daquelas três informações. Mas, mesmo sem a especulação, aquilo de que suspeito parece-me um aspecto pertinente do problema, para além de me parecer um exemplo emblemático de como os assuntos tendem a ser discutidos nas redes sociais.

27 novembro 2015

«DAMA COM ARMINHO»

Dama com Arminho é um quadro de Leonardo da Vinci (1452-1519), um dos raros (quatro) retratos femininos que lhe são indiscutivelmente atribuídos pelos especialistas, retratos esses entre os quais se conta aquele que será o mais famoso do Mundo, o da Mona Lisa. Esta Dama com Arminho, que está actualmente exposta em Cracóvia na Polónia, e que retrata Cecília Gallerani, a amante de então do Duque de Milão, foi pintado entre dez a quinze anos antes da Gioconda, e tem uma dimensão pouco maior do que metade do outro retrato muito mais famoso. Os estudos a que a pintura foi submetida porém, empregando fotografias utilizando diferentes comprimentos de onda, revelam-nos uma evolução progressiva na composição do quadro, em que a retratada aparece originalmente sem qualquer animal, para depois de mudar de bicho, até assentar num arminho de pelo claro. Esta conversa é sobre pintura, mas não acho despropositado estendê-la até à forma retocada como foram tomando forma os acordos políticos, discretos e um pouco opacos, que sustentam o governo socialista que ontem tomou posse. O resultado final foi o que foi, mas ainda nem toda a história foi contada para se perceber porque o foi assim.

15 outubro 2015

AINDA AS CHAPELADAS

Porque a palavra chapelada invocada no poste anterior, no seu sentido político de processo pouco ortodoxo de obter votos adicionais num determinado partido para depositar na urna, perdeu reconhecimento público desde a época em que foi inventada, há mais de cem anos, em plena monarquia constitucional, aproveito para inserir pedagogicamente duas instrutivas caricaturas desses tempos da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro, para reavivar a noção do que se tratava. A chapelada que é ali retratada (e logo em cartola e chapéu de coco) teve lugar nas eleições de Novembro de 1900 no então círculo de Lisboa Ocidental. Já nem interessa a quem beneficiou. Aproveito para esclarecer que o facto de termos deixado de ouvir falar em chapeladas não é necessariamente sinónimo de elas se terem deixado de praticar. Volta e meia chegam-nos indicações que elas continuaram a acontecer, imensas sobre o Estado Novo mas evoluíram muito em sofisticação após o 25 de Abril e isso tornou-se um sinal de sucesso, porque uma chapelada bem sucedida é aquela de que não se ouve falar. Também ajuda à inocência que a opinião publicada não se disponha a dar destaque a esses indícios de fraude eleitoral, como o caso insólito ocorrido ainda a 4 de Outubro último, quando duas eleitoras foram impedidas de votar porque os seus nomes já haviam sido descarregados nos cadernos como tendo votado: a RTP deu a notícia, mas a concorrência, que costuma ser tão solidária ao cheiro de um escândalo, deixou-a sozinha desta vez.