30 de Novembro de 1872. Tem lugar aquele que é considerado pela FIFA o primeiro jogo «internacional» de futebol disputado ao nível de selecções. Disputado em Glasgow, Escócia, perante uma assistência de uns 3.500 espectadores, o jogo disputou-se num campo de cricket, como se pode ler no cartaz do anúncio acima. A palavra «internacional» do cartaz deveria levar umas aspas porque o jogo foi disputado entre a Escócia e a Inglaterra, que não são propriamente duas nações distintas - o governo é comum e está sediado em Londres (em 1872 o 1º ministro era William Gladstone). Porém a regra de constituir selecções distintas para a Inglaterra e a Escócia, e posteriormente para a Irlanda e Gales, manteve-se. Noutros países onde se quis copiar essa ideia do desdobramento de selecções pelas nações constituintes de um mesmo país, como foi o caso da Catalunha em Espanha, a coisa não correu assim tão bem...
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30 novembro 2022
30 agosto 2021
ALEX SALMOND É UM PORCO MAS NÃO É UM CRIMINOSO
Para quem não conheça os preâmbulos das vicissitudes associadas a Alex Salmond, antigo chefe do governo regional escocês e ex-líder do partido nacionalista local (SNP), sugiro-lhe este artigo, já que não é muito comum acompanhar-se por cá a vida política escocesa. O folhetim, que começou em finais de 2014, teve este fim de mês mais um episódio com a edição deste livro acima, que o Times publicou um extracto para o qual escolheu o significativo título: «Hoje ele não está um porco chateado... é apenas um porco nojento». A frase terá sido retirada de uma mensagem de uma assessora de Salmond... Pelos vistos, o que o novo livro procura demonstrar de maneira categórica é que Alex Salmond não gozava de qualquer popularidade junto daqueles que trabalhavam mais proximamente com ele - especialmente as mulheres... O problema é que, para conferir gravidade política ao assunto, o comportamento javardo de Alex Salmond foi tratado originalmente como se de um delito criminal se tratasse. Resultado: Alex Salmond acabou por ser absolvido em 12 acusações de tentativa de violação e de assalto sexual, num julgamento em que, significativamente, o júri foi composto por oito mulheres e cinco homens. Um resultado que o réu veio depois a utilizar para se vitimizar e tirar com isso vantagem no campo político. O assunto volta à baila. Apesar de não o ter lido, este livro parecer-me-á uma tentativa honesta para recolocar o caso de Alex Salmond nas suas devidas proporções: o homem é um porco mas não é um criminoso. Ser-se um porco é certamente muito censurável do ponto de vista político, mas não vale a pena forçar as acusações para as arrastar para o foro penal, conferindo-lhes uma gravidade mediática que depois se vem a verificar, em julgamento, que não têm. Espero que este episódio seja o percursor de um regresso do tema dos assédios e correlacionados a propósitos mais razoáveis do que os excessos que nos últimos anos foram desencadeados a pretexto da eclosão do movimento #MeToo: tudo era grave, tudo era crime. As vítimas eram sobreviventes, um termo que insulta as vítimas do Holocausto onde aí, de facto, se sobrevivia. Agora, é saudável que, daqui para diante e em substituição da histeria da indignação, a opinião publicada faça a distinção necessária e pertinente entre, por exemplo, as acusações contra o governador Cuomo e as que pesam sobre o príncipe André de Inglaterra. Politicamente, Cuomo é um alvo e André não é. O interesse em enterrar a carreira política do primeiro comparar-se-á com a mera coscuvilhice a respeito da vida privada do segundo. Mas as acusações que pendem sobre André são - essas sim - do foro criminal. É chato para com o príncipe, o homem até é bem parecido ao contrário do Salmond, mas isso de andar a dormir com menores é ilegal...
16 maio 2021
«ESCOCESES CONTRA A ENTRADA NO MERCADO COMUM»
Aberdeen, 16 de Maio de 1971. Numa cena pensada para destacar o seu carácter cénico, cerca de 150 escoceses, envergando kilts, aguardavam o automóvel do primeiro-ministro Edward Heath como forma de manifestarem o seu protesto contra a intenção do governo britânico em promover a adesão do Reino Unido à CEE. Recordado 50 anos depois, o episódio torna-se ironicamente cómico, atendendo àquilo que foi a evolução da opinião dos escoceses, enquanto súbditos do Reino Unido e enquanto membros da CEE (agora União Europeia). No referendo de 1975 os escoceses mostraram-se dos mais renitentes em aderir à Europa; contudo, no referendo de 2016, mostraram-se dos mais renitentes em a abandonar (ver mapa abaixo).
O problema político da Escócia parece ter mudado radicalmente nestes 50 anos: agora a questão não se porá em termos de fazer parte do «Mercado Comum», antes em fazer parte do próprio Reino Unido, e o sucessor actual de Edward Heath, tem um problema bem mais delicado entre mãos...
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14 janeiro 2020
A CRISE DO AQUECIMENTO GLOBAL
Quando se desejaria que fossem os castelhanos a aprender com os ingleses, os factos parecem demonstrar que o que está a acontecer é precisamente o contrário: são os ingleses que mostram querer lidar com os escoceses como os castelhanos o fazem com os catalães. O «aquecimento» a que me refiro em título não é o climático, é o político, desta deriva política progressiva das práticas democráticas em direcção às autocráticas, mesmo (sobretudo) na Europa.
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12 junho 2019
REFLEXÕES DIANTE DE UMA PORTA POLITICAMENTE FAMOSA
Tantas serão as indefinições que se colocam ao futuro próximo do Reino Unido (isto é, se o Reino Unido chegar a ter um futuro nessas condições: unido)...
...que os desenhos daqueles que serão os próximos potenciais ocupantes da residência oficial do cargo de primeiro ministro, nos transmitem muito menos seriedade e confiança...
...que fotografias que sabemos simuladas de protagonistas do mesmo cargo, feitas outrora em jeito de brincadeira naquele mesmo nº10 de Downing Street.
É que, sinceramente e pela forma como os segundos se conduziram até agora, eu não garanto que Jim Hacker faria pior figura que Boris Johnson ou Jeremy Corbyn.
06 maio 2019
AS ELEIÇÕES PARA OS PRIMEIROS PARLAMENTOS REGIONAIS ESCOCÊS E GALÊS
6 de Maio de 1999. Realizam-se eleições simultâneas para os primeiros parlamentos da Escócia e do País de Gales. Se, de há muito, todos nos havíamos habituado à existência de selecções de futebol ou de rugby distintas da inglesa (abaixo), a verdade é que a existência de uma câmara representativa local é um fenómeno com apenas vinte anos.
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23 março 2019
ESCÓCIA 1919
Uma fotografia da Escócia em 1919. É uma fotografia fria, tirada à alvorada ou ao entardecer, como se deduz pelo formato esticado das sombras desenhadas no solo. O bucolismo acentuado da cena, com o pastor, o cão e o rebanho das ovelhas, pretenderia induzir no observador a sensação que tudo regressara à normalidade de anteriormente, depois do fim da Grande Guerra. A evocação e a publicação vem a (des)propósito do Brexit, cem anos depois.
31 dezembro 2017
O FIM DA CHECOSLOVÁQUIA
31 de Dezembro de 1992 foi o último dia da existência da Checoslováquia. Dos países da Europa de Leste surgidos em 1918, se as animosidades entre as nacionalidades da Jugoslávia eram conhecidas perfeitamente pelo resto do Mundo, as da Checoslováquia surgiram com alguma surpresa logo depois do fim da Guerra Fria. O civismo recíproco como decorreu o processo serviu de base para que a partir dele se cunhasse uma expressão, «Divórcio de Veludo», para descrever o desmembramento de forma cordata de um país nas suas nacionalidades constitutivas. Como também já expliquei aqui neste mesmo blogue, a expressão pecará, como elogio, pelo excesso, porque realçado pelo contraste com o carácter sangrento como o desmembramento da antiga Jugoslávia se estava a processar nessa mesma época. O que se torna interessante, passados estes 25 anos, é como esses vários processos de desmembramento do Leste da Europa criaram uma dinâmica de novas fronteiras que acabou por chegar à Europa Ocidental. Entre os casos recentes mais relevantes apareceram os da Escócia, da Catalunha ou da Córsega (a que tenho visto ser dado muito pouca atenção). E, quando os problemas lhes batem à porta, a imaginação e o fair-play dos europeus cá deste lado parece desaparecer como por encanto, pois aquilo que se tem visto a Mariano Rajoy a respeito da Catalunha (e o que se antecipa como reacção de Emmanuel Macron a respeito da Córsega) é um comportamento tudo menos aveludado... De como todos estes assuntos não passam de uma questão de força política e de política de força e que os legalismos constitucionais só são evocados quando convêm, aqui fica a demonstração com a evocação do Art.º 107 (original em cima, tradução inglesa em baixo) da antiga constituição checoslovaca, que há 25 anos foi tão sumariamente deitada para o lixo.
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09 setembro 2016
DOIS ANOS DE «COERÊNCIA»
Em Julho de 2014 e perante a perspectiva de que a Escócia votasse favoravelmente o referendo que a poderia tornar independente do Reino Unido (que se iria realizar dali por dois meses) e Jean-Claude Juncker alertava que esse resultado implicaria a saída automática da Escócia da União Europeia, implicando um pedido de readmissão. Mesmo contestando o rigor da decisão, havia que aceitar a lógica subjacente. Passam-se dois anos, realizou-se entretanto outro referendo no Reino Unido, do qual resultou a saída do mesmo da União Europeia e aparece agora Guy Verhofstadt a dizer que agora é tudo ao contrário: no caso da Escócia se tornar independente a readmissão é automática. As regras europeias mudam com toda esta leviandade! Se estas contradições resultassem das declarações de dois funcionários menores, ainda se poderiam explicar. Agora, o primeiro já foi primeiro-ministro do Luxemburgo e actualmente preside à comissão europeia e o outro é um antigo primeiro-ministro da Bélgica e foi agora designado para chefiar a equipa de negociações da União para o processo do brexit. As diferenças destas hipocrisias europeias para com as domésticas a que estamos habituados é que há sempre um certo toque pessoal na forma como antipatizamos com... (sei lá) Paulo Portas. Estes outros, o Juncker e o Verhofstadt são só uns merdas, é um desprezo sem pathos, nós nem precisamos deles para ter alguém a quem detestar...
05 julho 2016
SOBERANIA PARLAMENTAR?
No rescaldo do referendo britânico surgiu uma opinião que se tem vindo a popularizar imenso por ser interessante. E é tanto mais interessante quanto me parece que serve para bloquear as consequências do resultado do referendo - do brexit. Explica-se (sucintamente) assim (cito): «No Reino Unido o princípio é soberania no Parlamento e não soberania no povo via referendum: é absolutamente legítimo ( e constitucional) que os deputados se oponham à revogação do acto que determinou a adesão do Reino Unido à União Europeia». Se há palavra que possua um valor reverencial a respeito do Reino Unido é Parlamento. O dito é uma instituição multisecular e tão única no Mundo que se torna por isso inatacável nas suas prerrogativas e na sabedoria centenária. E se há uma outra palavra que também possui um valor absoluto, mas aí mais entre nós, portugueses, e a respeito de legislação, é Constitucional. Quando a matéria é constitucional, ao contrário dos outros ramos do Direito, é quando se costuma produzir doutrina com a mesma fiabilidade de Nernst e a Terceira Lei da Termodinâmica: é dificilmente rebatível. Assim, se lemos por aí que o professor Fausto Quadros opina que o referendo não é vinculativo, (...) não vincula os órgãos da Coroa britânica. Portanto, não obriga também o Parlamento e que não está em causa a validade do referendo mas a sua eficácia, bem se poderia concluir que, se não fora para produzir quaisquer efeitos políticos, então toda a consulta pode não servir para nada, pode não ter passado de uma gigantesca brincadeira bem ao jeito do reputadíssimo humor britânico. Mas ao género dos Monty Phyton, sem punch-line, que até agora não se têm ouvido as gargalhadas... Em complemento a isso, têm-se ouvido opiniões que têm ido repegar argumentos sérios (e antigos) contra a realização de referendos e em prol dos mecanismos tradicionais da democracia representativa. A essas opiniões acessória e casualmente acrescenta-se que a maioria dos deputados britânicos são a favor do Bremain. É engraçado e apenas humano que essas opiniões de princípio só surjam quanto o desfecho do referendo vai contra aquilo que eu deduzo sejam as convicções do opinador. Por exemplo, a nenhum daqueles que agora vi evocar o tema nessa perspectiva, o vi fazer o mesmo por ocasião do referendo à independência da Escócia em Setembro de 2014... É aquela distância que vai das opiniões de princípio às opiniões de circunstância, em que as segundas não têm nada de mal, a não ser por as camuflarem daquilo que não são.
A referência à independência escocesa vem mesmo a propósito para regressar ao tema que era o objectivo inicial deste meu poste - a tal de soberania parlamentar exercida por um parlamento respeitavelmente multissecular, mas cuja soberania, tão brandida nos dias de hoje, há uns cem anos me parece que ainda não devia existir. Se existisse, a história da independência da Irlanda teria sido certamente diferente. Eu explico os factos: em Dezembro de 1918, no mês que se seguiu ao fim da Primeira Guerra Mundial realizaram-se eleições gerais no Reino Unido. Por causas que não interessa desenvolver, mas que já aqui desenvolvi num outro poste, a opinião pública irlandesa radicalizara-se acentuadamente durante a Guerra, os candidatos do Sinn Féin ganharam a esmagadora maioria dos círculos irlandeses (73 em 105 lugares, veja-se o mapa acima). Os eleitos do Sinn Féin recusaram-se a tomar lugar em Westminster e, em vez disso, em Janeiro de 1919 reuniram-se em Dublin, onde proclamaram a independência irlandesa. Exprimindo a vontade de 70% dos recém eleitos parlamentares irlandeses, não teria sido interessante acompanhar as negociações que se seguiriam a este exercício de soberania parlamentar? Teria, mas, como suspeitam, não foi nada disso que se passou. O governo britânico ilegalizou o Dáil Éireann (o recém proclamado parlamento irlandês). Durante os dois anos e meio que se seguiram travou-se uma guerra surda e selectiva que custou uns 2.000 mortos entre duas administrações que se procuravam sobrepor: a britânica e a irlandesa. Mas por fim os britânicos tiveram que reconhecer a derrota. Quando procuraram organizar novas eleições parlamentares em Maio de 1921, para substituir os deputados rebeldes, ninguém se atreveu a apresentar-se fora do Ulster contra os candidatos do Sinn Féin, que assim conquistaram os seus lugares sem necessidade sequer de votação. Foi uma demonstração de força que o governo de Londres percebeu muito melhor do que qualquer exercício de soberania parlamentar. Contra eles, nunca haveria qualquer possibilidade dos britânicos voltarem a estabelecer uma administração civil. Em cerca de um quarto do país vivia-se sob Lei Marcial. Dois meses depois das eleições, em Julho de 1921, assinaram-se as tréguas que viriam a culminar com a assinatura do Tratado Anglo-Irlandês em Dezembro desse mesmo ano, a que se seguiu o reconhecimento da independência (apenas) da parte Sul da Irlanda em 1922.
Percebe-se que actualmente não se fale muito dela, mas a história da independência da Irlanda é conhecida de todos os britânicos. Aliás, fosse para valer a tal de soberania parlamentar e alguns outros factos apresentar-se-iam de outra forma. Veja-se acima como ficou o mapa eleitoral da Escócia após as últimas eleições gerais britânicas em Maio de 2015: todos os 59 deputados escoceses eleitos salvo 3 pertencem ao partido nacionalista escocês (SNP). E no entanto, mesmo com essa soberania parlamentar esmagadora, quando no SNP se aborda de novo o tema da independência, fala-se de um novo referendo. Se calhar, e mesmo tratando-se da independência deles, os escoceses pró-independência têm é que fazer como nós, e prestar mais atenção às opiniões do professor Fausto Quadros... e dos outros especialistas em soberania parlamentar.
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24 junho 2016
COMO A ESCÓCIA SAIU ALDRABADA DO REFERENDO
Um dos aspectos colaterais mais interessantes dos resultados do referendo britânico de ontem foi a particularidade da situação escocesa. Há menos de dois anos, por ocasião da realização do já esquecido referendo sobre a independência da Escócia, houve várias vozes de dentro da União Europeia que haviam induzido o sentido do voto, ao alertarem que seria necessário o regresso de uma Escócia independente ao seio da União Europeia e que essa iria ser uma tarefa demorada. Pois bem, é difícil a situação ser mais irónica: ontem, a Escócia votou maioritariamente por permanecer na União Europeia mas acaba por sair da União Europeia arrastada e precisamente por não se ter querido tornar independente da Inglaterra, conforme os tais senhores em Bruxelas queriam que ela fizesse... Claro que a descida significativa do preço do petróleo torna as condições para a independência escocesa muito menos atractivas agora do que se apresentavam em Setembro de 2014, mas note-se, por este exemplo, como o resultado do referendo poderá vir a provocar muito mais alterações do que aquelas que eram originalmente antecipadas pelos intervenientes.
08 maio 2015
AINDA AS BOLSAS... E OS SAPATOS
Se já se percebeu que (as) Bolsas (...e os Sapatos) aplaudem (a) vitória dos conservadores no Reino Unido, seria de esperar que se assinalasse – havendo coerência – que a intensidade desses aplausos deverá ter sido muito moderada pelos resultados eleitorais da Escócia, onde os independentistas do SNP ganharam 56 dos 59 lugares em disputa e 50% dos votos.
É um resultado que parece recolocar o problema do separatismo escocês em agenda, algo que parecia ultrapassado depois da realização do referendo sobre a independência da Escócia há apenas oito meses, quando, recorde-se abaixo um dos cabeçalhos da altura, os Mercados (teriam) respirado de alívio com o «não» escocês.
Houvesse laivos de seriedade em todo este género deplorável de jornalismo feito de superficialidades e de um engajamento ideológico indisfarçado, e impor-se-ia explicar-se porque é que, com os resultados eleitorais de ontem, com a independência da Escócia a voltar à ordem do dia e com um referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (re)prometido pelo partido vencedor, os mercados e as bolsas não haviam tido um ataque de asma...
19 setembro 2014
AINDA O REFERENDO DA ESCÓCIA (OS RESULTADOS)
Recolhendo dois milhões de votos e registando uma maioria confortável de 384 mil, a opção pela permanência no Reino Unido prevaleceu no referendo que ontem teve lugar na Escócia. Nos 32 círculos eleitorais em que o país foi desdobrado para efeitos de contagem dos votos, a opção vencedora ganhou em 28. Excepções foram o círculo que cobre a cidade de Glasgow e outros dois adjacentes (Glasgow é a maior cidade da Escócia) e ainda o da cidade de Dundee (veja-se o mapa acima). Em contrapartida, cidades como Edimburgo (a capital) e Aberdeen votaram substantivamente (61 e 59%, respectivamente) com a maioria. Mas, talvez mais importante do que os quatro grandes círculos urbanos, terá sido o resultado nas simbólicas Highlands dos clãs onde o Não também venceu, embora por uma margem consistente com o resultado nacional (53%).
18 setembro 2014
COMENTÁRIOS AOS COMENTÁRIOS AO REFERENDO ESCOCÊS AO SOM DE «SCOTLAND THE BRAVE»
The Isles: A History é um livro escrito por Norman Davies, editado em 1999. Há que reconhecer que não se trata de um livro muito acessível – duplamente: custou-me 9.815$ na FNAC uns anos depois e, entre o corpo principal e os (63!) anexos tem um pouco mais de 1.200 páginas. Mas é livro para nos explicar a complexidade das relações entre as várias nações que habitam as ilhas que Davies evitou, explicando detalhadamente porquê, qualificar de britânicas no título. Um exemplo que já usei aqui no blogue pode ser a história do mais bonito hino que conheço, Hen Wlad Fy Nhadau, o hino galês. Sobre o assunto supra, como acontece frequentemente, quanto mais conhecimentos adquirimos, com menos certezas ficamos.
Nesta época em que as opiniões sobre o referendo a respeito da independência escocesa são como os cus (toda a gente tem uma e manda cá para fora umas merdas), seria irrealista, à falta da contenção decorosa que deveria assistir a quem percebesse previamente muito pouco sobre o assunto, pedir ao contingente opinativo que se documentasse em calhamaços destes com mil páginas, antes de produzir por aqui e por aí as tais merdas. Disso eu já estava à espera. Confesso que não estava à espera é que numa historieta que teria, à partida, todas as condições de ser apresentada como a luta de David contra Golias¹, uma substancial parte da maralha se apresentasse a tomar doutamente partido... pelos Golias.
Só pela insídia da publicidade dada – por exemplo (mas que exemplo!) – à opinião do FMI sobre a independência escocesa dei por mim irritadamente a torcer pelo outro lado. Descobre-se que o FMI moderno afinal pronuncia-se sobre variadíssimos assuntos. E que a opinião é muito citada. Embora não me lembro de Portugal ter pedido o agrément público do FMI quando há 40 anos se decidiu pela descolonização. De resto, se se estava numa atitude de auscultar a opinião de grandes organismos internacionais sobre a independência escocesa, porque não perguntar também à FIFA? Provavelmente porque para esta a questão nem se põe: sempre existiu uma federação escocesa de futebol distinta da inglesa...
Em termos específicos, o irónico da situação é que muito provavelmente os nacionalistas escoceses já ganharam o referendo, independentemente de qual for o resultado. Como David Cameron extremou as posições, foi ele que acabou perdendo com a manobra. Em termos mais gerais o episódio vale pelo papel ideológico conferido ao FMI que aqui aparece como se fosse uma Internacional Capitalista, ao melhor estilo das suas antecessoras de inspiração distinta, explicando-nos o que é que é melhor para a Humanidade. A diferença é que o papel outrora representado pelos apaniguados comunistas é agora desempenhado por uma plêiade de opinadores que, distintos, acabam sempre por opinar concertadamente.
¹ Ou do Robin dos Bosques contra o Xerife, embora o Robin, convêm esclarecer, seja inglês e não escocês.
09 setembro 2014
OS REFERENDOS SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO QUÉBEC
A realização do próximo referendo sobre a independência da Escócia é um bom pretexto para recordar o caso do Québec, única província canadiana onde existe uma maioria francófona, e onde já se realizaram dois referendos (em 1980 e 1995) questionando a sua independência do Canadá. O impacto de uma eventual secessão quebequense no Canadá seria muito superior ao caso da secessão escocesa no Reino Unido. Começando pela geografia e olhando para o mapa acima, percebe-se como, ao contrário do que sucede com a Escócia que ocupa o Norte da ilha, uma eventual independência quebequense deixaria o Canadá dividido, com quatro das dez províncias (e 7% da população) a ficarem isoladas na fachada Atlântica, a Oeste, do resto do país onde residem os restantes 70% dos canadianos. A população do Québec – os 23% em falta nas contas acima – quase atinge actualmente os oito milhões (para comparação, refira-se que os escoceses são um pouco mais de cinco milhões e menos de 9% da população total do Reino Unido).
Adiante-se, para preâmbulo das condições que presidiram ao primeiro referendo, que a questão da francofonia e dos direitos dos francófonos no Canadá se mantivera uma questão pesada ao longo de todo o Século XX. Já aqui contei no blogue um episódio mais vivido dessa questão de Julho de 1967, quando de Gaulle foi expulso do Canadá por comportamento indecente (ao gritar Vive le Québec Libre!), por muito presidente de França que ele fosse. No ano seguinte formava-se o Parti Québécois independentista, em 1976 o PQ ganhava as eleições provinciais e formava o primeiro governo pró-independência e foi sob a égide desse governo que o referendo foi convocado para Maio de 1980. Prolongando a dinâmica de uma época em que houvera uma avalancha de independências por todo o Mundo (64 entre 1957 e 1975), a ponto de o discurso político confundir regularmente a autodeterminação com a independência, a do Québec parecia um caso consumado. Mas não foi. O Não venceu com 59,5% dos votos e uma maioria robusta de mais de 700 mil votos sobre o Sim.
O mito simplista (muito propagandeado na Europa a partir de Paris) que o Québec francófono só permanecia agarrado ao Canadá anglófono porque nunca fora consultado desmoronou-se com fragor nessa Primavera de 1980. Depois disso, o PQ abandonou o poder em 1985 para só regressar em 1994. A proposta que foi apresentada a referendo em Outubro do ano seguinte era muito mais moderada do que a anterior, capaz de captar os moderados que, pugnando por maior autonomia, se mostravam cautelosos com as consequências de uma independência. E, considerando a robustez da maioria alcançada quinze anos antes, quem se terá apresentado com confiança excessiva ao acto eleitoral foram os partidários do Não. Dessa vez o Não venceu mas por uma unha negra: 50,6% da votação, a maioria reduzida a 54 mil votos. Embora o PQ já tenha regressado ao poder por uma terceira vez entre 2012 e 2014, fê-lo com um governo minoritário e, por isso, sem condições políticas para organizar mais um referendo para alcançar aquele que é o seu objectivo último confesso: a independência do Québec.
08 setembro 2014
...NA ESCÓCIA
A experiência faz-me olhar com cepticismo para o aparecimento de sondagens de última hora que trazem a indecisão (com a correspondente animação mediática) a actos eleitorais cujo desfecho parecia selado desde há muito. É sob essa reserva que avalio a vantagem registada pelos independentistas na Escócia numa sondagem mais recente, que veio mesmo a calhar para aduzir interesse a um assunto que permanecia muito mortiço. Antes, havia seguido um…
…dos debates sobre o tema desse próximo referendo na Escócia num dos canais informativos britânicos, num exercício complicado pela dificuldade em compreender algumas das perguntas que eram colocadas pela assistência, que aquele sotaque não é mesmo nada fácil. Mas tenho um amigo escotófilo para quem tais dificuldades são detalhes de somenos e que tem estado a seguir a (aparente) evolução da opinião pública escocesa com o seu maior entusiasmo, só lhe faltará…
…mesmo passar a usar um kilt, que o tartã do seu clã (adoptivo) já há muito terá sido escolhido. E é em sua homenagem que deixo esta última imagem do capacete de Jackie Stewart, associando duas paixões suas: a Escócia e a Fórmula 1. Num remate menos lírico, convém chamar a atenção que, no caso improvável do Sim independentista vencer, será uma trabalheira para outros países europeus – a começar por Espanha – deflectir as ondas de choque que irão agitar os seus separatismos.
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