15 de Julho de 1974. Com o patrocínio da Junta Militar grega a Guarda Nacional cipriota dá um golpe de Estado em Chipre. A ilha de Chipre, que se tornara independente da tutela britânica em 1960, vivia desde então um equilíbrio político periclitante. Os seus habitantes dividiam-se entre uma comunidade grega significativamente maioritária (quase 80% da população), onde, para mais, existia uma facção política que militava pela sua união com a Grécia; mas também existia uma comunidade turca (quase 20%) que recebia uma protecção ostensiva da Turquia, que era o país geograficamente mais próximo. O equilibrista no meio desta situação era um arcebispo ortodoxo, Makarios III, que fora eleito e reeleito e presidia aos destinos da ilha desde a independência. É esse arcebispo-presidente que é dado como morto na notícia acima. Não estava e o assunto irá ter várias outras repercussões, mas dentro de dias regressaremos ao assunto.
Mostrar mensagens com a etiqueta Turquia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Turquia. Mostrar todas as mensagens
15 julho 2024
22 abril 2024
AS OFENSIVAS DIPLOMÁTICAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
(Republicação)
22 de Abril de 1944. Um par de notícias de conteúdo aparentemente anódino numa das páginas centrais da edição do jornal desse dia, dá conta daquilo que era uma discreta, mas violenta, ofensiva diplomática por parte dos Aliados para que alguns países neutrais cortassem o fornecimento de alguns itens considerados vitais para a indústria de armamentos do III Reich. Numa das notícias, originária de Ancara, dava-se conta da reacção da Turquia a essas pressões, suspendendo as exportações de minério de crómio para a Alemanha, invocando a sua própria condição de aliada da Inglaterra. Noutra, oriunda de Londres, era a Suécia que ainda não respondera à nota dos Aliados, em que se lhe era pedido que suspendesse as exportações de esferas de rolamentos para a Alemanha. Havia uma campanha de bombardeamento em curso para destruir a capacidade de as produzir no próprio território alemão, e a indústria de armamentos alemã havia recorrido ao reforço das importações da Suécia para suprir as carências. A resposta sueca irá ser tão evasiva que a importância e as consequências dessa decisão ainda hoje são objecto de discussão académica: a Suécia colaborou ou não com a Alemanha? Contudo, a Turquia e a Suécia não eram os únicos países neutrais a serem pressionados naquela altura pelos Aliados: dali por mês e meio, na edição de 7 de Junho, era ocasião para ser notícia o anúncio pelo governo português da suspensão das exportações de volfrâmio para os países beligerantes. Fazia-o a pedido da Grã-Bretanha. Repare-se como os Estados Unidos pareciam nunca aparecer nestas iniciativas...
Etiquetas:
80º Aniversário,
Alemanha,
Estados Unidos,
Reino Unido,
Segunda Guerra Mundial,
Suécia,
Turquia
03 março 2024
A ABOLIÇÃO DO CALIFADO E A PERSONALIDADE DO ÚLTIMO CALIFA
Convirá explicar previamente ao leitor menos sensibilizado para as nuances de que se revestira o poder otomano, que, durante mais de 400 anos, o sultão que reinara a partir de Constantinopla, fora também o califa, agregando em si os poderes temporal e espiritual, o monarca absoluto de todos os súbditos do império otomano, mas simultaneamente o líder da Umma, a comunidade espiritual dos muçulmanos de todo o mundo. Este último poder era mais simbólico que efectivo e fora por isso que, quando a Assembleia Nacional turca decretara a abolição do sultanato em 1 de Novembro de 1922, expulsara o sultão Mehmed VI do trono, mas permitira que este tivesse um sucessor no cargo de califa na pessoa do seu primo Abdul Mejide II.
Que me perdoem esta indispensável explicação prévia, mas sem ela não se compreenderia o significado de, dezasseis meses depois, a 3 de Março de 1924 (cumprem-se hoje precisamente cem anos), ter sido por sua vez Abdul Mejide II a ser deposto. Os novos poderes turcos assumiam-se ostensivamente laicos e pretendiam descartar-se completamente da questão religiosa. Foi deste modo que deixou de haver um califa, algo que era inédito desde o surgimento do Islão no século VII. Nestes cem anos que entretanto decorreram, apesar de algumas tentativas mais sérias e de outras mais caricatas, nunca mais esse cargo, largamente honorífico e assente na aceitação consensual das múltiplas correntes da comunidade, nunca mais veio a ser restaurado.
Esta abolição foi um episódio com significado para o mundo muçulmano mas que deixava o mundo ocidental praticamente indiferente. É muito significativo disso que, tendo a deposição ocorrido a 3 de Março, é só a 16 desse mês que vemos um quotidiano francês (Le Petit Journal) a dedicar uma capa ilustrada ao que acontecera. Uma ilustração muito imaginada, de resto, já que a verdadeira fotografia do momento é muito mais sóbria quanto ao número de pessoas presentes... Assim como mais digna se apresenta a pose deste último califa. Abdul Mejide II parece ter sido um daqueles príncipes com alguns interesses intelectuais e méritos, considerado hoje um pintor de talentos médios. Exibo aqui dois dos seus quadros, em que se destaca a sua primeira mulher (teve quatro, como qualquer bom muçulmano), Şehsuvar Hanım.
No primeiro deles, intitulado Goethe no harém, ela aparece deitada num divã segurando um livro do poeta alemão. No segundo, cujo título é Beethoven no palácio, a princesa aparece a tocar violino, enquanto outros membros da família tocam outros instrumentos de uma composição que se presume ser do compositor alemão. Pintados em 1915 e 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, quando vigorava uma aliança próxima entre a Turquia e Alemanha, qualquer dos quadros dá-nos uma imagem de um (futuro) califa muito impregnado da cultura ocidental e alemã... A comparar com as imagens que hoje circulam dos clérigos muçulmanos, este exemplo é o que de mais parecido se pode arranjar de um outro famoso califa cosmopolita e desprendido, esse de ficção, Haroun el-Poussah, o califa de Bagdade a quem o ignóbil grão-vizir Iznogoud cobiça o estatuto...
Etiquetas:
100º Aniversário,
BD,
Filosofia e Religião,
Pintura,
Turquia
08 outubro 2023
A CONTRA OFENSIVA FALHADA DOS ISRAELITAS NO SINAI (GUERRA DO YOM KIPPUR)
8 de Outubro de 1973. Guerra do Yom Kippur. Dois dias depois da ofensiva egípcia, que havia feito as suas tropas atravessar o canal do Suez e penetrar na península do Sinai, as tropas israelitas desencadeiam uma contra-ofensiva, operação que se virá a revelar um fracasso. Concebida como uma manobra táctica que ceifaria por detrás as ligações logísticas das unidades combatentes egípcias (ver o mapa acima), a acção fracassou. Ao contrário do que acontecera em 1967, os egípcios estavam agora muito bem apetrechados e treinados em armamento anti-tanque (AT-3 Sagger e mesmo RPG-7), que neutralizou as concentrações blindadas israelitas que haviam feito o sucesso da Guerra dos Seis Dias.
Nesta contra-ofensiva, os israelitas não só não haviam progredido grande coisa no terreno como, ainda por cima, haviam perdido 73 carros de combate num só dia, número que corresponde a 42% do total inicial de 172 da divisão blindada (e a quase 10% do seu parque total...). Os egípcios, remetidos à defesa, haviam perdido, quanto muito, uma trintena de tanques - e os tanques soviéticos sempre foram de qualidade muito inferior aos ocidentais. Pior: a divisão havia perdido, entre mortos, feridos e capturados, três dos seus nove experientes comandantes de batalhão. A Comissão Agranat irá ser muito severa para com as decisões dos comandantes militares nesta frente do Sinai nesta fase da guerra.
Contudo, tão importantes quanto estes desfechos tácticos, era a conclusão estratégica que o ritmo de desgaste material desta guerra iria obrigar a um envolvimento logístico sério por parte das duas super-potências para reabastecerem os dois lados combatentes (Israel de um lado e Egipto e Síria do outro). Já aqui se mencionou o caso dos Estados Unidos e Israel, que nos envolveu directamente por causa da base das Lajes. Mais discreto foi o caso dos soviéticos e a sua ponte aérea de material de guerra para os países árabes. Mas ela existiu, como se percebe pela passagem abaixo*, em que se nota - já então! - a atitude pró-russa (e anti-americana) da Turquia, apesar de pertencer à NATO!
No total, os Estados Unidos transportaram 22.325 toneladas de equipamentos militares por via aérea a partir de 12 de Outubro de 1973. Os soviéticos entre 12.500 e 15.000 toneladas. Uma boa razão para recordar este episódio de há cinquenta anos é fazer compreender melhor aos eventuais leitores deste blogue quais são os problemas do recompletamento do material de guerra nas fases mais acesas de uma guerra moderna, como a que se trava na Ucrânia**. Compreender como se revela importante, mas também complicado, substituir todo aquele equipamento que é destruído, no caso de se tratar de um país beligerante que não tem meios industriais para o poder substituir àquele ritmo, por si próprio.
* A passagem, assim como o mapa inicial e a avaliação da batalha de 8 de Outubro constam do livro «La Guerre Israélo-Arabe d'Octobre 1973» de Pierre Razoux, Economica 1999 já aqui mencionado.
**Este texto havia sido preparado antes dos ataque do Hamas a Israel. Apesar da belicosidade das declarações do 1º ministro israelita, ainda não se trata bem de uma guerra, pelo menos com as dimensões e gravidade da do Yom Kippur.
Etiquetas:
50º Aniversário,
Armamento,
Egipto,
Estados Unidos,
Israel,
Livros,
Rússia,
Turquia
27 julho 2023
O ASSALTO À EMBAIXADA TURCA EM LISBOA
27 de Julho de 1983. A embaixada turca em Lisboa é assaltada por um comando terrorista arménio. Nunca se estabelecerá claramente o que terá acontecido para que os assaltantes tenham detonado prematuramente os explosivos que traziam consigo, matando-os, conjuntamente com a esposa de um dos membros da embaixada que havia sido tomada como refém e ainda um polícia português. Houve ainda mais dois feridos: um dos reféns e outro polícia português. Tudo se passou em menos de quatro horas. Quando se lê acima, que o comando fora dominado, faltava o esclarecimento que o comando se dominara a si próprio... Abaixo, um documentário evocativo transmitido há uma dúzia de anos pela SIC.
Etiquetas:
40º Aniversário,
Arménia,
Informação,
Turquia
30 janeiro 2023
O CENTENÁRIO DA ASSINATURA DA CONVENÇÃO DE LAUSANNE
30 de Janeiro de 1923. Assinatura da Convenção de Lausanne entre a Grécia e a Turquia. Os dois governos acordam em proceder a uma enorme transferência de populações - cerca de dois milhões de pessoas serão afectadas - por forma a que qualquer deles passasse a constituir praticamente um estado nação, com uma população homogénea e sem significativas minorias étnico religiosas. Se a maioria das populações a deslocar respeitavam o padrão étnico-religioso - os gregos eram cristãos ortodoxos e os turcos muçulmanos - havia variadíssimas comunidades - minoritárias, mas mesmo assim constituídas por dezenas de milhares de pessoas - que desrespeitavam esse padrão. Nem todos os muçulmanos que viviam dentro das fronteiras da Grécia eram de cultura turca; e nem todos os gregos que viviam dentro das fronteiras da Turquia eram de confissão cristã.
Em resultado desta Convenção que foi assinada há cem anos e como se depreende do mapa mais acima, cerca de 0,5 milhão de muçulmanos (predominantemente turcos) foram expulsos da Grécia e cerca de 1,5 milhões de cristãos ortodoxos (sobretudo gregos) foram expulsos da Turquia. Estes últimos, e como se lê também no mapa, vieram a constituir cerca de 20% da população grega - proporcionalmente, será 3 vezes mais do que os retornados de África em Portugal nos anos 70. Mas, mais do que números, mais importante será compreender os dramas humanos que esta imensa migração forçada provocou, de que este livro acima narra vários casos. Paradoxalmente, o olhar analítico, distanciado de um século, obriga-nos a reconhecer que, apesar do trauma, esta solução terá evitado inúmeros pretextos adicionais para a ocorrência de conflitos posteriores entre gregos e turcos. A nota final é para a forma como o assunto foi noticiado (abaixo): Curzon era o ministro britânico das Negócios Estrangeiros, e aos jornalistas escapou-lhes por completo o que de mais importante acontecera. É uma tradição, quase...
Etiquetas:
100º Aniversário,
Estratégia,
Grécia,
Informação,
Livros,
Turquia
01 novembro 2022
O FIM DO IMPÉRIO TURCO
1 de Novembro de 1922. A Assembleia Nacional turca, que sediava em Ancara, decreta a abolição do sultanato otomano de Istambul, então personificado por Mehmed VI. Era o fim de uma era iniciada em 1299 com Osmã I como monarca de um principado situado na extremidade ocidental da Ásia Menor. O berço dos otomanos situa-se a uns escassos 150 km (em linha recta) de Constantinopla, algo que tanto gregos quanto turcos, por razões antagónicas, têm uma certa relutância em reconhecer. A fotografia da partida do sultão para o exílio foi tomada duas semanas depois, a 17 de Novembro.
30 agosto 2022
A BATALHA DE DUMLUPINAR
30 de Agosto de 1922. Com a conquista pelo exército turco de Afyon (actualmente Afyonkarahisar), dá-se por concluída a batalha de Dumlupinar. A derrota grega, mais do que apenas uma derrota militar, representa o fim do sonho de uma Grécia coexistente nas ilhas mas sobretudo também nas duas costas do Mar Egeu, a da Europa e a da Ásia, a Megáli Idea (abaixo). A lendária cidade de Tróia onde ocorreu a guerra do mesmo nome, por exemplo, situa-se nas costas asiáticas do Egeu. Mas os sentimentalismos de pouco haviam contado no campo de batalha e a vitória decisiva fora para a Turquia e Tróia iria ficar em território turco. Naturalmente não se saberia então, mas este desfecho, como assinalei num poste prévio, virá a causar a queda do primeiro-ministro britânico!
E no entanto e mais uma vez venho demonstrar que os acontecimentos internacionais de mais profundo significado não raro escapam às atenções de quem se encarregava - e encarrega - de nos informar. Esta batalha de Dumlupinar e as suas consequências militares e políticas, apesar do significado profundo que virá a ter para a configuração das fronteiras e para as populações da Grécia e da Turquia (milhões virão a ser transferidos de um dos lados da fronteira para o outro como assinalei noutros poste), passou quase uma semana sem ser sequer noticiada nos nossos jornais. Quando o passaram a ser, a partir de dia 4 de Setembro, ainda as notícias vinham cheias de distorções (abaixo). A classe dos jornalistas bem se esforça para parecer que não, mas quando a História vem nas páginas de um jornal, até parece que é por acaso...
Etiquetas:
100º Aniversário,
Grécia,
Informação,
Turquia
11 abril 2022
O MASSACRE DE CHIOS
Há duzentos anos, a ilha de Chios (842 km²), situada no Mar Egeu, pertencia ao império otomano (turco), embora a ilha fosse povoada (cerca de 80 a 100.000 habitantes) quase exclusivamente por gregos (cristãos ortodoxos). Chios, cuja área era apenas ligeiramente maior do que a Madeira e com uma população comparável (à época), era uma das mais prósperas comunidades insulares do Egeu. E a ilha passou a ser disputada no quadro da guerra de independência grega. A 22 de Março de 1822, um destacamento de 2.500 rebeldes gregos desembarcara em Chios, cercando a guarnição otomana na fortaleza da capital. Mas a 11 de Abril de 1822, há precisamente 200 anos, os otomanos procederam a um contra-desembarque (repare-se como Chios se situa perto das costas da Anatólia). Os 46 navios e 7.000 soldados otomanos - posteriormente reforçados com mais 30.000 - vinham com uma missão de retaliação e uma política de terra queimada. Nos meses que se seguiram, Chios foi deliberadamente despovoada. A dimensão do massacre de Chios é incerta, mas as estimativas mais comuns apontam para que 25.000 habitantes da ilha foram mortos, 45.000 foram capturados e reduzidos à escravatura, e só uns 10 a 20.000 é que terão conseguido fugir. No final, terão subsistido apenas uns 20.000 habitantes. O episódio causou um grande impacto - negativo - por toda a Europa. Tanto que em 1824 o pintor francês Eugène Delacroix assinava este quadro abaixo, intitulado precisamente o Massacre de Chios. Chios nunca recuperou plenamente da hecatombe: a ilha tem actualmente 54.000 habitantes, ou seja, um pouco mais de metade da população que tivera há duzentos anos. E, como se costuma escrever no rodapé do final dos filmes, qualquer associação desta minha evocação com o comportamento assumido recentemente pelas tropas russas na Ucrânia terá sido uma mera coincidência.
Etiquetas:
200º Aniversário,
Grécia,
Pintura,
Turquia
16 agosto 2021
A QUESTÃO DOS ESTREITOS
16 de Agosto de 1946. A questão dos Estreitos (como a denomina o Diário de Lisboa) começara dias antes, a 7 de Agosto, quando a União Soviética enviara uma exigência à Turquia para que esta permitisse a "defesa conjunta" do estreito de Dardanelos em condições especiais, algo que implicaria que as tropas soviéticas pudessem entrar em território turco. Era uma revisão completa da Convenção de Montreux, que conferia (confere) à Turquia o controle completo dos estreitos do Bósforo e dos Dardanelos. Acompanhando a solicitação e numa manobra intimidadora, aparecera um editorial na imprensa soviética dos dias seguintes, apoiando a devolução da província de Kars, que havia sido cedida pela Rússia à Turquia após a Primeira Guerra Mundial. O preâmbulo da notícia caracterizava a questão como «um problema explosivo», mais um no quadro do esfriamento das relações entre os antigos aliados da Segunda Guerra Mundial. Precisamente no dia anterior (dia 15) e ainda desconhecido do jornal, numa nota diplomática enviada pelo presidente norte-americano Harry S. Truman ao seu homólogo turco İsmet İnönü, os Estados Unidos haviam fornecido um respaldo político à intenção turca de rejeitar as pressões soviéticas. O primeiro gesto desse apoio seria o envio para águas territoriais turcas da 12ª esquadra norte-americana, encabeçada pelo moderníssimo porta-aviões USS Franklin D. Roosevelt, esquadra essa que naquele mesmo dia, e por coincidência, acabara de fundear no Tejo, conforme se pode ler na notícia adjacente da primeira página.
Etiquetas:
75º Aniversário,
Estados Unidos,
Informação,
Rússia,
Turquia
22 outubro 2020
OS DOIS GENERAIS AMERICANOS DESAPARECIDOS NA TURQUIA
22 de Outubro de 1970. Esta notícia dos dois generais americanos que haviam desaparecido quando viajavam num avião no Leste da Turquia virá a ter um final mais feliz do que aquilo que se anteveria no momento em que a notícia foi publicada. Um final mais feliz, mas também inesperado. Assim, o pequeno avião Beechcraft, pilotado por um major americano que seguia de Erzurum para Kars com dois generais da mesma nacionalidade a bordo, e então dado como desaparecido, havia aterrado... mas no aeroporto de Leninakan, na Arménia, União Soviética (cidade hoje rebaptizada de Guiumri). As explicações dadas pelo piloto às autoridades soviéticas eram, no mínimo, estranhas, já que o plano de voo original previa uma viagem de apenas 175 km e o avião havia percorrido 125 km adicionais até ao local onde pousara... com o piloto completamente convencido que não se desorientara. Segundo as declarações que o piloto prestara, «ventos ascencionais haviam transportado o pequeno avião para cima das nuvens» e quando reatara a manobra de aproximação à pista continuava perfeitamente convencido de estar em espaço aéreo turco. Em plena Guerra-Fria fora um péssimo sítio para um avião militar americano com 3 oficiais a bordo (e mais um oficial turco de ligação) se desorientar, mas a boa notícia é que não havia vítimas a lamentar de um acidente aéreo - que fora a primeira hipótese a colocar-se. Quanto aos militares soviéticos, descontado o cepticismo quanto à versão do piloto, tiveram que render-se à evidência que a sua enorme incompetência como navegador (mapa abaixo) seria a explicação mais provável para o que sucedera: em alternativa, considerar a hipótese que o inimigo procedera a manobras de espionagem num avião ligeiro com dois oficiais generais a bordo seria uma hipótese ainda mais estúpida que a inicial. A 10 de Novembro, as autoridades soviéticas libertaram os 4 oficiais.
Etiquetas:
50º Aniversário,
Arménia,
Estados Unidos,
Informação,
Rússia,
Turquia
10 agosto 2020
A ASSINATURA DO TRATADO DE SÈVRES
10 de Agosto de 1920. Depois da Alemanha, da Áustria, da Bulgária e da Hungria, a Turquia é o último dos vencidos da Grande Guerra a assinar o devido tratado de paz. Mais uma vez, o local escolhido foi a França e os arredores de Paris. Também a aceitação deste tratado será disputada internamente entre duas facções políticas no país vencido. A diferença do caso turco para com os restantes é que aqueles que na Turquia se opõem à aceitação das cláusulas do Tratado prevalecerão, e os Aliados já não disporão, nem de capacidade militar, nem de força política anímica suficiente, para impor no terreno as condições que haviam imposto à mesa das negociações. O Tratado de Sèvres, cujo impacto em termos de redefinição das fronteiras turcas seria o que se pode apreciar na parte de cima da imagem abaixo, será letra morta. As fronteiras da Turquia que prevalecerão serão as definidas pelo Tratado de Lausanne (na Suíça...), assinado em 1923 entre os mesmos Aliados vencedores mas onde a Turquia já aparece representada pelos republicanos de Mustafá Kemal. Para conseguir condições tão mais vantajosas, Kemal teve que derrotar uma invasão grega, apoiada pelos britânicos, mas isso é uma história que contaremos de uma outra vez.
Etiquetas:
100º Aniversário,
Primeira Guerra Mundial,
Turquia
27 maio 2020
GOLPE DE ESTADO NA TURQUIA
27 de Maio de 1960. Golpe de estado na Turquia. Estávamos num tempo em que os golpes de estado perpetrados pelos militares ainda eram tolerados nos países sob a tutela dos Estados Unidos, desde que, e note-se a redacção dada à notícia acima, se tratasse de criar um período intercalar «até à realização de novas eleições». O problema destas iniciativas costumava ser o grau de liberdade como se realizavam essas eleições prometidas pelos militares. Mas aqui na Turquia e neste caso, pôs-se um outro problema mais imediato: o que fazer com as eminências do regime deposto? (que vemos na fotografia abaixo, da direita para a esquerda: o presidente Celâl Bayar (1883-1986), o primeiro-ministro Adnan Menderes (1899-1961), o ministro das Finanças Hasan Polatkan (1915-1961) , o ministro dos Negócios Estrangeiros, Fatin Rüştü Zorlu (1910-1961), etc.) Num julgamento dinâmico e rápido, realizado em Setembro de 1961 (quando a fotografia foi colhida), todos foram condenados à morte e, com excepção do septuagenário ex-presidente, cuja pena veio a ser comutada, todos foram realmente executados. As execuções foram um desastre de relações públicas da imagem do regime militar turco diante de toda a comunidade internacional. Por todo o Mundo, as cliques militares com ambições de intervir sob qualquer pretexto na arena política perceberam a mudança dos tempos, até - ou sobretudo... - na América Latina. Só ficou mesmo o general Alcazar do Tintin...
23 fevereiro 2020
A TURQUIA DECLARA GUERRA À ALEMANHA
Ainda 23 de Fevereiro de 1945. A Turquia declara guerra à Alemanha. Mas em Londres, o governo britânico tem o imenso prazer de acolher a declaração turca com o desprezo que o comunicado acima, emitido naquele mesmo dia, deixa transparecer: agora é tarde, já não tem interesse nenhum.
Etiquetas:
75º Aniversário,
Reino Unido,
Segunda Guerra Mundial,
Turquia
24 outubro 2019
PERGUNTAS PARA PERGUNTAR A QUEM?
O que é que a Turquia ainda está a fazer na NATO?
O que é que os Estados Unidos estão a fazer da NATO?
O que é que os Estados Unidos estão a fazer da NATO?
Etiquetas:
Estados Unidos,
Estratégia,
Rússia,
Turquia
23 julho 2019
TUDO PREPARADO PARA UMA EVENTUAL «INTERPELAÇÃO» POR PARTE DA ASSISTÊNCIA...
Comecemos pelo que desconheço: quem foi o autor da fotografia, a data e o local precisos em que ela foi tirada. Mas o que se pode saber a seu respeito compensa. A começar pela identidade da figura em destaque, Bülent Ecevit (1925-2006), que foi primeiro-ministro da Turquia por quatro vezes (1974, 1977, 1978-79 e 1999-2002), nunca por muito tempo, que a política turca sempre teve idiossincrasias. O que dá valor à fotografia é evidenciá-las: um instantâneo de foto-jornalismo mostra Ecevit a subir para um estrado sobreelevado onde irá ser a figura de relevo de um comício eleitoral. Porém, o autor da foto preferiu eleger uma outra figura, sobrepondo-se ao orador, ainda ele não começou a falar: a pistola-metralhadora MP5 que é empunhada por um dos membros da sua segurança, dedo encostado ao gatilho, não se dê o caso de haver uma «interpelação» mais «veemente» da assistência. Sem ser preciso mais nada, apenas pelo poder da imagem, fica a sugestão que a política turca, que vai buscar muitas das suas características à herança helenística, não deve neste caso concreto grande coisa a Demóstenes. Erdoğan comprova-o.
Etiquetas:
Armamento,
Fotografia,
Política,
Turquia
13 novembro 2018
A OCUPAÇÃO DE CONSTANTINOPLA
13 de Novembro de 1918. Desembarque dos primeiros contingentes aliados em Constantinopla, a capital do Império otomano. Os britânicos estão em franca maioria (2.616 efectivos - acima), mas franceses (540 - abaixo) e italianos (470 - mais abaixo) também se quiseram mostrar presentes. As tropas de ocupação chegarão a ser 50.000. Há cem anos, o momento não podia deixar de despertar evocações simbólicas - uma espécie de desforra - referente à data de 29 de Maio de 1453, 465 anos antes, dia em que a cidade fora conquistada pelos otomanos aos bizantinos.
Mas essa era apenas parte da História, e a parte da História que convinha evocar para aquela ocasião. Porque em 13 de Abril de 1204, a 714 anos de distância, portanto, já a mesma Constantinopla fora conquistada por um exército de cruzados vindo da Europa ocidental, um exército cuja composição - descontando os alemães, desta vez ausentes - muito se assemelhava à dos contingentes que há cem anos se exibiam, desfilando, perante os habitantes da milenar cidade imperial. A rematar, registe-se a discriminação: nem Berlim, nem Viena ou Budapeste virão a ser ocupadas...
Etiquetas:
100º Aniversário,
Europa,
França,
Itália,
Medieval,
Primeira Guerra Mundial,
Reino Unido,
Turquia
20 outubro 2018
«QUE A SUA ALMA DESCANSE EM PAZ» (JÁ QUE O SEU CORPO FOI SERRADO AOS PEDAÇOS...)
Finalmente as autoridades sauditas admitiram o que todos estavam cansados de saber: que os próprios haviam assassinado o antigo assessor governamental, agora jornalista exilado, Jamal Khashoggi. A explicação é ridícula mas, num remate de falta de jeito, perante um audiência já bem pouco tolerante, reconheça-se, a nota do reconhecimento remata com a invocação piedosa para que a alma do defunto descanse em paz (Que a sua alma descanse em paz). É bonita de se ver tal preocupação das autoridades sauditas com a alma já que, por aquilo que se foi sabendo entretanto e em contraste, o corpo terá sido serrado em bocados mais portáteis de transportar para fora do consulado na Turquia, onde o assassinato teve lugar. Mas todo este processo merecer-nos-á algumas reflexões políticas adicionais, que não tenho encontrado exploradas na comunicação social. Não há nada de mais humilhante para um regime do que uma operação de serviços secretos que corre mal. E não importa a natureza desse regime: a grande França, potência nuclear e país de pergaminhos democráticos, passou uma vergonha imensa ao ser apanhada a afundar um barco do Greenpeace na Nova Zelândia em 1985. Nós, por cá também tivemos algo idêntico àquilo que agora aconteceu em Istambul, quando do assassinato de Humberto Delgado em Espanha em 1965. As especulações sonsas e hipócritas então feitas por Salazar à frente das câmaras de televisão («...a nós convinha que falasse, a outros conviria mais o silêncio...») bem podem servir de inspiração agora para aquilo que possamos ouvir dizer ao príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman. Mas, para que um fiasco seja consagrado, é preciso que um serviço rival exponha a operação. Não aconteceu de forma exuberante no caso de Delgado com os espanhóis, mas os americanos, que tinham (e mantêm) o Greenpeace sob protecção, e os turcos neste último caso, que decorreu, aliás, no seu próprio país, foram prestimosos em alimentar a comunicação social com os detalhes sórdidos das operações. Eloquente quanto ao papel importante da Turquia em todo o incidente, o secretário de Estado norte americano Mike Pompeo deslocou-se primeiro à Arábia Saudita, mas depois também à Turquia, muito embora os holofotes tivessem ficado quase todos em Riade, quando o que é importante é o que os Estados Unidos têm para oferecer à Turquia em troca do seu capital de queixa. Por esta vez, a atitude da administração Trump não se distingue das que a antecederam (talvez com a excepção da de Obama) na indulgência como lida com os sauditas: arrasta os pés no reconhecimento daquilo que é óbvio, embora Donald Trump confira à obtusidade um requinte muito pessoal. Em suma, tudo aponta para que, na grande ordem internacional, o assassinato de Jamal Khashoggi, depois deste apogeu de escândalo, se resuma a um momento embaraçoso de Mohammad bin Salman, como outrora os outros haviam sido para Salazar e François Mitterrand. Ou, para fazer um trocadilho irónico ao jeito daquelas declamações sentidas de Pedro Abrunhosa, que podiam significar tudo e o seu contrário (atente-se à letra): «É preciso ter calma, não dar o corpo pela (i)alma»...
Etiquetas:
Arábia Saudita,
Estados Unidos,
Turquia
15 outubro 2018
NOTÍCIAS À VOLTA DO QUE PARECE ÓBVIO
Convém realçar o que é óbvio: que a melhor solução para resolver o problema do desaparecimento do jornalista saudita seria que ele reaparecesse. É por isso que, ou ele resolveu pregar uma partida à noiva e quis deixá-la plantada à porta do consulado saudita em Istambul, ou então esta atitude rufiã que está sendo adoptada pela Arábia Saudita, ao sentir-se ameaçada se não der explicações aceitáveis sobre o incidente, me parece mais do que eloquente sobre aquilo que lhe terá acontecido. E o óbvio é que, mesmo que a Turquia não seja um comparsa neutro na trama, não deve haver agora maneira de o desaparecido reaparecer. É que os mistérios da ressurreição são mais fenómenos teológicos do cristianismo que não do islão... E, vem a propósito, vale a pena agora recordar o que na revista Foreign Policy se escrevia há onze meses, analisando as rivalidades naquela região na perspectiva norte-americana e os desequilíbrios que a nova política externa de Donald Trump lá fora provocar: «Donald Trump soltou a Arábia Saudita que sempre desejámos - e tememos». Aí está ela...
Etiquetas:
Arábia Saudita,
Filosofia e Religião,
Informação,
Turquia
20 setembro 2018
O ATAQUE DOS HUSSARDOS A NAZARÉ
«Cerca das 05H30 da manhã de 20 de Setembro de 1918, os Hussardos de Gloucestershire, a guarda avançada da 13ª brigada da 5ª divisão de Cavalaria cavalgou os quilómetros finais da estrada de El Afule e reagrupou-se na crista dos montes que rodeavam Nazaré.
Cidade modernizada, com 15.000 habitantes, Nazaré localiza-se no fundo de um vale fértil de forma circular pontificado por olivais e searas. Os montes à volta erguem-se de forma tão abrupta que, à distância, as açoteias das casas parecem, em alguns locais, serem degraus de escadas. Fora Nazaré que o general Otto Liman von Sanders, o alemão que comandava os exércitos turcos na Palestina, escolhera para instalar o seu Quartel General.
À medida que o Sol subia nos céus aquecendo o dia, os hussardos a cavalo trotaram aceleradamente para o centro da cidade, onde acabaram por chegar às 06H30, à procura de von Sanders, com a esperança de o capturar. O inimigo, ainda adormecido, nem os suspeitava ali, e foi completamente apanhado de surpresa.
Os cavaleiros tinham permanecido em sela, durante as últimas 24 horas, descontando os períodos de repouso e dar de beber aos animais. Mas a oportunidade que se lhes apresentava era suficientemente boa para lhes mobilizar as últimas forças.
Apesar da vantagem da surpresa, o combate de rua que se iria desenrolar não costuma ser vantajoso para as tropas montadas. Mas os homens de Gloucester estavam equipados com espadas para além das versões curtas de cavalaria da espingarda Lee-Enfield, arma de outras épocas mas que, tanto eles quanto a cavalaria australiana, haviam copiado dos lanceiros indianos quando os viram a usá-las.
Os serventes das metralhadoras dispostas nas varandas e açoteias começaram a abrir fogo enquanto os soldados turcos e alemães oriundos, na sua grande maioria, das unidades de retaguarda e de serviços, acordavam com os tiros e ripostavam com o armamento que tinham à mão a partir das janelas. O combate rapidamente se tornou uma confusão, sem uma frente definida.
Soldados que estavam aboletados no Mosteiro Latino (5) rapidamente se começaram a render e por toda a cidade os assaltantes iam reunindo os prisioneiros, muitos deles ainda de pijama.
Mais acima, a rua principal de Nazaré estava engarrafada com uma coluna de camiões alemães (2) cujos condutores queriam desesperadamente inverter a marcha para fugirem pelo saída do Norte, que os britânicos ainda não haviam selado.
Os homens de Gloucester esquadrinhavam a cidade à procura de von Sanders, mas sem se aperceberem que Casa Nuovo (1), um antigo hospício, era o seu Quartel General. Mal o ataque começara, o general Sanders, apesar de estar ainda em pijama, fugira no seu carro rua acima, passando pela mesquita (3), para apanhar a estrada de montanha que o conduzisse para Tiberíades (4).
Cerca das 08H30, outras unidades da 13ª brigada juntaram-se aos hussardos. Mas o cansaço e a falta de efectivos fez com que os atacantes não dispusessem dos meios necessários para controlar a cidade e guardar simultaneamente os 1.500 prisioneiros que fizera. A meio da manhã, retiraram, levando os prisioneiros consigo.
Haviam apreendido variadíssimos documentos importantes mas havia-lhes escapado a importância de Casa Nuovo. Documentação muito mais importante veio posteriormente a ser recuperada e queimada pelos turcos.
A acção custara 13 baixas aos Hussardos de Gloucestershire e 28 cavalos haviam sido abatidos. Uma outra unidade da brigada reocupou a cidade, dessa vez permanentemente, no dia seguinte.»
O número quase insignificante de baixas britânicas (13), ainda para mais incorridas num Teatro de Operações periférico (a Frente da Palestina), mostra-nos a pequeníssima importância que terá tido esta acção no contexto global da Primeira Guerra Mundial. A importância em a publicitar deve-se ao facto de ter tido por protagonista uma unidade de cavalaria. Em Setembro de 1918, a Primeira Guerra Mundial já contava quatro anos, mas as características da guerra de trincheiras haviam feito que a arma de cavalaria tivesse praticamente desaparecido dos relatos de guerra. Como forma de compensação, e porque o comandante britânico, o general Edmund Allenby, era um cavaleiro, qualquer acção em que a utilidade da cavalaria pudesse ser invocada (neste caso era a superior mobilidade das tropas montadas que haviam permitido surpreender o inimigo), era saudada com a exuberância desmesurada que a descrição acima mostra. Na verdade, a cavalo e antes da motorização, o ritmo da guerra processava-se ainda a um ritmo que hoje nos faria sorrir: o general von Sanders fugiu para uma povoação que ficava a uns meros 30 km de Nazaré. E considerava-se em segurança aí...
Etiquetas:
100º Aniversário,
Armamento,
Palestina,
Primeira Guerra Mundial,
Reino Unido,
Turquia
Subscrever:
Mensagens (Atom)







































