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24 outubro 2019

PERGUNTAS PARA PERGUNTAR A QUEM?

O que é que a Turquia ainda está a fazer na NATO?
O que é que os Estados Unidos estão a fazer da NATO?

23 julho 2019

TUDO PREPARADO PARA UMA EVENTUAL «INTERPELAÇÃO» POR PARTE DA ASSISTÊNCIA...

Comecemos pelo que desconheço: quem foi o autor da fotografia, a data e o local precisos em que ela foi tirada. Mas o que se pode saber a seu respeito compensa. A começar pela identidade da figura em destaque, Bülent Ecevit (1925-2006), que foi primeiro-ministro da Turquia por quatro vezes (1974, 1977, 1978-79 e 1999-2002), nunca por muito tempo, que a política turca sempre teve idiossincrasias. O que dá valor à fotografia é evidenciá-las: um instantâneo de foto-jornalismo mostra Ecevit a subir para um estrado sobreelevado onde irá ser a figura de relevo de um comício eleitoral. Porém, o autor da foto preferiu eleger uma outra figura, sobrepondo-se ao orador, ainda ele não começou a falar: a pistola-metralhadora MP5 que é empunhada por um dos membros da sua segurança, dedo encostado ao gatilho, não se dê o caso de haver uma «interpelação» mais «veemente» da assistência. Sem ser preciso mais nada, apenas pelo poder da imagem, fica a sugestão que a política turca, que vai buscar muitas das suas características à herança helenística, não deve neste caso concreto grande coisa a Demóstenes. Erdoğan comprova-o.

22 abril 2019

AS OFENSIVAS DIPLOMÁTICAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

22 de Abril de 1944. Um par de notícias de conteúdo aparentemente anódino numa das páginas centrais da edição do jornal desse dia, dá conta daquilo que era uma discreta, mas violenta, ofensiva diplomática por parte dos Aliados para que alguns países neutrais cortassem o fornecimento de alguns itens considerados vitais para a indústria de armamentos do III Reich. Numa das notícias, originária de Ancara, dava-se conta da reacção da Turquia a essas pressões, suspendendo as exportações de minério de crómio para a Alemanha, invocando a sua condição de aliada da Inglaterra. Noutra, oriunda de Londres, era a Suécia que ainda não respondera à nota dos Aliados, em que se lhe era pedido que suspendesse as exportações de esferas de rolamentos para a Alemanha. Havia uma campanha de bombardeamento em curso para destruir a capacidade de as produzir no próprio território alemão, e a indústria de armamentos alemã havia recorrido ao reforço das importações da Suécia para suprir as carências. A resposta sueca irá ser tão evasiva que a importância e as consequências dessa decisão ainda hoje são objecto de discussão académica: a Suécia colaborou ou não com a Alemanha? Contudo, a Turquia e a Suécia não eram os únicos países neutrais a serem pressionados naquela altura pelos Aliados: dali por mês e meio, na edição de 7 de Junho, era ocasião para ser notícia o anúncio pelo governo português da suspensão das exportações de volfrâmio para os países beligerantes. Fazia-o a pedido da Grã-Bretanha. Repare-se como os Estados Unidos pareciam nunca aparecer nestas iniciativas...

13 novembro 2018

A OCUPAÇÃO DE CONSTANTINOPLA

13 de Novembro de 1918. Desembarque dos primeiros contingentes aliados em Constantinopla, a capital do Império otomano. Os britânicos estão em franca maioria (2.616 efectivos - acima), mas franceses (540 - abaixo) e italianos (470 - mais abaixo) também se quiseram mostrar presentes. As tropas de ocupação chegarão a ser 50.000. Há cem anos, o momento não podia deixar de despertar evocações simbólicas - uma espécie de desforra - referente à data de 29 de Maio de 1453, 465 anos antes, dia em que a cidade fora conquistada pelos otomanos aos bizantinos.
Mas essa era apenas parte da História, e a parte da História que convinha evocar para aquela ocasião. Porque em 13 de Abril de 1204, a 714 anos de distância, portanto, já a mesma Constantinopla fora conquistada por um exército de cruzados vindo da Europa ocidental, um exército cuja composição - descontando os alemães, desta vez ausentes - muito se assemelhava à dos contingentes que há cem anos se exibiam, desfilando, perante os habitantes da milenar cidade imperial. A rematar, registe-se a discriminação: nem Berlim, nem Viena ou Budapeste virão a ser ocupadas...

20 outubro 2018

«QUE A SUA ALMA DESCANSE EM PAZ» (JÁ QUE O SEU CORPO FOI SERRADO AOS PEDAÇOS...)

Finalmente as autoridades sauditas admitiram o que todos estavam cansados de saber: que os próprios haviam assassinado o antigo assessor governamental, agora jornalista exilado, Jamal Khashoggi. A explicação é ridícula mas, num remate de falta de jeito, perante um audiência já bem pouco tolerante, reconheça-se, a nota do reconhecimento remata com a invocação piedosa para que a alma do defunto descanse em paz (Que a sua alma descanse em paz). É bonita de se ver tal preocupação das autoridades sauditas com a alma já que, por aquilo que se foi sabendo entretanto e em contraste, o corpo terá sido serrado em bocados mais portáteis de transportar para fora do consulado na Turquia, onde o assassinato teve lugar. Mas todo este processo merecer-nos-á algumas reflexões políticas adicionais, que não tenho encontrado exploradas na comunicação social. Não há nada de mais humilhante para um regime do que uma operação de serviços secretos que corre mal. E não importa a natureza desse regime: a grande França, potência nuclear e país de pergaminhos democráticos, passou uma vergonha imensa ao ser apanhada a afundar um barco do Greenpeace na Nova Zelândia em 1985. Nós, por cá também tivemos algo idêntico àquilo que agora aconteceu em Istambul, quando do assassinato de Humberto Delgado em Espanha em 1965. As especulações sonsas e hipócritas então feitas por Salazar à frente das câmaras de televisão («...a nós convinha que falasse, a outros conviria mais o silêncio...») bem podem servir de inspiração agora para aquilo que possamos ouvir dizer ao príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman. Mas, para que um fiasco seja consagrado, é preciso que um serviço rival exponha a operação. Não aconteceu de forma exuberante no caso de Delgado com os espanhóis, mas os americanos, que tinham (e mantêm) o Greenpeace sob protecção, e os turcos neste último caso, que decorreu, aliás, no seu próprio país, foram prestimosos em alimentar a comunicação social com os detalhes sórdidos das operações. Eloquente quanto ao papel importante da Turquia em todo o incidente, o secretário de Estado norte americano Mike Pompeo deslocou-se primeiro à Arábia Saudita, mas depois também à Turquia, muito embora os holofotes tivessem ficado quase todos em Riade, quando o que é importante é o que os Estados Unidos têm para oferecer à Turquia em troca do seu capital de queixa. Por esta vez, a atitude da administração Trump não se distingue das que a antecederam (talvez com a excepção da de Obama) na indulgência como lida com os sauditas: arrasta os pés no reconhecimento daquilo que é óbvio, embora Donald Trump confira à obtusidade um requinte muito pessoal. Em suma, tudo aponta para que, na grande ordem internacional, o assassinato de Jamal Khashoggi, depois deste apogeu de escândalo, se resuma a um momento embaraçoso de Mohammad bin Salman, como outrora os outros haviam sido para Salazar e François Mitterrand. Ou, para fazer um trocadilho irónico ao jeito daquelas declamações sentidas de Pedro Abrunhosa, que podiam significar tudo e o seu contrário (atente-se à letra): «É preciso ter calma, não dar o corpo pela (i)alma»...

15 outubro 2018

NOTÍCIAS À VOLTA DO QUE PARECE ÓBVIO


Convém realçar o que é óbvio: que a melhor solução para resolver o problema do desaparecimento do jornalista saudita seria que ele reaparecesse. É por isso que, ou ele resolveu pregar uma partida à noiva e quis deixá-la plantada à porta do consulado saudita em Istambul, ou então esta atitude rufiã que está sendo adoptada pela Arábia Saudita, ao sentir-se ameaçada se não der explicações aceitáveis sobre o incidente, me parece mais do que eloquente sobre aquilo que lhe terá acontecido. E o óbvio é que, mesmo que a Turquia não seja um comparsa neutro na trama, não deve haver agora maneira de o desaparecido reaparecer. É que os mistérios da ressurreição são mais fenómenos teológicos do cristianismo que não do islão... E, vem a propósito, vale a pena agora recordar o que na revista Foreign Policy se escrevia há onze meses, analisando as rivalidades naquela região na perspectiva norte-americana e os desequilíbrios que a nova política externa de Donald Trump lá fora provocar: «Donald Trump soltou a Arábia Saudita que sempre desejámos - e tememos». Aí está ela...

20 setembro 2018

O ATAQUE DOS HUSSARDOS A NAZARÉ

«Cerca das 05H30 da manhã de 20 de Setembro de 1918, os Hussardos de Gloucestershire, a guarda avançada da 13ª brigada da 5ª divisão de Cavalaria cavalgou os quilómetros finais da estrada de El Afule e reagrupou-se na crista dos montes que rodeavam Nazaré.
Cidade modernizada, com 15.000 habitantes, Nazaré localiza-se no fundo de um vale fértil de forma circular pontificado por olivais e searas. Os montes à volta erguem-se de forma tão abrupta que, à distância, as açoteias das casas parecem, em alguns locais, serem degraus de escadas. Fora Nazaré que o general Otto Liman von Sanders, o alemão que comandava os exércitos turcos na Palestina, escolhera para instalar o seu Quartel General.
À medida que o Sol subia nos céus aquecendo o dia, os hussardos a cavalo trotaram aceleradamente para o centro da cidade, onde acabaram por chegar às 06H30, à procura de von Sanders, com a esperança de o capturar. O inimigo, ainda adormecido, nem os suspeitava ali, e foi completamente apanhado de surpresa.
Os cavaleiros tinham permanecido em sela, durante as últimas 24 horas, descontando os períodos de repouso e dar de beber aos animais. Mas a oportunidade que se lhes apresentava era suficientemente boa para lhes mobilizar as últimas forças.
Apesar da vantagem da surpresa, o combate de rua que se iria desenrolar não costuma ser vantajoso para as tropas montadas. Mas os homens de Gloucester estavam equipados com espadas para além das versões curtas de cavalaria da espingarda Lee-Enfield, arma de outras épocas mas que, tanto eles quanto a cavalaria australiana, haviam copiado dos lanceiros indianos quando os viram a usá-las.
Os serventes das metralhadoras dispostas nas varandas e açoteias começaram a abrir fogo enquanto os soldados turcos e alemães oriundos, na sua grande maioria, das unidades de retaguarda e de serviços, acordavam com os tiros e ripostavam com o armamento que tinham à mão a partir das janelas. O combate rapidamente se tornou uma confusão, sem uma frente definida.
Soldados que estavam aboletados no Mosteiro Latino (5) rapidamente se começaram a render e por toda a cidade os assaltantes iam reunindo os prisioneiros, muitos deles ainda de pijama.
Mais acima, a rua principal de Nazaré estava engarrafada com uma coluna de camiões alemães (2) cujos condutores queriam desesperadamente inverter a marcha para fugirem pelo saída do Norte, que os britânicos ainda não haviam selado.
Os homens de Gloucester esquadrinhavam a cidade à procura de von Sanders, mas sem se aperceberem que Casa Nuovo (1), um antigo hospício, era o seu Quartel General. Mal o ataque começara, o general Sanders, apesar de estar ainda em pijama, fugira no seu carro rua acima, passando pela mesquita (3), para apanhar a estrada de montanha que o conduzisse para Tiberíades (4).
Cerca das 08H30, outras unidades da 13ª brigada juntaram-se aos hussardos. Mas o cansaço e a falta de efectivos fez com que os atacantes não dispusessem dos meios necessários para controlar a cidade e guardar simultaneamente os 1.500 prisioneiros que fizera. A meio da manhã, retiraram, levando os prisioneiros consigo.
Haviam apreendido variadíssimos documentos importantes mas havia-lhes escapado a importância de Casa Nuovo. Documentação muito mais importante veio posteriormente a ser recuperada e queimada pelos turcos.
A acção custara 13 baixas aos Hussardos de Gloucestershire e 28 cavalos haviam sido abatidos. Uma outra unidade da brigada reocupou a cidade, dessa vez permanentemente, no dia seguinte.»
 
O número quase insignificante de baixas britânicas (13), ainda para mais incorridas num Teatro de Operações periférico (a Frente da Palestina), mostra-nos a pequeníssima importância que terá tido esta acção no contexto global da Primeira Guerra Mundial. A importância em a publicitar deve-se ao facto de ter tido por protagonista uma unidade de cavalaria. Em Setembro de 1918, a Primeira Guerra Mundial já contava quatro anos, mas as características da guerra de trincheiras haviam feito que a arma de cavalaria tivesse praticamente desaparecido dos relatos de guerra. Como forma de compensação, e porque o comandante britânico, o general Edmund Allenby, era um cavaleiro, qualquer acção em que a utilidade da cavalaria pudesse ser invocada (neste caso era a superior mobilidade das tropas montadas que haviam permitido surpreender o inimigo), era saudada com a exuberância desmesurada que a descrição acima mostra. Na verdade, a cavalo e antes da motorização, o ritmo da guerra processava-se ainda a um ritmo que hoje nos faria sorrir: o general von Sanders fugiu para uma povoação que ficava a uns meros 30 km de Nazaré. E considerava-se em segurança aí...

04 julho 2018

O ÚLTIMO SULTÃO

4 de Julho de 1918. Com a morte do seu meio-irmão Mehmed V, ascende ao trono aquele que virá a ser o 36.º e último Sultão Otomano, Mehmed VI. Tinha 57 anos e a fotografia que acima dele se exibe não se pode dizer que seja a de um monarca arrebatador. Não pode existir imagem equivalente de Constantino XI, aquele que fora o 98.º e último Basileus dos Romanos, naquela mesma cidade de Constantinopla, no século XV. Mas talvez Constantino se assemelhasse a Mehmed, dois homens comuns vergados a uma inexorabilidade da História, que, 465 anos depois, essa mesma História, irónica e fatal, se preparava para, de algum modo, se reeditar.

26 fevereiro 2018

O COLAPSO REPUTACIONAL DE ERDOGAN

Desalojando momentaneamente Donald Trump, o presidente turco Erdogan protagoniza o escândalo do dia, ao convidar uma criança (fardada!) de seis anos para o palco de um comício, assegurando-lhe as honras militares se ela morresse em combate. Ganhou o entusiasmo dos adeptos presentes e perdeu (ainda mais!) a simpatia da opinião pública ocidental. A cena está a ser reproduzida sob uma chuva de críticas por toda a comunicação social ocidental (nos Estados Unidos, em França, no Reino Unido, na Alemanha, em Itália...) A nossa percepção do fosso entre a Turquia e os seus antigos aliados (1) (2) não cessa de aumentar.

24 novembro 2017

EM ROTA DE DISSOCIAÇÃO

24 de Novembro de 2016. A diferença de como as partes concebem a adesão da Turquia à União Europeia expressa-se bem nos respectivos logotipos do processo, o da Turquia e o da União Europeia. Mas não terá sido por essa diferença conceptual da importância relativa de ambos que há precisamente um ano o Parlamento Europeu propôs o congelamento das negociações de adesão da Turquia à UE. A causa próxima invocada pelos parlamentares para aquele gesto foram as reacções desproporcionadamente repressivas do governo turco a uma tentativa de golpe de Estado que ocorrera em Julho de 2016. A votação foi maciça (479 votos a favor, 37 contra e 107 abstenções) e, por essa vez, a opinião do Parlamento foi acolhida e cumprida pelos restantes órgãos da União. Mas o que é mais significativo é que, ao longo deste ano que passou, não se vislumbrou qualquer iniciativa significativa de qualquer das partes em reatar o diálogo. Pelo contrário, se houver factos a destacar são incidentes como o que recentemente fez a Turquia abandonar operações em que estava a participar com os seus aliados da NATO em que aquela era usada para simbolizar o Inimigo. Se a terminologia popular consagrou a expressão rota de colisão, neste caso, aquilo que está a acontecer entre a Europa e a Turquia será uma colisão mas porque as partes estão em rota de dissociação.

19 novembro 2017

FUGIU-LHES A BOCA PARA A VERDADE?...

O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, viu-se obrigado a pedir desculpas formais à Turquia por causa de um incidente ocorrido durante exercícios militares que estavam a decorrer na Noruega. Nesses exercícios, as imagens do líder fundador da Turquia, Mustafa Kemal Ataturk, e do seu actual presidente, Recep Tayyip Erdoğan, constaram de uma apresentação como representando o inimigo. Em protesto, a Turquia decidiu retirar os seus 40 soldados que estavam a participar dos treinos no centro de guerra conjunta que a NATO possui em Stavanger. Foi dada a explicação que o responsável directo pelo lapso fora um civil norueguês subcontratado localmente e não qualquer funcionário da NATO. (Alguém que, por só ver televisão, não saberá que a Turquia ainda devia ser teoricamente dos bons...) E o secretário-geral da NATO (também norueguês) emitiu uma declaração pedindo desculpas pela ofensa causada, esclarecendo que o incidente foi o resultado de uma lapso individual e que não reflete os pontos de vista daquela Aliança Militar. Mas os militares turcos não terão regressado aos exercícios, com o presidente turco a comentar que um tal comportamento não podia ser facilmente perdoado. Não deixa de ser irónico ouvir essa opinião a alguém que, quanto a inimigos, ainda há três meses e a propósito da política interna alemã, qualificava Angela Merkel como sendo uma inimiga da Turquia.

28 abril 2017

BÓSFORO

Nesta fotografia, da autoria do fotógrafo Orion Lafuente, uma criança contempla sonhadora o outro lado do estreito do Bósforo que divide a moderna Istambul nas suas componentes europeia e asiática. É uma metáfora da encruzilhada das opções contraditórias sempre presentes no devir da Turquia, dividida entre a sua identidade turca, adquirida por causa das tribos nómadas dessa origem que há mil anos chegaram à Ásia Menor vindas da Ásia Central, em contraste com a omnipresente herança helenística dos que já lá estavam antes disso, herança forjada por quase dois mil anos de pertença ao espaço cultural helénico no Mediterrâneo oriental. Já depois de um referendo cuja surpresa foi apenas a margem apertada da vitória das propostas do presidente Erdogan, a Turquia continua a ser notícia pelos 9.000 polícias que suspende de funções, pelas 800 pessoas que prende. Não restam dúvidas de qual é a face das duas de Janus que representa as intenções do presidente turco. Ouvi-lo abaixo a criticar o Conselho da Europa por ostracizar o regime turco parece uma comédia de mal entendidos quando o vemos a anunciar que a Turquia vai reconsiderar o seu pedido de adesão à União Europeia, quando se já descobriu há muito que, do outro lado, o bloco que actualmente comanda a União Europeia (com a Alemanha à cabeça) nunca terá tido a intenção de admitir a Turquia na organização...

17 abril 2017

HÁ 48 ANOS UMA LIÇÃO DE DEMOCRACIA DE UM GENERAL A MUITOS «DEMOCRATAS»

Seria um excelente tema para evocar a 28 de Abril próximo. Nesse dia de 1969 o presidente Charles de Gaulle demitia-se depois dos resultados do referendo realizado no dia anterior terem sido opostos ao que mostrara serem os seus desejos. Mas o tema merece ser antecipado, tendo em atenção o tipo de algumas reacções que tenho vindo a registar nas redes sociais na sequência do resultado que foi anunciado ao referendo turco. Com mais ou menos polimento, o respeito pela vontade popular (se tiver sido livremente expressa) parece ser, para muitos democratas, uma convicção que só se consubstancia se essa vontade popular estiver em consonância com a opinião desses democratas. O que não aconteceu ontem na Turquia:

«(...) o instituto do referendo, que é sempre um mau recurso das democracias.» «O referendo é um instituto da demagogia, não da democracia.» «A metade informada, melhor educada, assiste, impotente, à desmontagem das conquistas civilizacionais dos últimos setenta anos nas suas democracias.» «(...) usado, aliás, para legitimar ditaduras.» «(...) uma maioria pequena e conjuntural de votos (...)».

Se ao menos estas opiniões que se lêem por aí, muitas delas vetustas de mais de 50 anos (porque já as li brandidas contra de Gaulle), se fundamentassem no campo dos princípios... Mas não. Nem se dá por elas quando o desfecho dos referendos são a contendo. Foi de Gaulle, repetidamente acusado de autoritarismo pelos seus adversários políticos por recorrer (1958, 1961, 1962 por duas vezes e este último em 1969) àquele processo de legitimação popular, que acabou por lhes dar uma lição de Democracia quando derrotado nas suas convicções pela primeira vez. Eu não gostei do desfecho do referendo turco, mas isso não me faz acolher por bons os argumentos acima, que soam a críticas à arbitragem no dia seguinte ao da disputa de um derby. A política, se for para falar dela com seriedade, não pode ser tratada da mesma coisa que o futebol. Ou então, e para recuperar um conceito acima expresso, a metade não informada só fala de futebol enquanto a metade informada e melhor educada fala de política mas como se fosse futebol...

08 fevereiro 2017

«THE OTTOMAN ENDGAME»

Depois de outras leituras (Ottoman Wars, O Imperio Otomano, Kemal Atatürk, Turkey, A Modern History e Le Dilemme turc), suspeitava que, tendo estabelecido com clareza um núcleo do que sabia e também onde estariam as fronteiras com a minha ignorância, não teria sobrado muito para descobrir sobre a história do Império Otomano (e da sua sucessora Turquia), nomeadamente sobre aqueles tópicos que mais me interessavam. E, no entanto, este livro do norte-americano Sean McMeekin que acabei de ler conseguiu surpreender-me, com novas abordagens a episódios que eu acreditava que se haviam tornado aborrecidamente consensuais, exemplos do desembarque de Galípoli ou então as conhecidas deambulações de Lawrence da Arábia. E mais uma vez reforço a conclusão que os turcos, apesar da ascendência que eles costumam ir identificar ao meandros da Ásia Central, são os herdeiros orientais da herança bizantina, por contraponto aos ocidentais, os gregos. Ainda por cima, este é um daqueles tópicos - o destino da Turquia - que, por causa da eleição de Donald Trump, se deixou - mal - de comentar.

19 setembro 2016

QUANDO OS PAÍSES MÉDIOS - COMO PORTUGAL - SE MARIMBAM PARA AS DITAS POTÊNCIAS

Em Setembro de 1912 - há 104 anos - as ambições da Bulgária, Grécia, Montenegro e Sérvia haviam-se concertado para a formação de uma aliança ofensiva para conquistar o resto dos territórios europeus do império Otomano. No meio dos acordos das chancelarias balcânicas, tudo havia sido feito para contornar as divergências entre os parceiros, nomeadamente o facto de que havia regiões a conquistar que eram cobiçadas por dois e mesmos três parceiros em simultâneo: era o caso da Macedónia, cobiçada por búlgaros, gregos e sérvios. Ainda não cheguei à eclosão da Primeira Guerra Balcânica propriamente dita, que começou a 8 de Outubro, mas o episódio que possui umas estranhas ressonâncias modernas é a tentativa concertada de última hora das capitais das «potências», Paris, São Petersburgo e Viena, em tentar refrear os seus aliados. Que, como a continuação da história demonstraria, se estiveram marimbando para essas tentativas. Em tempos de paz e mesmo se o assunto for a guerra, a influência das ditas potências é muito mais consentida pelos destinatários do que imposta. Foi a propósito disso que eu me lembrei da analogia com as fotografias exibindo Merkel, Hollande e Renzi juntos. Depois da saída do Reino Unido da União Europeia, continuará a existir o directório dos países maiores, mas estas operações de relações públicas já não conseguem esconder que, por exemplo na matéria sensível dos refugiados, a capacidade de influência de Berlim ou Paris sobre polacos ou húngaros é nula. Como a antiga ordem internacional que se desmoronou em 1914, também a que vigorou até agora na União Europeia parece preparar-se para se desagregar.

27 julho 2016

O QUE NÃO HÁ PARA DIZER SOBRE A TURQUIA

Não é a biblioteca de casa que nos transforma em especialistas em que assunto for, mas é simpático, quando se deambula pela internet, depararmo-nos com um sítio que se reclama de uma certa especialização (Do Médio-Oriente e afins) e reconhecermos a recomendação que por lá se faz de uma obra cuja leitura deveria ser obrigatória para todos quantos hoje falam e escrevem sobre os mais recentes acontecimentos na Turquia, seja na televisão, na rádio, nos jornais, e mesmo no facebook: Turkey: A Modern History, de Erik J. Zürcher, professor da Universidade de Amesterdão. Manda a verdade confessar, precavidamente, que já li apreciações tão ou mais assertivas que esta que depois vim a verificar serem escritas por quem não teria condições objectivas para as pronunciar (por exemplo a passagem: ...uma das obras mais rigorosas sobre a evolução da Turquia... é afirmada em comparação com quantas outras obras e quais?), mas vamos limitar-nos a saborear o reconhecimento de nos saber por acidente leitores de uma obra recomendada sobre a história recente de Turquia. Sobre o assunto, o facto de se ter uma ideia mais ou menos precisa sobre a importância do papel desempenhado por İsmet İnönü na Turquia dos meados do século XX ou saber das rivalidades entre Bülent Ecevit (mais um amigo de Mário Soares!) e Süleyman Demirel no último quartel do século, não estará a ajudar nada à compreensão do que está a acontecer na Turquia depois da tentativa do golpe de Estado de 15 de Julho. Há uma mensagem mediaticamente dominante na comunicação social mundial, que tem um mau (Recep Tayyip Erdoğan, o actual presidente) e muitas vítimas - militares, magistrados, professores, jornalistas detidos e demitidos. As medidas governamentais a que se tem dado relevo apontam descarada e mesmo, dir-se-ia, descuidadamente para a constituição de um regime totalitário na Turquia, um regime de rivalizar com o da Coreia do Norte. Suponho que a mensagem mediaticamente dominante na própria Turquia seja substancialmente diferente: aí o mau é um teólogo exilado nos Estados Unidos chamado Fethullah Gülen, que foi o promotor do golpe de Estado fracassado. Terá sido? No terreno a tese prevalece e os milhares de presos, por causa dela, são qualificados de simpatizantes da sua causa. A tese é um pouco difícil de aceitar, o visado proclamou a sua inocência nas páginas do New York Times, mas outras páginas do mesmo jornal acolhem outros artigos de outros autores turcos defendendo a tese de Ancara. E Gülen, que já foi aliado de Erdoğan, é alguém com uma biografia peculiar (como o confirma a própria wikipedia): uma comparação sua com Khomeini - salvaguardadas as enormes diferenças entre a Turquia e o Irão - não será assim tão disparatada. Gülen não parece ter o perfil de um daqueles bons que o Ocidente (...os Estados Unidos) devem apoiar contra Erdoğan, o mau. O que se pode constatar, desde quase o início da crise actual, é que haveria decerto um plano de contingência do governo: é elementar reconhecer que não se desenterra uma lista de 2.745 magistrados a demitir de um dia para o outro. Mas a atitude mais prudente será a de aguardar o desenrolar dos acontecimentos, para ver quais serão as próximas movimentações de Erdoğan. Não deixa de ser irónico o actual momento turco, em que a necessidade da comunicação social é a que se diga qualquer coisa a respeito da situação (como sempre), e a atitude mais assisada de qualquer comentador ou analista que é a de comprometer-se muito pouco.

21 julho 2016

CONTRA SUBVERSÃO

Imagens de anteontem de Malatya, cidade do sudeste da Turquia, onde haverá um livreiro, uma livraria e, sobretudo, uns livros que também terão estado envolvidos no golpe de estado...

18 julho 2016

COM PAPAS E BOLOS...

No caso do atentado de Nice, o período de 24 horas que se seguiu ainda permitiu que o apuramento do que acontecera enveredasse por uma de duas opções: a tese do desequilibrado ou a da conspiração islâmica. Depois o primeiro-ministro Valls desautorizou o seu ministro do Interior Cazeneuve e impôs a segunda. Depois daí tornou-se obrigatória, porque regressar à primeira tornar-se-ia numa derrota política do governo francês. O problema é a dificuldade em acreditar no que nos querem impingir. Lembram-se de Aznar e da tentativa de associar a ETA aos atentados de Madrid?...

Na Turquia, pelo contrário, o governo não parece precisar de descobrir ou encobrir a verdade, a impressão que dá é até que ele sabe muito mais do que aquilo que confessa saber. Pelo menos, possuir uma lista de 2.745 magistrados para demitir não parece coisa que esteja guardada numa gaveta da mesinha de cabeceira e que apareça assim de um dia para o outro para pôr em execução. Torna-se pior quando o pretexto próximo para o fazer foi a existência de uma intentona militar - cujos oficiais responsáveis tardam em ser identificados. Enfim, com papas e bolos se enganam os tolos.

01 novembro 2015

PELO CENTENÁRIO DE UM DIÁRIO DE UM TURCO EM GALÍPOLI

Para os que seguem este blogue com regularidade, recordo que já para aqui transcrevera algumas passagens do diário de um cabo australiano que participara no desembarque de Galípoli, a península da Turquia europeia por onde os britânicos haviam tentado na Primavera de 1915 derrotar os otomanos. A operação saldara-se por um fracasso. Caíra-se num impasse que, desconhecido dos intervenientes, e continuando a contar o tempo pelos centenários, caminhava agora aceleradamente para o fim. É ocasião para transcrever algumas passagens de um outro diário, o de alguém que combatia do outro lado, o dos otomanos, Mehmed  Fasih que, sendo cadete da academia militar em Julho de 1914, promovido aceleradamente a oficial subalterno devido à guerra, é o que de mais parecido existirá com um militar por vocação naquele ambiente para onde foi (re)enviado no Outono de 1915.
18 de Outubro de 1915
Depois da 01H00. O meu abrigo é um buraco pequeno com um telhado de troncos e com uma entrada protegida por uma rede de arame, para impedir a entrada das granadas. Durmo numa cama de madeira com um colchão de palha, coberto por cobertores e um kilim (tapete). Outras peças do mobiliário são um candeeiro de parafina, a minha cafeteira e um fogareiro. Graças a Deus, sinto-me confortável. O meu impedido está no abrigo ao lado. É um bom rapaz obediente, com um coração puro.
02H00. Granadas inimigas a explodir fazem tremer o chão mas falham o alvo. Aterram ou à frente ou atrás das nossas posições. Hoje parece que estão a enviar mais presentes do que é usual. Sinto o receio do inimigo em cada um dos seus movimentos. Talvez os rumores sejam verdadeiros. A infantaria deles está a ser reduzida e substituída por artilharia.

21 de Outubro de 1915
12H00 Depois do almoço fui fazer uma inspecção às fortificações da nossa linha defensiva secundária. Quando lá estive com o meu antigo batalhão (Mehmed Fasih estivera algumas semanas em combate em Galípoli em Maio de 1915, antes de ser ferido e evacuado), tínhamos transformado o sítio num pequeno paraíso. Agora é uma tristeza, está tudo destruído, caótico. O local é tão deprimente que me faz querer chorar. Voltei ao meu abrigo e ataquei o meu cachimbo de tabaco, a primeira vez que o faço em dez dias. Continua o bombardeamento. Algumas granadas caem por perto. Explodem no local onde ontem mataram um dos nossos. Agora ninguém se aproxima de lá. 19H20 Muito cansado e adoentado. Fui-me deitar.

22 de Outubro de 1915
06H00 Acordei. Uma noite confortável. Sinto-me ligeiramente melhor. Os meus homens foram à procura de lenha. O tempo está nublado e ventoso. Continuei na cama.
07H00 Chegou a lenha. Levantei-me, tomei café e fumei o meu cachimbo. Deixei a minha imaginação vaguear por aquilo que poderia constituir a minha felicidade. Isso sim! Todos os caminhos para a felicidade parecem-me vedados. Recito a velha oração lamentando a falta de inspiração divina e encontro paz de espírito na compreensão que a inspiração divina só poderá vir de Deus. Saio do meu abrigo. Há camaradas que me convidam para tomar chá mas declino. Não me sinto com disposição. Sinto-me doente.

4 de Novembro de 1915
20H30 Intensifica-se o fogo sobre a nossa esquerda. Corro para as trincheiras. Os nossos soldados esquivam-se, à nossa esquerda estão mesmo a apanhar. O inimigo está a despejar a artilharia em cima de nós. Graças a Deus que as granadas não estão a acertar nas nossas trincheiras. O inimigo está a usar muitos foguetes para iluminar tanto as nossas linhas da retaguarda como as da frente. O benefício da iluminação acaba por ser mútuo. As granadas não parem de cair.
21H00 Da retaguarda ouve-se Allah! Allah! – o grito de encorajamento das nossas tropas. Seguem-se barulhos e depois silêncio. Então subitamente, o fogo irrompe e as granadas começam a aterrar à nossa retaguarda. 24H00 Enchi um cachimbo e pus a cafeteira ao lume. O tempo está ameno e descoberto. Um tiro ouve-se de quando em vez. Embora eu continue a apanhar os piolhos há sempre mais – não me consigo ver livre deles e ainda ando cheio de comichão. Tenho o corpo cheio de borbulhas vermelhas e róseas.
5 de Novembro de 1915
05H30 Às vezes há minutos seguidos em que não se ouve um tiro. Durante esses momentos em que o silêncio está em perfeita sintonia com a manhã que irrompe banhada pela luz da aurora, penso sobre o futuro e o passado. Oh que memórias agridoces dos dias que agora parecem fantasias da minha imaginação. São tão encantadores e parte-me o coração pensar neles, tento não o fazer, mas não o consigo.
08H00 O comandante de batalhão pede-me que o acompanhe numa volta pelas trincheiras. Apontou para um recanto acolhedor, sugerindo: “Sentemo-nos e fumemos uma cachimbada”. O local permite uma excelente vista dos arredores, embora esteja protegido por uma formação rochosa. Uma localização ideal para umas fumaças matinais ou ao fim da tarde. Começámos a volta. Enquanto caminhávamos deparámo-nos com um grupo de maqueiros carregando uma maca: “É o sargento Nuri.” Oh, meu Deus! A quantas mais tragédias me vais fazer assistir? Nuri fora atingido no peito, na cabeça, num braço e nas duas pernas. Cabeça e peito tinham ferimentos expostos. O cabelo estava misturado em tudo, o uniforme ensopado em sangue. Estava pálido, a boca entreaberta. Conseguem-se ver os dentes brancos entre os lábios. Os olhos estavam entreabertos, fixando o céu. Ainda se podiam destrinçar os seus traços fisionómicos, ainda atraentes. As mãos estavam fechadas sobre o peito. Parecia estar a amaldiçoar aqueles que o destruíram. Não consigo suportar mais aquilo.
Este rapaz era o responsável pelo treino dos novos reforços do batalhão. Não tinha nada que estar nas primeiras linhas. Durante os intervalos de almoços, porém, não havia maneira de o fazer estar quieto.
Tinha estado à porta do meu abrigo na noite anterior.
Meu bey (forma deferencial turca de tratamento), disse no seu tom de voz inconfundível, trouxe-lhe mais algumas munições. E agora veja-se lá! A perda de um soldado como ele perturba-me bastante. Já fui testemunha de tantas mortes e tragédias, mas nenhuma me afectou tão profundamente quanto esta. Os maqueiros pegaram na maca e prosseguiram.
Continuámos a nossa volta, mas tornou-se-me muito difícil prosseguir. Tinha-me decidido a comandar a guarda de honra de um subordinado pelo qual tinha tanto respeito. Pedi licença ao comandante de batalhão e apressei-me para chegar a tempo ao cemitério.
Obtive uma autorização especial para enterrar Nuri no talhão dos oficiais, o olival do barranco de Karaburun. Escolhi um local sob uma esplêndida oliveira. Muitos dos nossos mártires jazem no local e Nuri passará a ser mais um deles. Colocámos o seu corpo de forma a que a sua cabeça ficasse por debaixo da árvore. Apanhei ramos de oliveira e louro para os distribuir à volta do corpo. Quando o fixei, a minha dor fez-se sentir de forma tão sensível que me fui abaixo quando atirei o primeiro punhado de terra para o enterro.
Deixei as lágrimas fluir enquanto me dirigia a Nuri: “
Oh meu filho! É-me tão penoso pôr-te a descansar assim”. Os presentes começaram a chorar. Um dos seus camaradas conta-nos como Nuri lhe havia dito quando haviam chegado à frente os dois: “Imploro a Deus que me deixe tornar num mártir!” Oh Nuri! Os teus votos estão satisfeitos.
Enterrámo-lo. Foi vontade de Deus que tivesse sido eu a proferir o verso de abertura do Corão na ocasião. Quem se seguirá? Torno a ter dificuldade em controlar-me. Lágrimas quentes descem-me pelas faces. Haverá um dia em que tudo isto terá fim, como acontece a todas as coisas. Despeço-me e afasto-me na sepultura.
7 de Novembro de 1915
22H30 Está frio. O vento sopra cada vez com mais força. Vai uma enorme distância entre os pobres desgraçados que travam os combates e aqueles que apenas falam de heroísmo e de vitória enquanto se prepararam para a sua noite de núpcias com os seus pénis na mão, como se costuma dizer. Que tragédia será se todos aqueles que aqui ainda combatem tiverem que morrer como todos os que os precederam. Tudo para que um punhado de cobardes possam provar o sabor da fama.
23H30 Os sargentos saem. Cansado e ensonado, encostei-me a uma parede e deu-me para cantar baixinho.

9 de Novembro de 1915
16H00 O nosso comandante deu-nos boas notícias. Chegaram 300 vagões de munições, além de peças de artilharia de 21 e 24 cm e obuses de 15 cm. Teremos agora capacidade de bombardear o inimigo por 70 horas em vez das 22 originalmente previstas, a que se seguirá uma nova ofensiva.
A perspectiva de um sucesso para breve entusiasma-me tanto que me ofereci ao comandante de batalhão como fedai
(à letra o que se sacrifica. Os palestinianos popularizaram a designação) na próxima ofensiva. Ele ficou exultante.

21H00 Regressei ao meu abrigo. Abdulhalim Efendi ofereceu-me tahini halva e pão, que eu comi com gosto, por causa da fome que tinha.
22H00 Fui para a cama e adormeci ao som das granadas de artilharia e das balas dos franco-atiradores.

17 de Novembro de 1915
18H00 Chuva forte, tocada pela ventania, encharcando tudo. O meu próprio abrigo está inundado. Era agora que eu adorava ver aquelas pessoas que dizem que ser-se soldado é fácil, que estamos a ser demasiadamente bem pagos, a passar uma noite a dormir na lama. Será que se atreveriam a repetir o que haviam dito? Creio que não. Tenho 21 anos e o meu cabelo e barba estão a tornar-se grisalhos. O meu bigode é branco. A minha cara enrugada e o meu corpo apodrece. Não consigo suportar o que suporto por muito mais tempo. Ser um oficial otomano parece limitar-se a aguentar com granadas e bombas.

22 de Novembro de 1915
05H00 Sonhar acordado com uma família feliz. Será que vou sobreviver para ver o dia em que os terei? Eu sei que deveria estar infinitamente agradecido por tudo aquilo que tenho, mas porque é que, até hoje, não tive possibilidade de encontrar a felicidade real, daquele género que liberta o coração e conforta a alma? Deus meu! Será que me concederás essas coisas em vida?
E quanto aos meus homens? Tivemos até agora sete levas de reforços. Originalmente havia 200 em cada uma das nossas companhias, mas agora estamos reduzidos a 50 ou menos em cada uma delas. Os restantes tornaram-se mártires, ou estão feridos ou desaparecidos. Quanto aos oficiais, nenhum de nós escapou incólume. Esta luta continuada esgotou-nos.

08H00 Um frio de rachar morde-nos as mãos e as caras expostas. Se isto já está assim por agora imagino o que se irá passar. O que é que nos espera? Aconteça o que acontecer, havemos de nos habituar. Se tivermos de morrer duas vezes, até a isso nos habituaremos.

24 de Novembro de 1915
15H30 Quando cheguei à nossa trincheira deparei-me com o que fora uma grande poça de sangue. Coagulara e escurecera. Reconheciam-se pedaços de cérebro, osso e carne lá misturados. Um dos rastos de sangue conduzia à frente do meu abrigo. É o percurso dos maqueiros quando transportam os mortos da trincheira para a retaguarda. Fiquei preocupado ao entrar no abrigo. Estou a tornar-me cobarde. Tenho-me tentado convencer que o medo é fútil, seja onde for que estejamos, a morte há-de nos encontrar se for a nossa hora. Tenho que ser o mais cauteloso que puder, mas o que tiver de ser, será.
27 de Novembro de 1915
10H30 Encontrámos Agati (um oficial de outra companhia) desapontadíssimo. Mesmo depois de espicaçar os seus homens à baioneta, alguns deles recusaram-se a abandonar a trincheira e desataram a gritar como mulheres. Os que avançaram sofreram imensas baixas provocadas pelo fogo inimigo. Aquela unidade está totalmente desmoralizada.

4 de Dezembro de 1915
04H30 O meu impedido tentou acordar-me antes para fazer o relatório mas não o conseguiu. Estou agora a redigi-lo. Está tudo tão calmo que voltei para a cama. Dormitava quanto houve uma terrível explosão por perto. A terra caía em cima do meu abrigo, eu puxei o cobertor para proteger a cabeça e dei curso ao que seria o meu futuro. Será que virei a ter uma namorada? Senhor Deus, criador do Céu e da Terra e de todas as criaturas! Por favor deixa-me viver para que eu veja o dia em que possa usufruir dessas bênçãos. De outra forma, a minha vida será repleta de desejos e penas. Tento dormir mas passei a maior parte do tempo semi-acordado.

9 de Dezembro de 1915
15H00 Tinha começado a caminhar e não havia dado ainda dez passos quando ouvi o barulho característico de um obus a aproximar-se de onde eu estava. Apercebi-me que teria de me atirar para uma das trincheiras de apoio, que o obus soa a como se viesse apontado a mim. A explosão é impressionante. Segue-se o choque violento que me jogou contra os bordos da trincheira. Sinto uma dor na minha virilha esquerda. Aperto a minha mão em cima do sítio onde me dói e corro para o meu abrigo. O caminho está destroçado, coberto de terra solta. Há fragmentos de projéctil por todo o lado e o cheiro ácido do explosivo ataca-me as narinas. Aqui pode-se estar numa situação em que se confronta a morte em qualquer momento. Oh meu Deus! Em beneficio do teu santo nome, protegei-nos por favor!

13 de Dezembro de 1915
10H00 Fui ver o que os meus homens estavam a fazer. Sempre que passo pelo olival fico perturbado pela recordação de todos os que ali estão enterrados. O meu coração continua a dizer-me que no fim da guerra eles ressuscitarão para a vida. Oh meu Deus! Mostra misericórdia por todos aqueles que ainda estão em vida! E guia-nos! 18H00 Os meus homens estão a cantar as suas canções tradicionais. Falam de uma tristeza profunda e de um sentido de luto. Eles estavam a cantar essas mesmas canções na altura em que partimos de Mersin para vir para aqui. Só que a maioria dos que as cantavam na altura estão agora debaixo de terra.

19 de Dezembro de 1915
03H35 O comandante de batalhão chegou com a ordem para que preparemos rapidamente uma patrulha de reconhecimento. O inimigo havia retirado de Anafarta, expondo todo o seu flanco direito. Ofereci-lhe uma chávena de chá. A patrulha foi aprontada. Explicou-se-lhe que deveriam internar-se na terra-de-ninguém a partir do ponto onde a mina fora detonada.

Mehmed Fasih termina assim o seu diário que abrange praticamente todo o Outono de há cem anos. Na verdade, o inimigo australiano havia retirado de Galípoli (20 de Dezembro de 1915), quase oito meses depois de lá ter desembarcado, reconhecendo a inutilidade dos seus esforços e o fracasso da operação. Mas a guerra (e a carreira militar) não haviam acabado para Mehmed Fasih. Transferido para a Palestina, onde os turcos ainda defrontavam os britânicos baseados no Egipto, Fasih acabou aprisionado por estes últimos na península do Sinai, perto de Gaza, em Outubro de 1917. Mas isso esteve longe de ser o fim da sua carreira militar. Libertado com o fim da guerra em Novembro de 1918, veio a juntar-se às forças republicanas laicas de Mustafa Kemal que iriam governar e tutelar a Turquia durante o resto do Século XX. Quando da secularização da Turquia adoptou o nome de Kayabali; Mehmed Fasih Kayabali. Casou em 1924, teve dois filhos e uma carreira militar bastante bem sucedida: alcançou a patente de tenente-general em 1953 e foi nomeado chefe de estado-maior do exército turco em 1955. Aposentou-se em 1960. Faleceu em 1964 com 70 anos de idade. De notar o pormenor de o seu diário ter sido escrito em alfabeto arábico quando, a partir de 1928 e por causa das reformas de Kemal, o turco passou a ser escrito - ainda hoje o é - no alfabeto latino.

12 setembro 2015

DISTO JÁ NÃO HÁ MAIS – 10

Ancara, Turquia, 12 de Setembro de 1980. Há precisamente 35 anos os militares turcos protagonizavam mais um dos golpes de Estado que se haviam tornado uma tradição decenal do país – Maio de 1960, Março de 1971, Setembro de 1980. A figura dessa vez era o general Kenan Evren (1917-2015). Costumava-se designar estas figuras por o novo homem forte. Normalmente nunca o eram, a força era apenas aquela que a superpotência tutelar permitia. O assentimento tácito, senão mesmo o encorajamento, dos norte-americanos costumava ser apreciado pelas capas das revistas internacionais da semana seguinte (acima/abaixo). Em 1990/91 não tornou a haver novo golpe de Estado: entretanto caíra o Muro de Berlim, as regras clássicas da Guerra-Fria haviam saído de moda e os generais turcos obedeciam agora ao poder político, porque tinham acabado os encorajamentos de Washington. Novos tempos se anunciavam: os regimes frágeis do Sul da Europa, se continuavam à mercê de ambiciosos que não estavam dispostos a jogar o jogo da democracia, agora eram juízes e não oficiais.