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16 julho 2024

O IMPACTO EM JÚPITER DO PRIMEIRO FRAGMENTO DO COMETA SHOEMAKER-LEVY 9

(Republicação)
16 de Julho de 1994. O primeiro de vários fragmentos em que se desagregara o cometa Shoemaker-Levy 9 colidiu com o planeta Júpiter. Ao longo dos seis dias seguintes mais vinte fragmentos viriam a embater com o planeta, sempre no hemisfério meridional, deixando observar, à laia de "cicatrizes", as marcas dos violentos impactos, cada um deles libertando quantidades de energia capaz de desafiar a nossa imaginação. Com o maior deles, o G (cada um dos impactos foi designado pelas letras encadeadas do alfabeto), ocorrido em 18 de Julho, estima-se que terá sido libertada uma energia equivalente a seis teratoneladas de TNT (milhão de milhões de toneladas). Impressionante que seja, trata-se de um valor dezasseis vezes inferior ao que se estima que terá sido libertado há 67 milhões de anos na Terra, com o impacto do corpo celeste que pôs fim ao Cretáceo, muito embora aquilo que presenciámos em Júpiter há trinta anos se tenha multiplicado por vinte fragmentos o que aproximará a dimensão dos dois fenómenos. As cicatrizes dos impactos permanecerem visíveis em Júpiter por meses, criando um novo respeito por tudo aquilo que anda por aí a vogar pelo espaço próximo.

05 julho 2024

O 30º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA AMAZON: INDISPENSÁVEL E DETESTÁVEL

5 de Julho de 1994. A Amazon é fundada numa cidade dos arredores de Seattle, no estado norte-americano de Washington. Nestes trinta anos tornou-se indispensável: é o sítio onde passei a comprar a maioria dos livros que leio, mas é, ao mesmo tempo, uma organização detestável pela reputação que adquiriu a respeito da maneira como (mal)trata quem lá trabalha.

17 junho 2024

A PERSEGUIÇÃO A O.J. SIMPSON

(Republicação)
17 de Junho de 1994. Como principal suspeito pelo assassinato da ex-mulher, uma antiga estrela de futebol americano, O.J. Simpson (até aí relativamente desconhecido na Europa), é perseguido pela polícia ao volante do seu jeep pelas auto-estradas de Los Angeles, enquanto os helicópteros das várias estações de TV faziam a cobertura em directo da perseguição. Foram mais de duas horas e quase 100 quilómetros de um nada informativo, mas que, ainda assim, terá alcançado uma audiência de 95 milhões de telespectadores. Satisfeita a curiosidade mórbida do auditório norte-americano, com a rendição do foragido O.J. Simpson (para onde haveria ele de ir, com 95 milhões de compatriotas a segui-lo?...), o episódio só teve ressonância nos Estados Unidos, e a repercussão fora dele foi quase nula. O fim da Guerra Fria determinara que desaparecesse uma preocupação anterior, de décadas, de mostrar uma sintonia de interesses entre americanos e o resto do Mundo por certos temas mediáticos, como seriam os casos de acontecimentos desportivos como os Jogos Olímpicos ou então a chegada do primeiro homem à Lua. Ao contrário do que acontecera com a comoção como fora acompanhado o assassinato de John F. Kennedy, ele havia coisas dos americanos que interessavam apenas aos americanos e não ao resto do Mundo, e o contrário também era verdade. Por exemplo, naquele mesmo dia 17 de Junho de 1994 começava em Chicago o Campeonato Mundial de Futebol (com a presença do próprio Bill Clinton), mas os americanos, nem por curiosidade, atribuíram ao evento uma importância comparável à que haviam dedicado a esta perseguição a Simpson. A maior audiência doméstica que o torneio veio a gerar foram 11 milhões de telespectadores para um jogo entre o Brasil e os Estados Unidos a 4 de Julho (e porque era dia feriado).

06 maio 2024

A INAUGURAÇÃO DO TÚNEL SOB O CANAL DA MANCHA

6 de Maio de 1994. Com a presença dos dois chefes de Estado, tem lugar a inauguração do túnel sob o canal da Mancha. Um momento histórico concretizando uma ideia tão antiga que até ocorrera ao próprio Obélix!

27 abril 2024

AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES GERAIS DA HISTÓRIA DA ÁFRICA DO SUL

(Republicação)
27 de Abril de 1994. Têm lugar as primeiras eleições na África do Sul em que o direito de voto pôde ser exercido por todos os cidadãos. Contabilizaram-se 19,5 milhões de votos (nas eleições anteriores, restritas, em 1989, os eleitores haviam sido apenas 2,5 milhões...) e os resultados deram uma vitória clara ao ANC, que recebeu mais de 12 milhões de votos, o equivalente a 62,5% da votação. A data de 27 de Abril tornou-se um dia feriado na África do Sul. O video acima é apenas uma revisitação desses dias que é feita 22 anos depois pela visão de três jornalistas, cada um pertencente a uma das comunidades em que o regime do apartheid segmentara a sociedade.

15 abril 2024

A ASSINATURA DO ACORDO DE MARRAQUEXE

(Republicação)
15 de Abril de 1994. Assinatura do Acordo de Marraquexe, envolvendo a assinatura de 124 países e que se veio a revelar a antecâmara da criação da Organização Mundial de Comércio, organização que viria a nascer em 1 de Janeiro do ano seguinte. Foi um verdadeiro safanão no comércio internacional e na ordem internacional que existira até aí, mas também foi uma daquelas ocasiões históricas de cujo valor histórico todos os grandes observadores mediáticos - e, com eles, as opiniões públicas - só se terão apercebido bem depois de ter acontecido.

09 abril 2024

O NAVIO «HIDROGRÁFICO» QUE OS RUSSOS ROUBARAM AOS UCRANIANOS

9 de Abril de 1994. Uma pequena notícia da Reuters dá conta da defecção da Ucrânia para a Rússia de um dos navios da esquadra do Mar Negro. Como se pode ler nela, o navio estava acostado no porto de Odessa, na Ucrânia, quando a tripulação, estimada em aproximadamente 45 marinheiros e composta predominantemente por russos, contrariando as ordens de Kiev (a quem o navio fora, aparentemente, alocado), decidiu cortar amarras a meio da noite, partindo para parte incerta. Como é costume nestas ocasiões, os queixosos ucranianos atribuíam um valor desmesurado ao prejuízo incorrido com a deserção. A realidade é que o navio, que a notícia identifica como o «Cheleken», fora originalmente construído na Polónia em 1970 e era um daqueles navios que, apesar de classificados por soviéticos como «hidrográficos», estava equipado com equipamentos de escuta e espionagem, para acompanhar as unidades navais da NATO. Como a notícia explica, o processo de divisão dos activos da Frota do Mar Negro entre a Rússia e a Ucrânia, depois da extinção da União Soviética, já levava três anos e estava recheado de incidentes dos dois lados. Recorde-se que isto acontece 20 anos antes da ocupação russa da Crimeia. É uma história de um conflito latente que não tem inocentes. Pode ter ingénuos (como será o caso da Ucrânia, ao ceder o controle do arsenal nuclear em seu território com contrapartidas), mas inocentes não.

06 abril 2024

O GENOCÍDIO DOS TUTSIS

(Republicação)
6 de Abril de 1994. Com o derrube do avião em que viajava o presidente ruandês na sua aproximação ao aeroporto de Kigali, criavam-se as condições para a eclosão de um massacre indiscriminado da população tutsi do Ruanda. O massacre irá ser perpetrado pelas próprias forças armadas e militarizadas do Ruanda, constituídas predominantemente pela etnia rival e maioritária dos hutus. Uma parcela significativa do genocídio, especialmente fora dos centros urbanos, será cometido pelas próprias populações hutus, e a arma simbólica deste genocídio, ocorrido às vésperas do Século XXI, será, paradoxalmente, a catana. Durou cerca de três meses, terá provocado de 500 mil a um milhão de vítimas, a indústria mediática mundial nunca o levou devidamente a sério e, ao contrário do que se verifica com outros genocídios, onde as vítimas estão precisamente identificadas (o Holocausto ou o dos Rohingya, por exemplo), a maneira como tende a ser designado (Genocídio no Ruanda), esquece-se de enfatizar quem foram as suas vítimas principais e primordiais - os tutsis.

05 abril 2024

«SMELL LIKE TEEN SPIRIT»

(Republicação)

5 de Abril de 1994 é a data estimada do suicídio de Kurt Cobain (1967-1994). O seu cadáver só veio a ser encontrado três dias depois, acompanhado da nota abaixo. Esta música «Smells Like Teen Spirit» é, de longe, o maior sucesso dos Nirvana. Trinta anos entretanto passados, os teenagers que então exalariam o espírito tornaram-se hoje maduríssimos quarentões. Eu, que já por lá passei, fiquei sem saber se naquela geração também há um cheiro de espírito de quarentões...

25 fevereiro 2024

O MASSACRE DO TÚMULO DOS PATRIARCAS

(Republicação com adendas)
25 de Fevereiro de 1994. Dá-se o Massacre do Túmulo dos Patriarcas na mesquita Ibrahim da cidade de Hébron, na Cisjordânia. Um israelita de origem norte-americana de 37 anos chamado Baruch Goldstein, militante de uma organização da extrema-direita religiosa entrou armado e amplamente municiado na mesquita à hora da oração (estava-se no 14º dia do Ramadão) e desatou a disparar sobre os fiéis. O tiroteio só acabou quando o atirador foi desarmado e morto à pancada pelos sobreviventes. A contagem das vítimas varia conforme as fontes, mas o número de mortos imediatos foram 29 e os feridos ultrapassaram a centena. Seguiram-se dias de confrontação entre palestinianos e autoridades israelitas que causaram um adicional de vítimas, sensivelmente tantas quantas as do massacre original, mas o episódio foi um descalabro em termos da imagem que Israel desejava projectar internacionalmente de razoabilidade perante o extremismo radical e não contemporizador da causa palestiniana, da OLP e do Hamas. O próprio primeiro-ministro israelita de então, Yitzhak Rabin, condenou o atentado, mas tornara-se óbvia a existência de uma muito activa facção ultra-radical entre os judeus que se mostrava contrária ao estabelecimento de qualquer acordo de Paz com os árabes. No ano seguinte, um outro membro dessa facção iria assassinar o próprio Rabin. Cinquenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o capital de simpatia granjeado a Ocidente - ou, pelo menos, na Europa... - por aquelas que haviam sido as maiores vítimas do nazismo, já se esvaziara substancialmente. Não ajuda à simpatia pela causa israelita que os correlegionários do terrorista lhe tivessem erigido um santuário, que foi posteriormente destruído pelas próprias autoridades de Israel, nem que o local da sua sepultura continue a ser um local de peregrinação daqueles extremistas. É só engraçado pensar nas convulsões argumentativas que se produziriam se se tratasse da peregrinação à sepultura de Osama bin Laden (que foi enterrado no mar...) ou de qualquer um dos seus principais seguidores...

14 fevereiro 2024

HISTÓRIA DE CALCINHA DE CARNAVAL

(Republicação por ocasião do 30º aniversário)
Porque estamos na quadra, torna-se oportuno contar aqui uma história de contornos carnavalescos que se passa no Carnaval e que envolve até o presidente do país do dito, o Brasil. Um presidente ocasional, por sinal. Acima, Itamar Franco (1930-2011) era um discreto político mineiro que fora eleito para o cargo de vice-presidente em conjunto na chapa com Collor de Melo em 1990. Foi apenas a resignação forçada deste último que acabou por vir a colocar Itamar Franco na presidência a substitui-lo nos finais de 1992.

Sendo desde o princípio uma escolha de compromisso, sem uma facção que o apoiasse, a sua discrição irritava os media, sobretudo a imprensa cor-de-rosa. Divorciado e sem uma primeira-dama oficial, Itamar representava uma ameaça para o ganha-pão de toda essa sub-especialidade jornalística. Até que a 14 de Fevereiro de 1994, pelo Carnaval, surgiu a ocasião para a desforra deles, quando Itamar Franco se deixou fotografar no camarote presidencial na companhia de uma carinhosa modelo de 27 anos, Lilian Ramos (abaixo).
Havia sobretudo uma fotografia (abaixo), tirada de um ângulo pouco comum, que mostrava toda a intimidade de Lilian Ramos que, certamente devido ao calor que então se fazia sentir, não usava cuecas… Em condições normais, aquele episódio teria sido apenas o início de um não mais acabar de anedotas picarescas, como aquela que especulava se a mangueira – que é também o nome de uma famosa escola de sambachegara a subir a avenida?... Mais a sério, o mundo político brasileiro pode ser tão enfadonho quanto qualquer outro…

Muitos foram os que pediram a demissão de Itamar Franco a pretexto desse episódio – como se fizesse algum sentido o presidente responsabilizar-se pela roupa interior dos que o cercam… As coisas correram melhor para Lilian Ramos, para a sua notoriedade e carreira. Chegou a vir a Portugal e a ser entrevistada na SIC num programa de então que se intitulava Na cama com…, uma entrevista de 45 minutos! Essa mesma SIC que não terá dado igual importância sequer a Itamar Franco quando ele se tornou embaixador em Portugal em 1995-96...
Aliás, aqueles foram anos de televisão de qualidade em Portugal, seguindo os padrões impostos por Emídio Rangel. E é numa homenagem sentida a Emídio Rangel que esclareço que a versão não censurada da fotografia acima, aquela com a periquita à mostra, a tal que verdadeiramente dará audiências que este blogue merece, pode ser vista nesta ligação

12 fevereiro 2024

A MELHOR PROMOÇÃO QUE SE PODE FAZER A UM QUADRO É ROUBÁ-LO (2)

(Republicação)
12 de Fevereiro de 1994. Dois homens roubaram a versão do quadro O Grito que estava exposta na Galeria Nacional em Oslo, na Noruega, país natal do autor do famoso quadro, Edvard Munch. Um par de meses depois os ladrões pediram um resgate pelo quadro (pedido que foi recusado) e passado um mês eles haviam sido presos e a obra recuperada, numa operação conjunta das polícias norueguesa e britânica. Como o demonstrou o famoso caso do roubo de Mona Lisa do Museu do Louvre em 1911, aquilo que se pode fazer de melhor para promover uma obra de arte como esta, é dar-lhe um cheirinho de roubo, mas que não faça a obra desaparecer por muitos anos. Em 2012, uma outra versão deste mesmo Grito foi vendida por 90 milhões de euros.

29 janeiro 2024

A MORTE EM DIRECTO TELEVISIVO

29 de Janeiro de 1994. A esquiadora austríaca Ulrike Maier, de 26 anos, morre em consequência de um acidente quando disputava uma prova de na estância alemã de Garmisch-Partenkirchen. A prova estava a ser transmitida em directo pela televisão quando a esquiadora se desequilibrou a 105 km/hora e as imagens da sua queda que acabavam com a imobilização do seu corpo inerte no meio da pista são impressionantes. Esta evocação destina-se, por um lado, a lembrar que o esqui é uma actividade onde se registam com alguma regularidade acidentes graves, mesmo mortais; por outro lado, destina-se a frisar como a notoriedade destes acidentes mortais depende das circunstâncias e da popularidade da modalidade onde ocorrem, compare-se este acidente com aquele que virá a vitimar, dali por pouco mais de três meses, o piloto brasileiro Ayrton Senna, em Imola, a 1 de Maio, durante o grande prémio de San Marino de Fórmula 1. Ao contrário desta, mesmo trinta anos depois, essa outra morte em directo televisivo é recordada com regularidade.

08 janeiro 2024

O HOMEM QUE PASSOU MAIS TEMPO NO ESPAÇO

(Republicação)
8 de Janeiro de 1994. Lançamento da missão espacial russa Soyuz TM-18. Entre a tripulação (fotografia acima) encontra-se o médico Valeri Polyakov de 51 anos (à esquerda) que irá passar os próximos catorze meses e meio (437 dias) na estação espacial MIR, estabelecendo com isso o record do maior período contínuo passado no espaço (um record que ainda hoje subsiste). O vídeo abaixo mostra o seu retorno à Terra a 22 de Março de 1995, com a tripulação da missão Soyuz TM-20. Se a proeza tivesse sido realizada pelos norte-americanos, teria sido notícia de encher os cabeçalhos à volta do Mundo; pelo contrário, no caso, ainda se nota um certo provincianismo socialista soviético nas cerimónias preparadas para o acolhimento dos cosmonautas.

Pela sua duração, este terá sido o processo experimental mais próximo de replicar e estudar as condições de imponderabilidade por que terão de passar quaisquer tripulantes de uma futura missão a Marte (cuja duração previsível rondará os vinte e um meses). De há trinta anos para cá produziram-se incontáveis estudos teóricos quanto a missões espaciais tripuladas para a exploração daquele planeta, mas a verdade é que nada foi desenvolvido naqueles aspectos experimentais mais concretos (e mais caros...) da missão, nomeadamente este aspecto crucial de compreender e lidar com as reacções do organismo humano à presença prolongada no espaço. Passarão várias décadas antes de que a história de ir lá buscar o Matt Damon possa ser algo mais do que ficção...

30 dezembro 2023

JUDEUS E CATÓLICOS

(Republicação)
30 de Dezembro de 1993. Apesar de o Estado de Israel ter mais de 75 anos, foi há apenas 30 que o governo israelita e o Vaticano estabeleceram relações diplomáticas formais. E, como se pode apreciar acima através de uma fotografia recente dos dois titulares, a relação continua a ser muito pouco descontraída, assaz cerimoniosa... E isto apesar de uma apreciável percentagem de peregrinos que visitam Jerusalém e robustecem a indústria do turismo israelita serem católicos.

11 dezembro 2023

O COLAPSO DAS HIGHLAND TOWERS NA MALÁSIA

(Republicação)
11 de Dezembro de 1993. Colapso de um bloco habitacional de 13 andares que havia sido edificado em 1977. A causa foi atribuída a um deslizamento de terra (que se identifica no lado superior direito da fotografia) que se devera a dez dias de chuvas contínuas. Os apartamentos eram habitados por membros da classe média alta local. De entre as 48 pessoas que morreram no acidente, 12 eram estrangeiras e, entre os malaios, contava-se o filho e nora de um antigo vice-primeiro-ministro, o que deu uma outra notoriedade mediática ao episódio. Foi nomeadamente o rastilho de uma chamada de atenção para as condições de segurança menos que satisfatórias como muitas vezes se constrói nos países asiáticos, e toda uma outra atenção passou a ser dedicada a acidentes semelhantes que haviam ocorrido e que vieram a ocorrer em países como a Coreia, a Tailândia, ou muito especialmente a China, onde eles constituem uma infeliz rotina.

02 dezembro 2023

AS CONTRADIÇÕES MORAIS QUE VÃO DE «TIPPU TIP» A PABLO ESCOBAR

Hoje, quando se completam precisamente 30 anos sobre a execução de Pablo Escobar, considero muito oportuno republicar esta comparação entre aquele conhecido traficante de cocaína colombiano e um agora esquecido traficante de escravos tanzaniano do século XIX, mostrando como os critérios mudaram radicalmente, e em mais do que um aspecto, de um caso para outro.
Se houver que dar um rosto ao tráfico de escravos do Século XIX este senhor de olhar bondoso da fotografia acima será um candidato ideal. O seu nome era Hamad bin Muḥammad bin Jumah bin Rajab bin Muḥammad bin Sa‘īd al-Murghabī (1837-1905) mas a sua reputação foi estabelecida através da alcunha de Tippu Tip, uma onomatopeia do som das espingardas que os seus homens usavam quando das expedições para a captura de escravos na África Oriental, em regiões que actualmente fazem parta da Tanzânia, da Zâmbia e do Congo. A maioria dessas capturas eram para exportação (mesmo assim, em 1895 estimava-se que trabalhassem 10.000 escravos nas suas plantações) mas dava-se a curiosidade de, por essa altura, a quase senão mesmo a totalidade da sua clientela ser oriunda do mundo islâmico. Aparentemente, a condenação moral e o combate ao tráfico de escravos pelas potências europeias fizera com que as possessões do Índico que precisavam de mão-de-obra, como acontecia com a África do Sul, Maurício ou a Reunião, passassem a recorrer à substituição dos escravos africanos por trabalhadores indianos vindos livremente. Para além disso, Tippu Tip contava com aquilo que hoje se designa com uma boa imprensa: fora anfitrião do famoso jornalista e explorador africano Henry Stanley (1841-1904) que dele fizera uma descrição muito lisonjeira nas crónicas dos jornais que acompanhavam as suas viagens. No final da sua vida foi publicada na Europa uma autobiografia sua onde, como seria de esperar, não há muito espaço dedicado às mais de uma centena de milhar de pessoas cuja vida fora destruída pelas suas actividades...
Justapondo tráficos de moral condenável, vale a pena comparar o tratamento dado acima a Tippu Tip, mais o tráfico de escravos que o fez prosperar, ao que foi e ainda é dado àquele poderá ser considerado como o rosto mais conhecido do tráfico de cocaína do Século XX: o colombiano Pablo Escobar (1949-1993). É absurdamente contraditório o facto de, na moral prevalecente, os argumentos que são aduzidos para analisar e condenar os intervenientes num dos tráficos é convenientemente esquecido para o outro: enquanto no de escravos se esquecem as indispensáveis contribuições dos potentados nas áreas de produção (África) para depositar as culpas exclusivamente nos consumidores finais do produto nas colónias europeias da América por o dinamizarem, no tráfico de cocaína acontece rigorosamente o oposto e os consumidores finais parecem ser sempre exonerados dessas mesmas culpas e elas são transferidas precisamente para os potentados das áreas de produção da cocaína na América do Sul… Ao contrário de Tippu Tip, Pablo Escobar nunca conseguiu contar com boa imprensa. Porém, o seu desaparecimento por assassinato, ocorrido há precisamente trinta anos e sem que o mesmo pareça ter tido uma influência decisiva no tráfico (que se terá multiplicado ainda mais depois da sua morte), veio demonstrar que a notoriedade negativa que adquirira era, no mínimo, desproporcionada. Emparelhando as suas histórias ainda mais, independentemente da forma como elas hoje são conhecidas ou ignoradas, refira-se a curiosidade de que as mansões de ambos, Tippu Tip e Pablo Escobar, erigidas pelas suas fortunas igualmente imorais, se tornaram em locais de atracção turística, tanto em Zanzibar como em Medellín.

09 novembro 2023

A DESTRUIÇÃO DA PONTE DE MOSTAR

(Republicação)

9 de Novembro de 1993. A ponte velha («stari most» em servo-croata), que ligava as duas partes da cidade herzegovina de Mostar e que fora construída no século XVI, é destruída pelo fogo da artilharia croata. O episódio, militarmente menor e que não ocasionou, felizmente, danos pessoais, vai contudo perdurar simbolicamente como um dos momentos emblemáticos da guerra civil que destroçou a Jugoslávia. A destruição da ponte tinha lugar quatro anos precisos após a queda do Muro de Berlim e parecia ser a demonstração que a criação de uma nova ordem internacional depois do desaparecimento dos dois blocos europeus não iria ser tão idílica quanto originalmente parecera. Caíam muros mas também caíam pontes. Esta foi reconstruida em 2004.

25 outubro 2023

QUANDO UM PARTIDO NO PODER COLAPSA... E A COMUNICAÇÃO SOCIAL SÓ DESCOBRE À ÚLTIMA DA HORA

(Republicação, porque este é um dos casos mais espectaculares de manipulação de sondagens)
25 de Outubro de 1993. Realizam-se eleições gerais no Canadá e os resultados são um daqueles raros episódios em democracias consolidadas, onde o partido que está no poder colapsa fragorosamente. O partido conservador, liderado à época pela primeira-ministra Kim Campbell (a primeira, e até hoje a única, mulher a ocupar aquele cargo no Canadá), passa dos 43% que recebera nas eleições de 1988 para uns míseros 16% dos votos. Mas isso nem é o pior. Por causa do sistema eleitoral canadiano, de tradição britânica, onde cada candidato disputa individualmente a eleição no seu círculo eleitoral, os deputados conservadores passaram de uma maioria de 169 (num parlamento com 295 lugares) para... 2. Remate de humilhação: nem a própria primeira ministra foi reeleita no círculo por onde se apresentara. Foram os liberais, a tradicional formação política que costuma alternar no poder em Ottawa, que assumiram o poder com Jean Chrétien como primeiro-ministro, apoiado numa maioria de 177 lugares. Mas o mais interessante que recordo de todo este episódio é como ele chegou sem se fazer anunciar: se se consultar aquilo que as sondagens anteviam, ainda um mês antes das eleições elas mostravam um equilíbrio entre conservadores (PC) e liberais (Lib). Só com o aproximar da data das eleições é que o panorama se foi progressivamente alterando até aderir aos resultados. Naquele tempo eu concluí que se tratara de uma evolução acentuada e brusca da opinião pública. 30 anos depois, escaldado por inúmeros enganos inaceitáveis e incompreensíveis em sondagens eleitorais, tendo a aceitar melhor a hipótese que houve de facto «uma evolução acentuada e brusca», mas da opinião publicada. Não havendo explicações exógenas anómalas (como foi este caso), as opiniões públicas tendem a mudar de opinião muito mais lentamente do que as sondagens abaixo mostram...

19 outubro 2023

TORRES COUTO E A COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO AOS FUNDOS PARA A FORMAÇÃO PROFISSIONAL DA UGT

19 de Outubro de 1993. O secretário-geral da UGT, Torres Couto, comparece na Comissão Parlamentar de Inquérito que inquiria sobre o destino que fora aos fundos para formação profissional atribuídos à central sindical UGT. O escândalo rebentara um ano antes (veja-se abaixo a capa de O Independente de Março de 1992, com um dos seus tradicionais trocadilhos) e as denúncias relacionavam-se com as apropriação dos fundos destinados às acções de formação de 1988 e 1989.
Estava-se em pleno cavaquismo, e com o escândalo envolvendo uma central sindical cuja criação fora originalmente apadrinhada pelo centrão (PS e PSD), o resultado era que o ritmo das revelações do que acontecera e a nomeação de quem estivera envolvido era lento, para não dizer mais. O resultado da audiência não foi propriamente esclarecedor. Mas a reputação do secretário-geral da central estava a ser progressivamente arrasada à medida que as revelações se sucediam.
Se o governo do PSD se mostrava incomodado (alguns dos envolvidos eram desse partido, como o tesoureiro, José Veludo*), na direcção da UGT predominavam os socialistas e quase toda essa direcção parecia envolvida no escândalo. O próprio PS, dirigido por António Guterres, preferiu deixá-los discretamente caírem. Daí por um ano Torres Couto demitiu-se do partido, com estrondo mediático e alegando outras razões, mas já então era considerado uma pessoa muito pouco recomendável...

* Veludo foi o único dos arguidos a que o «tribunal considerou atribuível o crime de burla na forma tentada» mas, quando chegou a essa conclusão, em 2007, 14 anos depois da audição parlamentar, estava tudo prescrito...