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20 novembro 2019

QUANDO SE DÁ TEMPO AO TEMPO DAS NOTÍCIAS, ELAS TORNAM-SE NOUTRAS NOTÍCIAS

Há quinze anos lembro-me das críticas endereçadas a Pedro Santana Lopes por causa da sua decisão de domiciliar meia dúzia de secretarias de Estado em outras tantas capitais de distrito. Agora é a vez de António Costa fazer o mesmo com outras três secretarias de Estado. Muito provavelmente também esta decisão irá ser criticada mas não estou à espera de qualquer coerência entre críticos e apoiantes, entre o que eles disseram naquela altura e o que opinam agora, tanto mais que quinze anos é muito tempo e ninguém já se lembra de quem é que disse o quê e porquê. Num outro contexto, nove anos também são muito tempo. Foram os anos que o ministério público sueco demorou a investigar preliminarmente se as acusações de violação e agressão, que permitiram acossar Julian Assange a refugiar-se numa embaixada, teriam condições de vingar em tribunal. Afinal, parece que não. Mas, da próxima vez que se falar - justificadamente! - da morosidade da justiça portuguesa, ponha-se os olhos nesta justiça sueca, que é bem pior que a nossa. Sim, porque em comparação com as nossas dúvidas em saber se o primeiro-ministro Sá Carneiro morreu num acidente ou num atentado, eles exibem a proeza de saberem que o primeiro-ministro Olof Palme morreu assassinado; mas o que não fazem a mínima ideia é a razão e, sobretudo, quem foi o autor.

22 abril 2019

AS OFENSIVAS DIPLOMÁTICAS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

22 de Abril de 1944. Um par de notícias de conteúdo aparentemente anódino numa das páginas centrais da edição do jornal desse dia, dá conta daquilo que era uma discreta, mas violenta, ofensiva diplomática por parte dos Aliados para que alguns países neutrais cortassem o fornecimento de alguns itens considerados vitais para a indústria de armamentos do III Reich. Numa das notícias, originária de Ancara, dava-se conta da reacção da Turquia a essas pressões, suspendendo as exportações de minério de crómio para a Alemanha, invocando a sua condição de aliada da Inglaterra. Noutra, oriunda de Londres, era a Suécia que ainda não respondera à nota dos Aliados, em que se lhe era pedido que suspendesse as exportações de esferas de rolamentos para a Alemanha. Havia uma campanha de bombardeamento em curso para destruir a capacidade de as produzir no próprio território alemão, e a indústria de armamentos alemã havia recorrido ao reforço das importações da Suécia para suprir as carências. A resposta sueca irá ser tão evasiva que a importância e as consequências dessa decisão ainda hoje são objecto de discussão académica: a Suécia colaborou ou não com a Alemanha? Contudo, a Turquia e a Suécia não eram os únicos países neutrais a serem pressionados naquela altura pelos Aliados: dali por mês e meio, na edição de 7 de Junho, era ocasião para ser notícia o anúncio pelo governo português da suspensão das exportações de volfrâmio para os países beligerantes. Fazia-o a pedido da Grã-Bretanha. Repare-se como os Estados Unidos pareciam nunca aparecer nestas iniciativas...

03 abril 2019

SUCESSOS E PROMESSAS DO PANORAMA MUSICAL HÁ CINQUENTA ANOS

Há cinquenta anos, a sensação «pop» da semana era o cantor Marvin Gaye cantando uma nova versão rearranjada the «I Heard It Trough The Grapevine» (abaixo). A versão de Gaye permanece, até hoje, a de referência daquela canção. Repare-se na supremacia gozada pela música anglo-saxónica: os top ten que são mencionados são os de Londres e Nova York.

Quiçá o facto de se estar na semana que antecedia a Páscoa e o noticiário apresentar-se, por isso parco em outras notícias, algum espaço suplementar era conferido à música.
Numa outra página da mesma edição do jornal, e também em local de destaque, constava a promessa solene dos responsáveis da televisão sueca de deixar de participar no festival da canção da Eurovisão. A notícia ia mesmo ao ponto de atribuir a um desses responsáveis a qualificação do festival de um «programa medíocre». Essa promessa (não o sabiam os leitores de então) seria clamorosamente desmentida pelo futuro. A Suécia, ausente da competição em 1970, regressaria em 1971 e, dali por quase precisamente cinco anos (6 de Abril de 1974) venceria pela primeira vez o certame com a canção Waterloo dos ABBA (abaixo). Depois disso, venceria a competição por mais cinco vezes, um dos países mais bem sucedidos no tal de «programa medíocre».

11 setembro 2018

MESMO FALHANDO OBJECTIVOS E FICANDO AQUÉM DO ESPERADO...

...a verdade é que as formações da direita nacionalista anti-imigrantes já possuem a implantação europeia que o mapa abaixo exibe. Como também é verdade que começa a cansar-nos a repetição da manobra mediática de empolar previamente as expectativas dos resultados que aquela formações irão obter, para depois poder aconchegar os resultados reais e acalmar algumas consciências. Por um mecanismo perfeitamente simétrico ao que era usado cá em Portugal por Paulo Portas, em que o CDS ganhava sempre contra as sondagens, aqui o partido da extrema direita, seja ele de que país for, perde sempre contra as expectativas. Deve ser Bruxelas a achar que a Europa precisa de calma.
Como se apressa a explicar a Euronews neste vídeo abaixo, «O impasse na Suécia não alarma as instituições europeias». Porém, como aliás se remata na notícia, incomodativo poderá ser o «perigo desta realidade poder ser reproduzida no parlamento europeu aquando das eleições de Maio de 2019». Pelos vistos, em abstracto somos todos democratas e defendemos o parlamento e a democracia representativa, o aborrecido é quando essa representação é tão democraticamente fiel que começa a representar aqueles que, a quem manda, não apetece que apareçam representados. Quem ouvir com atenção a notícia da Euronews abaixo, fica com a sensação que é proibido, (é perigoso!), ser-se contra esta construção europeia.

11 maio 2018

A COROAÇÃO DE CARLOS XIV DA SUÉCIA

11 de Maio de 1818. Há precisamente duzentos anos, na Catedral luterana de São Nicolau em Estocolmo, tinha lugar a cerimónia da coroação do rei Carlos XIV da Suécia. Numa Europa que só muito recentemente saíra das vicissitudes das Guerra Napoleónicas, este evento caracterizado pelo seu tradicionalismo distinguia-se de outros equivalentes por vários factores. O primeiro desses factores é que o novo monarca sueco (e norueguês) não tinha qualquer parentesco com o seu antecessor: fora adoptado. O segundo factor anómalo, é que o adoptado só o fora quando já contava 47 anos. Um terceiro factor bizarro, numa época em que isso ainda era considerado muito importante, é que o novo rei era de ascendência plebeia: nascera em Pau a 26 de Janeiro de 1763 com o nome de Jean Baptiste Bernadotte, o filho de um pequeno funcionário judicial. Um quarto factor, como se deduzirá pelo seu nome e pelo local de nascimento, é que o novo rei nascera francês. Um quinto factor, é que o rei começara a sua carreira no exército (francês) com a patente de soldado. Mas foi só a Revolução Francesa que lhe permitiu uma ascensão que culminou no posto de Marechal de França aos 41 anos. O novo rei da Suécia era um arrivista, um assumido "parvenu". E como sexto e último factor exótico naquela coroação, provavelmente em agradecimento pelas oportunidades que lhe haviam sido propiciadas por esses tempos revolucionários, corria o rumor que o novo rei mandara tatuar em si, nessa outra época em que fora jovem, uma tatuagem com os dizeres «Morte aos Reis!». Não deve ter havido muitos monarcas que carregaram consigo um apelo à sua própria extinção como classe... A dinastia Bernadotte ainda hoje reina na Suécia na pessoa de Carlos XVI. O sucesso desta incorporação de um plebeu francês, porém competente e ambicioso, e transformá-lo em monarca bem sucedido de um país estranho, é um desmentido completo daqueles princípios arcaicos das monarquias de direito divino.

25 março 2018

UMA HISTÓRIA SIMPLES

A 25 de Março de 1943, às 7H07 locais, enquanto navegava à velocidade de doze nós a umas 80 milhas náuticas a sudeste de Aracaju (a capital do pequeno estado brasileiro do Sergipe), o pequeno cargueiro Industria (1.688 toneladas), de pavilhão sueco, foi torpedeado pelo submarino U-518 da Kriegsmarine. O navio, que vinha do porto norte-americano de Filadélfia e se destinava ao Rio de Janeiro, confiara nas suas pinturas laterais que o identificavam como neutral (abaixo) e não adoptara qualquer comportamento evasivo-defensivo quanto à ameaça submarina. O navio afundou-se em oito minutos e os escaleres de salvamento embarcaram ou recolheram depois 25 dos 26 homens que compunha a tripulação.
No diário de bordo do U-518 constará que, por não estarem iluminadas as pinturas laterais de identificação, o submarino não identificara a tempo a nacionalidade do navio antes de o afundar. O comportamento posterior da sua tripulação desmentirá a versão: o submarino emergiu junto aos 25 náufragos, inteirou-se se havia feridos ou se eles precisariam de água, mas aprisionou os três oficiais mais graduados da tripulação. Meia hora depois submergiu e afastou-se com os prisioneiros. Depois de passarem o dia inteiro no mar, os 22 tripulantes - o tripulante em falta nunca mais foi visto - foram recolhidos nessa noite, por volta das 23H00, pelo navio suíço(!) St. Cergue que os desembarcou posteriormente em Salvador na Baía.
Quanto aos três oficiais aprisionados, capitão, imediato e maquinista, esses tiveram que esperar mais de um mês até que o U-518 tivesse regressado à sua base francesa de Lorient a 27 de Abril. Depois de umas desculpas formais e pouco sentidas, foram libertados e regressaram à Suécia. Com o Industria, e apenas nesse primeiro trimestre de 1943, já se ia no quarto navio sueco que era afundado pelos U-Boot da Kriegsmarine. O U-164 afundara um logo em 1 de Janeiro, o U-358 outro a 22 de Janeiro, o U-530 um terceiro a 9 de Março e agora o U-518 há precisamente 75 anos. Todos esses acidentes tiveram lugar em pleno Atlântico. Eram distracções a mais para com a frota mercante de um país reconhecidamente neutral e que se podem explicar sobretudo pela posição geográfica e estratégica incómoda que a Suécia ocupa, estando então totalmente cercada numa Europa dominada pela Alemanha. Ao contrário de Portugal, a Suécia tinha que engolir e calar, não estava em condições de retaliar às contínuas provocações alemãs, cedendo aos seus inimigos amplas facilidades logísticas em bases aéreas nos arquipélagos situados no meio do Atlântico.

03 setembro 2017

O CINQUENTENÁRIO DO DAGEN H

3 de Setembro de 1967. Há cinquenta anos, numa gigantesca e metódica operação que recebeu a designação de Dagen H (dia H), a Suécia mudou o sentido da circulação do seu trânsito do lado esquerdo da via (à inglesa) para o lado direito, como acontecia (acontece) com todo o resto da Europa continental. Muito foi antecipado, mas nem tudo terá sido previsto, pois existe uma famosa fotografia de uma rua de Estocolmo nesse dia (abaixo)...
Mas, mais do que as consequências imediatas do próprio dia, o impacto da mudança do sentido do trânsito ter-se-á prolongado pelos anos seguintes. Numa outra fotografia, ainda de Estocolmo mas já datada de 1968 (o autor foi Gunnar Smoliansky) aparece uma senhora, passeando o seu caniche pela trela mas visivelmente confusa junto a uma passadeira, onde se pode ler inscrito um aviso do lado correcto para onde se deve olhar...

01 junho 2017

A ALTERAÇÃO DO SENTIDO DA CIRCULAÇÃO RODOVIÁRIA

Há precisamente oitenta e nove anos procedeu-se em Portugal a uma reforma das verdadeiramente estruturais, reforma essa que, tendo-se processado da esquerda para a direita, não me parece ser de considerar uma reforma nem de direita, nem de esquerda. Refiro-me à inversão do sentido da circulação rodoviária que fora até aí à britânica (conforme se pode ver na fotografia acima, feita na Avenida da Liberdade de Lisboa ainda antes dessa data*) e que passou neste dia 1 de Junho de 1928 a ser à continental. Esta tão importante mudança caiu completamente no esquecimento e hoje serão muito poucos os que saberão que em Portugal já se conduziu do outro lado da estrada. Mas, se calhar, vale a pena acrescentar mais qualquer coisa de pedagógico à história desta transição suave que se distingue por não ter deixado memórias de ter sido realizada. Gradualmente, a totalidade dos países da Europa continental que ainda não o fazia foi mudando o sentido da circulação rodoviária. Com uma excepção; a Suécia, que apesar de ser sempre considerada uma sociedade muito avançada, deixou o assunto arrastar-se por décadas e só se decidiu a alterar o sentido da circulação em 3 de Setembro de 1967, ou seja 39 anos depois disso ter acontecido em Portugal. Só que nessa época já o número de viaturas em circulação subira exponencialmente e a mudança teve que ser planeada metodicamente como se de uma operação militar se tratasse - o Dia H. Apesar de toda a planificação, existe uma famosa fotografia de uma das artérias centrais de Estocolmo nesse primeiro dia...
* O objecto da fotografia é o que terá sido um dos primeiros semáforos a aparecer em Portugal, ainda apenas com duas luzes e que paradoxalmente, considerado o argumento da vantagem da gestão automática dos fluxos de trânsito, era accionado pelo próprio polícia sinaleiro.

01 maio 2016

OS SONSOS

A fotografia foi feita a 30 de Abril de 1945 e a embaixada alemã em Estocolmo, acantonada por detrás de uma proteção de toros de madeira e que acabara de ser informada da morte de Adolf Hitler, exibe a sua bandeira a meia haste, em sinal de luto. O que se torna bastante mais difícil é encontrar fotografias desse mesmo dia que nos mostrem qual foi a atitude oficial adoptada pelo governo sueco - como se apresentavam as bandeiras suecas em Estocolmo nesse dia?... As notícias publicadas numa cidade tão distante quanto Lisboa indiciam que a Suécia, como de resto os restantes países que se mantinham neutrais nessa Segunda Guerra Mundial prestes a terminar (Portugal, Espanha, Irlanda e Suíça) cumpriram, ainda assim, a formalidade de fazer luto oficial por um chefe de estado que falecera no exercício do cargo.
Mas a Suécia é uma democracia tão avançada que existem mesmo consensos quanto a assuntos que não devem ser escrutinados: o tema da evolução da conduta do país ao longo da Segunda Guerra Mundial é um deles. Afigura-se-me que a decisão nem é controversa: isso é para os países da Europa meridional, como Portugal. O que se reconhece na Suécia é que há que enaltecer as manifestações de simpatia para com a causa aliada, afinal os vencedores do conflito, e esquecer as que não o foram. Hoje tornaram-se raridades os documentos que mostram que na Suécia também terá havido muitos que mostraram simpatias entusiásticas para com a causa alemã. O senhor sueco que na fotografia abaixo acompanha Adolf Hitler chamava-se Birger Furugård (1887-1961). Pergunto-me, quanto suecos saberão da sua existência?
A falta que lhes faz não terem tido uma figura como o professor Fernando Rosas...

28 janeiro 2016

O MODELO NÓRDICO

Convenço-me que entre as razões que contribuem para ampliar o ultraje como está a ser acolhida a legislação sobre o confisco dos bens dos refugiados se prende com o facto da medida ter sido votada no parlamento dinamarquês (Folketing), um país escandinavo e não noutro qualquer. A Dinamarca, conjuntamente com os outros países nórdicos, sempre cultivou uma imagem internacional de benemerência vinda de uma sociedade que gozava de um padrão de qualidade de vida superior ao dos outros países. Só que essa superioridade material e também moral do modelo nórdico estará agora, ironicamente, a voltar-se contra quem a promoveu com tanta eficácia. Tanta, que mesmo fora da Escandinávia não se esperam atitudes egoístas como as que estão a ocorrer. As habilidades que seriam apenas compreensíveis se ocorridas noutros parceiros europeus, tornam-se particularmente chocantes, quando passa a ser a Suécia a anunciar que vai expulsar 80.000 migrantes. É curioso, e não vi isso devidamente destacado, o comportamento dos políticos locais perante tão grave problema: a votação do Folketing dinamarquês com 179 deputados que aprovou o controverso confisco dos bens dos refugiados teve o seguinte resultado: houve 81 votos favoráveis à lei, 27 desfavoráveis, ainda 1 abstenção, mas sobretudo 70 ausências significativamente oportunas. Estas últimas corresponderam a 39% dos parlamentares dinamarqueses. Mesmo contando com a revelação da política dinamarquesa que constituiu a famosa série televisiva Borgen, e sem ter a ousadia de especular o que os 70 deputados teriam votado se se dispusessem a ter estado presentes, é possível constatar quanto uma significativa parcela dos políticos de lá e de cá se podem equivaler na cobardia de se evadirem a mostrarem as suas convicções políticas.

03 junho 2015

CINCO CAMINHOS DISTINTOS PARA A PRESERVAÇÃO DA NEUTRALIDADE

Acabei por descobrir que, quando se debate a questão das neutralidades durante a Segunda Guerra Mundial é útil relembrar um truísmo: o de que num grande conflito com aquelas características só conseguiram permanecer neutrais os países que o conseguiram, não os que o desejaram e o proclamaram. Basta vermos uma lista dos países beligerantes da última Guerra (1939-45) para nos apercebemos do impressivo número de países europeus que se viram arrastados para ela, apesar das mais veementes profissões de neutralidade: Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Grécia, Bulgária, etc. Ter permanecido neutral é assim considerado como uma demonstração de sucesso histórico em qualquer dos cinco países que conseguiram tal estatuto, com a notável excepção portuguesa. A Segunda Guerra Mundial acabou há 70 anos, período a que se seguiram 30 de encómios pela habilidade da acção de Salazar, até ao derrube do seu regime em 1974, a que se seguiram outros 40 de críticas e desvalorizações da conduta portuguesa durante o conflito. Creio que já vai sendo tempo de se ser razoável.

É evidente que, adoptando o ponto de vista da historiografia do pós-Guerra e de entre os cinco países que permaneceram neutrais, os mais antipáticos são as duas ditaduras ibéricas. Mesmo aí, a Espanha é para ser considerada pior que Portugal. Se, quanto aos dois blocos em conflito, do ponto de vista dos interesses estratégicos de ambos, as suas posições eram equívocas (mais a espanhola do que a portuguesa), não haveria dúvidas sobre o sentido das suas simpatias ideológicas, completamente enviesadas para o Eixo. Mais do que isso, no caso espanhol havia um passivo por saldar em relação aos dois grandes países (Alemanha e Itália) que o constituíam por causa do apoio recebido durante a Guerra Civil de 1936-39. De facto, a neutralidade espanhola teve muito mais de circunstancial do que aquilo que os adeptos do determinismo histórico gostarão de admitir. Se os resultados militares sobre os céus de Inglaterra se apresentassem mais favoráveis para a Luftwaffe no Outono de 1940, talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. Se Hitler tivesse outra disposição para com as ambições coloniais em África da Espanha (feitas a expensas da França), talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. Se Hitler não tivesse assinado o Pacto com Estaline em 1939, talvez Franco tivesse feito outra avaliação do líder alemão e pudesse ter decidido de outra forma. Sobretudo, se os espanhóis fossem menos espanhóis, e tivessem uma imagem mais realista da sua real importância no xadrez político europeu e talvez Franco pudesse ter decidido de outra forma. A conjugação de tudo isso, muito mais do que a habilidade de persuasão de Salazar sobre Franco, como sugeriu a propaganda posterior do nosso Estado Novo, fez com que a Espanha não se engajasse formalmente na Guerra. Do ponto de vista alemão, e se os espanhóis não se mostravam dispostos a dar esse passo, o status quo vigente era-lhes suficientemente vantajoso para que não valesse a pena rompê-lo por sua iniciativa, ocupando-o. Este foi um padrão de comportamento dos alemães tão válido em Espanha quanto na Suécia ou na Suíça, os três dos cinco países neutrais que estavam ao alcance directo das armas da Wehrmacht. Para mais, Hitler, que sempre valorizou os precedentes históricos nos seus processos de tomada de decisão, terá recordado o que acontecera aos exércitos napoleónicos de ocupação na Espanha dos primórdios do Século XIX.


E, por muito que a evidência nos melindre, o destino de Portugal estava indissociavelmente ligado ao que viesse a acontecer em Espanha. Enquanto Irlanda, Suécia e Suíça estavam geograficamente isoladas para resolver o problema da preservação da sua neutralidade por si sós, com as suas características autónomas, Portugal e Espanha eram o único cluster de neutrais, em que essa preservação era interdependente. Sem a predilecção que Adolf Hitler mostrava pela evocação da História, Salazar também saberia quais as lições a extrair dela: nunca haveria processo satisfatório da Alemanha ocupar directamente em Portugal sem a colaboração espanhola, como ficara aliás demonstrado durante o período napoleónico. Havia que evitar a todo o custo que a diplomacia alemã cravasse uma cunha entre os dois países, assinando o Pacto Ibérico mas sobretudo lembrando à Espanha que a cumplicidade em tal manobra lhe custaria certamente o estatuto de neutralidade por parte dos adversários da Alemanha. Era convicção de Salazar que, se os alemães entrassem na península, fosse a convite espanhol ou forçando a mão, as possibilidades de Portugal preservar a neutralidade com os alemães em Espanha tornar-se-iam praticamente nulas: ou Portugal se tornava num país-satélite do Eixo (uma Hungria) ou então tornar-se-ia em mais dos países ocupados (uma Grécia). Isto para a parcela continental, porque os seus três arquipélagos do Atlântico Norte (Açores, Cabo Verde e Madeira) iriam ser certamente disputados pelas potências beligerantes.

A questão do Portugal atlântico era o outro grande problema de Salazar. Não haviam os britânicos ocupado a Islândia (então dinamarquesa) em Maio de 1940, respondendo à ocupação da Dinamarca pelos alemães no mês anterior? E não haviam os norte-americanos ocupado a Gronelândia em Abril de 1941, oito meses antes da sua entrada na Guerra? Nos dois casos o Reino Unido e os Estados Unidos haviam-se mostrado muito ciosos do controle do espaço Atlântico, capazes de acções preventivas para preservar esse controle. No caso dinamarquês, os alemães haviam-se antecipado e ocupado a própria Dinamarca o que servira de justificação para a ocupação pelos Aliados das suas possessões atlânticas (Islândia e Gronelândia). Evitar que isso se repetisse em Portugal era o primeiro dos problemas de Salazar. O segundo dos problemas de Salazar era que o mesmo desfecho tivesse lugar, sendo as ocupações feitas pela ordem inversa: os anglo-saxónicos podiam ocupar primeiro os arquipélagos atlânticos e era isso que serviria de justificação para os alemães ocuparem o território continental. Conversações havidas no Rio de Janeiro entre norte-americanos e brasileiros para que entre essas eventuais forças de ocupação (dos Açores) houvesse um contingente brasileiro que, pela irmandade da língua, minorasse o impacto do gesto, só impressionavam em Lisboa pela ingenuidade; de resto, assustavam. Quando Salazar se decidiu finalmente a assinar um acordo com os britânicos, cedendo-lhes posições nos Açores, a tendência do desfecho da Guerra já era nítida. Os seus contornos rebuscados, invocando a (mais velha) Aliança agradarão às minúcias jurídicas de Salazar mas nada daquilo resistiria a um daqueles bons ultimatos de 48 horas de Adolf Hitler, fossem outras as circunstâncias. Em Agosto de 1943 os aliados acabavam de ocupar a Sicília e os soviéticos haviam terminado de vencer a batalha do Kursk. Mas ainda havia suficiente indefinição política para que o gesto de Salazar tivesse significado e reconhecimento: para comparação refira-se que só nesse mesmo mês é que os Estados Unidos e a União Soviética reconheceram estatuto ao CFLN (Comité Francês de Libertação Nacional) gaullista, que havia sido criado em Londres três anos antes!

É engraçada a pretensão de moralidade daquelas duas potências na forma como criticaram posteriormente à Guerra a conduta de todos os países que conseguiram permanecer neutrais, pelo egoísmo demonstrado por eles em preservar os seus interesses particulares em detrimento da segurança colectiva da Europa que a ascensão da Alemanha fazia perigar. É verdade que é a elas duas – União Soviética e Estados Unidos – que se deve primordialmente a vitória final no conflito, mas esse reconhecimento não nos pode fazer esquecer que, factualmente, ambas permaneceram neutrais o mais que puderam (dois anos a dois anos e meio) e que só entraram na Segunda Guerra Mundial quando foram arrastadas para o efeito, com a operação Barbarrossa e com o ataque a Pearl Harbour.

A Suécia terá sido, dos cinco países neutrais, o único em que não se personalizou numa única pessoa a condução política do país pelos caminhos tortuosos da neutralidade. A tarefa terá ficado dividida entre o primeiro-ministro social-democrata Per Albin Hansson e o rei Gustavo V. A contribuição e a importância de cada um dependerá da perspectiva de quem observa. É verdade que a Suécia era uma monarquia constitucional e que as responsabilidades recaíam todas no executivo e em que o chefiava mas também é verdade que a aristocracia sueca era, por norma, germanófila, de que um exemplo emblemático fora a primeira esposa de Hermann Göring, Carin. É razoável sintetizar que a pessoa do octogenário Gustav V, que subira ao trono em 1907, aportava à política externa sueca um capital de respeitabilidade que Hansson devia considerar muito bem-vindo.

Há que reconhecer que as opções em aberto para a conduta da Suécia a partir da Primavera de 1940 eram escassas. A Alemanha ocupara os outros dois países escandinavos (Dinamarca e Noruega) e a União Soviética fizera o mesmo com os três países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia). Os contactos marítimos de Estocolmo com o resto do Mundo passavam pelo Øresund (com 4 km de largura no seu ponto mais estreito), com a Wehrmacht posicionada do outro lado. Na península escandinava, ao contrário do que se passava na ibérica, a geografia permitia que a Alemanha pudesse ocupar o país da fachada atlântica (Noruega) sem precisar da conivência do seu vizinho. Claro que o reabastecimento logístico posterior do exército alemão seria muito mais facilitado se a Suécia, deixando-se de uma prática rigorosa da neutralidade, desse mostras de uma certa compreensão, o que veio de facto a acontecer. Toneladas de equipamento e munições e sobretudo muitos milhares de soldados da Wehrmacht em licença atravessaram regularmente o território sueco em comboios que, por serem cuidadosamente monitorizados pelos suecos, não deixavam por isso de ser violações flagrantes da neutralidade sueca. A forma como cada país escandinavo avaliou o comportamento dos seus dois outros parceiros durante a Guerra pôde ser avaliada em 1949, quando da formação da NATO: Dinamarca e Noruega aderiram, deixando a Suécia isolada na sua decisão de querer continuar a manter a neutralidade no Báltico durante a Guerra-Fria.

A ameaça dissuasora de Estocolmo em destruir as infra-estruturas das suas minas de ferro do norte que se revelavam muito convenientes, quase indispensáveis, para o esforço de guerra alemão, não teria produzido grandes efeitos de dissuasão se não houvesse garantias do outro lado que a conduta sueca seria cooperante para com a Alemanha sob o status quo que se acabara de formar na Primavera de 1940. Outra atitude da parte da Suécia teria provocado a guerra e a ocupação. Há uma estranha capa de opacidade em relação à Suécia de 1939-1945 e às formas como evoluíram as simpatias da sua opinião pública. Em 1945, não se sabe bem como, a germanofilia tradicional das suas elites havia desaparecido, o nacional-socialismo e as organizações fomentadas pelos alemães haviam tido apenas uma influência marginal na sociedade e é um trabalho laborioso tentar saber quantos voluntários suecos se apresentaram para combater nas Waffen-SS ou na Wehrmacht.
De todos os neutrais, a Suíça tinha a posição geográfica mais ingrata, a partir de Junho de 1940 ficara rodeada por todo o lado de entidades políticas pertencentes ou dependentes do Eixo. E uma situação administrativa peculiar. A situação internacional conferira um conjunto de poderes centrais extraordinários a um chefe militar, Henri Guisan, anormais num país que tradicionalmente os distribui pelas autoridades dos cantões da Confederação. Em fundo, havia a famosa neutralidade suíça, proclamada originalmente em 1516 e que fora galhardamente preservada até à Primeira Guerra Mundial (1914-18). Era um slogan, nem sempre verdadeiro. Na realidade, desde 1798 até ao fim do período das guerras napoleónicas em 1815, essa neutralidade fora pura e simplesmente esquecida pelos franceses. E podê-lo-ia voltar a ser facilmente, desta vez pelos alemães e por uma maioria de razão: uma ampla maioria (quase ¾) dos suíços era germanófona, o que viria a propósito do programa de quem se propusera reunir todos os alemães no mesmo Reich.

Nem de propósito, Henri Guisan pertencia à minoria francófona da Suíça. Era protestante. E politicamente seria de um conservadorismo musculado que não o distinguiria por aí além de Philippe Pétain. Mas as expectativas sobre Guisan e sobre o comportamento da Suíça eram muito menores do que as que se depositavam, de um lado e outro, sobre a França de Vichy. De uma Suíça economicamente muito aberta para o exterior e muito dependente dele (vale a pena recordar que a Suíça de então era conhecida por ser o maior produtor mundial de relógios – e que precisava de os exportar...), o que mais se lhe podia pedir – do lado dos Aliados – é que ela fosse o mais neutral possível. O critério de avaliação do comportamento dos suíços durante a guerra tem por isso que ser temperado. Aquilo que noutros países é considerado de uma neutralidade elementar, no caso da Suíça tem que ser valorizado doutro modo. As disputas a respeito dos direitos de circulação ferroviária entre a Alemanha e a Itália são um desses exemplos. A capacidade negocial da Suíça estava tolhida pela capacidade recíproca dos seus interlocutores em facilitar-lhe a ela o acesso a portos marítimos para o seu comércio externo com países terceiros.

Sendo o país politicamente neutral, os números do comércio externo da Suíça desses anos desmentem essa neutralidade do ponto de vista económico, fazendo da Suíça quase um satélite do Reich, produzindo para o seu esforço de guerra. Mas isso é compreensível, sendo a contrapartida de não o fazer o desemprego de uma boa parte da população vocacionada para dispersar a sua produção industrial para mercados que agora estavam fora de alcance. Muito menos compreensíveis seriam as transacções financeiras em que a Suíça reforçou o seu papel de plataforma central das menos transparentes. Em tudo isto, a importância de Henri Guisan vem a revelar-se muito mais simbólica que efectiva. Mas o Comandante-Chefe dos exércitos suíços foi precioso para lhes conferir a credibilidade de dissuasão suficiente para que os alemães não pensassem que a invasão da Suíça seria uma espécie de um Anschluss (anexação da Áustria) um pouco mais musculado

Ao contrário dos quatro casos anteriores o maior – senão mesmo o exclusivo – problema da preservação da neutralidade da Irlanda era o Reino Unido. Apresentado de uma forma prosaica, não se punha a questão dos irlandeses simpatizarem particularmente com os alemães – ainda na Grande Guerra precedente quase 50.000 irlandeses haviam perdido a vida combatendo-os – a questão é que os irlandeses detestavam ainda mais os britânicos que haviam sido a potência colonial na Irlanda até 1922. Houvera uma guerra civil e uma partição da ilha e muito ressentimento que os poucos anos transcorridos não apagaram.

A compreensão britânica quanto à atitude irlandesa era profundamente negativa e, se possível, só piorou quando Churchill se tornou primeiro-ministro em Maio de 1940. A Irlanda era um Domínio, fazia parte da Commonwealth e para um velho imperialista como Winston Churchill era um axioma que os problemas da Metrópole eram os problemas do Império. Se o Canadá, a Austrália, a África do Sul ou a Nova Zelândia haviam declarado guerra à Alemanha porque não o fizera a Irlanda? Eamon de Valera, o primeiro-ministro irlandês responder-lhe-ia que a questão não tinha nada a ver com a Irlanda.

E podia fazê-lo sem o receio das retaliações que abundavam no continente. A Irlanda era uma democracia, reivindicando-se dos mesmos valores pelos quais o Reino Unido dizia bater-se e seria um verdadeiro desastre de imagem se os britânicos forçassem de alguma forma violenta os vizinhos a alinharem-se numa posição externa de que o seu governo legítimo se havia distanciado. Por isso, ao contrário de uma Suécia, de uma Suíça e mesmo de um Portugal que teve que reforçar os contingentes militares nos seus arquipélagos atlânticos, a Irlanda pôde atravessar toda a Segunda Guerra Mundial sem precisar de investir num dispositivo militar que desse mais credibilidade à sua neutralidade.

Mas aquilo que não se podia fazer ostensivamente, podia fazer-se por omissão: o Reino Unido, que, como antiga potência, controlava praticamente todo o comércio externo da Irlanda, votou os irlandeses a uma verdadeira autarcia económica, apenas privilegiando aquilo que a Irlanda produzia e que conviria ao seu esforço de guerra. Para um país geograficamente afastado da guerra as carências de alguns artigos importados por que os irlandeses passaram durante esses anos assemelhavam-se às sofridas pelos habitantes dos países ocupados.

22 novembro 2014

COMO SE ESQUECEM RECATADAMENTE AS EXPRESSÕES DE ANTI-SEMITISMO NOS PAÍSES VERDADEIRAMENTE CIVILIZADOS

Fotografia feita na Suécia pouco antes ou durante a Segunda Guerra Mundial. No cartaz afixado à porta desta livraria pode-se ler: Proibida a entrada a judeus e meios-judeus. Mesmo nesses anos difíceis a Suécia permaneceu uma verdadeira democracia (abaixo, as eleições de 1936), o proprietário exerceria a sua prerrogativa de reservar o direito de admissão no seu estabelecimento comercial (como então era corrente), mas não deixa de ser significativo como a sanção social da evoluída sociedade sueca não chegaria para o inibir de exibir assim tão ostensivamente as suas convicções – sabe-se lá se com prejuízo ou benefício da sua actividade comercial.
Embora a população judia na Suécia fosse diminuta (mesmo contando com o influxo adicional dos refugiados fugidos da Alemanha depois de 1933, o objecto do protesto do cartaz abaixo, a comunidade judaica na Suécia representaria no máximo umas 10.000 pessoas, o equivalente a cerca de 1 para 650 habitantes), o anti-semitismo mostrar-se-ia um sentimento suficientemente forte para despertar avisos como o inicial ou cartazes como o abaixo. Episódios posteriores como o resgate da comunidade judaica dinamarquesa (cerca de 8.000 pessoas) a partir do Outono de 1943 serviram para anular um comportamento que registou períodos muito mais equívocos do que aquilo que a historiografia oficial sueca gostaria de deixar transparecer.

05 junho 2014

AS NEUTRALIDADES POSSÍVEIS DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Basta olharmos para a localização dos cinco países que conseguiram permanecer neutrais durante a Segunda Guerra Mundial para nos apercebermos que as circunstâncias que rodearam a sua neutralidade foram obrigatoriamente distintas. Localizadas bem no centro da Europa de que a Alemanha assumira a hegemonia, Suécia e Suíça tiveram necessariamente que contemporizar muito mais com as exigências do III Reich do que os três restantes. Por sua vez, situadas na orla Atlântica, a Irlanda e Portugal (este muito por efeito do seu império ultramarino) tiveram a sua liberdade de acção muito mais condicionada pelos Aliados anglo-saxónicos que exerciam a sua hegemonia sobre os mares. As capacidades de coacção dependiam da geografia. Dos cinco países, pela localização e pela dimensão, apenas a Espanha, e apesar das simpatias ideológicas, possuiu a autonomia estratégica para assumir qualquer das condutas (o engajamento com o Eixo ou a neutralidade), prestando-se a ser persuadida pelos dois lados – e, mesmo assim, por vezes foi persuadida mas com argumentos contundentes, como demonstrei neste poste. Porém, terminada a Guerra, tornou-se inconveniente a todos os países neutros evidenciarem as facilidades que haviam sido prestadas aos vencidos. E essas facilidades, por força das circunstâncias acima descritas e mau grado aquilo que depois seja a reescrita da História, foram significativamente superiores entre suecos e suíços do que entre irlandeses e portugueses.
Daí um esforço propagandístico retrospectivo dos primeiros realçando as suas capacidades de auto-defesa (depois dessas capacidades não terem sido submetidas à prova...), que acompanharam alguns oportunos destaques de gestos pró-Aliados mas também algumas omissões quando os gestos beneficiaram os seus inimigos. Nestas fotografias acima, num desfile militar suíço vêem-se viaturas particulares a rebocar peças de artilharia, numa insinuação à mobilização dos recursos civis, e um soldado sueco armado controla soldados alemães em trânsito, esticando as pernas numa estação ferroviária do seu país. No último caso e apesar do que a fotografia possa sugerir, a Suécia permitiu entre 1940 e 1943 o trânsito pelo seu país de muitas centenas de milhares de soldados alemães e de dezenas de milhares de vagões carregados de abastecimentos e material de guerra, destinados às unidades militares alemãs que guarneciam o Norte da Noruega e que, aliados com os finlandeses, combatiam contra os soviéticos no extremo norte da União Soviética, tentando apoderar-se do porto de Murmansk (abaixo). À sua maneira tratava-se de facilidades semelhantes e simétricas às que Portugal concedia naqueles mesmos anos aos Aliados nos Açores, violações descaradas das leis estritas da neutralidade. Percebe-se que seja um tema que não envaideça os suecos e a que eles não deem grande destaque. Parece haver um pacto de silêncio compreensível estabelecido por suíços e suecos a respeito de muitos desses episódios mais conformados da Segunda Guerra Mundial.
O que me parece menos compreensível é como, em contraste, parece existir em Portugal um pacto ideológico de pessoas dedicadas a estudar este mesmo período da História e que se mostram sobretudo preocupadas em escarafunchar todos os indícios de colaboração do governo português com os países do Eixo, de preferência envolvendo (e culpando) António Salazar. É ridículo porque, quando se estuda o assunto dos países neutrais durante a Segunda Guerra para além daquilo que aconteceu nesta nossa paróquia portuguesa, constata-se naturalmente que a contribuição sueca (dirigida pelo impoluto 1º ministro social-democrata Per Albin Hansson) para o esforço de guerra nazi, foi muito superior à portuguesa, apesar de todo o fascismo e proximidade ideológica do seu homólogo António de Oliveira Salazar…

16 novembro 2013

PORTUGAL - SUÉCIA

Na única vez que fui ao IKEA bateu o meio-dia e uma voz no altifalante da loja anunciou que acabara de abrir a cafetaria onde os clientes podiam provar alguns pratos da saborosa gastronomia sueca. Só nesse momento me apercebi que entrara na no-man´s land de uma batalha feroz contra a minha carteira e que a propaganda de guerra, como a de qualquer outra guerra, não tinha escrúpulos.

25 janeiro 2011

O QUE RIDICULARIZA UMA DEMOCRACIA

Em 28 de Fevereiro de 1986, quando regressava a casa vindo do cinema acompanhado de sua mulher, o Primeiro-Ministro sueco Olof Palme foi alvo de um atentado em plena rua por alguém que o alvejou a tiro. Palme só chegou ao hospital 45 minutos depois, onde já entrou cadáver. As investigações policiais que se sucederam, apesar das 300 pessoas envolvidas e dos dois anos de duração, também acabaram mal, sem que fosse encontrado qualquer suspeito viável. A questão do autor do assassinato do seu Primeiro-Ministro continua ainda hoje por resolver e permanece um embaraço da História da Suécia. Mas, 25 anos depois, o episódio tornou-se necessariamente algo acessório para a vida quotidiana da Suécia.
Este episódio passou-se numa daquelas democracias que costumamos apontar como de referência, e é nela que penso quando leio todos aqueles que parecem incomodar-se com o pretenso ridículo do interessante resultado eleitoral (4,5%) do candidato José Manuel Coelho¹ nas eleições presidenciais de anteontem. Esquecer-se-ão os incomodados que, também nessas democracias de referência e quando o eleitorado considera que as eleições não têm importância, também aparecem dessas candidaturas marginais a recolher resultados interessantes como foi o caso do Partido Pirata que recebeu 7,1% da votação (e elegeu um eurodeputado) nas últimas eleições europeias de Junho de 2009.
O que decididamente ridiculariza a democracia portuguesa quando em comparação com aquelas democracias de referência, comparando abordagens distintas ao assunto inicial do assassinato por resolver de um Primeiro-Ministro em exercício, é assistir-se a protagonistas e partidos nucleares do regime, como é o caso de Paulo Portas e do CDS, a proporem, 30 anos passados sobre os acontecimentos, a constituição de mais uma (a nona!!!) Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o acidente de Camarate… Esta, como outras atitudes de outros protagonistas centrais que se pretendem passar por sérios, é que se tornam ridículas. Não quem as denuncia, como o fez nesta campanha José Manuel Coelho.
¹ Nas suas declarações da noite eleitoral, não ouvi José Manuel Coelho agradecer-lhe mas Judite Sousa merecia-lhe um agradecimento especial pela forma como o (des)tratou na entrevista concedida à RTP. O povo sempre adorou enredos com vítimas (ele) e megeras (ela)…

31 outubro 2010

O CASO DO «WHISKEY ON THE ROCKS»

Ainda a propósito de um acontecimento de há uns dias atrás a que aqui me referi no fim-de- semana passado e que foi noticiado nalguns sítios com toda a incompetência imaginativa de descrever um submarino inglês a dedicar-se a uma abordagem – ainda que involuntária – de terras escocesas, lembrei-me de um outro incidente semelhante, mas muito mais sério, quando há 29 anos e também por esta época, um submarino soviético apareceu subitamente encalhado nas costas suecas, a cerca de dois quilómetros apenas da mais importante base naval daquele país
Sendo a Suécia totalmente banhada pelo Mar Báltico, convém relembrar como era a situação estratégica naquela região marítima em 1981, em plena Guerra-Fria. Dos oito países ribeirinhos, havia três que pertenciam à NATO (Noruega, Alemanha Ocidental e Dinamarca), outros três pertenciam ao Pacto de Varsóvia (Alemanha de Leste, Polónia e União Soviética) e mais dois assumiam-se como neutrais (Finlândia e Suécia). Ora um submarino de uma das facções a ser apanhado em flagrante a espiar um dos neutros não projectaria decerto uma imagem simpática dessa facção
Mas, por outro lado, o episódio também não enaltecia a eficácia militar dos suecos, porque o submarino estivera encalhado durante 18 horas a tentar sair da situação pelos próprios meios antes de alguns pescadores civis – apesar da proximidade da base… – terem dado por ele. Mas o aspecto ridículo e cómico da situação desapareceu subitamente quando uma frota de navios da Marinha Soviética acompanhando rebocadores se apresentou ao largo das águas territoriais da Suécia, mostrando a intenção de resgatar, eventualmente pela força, a unidade acidentada e a sua tripulação.
A intenção demonstrada pelos suecos de ripostar proporcionadamente a essa demonstração de força fez os soviéticos recuar perante um conflito militar que a sua diplomacia sabia que se tornaria num desastre de relações públicas à escala Mundial. Seguiu-se depois uma fase de intensas negociações entre as partes. Eliminadas as possibilidades de conseguir resgatar o submarino de surpresa ou à força, as vantagens estariam agora todas do lado sueco: era a parte ofendida e o passar do tempo corria a seu favor. Um dispositivo de segurança foi montado à volta do local do incidente…
Pertencendo o submarino a uma classe que na NATO fora baptizada com o código de Whiskey (baseada na letra W do seu alfabeto fonético), o episódio acabou por ganhar na rede noticiosa mundial a alcunha de Whiskey on the Rocks por trocadilho com a popular bebida de whisky simples com gelo. Depois da situação se arrastar por dez dias, a Suécia acabou por autorizar que o submarino fosse desencalhado do local onde ficara para depois ser rebocado para alto mar sob sua supervisão. A data era 7 de Novembro de 1981 e os soviéticos festejavam o 64º aniversário da sua Revolução...

21 setembro 2010

OS «DEMOCRATAS» SUECOS

Este senhor que discursa do lado esquerdo da fotografia abaixo chama-se Jimmie Åkesson e é o líder dos Democratas Suecos, uma formação política da extrema-direita sueca que se tornou notícia por ter conquistado 20 lugares nas eleições para o Parlamento (de 349 lugares) daquele país que tiveram lugar no Domingo passado. E os polícias que se vêm na imagem, ao contrário do que a reputação de organizações daquele género possa fazer pensar, estão ali para o proteger, que a campanha do seu partido foi repleta de incidentes.
Porém, longe irão já os tempos das organizações daquela mesma área ideológica, reconhecíveis pelas diversas cores das suas camisas (negras em Itália, castanhas na Alemanha, azuis em Espanha, etc.) e que se notabilizaram por desfazer os comícios eleitorais dos inimigos políticos. Estes Democratas Suecos (que provavelmente nada terão de democrático…) são de uma outra geração e têm outro modo de operar: em vez de darem porrada, levam porrada, e assim adquirem a simpatia de se tornarem as vítimas…

Houve boicotes à sua propaganda (este vídeo) e depois, há que lembrar o efeito noticioso assimétrico deste género de acontecimentos: no caso de serem militantes de extrema-direita a darem porrada em rivais políticos – especialmente se for na Alemanha!... – então é notícia para dar Destaque Mundial; enquanto se forem outros democratas a dar porrada nos militantes de extrema-direita e a perturbar-lhes os comícios – como aconteceu na Suécia… – então a notícia perde interesse e é apenas de carácter local

Valerá a pena relembrar que este tipo de organizações só começam a adquirir expressão eleitoral quando em circunstâncias específicas de crise? E que a ampla divulgação noticiosa que for dada às reacções «democráticas» do outro extremo do espectro político podem ser até contraproducentes?

08 setembro 2009

O JEDIÍSMO E OUTROS FENÓMENOS DO NOSSO TEMPO

Já não me lembro onde terei lido a história de um par de rapazes que seguia no seu carro quando, ao atravessar os cabos esticados na estrada de um contador de tráfego (acima), resolveram parar a meio e, saindo do carro, resolveram levantá-lo e empurrá-lo com as rodas traseiras no ar, para que estas passassem por cima do cabo sem lhe tocar. Quando alguém que passava lhes perguntou porque é que estavam a fazer aquilo, um dos rapazes sorriu e explicou: - É apenas para lhes estragar as estatísticas todas. Como eles contam os carros pelos pares de rodados, já os imaginou agora a ter que preencher todas as estatísticas deles com um “meio carro”?...
Se os recenseamentos, as contagens e as estatísticas sempre foram uma demonstração de exercício da autoridade do Estado e eles costumem estar registados – não nos esqueçamos que ainda hoje sabemos que Roma tinha organizado um na Judeia precisamente na altura do nascimento de Cristo – as reacções evasivas por parte da populações submetidas a eles, embora não estejam registadas da mesma forma, deverão ser um fenómeno igualmente tão antigo. É um ciclo de perguntas e respostas que se tem vindo a tornar historicamente mais pesado, à medida que o aparelho estatal cresceu, arrastando consigo a burocracia, a quantidade de perguntas e a aldrabice das respostas…
Alguns desses fenómenos costumam passar ao lado do circo noticioso. Outros não passam, especialmente quando essas manifestações de saturação podem ser imputadas em exclusivo ao braço político do aparelho de estado. Um caso típico deste último caso terá sido o das eleições europeias realizadas ainda em Junho deste ano na Suécia, onde o Partido Pirata local (acima), um partido político monotemático que se opõe tanto aos direitos das patentes como aos direitos de autor, recolheu 226.000 votos (7,1%) e ganhou uma representação no Parlamento Europeu. Neste caso, creio que ainda se pode argumentar que se tratará de uma espécie de paródia, causada pela incompetência dos políticos.
Mas, e nos outros casos em que não parece existir qualquer explicação política? Quase não se noticiou, e poucos se aperceberam que houve um movimento nos vários países anglo-saxónicos para que nos censos realizados em 2001, na pergunta respeitante à confissão religiosa, as pessoas se confessassem como jedíistas, ou seja, adeptos da religião ficcional da saga da Guerra das Estrelas… Os resultados foram que 404.000 britânicos, 70.000 australianos, 53.000 neozelandeses e 20.000 canadianos se confessaram oficialmente adeptos dessa religião, que, por causa disso, se tornou na maior religião minoritária da Nova Zelândia e na terceira maior religião minoritária da própria Grã-Bretanha…
Dessa vez, sem que houvesse alvos políticos a abater, a notícia da religião em fulgurante ascensão não terá ultrapassado as páginas interiores das curiosidades, embora, como fosse de esperar, os burocratas dos serviços de recenseamento não tivessem levado a coisa com tão bom humor. Embora haja maduros para tudo, é evidente que os censos posteriores vieram mostrar que a maioria dos crentes nunca existira: na Nova Zelândia, por exemplo, num censo que foi realizado cinco anos depois, mais de 60% da comunidade jedíista havia desaparecido... Enfim, resta-me desejar-vos, empregando a que penso ser a língua litúrgica do jedíismo: May the Force be with You! (Que a Força fique convosco!)