A 6 de Abril de 1974 realizava-se o Festival Eurovisão da Canção que viria a ser ganho pela canção concorrente sueca «Waterloo» interpretada pelos ABBA. Como se percebe acima pelas imagens do acontecimento, o registo da participação sueca era ligeiro, com o maestro a comparecer mascarado de Napoleão, atitude que recebeu algumas críticas, considerando esses críticos que o teor da canção remetia para uma batalha que traçara os destinos da Europa em 1815. Enfim, já há cinquenta anos havia quem tivesse opiniões estúpidas. Um outro aspecto colateral raramente mencionado é que, cinco anos antes, a Suécia decidira desistir de concorrer àquele mesmo Festival. Foi uma birra que lhes passou depressa. Tal como Portugal, estiveram ausentes da edição de 1970, mas regressaram em 1971. E, por falar em Portugal e da participação portuguesa neste mesmo certame, o nosso país foi representado por Paulo de Carvalho a cantar «E depois do Adeus». Uma canção ainda hoje muito acarinhada por ter sido, conjuntamente com «Grândola Vila Morena», uma das canções-senha para as movimentações militares que deram origem ao 25 de Abril de 1974. Mas a 6 de Abril daquele ano ela ainda era apenas a nossa concorrente ao Eurofestival, de onde saiu classificada num tristonho último lugar (compartilhado com a Alemanha, a Noruega e a Suíça), tendo recebido uns míseros 3 pontos.
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06 abril 2024
21 março 2024
A PRIMEIRA PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA NO FESTIVAL DA CANÇÃO DA EUROVISÃO
21 de Março de 1964. De imagens originais do festival propriamente dito pouco resta, porque, naquela época, as bobines com as gravações eram consideradas demasiado preciosas para se desperdiçarem preservando momentos supérfluos como festivais da canção. O que está disponível é a reinterpretação da canção vencedora, a canção concorrente italiana ("Non ho l'età"), cantada por uma intérprete (Gigliola Cinquetti) que contava então apenas 16 anos. Mais interessante que isso é recordar aqui o interesse que o acontecimento despertava cá em Portugal, como se pode perceber pela extensa cobertura noticiosa que a edição do jornal desse dia lhe dava.
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21 fevereiro 2024
....COMO A «SABEDORIA» DO DIABO
(Republicação a pretexto dos cinco anos da canção Telemóveis de Conan Osiris no Festival e da crónica entusiasmada de Miguel Esteves Cardoso num dos dias seguintes)
Não é apenas o Diabo que se torna sábio apenas por ser velho. Também nós, desde que preservemos a memória, nos conseguimos surpreender a nós próprios com a displicência como descartamos aquilo que nos é dado a ler, apenas pelo facto do que lemos ser uma reedição do que já lêramos. No caso acima, tratou-se de uma crónica encomiástica sobre Conan Osiris (o vencedor do festival da canção de 2019) produzida pela imaginação fecunda de Miguel Esteves Cardoso. O mesmo que, ocorreu-me e vai para uns 40 anos, produzira um texto com o mesmo entusiasmo vigoroso a respeito de Relax dos Frankie Goes to Hollywood... Quem?... Precisamente. Podem ouvir abaixo essa tal canção que outrora arrebatou Miguel Esteves Cardoso no formato que podemos adivinhar pela prosa mais abaixo, e fiquemo-nos pela constatação que, possuindo ele tantas outras virtudes, nomeadamente como prosador e humorista, estes 40 anos entretanto transcorridos não lhe terão causada uma sensível evolução no gosto musical.
Os textos de MEC continuam a poder ser tão exuberantes na forma quanto vazios de substância, quanto as apreciações daqueles enólogos que nos querem persuadir que conseguem encontrar sabores subtis de chocolate e baunilha e sabores afins de casa de gelados em provas de vinhos. Para contraste, o povão, corporizado neste caso nos velhotes de um centro de terceira idade perdido no verdadeiro Portugal profundo, sem aquele dom da palavra escrita de Miguel Esteves Cardoso, limitaram-se a manifestar a sua opinião do jeito que sabe, parodiando Conan Osiris. (A propósito, será que o leitor ainda se lembrará da canção original que suscitou todos estes textos?...)
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26 fevereiro 2023
A VITÓRIA DA «TOURADA»
26 de Fevereiro de 1973. Tem lugar no Teatro Maria Matos o já então tradicional Festival RTP da Canção que nesse ano se notabilizou pela vitória de uma canção - Tourada, cantada por Fernando Tordo - que se notabilizou na época (e desde então) pela sua letra inusitadamente atrevida. Tratava-se de uma letra de um atrevimento revisteiro, mais do que propriamente irónica, já que todos os que a escutavam percebiam as alusões feitas e, mesmo quando quem ouvia perdia a intenção original do autor (Ary dos Santos), reconstituía o sentido da alusão com outra pessoa. Exemplo: no último verso da canção - ...e diz o inteligente que acabaram as canções... - a convicção geral era que aquela referência era ao presidente do Conselho Marcello Caetano, quando afinal o visado era o antigo ministro da Educação, José Hermano Saraiva, e a forma particularmente assertiva como ele acabara uma comunicação televisiva ao país a propósito de uma crise académica de Coimbra na Primavera de 1969: «A ordem vai ser restabelecida na Universidade de Coimbra!»
De qualquer maneira, fosse o correcto ou o adaptado o sentido dado à letra, esta era de uma insolência que só costumava ser tolerada pelo aparelho de censura do regime em locais específicos (como os palcos do Parque Mayer) Neste caso, e devido à popularidade do festival e à sua transmissão televisiva, tivera uma audiência de milhões. Dentro do regime, dividiam-se opiniões, entre as personalidade mais irascíveis e o lóbi da tauromaquia, e quem pensasse que interferir no processo depois do que acontecera seria contraproducente: pior a emenda que o soneto, a propósito do que não passava de um festival de canções. Foram os últimos que prevaleceram e tinham razão: há que reconhecer que o atrevimento da letra não tinha qualquer ressonância fora de Portugal e que não incomodaram o regime, por muito que algumas histórias actuais queiram atribuir repercussões ao episódio que nunca existiram. Comprovando-o, apreciem as imagens do vídeo que serviu de apresentação da Tourada nos restantes países europeus: é um bilhete postal promovendo turisticamente o país, como acontecera nas edições precedentes.
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01 outubro 2022
O VII FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO (BRASIL)
1 de Outubro de 1972. Esta é a actuação de Demis Roussos representando o seu país (Grécia) na final do VII Festival Internacional da Canção que teve lugar no Rio de Janeiro. A canção chama-se «Velvet Mornings», é cantada em inglês, e viria a registar um sucesso de vendas internacional. Constata-se que o público brasileiro adere com facilidade a um refrão que fica no ouvido - «Triki Triki». O ambiente faz até lembrar, pela alegre anarquia barulhenta, a cena da votação da destituição do presidente Collor no parlamento de Brasília dali por 20 anos, que aqui recordei anteontem. À sua maneira, a destituição de um presidente brasileiro é um festival! Mas a canção não ganhou, ficou em 3º lugar....
A vitória foi para a canção norte-americana intitulada «Nobody Calls Me Prophet», interpretada por um cantor canadiano chamado David Clayton-Thomas. Infelizmente não encontrei o vídeo da actuação para perceber as razões para que o júri a tivesse preferido entre as concorrentes. A canção não aparece sequer referida na página da wikipedia do cantor. E ouvindo a canção, creio que o leitor compreenderá as razões do meu cepticismo quanto à objectividade dos critérios de selecção dos jurados daquele certame.
Tanto mais constatando que, aqui num assomo de parcialidade patriótica, numa fase anterior a canção portuguesa já havia sido afastada com injustiça. Tratava-se de «Maria Vida Fria», cantada por Paulo de Carvalho. Como prémio de consolação, o desprestígio que caiu sobre o certame terá sido tal, que o VII foi o último festival internacional da canção. Com tanta manipulação, e tão descarada, já não terá havido condições para haver um VIII em 1973.
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24 abril 2022
A ALEMANHA PODE NÃO TER JEITO, MAS TEM MÉTODO
24 de Abril de 1982. Depois de mais de 25 anos, a Alemanha lá acabou por ganhar o seu primeiro Eurofestival. Podia não ter sido uma prioridade nacional, cativar o continente europeu em formato musical (para isso já havia Beethoven), mas, depois de várias vitórias francesas, inglesas e até italianas começava a parecer mal em termos de imagem europeia que a Alemanha não ganhasse pelo menos uma vez o certame. O rosto da canção vencedora foi o de uma adolescente de 17 anos, chamada Nicole, o título da mesma é todo açúcar, «Ein bißchen Frieden» (Um pouco de Paz) mas a verdade encapotada é que já era o terceiro ano consecutivo que a Alemanha apostava forte na competição, tendo conseguido anteriormente dois segundos lugares em 1980 e 1981.
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03 abril 2021
AS «HOT PANTS» LUXEMBURGUESAS
3 de Abril de 1971. Repare-se como a edição do dia realçava em página inteira a expectativa para a realização do Eurofestival daquele ano, que se iria desenrolar em Dublin. A novidade da transmissão do festival para países africanos (e a notícia detalhava-os: Tunísia, Marrocos, Mauritânia, Quénia, Uganda, Serra Leoa e Etiópia) acrescentava uma nota pueril à notícia. O contraste era composto pela caixa onde se falava da ameaça «de rapto da cançonetista inglesa», consequência das más relações anglo-irlandesas por causa dos problemas do Ulster. Mas, como melhor evocação do que aconteceu nessa noite, deixem-me recuperar algo que escrevera sobre este certame.
Começando por recordar que na temporada Outono-Inverno de 1970/71 assistiu-se à moda fugaz das hot-pants, uns calçõezinhos minúsculos que serviam para mostrar as pernas até bem cá acima, uma moda que bem depressa ficou esquecida. Depois disso, as hot pants viram-se passadas à condição de fato de trabalho de algumas prostitutas... Mas, por ocasião do Eurofestival de 1971 ainda as hot pants eram moda e respeitáveis e a concorrente luxemburguesa apresentou-se a concurso com uma canção engraçada intitulada Pomme, pomme, pomme (Maçã, maçã, maçã), envergando umas hot pants – conforme o vídeo de apresentação – muito tentadoras…

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04 março 2021
NO TEMPO EM QUE ATÉ SE ACOMPANHAVAM OS FESTIVAIS DA VIZINHANÇA...
Já aqui fiz notar que há cinquenta anos os festivais (de canções) se levavam muito mais a sério do que na actualidade. O interesse concentrava-se primeiro - Fevereiro ou Março - no festival doméstico, para depois se transferir - Abril ou Maio - para o festival europeu. No entretanto, sobrava algum tempo para investigar o que acontecia nos festivais dos países vizinhos, futuros concorrentes na Eurovisão, de que exemplo incontornável era a Espanha, e que aqui se pode apreciar nesta notícia de 4 de Março de 1971. Se a letra é «em estilo de xarope», a música e a cenografia escolhida para a apresentação da canção podem ser apreciadas no vídeo abaixo...
E, para os mais curiosos, esclareça-se que a canção virá a ficar classificada em 2º lugar no Eurofestival que se disputaria dali por um mês em Dublin, na Irlanda...
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11 fevereiro 2021
O GUARDA ROUPA DOS INTÉRPRETES E AS PALAVRAS DOS DEPUTADOS
11 de Fevereiro de 1971 era uma Quinta-Feira como hoje. E nessa noite, depois do jantar, disputava-se no cinema Tivoli (e em todos os televisores!) o importantíssimo Festival da Canção. Lembro-me que o Diário Popular desse dia continha uma separata onde podíamos ir apontando a votação recebida dos júris distritais por cada canção concorrente. Que eu usei. Mas é do seu concorrente Diário de Lisboa que recupero esta página (simbólica) onde se pode comparar o espaço que era dedicado ao guarda roupa que os intérpretes do festival iriam envergar nessa noite (a vermelho), com aquilo que fora dito nessa tarde pelos deputados na Assembleia Nacional em São Bento (a azul). Quando as coisas são para ser importantes, são mesmo importantes.
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26 janeiro 2021
QUANDO OS FESTIVAIS ERAM «A SÉRIO»...
26 de Janeiro de 1971. Em duas página contíguas de um diário da capital podem apreciar-se inserções publicitárias - uma delas de meia página - a apoiar duas canções concorrentes ao Festival da Canção que só se disputaria a 11 de Fevereiro. Mas, como se constata, a promoção das canções concorrentes (que, ironicamente, não podiam ser reveladas antes do certame...) já começara a sério. Os anúncios referem-se a Daphne, que iria ser a intérprete da canção «Verde Pino» e a Paulo de Carvalho com «Flor sem Tempo». E, como aqui já recordei faz bastante tempo, o mérito das canções era o que menos parecia estar em causa naquilo tudo.
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03 novembro 2020
«AO VENTO E ÀS ANDORINHAS»
Ao festival da canção do longínquo ano de 1968 concorreu o intérprete João Maria Tudela com uma canção intitulada «Ao Vento e às Andorinhas». Cinquenta e dois anos depois a canção torna-se penosa de ouvir mas o lirismo do título permanece cheio de relevância, nomeadamente quando os comentadores de actualidade, que não se podem furtar aos assuntos que se impõem, tentam-no, ainda assim, quando o tema não lhes é propício. «Ao Vento e às Andorinhas» é uma excelente analogia com aquilo que os vejo a tentar fazer, quando fingem que abordam o que é imperativo que abordem, mas não lhes apetece nada. Veja-se o contraste abaixo, com o qual me deparei hoje, entre dois concorrentes directos - João Miguel Tavares e José Manuel Fernandes - no mercado diário da formação da opinião através da escrita, complementada pela opinião dita no Podcast, vocacionada, esta última, para aqueles mais preguiçosos e menos propensos à leitura.
Para a crónica deste dia, hoje há eleições presidenciais nos Estados Unidos e, obviamente, não há como não falar nisso. João Miguel Tavares escreve (e fala) sobre as eleições e sobre aquilo que ele antecipa que será o seu desfecho. O expectável. Mas José Manuel Fernandes, e porque as suas simpatias vão para o previsível vencido Donald Trump, e é cada vez mais penoso defender a sua conduta, prefere dissertar sobre o equilíbrio de poderes na América, o vento e as andorinhas... Suponho que assim inserida se percebe melhor a pertinência da expressão da velha canção de João Maria Tudela. Como ele cantava no vídeo mais acima: «...andorinhas, onde estais? Não vos vejo nos beirais...»
22 maio 2020
UM FESTIVAL RTP DA CANÇÃO FORA DA DATA DO COSTUME
22 de Maio de 1970. Por razões que já expliquei num poste publicado já há muitos anos (pode lê-lo aqui), o tradicional festival RTP da canção teve lugar em finais de Maio. Venceu a canção nº 6 - Onde vais rio que eu canto, mas desta vez limito-me a assinalar o cinquentenário do concurso e a publicar os vídeos de todas as canções concorrentes, sem a adição da crónica subsequente - e frequentemente maledicente - de Mário Castrim no Diário de Lisboa.
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02 janeiro 2020
O FESTIVAL CDS DA CANÇÃO 2020
Ao constatar que concorrem nada menos do que doze moções de estratégia ao próximo congresso do CDS e que nessas doze canções (perdão, moções...) concorrentes aparecem algumas com títulos tão sugestivos quanto «Bases para Crescer», «Portugal Sempre», «Direita Autêntica» ou «As Pessoas Primeiro», dir-se-ia que estávamos numa versão antecipada do próximo Festival RTP da Canção, versão direita política. Eu bem sei que não será intenção de cada um dos doze proponentes, individualmente, expor o partido onde militam ao ridículo, mas o efeito combinado e agregado de tanta ambição em definir a estratégia futura do CDS acaba por resultar nisso mesmo. Doze moções de estratégia, quase tantas moções sectoriais, cinco candidatos à liderança, para um partido que tem outros tantos deputados num parlamento de 230. As intenções serão boas, mas, e disso os proponentes não têm desculpa, os títulos que foram escolhidos para a dúzia de moções concorrentes primam pelo truísmo desinspirado. Faça-se o exercício cruel de contradizer tais títulos para nos certificarmos se, de facto, representam opções políticas de fundo para o futuro do CDS ou se, pelo contrário, se trata de afirmações consensuais que não adicionam valor ao debate de ideias que sempre se deseja nestas ocasiões: alguém ali defenderá as «Bases para diminuir?», o «Portugal Nunca?», a «Direita Falsa?», deixar «As Pessoas para o Fim?». Se os compararmos, a estes títulos anódinos, com os escolhidos para as canções do Festival RTP do ano passado (veja-se acima), «Perfeito», «Inércia», «É o que é», «O Meu Sonho» e até mesmo os «Telemóveis» de Conan Osíris (que, como se sabe, veio a vencer o certame), admita-se que estes últimos tinham a virtualidade de parecerem muito mais apelativos. E a verdade crua é que, para efeitos práticos futuros, tanta importância se dispensa a uma moção de estratégia de um congresso partidário quanto à letra de uma canção de festival... (Alguém se lembra hoje que a moção que Assunção Cristas assinava em 2018 se intitulava «Um passo à frente»? - O problema, percebe-se agora, é que o CDS estaria mesmo à beira do abismo...) Não estou com tudo isto a sugerir que, por inspiração festivaleira, os apoiantes do favorito Chicão tropecem e caiam com fragor no palco cada vez que forem discursar*, mas a verdade é que o CDS actual parece padecer de uma desproporção ridícula entre quem acha que tem coisas para opinar e quem se dispõe a protagonizá-las, às coisas. E o resultado acaba por ser este.
* Imitando a interpretação do adjunto do Conan Osíris, que se esbardalhava todo.
03 abril 2019
SUCESSOS E PROMESSAS DO PANORAMA MUSICAL HÁ CINQUENTA ANOS
Há cinquenta anos, a sensação «pop» da semana era o cantor Marvin Gaye cantando uma nova versão rearranjada the «I Heard It Trough The Grapevine» (abaixo). A versão de Gaye permanece, até hoje, a de referência daquela canção. Repare-se na supremacia gozada pela música anglo-saxónica: os top ten que são mencionados são os de Londres e Nova York.
Quiçá o facto de se estar na semana que antecedia a Páscoa e o noticiário apresentar-se, por isso parco em outras notícias, algum espaço suplementar era conferido à música.
Numa outra página da mesma edição do jornal, e também em local de destaque, constava a promessa solene dos responsáveis da televisão sueca de deixar de participar no festival da canção da Eurovisão. A notícia ia mesmo ao ponto de atribuir a um desses responsáveis a qualificação do festival de um «programa medíocre». Essa promessa (não o sabiam os leitores de então) seria clamorosamente desmentida pelo futuro. A Suécia, ausente da competição em 1970, regressaria em 1971 e, dali por quase precisamente cinco anos (6 de Abril de 1974) venceria pela primeira vez o certame com a canção Waterloo dos ABBA (abaixo). Depois disso, venceria a competição por mais cinco vezes, um dos países mais bem sucedidos no tal de «programa medíocre».
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13 maio 2018
HONESTIDADE
Eu teria assistido ontem ao Festival da Eurovisão sem qualquer reclamação se a sua promoção tivesse sido tão honesta como a deste artista de rua: péssimas canções, não tem que pagar nada por as ouvir.
06 maio 2018
A MINHA FAVORITA
À medida que se aproxima a data da realização do Festival da Eurovisão e se multiplicam as listas com as canções favoritas (como esta acima), devo confessar que mesmo depois do exercício de as ouvir, às favoritas, ainda não me fez eleger nenhuma canção favorita. Contudo, já tenho uma fotografia alusiva favorita...
07 abril 2018
O QUE É NOTÍCIA E O QUE É IMPORTANTE
7 de Abril de 1968. A página 7 do Diário de Lisboa de há cinquenta anos poderá servir de exemplo académico daquilo que distingue os temas com importância jornalística dos outros temas, os que têm verdadeira importância: quase toda a página é dedicada - nos termos tradicional e sobranceiramente críticos - à cobertura do festival da eurovisão que tivera lugar na noite anterior, em Londres. O que sobrava da página, e exceptuando a publicidade (propositadamente omitida na reprodução acima), era preenchido com o optimismo de U Than (U Thant era então o secretário-geral da ONU) a respeito de negociações para o Vietname e um milionário que sucedia a Pearson, numa renhida eleição interna para a liderança do Partido Liberal que tivera lugar, também na noite anterior, em Otava, no Canadá. O "milionário" chamava-se Pierre Elliot Trudeau (1919-2000), tornava-se por inerência o próximo 1º ministro do Canadá, cargo que irá ocupar - com uma breve interrupção de um ano - pelos próximos dezasseis anos, até 1984. É, plausivelmente, o mais importante político canadiano do século XX mas "adivinhar faz falta" e, sobretudo, o que é que um político canadiano, ainda que prometedor, poderia disputar no interesse dos leitores, quando em concorrência com o «la, la, la...» da Massiel? (quem?)
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26 março 2018
OS PROBLEMAS POLÍTICOS DE INTERPRETAR CANÇÕES NUM «DIALECTO»...
26 de Março de 1968. Nem de propósito, se atendermos aos últimos desenvolvimentos noticiosos, que nos mostram por essa Europa fora os dirigentes nacionalistas catalães a serem detidos (Espanha, Alemanha, Reino Unido), vale a pena recuperar este mini escândalo de há cinquenta anos, quando o intérprete (e autor) da canção que iria representar a Espanha no próximo Eurofestival é substituído á última hora por uma outra intérprete, essa castelhana, depois de ter mostrado a intenção de interpretá-la em catalão. Para lá da capa acima, a história está depois explicada na página 8 da edição do Diário de Lisboa desse dia (abaixo). Registe-se porém que o idioma catalão é ali qualificado repetidamente como dialecto - eram as «malhas» que o franquismo (e a ignorância doméstica) teciam. E recorde-se que a nova intérprete, mesmo com uma canção emprestada à última da hora, virá a ganhar o certame dali por 11 dias. Mas de quase tudo isso já eu aqui havia falado. Dessa vez a Europa não parece ter ligado nenhuma às controvérsias internas da Espanha. E desta?...
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06 março 2018
O FESTIVAL, DESDE O PRINCÍPIO...
A edição de 6 de Março de 1968 do Diário de Lisboa reservava as suas páginas centrais para destacar um inquérito que o jornal havia realizado junto de seis vultos da intelectualidade portuguesa em que estes opinavam sobre o Festival da Canção, que se realizara dois dias antes. Do maestro Jorge Costa Pinto ao poeta David Mourão-Ferreira ao guitarrista Carlos Paredes, os inquiridos mostravam-se unânimes na crítica à qualidade do concurso. No jornal, apreciara-se tanto a expressão inspirada que fora usada por Mourão-Ferreira (pungente mediocridade), que a recuperaram para o seu próprio título. Foi há precisamente cinquenta anos mas, sejam quais forem os anos que o Festival da Canção tenha de vida, são os mesmos anos de existência deste distanciamento desdenhoso, que apenas sofreu um intermezzo laudatório o ano passado pelas razões óbvias. É que ganhar um concurso, mesmo de canções de uma pungente mediocridade, só por ele ser internacional, muda muito as opiniões...
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07 fevereiro 2016
«MERKEL UND PORTUGAL»
Um amigo desafiou-me para que comentasse uma das fotografias de António Costa com Angela Merkel, por ocasião da visita do primeiro a Berlim, uma atitude descontraída, de gabardine posta e mão (esquerda) no bolso (não se fosse ver o punho fechado do socialismo...), uma mão direita que até poderia ser interpretada por... um outro género de saudação, não fossem os dedos estarem afastados... Sinto que terei desiludido esse meu amigo quando me socorri, para comparação, de uma fotografia correspondente do antecessor de Costa (à esquerda), de mão juntas, penitente, com a bandeira da União em fundo e uma Angela mais assertiva. Naquele momento, e porque sei que ele me compreenderia, fiz alusão a valores comuns prístinos, coisas da década dos sessentas do século passado, a tempos mais ingénuos das nossas relações com a Europa, em que o ponto alto anual da nossa integração europeia era o festival da eurovisão e a canção portuguesa que nos representava. Pois bem, a pose de Pedro Passos Coelho associava-a a Oração, a nossa penitente representação de 1964 na voz de António Calvário,...
...enquanto que a pose de António Costa era mais O Vento Mudou que foi a nossa representante em 1967, interpretada pelo vozeirão de Eduardo Nascimento, por coincidência um protagonista também assim mais escurinho numa europa caucasiana.
Mas estas analogias, por muito espirituosas que possam parecer, são daquelas que, para empregar uma expressão política que entretanto se consagrou, me ficou a saber a poucochinho. E, para resposta cabal ao desafio que o meu amigo Ricardo me lançara, fui descobrir a fotografia de Angela Merkel que eu creio que melhor representa a sua relação com o nosso país (acima, à direita): por alguma razão Realpolitik é um conceito que se consagrou nas relações internacionais mas a palavra, essa é de origem alemã. Tanto a figura do primeiro-ministro português, como a figura que o primeiro-ministro português faça, são como o arenque, capazes de valer muito pouco entre as preocupações da chancelerina: imaginem que nós nem demos em invadi-los, ao contrário dos refugiados sírios!...
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