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02 dezembro 2023

AS CONTRADIÇÕES MORAIS QUE VÃO DE «TIPPU TIP» A PABLO ESCOBAR

Hoje, quando se completam precisamente 30 anos sobre a execução de Pablo Escobar, considero muito oportuno republicar esta comparação entre aquele conhecido traficante de cocaína colombiano e um agora esquecido traficante de escravos tanzaniano do século XIX, mostrando como os critérios mudaram radicalmente, e em mais do que um aspecto, de um caso para outro.
Se houver que dar um rosto ao tráfico de escravos do Século XIX este senhor de olhar bondoso da fotografia acima será um candidato ideal. O seu nome era Hamad bin Muḥammad bin Jumah bin Rajab bin Muḥammad bin Sa‘īd al-Murghabī (1837-1905) mas a sua reputação foi estabelecida através da alcunha de Tippu Tip, uma onomatopeia do som das espingardas que os seus homens usavam quando das expedições para a captura de escravos na África Oriental, em regiões que actualmente fazem parta da Tanzânia, da Zâmbia e do Congo. A maioria dessas capturas eram para exportação (mesmo assim, em 1895 estimava-se que trabalhassem 10.000 escravos nas suas plantações) mas dava-se a curiosidade de, por essa altura, a quase senão mesmo a totalidade da sua clientela ser oriunda do mundo islâmico. Aparentemente, a condenação moral e o combate ao tráfico de escravos pelas potências europeias fizera com que as possessões do Índico que precisavam de mão-de-obra, como acontecia com a África do Sul, Maurício ou a Reunião, passassem a recorrer à substituição dos escravos africanos por trabalhadores indianos vindos livremente. Para além disso, Tippu Tip contava com aquilo que hoje se designa com uma boa imprensa: fora anfitrião do famoso jornalista e explorador africano Henry Stanley (1841-1904) que dele fizera uma descrição muito lisonjeira nas crónicas dos jornais que acompanhavam as suas viagens. No final da sua vida foi publicada na Europa uma autobiografia sua onde, como seria de esperar, não há muito espaço dedicado às mais de uma centena de milhar de pessoas cuja vida fora destruída pelas suas actividades...
Justapondo tráficos de moral condenável, vale a pena comparar o tratamento dado acima a Tippu Tip, mais o tráfico de escravos que o fez prosperar, ao que foi e ainda é dado àquele poderá ser considerado como o rosto mais conhecido do tráfico de cocaína do Século XX: o colombiano Pablo Escobar (1949-1993). É absurdamente contraditório o facto de, na moral prevalecente, os argumentos que são aduzidos para analisar e condenar os intervenientes num dos tráficos é convenientemente esquecido para o outro: enquanto no de escravos se esquecem as indispensáveis contribuições dos potentados nas áreas de produção (África) para depositar as culpas exclusivamente nos consumidores finais do produto nas colónias europeias da América por o dinamizarem, no tráfico de cocaína acontece rigorosamente o oposto e os consumidores finais parecem ser sempre exonerados dessas mesmas culpas e elas são transferidas precisamente para os potentados das áreas de produção da cocaína na América do Sul… Ao contrário de Tippu Tip, Pablo Escobar nunca conseguiu contar com boa imprensa. Porém, o seu desaparecimento por assassinato, ocorrido há precisamente trinta anos e sem que o mesmo pareça ter tido uma influência decisiva no tráfico (que se terá multiplicado ainda mais depois da sua morte), veio demonstrar que a notoriedade negativa que adquirira era, no mínimo, desproporcionada. Emparelhando as suas histórias ainda mais, independentemente da forma como elas hoje são conhecidas ou ignoradas, refira-se a curiosidade de que as mansões de ambos, Tippu Tip e Pablo Escobar, erigidas pelas suas fortunas igualmente imorais, se tornaram em locais de atracção turística, tanto em Zanzibar como em Medellín.

26 agosto 2023

QUANDO O POVO NÃO SE ENTUSIASMA EM LUTAR CONTRA A CORRUPÇÃO

26 de Agosto de 2018. Na Colômbia é dia de um referendo em que os eleitores são convocados para se pronunciarem separadamente sobre sete medidas distintas para combater a corrupção na administração pública (abaixo, um exemplar do boletim de voto com as sete perguntas). Como seria de esperar, os sins ganharam por uma maioria esmagadora, superior aos 99%, mas a oposição ao referendo preferiu actuar indirectamente, activando a resistência passiva e pedindo aos eleitores que se abstivessem de ir votar, esperando com isso reduzir a participação eleitoral para valores que tornassem o resultado do referendo não vinculativo. E conseguiram-no. No computo global, apenas 32% (11,7 milhões de eleitores) dos eleitores registados votaram, num universo total de 36,4 milhões de colombianos. Foi um episódio que não mereceu grande destaque noticioso a nível mundial, porque é daqueles que desmente as narrativas simplificadas que costumam ser dadas como evidentes: a de que o povo tem poucas oportunidades para combater a corrupção dos poderosos e que é por isso que ela se perpetua. Neste caso, os colombianos terão tido essa oportunidade e uma maioria deles desperdiçou-a.

26 julho 2022

A CONFERÊNCIA DE GUAYAQUIL

26 de Julho de 1822. Os dois líderes dos movimentos militares que promoviam a emancipação das várias colónias espanholas da  América do Sul encontram-se na cidade - hoje equatoriana - de Guayaquil. De um lado Simón Bolívar, então com 39 anos, representava as possessões do Norte (mormente a Colômbia e a Venezuela de onde era originário), enquanto José de San Martín, com 44/45 anos, nascera em regiões que viriam a constituir a Argentina, mesmo junto à fronteira que viria a existir com o Uruguai, e representava o Sul das extensíssimas possessões espanholas do continente sul-americano. No total, Norte e Sul perfaziam cerca de 9 milhões de km²! E no entanto, esta conferência vai perpetuar-se na História apenas pelo seu significado simbólico, já que as consequências políticas do encontro vão ser nulas. Aquele potencial colosso imperial, em contraste com o que viria a acontecer com a América do Sul portuguesa que, com 8,5 milhões de km² viria a transformar-se num só país, o Brasil, o enorme conjunto colonial espanhol viria a cindir-se em 10 países! Por detrás da animosidade comum contra as autoridades coloniais espanholas e a vontade de as substituir, havia muito pouca confluência de vontades, estilos, métodos e ambições entre Bolívar e San Martín. É, mais uma vez, apenas simbólico, mas a comparação entre os brindes formulados pelos dois homens por ocasião do banquete que assinalou o encontro, diz-nos muito como seria difícil compatibilizar as correntes que representavam: saudava Bolívar: «Aos dois maiores homens da América do Sul: o general San Martin e eu!»; e retribuía San Martín: «À conclusão rápida da guerra, à organização das diferentes repúblicas do continente e à saúde do libertador da Colômbia!». É muito possível que esta última história seja apócrifa, mas os factos futuros vieram demonstrar que nunca os dois homens vieram a cooperar entre eles de forma construtiva.

17 dezembro 2019

A INDEPENDÊNCIA DA (GRANDE) COLÔMBIA

17 de Dezembro de 1819. Simón Bolívar proclama-se presidente da Colômbia. Contudo, a Colômbia de que Bolívar se proclamou presidente - veja-se o mapa acima - era muito mais extensa - quase o dobro da área - do país que hoje mantêm o mesmo nome. Para os distinguir aqueloutro país costuma ser designado por Grande Colômbia e incluía, para além da Colômbia actual, também a Venezuela, o Equador e o Panamá. Essa Colômbia foi um projecto quimérico que subsistiu apenas por uma dúzia de anos (1819-1831) e que veio depois a fragmentar-se nas unidades constitutivas que já existiam no traçado da administração colonial espanhola. Tivesse subsistido, esse hipotético país contaria hoje com quase 100 milhões de habitantes (aproximadamente o dobro da população colombiana) e estaria entre os quinze maiores países do Mundo em termos demográficos (o segundo hispânico, depois do México). Pelo paralelo entre a evolução da América colonial espanhola e a da América colonial portuguesa, este exemplo demonstra que pugnar pela sua unidade foi um dos feitos mais importantes (e, por sinal, dos menos valorizados) da história do Brasil do século XIX.

07 agosto 2019

A BATALHA DE BOYACÁ

7 de Agosto de 1819. Foi o dia em que se travou a batalha de Boyacá, na Colômbia, a 130 km a nordeste de Bogotá. Opuseram-se as tropas insurrectas, comandadas pelo incontornável Simón Bolívar, às tropas que permaneciam fiéis às autoridades coloniais espanholas, a esmagadora maioria de recrutamento local, mas comandadas por oficiais espanhóis. O confronto saldou-se por uma inequívoca vitória dos republicanos rebeldes, assentando-se com essa vitória os pilares da efectiva independência do que seria um estado efémero, a Grã-Colômbia, entidade que se viria a desagregar em quatros países actuais: a Colômbia, a Venezuela, o Equador e, quase cem anos mais tarde, o Panamá. Uma curiosidade sobre estas batalhas de há 200 anos travadas no Novo Mundo: o número irrisório de soldados que eram empenhados pelos beligerantes: em Boyacá houve menos de 3.000 efectivos a combater por qualquer dos lados (compare-se isto com a batalha de Waterloo, que acontecera apenas quatro anos antes e onde 73.000 franceses haviam enfrentado 68.000 anglo-holandeses). O número de baixas foi, proporcional e felizmente, ínfimo quando comparado com as batalhas europeias: 13 mortos entre os vencedores e uma centena entre os vencidos. Estas batalhas tornaram-se simbólicas para as nações que nasceram em consequência delas (abaixo, uma foto actual do monumento), mas a verdade é que elas não teriam passado de pequenas escaramuças pelos padrões militares das guerras napoleónicas. Mas refira-se que os costumes do Novo Mundo sublimavam essa abstinência de sangue com uma crueldade que era desconhecida entre as aristocracias do Velho: todos os 37 oficiais espanhóis que se renderam após a batalha foram depois fuzilados.

26 novembro 2018

A COLÔMBIA ENTRA NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

26 de Novembro de 1943. A Colômbia, sob a presidência de Alfonso López Pumarejo (1886-1959), declara guerra aos países do Eixo. A razão próxima invocada para o gesto (veja-se abaixo a notícia do Diário de Lisboa) foi o afundamento de mais um (o quarto) navio colombiano por um submarino alemão, o U-516, uma semana antes, a 18 de Novembro. O episódio fora de uma violência gratuita: o alvo fora um pequeníssimo veleiro de 39 toneladas baptizado Ruby que, além de 11 pessoas, levava como carga 21.600 cocos, 300 sacos de copra, 28 espingardas caçadeiras e 15 caixotes de garrafas vazias! O U-516 atacou o Ruby sem qualquer pré-aviso, atingindo-o com 30 tiros de canhão quanto este navegava no Mar do Caribe a 120 milhas náuticas a norte do porto de Colón, no Panamá. O pequeno veleiro demorou meia hora a afundar-se. Morreram 4 das 11 pessoas que nele viajavam, as restantes ficaram todas feridas pela metralha. A notícia só se soube no dia seguinte, quando os sobreviventes foram recolhidos por um navio hondurenho. A hostilidade colombiana acabou por não se reflectir de forma significativa no decorrer das operações militares, quer contra a Alemanha, quer contra o Japão.

23 março 2014

SOBRE A INCONTINÊNCIA URINÁRIA E A AUTORIDADE POLÍTICA


Esta foi, para mim, uma estreia. Não tenho conhecimento de outro episódio em que a incontinência urinária se houvesse tornado num tópico principal de uma disputa eleitoral. O episódio conta-se sucintamente: durante um comício em Barranquilla na Colômbia, o presidente e candidato à reeleição Juan Manuel Santos foi filmado discursando enquanto as suas calças iam adquirindo progressivamente uma tonalidade inequívoca na zona púbica. Por mim, o mais incomodativo naquele vídeo é mesmo o primarismo dos lugares-comuns que o visado profere na ocasião. Mas o vídeo foi depois colocado na internet, ridicularizando-o. Como se tem de fazer nestas ocasiões, o presidente reagiu vitimizando-se, tentando despertar a empatia do eleitorado, explicando que se tratara das sequelas de uma operação à próstata a que ele se submetera há ano e meio. Entretanto, num outro continente – quiçá num outro planeta – Silva, um homólogo do presidente Santos, fazia um apelo para que se evitassem querelas artificiais e controvérsias estéreis numa próxima campanha eleitoral, esquecendo-se de ter presente que as regras do marquês de Queensberry só vingaram porque o júri se reserva para si a capacidade de desqualificar quem não as cumprir.

08 março 2008

TORTILLAS PARA OS DALTON

Que as relações fronteiriças latino-americanas são tradicionalmente assuntos bastante delicados já se sabia. No álbum Tortillas Para os Dalton, e precisamente por causa deles, o México esteve em vias de declarar guerra aos Estados Unidos e, no entanto, por essa vez, a culpa que os famosos bandidos estivessem em território mexicano nem tinha sido dos culpados tradicionais destes enredos - os Dalton ou, mais genericamente, o governo dos Estados Unidos.
O culpado fora um bandido mexicano chamado Emílio Espuelas (abaixo) que se especializara em raptos e resgates e que, ao avistar do outro lado da fronteira uma carruagem guardada (que levava os Dalton), julgou que ela transportava algo de precioso e resolveu fazer um raide ao outro lado da fronteira para a roubar. E foi assim que os famosos primos Dalton tiveram direito à sua primeira verdadeira experiência turística intercultural!
Gastronomicamente, a experiência parece ter-se revelado estimulante, especialmente para Averell Dalton (abaixo), que aprendeu a fazer a sua pergunta canónica (Quando é que se come?) no idioma espanhol (Cuacu mé kiki?), além de ter descoberto novos pitéus insuspeitados da culinária mexicana (P: Como é que se chama esta crosta deliciosa que está à volta dos frijoles? R: Chama-se tacho de barro, amigo...). Mas não nos desviemos do assunto…
Porque o assunto original girava à volta de relações fronteiriças delicadas, de incursões transfronteiriças, de raptos e de resgates, o que nos conduz directamente à Colômbia, à sua fronteira com o Equador, às FARC e à notícia, da semana passada, que o exército colombiano conduziu uma operação em território equatoriano* contra um acampamento das FARC donde resultou a morte de dezenas de guerrilheiros e de um dos seus dirigentes, Raul Reyes.
Mas o meu poste é dedicado ao tratamento informativo dado ao episódio pelo PCP que é digno, pela imaginação, de um René Goscinny. Assim, do ataque colombiano ao acampamento dos guerrilheiros, quais escuteiros travessos, resultou aquilo que é classificado como o assassinato de Raul Reyes, que devia andar por aquelas paragens de violão, feito animador cultural para cantar à noite junto à fogueira. E, claro, concluí-se que a culpa foi toda dos norte-americanos!
As FARC já são hoje mundialmente conhecidas: trata-se de uma organização criminosa que se rodeia de um papel celofane de ideologia revolucionária, e que demonstra ter um enorme poder, daqueles que só se conseguem adquirir num país que está tão desestruturado como a Colômbia. Para essa desestruturação contribuem os norte-americanos consumindo cocaína, mas não propriamente o seu governo, por muito que isso custe aos redactores do PCP…
Depois de acabarem presos na primeira história em que aparecem, os Dalton são quase sempre representados em todas as aventuras seguintes envergando uma farda prisional às riscas amarelas e negras, frequentemente amarrados a grilhetas, obcecados pela evasão e unidos pelo seu ódio rábico a Lucky Luke. René Goscinny morreu em 1977, mas os seus Dalton parecem ser uma paródia cómica da malta do PCP que é encarregada de escrever aqueles textos…

* Facto que a Colômbia assumiu e pelo qual já pediu desculpa. Aliás, pelas notícias mais recentes, as divergências entre o Equador e a Colômbia parecem ter sido sanadas.