7 de Maio de 1824. Em Viena, no teatro de Kärntnertor (actualmente inexistente), tem lugar a estreia da 9ª Sinfonia de Beethoven. Apesar de estreada em Viena, onde o soberano era o imperador austríaco, a obra foi dedicada ao rei Frederico Guilherme III da Prússia (Beethoven nascera em Bona, na Alemanha ocidental). A extensa composição (dura aproximadamente uma hora e dez minutos a ser executada) foi a última obra completa do compositor, é a mais conhecida da sua autoria e é também uma das mais conhecidas do que se costuma designar por música clássica. Há várias histórias associadas a esta estreia, das quais prefiro reter para esta evocação a que refere que foi preciso que Beethoven - que já então estava completamente surdo e que, pretensamente, estava virado para a orquestra, dirigindo-a - fosse rodado por uma das intérpretes - a jovem Caroline Unger - para que, só então e de frente para o público, visse quanto o público aplaudia entusiasticamente a sua obra! Para benefício do leitor, reduzi a reprodução acima à passagem mais conhecida da obra - apenas três minutos! - a Ode à Alegria.
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07 maio 2024
30 abril 2024
A ABRILADA
30 de Abril de 1824. Ocorre em Lisboa uma revolta denominada Abrilada. O monarca português era então D. João VI (à direita), que regressara do Brasil há três anos, um Brasil que entretanto se tornara independente sobre a nova coroa do seu filho mais velho, Pedro. O regime em vigor em Portugal era liberal, resultado da revolução do Verão de 1820. Os conjurados (absolutistas) agrupam-se por detrás de Miguel, o segundo filho do rei (à esquerda), então com 21 anos e predominam entre o oficialato. O golpe é protagonizado pelas unidades militares, que prendem quase todos os membros do governo e as personalidades de destaque da administração. Com a capital controlada pelos sublevados, o rei D. João VI, incapaz de assegurar a sua liberdade de actuação no palácio da Bemposta, onde residia, acabou por se refugiar num veterano navio de guerra britânico que estava fundeado no Tejo. A participação do corpo diplomático acreditado junto da corte portuguesa - nomeadamente franceses e britânicos - acaba por se vir a revelar importante para a neutralização da revolta. O paradoxo que acompanha a acção dos revoltosos é que, pelos próprios princípios legitimistas e absolutistas que enunciavam, é-lhes indispensável a anuência do próprio monarca para que a revolta seja bem sucedida, quando aquele se mostra renitente a ceder às suas pressões. Eclodiu uma guerra de nervos nos dias que se seguiram e o impasse acabou com o triunfo daqueles que rodeavam D. João VI: os presos foram libertados e a figura de proa do movimento, o infante D. Miguel, acabou exilado depois de uma troca simpática de cartas entre pai e filho (acima, ao centro). O ritmo a que os acontecimentos decorriam era outro: a troca de cartas é publicada na Gazeta de Lisboa a 12 de Maio, quase duas semanas depois dos acontecimentos. Por curiosidade, refira-se que, desde então e até ao 25 de Abril de 1974, no espaço lusófono todas as revoltas ocorridas no mês de Abril recebiam invariavelmente a alcunha de abriladas: 1832 (Brasil), 1947 e 1961 (Portugal).
02 dezembro 2023
A DOUTRINA MONROE
(Republicação por ocasião do bicentenário do discurso)
Numa tradução muito livre daquilo que Monroe disse(*) ao Congresso em 2 de Dezembro de 1823 no seu discurso do estado da União, e que veio a constituir doutrina, os dois continentes americanos, pelas condições de liberdade e independência que conquistaram e asseguraram, não serão doravante passíveis de uma futura (re)colonização por qualquer Potência Europeia. Para a época, era uma proclamação tão grandiloquente quanto, pronunciada pelo representante dos Estados Unidos, um pouco insolente…
Os britânicos podiam não ter tido meios para impor a autoridade colonial aos Estados Unidos, e por isso perderam a Guerra da Independência (1775-83), mas tinham-nos para impor um severo bloqueio comercial às suas antigas colónias e para desembarcar expedições com a intenção de destruir os objectivos em terra que escolhessem. Em Agosto de 1814, uma dessas expedições atingiu Washington, a capital federal, incendiando os seus edíficios principais (abaixo) e fazendo fugir Madison, o antecessor de Monroe.
Por isso, não fora a concordância tácita dos britânicos em preservar o estatuto dos vários países que se haviam tornado recentemente independentes na América Latina, conjugada com a impotência espanhola e portuguesa em recuperar os seus impérios americanos, e a Doutrina Monroe, na altura em que foi proclamada, não teria passado de… letra morta. Na realidade, quando os americanos puderam impor autonomamente a sua Doutrina, já o seu autor morrera há muito (1831)…(*) Na verdade, acredita-se hoje que aquelas passagens do discurso foram escritas pelo então Secretário de Estado, John Quincy Adams, que, curiosamente, viria a ser depois o sexto Presidente dos Estados Unidos, entre 1825 e 1829.
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19 março 2023
A ABDICAÇÃO DO PRIMEIRO IMPERADOR DO MÉXICO
19 de Março de 1823. Abdicação do Imperador Agostinho I (Iturbide) do México. O seu reinado durara apenas dez meses, de Maio de 1822 a Março de 1823. Com esta abdicação colapsava um modelo de organização monárquica de inspiração napoleónica* (aprecie-se o estilo do retrato do Imperador...) que fora adoptado por ele e pelos seus apoiantes como modelo político inspirador para aquela que fora a colónia espanhola do México. Como se percebe pelo mapa, este breve Império do México era bastante mais extenso do que o México actual: para além de abranger todo o Sul dos actuais Estados Unidos (incluindo os estados da Califórnia, Texas, Arizona, Novo México e Nevada), incluía também ainda cinco países da América Central (Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica).
* Em contraste com o Brasil, onde o monarca (também Imperador) Pedro I ia buscar a sua legitimidade ao facto de pertencer à casa real da antiga metrópole portuguesa.
08 janeiro 2023
O BICENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALFRED RUSSEL WALLACE
A 8 de Janeiro de 1823 nascia, em Gales, Alfred Russel Wallace. Virá a ser reconhecido, conjuntamente com Charles Darwin, como um dos co-autores das modernas teorias da evolução. Em todos aquele relatos mais simplificados da génese da teoria evolucionista, a narrativa concentra-se em Darwin e Wallace, quando não é omitido, é relegado a um papel secundário, que terá sido um simples estímulo, para a formulação da teoria pelo próprio Darwin. Na realidade, Wallace desenvolveu as suas próprias concepções distintas sobre a evolução, antes e em paralelo com Darwin. Terá sido um ensaio de Wallace, que este enviou a Darwin para apreciação e comentário, que terá estimulado o segundo à redacção da Origem das Espécies em 1859, tinha Darwin 50 anos e Wallace apenas 36. A importância de ambos era a que parecia, não a que era. Concordantes nos aspectos globais, havia imensos aspectos sectoriais em que as suas opiniões divergiam. Lembro-me de ter lido algumas dessas divergências num dos capítulos do livro O Polegar do Panda de Stephen Jay Gould. Tinha o título de: A selecção natural e o cérebro humano: Darwin versus Wallace. É curto (14 páginas), estive a relê-lo e continuou a parecer-me minucioso demais e, aparentemente, o que provocou a subalternização de Wallace não foi nada do que lá está explicado, e sim apenas a tendência para que estas histórias tenham uma estrutura escorreita e simples, o que dá preferência a haja um herói em vez de dois.
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16 novembro 2022
A «DESCOBERTA» DA PISTA PARA SANTA FÉ PELOS ANGLO-SAXÓNICOS
16 de Novembro de 1822. Descubro pela wikipedia que, neste dia de há 200 anos, um aventureiro norte americano chamado William Becknell (1787/1788-1865), concluía em Santa Fé (México!), o percurso de uma rota comercial - a Pista para Santa Fé - de que o imaginário americano se irá apropriar para o folclore da sua colonização do Oeste. Na verdade, a cidade de Santa Fé fora fundada em 1610(!*) pelos espanhóis, portanto William Becknell não foi pioneiro de coisa alguma. Mais de duzentos anos deviam ter tornado aquele trilho conhecidíssimo em 1822, quando Becknell o percorreu. A novidade seria para os colonos anglo-saxónicos que vinham de Leste e não do Sul como os espanhóis haviam originalmente vindo. Mas foram aqueles outros recém chegados que deram a promoção à hoje famosa Pista para Santa Fé, associada à mitologia do Faroeste e que, na minha infância e por exemplo, servia de título a uma das aventuras em BD de Ringo (abaixo).
* - Ou seja, e para colocar as datas numa verdadeira perspectiva, a primeira colónia britânica na América, Jamestown, foi fundada em 1607. Quando os espanhóis fundaram Santa Fé, os futuros americanos mal haviam acabado de se instalar.
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08 novembro 2022
O BICENTENÁRIO DA BATALHA DE PIRAJÁ
8 de Novembro de 1822. Trava-se a batalha de Pirajá nos arredores da cidade de Salvador na Baía, num local que, entretanto, foi engolido pela expansão metropolitana da cidade (mapa incluso). Para a guarnição portuguesa, onde imperava o atentismo, à espera de instruções de Lisboa depois da proclamação, dois meses antes, da independência do Brasil pelo príncipe-herdeiro, tratou-se de um recontro assim um pouco mais engajado, com um punhado de baixas, tanto mais difíceis de substituir materialmente quando consideradas as circunstâncias das comunicações com a metrópole. Para os assaltantes brasileiros foi uma grande vitória, em que, consideradas as discrepâncias das várias versões entre detalhes da batalha, o número de tropas engajadas e o número de baixas sofridas pelos dois beligerantes, é razoável admitir que a grande baixa deste recontro baiano, terá sido mesmo a verdade sobre o que aconteceu.
07 setembro 2022
O QUE É QUE AS MARGENS PLÁCIDAS DO IPIRANGA OUVIRAM
Hoje, dia do bicentenário da independência brasileira, dediquemos uma atençãozinha simpática para com os brasileiros e os problemas que eles têm com quem escreveu a letra do seu hino. Exemplificando apenas pelos dois primeiros versos que se cantam, Joaquim Osório Duque-Estrada consegui a proeza de, para conseguir rimar, ir alterar completamente a sequência lógica de uma oração que é já de si difícil de compreender por causa do rebuscamento dos adjectivos: «as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico». Noutros tempos, era para mim um divertimento desafiar brasileiros a cantar com eles o seu hino nacional, desafio a que a esmagadora maioria se recusava, por terem vergonha de admitir que desconheciam a letra do seu próprio hino. Hoje tendo a reconhecer que, sendo as letras da maioria dos hinos que conheço normalmente rebuscadas, a letra do hino brasileiro é particularmente excessiva nesse aspecto. Neste dia, que é também o do centenário da oficialização da adopção desta letra complicada, os meus votos de simpatia para com todos os brasileiros que a têm de entoar.
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26 julho 2022
A CONFERÊNCIA DE GUAYAQUIL
26 de Julho de 1822. Os dois líderes dos movimentos militares que promoviam a emancipação das várias colónias espanholas da América do Sul encontram-se na cidade - hoje equatoriana - de Guayaquil. De um lado Simón Bolívar, então com 39 anos, representava as possessões do Norte (mormente a Colômbia e a Venezuela de onde era originário), enquanto José de San Martín, com 44/45 anos, nascera em regiões que viriam a constituir a Argentina, mesmo junto à fronteira que viria a existir com o Uruguai, e representava o Sul das extensíssimas possessões espanholas do continente sul-americano. No total, Norte e Sul perfaziam cerca de 9 milhões de km²! E no entanto, esta conferência vai perpetuar-se na História apenas pelo seu significado simbólico, já que as consequências políticas do encontro vão ser nulas. Aquele potencial colosso imperial, em contraste com o que viria a acontecer com a América do Sul portuguesa que, com 8,5 milhões de km² viria a transformar-se num só país, o Brasil, o enorme conjunto colonial espanhol viria a cindir-se em 10 países! Por detrás da animosidade comum contra as autoridades coloniais espanholas e a vontade de as substituir, havia muito pouca confluência de vontades, estilos, métodos e ambições entre Bolívar e San Martín. É, mais uma vez, apenas simbólico, mas a comparação entre os brindes formulados pelos dois homens por ocasião do banquete que assinalou o encontro, diz-nos muito como seria difícil compatibilizar as correntes que representavam: saudava Bolívar: «Aos dois maiores homens da América do Sul: o general San Martin e eu!»; e retribuía San Martín: «À conclusão rápida da guerra, à organização das diferentes repúblicas do continente e à saúde do libertador da Colômbia!». É muito possível que esta última história seja apócrifa, mas os factos futuros vieram demonstrar que nunca os dois homens vieram a cooperar entre eles de forma construtiva.
11 abril 2022
O MASSACRE DE CHIOS
Há duzentos anos, a ilha de Chios (842 km²), situada no Mar Egeu, pertencia ao império otomano (turco), embora a ilha fosse povoada (cerca de 80 a 100.000 habitantes) quase exclusivamente por gregos (cristãos ortodoxos). Chios, cuja área era apenas ligeiramente maior do que a Madeira e com uma população comparável (à época), era uma das mais prósperas comunidades insulares do Egeu. E a ilha passou a ser disputada no quadro da guerra de independência grega. A 22 de Março de 1822, um destacamento de 2.500 rebeldes gregos desembarcara em Chios, cercando a guarnição otomana na fortaleza da capital. Mas a 11 de Abril de 1822, há precisamente 200 anos, os otomanos procederam a um contra-desembarque (repare-se como Chios se situa perto das costas da Anatólia). Os 46 navios e 7.000 soldados otomanos - posteriormente reforçados com mais 30.000 - vinham com uma missão de retaliação e uma política de terra queimada. Nos meses que se seguiram, Chios foi deliberadamente despovoada. A dimensão do massacre de Chios é incerta, mas as estimativas mais comuns apontam para que 25.000 habitantes da ilha foram mortos, 45.000 foram capturados e reduzidos à escravatura, e só uns 10 a 20.000 é que terão conseguido fugir. No final, terão subsistido apenas uns 20.000 habitantes. O episódio causou um grande impacto - negativo - por toda a Europa. Tanto que em 1824 o pintor francês Eugène Delacroix assinava este quadro abaixo, intitulado precisamente o Massacre de Chios. Chios nunca recuperou plenamente da hecatombe: a ilha tem actualmente 54.000 habitantes, ou seja, um pouco mais de metade da população que tivera há duzentos anos. E, como se costuma escrever no rodapé do final dos filmes, qualquer associação desta minha evocação com o comportamento assumido recentemente pelas tropas russas na Ucrânia terá sido uma mera coincidência.
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09 janeiro 2022
O DIA DO FICO
9 de Janeiro de 1822. Em reacção às instruções que haviam chegado de Lisboa para que regressasse a Portugal, o príncipe D. Pedro acolhe uma petição com 8 mil assinaturas instando-o a que ficasse no Brasil e anuncia a sua decisão publicamente. O episódio ficou conhecido como o dia do Fico.
07 janeiro 2022
A FUNDAÇÃO DA COLÓNIA QUE SEMPRE TEVE VERGONHA DE SE ASSUMIR COMO TAL
7 de Janeiro de 1822. É a data que assinala o estabelecimento das primeiras infraestruturas nas costas do que viria a ser a Libéria, por uma sociedade americana conhecida por American Colonization Society. O propósito desta última era promover o retorno a África daqueles americanos de ascendência africana que mostrassem dificuldades de integração na sociedade - sendo essas dificuldades tanto a rebeldia daqueles que estavam escravizados, como a discriminação de que eram vítimas aqueles já nascidos na América que, tendo sido emancipados e evoluído na escala social, eram vítimas de discriminação racial. O território, que fora originalmente conhecido como a Costa da Pimenta pelos portugueses quando ali haviam chegado no século XV, por causa do comércio da pimenta local (um sucedâneo competitivo da original da Índia), veio a receber o nome de Libéria (de liberdade). O nome era feliz, mas a ideia era mais simpática na teoria do que na prática: por exemplo, os escravos retornados eram depositados na Libéria embora pudessem ser originários de locais tão díspares e distantes quanto o Senegal, o Gana, a Nigéria ou Angola, portanto sem quaisquer afinidades com a população local; e as dificuldades de instalação dos mais evoluídos eram rigorosamente as mesmas dos europeus, por causa da insalubridade do clima: dos 4.571 imigrantes que foram para a Libéria entre 1820 e 1843, só 40% permaneciam vivos em 1843. A American Colonization Society continuou a promover a imigração de afro-americanos até 1904, mas a tendência natural foi para que estes se consorciassem entre si, criando gradualmente um grupo social distinto, que se identificava pelo idioma materno (inglês) e pela religião (cristianismo protestante), cujos membros assumiam, na maioria das vezes, as responsabilidades pela administração do território. Em 26 de Julho de 1847, ou seja 25 anos depois da data que aqui se evoca, declararam uma espécie de independência em que quase tudo, a começar pela bandeira, mimetizava os Estados Unidos. Já aqui publiquei um poste a respeito desses primeiros presidentes dessa República supostamente independente. Tal era a escassez de protagonistas políticos que o primeiro deles, de 1848 a 1856, voltou a ser o sétimo presidente, de 1872 a 1876, e o quarto presidente (1868-70) foi também o oitavo (1876-78). Embora, na prática, a Libéria não fosse formalmente uma colónia dos Estados Unidos, a sua estrutura social, política e económica, assemelhava-se quase completamente ao tipo de dependências coloniais de outros países europeus onde predominava uma elite local miscigenada, com muitos traços comuns com o caso (geograficamente não muito distante) de Cabo Verde (em relação a Portugal). Esse género de regime, imposto por uma minoria e copiando um modelo político de uma metrópole, que aqui apenas se mostrava tímida quanto à admissão dos seus interesses coloniais (os Estados Unidos), só veio a desaparecer em 1980, quando um golpe de estado removeu a elite dominante da área do poder, ou seja, paradoxalmente, cinco anos depois da saída dos portugueses de África, os últimos europeus a abandonar o seu projecto colonial.
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04 julho 2021
O REGRESSO DE Dom JOÃO VI
4 de Julho de 1821. Depois de quase catorze anos de ausência no Brasil, o rei D. João VI regressa a Portugal, desembarcando no Terreiro do Paço, como o desenho acima documenta. Recorde-se que a Revolução Liberal do Porto ocorrera quase um ano antes. Há duzentos anos, a actualidade fluía a um ritmo muito diferente do de agora.
07 maio 2021
DOIS SÉCULOS DE ERROS DE UM JORNAL DE DUZENTOS ANOS
No mesmo dia em que morria Napoleão, a 5 de Maio de 1821, começava a publicar-se na florescente cidade inglesa de Manchester o jornal acima, prometido para 200 anos de publicação. Hoje chama-se simplesmente The Guardian, e, com uma audiência cada vez mais alargada, desde 1964 que os seus serviços se mudaram para Londres. Ora entre os artigos celebratórios publicados pelo jornal a pretexto destes 200 anos, aquele que eu gostaria de destacar pela auto-critica, é aquele cuja ilustração publico mais abaixo em que se passa em revista as grandes asneiras que ali se publicaram ao longo de todos aqueles anos. O exercício é bastante engraçado e é acompanhado de uma explicação da evolução do posicionamento político do jornal. (Esclareça-se que, quando o The Manchester Guardian surgiu em 1821, a publicação se revestia de um carácter político radical, já que a cidade, que era um dos pólos da Revolução Industrial em Inglaterra, não era sequer representada no Parlamento. Quando o passou a ser, com a Reforma de 1832, passou a sê-lo logo por dois deputados. Seriam seis no final do século XIX, tal o desenvolvimento de Manchester.) Mas a história das inflexões políticas posteriores do jornal, logo a começar pelas do próprio século XIX, dão origem a opiniões que hoje apreciamos ironicamente. Como a postura apaixonadamente em prol da superioridade da raça branca aquando da Revolta dos Sipaios de 1857 na Índia Britânica. Ou as simpatias pela causa dos Confederados durante a Guerra de Secessão na América em 1861. Outros são erros de previsão que se vêm a revelar descomunais: como o que minora as consequências do atentado de Junho de 1914 que vitimou o herdeiro austro-húngaro e que afinal deu origem à Primeira Guerra Mundial; ou então o que tenta elaborar um cenário político em função de uma especulação dos resultados eleitorais das primeiras eleições britânicas depois da Segunda Guerra Mundial - sugerindo uma coligação entre trabalhistas e liberais, quando os verdadeiros resultados irão dar uma maioria parlamentar esmagadora aos primeiros. Uma terceira categoria é composta de erros factuais, que são a consequência da evolução científica. A imagem abaixo destaca duas: um cenário elaborado por um meteorologista qualquer que antecipa, em meados do século passado, que as temperaturas iriam globalmente baixar no século XXI (note-se que a ousadia de antecipar uma nova era glaciar já será cabeçalho de jornalista...); ou o deslumbramento com novos materiais, no caso o amianto (asbestos), antes de se conhecerem os seus impactos secundários, neste caso o facto de ser cancerígeno. Claro que os erros se tornam muito mais apelativos quando ocorrem mais próximos do nosso tempo: o artigo dedica uma especial atenção ao comportamento do jornal a propósito do que nele se escreveu por ocasião do referendo do Brexit em Junho de 2016. Mas, insisto, vale a pena ler o artigo todo. Sobretudo porque neste meio jornalístico não é muito frequente ter-se a oportunidade de cumprimentar a imaginação de quem tornou interessantes estes erros profissionais.
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05 maio 2021
A MORTE DE NAPOLEÃO BONAPARTE
5 de Maio de 1821. Há duzentos anos Napoleão morria desterrado em Santa Helena. É engraçado que, tendo lido alguns - aquilo que considero um número razoável... - livros a respeito do período napoleónico, foi só muito recentemente que me dispus a ler uma biografia sua - porventura um dos temas mais petulantemente emblemáticos de uma certa erudição histórica... e gostei bastante desta versão do anglo-polaco Adam Zamoyski, de quem eu já lera outras obras do mesmo período - «Moscow 1812: Napoleon's Fatal March» e «Rites of Peace, The fall of Napoleon & the Congress of Vienna». Não restam dúvidas que Napoleão Bonaparte foi uma personagem fascinante. A narrativa de Zamoyski corta cerce a reputação que se construiu a respeito do seu génio militar, mostrando que a superioridade do exército francês era táctica e de toda a organização: houve muitas vitórias francesas obtidas sob o comando de muitos outros generais. O que notabilizava as obtidas por Napoleão (pelo menos, ao início) era a promoção que lhes era dada junto das populações que lhe granjearam a popularidade. Daí os ciúmes e o despeito daqueles seus pares que haviam alcançado o seu estatuto ainda sem ser sob o comando e que se consideravam seus iguais (Bernadotte veio a tornar-se rei da Suécia). Além disso (e Zamoyski afirma-o taxativamente) Napoleão era um estratega medíocre. É por o ser que se enreda no problema da invasão da Rússia em 1812. Caiu porque se conduziu de uma forma que agregou uma coligação contra si que era impossível de vencer. As potências tentaram afastá-lo uma primeira vez de uma maneira soft, exilando-o na ilha de Elba, com uma vida aceitavelmente pacata (1814). Furou o esquema. Traiu a palavra. Os britânicos exilaram-no segunda vez no Sul do Atlântico, mas aí deram-lhe uma vida de merda. Morreu há precisamente duzentos anos com 51 de idade - uma vida cheia.
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24 agosto 2020
O BICENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO LIBERAL
24 de Agosto de 1820. Mesmo que tenha lido o que aconteceu nesta data nas obras de Oliveira Marques e de Veríssimo Serrão, acompanhado das explicações para o que aconteceu, confesso que nunca me senti agarrado pelas descrições e explicações. Falta-me a empatia para perceber o porquê da iniciativa, e compreender a saturação da sociedade portuguesa para com os quadros britânicos que detinham o poder militar. Afinal, se formos ler a biografia (na Wikipedia em inglês) de William Beresford, aquele que terá provocado a insurreição, apenas dois parágrafos (e não muito extensos...) são dedicados aos cerca de oito anos (1812-20) que ele passou em Portugal. Desnecessário acrescentar que as páginas da wikipedia escritas nos outros idiomas sobre o mesmo tópico ainda são mais parcas em informação. O facto é tanto mais curioso quanto esse período está muito bem estudado noutros países, caso, por exemplo e já por mim aqui tratado, da Restauração em França. Mas ainda falta quem escreva uma História melhor deste período que vai de 1815 a 1820 em Portugal.
31 julho 2020
COMO COMBATER INCÊNDIOS COM BEBIDAS ALCOÓLICAS
31 de Julho de 1820. A meio da noite declara-se um fogo num dos armazéns do bairro de Bercy em Paris. Com o fogo a alastrar e apesar da proximidade do Sena, o facto de se estar no pino do Verão fez com que a água começasse a faltar nos engenhos. Foi nessa altura que, dado o facto que, à época, proliferarem por Bercy os armazéns, nomeadamente os de vinho, uma mente mais criativa se lembrou de recorrer ao vinho armazenado nas pipas para combater o incêndio. Quanto ao sucesso dos bombeiros e do emprego de vinho para combate a incêndios, pouco reza a história. O que se sabe é que pelo menos um hectare de prédios de habitação foi destruído pelo fogo. Muitas centenas de pessoas ficaram desalojadas. Mas quanto a queixas a respeito dos prejuízos comerciais, houve-as de 610 proprietários grossistas de vinho que naquela noite haviam contribuído compulsoriamente para a formação de um grande lago de vinho de 15 metros de diâmetro e um bom meio metro de profundidade, onde os engenhos se vieram abastecer durante o combate ao sinistro. Com as queixas, também a qualidade do vinho derramado ganhou dimensões inesperadas: uma estimativa inicial de prejuízos de três milhões, passou para os dez, para vir a ser finalmente fixada em quatorze milhões. Quase cento e cinquenta anos depois, Goscinny reaproveitou a história para Lucky Luke, situando-a no Oeste americano e usando dessa vez a cerveja em vez do vinho (acima).
08 abril 2020
O DESCOBRIMENTO DA VÉNUS DE MILO
8 de Abril de 1820. Foi neste dia que, alegadamente, terá sido descoberta a estátua da Vénus de Milo. A minha intenção é evocativa mas também pedagógica porque, quem sabe da existência da Vénus de Milo costuma não fazer ideia onde fica Milo, a ilha de onde ela foi desenterrada. É a que aparece assinalada no mapa acima. Também é verdade que me sinto bem mais confortável a falar sobre geografia do que a elaborar considerações sobre o que possa pensar sobre a estética da estátua. Não penso nada.
27 janeiro 2020
A DESCOBERTA DA ANTÁRCTIDA
27 de Janeiro de 1820. Hoje cumprem-se duzentos anos da data da descoberta oficial do continente antárctico. A autoria foi de uma expedição russa de dois navios, Vostok e Mirnyi, comandados por Fabian von Bellingshausen e Mihail Lazarev. Os registos do feito incluem costumam incluir os dois comandantes, provavelmente para atenuar o impacto de uma proeza russa ter sido encabeçada por alguém com um nome tão ressonantemente germânico - von Bellinghausen (era originário de uma família da nobreza balto-germânica). Mas esse está longe de ser o único indício que a questão do descobrimento da Antárctida tem muito mais a ver com o nacionalismo do que com a geografia. Para os britânicos, o feito russo terá superado o de um compatriota (Edward Bransfield) por uns escassos três dias. Para os americanos foi uma questão de dez meses e o nome do seu herói descobridor é Nathaniel Palmer. A ironia desta disputa é que desde o Século XVI, pelo menos uns 250 anos antes, houvera condições técnicas para que navegadores e exploradores se tivessem aproximado do continente austral, especialmente nesta época do ano (Janeiro), quando ali se está em pleno Verão. Isso não implica assegurar que outros navegadores de outras nacionalidades já lá tivessem estado. Mas implica relativizar a certeza da descoberta. A verdade é que, dadas as condições meteorológicas, a eventual presença de predecessores de Bellinghausen teria sido breve e inconsequente e tão difícil de confirmar quanto de desmentir. Não havia qualquer interesse económico naquela região para superar as enormes dificuldades técnicas do assentamento e ali fixar populações. Por isso, se alguém já tivesse descoberto o continente, também não teria tido qualquer estimulo material em reivindicar essa descoberta. (Sobre a dificuldade e desinteresse em colonizar locais onde se verificam condições meteorológicas tão austeras, veja-se este meu poste sobre as Ilhas Kerguelen).
17 dezembro 2019
A INDEPENDÊNCIA DA (GRANDE) COLÔMBIA
17 de Dezembro de 1819. Simón Bolívar proclama-se presidente da Colômbia. Contudo, a Colômbia de que Bolívar se proclamou presidente - veja-se o mapa acima - era muito mais extensa - quase o dobro da área - do país que hoje mantêm o mesmo nome. Para os distinguir aqueloutro país costuma ser designado por Grande Colômbia e incluía, para além da Colômbia actual, também a Venezuela, o Equador e o Panamá. Essa Colômbia foi um projecto quimérico que subsistiu apenas por uma dúzia de anos (1819-1831) e que veio depois a fragmentar-se nas unidades constitutivas que já existiam no traçado da administração colonial espanhola. Tivesse subsistido, esse hipotético país contaria hoje com quase 100 milhões de habitantes (aproximadamente o dobro da população colombiana) e estaria entre os quinze maiores países do Mundo em termos demográficos (o segundo hispânico, depois do México). Pelo paralelo entre a evolução da América colonial espanhola e a da América colonial portuguesa, este exemplo demonstra que pugnar pela sua unidade foi um dos feitos mais importantes (e, por sinal, dos menos valorizados) da história do Brasil do século XIX.
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