22 de Março de 1939. Na semana passada a Alemanha ocupara Praga e o que restara da parte checa da Checoslováquia. As potências Ocidentais ainda estavam a digerir o facto de terem sido completamente enroladas quando da assinatura dos Acordos de Munique no Outono de 1938, quando Adolf Hitler, não só mostrava que não fazia qualquer tenção de honrar o que assinara, como juntava sal à ferida, mostrando não se preocupar com o amor próprio de quem negociara de boa fé consigo. E ocupava a cidade lituana de Klaipeda. Vale a pena fazer esta reconstituição compassada dos acontecimentos para perceber que a credibilidade internacional de Adolf Hitler já se esgotara, e a Segunda Guerra Mundial ainda nem sequer tinha começado.
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22 março 2019
13 outubro 2018
A DERRADEIRA CAMPANHA DE RUSSIFICAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA
13 de Outubro de 1978. O conselho de ministros da União Soviética aprova um decreto acentuando o recurso ao emprego do idioma russo tanto na educação como em muitos outros aspectos da vida quotidiana. Dado o carácter sensível do assunto, por causa da diversidade das nacionalidades da União e da carga histórica negativa das medidas para a imposição do russo, que haviam estado associadas aos tempos autocráticos do czarismo, a notificação do documento, vindo de Moscovo para as capitais das restantes catorze repúblicas que compunham a URSS, seguiu um protocolo de distribuição paralelo ao oficial, entregue em mão aos responsáveis locais de cada república pela educação, para que estes o consultassem e ficassem cientes do seu conteúdo mas sem deixar rasto documental, evitando a possibilidade que o documento fosse copiado e publicitado. No aspecto, as iniciativas que posteriormente se viessem a adoptar para a russificação do ensino pareceriam ter nascido concertadamente nas repúblicas sem que tivesse havido instruções expressas de Moscovo para o fazer. Em Outubro de 1977, um ano antes, a URSS aprovara uma nova constituição (é esse o sentido da exortação da fotografia acima - por muito que ela não faça sentido afixada num cabeleireiro - e o autor da fotografia é Igor Gavrilov), e esta campanha vocacionada para acelerar a russificação do império soviético enquadra-se nesse esforço para o transformar numa entidade organicamente mais homogénea,...
...embora acautelando que não se perdesse a imagem obrigatória da pluralidade de nacionalidades que compunham a União (acima - uma espécie de bilhete postal). Dali por sete meses, em finais de Maio de 1979, cerca de um milhar de pessoas ligadas ao ensino e difusão do russo ir-se-ão encontrar num congresso que se realizará em Tashkent, capital do Uzbequistão. Para além dos tradicionais burocratas, esta reunião virá a ser abrilhantada com a presença de figuras gradas dos partidos comunistas das repúblicas, como S. N. Imashev do Cazaquistão, L. K. Shepetis da Lituânia, K. N. Kulmatov da Quirguízia, G. B. Bobosadykova do Tadjiquistão ou M. M. Mollaeva do Turquemenistão. Mas, mais significativa que essas presenças será a mensagem endereçada pelo próprio Leonid I. Brejnev, lida no início dos trabalhos:
«Sob a égide do Socialismo desenvolvido, quando a economia do nosso país se transformou num único sistema económico e quando emergiu uma nova entidade histórica - o Povo Soviético, existe objectiva e necessariamente um papel crescente para a língua russa como idioma de comunicação internacional no edifício do Comunismo, na educação do Homem Novo. Em conjunto com o do seu próprio idioma, o emprego fluente do russo, que foi aceite como herança histórica comum por todo o povo soviético, facilitará a futura estabilização da unidade política económica e espiritual do povo soviético. (...)»
Depois do desmembramento da URSS, uma das formas das antigas repúblicas soviéticas fugirem à influência de Moscovo foi passar a privilegiar o inglês como língua de comunicação internacional, como acontece nomeadamente hoje com as três repúblicas bálticas.
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19 março 2018
O INCIDENTE POLACO LITUANO
Para além da nacionalização dos petróleos mexicanos, por estes dias de há oitenta anos assistia-se ao que parecia ser mais outra grave crise na Europa, escassos dias depois da anexação da Áustria pela Alemanha. A disputa envolvia também dois países de dimensões bem distintas, a Polónia e a Lituânia, e também era o maior, a Polónia, a assumir uma postura agressiva, no caso a pretexto de um incidente de fronteira que causara a morte de um soldado polaco. Houvera dezenas de incidentes nos anos precedentes, um punhado com um desfecho infelizmente idêntico, a morte de um dos membros da segurança da fronteira de um dos seus lados, mas dessa vez, na Polónia orquestrara-se uma campanha de rádio e imprensa que mimetizava em mais do que um aspecto a pressão que quase simultaneamente em Berlim se exercera sobre Viena. Na verdade, as relações fronteiriças entre os dois países eram tensas. Desde o fim da Primeira Guerra Mundial que ambos reivindicavam a cidade de Vilnius e a região adjacente. Na altura, a Polónia ganhara a posse de Wilno (como a cidade era designada em polaco) muito à custa da sua superioridade militar, mas a questão mostrava-se muito longe de solucionada, já que os lituanos consideravam-na a capital natural do seu país. E para fazer valer o seu ponto de vista, usavam um bizarro instrumento de pressão diplomática, recusando-se a estabelecer relações diplomáticas com o seu poderoso vizinho polaco enquanto a questão de Vilnius não fosse legalmente resolvida. Parecia aparentemente pouco, mas o encadeamento dos acontecimentos mostra que era uma atitude que irritava profundamente os polacos, afectando-lhes a sua imagem internacional, uma imagem que os polacos precisavam cultivar para as suas políticas de alianças a Ocidente com a França e o Reino Unido, alianças essas contra os outros seus vizinhos mais poderosos, esses sim, inimigos históricos decisivos dos polacos: os alemães e os russos.
Esse receio não impedia, contudo, os polacos de copiar o estilo dos nazis, e é impossível não ver neste forcing da Polónia sobre a Lituânia, com a emissão de um ultimato a 17 de Março de 1938, como uma cópia do ultimato que, por sua vez, a Alemanha enviara à Áustria apenas seis dias antes e que culminara com a anexação da segunda. Será esse ambiente de déjà vu que poderá explicar em grande parte o amplo destaque noticioso que vemos a ser dado aos acontecimentos nestas edições sucessivas do Diário de Lisboa de 17, 18 e 19 de Março de 1938, apesar de se tratar de acontecimentos que decorriam quase do outro lado da Europa. Como se pode perceber pela leitura cronológica dos cabeçalhos das notícias, dia 19, cumprem-se hoje precisamente 80 anos, a Lituânia, que se vira diplomaticamente isolada, acabou por ceder às exigências polacas, nomeadamente na prosaica mas famigerada questão do reatamento das relações diplomáticas. O futuro virá a tornar os polacos numas vítimas da barbárie nazi alemã e da duplicidade soviética russa, mas a realidade daqueles dias mostrava uns polacos que se comportavam como uns sacanas para com os países mais fracos do que eles. O incidente polaco-lituano está hoje completamente esquecido, porque a narrativa adoptada depois da Segunda Guerra Mundial seguiu um outro percurso completamente retocado, exonerando os polacos de todos os pecados cometidos antes do conflito. Ora esta visita ao passado mostra que o assunto foi seguido em Portugal com bastante atenção e apreensão – e isso, apesar de, recorde-se, haver simultaneamente uma guerra civil a decorrer em Espanha. Em contrapartida e para acentuar o contraste do interesse relativo dos assuntos, e para acabarmos o assunto por onde o começámos, vale a pena ver no poste respectivo qual o espaço (exíguo) que o mesmo Diário de Lisboa dedicou à nacionalização dos petróleos mexicanos.
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23 março 2017
A REANEXAÇÃO DE MEMEL (HOJE KLAIPEDA NA LITUÂNIA)
A 23 de Março de 1939, conforme o mostram as imagens abaixo, Adolf Hitler efectuava mais uma das suas visitas triunfais, desta vez à cidade e região de Memel (hoje Klaipeda), reanexada à Lituânia. Porque Memel é um porto (no Báltico), o Führer dessa vez viajara de navio, embora, não por acaso, o meio de transporte fosse o Panzerschiff Deutschland, um meio de transporte que se situaria bem para além das posses até mesmo de um Roman Abramovich. Como neste blogue se tem vindo a assinalar em algumas efemérides deste mês de Março, em Viena ou em Praga e agora em Memel, o final desta década de 1930 parece ter assistido ao aparecimento de novo estilo europeu de turismo "hors saison", com as populações visadas a dispensar um acolhimento exuberante aos turistas...
20 junho 2016
1991 - O ANO DE TODOS OS REFERENDOS
Porque já se passaram 25 anos é natural o esquecimento, mas, a propósito do desta semana no Reino Unido, lembre-se que 1991 foi o ano de todos os referendos. Houve-os para todos os gostos em terras que a eles não estariam habituados. As três repúblicas do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, que faziam então parte da União Soviética, organizaram em Fevereiro e Março desse ano referendos em que se questionava a continuação desse estatuto versus a independência. A ideia fora anteciparem-se a um outro referendo, realizado na própria União Soviética em prol da sua preservação. Este último foi boicotado não apenas nas três repúblicas bálticas acima mencionadas, como também na Geórgia, na Arménia e na Moldávia. Onde se organizaram posteriormente os seus referendos que apuraram precisamente o contrário daquilo que o da União pretendia. Precipitada pela tentativa de golpe de Estado de Agosto, a dinâmica de decomposição da União Soviética parecia imparável, que veio a ser complementada por mais referendos em outras repúblicas, casos do Azerbaijão, do Uzbequistão ou da Ucrânia. A URSS desapareceria ainda antes do fim do ano.
Ora, o que eu não me recordo, nem na época, nem depois, foi ver todo este frenesim referendário ser analisado pela mesma perspectiva predominantemente económica como agora tenho visto estar a ser analisado o referendo britânico. Eu explico-me: já o império russo o fizera anteriormente, mas foi sobretudo depois o poder soviético que lhe sucedera, que promovera activamente a incorporação económica das regiões constituintes da União. Cada república da URSS tendia a especializar-se num conjunto de actividades tendo como mercado as restantes regiões. Essa grande área económica veio a alargar-se a partir de 1945 com a hegemonia exercida pelos soviéticos sobre a Europa de Leste e em países adjacentes como a Finlândia. Um dos paradoxos dessa complementaridade é que a Rússia, e ao contrário do que acontece tradicionalmente nestes casos, como região hegemónica e predominante do conjunto, não se especializara na produção de produtos sofisticados mas apenas das matérias-primas, sobretudo de origem siberiana. É assim que ainda hoje, a Ucrânia e muitos países da Europa de Leste estão forte, quando não totalmente, dependentes da energia russa. A integração económica do conjunto implicaria que a desagregação da União Soviética em 1991 iria ter um impacto profundo em metade da Europa. Como teve: veja-se o gráfico abaixo e a recessão que campeou por lá, em todos os países sem excepção, tanto do antigo espaço soviético como fora dele, durante a primeira metade da década de 1990.
Ora, o que eu não me recordo, nem na época, nem depois, foi ver todo este frenesim referendário ser analisado pela mesma perspectiva predominantemente económica como agora tenho visto estar a ser analisado o referendo britânico. Eu explico-me: já o império russo o fizera anteriormente, mas foi sobretudo depois o poder soviético que lhe sucedera, que promovera activamente a incorporação económica das regiões constituintes da União. Cada república da URSS tendia a especializar-se num conjunto de actividades tendo como mercado as restantes regiões. Essa grande área económica veio a alargar-se a partir de 1945 com a hegemonia exercida pelos soviéticos sobre a Europa de Leste e em países adjacentes como a Finlândia. Um dos paradoxos dessa complementaridade é que a Rússia, e ao contrário do que acontece tradicionalmente nestes casos, como região hegemónica e predominante do conjunto, não se especializara na produção de produtos sofisticados mas apenas das matérias-primas, sobretudo de origem siberiana. É assim que ainda hoje, a Ucrânia e muitos países da Europa de Leste estão forte, quando não totalmente, dependentes da energia russa. A integração económica do conjunto implicaria que a desagregação da União Soviética em 1991 iria ter um impacto profundo em metade da Europa. Como teve: veja-se o gráfico abaixo e a recessão que campeou por lá, em todos os países sem excepção, tanto do antigo espaço soviético como fora dele, durante a primeira metade da década de 1990.
Ora, para voltar ao tema por onde havia começado o parágrafo anterior, não me recordo de ter ouvido muitas Cassandras económicas em 1991. Havia efectivamente muitas vozes agoirentas - há-as sempre - mas sempre no quadro do problema político e estratégico. Porque de um problema político se tratava, embora com enormes repercussões económicas. Neste caso do referendo britânico o que eu tenho estado a assistir é à subversão do que é a causa e do que é a consequência, do que é primordial e do que é acessório. Os britânicos, tal como outrora os lituanos e os restantes povos soviéticos o fizeram, decidirão da sua continuação na União Europeia por variadíssimas razões. Algumas até erradas; outras insignificantes; a económica será uma delas, mas não sei aquilatar da sua importância no computo global. Sei que no caso da dissolução da União Soviética não pesou grandemente, pois o impacto negativo nas economias das republicas era antecipável e não foi determinante. Mas, por causa do que me parece um expediente argumentativo, confesso que me tenho dedicado a um exercício que me tem divertido imenso e que aqui quero compartilhar com o leitor: quando se depararem com alertas quanto à evolução económica desfavorável no caso do Reino Unido abandonar a União Europeia, perguntem-se - e normalmente é fácil adivinhar a resposta... - se aquela mesma pessoa seria capaz de apresentar o mesmo género de argumentos - os prejuízos económicos - se ele fosse para ser utilizado como argumento em prol da continuação da União Soviética...
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28 abril 2016
«OBER OST»
Sob o nome de Ober Ost, formou-se a partir de 1915, uma estrutura administrativa dos territórios que haviam sido conquistados e estavam ocupados pelo exército alemão na frente oriental. Ocupando as terras imediatamente adjacentes à Prússia e ocupando também as costas do Báltico, o Ober Ost, conforme os mapas que se exibem, tinha uma extensão total de 108.800 km² (20% da Alemanha) e, de acordo com o último recenseamento que fora efectuado pelo poder imperial russo em 1897, uma população cifrada em 2.900.000 habitantes. Mas muito heterogénea, tanto na composição como também na forma como se distribuía: havia uma área central onde predominavam os lituanos (34% da população), outra onde predominavam os bielorrussos (21%) a sul e noutra ainda os letões (10,5%) a norte, mas os judeus (13,5%), os polacos (12%) e os russos (6%) estavam disseminados por toda a parte, sobretudo nas cidades. A sua capital, que era a localização do Quartel-General alemão para a Frente Leste era a cidade de Kaunas. De acordo com as leis internacionais e as práticas da época, os territórios conquistados seriam para ser administrados pelas autoridades civis pré-existentes durante o período que durasse a ocupação militar. O status quo político só poderia ser alterado depois da guerra. Porém, naquele caso, as autoridades imperiais russas também haviam fugido à frente dos exércitos alemães, cumprindo as instruções de Petrogrado de criar aos invasores a tradicional política russa de terra queimada diante de um invasor. Os militares alemães foram assim sugados para aquele vácuo administrativo e tiveram que assegurar muitos aspectos triviais do quotidiano para o prosseguimento das suas operações. Não sendo assim uma criação deliberada dos alemães – o regime em vigor na mesma época na Bélgica também ocupada era diferente deste, por exemplo – o Ober Ost tornou-se, apesar disso, no mais famoso sistema de ocupação militar a que se assistiu durante a Primeira Guerra Mundial. E isso porque, como veremos adiante, configurou um claro antecedente aos métodos brutais que os mesmos alemães viriam a assumir no Leste da Europa na Segunda Guerra Mundial.
A figura dominante desse estado militar de Ober Ost foi Erich Ludendorff (acima), a sua pessoa mas também o seu pensamento político-militar, que depois se viria a impor em toda a Alemanha nos dois anos finais do conflito (de 1916 a 1918). Como se fosse uma adaptação ao século XX do trabalho dos cavaleiros teutónicos que haviam colonizado a Prússia, Ludendorff descrevia esta sua tarefa como uma obra de civilização que iria beneficiar o exército, a Alemanha mas também o próprio país e os seus habitantes – atente-se à ordem como os factores são nomeados... Os oficiais de Ludendorff tornaram-se vítimas da sua própria propaganda e concebiam-se como paladinos da civilização e da cultura. Ober Ost estava destinada a ser uma colónia adjacente ao Reich, um estado tampão onde se fixariam os alemães vindos da Rússia depois da vitória. A engenharia militar, por exemplo, não só reerguera as diversas pontes destruídas pelos russos à retirada como até construíra outras, 434 no total, incluindo uma extensíssima cruzando o rio Bug na província meridional de Bialystok. Outros investimentos foram feitos directamente nos sectores produtivos, conservas, lacticínios, serrações, carpintarias para aproveitar a rica cobertura florestal do sul do país. Também a educação, pelo menos a dos níveis mais elementares, não foi descurada: sob o regime militar o número de escolas primárias duplicou para mais de 1.350. O problema era o que esta utopia custava, e não apenas em custos materiais, aos habitantes locais, para quem tudo aquilo não estava a ser construído. Naquilo que seria um híbrido entre uma Constituição local e uma Ordem de Serviço de uma unidade militar, deixava-se isso claro a 7 de Junho de 1916 quandos e escrevia que os interesses do exército e do Reich alemão se sobreporão sempre aos do território ocupado. Como uma qualquer colónia de África, a menor preocupação dos militares alemães era captar a simpatia das populações submetidas...
Considerações várias, algumas delas pertinentes, levaram as autoridades a restringir completamente a circulação das pessoas. Havia barreiras para o exterior mas também as havia internas, separando as várias províncias, tornando os passes obrigatórios para a mais ínfima deslocação. Com uma meticulosidade alemã, todo o país foi submetido a um registo de pessoas – um cartão de identificação para os maiores de 10 anos – e de propriedades – um cadastro como as autoridades russas nunca haviam elaborado. O regime tributário tornou-se opressivo, não apenas através dos impostos directos sobre as pessoas, os imóveis ou os lucros, mas sobretudo via impostos indirectos, cobrados através de monopólios estatais em produtos como os cigarros, bebidas alcoólicas, cerveja, sal, açúcar, sacarina e fósforos. E o rigor alemão dava uma outra eficácia fiscal a documentos como licenças de pesca ou a autorizações - muito contestadas - para a posse de cães. Mas a exigência das autoridades militares de Ober Ost que era pior suportada pelas populações locais fora m as corveias que lhes começaram a ser impostas a partir de Janeiro de 1916. Muitos milhares foram assim recrutados para trabalhar nos projectos alemães de construção de novas estradas, vias férreas e linhas telegráficas, em que os empreendimentos saíam a um preço de saldo – os trabalhadores não eram remunerados... Os judeus, como grupo predominantemente urbano, sem trabalhar nas áreas que os alemães reputavam de sensíveis (como a agricultura), foram desproporcionadamente afectados por essa mobilização para os Z.A.B. – Zivil Arbeiter Batallionen (batalhões de trabalhadores civis). Só na província da Lituânia, estima-se que 130.000 homens e mulheres foram recrutados dessa maneira. Não se sabe o número de mortes mas sabe-se o de execuções: 1.000 - mais uma vez: apenas nessa província. As condições eram horríveis, a alimentação má e escassa (250 gramas de pão/dia), os alojamentos estavam rodeados por arame farpado, as sanções por mau comportamento eram frequentes e envolviam agressões físicas, e os prisioneiros – pois não passavam disso – raramente conseguiam contactar com as suas famílias. As taxas de deserções e, sobretudo, de mortalidade eram impressionantes.
Em Agosto de 1916, porque a dupla Hindenburg/Ludendorff foi chamada a Berlim para assumir a direcção estratégica do esforço de guerra alemão, o Ober Ost passou a ser dirigido por uma figura decorativa e mais amena do que o fora o austero Ludendorff, o príncipe Leopoldo da Baviera (acima), um velhote de 70 anos (acima). Ainda bem para os alemães porque um dos efeitos colaterais da Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia, e da consequente capacidade de atracção que ela produziu entre as populações locais, foi que obrigou os alemães a terminar com as práticas mais criticáveis, dissolvendo, por exemplo, embora apenas na teoria, os ZAB em Setembro de 1917. Claro que sob outro nome acabou por quase nada mudar, porque o investimento nas infra-estruturas do Ober Ost, agora numa perspectiva de vitória, parecia ser cada vez mais importante para os alemães para poder ser cancelado. O problema é que as duas revoluções russas de 1917 - a de Fevereiro, derrubando o czar, e a de Outubro que levou os bolcheviques ao poder - haviam criado uma dinâmica independentista entre as várias nacionalidades que anteriormente haviam estado submetidas ao poder imperial russo – polacos, finlandeses, lituanos, letões, estónios, ucranianos – dinâmica essa que os alemães já não conseguiam controlar por causa da forma como haviam malbaratado a boa vontade dessas nacionalidades nos primeiros anos da guerra. Tipicamente, quando num gesto de leniência os alemães permitiram que em Setembro de 1917 se reunisse a Taryba, uma assembleia de notáveis lituanos, esta rapidamente extravasou as suas competências e em Fevereiro de 1918, em antecipação às concessões que os alemães haviam obtido dos russos no Tratado de Brest-Litovsk, proclamou a independência da Lituânia. Relativamente pouco conhecida, como de resto o é toda a História da Frente Leste da Primeira Guerra Mundial (1914-17), esta proto-colónia chamada Ober Ost demonstra a superioridade implícita como os alemães sempre se apresentaram diante dos seus vizinhos europeus e de como se trata de um fenómeno social independente (que até precedeu historicamente a ascensão) do nazismo.
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21 março 2014
UMA SINTÉTICA HISTÓRIA DA UCRÂNIA
Uma das ironias mais interessantes da actual situação que confronta Rússia e Ucrânia é que o primórdio da História dos dois países é comum. Ou melhor: a História da Rússia começou na Ucrânia. O primeiro capítulo de A History of Russia c. 882 – 1996 de Paul Dukes é dedicado à construção e colapso de Kiev, 882 – 1240; também em Russia’s Empires de Philip Longworth o primeiro dos impérios russo é o de Kiev, c.850 – 1240. O primeiro capítulo deste segundo livro aborda até um tema pertinente, mas de discussão impertinente nos dias que correm: quem são os russos? Serão os ucranianos um subgrupo dos russos? Mas ultrapassemo-lo para começar a narrativa da fundação da cidade de Kiev (Kyiv em ucraniano) nas margens do rio Dniepre, na encruzilhada de duas rotas comerciais: uma terrestre que ligava de Leste para Oeste a Europa e a Ásia Centrais, a outra fluvial e na época muito mais importante, de Sul para Norte, conectando o mar Báltico e o mar Negro e, através deste, a grandiosa metrópole de Constantinopla, a capital do Império Romano.
As elites desse primeiro estado russo terão vindo de Norte, da Escandinávia, numa época em que, como vikings, os povos nórdicos atravessaram uma verdadeira explosão populacional que os fez instalarem-se por quase toda a Europa. Mas as principais influências culturais vinham do Sul. O ano de 988 é considerado o ano da adopção do cristianismo como religião oficial pela corte de Kiev – compare-se com datas simbólicas semelhantes para a Polónia (966) ou a Hungria (1000). Porém, ao contrário destes dois casos, o rito adoptado em Kiev é o Ortodoxo e a subordinação é ao Patriarca de Constantinopla, em vez do Papa. É a expansão deste estado conectando Kiev num eixo de Sul para Norte até à cidade mercantil de Novgorod (veja-se o mapa acima) que lhe confere o carácter pan-eslavo que o torna o antepassado daquilo que seria uma ideia mais vasta transcendendo o que seria apenas os primórdios da nacionalidade ucraniana. Esse estado foi-se expandindo e fraccionando em unidades menores autónomas ao longo dos Séculos XI e XII, até à data inequívoca do seu colapso final, a da conquista e o saque de Kiev pelos mongóis em 1240.
Os centros de poder mudaram-se com ela. A Ocidente haviam sobrado da conquista mongol os principados da Galícia e da Volínia, em breve fundidos num só reino e também numa complexa relação de hostilidade política mas aproximação cultural com os reinos católicos adjacentes da Polónia e da Hungria. A Nordeste, uma miríade de principados genuinamente russos começava a recompor-se dos efeitos do tsunami mongol e a evoluir paulatinamente para a concentração à volta de Moscovo como centro do primeiro estado genuína e especificamente russo. Mas foi de Noroeste que vieram os próximos senhores da Ucrânia: em 1362, Kiev foi conquistada, passando a fazer parte de um grão-ducado da Lituânia que estava em vias de se tornar territorialmente num dos maiores estados europeus (acima). Em 1386, esse grão-ducado reuniu-se ainda num regime de união pessoal com o reino da Polónia. Durante quase 200 anos a unidade dessa associação de coroas permaneceu frágil, à mercê das vontades dos nobres polacos, onde a escolha do rei se processava por eleição. Era um estado extensíssimo, mas frágil por falta de uma metrópole central: note-se no mapa abaixo o rosário de cidades importantes mas todas periféricas, sem capacidade de assumir a preeminência, desde Vilnius no Norte, a capital da Lituânia propriamente dita e depois, no sentido horário, Smolensk, Kiev, Lvov, Cracóvia e Varsóvia.
Finalmente, em 1569 deu-se a formalização da União dos dois estados, num figurino que iria durar outros 200 anos, embora a solução tenha sido alcançada à custa de uma supremacia da metade polaca (e católica) sobre as restantes nacionalidades. No entanto, reconheça-se que o ressurgimento económico de Kiev data dessa época da segunda metade do Século XVI. É nessa altura que a palavra Ucrânia (que quer dizer região fronteiriça) começa a ser empregue, que a nobreza ucraniana, que era originalmente lituana, se torna polaca por aculturação, e que uma identidade verdadeiramente ucraniana se começa a forjar com o aparecimento dos cossacos. Cossaco é uma palavra que tem uma interpretação fluida: há quem o considere um grupo étnico, há quem o considere sobretudo um modo de vida. Tratava-se originalmente de servos que abandonavam as suas regiões de origem para se irem instalar para lá do Dniepre, terras ainda por desbravar e que, por isso, estavam fora do alcance das autoridades tradicionais. Essas sociedades que aí se formavam eram predominantemente masculinas, violentas, permitiam ascensões sociais abruptas e eram também ferozmente ortodoxas, nem que fosse para acentuar o contraste com o catolicismo polaco do status quo que haviam abandonado. Os cossacos costumam ser frequentemente comparadas aos cow-boys do Oeste norte-americano embora tivessem ainda sobre eles a possibilidade adicional de se tornarem mercenários.
Em 1648, um desses generais mercenários, Bohdan Khmelnytskyi (1595-1657), desencadeou uma revolta bem-sucedida contra o poder lituano-polaco no fim da qual (1654) conseguiu obter o reconhecimento de uma autonomia para um estado cossaco na Ucrânia a Leste do Dniepre englobando a própria cidade de Kiev. O mapa acima mostra-nos a área desse estado autónomo. Mas note-se como, tratando-se da fronteira da civilização de então, quase todo o terço oriental da Ucrânia moderna, incluindo até a cidade de Kharkov (Kharkiv em ucraniano, cidade que só virá a ser fundada em 1656), ainda não faz parte dessa civilização. Ora, no Portugal contemporâneo já se havia dado a Restauração (1640) e era a última dinastia da sua História que ocupava já o trono. As inúmeras análises que se lêem actualmente sobre a Ucrânia tendem a esquecer esse aspecto: a sua relativa juventude quando comparada com os espaços da velha Europa. Para o que interessa, Khmelnytskyi transformou-se num herói da história ucraniana… mas também da história russa: as necessidades da política internacional obrigaram-no, para que a secessão tivesse sucesso, a trocar a suserania polaco-lituana pela dos russos de Moscovo. Em contrapartida, o tratamento histórico dado ao seu sucessor Ivan Mazepa (1639-1709) já não será assim tão consensual, porque ele tentou inflectir a política de associação com a Rússia, coligando-se com os seus inimigos suecos. Infelizmente para ele, o tsar Pedro o Grande venceu a decisiva batalha de Poltava em 1709. Os cossacos da Ucrânia Oriental perderam quase todos os seus direitos especiais. E 84 anos mais tarde, nas partições da Polónia de 1793 e 1795 (abaixo), a Rússia conseguia anexar quase toda a Ucrânia Ocidental, com excepção da Galícia (com a cidade de Lvov, rebaptizada de Lemberg), que coube à Áustria.
Apresentando-se repartida por dois Impérios multiculturais, a Ucrânia desaparece da História política por 200 anos para conseguir ressurgir no Século XIX através da sua identidade cultural. A questão é que existiam dois pólos que a dinamizavam, através da literatura e da poesia: Kiev na Rússia e Lvov na Áustria. Havia muito a distingui-los: o passado histórico, que fazia com que a religião predominante na Galícia fosse o greco-catolicismo (ortodoxos, mas integrados na hierarquia da igreja católica romana) enquanto a religião maioritária do resto dos ucranianos era a ortodoxa tradicional (sedeada em Moscovo); mas também o presente político, dividindo para reinar, os austríacos incitavam o nacionalismo ucraniano para que ele servisse de contrapeso ao polaco, os russos, pelo seu lado, reprimiam-no brutalmente, o ucraniano e o polaco. Entre 1876 e 1906 proibiu-se na Rússia a impressão de obras escritas em ucraniano. Eram publicadas em Lvov. A relação entre as duas metrópoles da cultura ucraniana faz lembrar, ainda hoje, a de dois irmãos que não desenvolveram grande intimidade entre si. Mas note-se a ausência nesta equação de cidades importantes situadas na Ucrânia, como a já acima referida Kharkov ou então Odessa, fundada em 1794 por decreto de Catarina II, uma cidade portuária de formação cosmopolita (teve até o duque de Richelieu por um dos seus primeiros governadores), situada nas costas do mar Negro. Em 1917, Odessa era a quarta maior cidade do Império e a maior da Ucrânia, mas era uma cidade imperial, mais russa que ucraniana.
O colapso dos Impérios russo em 1917 e austro-húngaro em 1918 constituiu uma oportunidade impar para que os nacionalistas obtivessem a independência da Ucrânia. A fotografia acima é de Janeiro de 1919, foi tirada em Kiev, uma manifestação celebrando a proclamação da união da antiga Ucrânia russa com a Ucrânia ocidental que fora austríaca. As ameaças à existência desta Ucrânia eram, porém, poderosas. Não apenas as duas facções russas (vermelhos e brancos) que se digladiavam na guerra civil pelo domínio do Império e que recolhiam significativas simpatias entre os ucranianos de concepção pan-eslava, mas também as aspirações nacionalistas de uma Polónia entretanto renascida, disposta a recuperar territórios da Ucrânia ocidental que haviam sido seus 125 anos antes. Em 1925, a Ucrânia estava de novo dividida por uma nova fronteira que se assemelhava muito à de 1914, só que a Galícia e a Volínia (com Lvov) estavam agora sob tutela polaca (abaixo). Agora era do lado russo que havia uma maior tolerância para a cultura ucraniana – embora a capital da república socialista soviética da Ucrânia até 1934 tivesse sido Kharkov! – enquanto a repressão cultural se fazia sentir mais vincadamente a Ocidente, com os polacos a procurar assimilar culturalmente os ucranianos. Porém, para além dos aspectos culturais, a administração soviética da Ucrânia tornou-se responsável por uma palavra específica, cunhada para acontecimentos que só se tornaram verdadeiramente conhecidos de há uns 25 anos para cá: Holodomor. É sinónimo de uma fome generalizada e deliberadamente provocada, consequência directa do processo de colectivização das terras agrícolas e que terá custado a vida a vários milhões nos princípios da década de 1930, sob Staline.
Foi em consequência disso que, durante a Segunda Guerra Mundial e especialmente depois da invasão da União Soviética pela Alemanha em 1941, os nacionalistas ucranianos começaram por acolher favoravelmente os invasores alemães até se aperceberem que eles não passavam de um terceiro partido num gigantesco embate de titãs, pouco atreitos às subtilezas de quem estava de permeio. Acabaram por ser aliados de uns e outros (alemães e soviéticos) assim como também os combateram. Serão poucos os que sabem que um dos principais generais soviéticos a ter combatido na Ucrânia, Nikolai Vatutin (1901-1944), morreu em consequência dos ferimentos causados por uma emboscada montada por guerrilheiros ucranianos; serão poucos os que sabem que vários anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial ainda havia uma guerrilha nacionalista activa que obrigava à mobilização de vários milhares de homens do KGB. Mas a verdade é que não foi apenas por culpa dos soviéticos que os nacionalismos dos povos constituintes da União Soviética (é também o caso dos povos bálticos) desapareceram da agenda mediática nos 45 anos que se seguiram ao fim da guerra. Os Estados Unidos também os consideraram causas nacionais desinteressantes, demasiado expostas e com poucas possibilidades de sucesso, situadas muito para além das fronteiras de segurança que os soviéticos haviam traçado em Ialta – nomeadamente a cortina de ferro. Mas não nos antecipemos…
A Ucrânia terá sido uma das repúblicas da União Soviética mais severamente devastada pelo conflito de 1941-45. Depois da guerra recuperou as duas províncias ocidentais que haviam pertencido à Polónia. O processo foi também acompanhado de uma importante migração de populações: mais de um milhão de polacos foram transferidos para Ocidente, um número substancialmente inferior de ucranianos atravessaram a fronteira no sentido inverso. A Ucrânia era a segunda república mais importante da União, a seguir à própria Rússia e a política oficial era de que tudo corria pelo melhor na relação entre elas (acima, um cartaz de propaganda a esse respeito). É claro que nem sempre era bem assim: em 1972, Leonid Brejnev afastara o primeiro secretário do partido comunista ucraniano Petro Shelest, acusado de nacionalismo e substituído por um Vladimir Shcherbytsky de muito mais confiança. Tanta, que ele ainda por lá estava, no mesmo cargo, em 1989… Nesse mesmo ano realizou-se aliás o último censo soviético. Segundo ele, 72% da população da Ucrânia era classificada como ucraniana, enquanto 22% era russa, concentrada sobretudo nas províncias (oblast) orientais e meridionais (abaixo). Mas tratava-se de uma daquelas imagens convenientes, típicas da lógica soviética de mostrar aquilo que se deseja (uma nacionalidade maioritária dentro da sua própria república), e não aquilo que já então deveria existir e que se mostra no mapa final, resultado do censo realizado em 2001: há uma apreciável proporção de ucranianos que se exprimem em russo e que constituem, com os russos propriamente ditos, um bloco sociológico (e também político) que tem um peso demográfico (e também eleitoral) muito semelhante ao dos ucranianos que se exprimem em ucraniano (mais abaixo).
Podem-se ver nesta ligação alguns exemplos da coincidência entre a distribuição geográfica das votações de diversos actos eleitorais e estes mapas etno-linguísticos. Pode dizer-se que na Ucrânia coexistem dois eixos ligando cidades importantes: há um, cultural, no sentido Leste-Oeste que liga Kiev a Lvov (azul), cidades a que aqui várias vezes nos referimos ao longo desta sintética História da Ucrânia; há outro, económico, de Nordeste para Sudoeste, unindo Kharkov com Odessa (vermelho), cidades que foram muito menos referidas. O que é muito mais difícil será perceber como se pode conectar um eixo com o outro… e manter a unidade da Ucrânia sem que uma das metades tenha a sensação que está a ser dominada pela outra. Trata-se de um país dividido e será uma evidência dizer que não se devem propor propostas de divisão de um país de ânimo leve. Mas também é verdade que não se pode excluir tal hipótese e que houve várias razões circunstanciais que levaram as potências a decidirem-se pela divisão de um país: fosse por 20 anos (o Vietname), por 70 anos (e ainda a contar: caso da Coreia) ou mesmo sem fim à vista (a Índia e o Paquistão). Mas permitam-me agora regressar à cortina de ferro que deixámos em suspenso lá em cima e evocar o exemplo da Alemanha, com uma sociedade aparentemente muito mais cimentada do que aquilo que acontecerá na Ucrânia, que também permaneceu dividida por 45 anos devido às tais circunstâncias. Vale a pena essa referência para nos apercebermos do quanto as fronteiras de segurança da Rússia recuaram neste últimos 25 anos, quando a criação de um estado satélite quase no centro da Europa (Alemanha Democrática) é agora substituída pela hipótese de um seu equivalente (Ucrânia oriental) na sua vizinhança imediata. Esta última observação não é para o leitor ter pena dos russos, é para que se perceba que os norte-americanos não andam nisto para lhes facilitar a vida.
24 setembro 2013
GUERRILHAS, LUTAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL E PROCLAMAÇÕES POLÍTICAS
Hoje, quando se completam 40 anos sobre a proclamação unilateral da independência da Guiné Bissau vale a pena falar de outras guerrilhas, de outras lutas de libertação nacional e de outras proclamações políticas a elas associadas que, não apenas por terem sido de certa forma menos bem sucedidas que a da Guiné-Bissau, nem sequer se ouve falar delas. Um excelente exemplo disso são as guerrilhas que se travaram ao longo do decénio que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial em qualquer dos três estados do Báltico, Estónia, Letónia e Lituânia, especialmente nesta última (exemplificado pela declaração acima). Contribuiu para o desconhecimento generalizado dessas outras lutas de libertação nacional o facto da potência colonial ser, naquele caso, a União Soviética e dos seus rivais norte-americanos se terem decidido a não investir estrategicamente nessas guerrilhas¹.
Apesar de uma cobertura vegetal (acima) favorável à manutenção de pequenas secções de guerrilheiros habilitados a perturbar o exercício da autoridade soviética, os restantes factores, a opacidade informativa que um regime totalitário como o soviético podia manter conjugada com a ausência de apoios logísticos vindos do exterior condenaram a expressão militar dos três nacionalismos bálticos a um fracasso a longo prazo. Mesmo assim, ainda se registaram episódios esporádicos – permanentemente abafados – de resistência armada durante as décadas de 1960 e 1970. E o desaparecimento da luta armada não foi acompanhada do desaparecimento do nacionalismo em qualquer daqueles países, lembrando aliás um outro exemplo do universo dos países de língua oficial portuguesa: Timor-Leste. Em 1991, os três países foram os primeiros a separarem-se da União Soviética, precedendo a implosão desta última.
¹ Possivelmente para evitar que a União Soviética retaliasse simetricamente, promovendo empenhadamente os movimentos separatistas nos estados dos Estados Unidos...
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24 novembro 2011
O ÚNICO CENSO RUSSO DA ERA IMPERIAL
A música para ir acompanhando a leitura é do compositor russo Modest Mussorgsky (1839-1881): Quadros duma Exposição (1874)
Apenas através deste artifício o Império Russo podia apresentar a imagem de um núcleo central maioritário eslavo de religião ortodoxa constituído por ⅔ da população. Com o resto da população eslava não se podia contar: havia 7,9 milhões de polacos (6,3%) de confissão católica romana concentrados num Reino da Polónia de que o Czar era o monarca e que fora criado em 1815 (ver mapa acima). Mas a história dessa Polónia dual ao longo do Século XIX era a de um sucesso económico (Varsóvia era a terceira cidade do Império depois de São Petersburgo e de Moscovo) mas de uma contínua instabilidade política onde as revoltas polacas (1830, 1863) eram seguidas por ferozes repressões russas. Um outro grupo importante na Polónia e também nas regiões ocidentais do Império era o dos judeus: havia 5,1 milhões de falantes de ídiche (4,0%), um idioma germânico que se escreve em alfabeto hebreu. A importância da comunidade era acrescida pela sua sobre-representação entre a população urbana. Por exemplo, numa cidade como Brest, hoje localizada na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia, os judeus constituíam ⅔ da população de 45.000 habitantes. Seria, a par dos polacos, finlandeses ou alemães, uma das nacionalidades mais evoluídas mas também uma das que mostraria uma maior resistência àquilo que as autoridades imperiais qualificariam como assimilação…
Contudo, havia outros grupos nacionais a Ocidente com histórias de sucesso na sua integração sem assimilação no quadro imperial: a Finlândia, que era um Grão-Ducado que gozava de uma ampla autonomia, era um desses casos (os finlandeses eram 2,5 milhões – 2,0%). E embora com muito menos autonomia, algo de semelhante acontecia na região do Báltico, onde as populações estónias (1,0 milhão), letãs (1,4 milhão) e lituanas (1,6 milhão), ou seja cerca de 3,2% da população total, eram controladas por uma elite de ascendência alemã (que constituíam 1,8 milhão em todo o Império – 1,4%), uma das mais fiéis a São Petersburgo, uma ironia dada a história futura da relação entre alemães e russos. Essas eram as fronteiras pacíficas do Império Russo. As outras eram regiões de expansão, turbulentas como as populações que nelas habitavam. Na que confinava com os Balcãs, onde as potências rivais haviam incentivado a criação da Roménia de língua latina (1878) para obstar à expansão dos russos para as regiões dos eslavos no Sul da Europa, existia, apesar disso, uma minoria (1,1 milhão – 0,9%) que falava o romeno. Outras fronteiras meridionais da Rússia eram povoadas por uma confederação de nacionalidades que o Censo classificou demasiado genericamente de Turco-Tártara, que se estendia do Mar Negro ao Pacífico, composta por 13, 4 milhões de pessoas (10,6%).
Uma apreciável parte deles eram descendentes de tribos nómadas que, sob a bandeira mongol, haviam conquistado a Rússia no Século XIII e muitos continuavam os hábitos nómadas de outrora (acima), embora houvesse outros que haviam assentado (abaixo). Porém, quase todos professavam o Islão, que era a religião de 13,9 milhões dos súbditos do czar (11,1%). A maior concentração de muçulmanos localizava-se na Ásia Central (7,7 milhões), onde a administração russa funcionava segundo um modelo colonial clássico. Os soviéticos reorganizaram depois a região nas cinco repúblicas que são as que hoje perduram: Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, Tajiquistão e Quirguízia. Uma segunda região muçulmana, que começara a ser integrada no Império já a partir de meados do Século XVII, estendia-se desde a Península da Crimeia até ao curso inferior do Rio Volga. Ao contrário da Ásia Central, neste caso a imigração dos russos alterara o panorama demográfico, fazendo com que a população muçulmana fosse significativa mas não predominante. Exemplo: ainda hoje há quase tantos russos quanto tártaros no Tartaristão. Finalmente havia uma terceira região de predomínio muçulmano: o Cáucaso. A região é célebre pela complexidade do seu relevo que interfere na distribuição e classificação das suas etnias que desafia as descrições simplificadas que se tentem conceber...
Contornando isso, há que referir que, apesar do carácter tradicionalmente combativo dos povos do Cáucaso que muitos problemas militares causara, o Império Russo contava ali com dois aliados sólidos, tanto os georgianos (1,4 milhões – 1,1%) como os arménios (1,2 milhões – 1,0%) eram povos de confissão cristã numa região que lhes era francamente hostil: já houvera príncipes georgianos a comandar exércitos russos contra Napoleão e, quanto ao futuro, Stalin, quase todos o saberão, era georgiano. O Censo de 1897, mau grado a manipulação a que foi sujeito, foi um instrumento único na identificação das minorias relevantes dentro do Império Russo. Dá para perceber que, como regra geral, o tratamento dado por São Petersburgo a cada minoria variava em função, não apenas da cumplicidade recíproca entre minoria e poder central, mas também na razão inversa da sua sofisticação cultural: quando maior esta, também maior era a hostilidade imperial. Mas, com essa notável excepção dos polacos, cuja direcção política clandestina nunca se terá disposto a reivindicar nada menos que a independência total, há que reconhecer que em 1897 a questão das nacionalidades ainda não seria um problema sério para a subsistência do Império. A Revolução de 1905, que irá ter lugar dali por oito anos, abanando o regime, deverá ser analisada sobretudo – senão exclusivamente – pela sua componente social.
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09 abril 2008
A OCUPAÇÃO DOS PAÍSES BÁLTICOS E A GALA DA ÓPERA DE RIGA

Entre os inúmeros episódios da Segunda Guerra Mundial conta-se o da ocupação dos três países bálticos pela União Soviética, no seguimento da assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, de 24 de Agosto de 1939, ou seja imediatamente antes do seu início (que aconteceu a 3 de Setembro). A História amalgamou depois os acontecimentos no Báltico, mas em primeiro lugar, os soviéticos persuadiram os três países a assinar Tratados de Assistência Mútua que foram firmados a 28 de Setembro pela Estónia, uma semana depois (5 de Outubro) pela Letónia e na semana seguinte (11 de Outubro) pela Lituânia...
Diga-se, entrementes, que este episódio não tem nada daquelas histórias morais que têm os bons e os maus. Pelo termos do Pacto, a União Soviética só assim procedeu porque os alemães haviam deixado os bálticos entregues à sua sorte e apenas haviam acautelado o destino da minoria germânica que neles habitava, que veio a ser evacuada para a Alemanha. Os regimes vigentes em qualquer dos três países eram de cariz autoritário e conservador, e haviam saído de golpes de estado na década de 30 que haviam derrubado as democracias parlamentares que haviam ali vigorado anteriormente.
Em Junho de 1940, aproveitando a circunstância de a atenção do Mundo estar virada para o outro lado da Europa com os episódios finais da vitória da Alemanha contra a França – como a ocupação de Paris, a rendição francesa – a União Soviética ocupou decisivamente os três países, onde já estavam aquarteladas várias unidades do Exército Vermelho, que ali tinham entrado ao abrigo dos Tratados assinados 8 meses antes. Em finais de Julho de 1940, os novos governos dos três novos países socialistas (Estónia, Letónia e Lituânia), pediram a sua adesão à União Soviética… Quem é que não gostaria de aderir à União Soviética?...
A História continuou o seu curso, e estes episódios são quase todos notas de rodapé, embora contenham elementos de pequena história que valem sempre a pena. A chegada das unidades do Exército Vermelho a cidades ocidentais onde vigorava uma sofisticação* há muito esquecida na pátria dos trabalhadores causou um certo choque cultural. Então não é que as damas dos oficiais russos estacionados em Riga (na Letónia na fotografia inicial), hospedadas em moradias burguesas propositadamente requisitadas** para tão altas patentes, foram a uma gala da Ópera envergando camisas de noite pensando tratar-se de vestidos compridos?... * Os indicadores de nível de vida na Estónia, por exemplo, eram superiores aos da vizinha Finlândia.
** E os seus moradores obviamente despejados...
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