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24 junho 2024

A ESTREIA DA CANTATA «CRISTO NOSSO SENHOR VEIO AO (RIO) JORDÃO» DE JOHANN SEBASTIAN BACH

24 de Junho de 1724. Por ser dia de São João, dá-se a estreia em Leipzig de mais uma das cantatas compostas por Johann Sebastian Bach, Cristo nosso Senhor veio ao Jordão (Christ unser Herr zum Jordan kam - BWV 7). O título e a inspiração da obra remete para um hino que fora originalmente escrito ainda no século XVI pelo reformador Martinho Lutero. Leipzig e a Saxónia eram então, e permaneceriam por mais duzentos anos, o bastião do protestantismo luterano.

03 março 2024

A ABOLIÇÃO DO CALIFADO E A PERSONALIDADE DO ÚLTIMO CALIFA

Convirá explicar previamente ao leitor menos sensibilizado para as nuances de que se revestira o poder otomano, que, durante mais de 400 anos, o sultão que reinara a partir de Constantinopla, fora também o califa, agregando em si os poderes temporal e espiritual, o monarca absoluto de todos os súbditos do império otomano, mas simultaneamente o líder da Umma, a comunidade espiritual dos muçulmanos de todo o mundo. Este último poder era mais simbólico que efectivo e fora por isso que, quando a Assembleia Nacional turca decretara a abolição do sultanato em 1 de Novembro de 1922, expulsara o sultão Mehmed VI do trono, mas permitira que este tivesse um sucessor no cargo de califa na pessoa do seu primo Abdul Mejide II.
Que me perdoem esta indispensável explicação prévia, mas sem ela não se compreenderia o significado de, dezasseis meses depois, a 3 de Março de 1924 (cumprem-se hoje precisamente cem anos), ter sido por sua vez Abdul Mejide II a ser deposto. Os novos poderes turcos assumiam-se ostensivamente laicos e pretendiam descartar-se completamente da questão religiosa. Foi deste modo que deixou de haver um califa, algo que era inédito desde o surgimento do Islão no século VII. Nestes cem anos que entretanto decorreram, apesar de algumas tentativas mais sérias e de outras mais caricatas, nunca mais esse cargo, largamente honorífico e assente na aceitação consensual das múltiplas correntes da comunidade, nunca mais veio a ser restaurado.
Esta abolição foi um episódio com significado para o mundo muçulmano mas que deixava o mundo ocidental praticamente indiferente. É muito significativo disso que, tendo a deposição ocorrido a 3 de Março, é só a 16 desse mês que vemos um quotidiano francês (Le Petit Journal) a dedicar uma capa ilustrada ao que acontecera. Uma ilustração muito imaginada, de resto, já que a verdadeira fotografia do momento é muito mais sóbria quanto ao número de pessoas presentes... Assim como mais digna se apresenta a pose deste último califa. Abdul Mejide II parece ter sido um daqueles príncipes com alguns interesses intelectuais e méritos, considerado hoje um pintor de talentos médios. Exibo aqui dois dos seus quadros, em que se destaca a sua primeira mulher (teve quatro, como qualquer bom muçulmano), Şehsuvar Hanım.
No primeiro deles, intitulado Goethe no harém, ela aparece deitada num divã segurando um livro do poeta alemão. No segundo, cujo título é Beethoven no palácio, a princesa aparece a tocar violino, enquanto outros membros da família tocam outros instrumentos de uma composição que se presume ser do compositor alemão. Pintados em 1915 e 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, quando vigorava uma aliança próxima entre a Turquia e Alemanha, qualquer dos quadros dá-nos uma imagem de um (futuro) califa muito impregnado da cultura ocidental e alemã... A comparar com as imagens que hoje circulam dos clérigos muçulmanos, este exemplo é o que de mais parecido se pode arranjar de um outro famoso califa cosmopolita e desprendido, esse de ficção, Haroun el-Poussah, o califa de Bagdade a quem o ignóbil grão-vizir Iznogoud cobiça o estatuto...

04 janeiro 2024

A PRIMEIRA VIAGEM DE UM PAPA NO SÉCULO XX

4 de Janeiro de 1964. O então papa Paulo VI realiza a primeira visita de um papa ao estrangeiro. Desde há muito que os papas se ficavam por Roma. Quanto saíam de lá era mau sinal: por exemplo, quando Napoleão obrigara Pio VII a ir a Paris para estar presente na sua coroação em 1804. Contudo, esta saída de Paulo VI, porque fora livremente empreendida, revestia-se de todo um outro significado, a começar pelo destino: a cidade de Jerusalém e a Palestina (designação que era substituída nos noticiários por Terra Santa). Mesmo durante os tempos medievais do apogeu do poder do papado, nunca um papa lá estivera. Recorde-se que, à época (1964), Jerusalém era uma cidade dividida entre israelitas e jordanos e estes últimos administravam a Cisjordânia, incluindo a cidade de Belém. E a visita papal processou-se a partir da Jordânia (onde aterrara o avião que o transportara, como se lê acima), com o rei Hussein (um muçulmano) como anfitrião. Nessa altura o Vaticano não mantinha relações com Israel, algo que só virá a acontecer daí por 30 anos. A visita, embora plena de cobertura mediática e repleta de acontecimentos anunciados como históricos, foi breve: dia 6, Paulo VI regressará a Roma.

27 dezembro 2023

A PRISÃO DO ARCEBISPO PRIMAZ DA HUNGRIA

27 de Dezembro de 1948. O cardeal Mindszenty, a mais proeminente figura da hierarquia católica da Hungria é preso e acusado de traição, conspiração e incumprimento das leis do regime. Foi submetido a interrogatórios e a tortura: é-lhe injectada uma mistura de drogas, para que ele fosse apresentado num julgamento público ao estilo estalinista, com o objectivo de o exibir alquebrado perante a comunidade católica húngara. No processo, foi forçado, por vezes, a ficar de pé por mais de 82 horas e interrogado sem interrupção, dias e noites a fio. Quando praticado em Portugal e pela PIDE por esta mesma altura, os militantes do PCP designam condenatoriamente esta prática por estátua. Mas não lhes perguntem o que eles acham do mesmo processo quando praticado na Hungria pela ÁVH: aí não sabem, não estão bem informados, etc. - a hipocrisia do costume.
Com esta prisão acaba a fase de transição, depois de 1945, em que a igreja Católica andou de luvas postas, tacteando diplomaticamente a melhor forma de se relacionar com as autoridades comunistas dos países da esfera soviética da Europa oriental. Nomeadamente porque essas autoridades comunistas ainda se estavam a instalar. Mas este caso do cardeal Mindszenty foi tratado de forma ostensiva pelas autoridades de Budapeste para que Roma pudesse contemporizar (abaixo, a reacção do papa Pio XII), muito embora, nessa reacção, a influência da igreja Católica no Leste fosse muito desigual de país para país. Mas, nos países em que essa influência social era forte, como era o caso da Polónia, a instituição católica tirou as luvas, e, daí para a frente, até à queda do Muro, tornou-se uma das forças da oposição possível ao(s) regime(s) comunista(s).

01 outubro 2023

ESTARÁ O FUTURO DO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE NAS MÃOS DE DEUS?...

Depois de o vermos a manifestar-se «muito preocupado» esta Sexta-Feira, houve oportunidade de ver Fernando Araújo em Roma, logo no dia seguinte, Sábado, na fila daqueles que apresentavam cumprimentos ao novo cardeal, D. Américo Aguiar. Aparentemente, a crise das urgências não se reveste de uma gravidade tal que condicione as deslocações ao estrangeiro do director executivo do SNS. O que é bom saber. Mais preocupante é associar a iniciativa de Fernando Araújo a, para além de uma profunda fé, algum pedido de intercessão divina junto do Vaticano para resolver os problemas estruturais do SNS. É que o Vaticano será aquilo que mais próximo estará de Deus. E se só Deus sabe como é que se sai daquele buraco...

17 setembro 2023

QUESTÕES HISTÓRICAS REPETIDAMENTE DISCUTIDAS COM UMA SIMPLICIDADE HIPÓCRITA - OU COM UMA HIPOCRISIA SIMPLIFICADORA

Pela enésima vez, faz-se notícia do aparecimento de (mais) documentação que parece comprovar que o Vaticano soube, desde muito cedo, da política de extermínio dos judeus por parte da Alemanha. E como se antecipa, até é tradicional, se houver reacção institucional da Igreja Católica, será a de continuar a manter que a instituição nunca soube de nada - pelo menos, nessa altura. Como nos casos de pedofilia do clero, a organização é reputada e respeitada pela capacidade e densidade dos seus serviços de informações, mas mente com o maior dos descaramentos (e absolvições...) quando as circunstâncias o impõem. E sem qualquer vergonha pelas consequências do descrédito em que incorre. Mas, do outro lado, as acusações também não me parecem ir muito mais além. Porque os acusadores também não me parece quererem ser verdadeiramente confrontados com uma discussão aprofundada (e razoável) sobre qual o comportamento que o papa Pio XII poderia ter adoptado naquelas circunstâncias. As respostas simples são só isso: respostas. Confronte-se as acusações para com a atitude do Vaticano, com a quase ausência delas para com a atitude dos Aliados, que também souberam dos factos - o Holocausto - e nem por isso o utilizaram como instrumento de propaganda, aqui sob o pretexto que não acreditavam no que a resistência polaca lhes transmitia (desde quando a verdade é importante para uma guerra de propaganda?). A Verdade é que as prioridades durante a Guerra sempre foram outras que não travar o extermínio dos judeus. Vencendo a guerra, acabar-se-ia com o extermínio dos judeus, o que levou os alemães a, paradoxalmente, acelerar o ritmo do extermínio dos judeus, precisamente porque estavam a perder a guerra. Além disso, e quanto a provocar os alemães, Pio XII tinha-os a passar à frente de casa todos os dias (abaixo). Alguém, de entre os que publicitam agora estas notícias, tem dúvidas do que teria acontecido a Pio XII caso tivesse cutucado os alemães sobre o assunto?

21 junho 2023

A ELEIÇÃO DO PAPA PAULO VI

21 de Junho de 1963. O colégio de cardeais elege como Papa o cardeal Montini de 65 anos, que tomou o nome de Paulo VI.

25 março 2023

QUANDO OS BISPOS QUEREM EXERCER AUTORIDADE... EXERCEM-NA

A alusão desta discreta notícia de há cinquenta anos serve apenas para comprovar que, quando os bispos querem exercer a sua autoridade sobre os padres da sua diocese, e sancioná-los, sabem-no fazer. Diga-se, por curiosidade, que um dos pontos da contenda entre o arcebispo de Braga (Francisco Maria da Silva) e os cinco padres castigados, a eventual criação de uma diocese de Viana do Castelo, formada pela secessão de uma parte da histórica arquidiocese de Braga, veio mesmo a verificar-se dali por por quatro anos e meio, em Novembro de 1977. Mas o importante é que, tendo em conta estas referências que mostram uma enorme severidade disciplinar para com insubordinações, percebe-se melhor quanto é inexplicável esta inércia a que se tem assistido por parte da hierarquia da igreja católica, nas reacções adoptadas para com aqueles padres indiciados pelo relatório da comissão de inquérito para o estudo dos abusos sexuais de crianças. Embora nestes últimos dias se pareça estar a verificar uma inflexão nessa atitude, a começar por um primeiro comunicado de penitência, que foi publicado precisamente e por coincidência por essa mesma arquidiocese de Braga.

10 março 2023

O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES E DOS PEIXES... MAS AO CONTRÁRIO

Não é preciso ter lido a Bíblia para se conhecer o famoso episódio em que Jesus faz o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. É uma história que aparece contada em todos os quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), e as narrativas são concordantes que, por ocasião da morte de São João Baptista, Jesus Cristo fez o milagre de, a partir de um pecúlio irrisório (5 pães e 2 peixes), ter produzido alimento que chegasse (e sobrasse) para todos os seus seguidores, cerca de 5.000 pessoas. É o milagre da multiplicação.

Em contraste, de há uns dias para cá temos estado a assistir a um milagre, mas da desmultiplicação. Explico-me: também não é preciso ter lido extensivamente o relatório sobre abusos sexuais na igreja católica para saber que a comissão que o elaborou validou 512 dos 564 testemunhos recebidos, o que levou a mesma a extrapolar um número mínimo de vítimas de 4.815 durante o período que analisou. O milagre a que estamos a assistir é como este volume de testemunhos e casos terá sido provocado por um número irrisório de padres, se atendermos aos anúncios que têm vindo a ser produzidos pelas dioceses. Eu bem sei que nem todas as dioceses se pronunciaram até agora, mas, considerando o ritmo que as notícias abaixo documentam (4/5 casos até à altura em que escrevo), muito me surpreenderia que o total de padres afastados preventivamente em consequência do relatório venha a ultrapassar por muito a vintena, o que será, em si, miraculoso.
Adenda: Acrescento aqui abaixo as reacções de mais algumas dioceses que me levam a concluir que terei sobrestimado em muito o número de padres que virão a ser afastados preventivamente pela hierarquia da igreja. Nem vinte serão. Apesar das contriçõesproclamações proferidas por alguns bispos, ao ler-se este encadeado de títulos ouve-se o arrastar dos seus pés, para que quase não haja consequências. Recorde-se que o cerne deste escândalo não é o facto de haver padres pedófilos. É a percepção pública disseminada que os pedófilos foram continuamente protegidos pela hierarquia católica durante décadas a fio. E isso, percebe-se que não há qualquer vontade em mudar.

28 fevereiro 2023

A ABDICAÇÃO DE BENTO XVI


28 de Fevereiro de 2013. Há dez anos, às 20H00 de Roma, o papa Bento XVI renunciava às suas funções. A última vez que algo de semelhante acontecera fora 600 anos antes, em 1415, com o papa Gregório XII. Mas o mais interessante acontecera algumas semanas antes, quando o papa anunciara urbi et orbi a sua intenção de abdicar. Fizera-o a 11 desse mês, por ocasião de uma reunião em que, na agenda, constava apenas que se anunciaria qual a data para a futura cerimónia de canonização dos Mártires de Otranto. E foi nesse momento anódino que, como se observa no vídeo acima, o papa começou a ler uma declaração em latim - que, por acaso, é a língua oficial do Vaticano. O episódio serviu para revelar que entre os poucos jornalistas destacados para a cerimónia não havia nenhum com suficiente domínio dessa língua para acompanhar o discurso em directo. Foi com dificuldade que os jornalistas presentes puderam confirmar posteriormente a bomba que o papa anunciara. Por uma vez, deu para perceber as vantagens de uma sólida formação clássica (incluindo conhecimentos de teologia e latim) para os correspondentes colocados em Roma. Foi uma lição que já deve estar esquecida. Quanto às razões de saúde então também evocadas para a resignação, o tempo encarregou-se de as desmentir. Bento XVI, que faleceu recentemente em 31 de Dezembro de 2022, abdicou porque assim quis.

31 dezembro 2022

OH P´RA ELE, FRANCISCO LOUÇÃ, À PORTA DA CAPELA DO RATO, TODO REPUBLICANO E LAICO…

31 de Dezembro de 1972. Um grupo de católicos progressistas reúne-se na Capela do Rato para realizar uma acção que decidiram baptizar de Vigília pela Paz. Em Setembro de 2009, por ocasião da campanha eleitoral para as legislativas, e num debate frente a frente entre Francisco Louçã pelo Bloco de Esquerda (um dos participantes na referida vigília) e José Sócrates pelo Partido Socialista, Francisco Louçã teve oportunidade de pregar uma mentira grande, gorda, grosseira, a respeito da sua relação com a religião. O que foi motivo para publicar o poste abaixo, comprovando o óbvio: que Louçã é, sempre foi, intelectualmente desonesto, o que não é despropositado recordar a pretexto deste episódio de que se cumprem hoje 50 anos.
«Se a memória não me tiver enganado no rigor das palavras, ontem (8 de Setembro de 2009) ouvi Francisco Louçã dizer no frente-a-frente com Sócrates que fora socialista laico e republicano toda a vida Ora então vejamo-lo a exibir todo o seu laicismo republicano no canto superior esquerdo da fotografia acima, que foi tirada à porta da Capela do Rato, integrado num grupo de pessoas que na altura se designavam por católicos progressistas, grupo esse que se notabilizou por se ter instalado na dita Capela na passagem do ano de 1972 para 1973 para ali realizarem uma acção que decidiram baptizar de Vigília pela Paz.

Como os vigilantes costumam passar as vigílias a orar, já de há muito que tinha a curiosidade de perguntar ao Louçã de hoje, houvesse oportunidade, quais as orações que ele teria rezado durante tal vigília… O Padre-Nosso? O Ave-Maria? O Salve-Rainha? Será que ainda se lembra de alguma?... Claro que, depois desta tirada dele de ontem, a curiosidade ter-se-á tornado mais premente que nunca, embora confesse que a maneira como imagino que ele tenha passado o tempo na vigília na Capela possa ter sido muito mais variada do que pensaria originalmente: estaria a assobiar a Carmagnole? A trautear o Ça Ira? A cantar a Internacional?...

O pudor não é republicano nem laico, é só pudor, mas convém que Francisco Louçã demonstre que o tem, pode não ser desde sempre, apenas durante estes dias que correm…»

13 outubro 2022

O VOO 571 DA FORÇA AÉREA URUGUAIA

13 de Outubro de 1972. Um avião Fairchild FH-227 da Força Aérea Uruguaia, vindo de Montevideu, descola do aeroporto argentino de Mendonza para realizar a sempre delicada transposição da cordilheira dos Andes, tendo como destino Santiago do Chile. O aparelho transporta 45 pessoas, 5 tripulantes e 40 passageiros, muitos destes últimos são jogadores de uma equipa de râguebi, que, numa digressão, irá disputar uma série de jogos contra algumas das suas congéneres chilenas. O voo 571 da Força Aérea Uruguaia nunca chegará ao destino. Por um erro de navegação despenhou-se num glaciar a 3.600 metros de altitude nesse mesmo dia. Apesar da violência do embate, as circunstâncias em que ocorreu fizeram com que houvesse apenas 12 vítimas mortais directas e 33 sobreviventes. Contudo, a localização remota do local em que ocorrera o acidente, desviado da rota prevista, e as condições extremas do local fizeram com que os feridos e outros viessem a perecer sucessivamente sem que aparecesse resgate. O episódio só veio a ter um desfecho quando dois membros desse grupo de sobreviventes - já então limitado a apenas 19 pessoas - vieram a ser encontrados no Chile, depois de terem desistido de esperar por socorro. Estava-se a 22 de Dezembro de 1972, dez semanas depois do acidente. Mas o aspecto mais controverso do que acontecera é que os sobreviventes, para o conseguirem, haviam sido forçados a recorrer à prática do canibalismo. E no entanto, as condições por que que todos haviam passado haviam sido tão deploráveis que 3 dos 19 vieram a morrer já depois de resgatados, deixando um saldo de 16 sobrevivos. Em média, haviam perdido 29 kg naquelas dez semanas. O episódio permanece, até hoje, uma daquelas situações limite que nos deixam a reflectir sobre os nossos valores.

11 outubro 2022

A ABERTURA DO CONCÍLIO VATICANO II


11 de Outubro de 1962. Há 60 anos iniciava-se em Roma, com a pompa que as imagens acima mostram, o Concílio Vaticano II. Este é o tipo de efeméride que, quando a ela me refiro aqui no Herdeiro, tenho grandes dúvidas quanto à necessidade de explicações adicionais do que é que se tratou: é o tipo de assunto sobre o qual a grande maioria das pessoas já sabe (ou ignora...) aquilo que lhe interessa saber (desconhecer). Foi precisamente esse o tratamento informativo que o Diário de Lisboa daquela época deu ao assunto: um grande destaque de primeira página embora pouco desenvolvido, e isso porque o assunto era reconhecidamente importante, com o resto dos pormenores a serem remetidos para uma obscura página interior (página 11) para os interessados se entreterem, que toda a gente sabe como estes assuntos de religião são normalmente chatos - nomeadamente o discurso do papa (João XXIII). Se for encobrimento de actos de pedofilia - aí, o assunto muda de figura!

12 maio 2022

O PAPA JOÃO PAULO II EM PORTUGAL

12 de Maio de 1982. O papa João Paulo II vinha a Portugal para comparecer nas cerimónias de Fátima do dia seguinte. E mesmo um jornal pró-comunista como o Diário de Lisboa tinha de dar destaque de capa a esse acontecimento, arredando para o lado os assuntos que lhe eram mais queridos dos números da adesão à Greve Geral que ocorrera no dia anterior - números obviamente fornecidos pelos grevistas - e o contínuo esmiuçar dos incidentes que tinham ocorrido no Porto no dia 1º de Maio. Pelo seu lado, o governo da AD aproveitava esta mesma visita para fazer a maior propaganda possível. Ainda no dia 12, mas à noite e por ocasião da procissão das velas no santuário, João Paulo II iria ser alvo de um atentado perpetrado por um extremista católico.

16 fevereiro 2022

O AUTOR DA ASSOCIAÇÃO DE PALAVRAS MAIS ESCATOLÓGICA DE TODO O JORNALISMO PORTUGUÊS

Quando da morte de Lauro António, no princípio deste mês, não assinalei o acontecimento no blogue, embora existissem em arquivo algumas referências a si, nomeadamente comentários à versão parodiada de Lauro Dérmio, o crítico de cinema que, o tornou destruía a língua inglesa. Foi com surpresa que registei naquela altura um súbito aumento de visitas a esses postes - especialmente a «LETZ LUQ ATE DE TREILA», mais do que a outras evocações mais sérias. Agora, por ocasião da morte de Artur Albarran, não vou cometer o mesmo erro. Apesar de também o ter evocado por repetidas vezes neste blogue, especialmente quando as situações se apresentavam graves, evidenciemos nesta ocasião quanto o falecido merece ser recordado pela invenção da associação de palavras mais escatológica de todo o jornalismo português. Note-se que, no caso, escatológico é para ser entendido, não no sentido merdoso, antes no sentido mais erudito e teológico do adjectivo, i.e., da doutrina sobre o fim do mundo.
Uma nota de rodapé: a jornalista do Observador podia ao menos citar mais rigorosamente e pela ordem correcta a frase que tanto popularizou o defunto... É o chamado jornalismo «meia bola e força».

06 fevereiro 2022

A ELEIÇÃO DO PAPA PIO XI

Roma, 6 de Fevereiro de 1922. Depois da realização daquele que virá a ser o mais prolongado conclave do século XX (14 eleições), o Colégio de Cardeais conseguiu-se decidir pela pessoa de Achille Ratti, o arcebispo de Milão, que, na sequência da eleição, escolhera para si o nome de Pio XI. Mais importante do ponto de vista noticioso, é que, pela primeira vez desde 1870 (desde a tomada de Roma), em cinquenta anos, portanto, o novo Papa toma a iniciativa de vir à varanda central da Basílica de São Pedro executar a tradicional benção urbi et orbi. Se houvesse locução naquela altura, e a auto-promoção despudorada dos dias de hoje, então uma voz off estaria a gabar-se que as imagens acima da Pathé Gazette eram históricas.

22 janeiro 2022

A MORTE DO PAPA BENTO XV

22 de Janeiro de 1922. O papa Bento XV morre um pouco inesperadamente (de pneumonia) aos 67 anos. Embora não se tratasse do primeiro papa a falecer no século XX (já acontecera com Leão XIII em 1903 e Pio X em 1914), este é o primeiro caso em que o acompanhamento noticioso vem demonstrar o elevado interesse mediático do processo de morte e sucessão (através das eleições secretas do colégio de cardeais) dos pontífices romanos. Mesmo num Portugal onde as relações institucionais com a Santa Sé estavam muito longe de ser as melhores, a morte de Bento XV merecia, de um jornal alinhado como o Diário de Lisboa, o destaque e a simpatia que acima se podem apreciar.

13 novembro 2021

É SEMPRE BOM SABER QUE...

...«os católicos podem comer carne de baleia à sexta-feira». O esclarecimento, publicado há setenta anos e emanado por «uma autoridade» da cidade do Vaticano, clarificava de vez uma controvérsia suscitada pelo arcebispo de Viena que «determinara que a carne daquele mamífero marítimo constituiria "carne" tal como a compreenderia os regulamentos de abstinência da Igreja». Ora isto, esquecendo um pouco o aspecto teológico da questão e enfatizando o gastronómico, aconteceu muitos anos antes do Gordon Ramsay se arrogar o desplante de definir o que era uma bifana (semelhante com o que acontecera antes com a paella de Jamie Oliver...). Naqueles idos de 13 de Novembro de 1951, não seria um rústico de um alemão, por muito arcebispo que fosse, que teria o direito de se pronunciar ex-cathedra sobre as subtilezas do que se pode ou não comer, e quando. Agora, sobre o modo como confeccionar carne de baleia, creio ser útil adicionar esta outra pequena história.

23 novembro 2020

A EXCLUSÃO DOS VELHOS CARDEAIS

23 de Novembro de 1970. Em lugar de destaque (primeira página), mas ainda assim num formato discreto e conciso, dá-se conta da última decisão do papa Paulo VI (então com 73 anos), a de excluir futuramente os cardeais que tivessem atingido os 80 anos das votações para a eleição daqueles que viessem a ser os seus sucessores. Esta decisão iria excluir 25 dos 127 cardeais existentes, reduzindo os votantes do colégio dos cardeais a 102. Os jornalistas incidiram os comentários a esta decisão de Paulo VI na questão de se criar um maior equilíbrio das nacionalidades naquele colégio. Na realidade, 11 de 25 cardeais que perderam o direito de voto eram italianos (e 2 eram portugueses...), o que reduziria marginalmente a predominância dos cardeais daquela nacionalidade no colégio: de 38 em 127 (30%) para 27 em 102 (26,5%). A partir daí, eles podiam escrever uma daquelas histórias jornalísticas sobre a possibilidade de que o próximo pontífice fosse de uma outra nacionalidade que não a italiana, algo que não acontecia desde 1522 com o papa Adriano VI. A história agradaria aos leitores, mas nem por isso era verdade. A predominância de papas italianos no passado explicava-se mais pelo facto de a cúria romana ter sido sempre composta quase exclusivamente por italianos do que pela distribuição das nacionalidades entre os cardeais. Especulando quanto às intenções de Paulo VI, seria mais provável que a medida tivesse uma intenção de remover a geração de prelados mais velha, aquela que se mostrava mais relutante às conclusões alcançadas no Concílio Vaticano II (1962-65).

01 novembro 2020

A PROMULGAÇÃO DA ASSUNÇÃO DA VIRGEM MARIA

1 de Novembro de 1950. Promulgação pelo Papa Pio XII da constituição apostólica Munificentissimus Deus. Nela, proclama-se o dogma da Assunção da Virgem aos céus e, por uma vez em muitos anos e para a sustentar, invoca-se um outro dogma da Igreja Católica, proclamado por Pio IX em 1870, o da infalibilidade papal. Independentemente de todas estas subtilezas teológicas, que nada interessarão aos profanos e mesmo muito pouco a uma apreciável maioria dos fiéis, ao acontecimento em si deu-se o destaque bastante que as imagens acima do incontornável Diário de Lisboa mostram. Teologias de parte, e no que concerne à política da religião católica (aquela tal faceta que um padre só relutantemente admite que há, mas que há...), o interesse subjacente ao momento é o da invocação da infalibilidade papal, mesmo nestas situações em que o supremo pontífice se exprime ex cathedra. Um aspecto que pode ser inócuo quando o Papa partilha dos pontos de vista conservadores que são os da maioria da hierarquia, mas que se transformam num problema quando o sucessor de São Pedro não comunga da atitude de resistir à evolução dos costumes. Aprecie-se abaixo este cartoon bem recente de Francisco, sucessor de Pio XII e que só não é tão infalível quanto ele, porque não se pronunciou ex cathedra. (Também vale a pena ler o teor das declarações do Papa Francisco, para questionar quem o critica em que é que o critica)