30 abril 2018

AS GRÃ-DUQUESAS

Nesta fotografia aparecem as quatro filhas de Nicolau II. Da esquerda para a direita: Maria (n. 1899), Olga (n. 1895), Anastásia (n. 1901) e Tatiana (n. 1897). Tomando em consideração as datas de nascimento e a aparência das grã-duquesas é possível datar a fotografia entre 1912 e 1914, os anos que precederam a Primeira Guerra Mundial, guerra de que nenhuma delas virá a conhecer o desfecho. A cor da fotografia foi adicionada posteriormente e o resultado é positivo, aproxima estranhamente as fotografadas do observador, até nos torna mesmo compreensivos para a contrariedade que todas elas exibem, de pose forçada para a fotografia, no decurso de um passeio de barco que seria supostamente para as divertir. Que destino estaria destinado às grã-duquesas se lhes tivesse sido possível sobreviver? Mais de noventa anos depois desta fotografia, a 30 de Abril de 2008 (cumprem-se hoje dez anos), os testes de DNA realizados em dois cadáveres recém encontrados em Yekaterimburgo comprovavam que se tratava dos restos mortais em falta do filho e da última filha do czar. Toda a família real havia sido encontrada e toda ela havia sido assassinada por ordem de Lenine em 17 de Julho de 1918. Ao mesmo tempo, terminava uma fábula que se perpetuou por décadas, a que pretendia que uma das grã-duquesas (Anastásia) havia sobrevivido milagrosamente, onde o único mistério é a razão para que a fábula se tivesse sustentado durante tanto tempo, tais as evidências. Quanto à pergunta sobre qual teria sido o destino hipotético das grã-duquesas, tivesse-as Lenine deixado sobreviver, um exemplo inspirador será o das biografias das suas duas tias maternas, também elas grã-duquesas porque filhas de czar, Xenia (1875-1960) e Olga (1882-1960). Sobreviveram ambas à Primeira e viveram também a Segunda Guerra Mundiais. Quem acompanhe os seus percursos constata como é difícil adivinhá-las a corporizar projectos políticos revanchistas na Rússia, assim como o seria decerto com as quatro sobrinhas, e tudo isso apenas torna mais imperdoável a crueldade de Lenine.

A CATEDRAL DE SÃO PEDRO EM BEAUVAIS

A Catedral de São Pedro em Beauvais (cidade no Norte de França a cerca de 80 km a Norte de Paris), notabiliza-se por possuir, com 48 metros e meio de altura, a nave mais elevada de todas as igrejas da Cristandade. Mas essa foi apenas uma das ambições arquitectónicas de quem a construiu. De 1569 a 1573, enquanto possuiu a sua esplendorosa torre de 153 metros (desenho à direita), esta Catedral de São Pedro foi também a mais elevada construção do Mundo. Há 445 anos, a 30 de Abril de 1573, celebrava-se nesse dia a Ascensão (a festa religiosa que se assinala 40 dias depois da Páscoa), quando, depois da cerimónia, a ambiciosa - mas periclitante - torre que encimava a catedral se desmoronou, percorrendo o trajecto inverso àquele que os fiéis haviam acabado de celebrar em relação à trajectória de Jesus Cristo (a caminho do céu...). Felizmente e segundo os mesmos relatos, não houve desastres pessoais.

BRASIL TRABALHADOR...

...com mês de Abril com 31 dias. Como prometia Chico Buarque, «aquela terra ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal».

29 abril 2018

OLHA, AFINAL O ESTADO SOCIAL NÃO COLAPSOU...

Em princípios de Abril de 2012 e para promoção de um livro seu denominado "Olhos nos Olhos" (com o mesmo título de um programa televisivo), Henrique Medina Carreira dispôs-se a fazer um circuito de entrevistas promocionais por várias publicações, entrevistas essas onde mantinha o aspecto tremendista-apocalíptico das suas análises e previsões, que se haviam tornado a sua imagem de marca televisiva. Havia uma audiência cativa do seu género de discurso do bota-abaixo - não façam como eu digo, não, que vão ver o que vos acontece... Nesta entrevista ao jornal i, inserida nesse rodízio promocional, de que só guardei esta imagem com o título e destaque, mas que infelizmente, hoje, o próprio jornal já não disponibiliza (e é pena!), o nosso bem conhecido - e saudoso - profeta do colapso eminente de tudo - economia, finanças, you name it... - anunciava para dali a seis anos o colapso do Estado Social - a não ser que se fizesse como ele dizia, o que nunca aconteceu, fosse qual fosse a natureza do governo em funções (nesta época concreta era o de Pedro Passos Coelho com Vítor Gaspar nas Finanças). Pois bem, já cá chegámos aos dali a seis anos e ao tal colapso, embora infelizmente sem a presença do profeta, falecido em Julho de 2017 aos 86 anos, nove meses antes da data fatídica do prognosticado colapso do Estado Social. E, a não ser que o ministro Vieira da Silva guarde um segredo muito bem guardadinho, chegamos a essa data fatídica sem vislumbre do tal colapso do Estado Social. Ou, pelo menos e como diria Abraracourcix, a propósito da possibilidade de que o céu lhes caísse, aos gauleses, em cima das cabeças: «Amanhã não será a véspera desse dia!» Todavia e apesar de tudo, estou convicto que, nem mesmo assim, para algumas outras cabeças, que não de gauleses mas excessivamente crédulas também, nem mesmo assim, repito, o episódio terá servido, retroactivamente, de lição.

«THE AGE OF AQUARIUS»

29 de Abril de 1968. Há precisamente cinquenta anos a peça musical Hair estreava-se na Broadway. Tornar-se-á na expressão emblemática da cultura hippie, um fenómeno de contracultura que viajará dos Estados Unidos para o resto do mundo Ocidental, mas que cá pela Europa se expressará em formatos diferentes, nomeadamente afectado pelos acontecimentos de Maio de 1968 de Paris. Cá em Portugal, havia imensa peace (as guerras em África acompanhavam a do Vietname), algum love, mas sobretudo imensa militância: tinha de se ser de extrema esquerda, e quanto mais extrema melhor... A história de Hair é a de uma tribo nova-iorquina que vive de acordo com a filosofia de vida hippie. Como todos os movimentos com estas características, os hippies também tinham a certeza que o futuro lhes pertencia, e que a prevalência das suas razões viria a ter lugar com a chegada da Era do Aquário - daí a razão do título do poste e da primeira canção da peça (Aquarius), que abaixo se pode apreciar na versão em filme, realizada em 1979 pelo recém falecido Milos Forman. Significativo do que a sociedade mudara nesses onze anos, existem diferenças importantes de enredo da versão teatral para a cinematográfica. Mas, mais distinto ainda nestes cinquenta anos entretanto transcorridos, é aquilo que se pode apreciar na coreografia da cena abaixo, parece que saída de um outro século (que é!), parece saída de uma outra cultura que não a Ocidental, parece vinda de um outro planeta.

28 abril 2018

A MORTE DO «CAUSADOR» DE TANTAS MORTES

28 de Abril de 1918. Foi também há cem anos que, neste dia, morreu Gravilo Princip, o sérvio da Bósnia que se celebrizara por ter assassinado o arquiduque Francisco Fernando e a esposa a 28 de Junho de 1914 em Saravejo, acontecimento que estivera, pelo menos formalmente, na origem da Grande Guerra que então ainda se travava. Contrariamente ao que se esperaria, Princip não fora executado, tinha apenas 19 anos e uma idade inferior a uma tal pena, de acordo com o que dispunha o código imperial, e acabara sendo condenado à pena de prisão máxima aceitável nessas circunstâncias: 20 anos. Cumpria a sua pena em Theresienstadt (mais tarde famosa por albergar um campo de concentração), mas nos três anos e dez meses decorridos desde o assassinato, as condições deliberadamente adversas da detenção, terão feito com que ele contraísse tuberculose óssea. Quando morreu, o recluso Gravilo Princip, apesar dos seus 23 anos, pesava apenas uns 40 kg e já sofrera a amputação do braço direito. Morrera aos poucos. Mas não deixa de ser surpreendente saber que ele sobrevivera a tantos milhões que já haviam perecido naquela guerra que ele contribuíra, como mais ninguém, para desencadear.

O CENTENÁRIO DAS PRIMEIRAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DIRECTAS

28 de Abril de 1918. O regime da Junta Revolucionária, que se impusera militarmente num golpe de força em 8 de Dezembro do ano anterior, procura agora legitimar-se eleitoralmente, convocando uma jornada de eleições, simultaneamente presidenciais e legislativas. Às primeiras, Sidónio Pais, a personalidade de proa do regime, apresenta-se sozinho a sufrágio, enquanto as segundas são boicotadas pelas tradicionais formações republicanas, os democráticos, os evolucionistas e os unionistas. Como consequência, para além da eleição de Sidónio Pais, os nacionalistas, o novo partido do regime, obteve uma maioria para além do que seria decoroso, ocupando 70% (108 em 155) dos lugares do novo parlamento. A oposição na nova Câmara era constituída maioritariamente pelos monárquicos (24% - 37 deputados). Era assim óbvio que, por boicote e falta de comparência de uma importante parte dos actores, a disputa política sob o novo regime não se iria travar no hemiciclo de São Bento - onde acima vemos Sidónio Pais, alguns dias depois (9 de Maio), a tomar posse do cargo de Presidente da República. O irónico desta história é que, embora conviesse à oposição de então e a uma certa historiografia posterior sugerir que a afluência às urnas nestas eleições de há cem anos fora afectada pelo boicote, os números oficiais, 471.000 votos favoráveis a Sidónio em 514.000 votantes, não mostram qualquer diminuição significativa - muito pelo contrário! - no número de eleitores. Comparando as eleições legislativas que tiveram lugar simultaneamente, se em 1918 votaram 324.000 eleitores, nas eleições precedentes de 1915, apenas 282.000 o haviam feito.

27 abril 2018

O TEMA REENCENADO DA «COMICHÃO POLÍTICA» CAUSADA PELAS VERRUGAS

Juntando estes dois desenhos, percebe-se quanto o recurso dos cartoonistas à metáfora das verrugas como exemplo de fenómenos políticos incómodos é antiga, com mais de cem anos. O cartoon de cima data de 1905, refere-se à política portuguesa e mostra-nos as duas eminências da época, Hintze Ribeiro (à esquerda) e José Luciano comparando o incómodo provocado nas respectivas formações (progressistas e regeneradores) pelas dissidências (de João Franco e de José de Alpoim). Cento e treze anos depois o tema e o incómodo são retomados para a política espanhola, mostrando aquilo que Carles Puigdemont (e a questão catalã) estarão a provocar no presidente do governo, Mariano Rajoy.

A REVOLUÇÃO DE SAUR

27 de Abril de 1978. Se, nos quarenta anos precedentes, o Afeganistão fora um país esquecido ali no interior da Ásia, onde, de quando em vez, aconteciam umas coisas que não interessavam muito ao resto do mundo, nos quarenta anos que se seguirão desde a Revolução do Saur, o mesmo Afeganistão ganhará o prestígio duvidoso de raramente abandonar o destaque da informação mundial. Exemplo: a onda de atentados que devastou o país no princípio da semana... E tudo terá começado por um golpe de estado há quarenta anos. Mercê da sua condição de país vizinho da União Soviética, o Afeganistão era um dos raros países islâmicos onde o partido comunista tinha uma existência legal. Contudo, fruto da sociologia local, esse partido comunista afegão (denominado PDPA - Partido Democrático do Povo Afegão) estava dividido em duas facções rivais tão hostis entre si quanto o partido o seria em relação às outras formações políticas rivais. A fraqueza delas era a força de quem se lhes opunha, no caso o presidente. Razões circunstanciais (a morte suspeita de um dos dirigentes do partido, a que se seguiu uma vaga de prisões) terão feito que ambas as facções se tenham sentido ameaçadas e cooperado num pronunciamento militar em que os aviões de origem soviética da Força Aérea (os pilotos haviam sido ali formados) foram determinante no ataque ao palácio presidencial. Essa foi a acção decisiva da Revolução do Saur, que culminou na morte do presidente Mohammed Daud Khan. O detalhe do acontecimento está (bem) sintetizado na Wikipedia. O que aconteceu depois do golpe, a chegada dos comunistas ao poder com a sua agenda revolucionária e laica, criou uma dinâmica de enfrentamento local que acabou envolvendo as duas superpotências na década seguinte. Mas isso é outra história. Refira-se que Saur é o nome do mês do calendário iraniano em que os acontecimentos tiveram lugar - Revolução de Saur é, assim, uma espécie de reedição da nossa Revolução de Abril, expressão tão acarinhada pelos comunistas portugueses naquela altura. O que nos leva até a outra perspectiva da Revolução afegã, a da forma como ela foi noticiada entre nós, nomeadamente nos órgãos de informação desses mesmos comunistas (abaixo)...
No Diário de Lisboa do dia seguinte, repare-se como se enfatiza a bondade dos militares autores do golpe, qualificando-os de progressistas (um código bem compreendido pelos leitores de então como substituto de comunistas - ou seja, militares, mas dos bons) e como na descrição, necessariamente sucinta, da situação política num Afeganistão que era então desconhecido por essa época, se davam alguns pontapés na verdade e nos factos: «...o anterior regime proibia as actividades do Partido Comunista. (...) A rádio serviu-se da palavra persa «khalaq» (massas - nota: na verdade khalq) que serve também para designar o Partido Comunista». (Nota: como se viu acima o partido denominava-se PDPA e khalq referia-se apenas a uma das facções rivais desse partido; a outra era a Parcham). Portanto: um excelente trabalho de militância, um péssimo trabalho de jornalismo... A quem possa interessar: o selo que ilustra o poste está redigido em francês (para lá do persa) porque essa é que era a língua internacional da UPU.

OU O PACHECO PEREIRA NÃO PERCEBE NADA DAQUILO OU...

A forma como acabou a edição desta semana da Quadratura do Círculo, quando calhou a vez a Pacheco Pereira de emitir as suas opiniões sobre a corrupção, já mesmo a terminar o programa, a forma como os outros dois o interromperam consecutivamente, enquanto ele se esforçava por transmitir a ideia que o episódio Manuel Pinho seria mais banal do que o que se possa julgar, ou que a questão da corrupção ia muito para além da circunstância pontual de Pinho ser ministro na altura em que recebia as luvas, é ilustrativa de como a classe político-económica que aqueles outros dois representam detesta ver-se ao espelho. Não é coisa que não se saiba sobre o elenco, mas é sempre bom refrescar a constatação que não há ali corruptos naquele programa (evidentemente!), embora seja melhor que Pacheco Pereira não se ponha para ali a concretizar despropositadamente em que é que consiste a corrupção. Só para que pareça que só os políticos é que são corruptos, os outros não... Mas, veja a cena...

26 abril 2018

AS «FAKE NEWS» DE HÁ 75 ANOS

A edição de há 75 anos do Diário de Lisboa dava o porta-aviões norte-americano USS Ranger como afundado por um submarino alemão. A notícia baseava-se no que noticiara a agência noticiosa alemã DNB, embora o jornal português tivesse o cuidado de não dar toda a corda aos detalhes da narrativa dos alemães, que incluía até a autoria do submarino responsável pelo afundamento, o U-404, e a identidade do respectivo comandante, o capitão-de-corveta Otto von Bülow. Mandava a experiência e a prudência aguardar alguns dias até que os Estados Unidos assumissem a perda - importante - de um porta-aviões. Entretanto, menos cautelosos que um mero jornal português, a Kriegsmarine e Adolf Hitler já condecorara nesse mesmo dia von Bülow com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro com Folhas de Carvalho. Afinal os dias escoaram-se e o USS Ranger apareceu miraculosamente a flutuar para tranquilidade das famílias do seu milhar de tripulantes, sem qualquer arranhão e sem que os seus registos de bordo conseguissem justificar as causas para o tremendo erro cometido pelos alemães, ao dá-lo por afundado antes de tempo. Só que aí, claro, ter-se-ia tornado muito embaraçoso descondecorar o autor da proeza. Prematuramente afundado pela propaganda alemã, o USS Ranger irá cumprir o seu dever durante o resto da Segunda Guerra Mundial, até ser abatido aos efectivos em Outubro de 1946.

A CONFRARIA DOS GAJOS BRILHANTES QUE SÃO BONS DEMAIS PARA RECEBEREM MUITOS VOTOS

Patentemente, Rui Tavares não terá perdido ontem qualquer boa oportunidade de aparecer ao lado de Yanis Varoufakis nas fotografias... E tem momentos em que os jornalistas vivem tão ensimesmados no seu mundo de favoritos que perdem a imagem global do que é importante. As duas 'special guest stars' a que acima o Expresso se refere, compõem, com o «anfitrião» Tavares que aparece destacado na fotografia da notícia, uma troica de políticos que são levados ao colo pela comunicação social sem que essa (pretensa) popularidade depois se confirme nas urnas. A 'guest star' Benoît Hamon, que foi o candidato do Partido Socialista às ultimas eleições presidenciais francesas de há um ano, terminou aquela sua participação «classificado em 5º lugar na escolha dos franceses, com um resultado historicamente baixo de 6,36%». Por sua vez, o anfitrião Rui Tavares recebeu 71.500 votos (2,18%) à escala nacional como cabeça de lista pelo Livre nas eleições europeias de 2014 e 14.700 votos (1,27%) como candidato a deputado pelo distrito de Lisboa nas últimas eleições legislativas de Outubro de 2015. Finalmente, à avaliação eleitoral da outra 'guest star', Yanis Varoufakis, põe-se o problema de nunca se ter apresentado eleitoralmente e de assim não se saber a verdadeira capacidade de arrastamento popular das suas (brilhantes) opiniões. O Movimento Democracia na Europa 2025 (DiEM 25 - vejam-se os cartazes na fotografia) já tem dois anos e imensos apoiantes colunáveis, mas ainda não se apresentou a qualquer eleição. O que é uma pena!... Na Grécia natal de Varoufakis, nas últimas sondagens ali realizadas (18 de Abril, 19 de Abril, também 19 de Abril e 21 de Abril), constata-se que as intenções de voto no partido de Varoufakis são tão irrelevantes que nem sequer aparecem mencionadas! Aparentemente e em contraste com o entusiasmado punho cerrado brandido por Rui Tavares na foto acima, a esmagadora maioria dos compatriotas de Varoufakis estão-se a cagar para Varoufakis. O que devia ser devidamente sopesado quando se dá esta cobertura à sua pessoa e às suas opiniões. A política em Democracia devia ter a ver muito mais com os votos que se recebem do que com as figuras com quem os jornalistas engraçam.

25 abril 2018

...MAS NÃO NECESSARIAMENTE PELAS RAZÕES CERTAS

Aqui há duas semanas referi-me no blogue a um episódio caricato que entretinha toda a Espanha: o de uma universidade privada madrilena que produzia títulos académicos à medida e da presidente do governo local madrileno, Cristina Cifuentes de 53 anos e militante destacada do PP, que, nem mesmo assim o conseguiu obter... Para alcançar o seu canudo teve que o falsificar! As duas semanas que se seguiram caracterizaram-se por pressões de todo o género e origem para que Cristina Cifuentes se demitisse do cargo. Que não haviam tido sucesso, até hoje. Quando, subitamente, apareceu um vídeo da segurança de um supermercado em que aparece a mesma a ser revistada e onde se lhe encontram, esquecidos, um par boiões de cremes de rejuvenescimento. O episódio, rapidamente apropriado pelo humor das redes sociais, tivera lugar já há oito anos(!). E, agora sim, as pilhérias sobre o roubo (e sobre o artigo roubado!) terão feito a própria aperceber-se da sanção social que o conhecimento generalizado da sua falsificação do mestrado não havia conseguido.

Constata-se que, ali por Madrid, ser-se ladra caçada no supermercado estará alguns degraus abaixo na escala social do que o estatuto de falsificadora de documentação académica. E é só assim, perante a nova vergonha, que Cristina Cifuentes se demite, depois de resistir, muito para lá da decência, a tudo e a todos. A origem da nova notícia que finalmente derruba a presidente madrilena não será difícil de deduzir, nestes processos em que os podres sobre os rivais se guardam para ser activados nas ocasiões mais convenientes. A ironia final da situação é uma pirueta protagonizada por Pablo Iglésias do Podemos que, situando-se nos antípodas do espectro político em relação a Cristina Cifuentes e ao PP, aparece a condoer-se daquilo que classifica como «a destruição de um ser humano». É o tal género de atitude que, sendo vera, é muito cândida ou então não e é insuportavelmente cínica, Mas vale a pena aprender com estas modas que nos chegam lá de fora: não se surpreendam se Catarina Martins se vier a mostrar solidária com a próxima vítima da guerra interna do PSD...

AS «BIRRAS» DOS «ÓRFÃOS» DO PASSISMO

O caricato da situação fala por si e a identidade do órgão de comunicação que o noticia só lhe dá mais enfâse. Nem mesmo os incondicionais do Observador parecem poder endossar estas «birras» dos «órfãos» do passismo, atitudes desastradas de que já nem Pedro Passos Coelho pode ter culpa. Mas, se querem ser uma facção organizada dentro do PSD, mesmo sem Luís Montenegro a disciplinar o recreio das crianças, convinha que se concertassem para se resolverem a fazer gazeta às cerimónias oficiais do 25 de Abril. Isto que aconteceu, mais do que uma infantilidade, é a completa perda do sentido das conveniências. Fernando Negrão sai absolvido da sua impotência e Rui Rio agradece. Acessoriamente, os companheiros não foram muito corteses para a recém eleita líder da JSD que discursou em seu nome.

A APRESSADA EXECUÇÃO DA OPERAÇÃO «GERBOISE» VERDE


25 de Abril de 1961. O primeiro ensaio nuclear francês realizou-se na Argélia meridional, em pleno deserto do Sahara, a 13 de Fevereiro de 1960. Outros ensaios se seguiram, a que se deram o nome de operações «Gerboise» (jerboa, em português), um pequeno roedor nocturno do deserto, de patas compridas e grandes orelhas, assaz comum na fauna do local dos testes. Cada ensaio recebia um nome de código ligeiramente diferente, a operação «Gerboise» Azul fora o ensaio original (acima), a que se seguiram a «Gerboise» Branca e a «Gerboise» Vermelha (as outras cores da bandeira francesa), antes desta operação «Gerboise» Verde há precisamente 57 anos. Esta última diferenciou-se de todas as anteriores pela circunstância de ter sido executada à pressa. Poucos dias antes, alguns generais franceses haviam realizado um pronunciamento militar em Argel (aquilo que se veio a designar pelo «Putsch dos generais»), quendo se apoderaram localmente do poder, em rebelião contra as decisões de Paris e da metrópole (veja-se abaixo a notícia da época). O momento era tenso. Sem uma garantia de controle e considerada a localização do centro de ensaios na própria Argélia semi-insurrecta, as autoridades francesas legítimas decidiram detonar preventivamente a próxima arma nuclear a ensaiar, acautelando a remota hipótese (catastrófica!) de que ela pudesse vir a cair sob o controle dos generais revoltados.
E foi assim, que em português designaríamos por às três pancadas, que a operação «Gerboise» Verde arrancou. Sabe-se hoje, por exemplo, que a pilha de combustível (plutónio) que era destinada a formar a massa crítica do engenho foi transportada na noite anterior ao ensaio num prosaico Citroën 2 CV por 50 km de pistas no deserto... Não surpreenderá o leitor saber que, com tanta preparação, o ensaio se revelou tecnicamente um fiasco: a potência do engenho, que os cálculos teóricos prévios estimavam alcançar entre as 6 e as 18 mil toneladas de TNT equivalente, ficou-se por um décimo da potência esperada. Mas o mais importante fora feito: como nessa época as armas nucleares francesas se fabricavam a um ritmo artesanal, desaparecera a hipótese dos generais de Argel se apropriarem de um desses engenhos. A edição de há 57 anos do Diário de Lisboa transmitia devidamente o recado tranquilizador que o general de Gaulle pretendia dar aos seus homólogos (abaixo), comprovando, em paralelo, um dos mais sólidos princípios do jornalismo de massas: nenhum rumor é para ser levado a sério até ele ser devidamente desmentido, como acontecia com aquela sugestão (absurda!) que os acontecimentos de Argel haviam influenciado o calendário dos ensaios nucleares... Eu creio que há certas ocasiões em que, quem produz informação, se sente inferiorizado se não a produzir insultando no processo a inteligência daqueles a quem a informação é dirigida.

24 abril 2018

EVOCAÇÕES FILATÉLICAS DE OUTROS 24 DE ABRIL

Se por «24 de Abril» se entender um regime posteriormente apagado da memória colectiva porque tido por inconveniente, eis um selo duplamente de 24 de Abril.

HISTÓRIAS PROSAICAS QUE NÃO CONTRIBUIRAM PARA A ALVORADA DE ABRIL

Quarta Feira, 24 de Abril de 1974. Na véspera do 25 de Abril, numa página interior (p. 16) do Diário de Lisboa, dava-se nota de que a UEFA varrera para debaixo do tapete uma tentativa de suborno - fracassada - a um árbitro português que fora denunciada pelo jornal britânico Sunday Times. O caso, que datava já da época anterior (1973), fora protagonizado por dirigentes da Juventus num jogo da meia-final da Taça dos Campeões Europeus contra o Derby County e a descrição das medidas tomadas pelo UEFA para investigar aquilo que acontecera evidenciava o amadorismo inepto - voluntário ou não... - das autoridades do futebol europeu. Neste caso, e para variar das tradicionais insinuações sobre as arbitragens domésticas, vale a pena elogiar Francisco Lobo, porque se assistia a um árbitro português que se mostrava demasiado honesto para os padrões europeus...

O PREC DA DIREITA

Ao contrário do que Rui Ramos acima descreve, a sociedade portuguesa gerou uma alternativa em 2015: ideologicamente ela era protagonizada por pessoas como ele próprio e pelos seus amigos do Observador (jornal aparecido em 2014). O que aconteceu é que essa alternativa foi rejeitada, assim como já o havia sido 40 anos antes a alternativa das esquerdas radicais urbanas composta por organizações como o MES, a UDP ou o PRP-BR nos tempos do Processo Revolucionário em Curso (PREC), o original de 1975. Felizmente, num caso e noutro, não se entregou o país aos radicais, porque era isso que em 2015, ainda sem dinheiro, se perfilava por detrás de um Portugal à Frente cujos protagonistas se mostravam, mais do que desgastados, esvaziados de ideias. O mérito não é dos «colegas de Sócrates», ao contrário do que o despeito de Rui Ramos pretende sugerir.

23 abril 2018

ESPANHA, UM PAÍS COM UMA BANDEIRA VERMELHA E AMARELA


Se, no final da Taça do Rei, depois das tradicionais vaiadelas ao hino e em jogo jogado, o Barcelona venceu o Sevilha por 5-0, pelo Barcelona, pelo menos com os seus apoiantes mais radicais, continua-se a meter golos, mesmo depois do jogo já ter terminado anteontem. Basta a afixação destas imagens acima do dia do jogo, antes de tudo, das vaiadelas e do jogo, quando da admissão ao estádio, em que se vê que a cor amarela, que é o símbolo do independentismo catalão, está a ser proibida pelas autoridades policiais que controlam as admissões ao estádio. Ou seja, como se lê por aí pelas redes sociais, em Espanha a cor amarela passou a ser um risco de segurança. Sabia-se já da lendária antipatia dos touros pela cor roja. Mais política e menos instintiva, sabia-se também da antipatia do generalíssimo Franco por aquela mesma cor - tantos os seus inimigos de tal cor que acabaram os seus dias encostados ao paredão. Novidade desta Espanha dita democrática é mesmo esta proscrição do amarelo, por ironia a outra das duas cores da bandeira espanhola. Felizmente a política e os políticos castelhanos - que se distribuem transversalmente do PP até ao PSOE - parecem impermeáveis à ironia, a mesma ironia que me leva a publicar aqui o hino do franquismo em homenagem a estes pequenos episódios que fazem da democracia espanhola um regime com um cunho tão... castelhano.

A NICARÁGUA, TAMBÉM ÀS VOLTAS COM AS TAIS REFORMAS ESTRUTURAIS

Aquilo que acabou de acontecer na Nicarágua tem a ironia adicional de ser protagonizado por Daniel Ortega, o tal sandinista rojo que tanto incomodou a administração Reagan nos seus tempos de ouro. Agora transformado em presidente com lugar cativo (como nos estádios de futebol), nem mesmo depois de 11 anos de poder ininterrupto e de escolher a mulher para sucessora, Ortega parece ser o dono da Nicarágua, e teve que recuar abruptamente com a implementação de uma reforma na segurança social que, como tantas outras por esse mundo fora, deverá precisar de ser financeiramente reequilibrada, mas cujos protestos sociais tornaram inviável. É nestas ocasiões concretas que se percebe quanto a retórica das reformas estruturais se reveste de uma leveza semelhante à do comportamento das bolhas do anidrido carbónico nas bebidas gaseificadas: quando expostas à superfície, fazem pop e desaparecem... Quando as reformas, por muito estruturais que se proclamem, se têm de fazer à custa de alguém, o que acontece na esmagadora maioria dos casos e por muito que os promotores sejam de governos de direita, de esquerda ou do centrão (como Macron está a descobrir à sua custa em França), aqueles que saem lesados com o que se reforma tendem a reagir negativamente. Chama-se a isso política. E a política em Democracia - mesmo numa democracia assim mais ou menos como a da Nicarágua - passa por convencer as pessoas. E aí a coisa tem falhado: não é por os iluminados as qualificarem de estruturais que as mais comuns das pessoas passam a acreditar na indispensabilidade das reformas. Tanto mais que se acumulam as provas de que há muitas outras áreas que precisam ser reformadas com tanta ou mais prioridade e em que não se mexe. Por cá também foi assim e também com a segurança social: ainda se lembram quando Pedro Passos Coelho tentou impingir-nos uma coisa dessas meio à traição em Setembro de 2012?

...é que, além de ter tido que recuar na medida, como agora o fez Ortega , mais de cinco anos depois, e com mais de 14.000 milhões já ali gastos e com a conta a aumentar todos os anos, percebe-se que prioridade mais prioritária devia ter sido o sector bancário, ao qual o governo de Passos Coelho prestou uma atenção muito relutante... a não ser quando passou a ser obrigado.

A GUATEMALA DECLARA GUERRA À ALEMANHA

23 de Abril de 1918. Há cem anos, a Guatemala declarava guerra à Alemanha, ou melhor, como se lê acima: «assumia a mesma atitude beligerante que os Estados Unidos (assumiam para) com o Império Alemão». O país contava então com 1,7 milhões de habitantes e era uma ditadura férrea dirigida por Don Manuel Estrada Cabrera (que foi seu presidente entre 1898 e 1920), embora o poder de facto pertencesse à United Fruit Co., que ali adquirira milhares de hectares de plantações para a produção de fruta tropical, nomeadamente bananas, hegemonizando a política local. Era a chegada (simbólica!) da típica República das Bananas ao grande conflito...

22 abril 2018

A VERDADEIRA CORRIDA PARA OKLAHOMA

22 de Abril de 1889. Há precisamente 129 anos tinha lugar a verdadeira corrida para Oklahoma. Segundo os relatos, no fim do dia, a cidade de Guthrie (no centro do Oklahoma) tinha uma população estimada em cerca de 10.000 pessoas, chegadas ao longo dessa tarde. No recenseamento de 1900, Guthrie tinha sensivelmente essa mesma população (10.006) e assim se manteve ao longo do século XX - no último recenseamento, em 2010, eram 10.191 pessoas. Foi uma boomtown de explosão particularmente controlada...

SEM MODERAÇÃO...


Só recentemente me tornei espectador habitual deste Sem Moderação do Canal Q e talvez isso possa justificar a indulgência como aqui o vou apreciar. Admito perfeitamente que anos em cima me pudessem levar a avaliar o programa com a mesma saturação como encaro outras rotinas semanais concorrentes - um Governo Sombra (por exemplo) - em que já se me esgotou a paciência para a previsibilidade das reacções do elenco. O elenco deste Sem Moderação também tem o seu quê de prisco (Daniel Oliveira é uma espécie de Júlio Isidro destas tertúlias políticas televisivas), mas, por ora, Daniel Oliveira pelo Bloco, Francisco Mendes da Silva pelo CDS, João Galamba pelo PS e José Eduardo Martins pelo PSD, e apesar de passarem num canal de que ninguém fala, levam uma cabeça de vantagem em relação à competição multiplicada de programas do género. Um bónus do programa é que, como o título indica, a moderação do mesmo é atribuída rotativamente aos quatro intervenientes, o que evidencia quão prescindíveis são as presenças falsamente neutras de Carlos Andrade na Quadratura do Círculo ou de Carlos Vaz Marques no Governo Sombra. O vídeo abaixo é o da edição desta semana do programa, para quem esteja interessado em experimentar a minha recomendação.

A TRADICIONAL VAIADELA AO HINO ESPANHOL NA ABERTURA DA TAÇA DO REI


Qual é o país, qual é ele, em que já se tornou uma espécie de tradição ouvir uma enorme vaia ao próprio hino nacional quando das cerimónias preliminares da final da Taça em futebol? A Espanha, pois claro. Para que isso aconteça é só necessário que um dos clubes finalistas seja oriundo de uma das nações que contesta a hegemonia castelhana. Ontem, a cena - baptizada localmente de pitada - tornou-se a repetir por causa dos apoiantes do Barcelona que defrontava o Sevilha, e mesmo apesar do jogo se disputar em Madrid.

Sendo uma tradição antiga, o gesto tem adquirido uma notoriedade crescente nestas últimas décadas, e a sua audição sonora multiplica-se quando a final é disputada por dois grandes clubes que sejam conotados com nacionalidades hostis ao castelhanismo, como é o caso dos frequentes encontros entre o Barcelona (catalão) e o Atlético de Bilbau (basco). Nos últimos dez anos foi assim em 2009 em Valência, tornou a ser assim em 2012 em Madrid (são notórios os esforços da realização da TVE em abafar o som ambiente e o da organização em abreviar o momento, executando a versão curta do hino) e chegou a ser épico em 2015 quando a final da Taça se realizou em território hostil, em Barcelona.

Relativizando o fenómeno e encarando-o de forma optimista, ontem só houve lugar a uma meia-vaiadela. Especulo (e apenas isso) se aquelas mesmas pessoas vaiariam o hino com igual fervor se fosse a selecção espanhola a jogar. De toda a forma, e que conheça, actualmente é o único país da Europa em que tal fenómeno - vaiar ostensivamente o próprio hino nacional - ocorre com esta amplitude. E é caricato ver Madrid pretender que Espanha não tem problemas de identidade nacional.

150º ANIVERSÁRIO DO NASCIMENTO DE VIANNA DA MOTTA


22 de Abril de 1868. Nascimento em São Tomé de José Vianna da Motta (1868-1948), pianista e compositor português. Em projecção europeia, no seu tempo, e no campo da música, Vianna da Motta terá sido assim como uma espécie de José Mourinho, embora notoriamente menos «besonderer» - Mourinho aprendeu inicialmente com Bobby Robson, enquanto Vianna da Motta estudou com Franz Liszt. Nos últimos anos da vida, o pianista e compositor veio treinar para Portugal. O exemplo acima é de uma composição sua interpretada pelo próprio numa gravação - salvo erro - de 1928. Se hoje poucos serão os que ainda sabem quem foi Vianna da Mota e em que consistiu a sua obra, fique a certeza que, a 26 de Janeiro de 2113, pelo 150º aniversário do seu nascimento, por maioria de razão e apesar das aparências de hoje, serão também muito poucos os que saberão quem terá sido José Mourinho.

21 abril 2018

EM ABONO DA LINEARIDADE DE COMO SE AVALIAM OS COMBATES DE BOXE

Vai animada a troca de comentários entre João Miguel Tavares no Público e Ferreira Fernandes no Diário de Notícias. Era destas polémicas que antigamente, muito antigamente, se animavam os jornais e se aumentava a sua circulação. Eu já sou de um tempo posterior, em que os polemistas de vanguarda eram figuras como Eduardo Prado Coelho, que faziam a festa, deitavam os foguetes e corriam atrás das canas por entre citações eruditíssimas de Jacques Derrida (quem?! ) e o desinteresse geral dos leitores. De há muito que já ninguém segue as polémicas com a elevação do antigamente em que as questões metafísicas mais divisivas podiam ser decididas em duelos esgrimidos ou à pistola. As polémicas da actualidade são vistas com a linearidade de um combate de boxe: quem é que arreia e quem é que encaixa. E com um defeito notável em relação ao combate de boxe: a transparência do que está a acontecer no ringue. No boxe, quando se enfarda, enfarda-se, não se consegue aparecer ao terceiro assalto a fingir que o que o contendor nos disse não nos beliscou, como o tentou fazer hoje João Miguel Tavares... No boxe, há sempre uma prova física, um KO técnico, um olho negro, a demonstrar que uma das partes saíu pior da situação. Não há disfarce possível. Nestas polémicas pode-se disfarçar e, para ajudar, há sempre os amigos do derrotado para o consolar: Ele deu-te com força mas tu chegaste para ele, pá!

A MORTE DO BARÃO VON RICHTOFEN

21 de Abril de 1918. Um dia depois de ter alcançado as suas 79ª e 80ª vitórias aéreas, o grande ás alemão Manfred von Richtofen é, por sua vez, atingido por fogo anti-aéreo inimigo sobre as linhas aliadas e morre enquanto tenta que o seu reconhecível avião vermelho aterre de emergência. Tal o seu prestígio que, mesmo tendo aterrado numa secção da frente que era mantida pelas tropas australianas e apesar das ofensivas alemãs em curso noutros sectores da frente, são os seus inimigos a organizarem o funeral do ás alemão, como se pode apreciar nas imagens acima e no vídeo abaixo. Comentado de uma perspectiva benévola, este respeito pela dignidade do inimigo é um contraste significativo com a execução dos três majores portugueses na Guiné que ontem aqui foi evocado. Comentado de uma perspectiva antagónica àquela, estou a crer que qualquer dos aliados organizariam naquela altura, com a mesma pompa e com a mesma boa vontade, os funerais de todos os ases da aviação alemã que se dispusessem a perecer...

20 abril 2018

DOS TERRORISMOS CLÁSSICOS ATÉ AO TERRORISMO MODERNO DE «TRAZER POR CAUSA»

20 de Abril. Neste dia de 1998, na Alemanha, a RAF (Fracção do Exército Vermelho - Rote Armee Fraktion), organização terrorista mais conhecida pela designação de Grupo Baader-Meinhof (acima), num extenso comunicado de oito páginas enviado por fax para a Reuters, anuncia a sua dissolução depois de 28 anos de actividade. 20 de Abril, mas de 2018, e agora em Espanha. Numa carta publicada no jornal Gara, a organização terrorista basca ETA (Euskadi Ta Askatasuna) aparece a penitenciar-se por causa das vítimas que as suas acções causaram «que não tinham uma participação directa no conflito». Como aconteceu com a RAF, há quem antecipe o fim próximo da organização.
Se um certo tipo de terrorismo clássico parece caminhar gradualmente para a extinção, vale a pena recordar que, ainda a 20 de Abril, mas agora de 1999, tinha lugar o massacre de Columbine, e que esse género de acontecimentos (a que há uma grande relutância de designar por terrorismo, a não ser que o autor seja assim para o mais escuro...), esses, dizia, não têm qualquer tendência para regredir, bem antes pelo contrário: o último incidente parecido ao do liceu de Columbine, que neste caso provocou 17 mortos, aconteceu há apenas dois meses na Florida. Paradoxalmente, havendo pudor em tratá-los por terroristas, não o há em designar os seus autores por monstros (abaixo)...

A MORTE DOS TRÊS MAJORES

20 de Abril de 1970. Se há dois dias se evocou a emboscada aérea que há 75 anos levou à morte do Almirante Yamamoto, hoje evoca-se, como se prometera, um outro episódio, vagamente semelhante, que conduziu à morte de três majores do exército português que, na Guiné, iriam parlamentar desarmados com um comando local do PAIGC, visando a rendição deste e a sua integração no quadro das autoridades coloniais. A morte dos três, conjuntamente com mais quatro acompanhantes (um alferes do exército português e três guias guineenses), pôde ser (e foi) razoavelmente reconstituída e aparece profusamente comentada em vários textos na internet (abaixo, o croquis do relatório oficial). Não se pondo a questão quanto à identidade dos autores materiais das execuções (os membros do comando que supostamente se iriam render), existe toda uma literatura especulativa a respeito das circunstâncias dessas execuções. Seria verdade que a rendição dessas forças locais do PAIGC no chão manjaco fora uma encenação desde o princípio? Quem ordenara, e assacava assim com a responsabilidade moral, as execuções dos parlamentares desarmados? É que, pior do que o ataque selectivo a Yamamoto em 1943, neste caso havia-se quebrado mais outra convenção de guerra, a que protege os parlamentares quando do curso de negociações. Do lado da direcção política do PAIGC apresenta-se-lhes uma lose/lose situation: se se demarcavam do que acontecera, transmitiriam a imagem de que não controlam as suas tropas no interior da Guiné; se assumissem as execuções, ficariam com o odioso da decisão. Mal por mal, optaram por esta última assumpção, uma atitude que os veteranos do PAIGC mantêm até à actualidade, sem se conseguir descortinar quanto da história das negociações terem sido um embuste cuidadosamente gerido pelos guerrilheiros é mesmo verdade, ou se se trata apenas de uma bravata para preservar a ficção política. 48 anos depois, e já há muito conhecido o vencedor (o que torna muito mais fácil encontrar uma verdade), o que ainda estará em disputa é a memória histórica do que realmente terá acontecido.
Em homenagem a essa memória, 12 anos depois dos acontecimentos de há 48 anos, Fausto fazia de Fernão Mendes Pinto um improvável símbolo da memória de todos aqueles que, baços, sem o brilho da glória, dilataram a fé e o império, mesmo que não acreditassem nem numa nem noutro.

19 abril 2018

E CONTINUA A SER INGENUIDADE MINHA...(2)

...precisamente a mesma ingenuidade que ontem aqui manifestei, por ver agora mais outro concurso do estado angolano a ser objecto daquele mesmo destaque noticioso por parte da comunicação social portuguesa. Em adenda, vale a pena realçar que os medicamentos e consumíveis hospitalares valem 26 vezes menos que as viaturas destacadas ontem.

(...MAIS) UM CASAMENTO DO SÉCULO

19 de Abril de 1956. Neste dia de há 62 anos tinha lugar uma das mais bem sucedidas operações de promoção da segunda metade do século XX: o casamento do príncipe Rainier III do Mónaco com a actriz (norte-americana) Grace Kelly. Era a história vivida da gata borralheira - embora a gata no caso fosse bem pouco borralheira... Enfim, os ingredientes da história estavam todos lá, o príncipe e a corista, com o adicional de que o evento, por causa da nacionalidade da noiva, concitar o interesse de audiências dos dois lados do Atlântico. O casamento de um monarca que reina sobre uma pequena vila deu para despertar a preciosa atenção da maioria da comunicação social mundial para um local que precisava desesperadamente dela porque, por causa do seu casino, vivia do turismo de luxo (abaixo). Entre os micro estados da Europa, o Mónaco (que hoje tem 38.000 habitantes) supera em notoriedade (de longe!) o Liechtenstein ou São Marino, que têm populações semelhantes, ou mesmo Andorra, que alberga o dobro dessa população. O Mónaco até já ganhou o Eurofestival da Canção em 1971, feito que Portugal só conseguiu em 2017. Outra prova do sucesso consolidado que o evento de há 62 anos desencadeou é o interesse que as vicissitudes entre os membros da família reinante local mantém entre a imprensa da especialidade. Nesta imprensa não é costume (nem se considerará elegante) fazer comparações de índole económica, demográfica, militar ou outra, notando, nomeadamente, que a monarca do Reino Unido tem quase duas mil vezes mais súbditos que o monarca do Mónaco. Só que em valor jornalístico, a contabilidade é outra e reconheça-se as fofocas sobre Kate Middleton, embora mais apetecíveis e sumarentas, não valem duas mil vezes as que se publicam sobre a princesa Caroline...

«SARCO», A MÁQUINA QUE O AJUDA A MORRER QUANDO QUISER

A notícia desta máquina que ajuda a morrer já tem uns dias, dei por ela no Diário de Notícias, e há nela uma passagem que me impressionou tanto que vale a pena transcrevê-la:

«Mas como funciona a máquina da morte? Esta máquina é composta por um caixão destacável, o qual é colocado em cima de um suporte que contém um tanque com nitrogénio. A pessoa que quer morrer, aperta um botão e a cápsula é preenchida com o gás que, inalado em altas doses, é letal. A morte chega em segundos. A princípio, "a pessoa vai sentir-se um pouco tonta, mas rapidamente perde a consciência e morre", explicou Nitschke à agência de notícias France Press. Uma das cobaias disse ao britânico The Guardian como tinha sido a experiência de morrer virtualmente: "Foi realmente uma experiência e uma coisa estranha de se ver. Mas muito bonita e calma. Você vê a lua, você vê o mar. É muito calmo".»

Esta descrição lembrou-me preocupantemente a cena da eutanásia assistida da personagem de Edward G. Robinson no filme «Soylent Green» de 1973. Vale a pena recordá-la no vídeo abaixo. E note-se que o filme é uma antecipação científica de carácter distópico, em que a acção decorre num futuro que então parecia longínquo mas que agora já está bem próximo de nós: o ano é 2022 e o Mundo atravessa uma crise de superpopulação e de escassez de recursos, nomeadamente alimentares.

18 abril 2018

PROFECIAS POR CONCRETIZAR...

«Em 2016, a inteligência e o intelecto humanos poderão ser incrementados por drogas e pela conexão directa dos nossos cérebros a computadores!» Era o que se previa há mais de 50 anos, em Dezembro de 1965 mas, cá chegados ao futuro, constata-se que não será bem assim... A droga psicotrópica mais popularizada é o ecstasy, que não se destina propriamente a dinamizar a faceta intelectual de quem a consome. Quanto à conexão directa dos nossos cérebros a computadores, essa ainda não se realizou, mas o que de mais próximo existe, uma relação viciante entre os utilizadores e a computação, resultou na constituição das chamadas redes sociais. Ora estas só vieram confirmar aquilo que já anteriormente fora descoberto sobre manipulação e a idiotia do comportamento humano colectivo. Também nesse aspecto não se pode falar de um incremento, talvez antes de uma recessão. A profecia deixa muito a desejar.

DEVE SER INGENUIDADE MINHA...(1)

...mas não consigo descortinar as razões para que um concurso do estado angolano seja objecto de um tal destaque noticioso por parte da comunicação social portuguesa...

A MORTE MATADA DO ALMIRANTE YAMAMOTO

18 de Abril de 1943. Protegidos por uma meia dúzia de caças Zero, dois bombardeiros Mitsubishi G4M Betty japoneses preparavam-se para aterrar no aeródromo de Kahili, que se situa na extremidade meridional da ilha de Bougainville (mapa abaixo), quando, subitamente e surgidos de sudoeste e a rasar o mar para escapar à detecção, surge uma esquadrilha de 16 P-38 Lightning norte-americanos. Descartando os Zeros e aproveitando-se da superioridade numérica, os atacantes concentram-se nos aviões maiores e abatem-nos em sucessão sobre a selva que cobre a ilha. Apenas mais um episódio das centenas que ocorrerão naquele dia no quadro da Frente do Pacífico da Segunda Guerra Mundial então em curso? Não, porque a bordo de um dos bombardeiros abatidos viajava o almirante Isoroku Yamamoto que morrera na queda do aparelho que o transportava. E não, porque, como anos depois se virá a saber, a presença dos aviões americanos naquele local e àquela hora (09H35) não fora acidental. Desde há vários anos que os americanos conseguiam decifrar os códigos japoneses. E, no princípio daquele mês, os serviços de intercepção haviam descoberto que Yamamoto iria realizar uma visita de inspecção às forças aeronavais japonesas nas ilhas Salomão. A incúria japonesa chegara ao ponto de transmitir o programa da visita de Yamamoto em mensagem rádio e os americanos ficaram a saber o programa tão bem quanto os comandos japoneses encarregues de receber Yamamoto.
Não só sabiam como dispunham dos meios militares para tirar partido da ocasião. A questão que se poria, ao almirante Halsey ou ao almirante Nimitz, homólogos de Yamamoto na marinha adversária, era um problema de ordem moral: Seria aceitável utilizar aquela vantagem para liquidar um grande chefe inimigo? A decisão não poderia dar lugar a novos expedientes de guerra, visando liquidar seleccionadamente as chefias militares inimigas? E a decisão não poderia, terminada a guerra e com outro quadro moral, voltar-se contra os próprios decisores? Nimitz consultou o seu staff que se inclinou para a validade da operação. Apesar de se conhecer a sua oposição estratégica a um enfrentamento militar directo com os Estados Unidos, fora Yamamoto quem concebera o plano de ataque inicial contra Pearl Harbor e nem a derrota de Midway ou o mais recente abandono de Guadalcanal o desvalorizara aos olhos dos americanos a ponto de deixarem de o considerar um dos principais activos do inimigo. Ironicamente, este respeito profissional por Yamamoto vai ser a causa desta espécie de sentença de morte. Na fotografia abaixo, vê-se Yamamoto nesse mesmo dia de há 75 anos a cumprimentar os pilotos da base aeronaval de Rabaul, naquela que se acredita ser a sua última fotografia. A operação, denominada Vingança, foi mantida em segredo até ao fim da guerra, preservando o segredo de que os norte-americanos haviam quebrado os códigos japoneses.
Esta questão ética de seleccionar, mesmo em guerra, os alvos a abater entre o inimigo, como o fazem, por exemplo, os snipers (franco-atiradores), é uma questão a que voltaremos depois de amanhã, por ocasião de uma outra efeméride de há 48 anos que diz mais respeito aos portugueses.

17 abril 2018

PORQUE É QUE HÁ CERTAS COMPARAÇÕES INTERNACIONAIS DE QUE NÃO SE FALA?

Como se pode ver abaixo, o assunto do aumento gradual da carga com os impostos é recorrente. O Expresso mencionou-o em 2014 (naturalmente referente ao ano de 2013), a TSF voltou a ele em 2016 (sobre 2015) e agora em 2018, já com a Geringonça em funções, passou a ser o Observador a elegê-lo, com o notável retoque político do tema ter sido abordado pelo seu publisher. Os títulos coincidem - nunca pagámos tantos impostos. Pagar impostos nunca foi popular e pagá-los estará a ser uma coisa progressivamente cada vez mais horrível. Mas será que isso torna os portugueses em contribuintes tão mais espremidos quando comparados com os restantes parceiros europeus?...
É curioso como se afirmem coisas sem que, no caso, se proceda àquelas comparações que só noto que se costumam empregar - coincidência ou não - quando é para dar Portugal a pertencer à cauda da Europa... Socorramo-nos de uma lista precisamente a esse respeito que está disponível na wikipedia, e corrobora-se que Portugal até aparece nela com a carga fiscal que é referida acima por José Manuel Fernandes, «a mais elevada dos últimos 22 anos»: 37,0% do PIB. E isso é uma carga pesadíssima quando comparada com a carga fiscal da Espanha (37,3%)? E da Grécia (39,0%)? E da Itália (43,5%)? Ou ainda da França (47,9%)? Dos países nórdicos é melhor nem falar, todos rondando ou ultrapassando os 50%. E quanto à Alemanha, que se tornou a referência do que na União Europeia se deve fazer, a carga fiscal é de... 44,5%. Na verdade, nessa lista, a que os jornalistas das parangonas acima se dispensaram de recorrer, Portugal aparece no meio da tabela (como se comprova abaixo), o que, se explicado, atenuaria o catastrofismo da coisa. Torna-se, por isso, informação irrelevante, que relativizaria aquilo que se pretende que o leitor deve pensar. Ou, dito de outro modo, aquilo que é enfatizado é falso, apesar de ser estritamente verdadeiro. Note-se que coisa outra será questionar se é proporcional aquilo que se obtém do Estado dos 37,0% que se colectam em impostos, mas isso é uma discussão - política - para a qual, pelo acima exposto, não reconheço a jornalistas como José Manuel Fernandes a honestidade intelectual para a travar a sério. Aquilo ali em cima é apenas «tiro ao Centeno.»