Mostrar mensagens com a etiqueta 70º Aniversário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 70º Aniversário. Mostrar todas as mensagens

04 julho 2024

O FIM DE TODOS OS RACIONAMENTOS NO REINO UNIDO

4 de Julho de 1954. Só neste dia é que se assinala o fim do racionamento de qualquer produto no Reino Unido. Imposto por causa da Segunda Guerra Mundial, que durou seis anos (1939-45), prolongou-se por mais nove anos depois de ela ter terminado (1945-54).
Numa desforra apenas natural, dali por dez anos, em 1964, os mesmos britânicos elevavam esta outra canção ao seu top de vendas de discos, «Downtown» (a Baixa, em tradução muito livre), um verdadeiro hosana ao consumismo.
Como coincidência adicional, hoje os britânicos vão a votos depois de terem votado para sair da União Europeia em 23 de Junho de 2016, tendo abandonado essa mesma UE em 31 de Janeiro de 2020. O assunto parece encerrado.

27 junho 2024

DE UM VALEDERO DE FICÇÃO A UM ÁRBENZ REAL

(Republicação a pretexto de que hoje, 27 de Junho, se completam 70 anos sobre a renúncia de Jacobo Árbenz à presidência da Guatemala)
aqui falei de O Regresso do Fantasma, uma história de BD de Hermann & Greg de 1973. Recontando a síntese do enredo, o presidente (Juan Enrique Valedero) de uma República latino-americana (Monteguana) é vítima de um atentado que destrói o seu iate de cruzeiro e ao qual ele escapa por acaso. O navio dos nossos heróis (o Cormoran), acidentalmente por perto, recolhe-o, assim como aos seus dois guarda-costas, os únicos sobreviventes da tragédia. Antes de o poder comunicar, Valedero apercebeu-se que o atentado se tornara um pretexto para que houvesse um golpe de estado em Monteguana.
A morte do presidente já fora anunciada pela comunicação social de Monteguana sem que tivesse havido qualquer pedido de socorro, tanto do iate como do Cormoran. Os nossos heróis vêm-se assim associados aos esforços do presidente fantasma para recuperar o poder, enquanto os golpistas tentam eliminá-los a todos, tornando real a verdade oficial que fora entretanto antecipadamente proclamada. É nessa viagem para recuperar o poder que Valedero, um intelectual de ascendência europeia oriundo das elites do país, se apercebe que a realidade política do seu país é muito diferente da que imaginava…
A história acaba bem, com um presidente mais lúcido de um país retrógrado – veja-se como o soldado na imagem acima apenas o reconhece por causa dos selos do correio… Em O Regresso do Fantasma nota-se tanto a inspiração histórica do exemplo de Jacobo Árbenz, o presidente da Guatemala entre 1951 e 1954, como uma certa perspectiva ideológica europeia¹ que acreditava que o despotismo esclarecido bem intencionado de alguns dos membros das elites tradicionais poderia ser o catalisador para transformações sociais que derrubassem as oligarquias locais tradicionalmente apoiadas pelos norte-americanos.
Jacobo Árbenz (1913-1971) havia nascido de uma dessas famílias guatemaltecas, no caso de ascendência suíça e a natureza dotou-o, como se nota, com a pose aristocrática indispensável a quem pretende pertencer às elites. Por força das circunstâncias (o pai suicidara-se e a família passava por dificuldades financeiras) veio a matricular-se e graduar-se como oficial do exército em 1935 com um percurso académico brilhante. Dois anos depois tornava-se ali professor. E nos inícios de 1939 casava na sua classe, com uma filha de uma família de latifundiários salvadorenha. Entretanto começara a Segunda Guerra Mundial.
Os anos finais da Guerra foram um período de liberalização do continente, substituindo os regimes despóticos anacrónicos que os Estados Unidos haviam protegido, como era o caso do guatemalteco do General Ubico. O Capitão Árbenz, apesar da juventude (31 anos), já aparece associado aos movimentos militares que em 1944 vão acabar por conduzir à realização das primeiras eleições razoavelmente livres da História da Guatemala, que foram ganhas de uma forma esmagadora (cerca de 85% dos votos) por Juan José Arévalo, um académico intelectual, professor universitário e doutorado em Filosofia.
O período de seis anos (1945-51) da presidência de Arévalo foi uma época impar do usufruto de liberdades políticas na Guatemala que criaram condições para que a disputa política quanto à sua sucessão se tivesse travado nas urnas e não com armas como era a tradição do continente. Defrontavam-se a facção radical de inspiração marxista do movimento que colocara Arévalo no poder e a facção conservadora desse mesmo movimento, que pretendia estancar por ali a dinâmica entretanto criada. A primeira facção, protagonizada por Jacobo Árbenz, venceu as eleições presidenciais de 1951 com cerca de 60% dos votos.
A eleição de um esquerdista teve o condão de colocar a até então ignorada Guatemala no mapa das preocupações norte-americanas, atenta ao que a então recém-criada CIA designava por penetração soviética na América Latina. O detonador das inquietações foi a intenção, manifestada por Árbenz, em realizar uma Reforma Agrária², problema capaz de desencadear um conflito entre os interesses guatemaltecos e norte-americanos, com a multinacional United Fruit Company (a maior empresa mundial de comércio de frutos tropicais) de permeio como a maior empregadora e a maior latifundiária do país.
As operações da CIA que conduziram ao derrube de Árbenz, criando e treinando um exército dito rebelde, promovendo uma guerra de propaganda e algumas manobras de diplomacia de canhoneira tornaram-se exemplos das guerras sujas desenvolvidas por aquela organização para estes casos. O regime acabou por cair com uma facilidade que desmentia as conexões soviéticas. A Jacobo Árbenz foi-lhe permitido partir para o exílio no México mas, derradeira humilhação, foi-lhe exigida uma revista metódica na alfândega. Até ao fim, mesmo fotografado de cuecas, Árbenz mostrou ser o perfeito aristocrata…
¹ Essa perspectiva no Século XX é exclusivamente de esquerda, onde a referência obrigatória é Fidel Castro, mas no Século XIX, como se vê pelo caso da intervenção do Imperador Napoleão III no México (1862-67), mostra como aquela perspectiva ideológica era abrangente.
² Tratava-se de uma verdadeira Reforma Agrária, envolvendo a expropriação de parte das terras dos latifundiários para que elas fossem repartidas e redistribuídas entre os camponeses pobres. Não confundir com a colectivização das terras ocupadas e/ou expropriadas, processo a que os comunistas portugueses em 1975 deram o mesmo nome.

15 junho 2024

O 70º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA UEFA

15 de Junho de 1954. Fundação em Basileia, na Suíça, da União das Associações Europeias de Futebol, que costuma ser designada pelo acrónimo da organização em inglês: UEFA. Actualmente a organização é composta por 55 associações, algumas das quais constituem cedências políticas à geografia, já que não se localizam total ou parcialmente na Europa. É o caso de Chipre, Israel e Cazaquistão pela totalidade e da Rússia e da Turquia parcialmente. Também a classificação como europeus dos três países caucasianos (Arménia, Azerbaijão e Geórgia) é passível de discussão. Outros países, mesmo que indiscutivelmente europeus, estão inscritos com mais de uma associação, caso do Reino Unido com cinco associações (Inglaterra, Escócia, Gales, Irlanda do Norte e Gibraltar) e da Dinamarca com duas (Dinamarca e ilhas Faroé). Outro caso peculiar é o da associação do Kosovo, região que goza de um estatuto político algo indefinido, reconhecido por alguns países, mas não por outros. Futebol, geografia e política constituem uma mistura pouco coerente.

28 maio 2024

OS POSTAIS COMEMORATIVOS DO ESTADO NOVO

28 de Maio era o dia comemorativo do Estado Novo. Este postal foi publicado por ocasião do 28º aniversário da data, há precisamente 70 anos. A dupla em destaque é a do incontornável presidente do Conselho, Oliveira Salazar (à esquerda) e o presidente da República em exercício, Craveiro Lopes. Entre os dois, aquele que fora o primeiro presidente do Estado Novo durante 25 anos, Óscar Carmona, falecido em 1951. Entrara-se numa fase em que, parafraseando o seu homem forte, mais do que Portugal, até mesmo quem o dirigia subsistia como habitualmente.

25 maio 2024

A ÚLTIMA FOTOGRAFIA DE ROBERT CAPA… E UMA DAS PENÚLTIMAS.

(Republicação)
É muita conhecida esta última fotografia de Robert Capa, tirada ao princípio da tarde de 25 de Maio de 1954, num pequeno troço de estrada de cerca de 20 km que separa Nam Dinh de Thái Bình no delta do Rio Vermelho, no Norte do Vietname. A coluna militar francesa onde seguia Robert Capa fez uma pausa, ele apeou-se e saiu da estrada para tirar umas fotografias, tirou algumas e… pisou uma mina cuja explosão o matou. Tinha 40 anos.

Muito menos conhecida que a outra, mas muito mais simbólica, é esta fotografia abaixo, tirada anteriormente, durante essa última deambulação de Capa. A coluna militar motorizada na estrada, em contraste com o camponês que trabalha com o seu búfalo no arrozal, é, apesar das aparências, uma coluna de um exército derrotado: menos de três semanas antes, a 7 de Maio, as unidades de elite francesas tinham-se rendido em Dien Bien Phu...

20 maio 2024

OS "MELÕES" (ELEITORAIS) E AQUILO QUE PARECE SER A NOVA ESTRATÉGIA POLÍTICA DA "MELANCIA" COMUNISTA

Se querem saber a minha opinião ao ler esta promoção às «jornadas parlamentares comunistas», acho que é uma grande injustiça para os mais de 40 anos de leais serviços à causa comunista por parte do partido ecologista os verdes. O PEV «foi fundado em 1982 e concorreu sempre às eleições em coligação com o PCP», na função subalterna de partido satélite encarregue dos assuntos ambientais e com a função de fazer com que o PCP se apresentasse a eleições como se fosse uma frente eleitoral, e não o partido per se. O sucesso da primeira parte do expediente não parece ter durado muito, mas, avaliando a duração de 40 anos, terá deixado os seus autores felizes quanto ao sucesso da segunda parte - a da ficção da frente eleitoral. Até ao definhamento eleitoral do PCP registado nas sucessivas eleições legislativas desta última década: 446.000 votos (2015), 332.000 (2019), 242.000 (2022), 203.000 (2024). Apesar da robustez aparente da expressão acima, onde se lê «...que juntarão os deputados e eurodeputados do partido», está-se a falar concretamente de uma meia-dúzia: são quatro deputados e dois eurodeputados, os que o PCP conta hoje por eleitos (quiçá queiram adicionar ainda o deputado regional da Madeira ao elenco para serem sete...). Por detrás desse parece-o-que-não-é, aquilo que me considero verdadeiramente inédito no artigo comunicado acima é o destaque dado a assuntos que canonicamente pertenceriam aos verdes - «questões que se prendem com a defesa do ambiente, a protecção do nosso património natural, da natureza, da biodiversidade». Ora esta manobra parece-me uma grande - e injusta - rasteira à Heloísa Apolónia. Depois de tantos anos com os verdes, são agora os comunistas, falhos de outras perspectivas, a quererem fazer-se passar por melancias. É ainda mais triste do que quando eram os verdes a fazê-lo, passarem-se por ecologistas.

É que a imagética tradicional do comunismo está repleta de exemplos do Homem a dominar e domar a natureza, de hossanas à produção, como esta fotografia abaixo de Vsevolod Tarasevich de uma fábrica de cimento soviética em plena laboração em 1954, há 70 anos. Com muito fumo, a simbolizar muita actividade. E, pelo contrário, não conheço muitas fotografias de propaganda comunista canónica com ninhos de passarinhos, ou outra temática bucólica análoga... Com este lastro, é muito tarde para os comunistas portugueses se reinventarem a serem outras coisas...

19 maio 2024

IMAGENS DE OUTROS SANTOS PORTUGUESES – 2

70º aniversário da morte de Catarina Eufémia. Republicação
A fotografia acima é um retrato (como então se dizia) típico dos anos cinquenta de uma mulher pobre – uma verdadeira proletária, no sentido marxista do termo – como se comprova pela modéstia dos adornos visíveis que usa: um colar simples com uma medalha. Chamava-se Catarina Eufémia, era uma trabalhadora rural que encabeçava uma manifestação reivindicativa quando foi morta pela GNR em 19 de Maio de 1954 em Baleizão no Baixo Alentejo. A sua condição de proletária e de analfabeta torna muito improvável a afirmação que ela fosse uma militante clandestina do PCP, conforme este último ainda hoje reclama.
Mas uma coisa é certa: o PCP dispôs de outros candidatos a santos mártires pela causa (como será o caso de José Dias Coelho), mas foi nela que apostou decisivamente para esse papel, sobretudo depois do 25 de Abril. Como aconteceu com Ribeiro Santos, a representação de Catarina Eufémia tornou-se estilizada, usando um jogo de padrões claro/escuro que se tornasse reconhecível nas pinturas murais (acima). E houve até quem tivesse ido mais longe e tentado tornar a imagem da Santa um pouco mais misteriosa e atractiva, invertendo-a no seu eixo vertical, como se pode observar neste cartaz abaixo, datado de 1980…
Em complemento ao texto inicial, vale a pena publicar a notícia da época, publicada no Diário de Lisboa do dia seguinte, que dá conta da «impressionante manifestação de pesar» do seu funeral. Como a realidade frequentemente vem acompanhada de ironia, o nome da vítima aparece trocado: Maria da Graça Sapinho, em vez de Catarina Eufémia... O episódio é dado como acidental e o autor dos disparos, o tenente Carrajola, é dado como estando sob prisão, em Évora. E vale a pena assinalar que, pelo conteúdo, parece não ter havido intervenção da censura na publicação da notícia. É um daqueles casos em que agora não se menciona esse aspecto, mas, caso tivesse havido censura à notícia, a propaganda do PCP não deixaria de o realçar.

13 maio 2024

A CAPITAL MUNDIAL DA TELEVISÃO A CORES

Algures em 1954 temos esta fotografia da linha de montagem de televisores a cores da RCA instalada em Bloomington, no estado norte americana do Indiana. Tendo começado a produzir televisores desde 1949, à época, as instalações, com 14 hectares e onde chegaram a trabalhar 8 mil pessoas, eram uma das maiores fábricas de televisores de todo o Mundo, com a particularidade de já ali se produzirem (como se pode ver na foto) televisores a cores (a ponto de a cidade ser conhecida como "a capital mundial da televisão a cores"). Contudo, estas televisões a cores eram desproporcionadamente caras: custariam mais de € 10.000 aos preços actuais. Além disso, a programação a cores era escassa e a qualidade da imagem, como se percebe na foto, não era grande coisa. Não se vendiam muitas televisões a cores. Era uma capital mas não era uma grande capital. A tecnologia para uma televisão a cores mais acessível, tanto no que se refere a custos de produção de programas, como a custos dos receptores domésticos, estava reservada para uns 15 anos no futuro, no final da década de 1960. Entretanto, a fábrica de Bloomington viveu o seu ciclo, entre 1949 e 1998, quando foi encerrada e transferida para o México. Durante esses quase 50 anos, produziu um pouco mais de 65 milhões de televisores, tanto a cores como a preto e branco.

08 maio 2024

O DOUTORAMENTO DO CAUDILHO

(Republicação)
Salamanca, 8 de Maio de 1954. Haviam-se passado precisamente nove anos após o fim da Segunda Guerra Mundial na Europa, mas o que se celebrava na famosa Universidade local (a mais antiga da Europa) era o seu 700º centenário, oportunidade para a cerimónia da atribuição do grau de doutor honoris causa ao generalíssimo Francisco Franco (1892-1975). Há muito que o reitor da universidade deixara de ser um Miguel de Unamuno (1864-1936), cuja conduta levara a que fosse expulso do cargo em 1936. Dezoito anos depois o reitor chamava-se Antonio Tovar (1911-1985), viria a ser um filólogo de mérito, mas cujo êxito da carreira inicial se deveria muito mais à militância na Falange e à protecção de Serrano Súñer, o cunhadíssimo (1901-2003), do que aos seus predicados académicos. Para a ocasião, o caudilho de Espanha, que nunca pretendera passar por intelectual, e a quem se conhecia até alguns comentários de desdém pela actividade, mostrava estar nitidamente fora da sua zona de conforto. O discurso de aceitação que proferiu (acima), após as quase obrigatórias expressões de modéstia preliminares, foi de uma auto-congratulação deslocada, com referência àqueles de nós que fazem a História, comparando a sua obra aos caudilhos reais que no Século XIII, já na fase de merecido descanso após a conclusão vitoriosa da Reconquista, lançaram as fundações sobre as quais a gloriosa Universidade de Salamanca viria a ser erigida. Foi uma cerimónia tensa, descreveu-a quem a ela assistiu: a certa altura, um dos professores catedráticos presentes tentou tirar a sua bolsa de tabaco do bolso e viu o seu gesto ser escrutinado por um punhado de membros da equipa de segurança do chefe de Estado espanhol subitamente reunidos à sua volta. Franco permaneceu rígido durante toda a cerimónia, mal abriu a boca durante o banquete que se lhe seguiu, e este terminou com o homenageado que a ele presidira a levantar-se bruscamente sem quaisquer palavras finais. Fora um frete para ele… e fora outro frete para a docência da Universidade. Porém, a história deste frete recíproco não se terá perdido na memória colectiva da instituição e não terminou ali assim. Em 2008, 54 anos passados, a Universidade rejeitou a concessão do título académico a Francisco Franco. Como alguém disse na altura e a propósito: não para reescrever a história, que essa foi a que foi, mas para reescrever a dignidade da Universidade.

07 maio 2024

A RENDIÇÃO DE DIEN BIEN PHU

(Republicação)
7 de Maio de 1954. Há 70 anos rendiam-se as últimas unidades francesas que ainda resistiam em Dien Bien Phu ao cerco que lhes fora imposto nos últimos 57 dias pelas forças do Viet Minh. O local da batalha, no mais remoto interior do Norte do Vietname, no coração de uma região absolutamente controlada pelo Viet Minh (ver mapa mais abaixo), fora escolhido pelos próprios franceses, o que tornava a derrota ainda mais amarga. Em Paris, o Le Monde embrulhava-a numa circunspecta constatação factual: não há notícias da guarnição de Dien-Bien-Phu.
Não se consegue justificar uma derrota desta amplitude sem ter que condenar aqueles que foram os seus responsáveis militares e, quando não se quer fazer isso, romantiza-se o episódio, divergindo a atenção da narrativa da batalha para os actos de bravura individuais dos combatentes e/ou para aspectos anedóticos a ela associados. Em Dien Bien Phu, as posições francesas (acima) tinham todas nomes femininos, a que alguém mais imaginativo pôs a correr tratar-se das antigas amantes do general francês que comandava a guarnição. É uma história engraçada para justificar o feminino num meio onde ele era escasso, mas, mais prosaicamente, tratou-se apenas de dar sonoridade a posições que haviam sido designadas inicialmente pelas letras do alfabeto: A (Anne-Marie), B (Béatrice), C (Claudine), D (Dominique), E (Eliane), F (?), G (Gabrielle), H (Huguette) e I (Isabelle).
Se o mapa do campo de batalha de Dien Bien Phu (mais acima) é costumeiro, muito mais raro é este mapa acima, que nos mostra a situação militar na Indochina Francesa nesse mesmo mês de Maio de 1954 e que, à época, deveria ser um segredo militar.. As regiões pintadas de laranja são consideradas sobre controle do Viet Minh e as encarnadas são as que estão em disputa. Embora as populações se concentrem mais nos deltas dos rios e nas zonas costeiras e ribeirinhas, mesmo assim é evidente que coexistiam duas administrações rivais na Indochina: a que transitara da administração colonial francesa e a nacionalista/comunista. Dien Bien Phu foi só a constatação sangrenta da impotência francesa.

07 abril 2024

O DISCURSO DE APRESENTAÇÃO DA »TEORIA DO DOMINÓ»

7 de Abril de 1954. Numa «conferência de imprensa» que foi televisionada e radiodifundida (abaixo), o presidente norte-americano, Dwight Eisenhower, confere uma perspectiva estratégica às consequências de uma derrota ocidental na Indochina (Vietname), derrota essa que cada vez mais se tornava provável. Segundo as explicações que dera, a queda da Indochina poderia arrastar atrás de si as regiões adjacentes na Ásia: Tailândia, Malásia, Filipinas, Coreia, Japão, etc. No dia seguinte o New York Times publicava um mapa esclarecedor (acima) e algum tempo depois o discurso e o conceito ganharam uma designação identificativa por causa de uma passagem mais imaginativa do discurso: a teoria do dominó. O «efeito dominó» veio a permitir que as administrações norte-americanas apresentassem como indispensáveis intervenções em locais que não ameaçavam directamente os interesses dos Estados Unidos, locais esses que a sua opinião pública não fazia ideia de onde ficavam, mas que, por efeito de contágio, podiam tornar-se muito perigosos. Como veio a ser o caso mais flagrante do Vietname.

13 março 2024

UMA MANHÃ DE INVERNO DE HÁ SETENTA ANOS

Fotografia de uma manhã de Inverno enevoada na Lorena francesa, com três crianças a caminharem à beira da estrada envergando capotes regionais. A fotografia data de 1954 e é da autoria de Willy Ronis.

12 março 2024

O INÍCIO DA BATALHA DE DIEN BIEN PHU

12 de Março de 1954. Mais importante do que considerações sobre a batalha de Dien Bien Phu - à qual regressaremos por ocasião do seu desfecho, a 7 de Maio - o que é interessante chamar a atenção é para a forma como o início da batalha foi noticiado, vai para 70 anos. No dia 12 de Março (acima), que foi a véspera do dia do início da ofensiva do Vietminh, os jornais ainda davam conta dos combates que se travavam à volta daquela posição (Dien Bien Phu) onde os franceses se haviam entricheirado. E depois passaram-se três dias de um silêncio opaco. Só a 15 de Março se tornaram a publicar notícias (abaixo), e logo da queda de um dos redutos (denominado Beatrice) em que assentava a defesa do dispositivo. As «explicações do alto comando» de que «a notícia do ataque» vietnamita fora «retardada por» razões de «segurança» era mais do que inverosímeis para quem se desse ao trabalho de ler - e descodificar - aquilo que era possível publicar sobre o que seria a situação táctica na «fortaleza» cercada: os franceses haviam sido completamente surpreendidos e iriam pagar por isso.

09 março 2024

«GOOD NIGHT, AND GOOD LUCK»

(Republicação adaptada)

Não há ninguém que esteja familiarizado com a história do seu país que possa negar quanto os comités do congresso são uteis. É conveniente que se investigue antes de se legislar. Mas a linha entre investigar e perseguir é muito ténue e o mais novo senador do Wisconsin tem ultrapassado essa linha repetidamente. O que ele melhor conseguiu foi estabelecer a confusão na opinião pública entre o que são as ameaças internas e as externas do comunismo. Não devemos confundir discordância com deslealdade. Temos que nos lembrar que a acusação não é só por si prova e que as condenações dependem da produção de prova conforme o estabelecido pela lei. Não nos vamos atemorizar. Não há-de ser o medo a conduzir-nos a uma era onde subsista a ausência da razão. Se pesquisarmos aprofundadamente na nossa história e na nossa doutrina lembrar-nos-emos que não descendemos de homens que se amedrontassem nem de homens que receassem usar o livre direito à palavra e à associação e à defesa de causas que então fossem impopulares. Não é a altura para aqueles homens que se opõem aos métodos do senador McCarthy permaneçam silenciosos e o mesmo para os que o aprovam. Não podemos negar a nossa herança e não podemos escapar à responsabilidade pelo resultado daquilo que vier a acontecer. Não há forma de um cidadão da República renunciar às suas responsabilidades. Como nação, chegámos numa idade precoce à maioridade. Proclamo-nos, como de facto é verdade, como os defensores da liberdade em qualquer parte do Mundo onde subsista. Mas não podemos estar a defender a liberdade lá fora e virar-lhe as costas cá dentro. Os actos do senador mais novo do Wisconsin alarmaram e surpreenderam os nossos aliados enquanto foram um conforto para os nossos inimigos. E de quem é a culpa? Na verdade, não é dele. Não foi ele que criou este ambiente de medo, ele limitou-se a explorá-lo e, reconheça-se, com muito sucesso. Cássio tinha razão: «A culpa, meu caro Brutus, não é das estrelas, mas de nós mesmos que consentimos em ser inferiores». Boa Noite e Boa Sorte!
Foi a 9 de Março de 1954 que a CBS transmitiu o seu habitual programa See It Now que nesse dia foi dedicado à notoriedade que fora adquirida pelo senador Joseph McCarthy na sua campanha contra as infiltrações comunistas por toda a América. O discurso acima é apenas a recuperação dos dois minutos finais daquele programa. Popularizada a figura de Ed Morrow por causa do filme de 2005 e para além da efeméride de há precisamente 70 anos, é sempre interessante recuperar este grandioso momento de embate frontal entre o poder político e o poder mediático nesta América que agora já experimentou a presidência de alguém igualmente desprovido de escrúpulos quanto Donald Trump.

01 março 2024

O TESTE «CASTLE BRAVO»

(Republicação)
1 de Março de 1954. Os Estados Unidos procediam a um teste de um novo dispositivo nuclear no atol de Bikini, no Pacífico. Baptizaram-no de Castle Bravo. O engenho era um dispositivo de quatro metros e meio de comprimento e com mais de dez toneladas de peso. Mas os aspectos técnicos e as consequências do ensaio já foram por mim aqui descritos, ainda que sucintamente, no Herdeiro de Aécio. O que nos importa acompanhar desta vez, em jeito de efeméride pelos seus 70 anos, foi a perspectiva daqueles que activaram e acompanharam o ensaio no bunker de detonação, que fora construído na ilha de Enyu a mais de 30 km do local da explosão. Foi a equipa que para ali fora destacada para monitorizar a explosão que primeiro se apercebeu que algo não estava a correr conforme o previsto. Enquanto esperava pelo impacto, o cientista que dirigia a equipa, Bernard O'Keefe, ficou gradualmente mais apreensivo. O'Keefe era, não apenas um veterano, como também o género de veterano difícil de impressionar. Na noite da véspera de Nagasaki fora ele que, violando as regras de segurança, substituíra a tomada do cabo de detonação do engenho que iria tornar-se célebre no dia seguinte com o nome de Fat Man. Em 1953, na Área de Testes do Nevada e depois de um dispositivo de implosão ter misteriosamente falhado, fora ele que se dispusera a subir até ao topo da torre onde o dispositivo estava instalado, para arrancar os fios de detonação.
Mas, desta vez, parecia diferente. Dez segundos depois da detonação, o bunker enterrado onde estavam pareceu começar a mover-se, o que não fazia sentido: o bunker estava agarrado ao solo e tinha paredes de um metro de espessura...
- É isto que se está a mexer ou sou eu que estou tonto? - perguntou um outro cientista
- Meu Deus, é verdade. - respondeu O'Keefe - Está-se mesmo a mexer.
O'Keefe começou a sentir-se enjoado como se estivesse num navio em alto mar e agarrou-se a alguma coisa enquanto os objectos à sua volta caiam das bancadas. O bunker comportava-se, como ele depois veio a descrever, «como se estivesse assente em gelatina». A onda de choque da explosão que viajara através do solo havia-os alcançado antes da que viajava pelo ar. Com o equivalente a 15 milhões de toneladas de TNT, a potência do engenho acabado de detonar viera a revelar-se duas vezes e meia superior às previsões. Mesmo considerando todas as margens de segurança antevistas para estas operações, os cientistas haviam tido a sua dose de sorte. E iriam precisar de continuar a tê-la...
A bola de fogo da detonação inicial alcançara um diâmetro de 6,5 km e a característica nuvem em forma de cogumelo das explosões atómicas estendeu-se até aos 40 km de altitude em menos de dez minutos. Quinze minutos depois da explosão, O'Keefe e mais oito homens da sua equipa saíram para observar o que acontecera à superfície. Enyu estava rodeada de um nevoeiro opaco e cinzento. As árvores haviam sido todas derrubadas, havia ramos de palmeiras espalhados por todo o lado, os pássaros haviam desaparecido completamente. E aquela era a paisagem a mais de 30 km do centro da explosão... Começara a cair uma estranha cinza branca, a fazer lembrar neve e os contadores Geiger estavam a registar cada vez mais radioactividade. Voltaram para o bunker e encerraram-se, não sem antes se decidirem a desligar o ar condicionado, que já começara a trazer a radioactividade para dentro do próprio bunker. Os cientistas ali permaneceram por horas, sob um calor cada vez mais opressivo e só saíram dali completamente cobertos por lençóis (a que recorreram para se protegerem da queda do material radioactivo) para correrem para helicópteros enviados de urgência para os evacuar. Apesar de tudo, Bernard O'Keefe só veio a falecer em 1989 com 69 anos de idade, o detalhe da narrativa acima deve-se a um dos seus livros de memórias. A cratera lá continua, numa evocação (para quem a saiba interpretar) do que pode ser o poder da teoria: afinal, fora apenas alguém que se enganara nos cálculos...

22 fevereiro 2024

A ESTREIA NACIONAL DE «AS FÉRIAS DO SR. HULOT»

22 de Fevereiro de 1954. No cinema Tivoli estreia «As Férias do Sr. Hulot». A sua estreia mundial em França ocorrera um ano antes (25 de Fevereiro de 1953), ambas as estreias no pino do Inverno, apesar do filme tratar de umas férias de Verão.

19 fevereiro 2024

A TRANSFERÊNCIA DA CRIMEIA DA RÚSSIA PARA A UCRÂNIA

A 19 de Fevereiro de 1954, o Presidium do Soviete Supremo da União Soviética, sedeado em Moscovo no Kremlin (como se pode ler na área assinalada do documento acima), «tendo em consideração a integração económica da região, a proximidade territorial e os estreitos laços económicos e culturais entre a província da Crimeia e a República Socialista Soviética da Ucrânia», emite um Decreto transferindo a província da Crimeia da soberania da República Socialista Federativa Soviética Russa para a jurisdição da República Socialista Soviética da Ucrânia. À época, esta transferência teve um significado mais simbólico que substantivo: Ucrânia e Rússia faziam parte da mesma entidade política, a União Soviética, esta transferência era apenas uma mudança de uma fronteira interna do grande país. O problema passou a colocar-se de outro modo quando da desagregação da União Soviética em 1991 em que Rússia e Ucrânia se tornaram países distintos. E aí na Rússia mostrou-se a intenção de recuperar a Crimeia, tanto mais que a esmagadora maioria dos habitantes da península são russófonos. Foi o que aconteceu entre Fevereiro e Março de 2014. À época, a iniciativa de força por parte da Rússia provocou as suas ondas de choque, mas vale a pena recordar que ocorreu numa conjuntura em que uma iniciativa de cariz muito semelhante ocorrera numa outra parte da Europa e com o patrocínio dos Estados Unidos: a extracção do Kosovo à soberania sérvia. Não havia muita moralidade para se andarem a recriminar uns aos outros. Só que o assunto apresentava-se como encerrado na antiga Jugoslávia e está muito longe de assim ser com a Rússia nas suas fronteiras. A Rússia não se ficou pela Crimeia e invadiu a Ucrânia em Fevereiro de 2022 e hoje os dois países continuam em guerra. Como outrora aconteceu com a França do século XIX e a Alemanha do século XX, as ambições expansionistas da Rússia do século XXI são uma incógnita e um receio. Os outros países vizinhos da Rússia olham-na quase todos de viés. Contudo, paradoxalmente, registe-se que este gesto de há setenta anos havia sido apenas um expediente politico, sem se antever todas estas consequências.

11 fevereiro 2024

MARILYN MONROE NA COREIA

11 de Fevereiro de 1954. Marilyn Monroe num dos quatro espectáculos da tournée que estava a realizar junto das tropas norte-americanas estacionadas na Coreia. O objecto da fotografia é a audiência e não a estrela (que apenas se vê de costas).

28 janeiro 2024

A VAGA DE FRIO QUE ASSOLAVA A EUROPA NO INVERNO DE 1954

Notícias vindas de variadíssimas capitais europeias (Paris, Londres, Madrid, Bona, Atenas e Ancara) davam conta do rigor do Inverno que assolava a Europa.

21 janeiro 2024

O LANÇAMENTO À ÁGUA DO PRIMEIRO SUBMARINO NUCLEAR, O USS NAUTILUS

21 de Janeiro de 1954. Os Estados Unidos lançam à água o seu primeiro submarino nuclear. Mais do que aquela arma furtiva secreta que faz a reputação da arma submarina, trata-se de um momento de propaganda, a atender à cobertura dada ao acontecimento, seja no noticiário filmado que passava nos cinemas do Reino Unido (acima), seja nos jornais portugueses (abaixo). Foi escolhida como madrinha da embarcação a esposa do presidente Eisenhower. Mas não quero deixar passar uma nota crítica à ignorância de quem redigia as notícias da Movietone britânica que, ao comentar o nome escolhido para o submarino, USS Nautilus, se ficou pela referência ao animal marinho, o náutilo, como inspirador, na ignorância total que o novo submarino compartilhava o seu nome com o famoso submarino do Capitão Nemo da obra de ficção Vinte Mil Léguas Submarinas do escritor francês Júlio Verne. Não são só os jornalistas de hoje que são muito ignorantes...