Tirando o caso do estado de Caxemira, cuja disputa ainda hoje perdura, a Partição que, em 15 Agosto de 1947, resultara da independência simultânea da Índia e do Paquistão, deixara de imediato ainda dois outros problemas por resolver, as questões dos estados principescos de Junagadh e de Hyderabad. (Se clicar em cima dos seus nomes poderá aceder ao que já aqui escrevi sobre cada um dos três estados) Em suma, estes dois últimos estados principescos eram governados por monarcas de religião muçulmana que pretendiam vir a fazer parte do Paquistão. A Índia opôs-se e aquilo que desta vez pretendo invocar foi a forma como a invasão militar do estado de Hyderabad se efectuou e a sua cobertura informativa. A invasão (baptizada com o nome de código de Operação Polo) durou apenas 5 dias, apesar de, como se pode ler abaixo, o Hyderabad ter uma área de 214.000 km² e de contar (à época) com mais de 16 milhões de habitantes. Tudo acabou a 17 de Setembro de 1948, completam-se hoje precisamente 75 anos. Como se lê no título da notícia: «O Conselho de Segurança (da ONU) recebeu a queixa do Hyderabad contra a Índia» e mandou-a arquivar (provavelmente), com os países que dele então faziam parte esquecendo completamente o direito internacional. Se calhar, Vladimir Putin estava à espera que lhe dessem a mesma borla na Ucrânia...
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17 setembro 2023
28 maio 2023
O PRIMEIRO ENSAIO NUCLEAR PAQUISTANÊS
28 de Maio de 1998. O Paquistão realiza o seu primeiro ensaio nuclear. A detonação (subterrânea) tem lugar numa remota montanha da província do Baluchistão. Seguir-se-á um segundo ensaio, dois dias depois, noutro sítio de testes, em local desértico, mas ainda no Baluchistão. O primeiro teste fora feito utilizando bombas com urânio enriquecido, o segundo teste será com uma bomba de plutónio. Percebe-se hoje que este conjunto de ensaios era uma demonstração política da aquisição da capacidade nuclear parte do Paquistão, uma aquisição que já tivera lugar anos antes, mas que só agora em exposta, em resposta a dois ensaios nucleares que a Índia acabara de realizar entre 11 e 13 de Maio.
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06 fevereiro 2023
POR ORDEM DO GENERAL…
A pretexto da morte do protagonista, republico um texto a respeito de Pervez Musharraf, originalmente aqui publicado a 12 de Julho de 2007
Há notícias interessantes e há notícias importantes. Da combinação destes dois atributos resultam quatro resultados e uma regra, não escrita, que estabelece que a grande maioria das notícias interessantes não são importantes e que a grande maioria das notícias importantes não são interessantes. Também há as que não são uma coisa nem outra, e nisso estou, por exemplo, com Mika Brzezinski e com a sua opinião sobre a notícia da saída de Paris Hilton da prisão…Mas o que me deixa mais intrigado são os casos em que não são exploradas daquelas raras notícias que são ao mesmo tempo interessantes e importantes, como foi o caso da ordem dada pelo general Pervez Musharraf para que o Exército paquistanês procedesse ao assalto da mesquita Lal Masjid de Islamabad, onde se tinham entrincheirado um largo grupo de radicais islâmicos. Desencadeado na Terça-Feira passada, ainda hoje se especula qual terá sido o número total de mortos causados pela operação.
Os ataques a locais onde fanáticos religiosos estavam entrincheirados foram acontecimentos que sempre saíram bem na televisão. Foi o caso do assalto do FBI ao rancho em Waco no Texas, onde se refugiaram os seguidores da seita de David Korresh, que decidiram imolar-se lançando fogo às instalações. Também foram acontecimentos importantes pelas suas consequências, como foi o caso do assalto pelo Exército indiano ao Templo Dourado em Amritsar, lugar sagrado para os sikhs.
É por isso curioso a ausência de atenção dedicada a um daqueles acontecimentos raros, ao mesmo tempo tão interessante quanto importante. E Pervez Musharraf, presidente do Paquistão e comandante-chefe das suas Forças Armadas é o homem chave de toda esta situação complicada, desencadeada sob sua responsabilidade (Ayman Al-Zawahiri o rosto da Al-Qaeda nos tempos que correm já apareceu em vídeo a condená-lo), num país cuja coesão interna sempre foi o seu maior problema.Nunca é demais recordar que o Paquistão resulta das províncias do Império das Índias britânicas, onde havia uma maioria de população muçulmana. É um co-herdeiro, com a União Indiana (e depois de 1971, com o Bangladesh), da identidade regional estabelecida pelos britânicos para toda aquela região. Aliás, o rio Indo, de onde os gregos e depois os europeus retiraram o nome que empregam para designar o subcontinente (a designação equivalente em hindi é Bharat), corre em território paquistanês…
De uma forma sintética, o grande problema do Paquistão, quando em comparação com os seus vizinhos do subcontinente, é que, com mais de 150 milhões de habitantes, a sua população não é tão homogénea quanto a do Bangladesh (150 milhões, uma esmagadora maioria deles muçulmanos de cultura bengali), nem tão heterogénea quanto a da Índia (1.120 milhões, distribuídos por 28 estados e 7 territórios, com 18 idiomas oficiais entre 1.650 línguas utilizadas…), o que impossibilita a ascensão de um só grupo dominante.
No Paquistão há quatro (e meia…) regiões históricas: Punjab, Sind, Baluchistão e (usando ainda a designação colonial britânica) a Província da Fronteira de Noroeste, cujo acrónimo em inglês correntemente usado é NWFP. A meia região histórica mencionada acima é a parcela de Caxemira controlada pelo Paquistão (cuja maior parte está sob controle indiano), numa disputa de 1947 ainda hoje por resolver. Há ainda os territórios do Norte, da capital federal (Islamabad) e o Território Federal das Áreas Tribais.
Mais de 75% da população paquistanesa vive ao longo do vale do Indo e seus afluentes, que são as áreas mais férteis do país, onde se situam as províncias do Punjab e do Sind. Foi para melhor protecção destas regiões férteis que os britânicos se decidiram a controlar as regiões adjacentes do Baluchistão, da Fronteira Noroeste e das Áreas Tribais (ver mapas) onde se situavam os corredores naturais de invasão da Índia. O problema eram os habitantes desses corredores naturais…A presença britânica naquelas regiões acabou por ser, por assim dizer, muito pouco presente. Aliás, a designação (que se mantém) em inglês do Território Federal das Áreas Tribais (Federally Administered Tribal Areas – FATA) dá-nos uma indicação como as áreas são e eram administradas - a nível federal, longínquo… Outra pista é-nos dada pela manutenção da palavra fronteira na designação (que também se manteve) da Província da Fronteira de Noroeste (NWFP), numa indicação da sua funcionalidade para a Índia britânica…
Outro exemplo, foi em Quetta, capital do Baluchistão que os britânicos decidiram instalar em 1907 o prestigiado Instituto de Comando e Estado-Maior (Command & Staff College) do Exército britânico das Índias. Os alunos do Instituto não teriam de se deslocar para muito longe nas suas semanas de campo, especialmente quando o assunto era contra-subversão, campo onde o Instituto era muito prestigiado, tendo sido pioneiro, na década de 1920, da doutrina de emprego de meios aéreos no apoio à contra-subversão...
O dilema de qualquer governante paquistanês desde 1947 tem sido o de fazer a síntese entre as várias expressões de Paquistão. Há esta fracção ora descrita, minoritária mas que sempre foi muito insubmissa e militante, que está mais vocacionada para o vizinho ocidental – o Afeganistão – com quem tem aliás parentescos étnicos. Há também a fracção maioritária, mais sedentária e menos exuberante, nas províncias maiores do Pundjab e do Sind, embora ela também esteja dividida por divisões culturais.
O (escasso) rotativismo eleitoral que o Paquistão já teve, funcionou à volta de duas famílias de latifundiários do Punjab (os Sharif) e do Sind (os Bhutto). Qualquer mapa dos resultados eleitorais mostra que, dada a concentração regional dos votos, a vitória de qualquer um deles foi também a vitória de uma das duas principais regiões constituintes do Paquistão sobre a outra. Dada a ausência de práticas democráticas, o favorecimento de uma das facções cria, a prazo, uma enorme pressão na coesão nacional paquistanesa.Aqueles que se consideram os verdadeiros intérpretes do ideal paquistanês são aqueles que imigraram para o Paquistão em 1947, quando da Partição, e que são conhecidos pela designação de mohajirs. Embora estejam, com os descendentes, estimados em apenas 4 a 7% da população total, a sua importância social é desmesuradamente muito superior ao seu peso social: Pervez Musharraf é um deles (nasceu em Nova Deli, na Índia), controlam economicamente Karachi, a capital económica do país e administrativamente o aparelho de estado.
São também eles os defensores da manutenção do urdu (a par do inglês) como idioma oficial do Paquistão. O urdu, actualmente conhecido através do sistema escolar por mais de 25% dos paquistaneses mas que não é o idioma nativo de qualquer dos povos que hoje pertencem ao Paquistão, é a versão islamizada do hindi, a língua oficial (também a par do inglês) da União Indiana. Apesar de escritas em alfabetos diferentes elas são inteligíveis e é por isso que a televisão indiana e os filmes de Bollywood* podem ser tão populares no Paquistão…
Mas, se as classes instruídas não se têm mostrado, na generalidade, hostis ao desempenho de Musharraf, também vieram a mostrar recentemente, através de manifestações colectivas que parecem ter bloqueado a tentativa de Musharraf de afastar o juiz Iftikhar Mohammad Chaudhry do Supremo Tribunal, que consideram que devem existir limites para o poder presidencial e que o Paquistão não deve ter à sua frente um déspota oriental como acontece normalmente com os outros países islâmicos da região.
Por causa das condições que presidiram ao seu nascimento em 1947, o Islão tem de ser sempre um componente indispensável à identidade nacional paquistanesa. Mas, como nas receitas, ele tem de ser em quantidade q.b. (quanto baste). Nada dos exageros produzidos pelas madrassas radicais das províncias marginais do Paquistão. Houve tempos, no passado, em que esses radicais foram activos de uma política externa dinâmica do Paquistão junto dos países vizinhos (Afeganistão ou Caxemira).Agora, tornaram-se em passivos, numa chatice. Podem servir de apoio parlamentar às ficções eleitorais do regime de Musharraf mas as proezas de realizar atentados contra comboios indianos em Bombaim ou de dar apoio logístico a guerrilheiros empenhados em combate contra forças da NATO são gestos capazes de provocar a ponderação das autoridades paquistanesas sobre os benefícios recíprocos do entendimento... Embora desencadear a ruptura também tenha os seus riscos, sendo um deles o da decomposição do próprio Paquistão entre os das montanhas e e os dos rios.
Nesse eventual cenário, a Índia, que teria delirado há 20 anos com um desfecho desses, hoje tem de ter a preocupação de acautelar em quais das parcelas ficariam os detonadores das bombas atómicas… Há duas coisas que parecem certas: a política paquistanesa não se pode desviar muito das condicionantes que aqui tracei e elas manter-se-ão, qualquer que seja o protagonista, e o general estaria, de certeza, muito consciente de todas as implicações associadas à sua ordem de ataque à mesquita Lal Masjid na passada Terça-Feira…
* Trocadilho com Hollywood, referindo-se às produções de cinema indiano feitas em Bombaim, faladas em hindi e também em urdu. Curiosamente, o idioma popular em Bombaim não é o hindi, mas sim o marathi.
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03 junho 2022
O DISCRETO ANÚNCIO DA FUTURA PARTIÇÃO DA ÍNDIA BRITÂNICA
3 de Junho de 1947. Foi assim, numa singela coluna das páginas centrais do Diário de Lisboa, ao lado de uma notícia bem mais desenvolvida e ilustrada de uns oficiais espanhóis que haviam sido condecorados pelo governo português por terem vindo a Portugal concorrer a um concurso hípico, que os leitores do jornal têm conhecimento da histórica notícia que as Índias britânicas se iriam cindir em dois países - Índia e Paquistão - quando da data da independência, que estava prevista para dali a pouco mais de dois meses (15 de Agosto). O mapa acima mostra o contorno que virão a ter os dois futuros países, uma informação que era desconhecida há 75 anos, já que as fronteiras ainda não estavam sequer traçadas. Ponderando a importância das duas notícias justapostas, tive dificuldade em encontrar o que foi feito do coronel D. Rafael García-Ciudad Reig, do tenente-coronel D. Faustino Domínguez Salgado ou do major D. Jaime García Cruz, os oficiais espanhóis condecorados com a Medalha de Mérito Militar (2ª classe). Sobre a Índia e o Paquistão, não tive - não tenho tido - qualquer dificuldade.
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16 dezembro 2021
A VITÓRIA INDIANA NA TERCEIRA GUERRA INDO-PAQUISTANESA
16 de Dezembro de 1971. Assinatura da rendição do exército paquistanês estacionado no Bangladesh. Pelos indianos assinou o general Jagjit Singh Aurora (de turbante, a assinar na fotografia do lado esquerdo) e pelos paquistaneses o general Amir Abdullah Niazi (de boina, a fazer o mesmo na do lado direito). Os oficiais que aparecem por detrás são todos indianos. A independência do Bangladesh, que fora proclamada em Março daquele ano, tinha finalmente o seu dia.
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03 dezembro 2021
O INÍCIO FORMAL DA TERCEIRA GUERRA INDO-PAQUISTANESA
3 de Dezembro de 1971. Há cinquenta anos assistia-se ao início formal da terceira guerra indo-paquistanesa. Era uma guerra que estava perfeitamente anunciada, pelo menos desde a proclamação da secessão do Paquistão Oriental em Março daquele ano. As tropas paquistanesas continuavam a ocupar a província de Bengala Oriental como se ela se tratasse de uma dependência colonial, as tropas indianas, pelo seu lado, estavam a fornecer a mais descarada ajuda logística e militar aos guerrilheiros bengalis do Mukti Bahini. O resto fora uma guerra de nervos de meses entre a Índia e o Paquistão a ver quem perderia primeiro o sangue frio e desencadearia as hostilidades abertas. Foi o Paquistão, que, através da sua força aérea e copiando aquilo que fizera Israel em Junho de 1967, desencadeou nesta data um ataque preemptivo contra as bases aéreas da força aérea indiana, a operação Gengis Khan. A escolha do título fora muito apropriada, os resultados da mesma é que nem tanto. Os ataques tiveram lugar ao cair do dia - o que fez com que as notícias a seu respeito só tivessem aparecido nas edições dos jornais do dia seguinte (acima) - mas depararam-se com bases aéreas indianas que estavam preparadas para aquela eventualidade. Os aviões destruídos foram poucos, e os engenheiros indianos aproveitaram a noite para repararem as pistas de aviação atacadas. A supremacia aérea que o Paquistão buscava com aquele golpe de surpresa não foi alcançada e as operações terrestres que se haviam planificado pressupondo essa supremacia começaram a falhar. As simpatias dos Estados Unidos e da China iam para o Paquistão; as da União Soviética para a Índia. O máximo que a primeira-ministra indiana Indira Gandhi conseguira, depois de visitas a países ocidentais nos meses que haviam precedido a guerra, fora uma contida neutralidade de Londres e Paris. A posição portuguesa era francamente pró-paquistanesa, considerado o contencioso pendente, velho de dez anos, da ocupação militar de Goa, Damão e Diu pelos indianos. Mesmo um jornal não próximo das posições governamentais como o Diário de Lisboa fazia uma cobertura não muito isenta dos acontecimentos: o Paquistão não havia declarado guerra à Índia (na verdade, nenhum dos países entregara qualquer declaração de guerra ao outro) e, por tudo o que acima se explicou, haviam sido as tropas e a aviação paquistanesas a atacar a Índia, não o contrário. Abaixo, dois livros interessantes sobre o conflito.
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16 outubro 2021
O ASSASSINATO DO PRIMEIRO-MINISTRO DO PAQUISTÃO
16 de Outubro de 1951. Assassinato em Rawalpindi do primeiro primeiro-ministro paquistanês, Liaquat Ali Khan (1895-1951). O assassino era afegão e, porque foi morto de imediato, como se lê na notícia acima, nunca se pôde esclarecer se agira sozinho ou a mando de alguém. Depois das independências simultâneas da Índia e do Paquistão em Agosto de 1947, já não era o primeiro grande dirigente dos dois países herdeiros da Índia britânica a morrer assim, assassinado a tiro. Acontecera o mesmo a Mohandas Gandhi em Janeiro de 1948, no país rival. Foram os primeiros, mas o recurso à eliminação física dos protagonistas políticos ir-se-á banalizar em qualquer dos países do subcontinente indiano, até se tornar quase uma espécie de tradição. Na pessoa de Benazir Bhutto (1953-2007), aquela mesma cidade de Rawalpindi irá voltar a assistir ao assassinato de uma outra primeira-ministra paquistanesa, em Dezembro de 2007.
07 março 2021
O DISCURSO DE 7 DE MARÇO DE MUJIBUR RAHMAN
Na sequência de um clima de tensão crescente entre o governo militar paquistanês e a Liga Awami, a formação política bengali que vencera com maioria parlamentar absoluta as eleições que se haviam realizado em Dezembro, este discurso proferido há cinquenta anos pelo líder da Liga, o xeque Mujibur Rahman, representa uma primeira ruptura de Bengala oriental com a legalidade paquistanesa. Mas não era a declaração unilateral de independência que a comunidade mediática internacional estaria à espera - leia-se a notícia acima. No seu discurso, o habilidoso Rahman proclamava a certa altura: «Desta vez a luta é pela nossa liberdade. Desta vez a luta é pela nossa independência» Mas não foi ao ponto de a proclamar. Cautelosamente, ia primeiro recuperar a tradição da desobediência civil, que fora a arma dos nacionalistas para alcançar a independência paquistanesa (e indiana) do Reino Unido em 1947. Só que agora o inimigo colonizador era o governo que estava domiciliado do outro lado do subcontinente.
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07 dezembro 2020
AS PRIMEIRAS ELEIÇÕES GERAIS POR SUFRÁGIO UNIVERSAL NO PAQUISTÃO
7 de Dezembro de 1970. Realizam-se as primeiras eleições gerais por sufrágio universal no Paquistão. País formado em 1947, ao mesmo tempo que a Índia, e abrangendo as regiões de maioria muçulmana do subcontinente, o Paquistão de 1970 era um país compósito e complexo, mais do que o é na actualidade. Assim, como se observa no mapa acima, era formado por duas partes separadas, assinaladas a verde: o Paquistão Ocidental e o Paquistão Oriental. O primeiro era quase seis vezes mais extenso que o segundo, mas a maioria da população (54%) concentrava-se neste último, onde a população, aliás, era mais homogénea do que na parte ocidental. Mas era a ocidente que se situava a capital paquistanesa: primeiro fixara-se no porto de Karachi, mas mais tarde transferida para Islamabad, no interior. As conexões entre as duas grandes componentes do país deixavam muito a desejar: são mais de 2.000 km de Islamabad até Dacca pelo ar e 2.600 milhas náuticas (4.800 km) de Karachi a Dacca por mar; por estrada, são 2.300 km de Lahore até Dacca, um percurso que, porém, só se poderia cumprir atravessando a Índia hostil. Em suma, e considerando as restrições que a Índia colocava ao sobrevoo do seu território por aviões paquistaneses, pode dizer-se que, comparativamente e para a época, Portugal possuía ligações mais fluídas e rápidas com algumas das suas colónias de África (como Cabo Verde e Guiné) do que as existentes entre as duas parcelas do Paquistão.
A comparação entre Portugal e o Paquistão é menos descabida do que se possa pensar à primeira vista, porque, no quadro das relações políticas entre as duas parcelas, era de uma verdadeira exploração colonial que os principais dirigentes políticos do Paquistão Oriental se queixavam, conforme se pode escutar acima na entrevista dada alguns dias antes das eleições pelo xeque Mujibur Rahman. Tratado pelos seus adeptos por Mujib, Rahman era a figura política mais destacada no Paquistão Oriental, e já estivera preso durante dois anos pelo regime militar paquistanês, acusado de secessionismo em prol de um Paquistão Oriental independente. Estas eleições gerais de há cinquenta anos, foram as primeiras em 23 anos de existência do país a recorrerem ao sufrágio universal, e seriam o primeiro teste verdadeiro à consistência popular da nação paquistanesa. O modelo escolhido foi o britânico: 300 círculos eleitorais que elegiam cada um o seu deputado, escolhido pelos 57 milhões de eleitores. A grande maioria deste eleitorado (pelo menos 75% dele) era analfabeta, e a esmagadora maioria da propaganda assentava nos símbolos em vez de palavras. Como se veio a tornar costume e para evitar que os eleitores votassem mais do que uma vez, eram obrigados a marcar o indicador com tinta indelével. Mas, muito importante para as consequências do acto eleitoral e porque a maioria da população (e do eleitorado) se situava no Paquistão Oriental, este elegia 162 deputados enquanto o Paquistão Ocidental elegia os restantes 138.
A acrescer às questões estruturais, o acto eleitoral foi fortemente influenciado (pelo menos, na parte oriental) por questões circunstanciais: no mês anterior a região fora assolada por um terrível ciclone que provocara centenas de milhares de mortos, onde a assistência às vítimas - para não ser mais crítico - não se distinguira pela sua eficácia. Foi com base nisso que os 33 milhões de eleitores paquistaneses que votaram (uma afluência de 58%) produziram a composição da assembleia que se pode apreciar acima, à esquerda. Repara-se que não houve nenhuma formação política que conseguisse eleger representantes simultaneamente nos dois Paquistões. Nem na Assembleia "Nacional" paquistanesa, nem nas regionais (à direita), onde, mesmo assim, se constatava que o PPP de Zulfikar Ali Bhutto parecia prevalecer na parte Ocidental do Paquistão. A nível nacional, com 160 deputados eleitos em 300 (ou seja, quase todos os 162 que haviam estado em disputa no Oriente), a Liga Awami de Mujibur Rahman poderia aritmeticamente vir a governar sozinha o Paquistão, mas isso representaria uma verdadeira «cambalhota política» em que os discriminados de ontem se transformariam nos detentores exclusivos do poder de hoje. Algo que o governo militar de Islamabad nunca poderia aceitar. Com estas eleições, o Paquistão apareceu perfeitamente dividido em dois, concluindo-se que a sua constituição inicial, em 1947, fora, provavelmente, uma aberração nos contornos que assumira. Realizadas imediatamente depois do ciclone de Bhola, estas eleições foram, possivelmente, o maior ciclone político provocado por umas eleições gerais.
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03 maio 2019
A TERCEIRA GUERRA ANGLO-AFEGÃ
3 de Maio de 1919. Começa a Terceira Guerra Anglo-Afegã. Supreendentemente, foi desencadeada pelos afegãos que, num golpe de audácia e desafiando aquela que era uma das três grandes potências vencedoras do conflito mundial que acabara de terminar, há precisamente cem anos franquearam a fronteira comum na extremidade oeste do passo de Khiber, capturando uma pequena povoação. Esta retirava a sua importância do facto de ser a fonte de água de uma guarnição anglo-indiana de duas companhias aquartelada num forte situado a alguns quilómetros de distância. Do lado britânico não se conheciam bem, nem se não sabia, quais seriam as intenções de Amanullah, o emir afegão, que acabara de subir ao trono há pouco mais de dois meses, mas o domínio britânico sobre a Índia registara recentemente um incidente de repercussões políticas muito desagradáveis em Amritsar. Em Peshawar e Nova Deli (as capitais provincial e imperial da soberania britânica sobre a Índia, respectivamente), resolveu-se assumir a ameaça como muito séria e a Índia Britânica declarou guerra ao Afeganistão em 6 de Maio de 1919.
O conflito mais aceso vai durar cerca de um mês, e prolongar-se-á formalmente por mais dois meses, até à assinatura do Tratado de Rawalpindi em 8 de Agosto de 1919. A novidade táctica naquela região e naquele género de conflito foi a aparição da aviação que permitiu aos anglo-indianos alcançar uma outra superioridade sobre o inimigo. Desse ponto de vista não se colocam dúvidas sobre o desfecho e a identidade do vencedor desta Guerra. Mas a questão estratégica era outra: por esta vez, uma Grã Bretanha exaurida pela Grande Guerra, perdera a iniciativa, e não se mostrava minimamente capaz, nem interessada, de aproveitar esta provocação afegã para avançar para a controle directo desse país, beneficiando-se da momentânea fraqueza russa, que estava a braços com uma Guerra Civil, e dessa forma marcando pontos adicionais naquilo que fora uma das grandes rivalidades estratégicas do Século XIX, denominada o Grande Jogo. E o Afeganistão saía pelo menos vencedor de um outro pequeno jogo em que se mostrava demasiado custoso para ser ocupado. É o que se pode deduzir deste aviso afixado sobre a fronteira...
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13 abril 2019
O CENTENÁRIO DO MASSACRE DE AMRITSAR
13 de Abril de 1919. Depois do fim da Grande Guerra, as elites indianas esperavam dos britânicos a concessão de um estatuto de autogoverno que os equiparasse, de alguma forma, aquele que era usufruído pelos Domínios do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia ou da África do Sul. O investimento que os indianos haviam feito na causa imperial durante a guerra - 1.440.000 soldados mobilizados, cerca de 65.000 mortos - esperava por esse retorno. Só que as autoridades britânicas não queriam nem ouvir falar em tais reivindicações. Refira-se que cerca de 450.000 desses indianos haviam sido recrutados no Punjabe, uma região fértil do Norte da Índia (Punjabe quer dizer cinco rios), onde coexistiam três das grandes religiões da Índia: muçulmanos, hindus e também sikhs. Em Amritsar, capital religiosa desta última confissão, a 13 de Abril de 1919 (um Domingo) dava-se a coincidência de se concelebrar o festival de Ram Naumi por parte dos hindus com o dia de Baisakhi, que era o primeiro dia do Ano Novo sikh. A cidade estava apinhada, abrigando cerca do triplo do que seria a sua população normal de 160.000 habitantes. O ambiente era tenso e a atenção policial era intensa mas o exercício de prepotência mortífera a que as autoridades britânicas se dedicaram teve todo o absurdo que esta reconstituição acima demonstra (foi retirada do filme Gandhi). Mais do que a brutalidade e as vítimas (379 mortos e 1.100 feridos, segundo os números oficiais), as consequências políticas para a presença britânica na Índia foram arrasadoras, ao fazerem desaparecer os moderados entre o movimento nacionalista indiano, aqueles que ainda estariam dispostos a negociar com as autoridades coloniais uma transição pacífica e progressiva da Índia até a um estatuto equivalente ao dos outros Domínios. Os 28 anos que decorrerão até à independência serão um contínuo braço de ferro com os nacionalistas a forçar o calendário dos acontecimentos.
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21 outubro 2018
AZAD HIND - O COLABORACIONISMO QUE NÃO FOI RENEGADO
21 de Outubro de 1943. Constitui-se em Singapura o Governo Provisório da Índia Livre (Arzi Hukumat-e-Azad Hind), encabeçado por Subhas Chandra Bose (1897-1945). Subhas Bose fora um dos dirigentes destacados do Congresso indiano antes da Guerra, mas acabara por entrar em conflito com Gandhi e abandonara a organização em 1939. Com a eclosão daquela, as divergências acentuaram-se: ao neutralismo pacifista de Gandhi, contrapunha-se a aliança tácita com o inimigo do inimigo que era proposta por Bose, no que era acompanhado por uma facção mais radical dos nacionalistas indianos. Bose acabou por fugir para a Alemanha, onde ajudou a formar uma unidade militar indiana formada por antigos prisioneiros de guerra que depois combateu ao lado dos alemães. Já aqui foi referida no Herdeiro de Aécio. Mas o interesse de Subhas Bose (e a utilidade de o empregar pelas potências tutelares...) estava muito longe da Europa. Era na Ásia, onde os exércitos japoneses que ocupavam a Birmânia ameaçavam a Índia, que se combinavam o interesse do próprio e de quem se dispunha a patrociná-lo. Em 1943, Subhas Chandra Bose realizou uma prolongada e complexa viagem de submarino que o levou para o outro lado do mundo. Partido em Fevereiro desse ano da Alemanha num submarino alemão, a viagem envolveu um transbordo para um submarino japonês em Madagáscar, a meio do percurso, que só se veio a concluir com a sua chegada a Singapura em Maio. Os japoneses também já haviam pensado em recrutar entre os seus prisioneiros de guerras de origem indiana um exército de auxiliares que combatesse ao seu lado contra os britânicos. Contudo, terá sido a alavanca política representada pela presença e propaganda de Subhas Bose, a quem se passara a dar o título honorífico de Netaji (Líder Respeitado em hindi/urdu), que terá feito com que os efectivos desse exército indiano de libertação (o INA - 43.000) correspondesse a cerca de ⅔ dos efectivos totais de prisioneiros indianos capturados pelos japoneses durante o conflito (64.500).
Claro que nem todos os membros do INA haviam sido prisioneiros, como se pode constatar, aliás, por esta fotografia acima, em que a unidade é feminina, mas a elevadíssima percentagem de alistamentos tornou-se um daqueles embaraçosos segredos de guerra, guardado ferreamente pelos britânicos, tanto mais que ela contrasta com a percentagem de 20% de adesões que se havia registado no caso dos prisioneiros de guerra indianos na Europa. Aliás, tão ou mais importante do que a quantidade, a maioria dos oficiais e sargentos de origem indiana que enquadravam as tropas também aderiu ao INA. O Governo Provisório que se constituiu há precisamente 75 anos é o apex político desse esforço de mobilização. Apesar de aparecer fardado nas fotos, Subhas Chandra Bose nunca havia tido qualquer experiência militar. A avaliação séria do desempenho deste outro exército indiano é afectada pelos preconceitos distintos (mas coexistentes) de britânicos e japoneses e dos seus relatos. Como projecto político, a Azad Hind não iria durar dois anos. Afundou-se conjuntamente com o Japão em Agosto de 1945. Pessoalmente, Subhas Chandra Bose morreu em 18 de Agosto de 1945, em consequência dos ferimentos resultantes de um acidente de aviação. Mas a questão política daqueles que haviam pegado em armas contra a Índia colonial continuou a subsistir. Quando as autoridades britânicas quiseram, depois do fim da guerra, levar a julgamento os responsáveis políticos e militares que haviam pegado em armas contra o Raj, depararam-se com a oposição dos nacionalistas. Terá sido até a última vez em que o Congresso e a Liga Muçulmana agiram de forma concertada, pois entre os réus tanto havia hindus como muçulmanos. Para surpresa dos britânicos, e ao contrário dos princípios que vigoravam na Europa que fora ocupada, ter-se sido colaboracionista ao serviço de uma potência hostil não funcionava como um estigma na Índia. Num ambiente que cada vez mais se adensava contra a sua presença, os britânicos tiveram que desistir da sua intenção. Mais do que isso, na Índia actual e como se pode constatar pelo vídeo abaixo, Subhas Chandra Bose é considerado um grande herói nacional.
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24 março 2018
A METAMORFOSE DA «COMMONWEALTH»
Estamos a 17 de Março de 1961, em Londres, a cerimónia é de gala porque se trata do encerramento da conferência de primeiros ministros, e esta fotografia assinala o início do que será a metamorfose da imagem da Commonwealth britânica. A fotografia em que a monarca Isabel II aparece, ao centro, rodeada dos chefes de governo dos países que outrora haviam composto o Império, parece ser uma composição cada vez mais heterogénea, quando comparada com as fotos de cerimónias precedentes, uma heterogeneidade que, tanto como as aparências, se substancia também pelos percursos e pelos anseios díspares de quem rodeia a monarca. A Commonwealth mostrava que não podia ser o desejado prolongamento do Império Britânico desejado por Londres. A Irlanda já saíra, a África do Sul preparava-se para o fazer, a instituição manifestava-se impotente para gerir a animosidade indo-paquistanesa. Há 57 anos e da esquerda para a direita, identificam-se Kwame Nkrumah pelo Gana, John Diefenbaker pelo Canadá, Hendrik Verwoerd pela África do Sul, Jawaharlal Nehru pela Índia, Ayub Khan pelo Paquistão, a Rainha, Roy Welensky pela Rodésia (que hoje são a Zâmbia e o Zimbabwe), Sirimavo Bandaranaike pelo Sri Lanka, Harold Macmillan que foi o anfitrião britânico, Robert Menzies pela Austrália e o arcebispo Makarios III por Chipre. Ausentes da foto, mas presentes na conferência, haviam estado ainda os dirigentes da Malásia, Nova Zelândia e Nigéria. Abaixo, pode comparar-se o que fora a tradição daquelas conferências (a de 1926, acima, ainda com Jorge V, o avô de Isabel II) e aquilo em que se iriam transformar (a de 1983, abaixo).
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15 agosto 2017
A INDEPENDÊNCIA DA ÍNDIA E DO PAQUISTÃO
15 de Agosto de 1947. Há precisamente 70 anos a Índia e o Paquistão alcançavam simultaneamente a independência, dividindo entre si os territórios do subcontinente que haviam estado submetidos ao raj britânico. Os desejos de John Bull no cartoon abaixo não se concretizaram. a partição da Índia esteve muito longe de ser pacífica.
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06 agosto 2017
O PRIMEIRO-MINISTRO QUE FOI «DESQUALIFICADO» E JÁ NÃO «DERRUBADO» POR CAUSA DOS «PANAMA PAPERS»
No final do mês passado (28), foi notícia que o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, foi «desqualificado» de desempenhar aquele cargo por uma sentença unanime de um colectivo de cinco juízes do Supremo Tribunal do Paquistão. Na história conturbada daquele país (vai completar 70 anos a 15 de Agosto próximo), nunca um primeiro-ministro que antes tivesse sido eleito para o cargo em resultado de eleições conseguiu completar o seu mandato, mas neste caso já tradicional há a estreia de que a sua demissão se deve desta vez a juízes e não a generais como sempre acontecera até aqui. Os pronunciamentos militares estão a sair de moda, vivam as sentenças judiciais! Quanto à fundamentação da sentença que afasta Sharif do poder, ela assenta em factos que vieram a lume com as revelações dos famosíssimos "Panama Papers". E, naquilo que pretendo seja um retoque de ironia neste poste, elegi precisamente a notícia do Expresso sobre o afastamento de Sharif como auxiliar para quem queira saber mais alguns detalhes sobre o assunto. Porque sobre "Panama Papers" há que não esquecer quanto o assunto foi um exclusivo daquele jornal (abaixo) há mais de um ano. Um exclusivo que se estende à constatação que nesse ano e tal o assunto ficou encalhado por aí algures antes das grandes revelações (e das graves consequências) que prometia...
02 maio 2016
PELO QUINTO ANIVERSÁRIO DA EXECUÇÃO EXTRAJUDICIAL DE UM INIMIGO DA AMÉRICA
No dia em que se assinalam os cinco anos da execução extrajudicial de Ossama bin Laden parece-me continuarem pendentes as explicações para que os Estados Unidos tivessem optado pela decisão que tomaram. Estando Ossama bin Laden em território paquistanês, e sendo o Paquistão um país seu aliado, não ganhariam os Estados Unidos em ter tratado o assunto de uma forma mais formal, capturando-o e pedindo a sua extradição? E, se o não fizeram, não terá sido por saberem que o Paquistão, se instado a entregar-lhes Ossama, nunca o faria às claras perante a reacção do mundo árabe? E o Paquistão, mau grado o facto da execução ter decorrido aparentemente à sua revelia, não terá preferido que o assunto tenha sido solucionado da forma irregular como o foi? É que, se não foi assim que aconteceu, caso em que que aquilo que aconteceu não pode por agora ser assumido, parece-me que nestes cinco anos entretanto decorridos, as ondas de choque da execução extrajudicial de Ossama bin Laden teriam de ter sido completamente outras.
13 abril 2015
UMA BIOGRAFIA COMO NÃO SE PODE LER NA WIKIPEDIA
Havia uma anedota antiga que falava de um infeliz que nascera com o nome de José Merda. Até que conseguiu obter autorização oficial para mudar de nome: e passou a chamar-se João Merda. Ao biografado, um futuro Vice-Rei da Índia, também aconteceu algo de semelhante. Aos 26 anos obteve autorização régia para mudar de nome e registou uma mudança também assim bizarra: deixou de se chamar Freeman Thomas para se passar a chamar Freeman Freeman-Thomas (1866-1941) - como se fosse gago. No círculo aristocrático onde nascera, Freeman Freeman-Thomas notabilizara-se pelo seu desembaraço físico – foi um grande jogador de cricket – e pelas amizades – era um dos parceiros de ténis do neto mais velho da rainha Victória, o futuro Jorge V (1865-1936). Casou bem, com uma das filhas do Conde Brassey (1836-1918), um político liberal, que chegou a ser Governador na Austrália e que lhe deu o seu primeiro cargo político como seu ajudante-de-campo em 1897.
Freeman-Thomas terá sido aquilo que se qualifica como uma daquelas pessoas simples, bem-nascidas e bem relacionadas, que por causa disso (mas só por causa disso) foram ascendendo na vida. Mas as fotografias não enganam: dão-lhe a cara de estúpido que ele deve ter sido toda a vida. Membro liberal do Parlamento em 1900, membro do governo (num cargo muito discreto) em 1905, quando o seu amigo Jorge V se tornou rei em 1910 nobilitou-o: tornou-se Lord Willingdon. Começou por ser barão, depois foi promovido a visconde (1924), conde (1931) e acabou a vida sendo marquês (1936). Pelo meio realizou uma preenchida e destacada carreira como administrador colonial coincidindo – não por acaso – com o reinado do seu amigo Jorge. Governador de Bombaim (1913), Governador de Madrasta (1919), Governador-Geral do Canadá (1926) e finalmente foi Vice-Rei da Índia de 1931 a 1936.
Na sua passagem prévia pela Índia destacou-se... por não se destacar, a não ser por questões triviais, à conta de um conservadorismo em que ele, teoricamente um liberal, passava por reaccionário quando em comparação com políticos conservadores, como foi o caso do seu antecessor no cargo de Vice-Rei, Lord Irwin. Num desses gestos com uma ampla repercussão posterior, provocou a perpétua inimizade de Mohammed Ali Jinnah (que viria a ser o líder da Liga Muçulmana e considerado o fundador do Paquistão), no dia em que, num jantar de cerimónia em Bombaim, mandou trazer algo que cobrisse o decote do vestido de noite parisiense da belíssima Ruttie Jinnah, atitude que provocou o abandono imediato e ultrajado do casal. (Não se deixe escapar o detalhe desses anos outros em que um marido muçulmano (embora pouco) se ofende com o gesto de um cristão que manda cobrir a sua esposa...)
A verdade é que, por muito que Jinnah nunca mais se dispusesse a perdoar-lhe, Lord Willingdon não era má pessoa: era apenas desesperadamente estúpido. Edwin Montagu, que por esses anos era seu superior hierárquico como Secretário de Estado para a Índia descrevia-o: é um gajo tão porreiro e um gajo tão estúpido¹. No geral, não impunha nem respeito nem receio: certo dia o Vice-Rei foi barrado à entrada não de um, mas de três clubes de Bombaim porque ia acompanhado de um Marajá indiano e os clubes eram exclusivos europeus. E ninguém pareceu temer as suas retaliações... Quando Lord Linlithgow – de que já aqui se falou – lhe sucedeu no cargo de Vice-Rei em 1936, encontrou enormes resmas de documentação oficial a aguardar assinatura. Apercebeu-se que Willingdon nem lhes pusera os olhos em cima.
Em contraste com esta personalidade displicente, a de Lady Willingdon era um pouco excessiva demais: as críticas a Maria Adelaide Freeman-Thomas (1875-1960) incidiam sobre a combinação poderosa entre a sua vulgaridade e uma vitalidade que parecia infindável. Um dos seus hobbies era a decoração e os alvos foram muitos dos inúmeros quartos do Palácio dos Vice-Reis em Nova Deli que acabaram pintados da sua cor favorita: malva. Quando Edwin Luytens, que fora o arquitecto do edifício e de muitos outros na cidade, tentou criticá-la ironicamente pelo mau gosto, o resultado não foi o esperado: «Disse-lhe que, se ela fosse dona do Partenon, ainda lhe iria acrescentar janelas panorâmicas, ao que ela me respondeu, muito séria, que não gostava do Partenon»... Apreciemo-la nesta fotografia final em que, para ficar da mesma altura do marido, se colocou no degrau seguinte. Não vem a propósito, mas faz-nos lembrar Maria Cavaco Silva.
¹ such a good fellow and such a stupid fellow.
07 abril 2015
«THE BLOOD TELEGRAM»
O tema do livro já aqui o havia abordado no blogue, ainda que sem grande desenvolvimento: são os acontecimentos que, ao longo de quase todo o ano de 1971, conduziram à eclosão de uma terceira Guerra entre a Índia e o Paquistão, guerra essa que veio a culminar com a secessão e independência do Bangladesh, que até aí fora uma província paquistanesa. Quanto ao livro propriamente dito, o seu título é digno de atenção. Em primeiro lugar por se tratar de um trocadilho que faz sentido em língua inglesa: blood telegrama pode traduzir-se literalmente por telegrama sangrento; mas Blood Telegram pode ser também a alusão ao diplomata norte-americano Archer Blood (1923-2004), que, colocado na época como cônsul em Daca, foi o autor de um importante telegrama daquele período, alertando Washington, mas sobretudo a opinião pública e publicada norte-americana, para as consequências graves que a imposição da lei marcial pelas autoridades paquistaneses estava a ter na população bengali, os assassinatos e o êxodo que estava a gerar. Mas o título possui também o interesse, de parecer inspirado no zimmermann telegram, um episódio de 1917 que culminou com a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Sobre este outro tema já a celebrada Barbara Tuchman escrevera em 1958 um livro intitulado precisamente The Zimmermann Telegram. Os prémios entretanto recebidos por este The Blood Telegram (vencedor do Prémio Lionel Gelber 2014, finalista do Prémio Pulitzer 2014) parecem sugerir, pela analogia dos títulos e dos estilos que o autor, Gary Bass (1969-....), se sentirá recompensado na sua ambição de emular Barbara Tuchman.
A verdade é que praticamente ninguém se lembra da Guerra Indo-Paquistanesa de 1971. Mas outra verdade é que este livro também não é um livro sobre essa Guerra ou a situação política que a ela conduziu. Essa ignorância também não se deverá à falta de livros dedicados ao assunto. Contudo, o que este livro tem de importante para despertar o interesse do leitor norte-americano típico é que ele acompanha a crise centrado do ponto de vista da sala oval da Casa Branca. E aí, a partir das transcrições das conversas ora desclassificadas do presidente Richard Nixon com o seu conselheiro de segurança Henry Kissinger, é que o assunto se torna particularmente interessante. Ouvindo-os na intimidade, as opiniões de dois dos homens mais importantes do Mundo naquela época tornam-se de uma simplicidade grosseira, assustadora ao pensar-se nas responsabilidades que então possuíam. Há comentários de Nixon a respeito dos indianos que soam típicos de um racismo de taxista, a sua conduta da política externa parece exclusivamente norteada pela simpatia que lhe merecia Yahya Khan, o presidente paquistanês, quando em contraste com a antipatia (retribuída) para com Indira Gandhi, a primeira-ministra da Índia¹. E a sempre tão propagandeada (de lúcida) realpolitik de Henry Kissinger sai totalmente embaciada de todo o episódio quando, entre outros malabarismos, o encontramos a tentar aliciar os chineses para uma escalada do conflito, envolvendo-os na guerra em apoio do Paquistão, quando a derrota destes já se anunciava. Explique-se que, como a Índia solicitara o apoio político da União Soviética, a entrada da China em jogo arriscava-se a alastrar o conflito para além das fronteiras do armamento convencional... e da previsibilidade. Mas, apesar de ser também apoiante dos paquistaneses, Zhou Enlai não se prestou naquelas circunstâncias a ser um joguete de um capricho dos norte-americanos e que não podiam fazer grande coisa, atascados como estavam com a Guerra do Vietname.
Mas, como em quase tudo na vida, também na Geoestratégia há a acção e há a promoção e esta costuma ser - injustamente - mais importante que a primeira. Em Dezembro de 1971, os Estados Unidos, muito por culpa de quem (mal) os dirigira, haviam sofrido uma humilhante derrota diplomática directa diante da Índia; e indirecta diante da União Soviética. Dois meses depois, Fevereiro de 1972 (e em The Blood Telegram já não se fala em nada disto...), Kissinger conseguira erigir e engalanar um palco para que Nixon nele brilhasse, reatando relações com a China. É o que interessa. É nisso, muito mais do que como teórico, que Henry Kissinger se revela imbatível, pois hoje quase todos se lembram de uma coisa como a expressão máxima do jogo geoestratégico (acima) e quase ninguém se lembra da outra...
¹ Até então (1971), Richard Nixon estivera por três vezes na Índia e por seis vezes no Paquistão, nos dois casos apenas uma delas (Julho/Agosto de 1969) como presidente, o que não parece deixar muitas dúvidas quanto às suas inclinações e simpatias pessoais.
¹ Até então (1971), Richard Nixon estivera por três vezes na Índia e por seis vezes no Paquistão, nos dois casos apenas uma delas (Julho/Agosto de 1969) como presidente, o que não parece deixar muitas dúvidas quanto às suas inclinações e simpatias pessoais.
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03 novembro 2014
O ENIGMA DE WAGAH
Já aqui evocadas no Herdeiro de Aécio, as cerimónias quotidianas de Wagah na fronteira indo-paquistanesa ter-se-ão tornado provavelmente (juntamente com o haka dos maoris) no exemplo mais mundialmente conhecido da sublimação da hostilidade num ritual (felizmente) inofensivo. Não havia memória de as cerimónias se tornarem violentas até ontem, quando um bombista suicida detonou uma carga de uns 25 kg de explosivos no lado paquistanês da fronteira causando cerca de 60 mortos e 200 feridos. É sempre difícil criar a empatia de tentar compreender quais as intenções de quem promove este género de actos. Fragilizar o Paquistão naquele local em que ele se confronta diariamente com o seu antagonista histórico só se pode conceber se o acto tiver sido organizado por uma organização islâmica radical que se posicione não apenas contra o actual governo paquistanês como também contra a própria concepção original do estado do Paquistão, mesmo que ele se tivesse passado a reclamar de um islamismo que não estava nas ideias do fundador Ali Jinnah. Mas este atentado torna-se ainda mais absurdo quando se sabe que, mais do que uma, já são duas - senão três - as organizações extremistas a ter reivindicado a sua autoria, cada uma apresentando uma versão ligeiramente modificada das razões para a sua realização.
16 março 2014
O MOTIM DO 5º DE INFANTARIA LIGEIRA
Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, o 5º Regimento de Infantaria Ligeira (Indiana) era uma das unidades mais antigas do Exército da Índia Britânica. Mais do que centenário (fora formado originalmente em 1803, ainda no tempo em que a administração britânica da Índia pertencia à famosa Companhia majestática), o regimento estava nessa época aquartelado em Nowgong, no centro da Índia que hoje pertence ao Estado de Madhya Pradesh. Porque a região onde estava estacionado era predominantemente hindu (92%), o 5º de Infantaria Ligeira era formado predominantemente por muçulmanos. E, quando o Reino Unido veio recolher de todo o Império os recursos que pudesse para o conflito que começara, esticando o seu dispositivo militar na Ásia, o regimento foi transferido em substituição de unidades europeias entretanto mobilizadas para a Europa. Em Outubro de 1915, o 5º de Infantaria Ligeira partiu para Madrasta para depois seguir por mar para guarnecer Singapura. As reconstituições históricas de um e outro lado (o britânico e o nacionalista indiano e paquistanês) combinaram-se posteriormente para dar uma consistência ideológica à insurreição que veio a ter lugar apenas quatro meses depois da chegada do regimento àquela cidade, que já contava com 384.000 habitantes, e que se situa na encruzilhada de quase todas as rotas comerciais que ligam os Oceanos Índico e Pacífico. Winston Churchill, que gostava das grandes expressões, veio a baptizar Singapura na Guerra Mundial seguinte de Gibraltar do Oriente.
Mas, regressando à guerra anterior, as explicações oficiais para a eclosão do motim estariam associadas a uma relutância dos cipaios - fomentada por líderes islâmicos, de acordo com os britânicos - em envolverem-se num conflito em que poderiam vir a defrontar os seus correligionários muçulmanos do Exército Otomano. A explicação será, se vagamente verdadeira, também no mínimo rebuscada. Associações nacionalistas indianas radicais da época a quem se pretendeu depois atribuir responsabilidades pela insurreição, como o partido Ghadar (ghadar significa revolta), não passavam de organizações de alguns intelectuais da diáspora indiana, a que normalmente faltava entrosamento com as etnias indianas que tradicionalmente abraçavam a carreira militar. Explicações mais simples e mais prosaicas para o motim, que os britânicos remeteram discretamente para os últimos parágrafos dos relatórios que se redigiram depois, apontavam para a baixa categoria geral dos oficiais britânicos que haviam permanecido com a unidade depois dos recrutamentos de 1914 e que, por isso, não se aperceberam daquilo que se aprontava. Quando o motim se desencadeou, o 5º de Infantaria Ligeira havia sido seleccionado para se mudar (de novo…) para Hong-Kong, mas corriam rumores – como costumam correr sempre nestas circunstâncias – que o regimento iria ser transferido para uma frente de combate – no Médio Oriente ou mesmo na Europa. A cerimónia de despedida já tivera lugar, o Comandante-Chefe até presidira a ela, fizera mesmo uma alocução aos homens cumprimentando-os pelo seu desempenho nos últimos quatro meses mas, obtusidade do comando ao ambiente que fermentava entre as fileiras, esqueceu-se de mencionar qual seria o destino da unidade, para erradicar os equívocos.
Quando as primeiras viaturas se apresentaram no aquartelamento para embarcar os primeiros cipaios no navio que os transportaria para Hong-Kong, 4 das 8 companhias que compunham o regimento (composto no total por cerca de 900 homens) amotinaram-se, apossando-se das armas. Estava-se a 15 de Fevereiro de 1915, o que coincidia com o Ano Novo chinês, por isso feriado para a maioria da população de Singapura¹. Significativamente, metade das companhias, as que eram compostas maioritariamente por etnias que hoje seriam classificadas de paquistanesas, não se juntaram aos insurrectos. Estes, para continuar a adoptar essa classificação convencional, seriam predominantemente muçulmanos de origem indiana mas onde se podiam encontrar também alguns siques. Não se sublevando, os paquistaneses também não se opuseram ao motim, não se podendo contar com eles para o reprimir. Curiosamente, também a esmagadora maioria dos 300 alemães que estavam aprisionados em Singapura e que os amotinados se haviam apressado a libertar para os auxiliar na insurreição, adoptaram a mesma atitude neutral, demonstrando que preconceitos raciais se sobrepunham às alianças circunstanciais de guerra. Apesar do número de insurrectos nunca dever ter ultrapassado os 500, a verdade é que os britânicos tiveram que passar pela humilhação de ter de apelar aos seus aliados para disporem de um contingente de homens armados adequado para os combater. Nos dias que imediatamente se seguiram, o auxílio de marinheiros armados de navios de guerra da França, Rússia e Japão que estavam próximos foi imprescindível para a contenção do motim antes que unidades militares britânicas (compostas por soldados europeus...) expedidas urgentemente da Birmânia tomassem o assunto em mão e o encerrassem em cerca de uma semana.
No final, cerca de 60 insurrectos haviam morrido e do lado das forças da ordem e dos civis a contagem era de 43 mortos e 19 feridos. Seguiram-se os julgamentos, onde mais de 200 amotinados foram levados a tribunal marcial. Houve 47 execuções, 64 penas de prisão perpétua para além de 73 outras penas de prisão, cujas mais ligeiras atingiam os 7 anos. Sinal de outros tempos noticiosos, uma notícia a dar conta do motim em Singapura era publicado no New York Times de 2 de Maio de 1915, dois meses e meio depois dos acontecimentos terem tido lugar. Os cerca de 600 homens que restavam do 5º de Infantaria Ligeira foram mobilizados em Julho desse mesmo ano para participar na invasão dos Camarões, então colónia alemã na África Ocidental. Em 1916 foram transferidos para Tanganica, que era outra colónia alemã mas na África Oriental. Em 1917 foram novamente transferidos, agora para guarnecer Adem, no Iémen, que, como Singapura, era outro porto estratégico do Império Britânico na encruzilhada entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho com o Canal do Suez. Apesar desta honradíssima folha de serviços, a má reputação da unidade acabou por a condenar à extinção na reorganização do Exército da Índia Britânica que veio a ter lugar em 1922. O motim de há 99 anos pode ser ainda hoje discretamente evocado através de dois memoriais expostos à entrada do Victoria Memorial Hall.
¹ Uma franca maioria da população de Singapura tinha ascendência chinesa. Actualmente, ela cifra-se em cerda de ¾ de toda a população.
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