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26 julho 2019

O FIM OFICIAL DA GUERRA DE KARGIL

26 de Julho de 1999. Término oficial da Guerra de Kargil. Opôs a Índia e o Paquistão durante quase três meses. O objectivo da operação inicialmente desencadeada pelos paquistaneses era a ocupação de várias posições tacticamente vantajosas em elevações situadas do lado indiano da Caxemira. A infiltração foi inicialmente atribuída pelos paquistaneses a guerrilheiros seus apaniguados, mas os factos subjacentes vieram a desmentir essa ficção. Tratava-se realmente de um desses raros conflitos militares tradicionais entre dois estados, com a agravante de se tratar de dois países com capacidade nuclear. Mas a iniciativa fora do Paquistão, faltava-lhe o lado Moral da guerra, ainda para mais quando a sua história inicial dos guerrilheiros se desmoronou, através de uma habilidosa intercepção pelos indianos de uma conversa telefónica entre o comandante-em-chefe do exército paquistanês e o seu chefe de Estado Maior, que provava a dimensão da mentira. Com a publicitação da conversa, o Paquistão ficou politicamente isolado: nenhum dos seus dois grandes aliados tradicionais, os Estados Unidos e a China, se dispuseram a apoiá-lo. No terreno, o contra-ataque indiano para recuperar as posições entretanto ocupadas pelos paquistaneses  foi mais demorado e sobretudo mais custoso em termos de vidas humanas: apesar da tradicional discrepância entre os números admitidos e atribuídos pelas duas partes, o número de mortos cifra-se nas largas centenas dos dois lados (500-700), o que é muito significativo se se tomar em consideração a escassa duração do conflito e o facto de se ter tratado de uma guerra de montanha, que envolve comparativamente poucos efectivos. Militarmente a Índia limitou-se a restabelecer o "statu quo" na linha de demarcação que a separa do Paquistão. Mas politicamente teve uma vitória retumbante ao desacreditar internacionalmente o seu inimigo de sempre. Nomeadamente, a política externa norte-americana passou a ser muito mais equilibrada do que fora até aí.
Dois anos depois do fim da Guerra de Kargil, este livro acima - que é nitidamente pró-indiano - para além de fazer uma recapitulação do conflito interminável entre a Índia e o Paquistão, não escondia as esperanças do resultado da inflexão gerada por aquele último episódio. E mesmo depois de 2001, com a invasão e presença norte-americana do vizinho Afeganistão, consolidou-se uma impressão entre quem se preocupa com estes assuntos nos Estados Unidos, que o Paquistão possui uma agenda muito própria quanto a assuntos que nos próprios Estados Unidos eles qualificam de enorme prioridade. O clímax dessa impressão, que não é propriamente de uma grande melhoria das relações entre os Estados Unidos e a Índia, mas antes de um azedamento progressivo e assumido nas relações com o Paquistão, o clímax, escrevia, pode ser facilmente identificado pelo dia em que teve lugar a execução de Osama bin Laden (2 de Maio de 2011), que teve lugar no Paquistão, mas ao arrepio do conhecimento das autoridades daquele país. Isto é um resumo compacto do que havia a dizer a respeito da questão de Caxemira até à Segunda-Feira passada, quando Donald Trump recebeu o primeiro-ministro paquistanês Imran Khan e, como contrapartida do auxílio paquistanês para que os Estados Unidos se desengajem do Afeganistão, se propôs mediar o conflito da Caxemira entre a Índia e o Paquistão. A política externa da administração Trump, especialmente quando protagonizada pelo próprio, tornou-se de uma imprevisibilidade previsível: adopta uma atitude absolutamente contrária à dos seus antecessores. E é tão ignara quanto bem-intencionada, aldrabona e maledicente a respeito do trabalho dos que a precederam. Normalmente dá bronca porque não faz(em) a mínima ideia de onde é que se vai meter: neste caso, para agradar aos paquistaneses, irritou os indianos com as suas mentirolas, o que é um péssimo começo para qualquer aspirante a mediador.

03 maio 2019

A TERCEIRA GUERRA ANGLO-AFEGÃ

3 de Maio de 1919. Começa a Terceira Guerra Anglo-Afegã. Supreendentemente, foi desencadeada pelos afegãos que, num golpe de audácia e desafiando aquela que era uma das três grandes potências vencedoras do conflito mundial que acabara de terminar, há precisamente cem anos franquearam a fronteira comum na extremidade oeste do passo de Khiber, capturando uma pequena povoação. Esta retirava a sua importância do facto de ser a fonte de água de uma guarnição anglo-indiana de duas companhias aquartelada num forte situado a alguns quilómetros de distância. Do lado britânico não se conheciam bem, nem se não sabia, quais seriam as intenções de Amanullah, o emir afegão, que acabara de subir ao trono há pouco mais de dois meses, mas o domínio britânico sobre a Índia registara recentemente um incidente de repercussões políticas muito desagradáveis em Amritsar. Em Peshawar e Nova Deli (as capitais provincial e imperial da soberania britânica sobre a Índia, respectivamente), resolveu-se assumir a ameaça como muito séria e a Índia Britânica declarou guerra ao Afeganistão em 6 de Maio de 1919.
O conflito mais aceso vai durar cerca de um mês, e prolongar-se-á formalmente por mais dois meses, até à assinatura do Tratado de Rawalpindi em 8 de Agosto de 1919. A novidade táctica naquela região e naquele género de conflito foi a aparição da aviação que permitiu aos anglo-indianos alcançar uma outra superioridade sobre o inimigo. Desse ponto de vista não se colocam dúvidas sobre o desfecho e a identidade do vencedor desta Guerra. Mas a questão estratégica era outra: por esta vez, uma Grã Bretanha exaurida pela Grande Guerra, perdera a iniciativa, e não se mostrava minimamente capaz, nem interessada, de aproveitar esta provocação afegã para avançar para a controle directo desse país, beneficiando-se da momentânea fraqueza russa, que estava a braços com uma Guerra Civil, e dessa forma marcando pontos adicionais naquilo que fora uma das grandes rivalidades estratégicas do Século XIX, denominada o Grande Jogo. E o Afeganistão saía pelo menos vencedor de um outro pequeno jogo em que se mostrava demasiado custoso para ser ocupado. É o que se pode deduzir deste aviso afixado sobre a fronteira...

13 abril 2019

O CENTENÁRIO DO MASSACRE DE AMRITSAR


13 de Abril de 1919. Depois do fim da Grande Guerra, as elites indianas esperavam dos britânicos a concessão de um estatuto de autogoverno que os equiparasse, de alguma forma, aquele que era usufruído pelos Domínios do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia ou da África do Sul. O investimento que os indianos haviam feito na causa imperial durante a guerra - 1.440.000 soldados mobilizados, cerca de 65.000 mortos - esperava por esse retorno. Só que as autoridades britânicas não queriam nem ouvir falar em tais reivindicações. Refira-se que cerca de 450.000 desses indianos haviam sido recrutados no Punjabe, uma região fértil do Norte da Índia (Punjabe quer dizer cinco rios), onde coexistiam três das grandes religiões da Índia: muçulmanos, hindus e também sikhs. Em Amritsar, capital religiosa desta última confissão, a 13 de Abril de 1919 (um Domingo) dava-se a coincidência de se concelebrar o festival de Ram Naumi por parte dos hindus com o dia de Baisakhi, que era o primeiro dia do Ano Novo sikh. A cidade estava apinhada, abrigando cerca do triplo do que seria a sua população normal de 160.000 habitantes. O ambiente era tenso e a atenção policial era intensa mas o exercício de prepotência mortífera a que as autoridades britânicas se dedicaram teve todo o absurdo que esta reconstituição acima demonstra (foi retirada do filme Gandhi). Mais do que a brutalidade e as vítimas (379 mortos e 1.100 feridos, segundo os números oficiais), as consequências políticas para a presença britânica na Índia foram arrasadoras, ao fazerem desaparecer os moderados entre o movimento nacionalista indiano, aqueles que ainda estariam dispostos a negociar com as autoridades coloniais uma transição pacífica e progressiva da Índia até a um estatuto equivalente ao dos outros Domínios. Os 28 anos que decorrerão até à independência serão um contínuo braço de ferro com os nacionalistas a forçar o calendário dos acontecimentos.

21 outubro 2018

AZAD HIND - O COLABORACIONISMO QUE NÃO FOI RENEGADO

21 de Outubro de 1943. Constitui-se em Singapura o Governo Provisório da Índia Livre (Arzi Hukumat-e-Azad Hind), encabeçado por Subhas Chandra Bose (1897-1945). Subhas Bose fora um dos dirigentes destacados do Congresso indiano antes da Guerra, mas acabara por entrar em conflito com Gandhi e abandonara a organização em 1939. Com a eclosão daquela, as divergências acentuaram-se: ao neutralismo pacifista de Gandhi, contrapunha-se a aliança tácita com o inimigo do inimigo que era proposta por Bose, no que era acompanhado por uma facção mais radical dos nacionalistas indianos. Bose acabou por fugir para a Alemanha, onde ajudou a formar uma unidade militar indiana formada por antigos prisioneiros de guerra que depois combateu ao lado dos alemães. Já aqui foi referida no Herdeiro de Aécio. Mas o interesse de Subhas Bose (e a utilidade de o empregar pelas potências tutelares...) estava muito longe da Europa. Era na Ásia, onde os exércitos japoneses que ocupavam a Birmânia ameaçavam a Índia, que se combinavam o interesse do próprio e de quem se dispunha a patrociná-lo. Em 1943, Subhas Chandra Bose realizou uma prolongada e complexa viagem de submarino que o levou para o outro lado do mundo. Partido em Fevereiro desse ano da Alemanha num submarino alemão, a viagem envolveu um transbordo para um submarino japonês em Madagáscar, a meio do percurso, que só se veio a concluir com a sua chegada a Singapura em Maio. Os japoneses também já haviam pensado em recrutar entre os seus prisioneiros de guerras de origem indiana um exército de auxiliares que combatesse ao seu lado contra os britânicos. Contudo, terá sido a alavanca política representada pela presença e propaganda de Subhas Bose, a quem se passara a dar o título honorífico de Netaji (Líder Respeitado em hindi/urdu), que terá feito com que os efectivos desse exército indiano de libertação (o INA - 43.000) correspondesse a cerca de ⅔ dos efectivos totais de prisioneiros indianos capturados pelos japoneses durante o conflito (64.500).
Claro que nem todos os membros do INA haviam sido prisioneiros, como se pode constatar, aliás, por esta fotografia acima, em que a unidade é feminina, mas a elevadíssima percentagem de alistamentos tornou-se um daqueles embaraçosos segredos de guerra, guardado ferreamente pelos britânicos, tanto mais que ela contrasta com a percentagem de 20% de adesões que se havia registado no caso dos prisioneiros de guerra indianos na Europa. Aliás, tão ou mais importante do que a quantidade, a maioria dos oficiais e sargentos de origem indiana que enquadravam as tropas também aderiu ao INA. O Governo Provisório que se constituiu há precisamente 75 anos é o apex político desse esforço de mobilização. Apesar de aparecer fardado nas fotos, Subhas Chandra Bose nunca havia tido qualquer experiência militar. A avaliação séria do desempenho deste outro exército indiano é afectada pelos preconceitos distintos (mas coexistentes) de britânicos e japoneses e dos seus relatos. Como projecto político, a Azad Hind não iria durar dois anos. Afundou-se conjuntamente com o Japão em Agosto de 1945. Pessoalmente, Subhas Chandra Bose morreu em 18 de Agosto de 1945, em consequência dos ferimentos resultantes de um acidente de aviação. Mas a questão política daqueles que haviam pegado em armas contra a Índia colonial continuou a subsistir. Quando as autoridades britânicas quiseram, depois do fim da guerra, levar a julgamento os responsáveis políticos e militares que haviam pegado em armas contra o Raj, depararam-se com a oposição dos nacionalistas. Terá sido até a última vez em que o Congresso e a Liga Muçulmana agiram de forma concertada, pois entre os réus tanto havia hindus como muçulmanos. Para surpresa dos britânicos, e ao contrário dos princípios que vigoravam na Europa que fora ocupada, ter-se sido colaboracionista ao serviço de uma potência hostil não funcionava como um estigma na Índia. Num ambiente que cada vez mais se adensava contra a sua presença, os britânicos tiveram que desistir da sua intenção. Mais do que isso, na Índia actual e como se pode constatar pelo vídeo abaixo, Subhas Chandra Bose é considerado um grande herói nacional.

24 março 2018

A METAMORFOSE DA «COMMONWEALTH»

Estamos a 17 de Março de 1961, em Londres, a cerimónia é de gala porque se trata do encerramento da conferência de primeiros ministros, e esta fotografia assinala o início do que será a metamorfose da imagem da Commonwealth britânica. A fotografia em que a monarca Isabel II aparece, ao centro, rodeada dos chefes de governo dos países que outrora haviam composto o Império, parece ser uma composição cada vez mais heterogénea, quando comparada com as fotos de cerimónias precedentes, uma heterogeneidade que, tanto como as aparências, se substancia também pelos percursos e pelos anseios díspares de quem rodeia a monarca. A Commonwealth mostrava que não podia ser o desejado prolongamento do Império Britânico desejado por Londres. A Irlanda já saíra, a África do Sul preparava-se para o fazer, a instituição manifestava-se impotente para gerir a animosidade indo-paquistanesa. Há 57 anos e da esquerda para a direita, identificam-se Kwame Nkrumah pelo Gana, John Diefenbaker pelo Canadá, Hendrik Verwoerd pela África do Sul, Jawaharlal Nehru pela Índia, Ayub Khan pelo Paquistão, a Rainha, Roy Welensky pela Rodésia (que hoje são a Zâmbia e o Zimbabwe), Sirimavo Bandaranaike pelo Sri Lanka, Harold Macmillan que foi o anfitrião britânico, Robert Menzies pela Austrália e o arcebispo Makarios III por Chipre. Ausentes da foto, mas presentes na conferência, haviam estado ainda os dirigentes da Malásia, Nova Zelândia e Nigéria. Abaixo, pode comparar-se o que fora a tradição daquelas conferências (a de 1926, acima, ainda com Jorge V, o avô de Isabel II) e aquilo em que se iriam transformar (a de 1983, abaixo).

15 agosto 2017

A INDEPENDÊNCIA DA ÍNDIA E DO PAQUISTÃO


15 de Agosto de 1947. Há precisamente 70 anos a Índia e o Paquistão alcançavam simultaneamente a independência, dividindo entre si os territórios do subcontinente que haviam estado submetidos ao raj britânico. Os desejos de John Bull no cartoon abaixo não se concretizaram. a partição da Índia esteve muito longe de ser pacífica.

06 agosto 2017

O PRIMEIRO-MINISTRO QUE FOI «DESQUALIFICADO» E JÁ NÃO «DERRUBADO» POR CAUSA DOS «PANAMA PAPERS»

No final do mês passado (28), foi notícia que o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, foi «desqualificado» de desempenhar aquele cargo por uma sentença unanime de um colectivo de cinco juízes do Supremo Tribunal do Paquistão. Na história conturbada daquele país (vai completar 70 anos a 15 de Agosto próximo), nunca um primeiro-ministro que antes tivesse sido eleito para o cargo em resultado de eleições conseguiu completar o seu mandato, mas neste caso já tradicional há a estreia de que a sua demissão se deve desta vez a juízes e não a generais como sempre acontecera até aqui. Os pronunciamentos militares estão a sair de moda, vivam as sentenças judiciais! Quanto à fundamentação da sentença que afasta Sharif do poder, ela assenta em factos que vieram a lume com as revelações dos famosíssimos "Panama Papers". E, naquilo que pretendo seja um retoque de ironia neste poste, elegi precisamente a notícia do Expresso sobre o afastamento de Sharif como auxiliar para quem queira saber mais alguns detalhes sobre o assunto. Porque sobre "Panama Papers" há que não esquecer quanto o assunto foi um exclusivo daquele jornal (abaixo) há mais de um ano. Um exclusivo que se estende à constatação que nesse ano e tal o assunto ficou encalhado por aí algures antes das grandes revelações (e das graves consequências) que prometia...

02 maio 2016

PELO QUINTO ANIVERSÁRIO DA EXECUÇÃO EXTRAJUDICIAL DE UM INIMIGO DA AMÉRICA

No dia em que se assinalam os cinco anos da execução extrajudicial de Ossama bin Laden parece-me continuarem pendentes as explicações para que os Estados Unidos tivessem optado pela decisão que tomaram. Estando Ossama bin Laden em território paquistanês, e sendo o Paquistão um país seu aliado, não ganhariam os Estados Unidos em ter tratado o assunto de uma forma mais formal, capturando-o e pedindo a sua extradição? E, se o não fizeram, não terá sido por saberem que o Paquistão, se instado a entregar-lhes Ossama, nunca o faria às claras perante a reacção do mundo árabe? E o Paquistão, mau grado o facto da execução ter decorrido aparentemente à sua revelia, não terá preferido que o assunto tenha sido solucionado da forma irregular como o foi? É que, se não foi assim que aconteceu, caso em que que aquilo que aconteceu não pode por agora ser assumido, parece-me que nestes cinco anos entretanto decorridos, as ondas de choque da execução extrajudicial de Ossama bin Laden teriam de ter sido completamente outras.

13 abril 2015

UMA BIOGRAFIA COMO NÃO SE PODE LER NA WIKIPEDIA

Havia uma anedota antiga que falava de um infeliz que nascera com o nome de José Merda. Até que conseguiu obter autorização oficial para mudar de nome: e passou a chamar-se João Merda. Ao biografado, um futuro Vice-Rei da Índia, também aconteceu algo de semelhante. Aos 26 anos obteve autorização régia para mudar de nome e registou uma mudança também assim bizarra: deixou de se chamar Freeman Thomas para se passar a chamar Freeman Freeman-Thomas (1866-1941) - como se fosse gago. No círculo aristocrático onde nascera, Freeman Freeman-Thomas notabilizara-se pelo seu desembaraço físico – foi um grande jogador de cricket – e pelas amizades – era um dos parceiros de ténis do neto mais velho da rainha Victória, o futuro Jorge V (1865-1936). Casou bem, com uma das filhas do Conde Brassey (1836-1918), um político liberal, que chegou a ser Governador na Austrália e que lhe deu o seu primeiro cargo político como seu ajudante-de-campo em 1897. 
Freeman-Thomas terá sido aquilo que se qualifica como uma daquelas pessoas simples, bem-nascidas e bem relacionadas, que por causa disso (mas só por causa disso) foram ascendendo na vida. Mas as fotografias não enganam: dão-lhe a cara de estúpido que ele deve ter sido toda a vida. Membro liberal do Parlamento em 1900, membro do governo (num cargo muito discreto) em 1905, quando o seu amigo Jorge V se tornou rei em 1910 nobilitou-o: tornou-se Lord Willingdon. Começou por ser barão, depois foi promovido a visconde (1924), conde (1931) e acabou a vida sendo marquês (1936). Pelo meio realizou uma preenchida e destacada carreira como administrador colonial coincidindo – não por acaso – com o reinado do seu amigo Jorge. Governador de Bombaim (1913), Governador de Madrasta (1919), Governador-Geral do Canadá (1926) e finalmente foi Vice-Rei da Índia de 1931 a 1936.
Na sua passagem prévia pela Índia destacou-se... por não se destacar, a não ser por questões triviais, à conta de um conservadorismo em que ele, teoricamente um liberal, passava por reaccionário quando em comparação com políticos conservadores, como foi o caso do seu antecessor no cargo de Vice-Rei, Lord Irwin. Num desses gestos com uma ampla repercussão posterior, provocou a perpétua inimizade de Mohammed Ali Jinnah (que viria a ser o líder da Liga Muçulmana e considerado o fundador do Paquistão), no dia em que, num jantar de cerimónia em Bombaim, mandou trazer algo que cobrisse o decote do vestido de noite parisiense da belíssima Ruttie Jinnah, atitude que provocou o abandono imediato e ultrajado do casal. (Não se deixe escapar o detalhe desses anos outros em que um marido muçulmano (embora pouco) se ofende com o gesto de um cristão que manda cobrir a sua esposa...)
A verdade é que, por muito que Jinnah nunca mais se dispusesse a perdoar-lhe, Lord Willingdon não era má pessoa: era apenas desesperadamente estúpido. Edwin Montagu, que por esses anos era seu superior hierárquico como Secretário de Estado para a Índia descrevia-o: é um gajo tão porreiro e um gajo tão estúpido¹. No geral, não impunha nem respeito nem receio: certo dia o Vice-Rei foi barrado à entrada não de um, mas de três clubes de Bombaim porque ia acompanhado de um Marajá indiano e os clubes eram exclusivos europeus. E ninguém pareceu temer as suas retaliações... Quando Lord Linlithgow – de que já aqui se falou – lhe sucedeu no cargo de Vice-Rei em 1936, encontrou enormes resmas de documentação oficial a aguardar assinatura. Apercebeu-se que Willingdon nem lhes pusera os olhos em cima.
Em contraste com esta personalidade displicente, a de Lady Willingdon era um pouco excessiva demais: as críticas a Maria Adelaide Freeman-Thomas (1875-1960) incidiam sobre a combinação poderosa entre a sua vulgaridade e uma vitalidade que parecia infindável. Um dos seus hobbies era a decoração e os alvos foram muitos dos inúmeros quartos do Palácio dos Vice-Reis em Nova Deli que acabaram pintados da sua cor favorita: malva. Quando Edwin Luytens, que fora o arquitecto do edifício e de muitos outros na cidade, tentou criticá-la ironicamente pelo mau gosto, o resultado não foi o esperado: «Disse-lhe que, se ela fosse dona do Partenon, ainda lhe iria acrescentar janelas panorâmicas, ao que ela me respondeu, muito séria, que não gostava do Partenon»... Apreciemo-la nesta fotografia final em que, para ficar da mesma altura do marido, se colocou no degrau seguinte. Não vem a propósito, mas faz-nos lembrar Maria Cavaco Silva.
¹ such a good fellow and such a stupid fellow.

07 abril 2015

«THE BLOOD TELEGRAM»

O tema do livro já aqui o havia abordado no blogue, ainda que sem grande desenvolvimento: são os acontecimentos que, ao longo de quase todo o ano de 1971, conduziram à eclosão de uma terceira Guerra entre a Índia e o Paquistão, guerra essa que veio a culminar com a secessão e independência do Bangladesh, que até aí fora uma província paquistanesa. Quanto ao livro propriamente dito, o seu título é digno de atenção. Em primeiro lugar por se tratar de um trocadilho que faz sentido em língua inglesa: blood telegrama pode traduzir-se literalmente por telegrama sangrento; mas Blood Telegram pode ser também a alusão ao diplomata norte-americano Archer Blood (1923-2004), que, colocado na época como cônsul em Daca, foi o autor de um importante telegrama daquele período, alertando Washington, mas sobretudo a opinião pública e publicada norte-americana, para as consequências graves que a imposição da lei marcial pelas autoridades paquistaneses estava a ter na população bengali, os assassinatos e o êxodo que estava a gerar. Mas o título possui também o interesse, de parecer inspirado no zimmermann telegram, um episódio de 1917 que culminou com a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Sobre este outro tema já a celebrada Barbara Tuchman escrevera em 1958 um livro intitulado precisamente The Zimmermann Telegram. Os prémios entretanto recebidos por este The Blood Telegram (vencedor do Prémio Lionel Gelber 2014, finalista do Prémio Pulitzer 2014) parecem sugerir, pela analogia dos títulos e dos estilos que o autor, Gary Bass (1969-....), se sentirá recompensado na sua ambição de emular Barbara Tuchman.
A verdade é que praticamente ninguém se lembra da Guerra Indo-Paquistanesa de 1971. Mas outra verdade é que este livro também não é um livro sobre essa Guerra ou a situação política que a ela conduziu. Essa ignorância também não se deverá à falta de livros dedicados ao assunto. Contudo, o que este livro tem de importante para despertar o interesse do leitor norte-americano típico é que ele acompanha a crise centrado do ponto de vista da sala oval da Casa Branca. E aí, a partir das transcrições das conversas ora desclassificadas do presidente Richard Nixon com o seu conselheiro de segurança Henry Kissinger, é que o assunto se torna particularmente interessante. Ouvindo-os na intimidade, as opiniões de dois dos homens mais importantes do Mundo naquela época tornam-se de uma simplicidade grosseira, assustadora ao pensar-se nas responsabilidades que então possuíam. Há comentários de Nixon a respeito dos indianos que soam típicos de um racismo de taxista, a sua conduta da política externa parece exclusivamente norteada pela simpatia que lhe merecia Yahya Khan, o presidente paquistanês, quando em contraste com a antipatia (retribuída) para com Indira Gandhi, a primeira-ministra da Índia¹. E a sempre tão propagandeada (de lúcida) realpolitik de Henry Kissinger sai totalmente embaciada de todo o episódio quando, entre outros malabarismos, o encontramos a tentar aliciar os chineses para uma escalada do conflito, envolvendo-os na guerra em apoio do Paquistão, quando a derrota destes já se anunciava. Explique-se que, como a Índia solicitara o apoio político da União Soviética, a entrada da China em jogo arriscava-se a alastrar o conflito para além das fronteiras do armamento convencional... e da previsibilidade. Mas, apesar de ser também apoiante dos paquistaneses, Zhou Enlai não se prestou naquelas circunstâncias a ser um joguete de um capricho dos norte-americanos e que não podiam fazer grande coisa, atascados como estavam com a Guerra do Vietname.
Mas, como em quase tudo na vida, também na Geoestratégia há a acção e há a promoção e esta costuma ser - injustamente - mais importante que a primeira. Em Dezembro de 1971, os Estados Unidos, muito por culpa de quem (mal) os dirigira, haviam sofrido uma humilhante derrota diplomática directa diante da Índia; e indirecta diante da União Soviética. Dois meses depois, Fevereiro de 1972 (e em The Blood Telegram já não se fala em nada disto...), Kissinger conseguira erigir e engalanar um palco para que Nixon nele brilhasse, reatando relações com a China. É o que interessa. É nisso, muito mais do que como teórico, que Henry Kissinger se revela imbatível, pois hoje quase todos se lembram de uma coisa como a expressão máxima do jogo geoestratégico (acima) e quase ninguém se lembra da outra...

¹
Até então (1971), Richard Nixon estivera por três vezes na Índia e por seis vezes no Paquistão, nos dois casos apenas uma delas (Julho/Agosto de 1969) como presidente, o que não parece deixar muitas dúvidas quanto às suas inclinações e simpatias pessoais.

03 novembro 2014

O ENIGMA DE WAGAH

aqui evocadas no Herdeiro de Aécio, as cerimónias quotidianas de Wagah na fronteira indo-paquistanesa ter-se-ão tornado provavelmente (juntamente com o haka dos maoris) no exemplo mais mundialmente conhecido da sublimação da hostilidade num ritual (felizmente) inofensivo. Não havia memória de as cerimónias se tornarem violentas até ontem, quando um bombista suicida detonou uma carga de uns 25 kg de explosivos no lado paquistanês da fronteira causando cerca de 60 mortos e 200 feridos. É sempre difícil criar a empatia de tentar compreender quais as intenções de quem promove este género de actos. Fragilizar o Paquistão naquele local em que ele se confronta diariamente com o seu antagonista histórico só se pode conceber se o acto tiver sido organizado por uma organização islâmica radical que se posicione não apenas contra o actual governo paquistanês como também contra a própria concepção original do estado do Paquistão, mesmo que ele se tivesse passado a reclamar de um islamismo que não estava nas ideias do fundador Ali Jinnah. Mas este atentado torna-se ainda mais absurdo quando se sabe que, mais do que uma, já são duas - senão três - as organizações extremistas a ter reivindicado a sua autoria, cada uma apresentando uma versão ligeiramente modificada das razões para a sua realização.

16 março 2014

O MOTIM DO 5º DE INFANTARIA LIGEIRA

Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, o 5º Regimento de Infantaria Ligeira (Indiana) era uma das unidades mais antigas do Exército da Índia Britânica. Mais do que centenário (fora formado originalmente em 1803, ainda no tempo em que a administração britânica da Índia pertencia à famosa Companhia majestática), o regimento estava nessa época aquartelado em Nowgong, no centro da Índia que hoje pertence ao Estado de Madhya Pradesh. Porque a região onde estava estacionado era predominantemente hindu (92%), o 5º de Infantaria Ligeira era formado predominantemente por muçulmanos. E, quando o Reino Unido veio recolher de todo o Império os recursos que pudesse para o conflito que começara, esticando o seu dispositivo militar na Ásia, o regimento foi transferido em substituição de unidades europeias entretanto mobilizadas para a Europa. Em Outubro de 1915, o 5º de Infantaria Ligeira partiu para Madrasta para depois seguir por mar para guarnecer Singapura. As reconstituições históricas de um e outro lado (o britânico e o nacionalista indiano e paquistanês) combinaram-se posteriormente para dar uma consistência ideológica à insurreição que veio a ter lugar apenas quatro meses depois da chegada do regimento àquela cidade, que já contava com 384.000 habitantes, e que se situa na encruzilhada de quase todas as rotas comerciais que ligam os Oceanos Índico e Pacífico. Winston Churchill, que gostava das grandes expressões, veio a baptizar Singapura na Guerra Mundial seguinte de Gibraltar do Oriente.
Mas, regressando à guerra anterior, as explicações oficiais para a eclosão do motim estariam associadas a uma relutância dos cipaios - fomentada por líderes islâmicos, de acordo com os britânicos - em envolverem-se num conflito em que poderiam vir a defrontar os seus correligionários muçulmanos do Exército Otomano. A explicação será, se vagamente verdadeira, também no mínimo rebuscada. Associações nacionalistas indianas radicais da época a quem se pretendeu depois atribuir responsabilidades pela insurreição, como o partido Ghadar (ghadar significa revolta), não passavam de organizações de alguns intelectuais da diáspora indiana, a que normalmente faltava entrosamento com as etnias indianas que tradicionalmente abraçavam a carreira militar. Explicações mais simples e mais prosaicas para o motim, que os britânicos remeteram discretamente para os últimos parágrafos dos relatórios que se redigiram depois, apontavam para a baixa categoria geral dos oficiais britânicos que haviam permanecido com a unidade depois dos recrutamentos de 1914 e que, por isso, não se aperceberam daquilo que se aprontava. Quando o motim se desencadeou, o 5º de Infantaria Ligeira havia sido seleccionado para se mudar (de novo…) para Hong-Kong, mas corriam rumores – como costumam correr sempre nestas circunstâncias – que o regimento iria ser transferido para uma frente de combate – no Médio Oriente ou mesmo na Europa. A cerimónia de despedida já tivera lugar, o Comandante-Chefe até presidira a ela, fizera mesmo uma alocução aos homens cumprimentando-os pelo seu desempenho nos últimos quatro meses mas, obtusidade do comando ao ambiente que fermentava entre as fileiras, esqueceu-se de mencionar qual seria o destino da unidade, para erradicar os equívocos.
Quando as primeiras viaturas se apresentaram no aquartelamento para embarcar os primeiros cipaios no navio que os transportaria para Hong-Kong, 4 das 8 companhias que compunham o regimento (composto no total por cerca de 900 homens) amotinaram-se, apossando-se das armas. Estava-se a 15 de Fevereiro de 1915, o que coincidia com o Ano Novo chinês, por isso feriado para a maioria da população de Singapura¹. Significativamente, metade das companhias, as que eram compostas maioritariamente por etnias que hoje seriam classificadas de paquistanesas, não se juntaram aos insurrectos. Estes, para continuar a adoptar essa classificação convencional, seriam predominantemente muçulmanos de origem indiana mas onde se podiam encontrar também alguns siques. Não se sublevando, os paquistaneses também não se opuseram ao motim, não se podendo contar com eles para o reprimir. Curiosamente, também a esmagadora maioria dos 300 alemães que estavam aprisionados em Singapura e que os amotinados se haviam apressado a libertar para os auxiliar na insurreição, adoptaram a mesma atitude neutral, demonstrando que preconceitos raciais se sobrepunham às alianças circunstanciais de guerra. Apesar do número de insurrectos nunca dever ter ultrapassado os 500, a verdade é que os britânicos tiveram que passar pela humilhação de ter de apelar aos seus aliados para disporem de um contingente de homens armados adequado para os combater. Nos dias que imediatamente se seguiram, o auxílio de marinheiros armados de navios de guerra da França, Rússia e Japão que estavam próximos foi imprescindível para a contenção do motim antes que unidades militares britânicas (compostas por soldados europeus...) expedidas urgentemente da Birmânia tomassem o assunto em mão e o encerrassem em cerca de uma semana.
No final, cerca de 60 insurrectos haviam morrido e do lado das forças da ordem e dos civis a contagem era de 43 mortos e 19 feridos. Seguiram-se os julgamentos, onde mais de 200 amotinados foram levados a tribunal marcial. Houve 47 execuções, 64 penas de prisão perpétua para além de 73 outras penas de prisão, cujas mais ligeiras atingiam os 7 anos. Sinal de outros tempos noticiosos, uma notícia a dar conta do motim em Singapura era publicado no New York Times de 2 de Maio de 1915, dois meses e meio depois dos acontecimentos terem tido lugar. Os cerca de 600 homens que restavam do 5º de Infantaria Ligeira foram mobilizados em Julho desse mesmo ano para participar na invasão dos Camarões, então colónia alemã na África Ocidental. Em 1916 foram transferidos para Tanganica, que era outra colónia alemã mas na África Oriental. Em 1917 foram novamente transferidos, agora para guarnecer Adem, no Iémen, que, como Singapura, era outro porto estratégico do Império Britânico na encruzilhada entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho com o Canal do Suez. Apesar desta honradíssima folha de serviços, a má reputação da unidade acabou por a condenar à extinção na reorganização do Exército da Índia Britânica que veio a ter lugar em 1922. O motim de há 99 anos pode ser ainda hoje discretamente evocado através de dois memoriais expostos à entrada do Victoria Memorial Hall.
¹ Uma franca maioria da população de Singapura tinha ascendência chinesa. Actualmente, ela cifra-se em cerda de ¾ de toda a população.

18 janeiro 2014

«ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS»

Esta fotografia foi tirada em Simla, na Índia, data dos princípios de Julho de 1972 e reúne os dirigentes de então do Paquistão e da Índia, respectivamente Zulfiqar Ali Bhutto (1928-1979) e Indira Gandhi (ao centro, 1917-1984) e ainda a filha do primeiro, Benazir (1953-2007). Esta última virá a dirigir posteriormente o Paquistão e o mesmo acontecerá também na Índia com o filho de Indira, Rajiv (1944-1991, ausente da fotografia). Todos os quatro, filhos e progenitores, virão a morrer violentamente. Parafraseando o título do filme de sucesso dos irmãos Cohen, na política e tão impressionante quanto a hereditariedade, aquele subcontinente não é para velhos.

13 janeiro 2014

WAGAH

Há um sítio no mundo onde as demonstrações de chauvinismo e de (uma cuidadosamente coreografada) hostilidade para com o país vizinho se tornaram no fulcro de uma próspera actividade turística. Trata-se de um posto da fronteira chamado Wagah (acima), situado na linha divisória que foi traçada em 1947 separando o Punjabe Oriental (de maioria sikh) do muito maior Punjabe Ocidental (de maioria muçulmana), e que a partir de então passou a constituir a secção panjabi da fronteira entre a Índia e o Paquistão.
O foco da atracção turística é a cerimónia quotidiana do arriar das bandeiras ao fim da tarde. Na verdade, como se poderá descobrir pelos vídeos mais abaixo, o espectáculo começa muito antes, com as assistências dos dois lados da fronteira, que se adivinham ali presentes eivadas de um enorme fervor nacionalista, a proclamarem desde o princípio as suas simpatias como se de um match desportivo se tratasse. Quanto à cerimónia propriamente dita e melhor do que qualquer descrição, será preferível assistir a ela nos dois vídeos abaixo:

Cada vídeo tem a particularidade de ter sido filmado do seu lado da fronteira e de socorrer-se da apresentação do seu comediante britânico: trata-se de Michael Palin (dos Monty Phyton) que o cobriu do lado paquistanês (identificável porque os soldados envergam um fardamento mais escuro), e de Sanjeev Bhaskar (de Goodness, Gracious Me) que o viu do lado indiano – embora seja paradoxalmente este último que faz a associação aos silly walks que se tornaram tão populares por causa da série que foi protagonizada pelo primeiro…

Na sua apresentação, Michael Palin chama a atenção para como a cuidadosa coreografia das manifestações de hostilidade para com o adversário só podem ser devidamente conseguidas, não apenas com a sua conivência passiva, mas também com a colaboração activa (e mesmo ensaiada) desse adversário. E tudo isso decorre sob uma chuva de incentivos incessantes de cada lado. As imagens de Wagah, mesmo sem todo o seu cerimonial, acabaram por se vir a tornar no símbolo das relações atribuladas entre a Índia e o Paquistão.
Apesar de sempre ter sido, e de continuar a ser, a expressão caricata de um assunto sério, já há 40 anos o desenhador belga Bob de Moor aproveitara a ideia para uma aventura de Barelli chamada O Buda Amuado, onde dois países imaginários daquela região chamados Crounchir e Yogadhor (veja-se o mapa abaixo) se disputavam pelo privilégio de uma actuação teatral de Barelli no seu dia da independência (que era o mesmo, como acontece com a Índia e o Paquistão), através de exércitos muito motivados mas, felizmente, muito mal equipados.

14 dezembro 2013

A FACE ESQUECIDA DE UM MORTICÍNIO ESQUECIDO DE HÁ 42 ANOS

Os distúrbios e a guerra que culminaram com a independência do Bangladesh terminaram em 16 de Dezembro de 1971, há quase precisamente 42 anos (acima). Contudo, apesar de todos esses anos decorridos, a nação dos bengalis muçulmanos transmitiu recentemente para o exterior uma imagem do quanto os dilemas da existência do país não parecem ainda superados, ao anunciar-se a execução de Abdul Quader Molla (abaixo), responsável por violações e assassínios em massa (344) ocorridos em 1971, durante o período que precedeu a Guerra de Independência. Repare-se que, à época dos factos, o executado, que agora tinha 65 anos, contava apenas 23. E que, ao contrário de alguns julgamentos tardios de algozes nazis, o paradeiro e a identidade de Abdul Quader Molla foram sempre conhecidos ao longo de todos estes anos.
O fio condutor que explica e conecta o passado e o presente é o Jamaat-e-Islami, organização islâmica de que Abdul Quader Molla foi militante (e agora dirigente destacado) desde sempre. No Jamaat-e-Islami sempre se considerou que a religião (islâmica) era mais importante que a nacionalidade (bengali) para a definição das relações comunais no subcontinente indiano. Era em concordância com esses princípios, em 1971 o Jammat opunha-se ao movimento secessionista que no Bangladesh se opunha ao Paquistão. Na altura, Abdul Quader Molla terá sido um dos militantes responsáveis por uma repressão contra os independentistas e contra minorias religiosas (sobretudo hindus) que, mesmo as fontes mais prudentes, estimam ter causado entre 300 e 500.000 mortos civis, mais um morticínio que passou desapercebido no Ocidente.
Uma das fotografias mais significativas desse morticínio que agora parece regressar à actualidade política bangladeshi (acima, o autor é Rashid Talukder) reproduz de uma certa forma simbólica essa alheamento, porque a face inexpressiva no meio dos tijolos se assemelha à primeira vista a uma máscara descartada até nos apercebermos que aquilo foi um ser humano. Também os cautelosos 300.000 (há quem mencione 3 milhões de) mortos civis se tendem a dissolver nas muitas centenas de milhões que povoa(va)m o subcontinente indiano até nos apercebermos para comparação e naquela mesma região da comoção provocada pelos cerca de 200.000 mortos em consequência do tsunami de 26 de Dezembro de 2004.

05 dezembro 2013

LONDONABAD

Esclareça-se que o projecto de Richard Hooker fora apenas o de fotografar casualmente os utentes das paragens de autocarro de Londres. A fotografia acima é que não é reconhecidamente neutra e, conjugada com o título politicamente incorrecto que provocadoramente lhe atribui neste poste, bem poderia servir para um hipotético cartaz de campanha do BNP, o partido da extrema-direita racista britânica. Para concluir, há que explicar que -abad é sufixo indicativo de cidades de fundação muçulmana tanto na Índia (Ahmedabad, Faridabad, Allahabad) quanto no Paquistão (Faisalabad, Hyderabad, Ossama bin Laden foi morto quando escondido nos arredores de Abbottabad).

31 maio 2013

A EMANCIPAÇÃO DA ÍNDIA


O filme Gandhi inclui a cena marcante acima em que o protagonista é despejado sem qualquer dignidade de um comboio por insistir em viajar na 1º classe para a qual comprara o respectivo bilhete. A cena passar-se-á em 1893 na África do Sul e está cheio daquelas simplificações que ajudam a narrativa cinematográfica, incluindo o empregado negro admirado com a ousadia de Gandhi, o revisor bóer impermeável à argumentação, o passageiro snob ultrajado por aquela companhia. Na realidade, Gandhi ainda não estava autorizado a praticar advocacia na África do Sul (isso só viria a acontecer um ano depois), não há a certeza que Gandhi tenha sido atirado violentamente para o cais e, mais importante, quando reclamou, a companhia indemnizou-o com um bilhete para prosseguir a viagem no comboio seguinte… em 1ª classe.
Mas aquilo que não é óbvio no episódio e apenas se deduz dele, nomeadamente quando Gandhi reclama dizendo que viaja sempre em 1ª classe, é que aparentemente ele não se mostrará contrário a que haja uma estratificação social (não fossem as castas uma das marcas identificativas da sociedade indiana…), a injustiça que verdadeiramente o ferirá é a impossibilidade de lhe reconhecerem estatuto para exibir a sua distinção (apesar do seu fato ocidental…) e isso acontece apenas por uma questão de discriminação racial. Ora é esta combinação entre o entusiasmo pela cultura britânica e a ingenuidade perante os valores profundos dessa mesma cultura que melhor servirá de metáfora sobre o que considero ter sido o comportamento político adoptado pelas elites indianas antes e durante a Primeira Guerra Mundial.
Embora se pudessem identificar pelo menos duas facções entre os dirigentes do Congresso Nacional Indiano, com Gokhale a encabeçar a mais moderada e Tilak a mais radical, a mediana das atitudes do conjunto investiu no apoio a uma colaboração sem reservas com o Império durante a Primeira Guerra Mundial na espectativa de uma retribuição no fim: a autonomia, conhecida por Home Rule no idioma dos governantes, Swaraj no hindi dos governados. A espectativa não parecia descabida. Várias outras colónias britânicas haviam alcançado já esse estatuto, e eram agora conhecidos por Domínios. O Canadá em 1867, a Austrália em 1900, a Nova Zelândia e a Terranova em 1907, a África do Sul em 1910. Também a Irlanda se batia por ela e vi-la-ia a alcançar em 1922, embora por meios menos pacíficos…

As propostas de reforma apresentadas pelos britânicos em 1919, embora contivessem elementos de representação democrática, concedendo, por exemplo, o direito de voto a seis milhões e meio de indianos, o que equivaleria a cerca de 10% da população adulta masculina indiana à época, continuavam porém a concentrar o poder executivo nas mãos de um aparelho de funcionários que gravitava à volta dos Vice-reis britânicos que continuavam a ser nomeados por Londres – abaixo, dois deles, Lorde Reading (1921-26), à esquerda, e Lorde Willingdon (1931-36). Os indianos sentiram-se (creio eu que justamente) defraudados: não se tratava de um problema de direito de voto – na África do Sul só a minoria branca o tinha – era sobretudo uma questão de posse e exercício do poder – o 1º ministro sul-africano era Jan Smuts, um bóer não britânico...
A insatisfação indiana chocou-se com a intransigência britânica. As propostas que os segundos foram apresentando nos vinte anos seguintes apareciam desactualizadas pela radicalização das posições. Em 1937 o eleitorado indiano já contemplava trinta milhões de pessoas com direito a voto mas, em contraste, em 1939 o Vice-rei fez a Índia declarar guerra à Alemanha sem sequer ter consultado os dirigentes políticos indianos. Foi uma época em que, copiando Gandhi, os dirigentes já não se vestiam à ocidental (com excepções, como Mohammad Ali Jinnah). Os britânicos, para enfraquecer a oposição com que se defrontavam tentaram (e conseguiram) cindir o bloco nacionalista que os defrontava em linhas religiosas. O processo que conduziria à dolorosa independência da Índia (e do Paquistão) em 1947 estava lançado...

01 janeiro 2013

OS MOUNTBATTEN COM OS PROTAGONISTAS DA PARTIÇÃO DA ÍNDIA

Entre 1858 e 1947 houve 24 Vice-Reis da Índia Britânica. Lord Louis Mountbatten foi o último deles e ocupou o cargo por uns escassos 16 meses mas a maioria esmagadora das fotografias de Vice-Reis britânicos que agora aparecem disponíveis na internet são dele, muitas vezes acompanhado da mulher Edwina. Associadas a algumas, podem-se contar pequenas histórias particularmente interessantes.
Há uma em que o casal rodeia Muhammad Ali Jinnah, o dirigente da Liga Muçulmana, depois de mais uma sessão de conversações infrutíferas. Segundo o testemunho de Mountbatten, Jinnah estaria a contar que Edwina ficasse entre os dois homens na fotografia protocolar e preparou por isso um comentário cortês para a ocasião dizendo: Ah, uma rosa entre dois espinhos. As circunstâncias alteraram-se mas a frase escapou-se-lhe
Estas ocasiões protocolares eram boas demais para que os astutos políticos indianos não as aproveitassem. Este instantâneo - nota-se a sombra do flash do fotógrafo na túnica branca - capta o momento em que Gandhi se apoia no ombro da Vice Rainha da mesma forma que o costumava fazer com as suas sobrinhas em público. O gesto de Gandhi só pretende passar por espontâneo mas a expressão desconfortável de Edwina sê-lo-á realmente.
Uma das mais famosas fotografias do casal, com Jawaharlal Nehru, é de Henri Cartier-Bresson. A alegria cúmplice que Nehru partilha com Edwina (e de que o Vice-Rei parece alheado…) terá uma segunda leitura já que circulavam rumores – que se vieram a confirmar posteriormente… – que os dois estariam envolvidos num romance. Uma outra fotografia da mesma cena mostrando Pamela, a filha do casal, evidencia essa intenção…

29 maio 2012

OS «AMNISTIADOS»

Se recentemente havia aqui questionado o bom senso das considerações da Amnistia Internacional sobre a legalidade da operação que conduziu ao assassinato de Ossama Bin Laden, gostaria de voltar a um assunto associado a esse, sobre o qual a Amnistia ainda não se pronunciou mas onde, se calhar, já o devia ter feito…
Há cerca de uma semana foi notícia a condenação a 30 anos de prisão de um médico paquistanês chamado Shakil Afridi por ele ter ajudado à certificação da identidade de Bin Laden antes da operação que o liquidou. O facto do tribunal ter considerado o réu como um traidor explicará a dureza da pena. Segundo se pode ler na imprensa local em língua inglesa, o irmão do réu, que é advogado, queixa-se de não o ter podido acompanhar durante o julgamento, de ainda não ter tido acesso ao teor da sentença para poder começar a fundamentar sequer um recurso, de nem sequer ter podido estar ou comunicar com o réu. Apesar de ter sido amplamente noticiado local (acima) e internacionalmente, até hoje, nem no site da secção paquistanesa da Amnistia Internacional, nem no central da organização sediada em Londres (muito entretido com a Síria, com a Rússia e com o… Canadá) aparece qualquer referência àquele episódio. Ora não vale a pena iludir a questão, que na Amnistia também se conhecerá o poder da manipulação do mediatismo e sabe-se quanto o silêncio da organização a respeito de um prisioneiro tão simbólico quanto este se torna eloquente...– assim, até parece que há prisioneiros que estão mais aprisionados que os outros…
Há organizações que só se respeitam se se ativerem ao campo estrito dos princípios. Só assim se lhe aceitam patacoadas como a tal da legalidade da execução de Bin Laden. Agora, se a exigência for rigorosa, omissões tão óbvias e tão politicamente orientadas como esta podem retirar significativamente o prestígio que a Amnistia Internacional tenha adquirido…

18 agosto 2010

O NASCIMENTO DA ÍNDIA E DO PAQUISTÃO EM TRÊS FOTOGRAFIAS

Já aqui me referi algumas vezes a este assunto também conhecido como a Partição da Índia assim como o fiz em relação à realidade que existia antes de Agosto de 1947. Contudo, mais do que explicações e sendo a sociedade indiana uma sociedade intrinsecamente estratificada, gostaria de seleccionar três fotografias que mostrassem de forma sintética como cada uma das grandes classes sociais indianas terá reagido ao acontecimento.
Acima, a classe dirigente (Jinnah e Gandhi), ciente das suas responsabilidades, faz um esforço para mostrar uma cordialidade que não existe… Ao centro, a classe média dos funcionários, descobre em si um novo patriotismo em prol da sua futura pátria, o que leva a disputas livro a livro pela repartição do espólio de uma biblioteca… Em baixo, o povo saqueia e mata e milhões fogem. Retoque tipicamente indiano, os abutres também participam...