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13 junho 2024

AS ELEIÇÕES EM TRIESTE (MAS SÓ NA ZONA A)

(Republicação)
13 de Junho de 1949. Realizam-se eleições municipais no território livre de Trieste, região encravada entre a Itália e a Jugoslávia, mas na zona que era administrada pelos Aliados (Zona A). Trieste, cuja história do Século XX já aqui foi contada neste blogue. Na notícia do jornal, a vitória dos partidos italianos é apresentada como se eles se tivessem apresentado conjuntamente, o que não é verdade: os 63% que se mencionam resultam da adição da votação da Democracia Cristã (39%), Socialistas (6%), Neo-Fascistas (6%), Republicanos (5%), Liberais (5%), etc. De qualquer maneira, a maioria que exprimira a sua opção por uma futura reunião com a Itália era significativa, ainda que a eleição em si fosse meramente simbólica: a maioria das decisões administrativas pertenciam ao governo militar. Mas para os países ocidentais, a organização de eleições era um imperativo, na esperança que isso forçasse o padrão do comportamento dos ocupantes soviéticos, que nos países do Leste da Europa se actuasse da mesma forma. Mas não: é verdade que havia eleições, mas não livres. Quanto ao caso particular de Trieste, a situação veio a ficar resolvida em 1954 com a anexação da Zona A pela Itália e da Zona B pela Jugoslávia. Actualmente, os territórios que haviam pertencido a esta última Zona estão divididos, por sua vez, entre a Eslovénia e a Croácia.

04 junho 2024

OS ALIADOS ENTRAM EM ROMA

(Republicação)
4 de Junho de 1944. As tropas aliadas entram em Roma, evacuada pelos alemães, porque as derrotas militares a haviam tornado numa cidade defensivamente insustentável. Ao contrário de vários outros episódios do passado, desta vez Roma não foi directamente conquistada, embora tenha sido perdida pelos anteriores ocupantes. O video noticioso acima é o que se poderá esperar de uma produção de propaganda da época. Aparecem lá várias cenas que veremos reencenadas dali por quase três meses, quando do mesmo acontecer em Paris: a alegria das multidões, celebrando as unidades motorizadas que desfilam por áreas da cidade facilmente reconhecíveis, como o Coliseu ou a Fonte de Trevi (em Paris serão locais como a Torre Eiffel ou os Campos Elísios), também o ajuste de contas com os últimos colaboracionistas e os esforços (neste caso de Roma, mais esforçados que reais) de mostrar que houve militares da própria nacionalidade que também contribuíram para a conquista da sua capital. Há dois aspectos, porém, que não se virão a repetir. Por um lado, em Roma há a presença do Papa, figura que concita as atenções, especialmente numa hora tão solene e o video acima não se atreve a esquecer-se de Pio XII. Mas, mesmo com essa concorrência, o general americano Mark Clark não deixa de tratar da sua promoção, deixando-se fotografar junto a uma das placas nos arredores da cidade ou passeando-se por Roma de jipe, deslocando-se como um oficial subalterno no comando de um qualquer pelotão de reconhecimento do seu exército de 150.000 homens (também aparece no video). Ora em Paris não haverá nada disto, e não porque não houvesse por lá generais americanos de igual patente com aquela mesma sede de protagonismo de brincar aos conquistadores, como será o caso de George Patton. Mas Paris, não tendo Papa, tinha Charles de Gaulle, que funcionava como uma verdadeira esponja que chupava todo o protagonismo que pudesse existir à sua volta...

18 maio 2024

O FIM DA BATALHA DE MONTE CASSINO

(Republicação)
18 de Maio de 1944. Se aqui assinalámos há quatro meses o início da Batalha de Monte Cassino, é da mais elementar justiça assinalar o seu fim. E relembrar que, a meio da batalha e a cerca de uns 90 km para Sul, também a Natureza se quis associar ao exercício de destruição, com a erupção do Vesúvio. Mas tudo acaba por se tornar mais reconfortante com uma imagem actual daquelas mesmas paragens.

04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

29 março 2024

DIPLOMACIA DE «CASCA GROSSA»

29 de Março de 1924. Se as notícias do género da que acima se exibe ainda hoje são raras, e costumam ser protagonizadas por cavalgaduras como Donald Trump, por maioria de razão ainda eram mais raras há cem anos. E por isso merece este destaque. Em síntese, os monarcas romenos (Fernando I e Maria) haviam manifestado a intenção de realizar uma viagem por vários países europeus. Aparentemente, a Itália seria um desses países, e Benito Mussolini, armado em espertalhão (o jornal prefere a expressão «sem papas na língua»), aproveitara a ocasião para cobrar publicamente uma dívida de 113 milhões de libras que a Roménia devia à Itália. Lendo o último parágrafo da notícia percebe-se para onde pendem as simpatias do jornalista: segundo ele, a Roménia é que se devia abster de «um dispêndio enorme de dinheiro para a viagem, quando o país não tem com que pagar o que deve aos seus credores». É o tipo de argumento de quem não percebe nada de nada e que continua tão despropositado quanto estúpido ao fim de cem anos: actualizando o valor da dívida em causa, a que Mussolini pressionava publicamente os romenos a pagarem, estaríamos em presença de mais de € 7.300 milhões em valores de 2024, o que equivaleria a cerca de mil vezes as despesas incorridas com qualquer viagem real. Para além deste despropósito, as simpatias do jornalista até podiam ter ido para os romenos e para o rei Fernando I, que até era neto da nossa rainha D. Maria II. Mas não. Percebe-se perfeitamente que esta notícia nascera em Roma e o autor da notícia acima nem percebeu a envolvente, limitou-se a publicá-la em português.

18 março 2024

A ERUPÇÃO DO VESÚVIO EM PLENA GUERRA

(Republicação)
18 de Março de 1944. Em Itália e em plena Segunda Guerra Mundial, apesar da destruição da frente de batalha passar apenas a 90 km dali, em Monte Cassino, a Natureza, na sua suprema indiferença, resolve exibir-se, accionando o Vesúvio, que entra em erupção. Aos beligerantes resta-lhes contemplar impotentes os tremendos poderes destrutivos - mas neutrais - da Natureza.

17 janeiro 2024

A BATALHA DE MONTE CASSINO

(Republicação)
17 de Janeiro de 1944. Começa a Batalha de Monte Cassino. Virá a constituir a batalha de referência da campanha que os Aliados travarão pela conquista de Itália durante a Segunda Guerra Mundial. O Monte, com um pouco mais de 500 metros de altitude e situado a uns 130 km a sudeste de Roma e a uns 80 km a norte de Nápoles, é encimado pela Abadia desse nome (acima, depois de destruída pelos bombardeamentos aliados), o mosteiro de origem daquela ordem, fundada em 529. Por outro lado, Monte Cassino é também um ponto táctico notável, cujo controlo permite o estabelecimento de uma linha defensiva dominando as alturas, criando uma barreira no centro da península italiana. A sua posse é decisiva para que essa barreira se possa conservar e, assim, Monte Cassino pode ser considerado como o ferrolho de tal dispositivo. Em princípios de 1944 os alemães detinham-no, e os Aliados queriam-nos desalojar. Nos quatro meses que se vão seguir a 17 de Janeiro de 1944 haverá quatro batalhas para desalojar os alemães daquela posição. A multinacionalidade das tropas atacantes caracterizará os combates: envolverá britânicos e americanos, mas também neozelandeses, indianos, magrebinos franceses, canadianos e polacos. A posição só virá a cair em meados de Maio após ter causado 55.000 baixas entre as forças aliadas. A condução dos combates ainda hoje é um assunto controverso, como se pode deduzir pelo subtítulo do livro abaixo, fortemente crítico do general (norte-americano) Mark Wayne Clarke. Controvérsias essas que, como é costume, são depuradas na página a ele dedicada na wikipedia.

11 janeiro 2024

A EXECUÇÃO DOS DIGNITÁRIOS FASCISTAS QUE HAVIAM DERRUBADO MUSSOLINI

(Republicação)
11 de Janeiro de 1944. Os jornais anunciam o fuzilamento de cinco dignitários fascistas que haviam votado pela deposição de Mussolini numa célebre reunião do Grande Conselho Fascista que tivera lugar a 24 de Julho de 1943. Nesses seis meses, a Itália concluíra um armistício com os Aliados que a ocupavam em parte (a Sul), fora ocupada pelos alemães na parte restante e acabara declarando guerra à antiga aliada Alemanha. Entretanto, Mussolini, que fora preso em Julho pelas novas autoridades italianas, fora libertado em Setembro pelos alemães e fundara um governo alternativo no Norte do país. Nesse frenesim houve quem tivesse sido apanhado do lado errado da frente de combate, o que acontecera àqueles cinco dignitários, que terão abusado da sorte em tempos incertos. Ciano (genro de Mussolini), De Bono, Pareschi, Gottardi e Marinelli foram julgados e condenados à morte num julgamento que durou dois dias. As execuções tiveram lugar 48 horas depois, no polígono de tiro do forte de San Zeno em Verona. É mais do que significativo que quem as anuncia é a agência noticiosa alemã DNB.

23 setembro 2023

A CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA SOCIAL ITALIANA

23 de Setembro de 1943. Benito Mussolini fora derrubado dois meses antes. O governo italiano que lhe sucedera rendera-se oficialmente aos Aliados duas semanas antes. Os alemães haviam ocupado o país e haviam resgatado Mussolini uma semana e meia antes. Este último fora instado pelos seus libertadores a constituir um novo governo fascista para a Itália que eles controlavam (ver mapa). O novo governo de Mussolini não passará de um embuste, uma instituição política que só subsistirá por se encontrar na órbita da Alemanha. Exemplo disso, embora a notícia acima apareça como emitida da capital, Roma, a maioria dos ministros e ministérios que Mussolini acabara de nomear irão alojar-se na pequena cidade nortenha de Salò, que emprestará o seu nome à designação oficiosa mais conhecida do novo regime: República de Salò.

12 setembro 2023

O RESGATE DE MUSSOLINI, OS FACTOS E OS FEITOS

(Republicação)
12 de Setembro de 1943. Uma operação aerotransportada de paraquedistas alemães liberta o antigo Duce Benito Mussolini do cativeiro em que fora colocado pelas autoridades italianas. A operação terá tido significativo efeito na moral alemã mas terá poucas consequências práticas: não houve um ressurgimento da resistência italiana aos Aliados. Mussolini foi colocado à frente de um estado fantoche sob uma tutela alemã não disfarçada. Mas não são as circunstâncias nem as consequências da Operação Carvalho que aqui se pretende desenvolver. Hoje, quando se completam precisamente 75 anos sobre a sua realização.
A operação foi concebida e comandada por um major Otto-Harald Mors (na fotografia acima, ao lado de Benito Mussolini) e pelos seus paraquedistas. E, no entanto, quem pensa que sabe alguma coisa sobre o assunto, concebe-a protagonizada por Otto Skorzeny das SS (fotografia abaixo).
Na verdade, aquilo em que Skorzeny se revelou muito superior a Mors foi em descaramento, imodéstia e instinto para aparecer na fotografia, nomeadamente insistindo em acompanhar Mussolini (um risco para a segurança do resgatado!) para se exibir depois junto de Hitler. A condecoração atribuída a Skorzeny foi mais elevada do que a atribuída a Mors. A acrescer a isso, depois da guerra, Skorzeny continuou a insistir em contar a proeza à sua maneira (abaixo, o esboço foi desenhado anos depois da acção ter tido lugar). Há a História e há estes romances em que os heróis - do estilo de Skorzeny - são aqueles que têm mais jeito para contar como foram heróis...

09 setembro 2023

A SAÍDA DE ITÁLIA DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, A OCUPAÇÃO ALEMÃ

Em 9 de Setembro de 1943, o comando da Wehrmacht em Itália, suspeitando há muito de uma eventual traição italiana, com a palavra de código Achse desencadeou a Operação Alarico, que havia sido projectada muito de antemão, para a neutralização de todas as unidades das Forças Armadas italianas. Um pouco depois, a Rádio dos Aliados anunciava, pela voz do General Eisenhower, que havia sido firmado um Armistício entre eles e o governo italiano do Marechal Pietro Badoglio. Foi o fim sórdido de uma Aliança que começara grandiloquente, bem ao gosto do fascismo italiano: o denominado Pacto de Aço que fora firmado pelos dois países em Maio de 1939. E vale a pena mencionar como foi variada a reacção das diferentes unidades italianas estacionadas no exterior quando foram desarmadas: em França não opuseram qualquer resistência, mas na Jugoslávia houve grupos de soldados que preferiram desertar e aderir aos resistentes de Tito, enquanto na Sardenha, pelo contrário, preferiram continuar a luta ao lado dos alemães. A lista do material assim adquirido pelos alemães impressiona, mesmo depois de três anos de guerra: 1.250.000 espingardas, 38.000 metralhadoras, 10.000 canhões, 1.000 carros de combate, 4.500 aviões, 290.000 toneladas de munições, 15.500 camiões de transporte, 196.000 toneladas de minério de ferro, etc. E o comentário a esse respeito proferido pelo General Jodl parece-me muito mais sincero do qualquer das proclamações da época do Pacto de Aço: «A abundância voltou por uns tempos à Wehrmacht. Foi o único serviço que a Itália alguma vez nos prestou»…
Nas fotografias, blindado e tropas das SS diante da catedral de Milão (acima) e tropas paraquedistas na praça de São Pedro em Roma (abaixo)

25 julho 2023

A QUEDA DO VERDADEIRO FASCISMO

(Republicação)
O verdadeiro fascismo começou a cair ao fim de uma tarde quente de Verão (24 de Julho) de 1943, quando se reuniu num palácio de Roma o Grande Conselho da Revolução Nacional Fascista. E, para começar, aquela reunião era um acontecimento interessante na ordem dos acontecimentos de uma Itália que perfizera recentemente o seu terceiro ano de guerra, precisamente porque havia quatro anos que o Grande Conselho não se reunia.

Mesmo que o Grande Conselho não fosse uma espécie de micro-parlamento onde se aprovassem moções, como Mussolini expressamente precisara quando o criara vinte anos antes, naquele dia, ele e o seu regime caíram por causa da aprovação de uma moção ali votada e aprovada, onde se exigia a restauração imediata de todas as funções do Estado e convidando o chefe do governo – o Duce – a pedir ao rei que assumisse a iniciativa suprema tomando o comando de todas as Forças Armadas.

O documento é mais importante pelo que omite – o prosseguimento da guerra, o papel de Mussolini e do partido fascista na condução dos destinos de Itália ou a aliança com a Alemanha – do que por aquilo que contém. Mas é esta versão de condenação cuidadosa das decisões de Mussolini que serve de detonador às movimentações de um grupo de conspiradores situados à volta do rei. A versão era tão aguada que Mussolini nem se acautelou quanto às consequências...

No dia seguinte, Domingo 25 de Julho, Mussolini até foi trabalhar e chegou a receber o embaixador japonês para uma reunião de trabalho. Só veio a ser preso ao fim da tarde quando se apresentou para uma audiência – pedida por si! - com o rei Vítor Manuel III. Foi ali que ouviu do próprio rei que este já havia entretanto incumbido o general Badoglio de formar um novo governo. O objectivo evidente do novo governo seria o de extrair a Itália da guerra, assinando a paz com os Aliados.

A 8 de Setembro conseguira-o, depois de um mês de promessas solenes de Badoglio aos alemães sobre a solidez da aliança entre os dois países… Quatro dias depois, Mussolini era resgatado pelos mesmos alemães da estância de turismo onde estava detido. Viria a ser constituída, em 23 de Setembro, a República Social Italiana no Norte de Itália, uma versão ridícula de um Estado fascista, completamente na dependência da Alemanha, que pretendia que quase nada se passara naqueles dois meses.

Mas houve ainda tempo para que o fascismo renascido e amparado se desforrasse dalguns daqueles membros do Grande Conselho que, em 24 de Julho, haviam votado favoravelmente a famosa moção que conduzira à destituição do Duce. Julgados num processo relâmpago que durou 48 horas (8 e 9 de Janeiro), os antigos conselheiros Ciano, De Bono, Pareschi, Gottardi e Marinelli foram condenados à morte e fuzilados pelas costas a 11 de Janeiro de 1944, no polígono de tiro do Forte de San Zeno.

Emblemático da incompetência geral que as Forças Armadas italianas mostraram ao longo de toda a Segunda Guerra Mundial, o pelotão de fuzilamento constituído era tão desajeitado que teve de atirar por uma segunda vez sobre as vítimas enquanto estas agonizavam de dor…

19 julho 2023

O BOMBARDEAMENTO DE ROMA

(Republicação)
19 de Julho de 1943. Há 80 anos Roma era fortemente bombardeada pelos Aliados. Entre as várias razões pelas quais a cidade permanecera relativamente incólume durante os quase quatro primeiros anos que então já levava a Segunda Guerra Mundial - era apenas o segundo bombardeamento que sofria - destacar-se-ia, decerto, o seu simbolismo como capital da cristandade. A acrescer a esse aspecto mais espiritual, colocava-se o mais concreto de que uma pequena parcela de Roma (44 hectares) que até era um país neutral: o Vaticano. A decisão de bombardear Roma só fora tomada pelos altos comandos aliados depois de ponderadas hesitações. Mas a sua situação central na península italiana, como nódulo das ligações rodoviárias e ferroviárias entre o Norte e o Sul de Itália e ainda os seus aeroportos (Littorio, Ciampino) tornavam-na num objectivo táctico indispensável de atingir para prejudicar a logística inimiga (especialmente a alemã), ainda para mais quando se combatia no Sul, depois dos recentes desembarques aliados na Sicília. Dessa vez foram catorze as esquadrilhas de bombardeiros da USAAF a lançar cerca de mil toneladas de bombas sobre a cidade milenar. Como era constante durante a época, a precisão do bombardeamento... não teve nada de preciso. Ficaram destruídos incontáveis edifícios civis, incluindo a Basílica de São Lourenço Fora de Muros. O contagem dos mortos e feridos provocados pelas bombas varia desde um mínimo de 719 mortos e 1.659 feridos até um máximo de cerca de 3.000 mortos e 11.000 feridos. Aproveitando o hiato deixado por um regime fascista em vias de se desagregar (e Benito Mussolini estava, nesse dia, longe de Roma, num encontro com Adolf Hitler), o papa Pio XII preencheu o vácuo político assumindo as suas funções pastorais como bispo de Roma, visitando e confortando as populações mais atingidas. Na imagem acima vêmo-lo recitando o «De Profundis». Em contraste, a limousine de Vítor Emanuel III, o rei, foi vaiada e apedrejada quando da sua visita aos bairros afectados.

10 julho 2023

A INVASÃO DA SICÍLIA

(Republicação aumentada)
10 de Julho de 1943. Há precisamente 80 anos os Aliados desencadeavam o desembarque e a invasão da Sicília. No mapa acima, os norte-americanos são representados a azul-claro, os britânicos a roxo; do outro lado, o dispositivo italiano está representado a cor de laranja, as unidades alemãs presentes na ilha, a cor de rosa. Designada globalmente pelo nome de Husky, foi cronologicamente a segunda grande operação anfíbia da Segunda Guerra Mundial na Europa, depois dos desembarques no Norte de África (Operação Torch). Mais uma vez, como acontecera com a Operação Villain no Norte de África, quis-se reforçar a componente anfíbia do desembarque com o apoio em profundidade de unidades aerotransportadas. E, mais uma vez, apesar dos meios se terem multiplicado nesses oito meses, os resultados foram medíocres. Por causa disso, hoje não se fala praticamente do assunto, e daí a pertinência de aqui o evocar. Realizaram-se quatro operações, duas delas norte-americanas e duas britânicas. As duas primeiras têm a virtualidade de não aparecerem referidas sequer na Wikipedia, nem mesmo na página dedicada à própria 82.ª Divisão que as realizou(!). Mas, noutros locais, pode-se descobrir algum detalhe do que aconteceu, num dos casos os 144 aviões de transporte foram vítimas do fogo amigo da própria frota que apoiava o desembarque e que os confundiu com bombardeiros inimigos, abatendo 16% dos aviões que transportavam os paraquedistas. A formação das esquadrilhas desfez-se, e não terá sido por culpa dos passageiros que apenas 25% dos efectivos previstos se puderam depois encontrar sobre o objectivo. Quanto ao que aconteceu às unidades aerotransportadas britânicas, e ao contrário da evasiva americana, até existem páginas na Wikipedia que são dedicadas à Operação Fustian (envolvendo paraquedistas) e Ladbroke (com tropas lançadas em planadores). Os números relativos a esta última são eloquentes: dos 147 planadores que foram largados para atingir os objectivos no interior da Sicília, 47% foram largadas demasiado cedo e acabaram por cair no mar e apenas 8% atingiram as proximidades dos objectivos para que haviam sido destinados. Não é difícil perceber que, ao preceder-se à avaliação do desempenho das operações aerotransportadas durante a Operação Husky, se concluísse e se formasse uma facção a favor de que se deixasse de investir nelas, que se haviam revelado extremamente caras tanto em termos humanos quanto materiais, e tudo isso para a obtenção de resultados medíocres. Era a opinião do próprio Eisenhower, mas não era a opinião do seu superior, o chefe de Estado Maior George Marshall em Washington DC, que via naquelas novas formações o elemento de propaganda de tropas de elite de que qualquer exército em guerra não pode prescindir. Qual a utilidade das verdadeiras operações aerotransportadas, separar essa utilidade da existência de tropas paraquedistas como unidades de elite dos exércitos, são assuntos que ainda hoje se discutem com muito pathos e pouco logos. Mais do que apenas esta controvérsia táctica, para uma descrição dedicada à invasão:

24 junho 2023

SILVIO «BUNGA BUNGA» BERLUSCONI

(Republicação adaptada por causa do falecimento recente do protagonista)
24 de Junho de 2013. Há precisamente dez anos, um tribunal de Milão condenava o antigo primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi (recém falecido) a sete anos de prisão, assim como à sua inabilitação perpétua para o exercício de cargos públicos. O que dava interesse ao desfecho é que se tratava da primeira condenação de Berlusconi, depois de uma complicada e arrastada litigância de décadas, contando-se os processos implicando Berlusconi por mais de uma trintena! Mas ainda não será dessa vez: desses sete anos de prisão, Berlusconi cumpriu zero dias. A sua inabilitação e a sua condenação foram anuladas por uma sentença de um tribunal da Relação pouco mais de um ano depois. Em contraste, parece que a José Sócrates, cujo processo se arrasta publicamente desde há oito anos e meio(!), nem irá ser preciso recorrer, porque nem condenado irá ser...

12 junho 2023

COITADINHO QUE DEUS LÁ TEM...

O tratamento informativo que no caso acima assistimos, a respeito da morte de Silvio Berlusconi, é mais um dos episódios da hipocrisia costumeira dos obituários que é, ao mesmo tempo, tão inaceitável quanto insuportável. O título, «Silvio Berlusconi (1936-2023), o artista que fez sonhar a Itália», é apenas uma parcela da sua carreira. A arte do artista teve facetas bem negras. Ao lado do sonho e entre as acusações que o obituário trivializa quando as menciona, contam-se as de «abuso de poder, incitamento à prostituição e sexo com uma menor» e ainda as de «fraude fiscal, lavagem de dinheiro, corrupção activa e passiva, perjúrio, difamação, extorsão, também por lá se encontram acordos com a Máfia». Como se depreende, estou a citar o próprio obituário. A repórter que dá a notícia, ou não percebe a conteúdo e a gravidade do que escreveu ou então está a tentar insultar-me a inteligência. Com este perfil e se lá chegar, a jornalista Sofia Lorena é a pessoa ideal para escrever o obituário de José Sócrates. O homem morre e vai para o céu porque o amigo Carlos Santos Silva lhe empresta o lugar...

11 junho 2023

A CAPITULAÇÃO DE PANTELÁRIA

(Republicação)
Situada entre África e a Europa, constituindo um monte vulcânico que sobressai 836 metros acima do nível do mar e reputada como inconquistável, a ilha de Pantelária, com os seus 83 km²,era uma cópia, em escala menor e em sentido táctico contrário, à ilha de Malta. Os Aliados decidiram-se a conquistá-la ainda antes do assalto à Sicília. A guarnição da ilha, cifrada em cerca de 11.800 soldados dos quais 78 são alemães, superava a população civil que rondaria os 10.000 habitantes. A intenção dos Aliados foi desgastá-los através de bombardeamentos aéreos contínuos de saturação. Para o efeito, dedicou-se-lhes dois esquadrões de B-25, três esquadrões de B-26, quatro esquadrões de B-17. 11 de Junho de 1943. Quando a frota de desembarque, transportando a 1ª Divisão de Infantaria Britânica do general Walter Clutterbuck, se apresenta ao largo da ilha, esta sofrera um tratamento continuado durante os doze dias precedentes. Nesse dia de há precisamente 80 anos, a ilha aparecia envolta numa coluna de fumo como se o seu vulcão estivesse activo. O destroyer HMS Laforey, uma das unidades navais ocupadas a cobrir o desembarque das lanchas com o fogo da sua artilharia, assinala uma bandeira branca. A chegada dos britânicos a terra confirma as intenções italianas: o almirante Gino Pavesi que comanda a guarnição local está disposto a assinar a sua rendição, tudo muito célere, a questão estará terminada por volta da hora de almoço. Tanto assim, que a rendição de Pantelária ainda pôde ser despachada nas notícias desse dia, como se comprova pela edição abaixo do vespertino Diário de Lisboa. Os atacantes haviam sofrido apenas uma baixa, pormenor acintoso pela descrição de como ocorrera: o cabo Sanderson do 2º Batalhão dos Sherwood Foresters, fora atingido pelo coice de uma mula... Porém, o ridículo tem percursos sinuosos. Aos italianos, faltara tanto o empenho em resistir quanto o empenho em deixarem-se matar. Protegidos pelos abrigos escavados dentro da montanha, apesar da intensidade e da meticulosidade dos bombardeamentos, as baixas italianas militares e civis haviam-se ficado pelas 58, ou seja 5 por cada dia de bombardeamento e um outro disparate se se comparar a tonelagem das bombas despejadas (6.200) e os efeitos. Porém, os relatórios da Força Aérea aliada atribuíram vaidosamente à sua actividade o comportamento acobardado dos defensores. Nem mesmo o ridículo episódio que acontecerá dois dias depois, quando a guarnição de uma outra ilha italiana próxima, a de Lampedusa, se renderá a um aviador britânico que ali aterrará em catástrofe, conquistador involuntário de uma ilha, abrirá os olhos ao estado-maior aliado sobre o que acontecera: os italianos haviam simplesmente abdicado de combater, fosse por um lado ou outro dos beligerantes da Segunda Guerra Mundial. O que acontecera era uma predisposição da população italiana e não uma consequência dos bombardeamentos. A sobrestimação quanto ao impacto que os bombardeamentos aéreos poderão ter no moral dos defensores ir-lhes-á custar muito caro no futuro, como no caso de Monte Cassino.

06 abril 2023

«PARA AS GERAÇÕES QUE SURGEM, A ORDEM, A GERARQUIA (sic) E A DISCIPLINA SÃO MAIS FASCINADORAS DO QUE A LIBERDADE»

6 de Abril de 1923. Se há algo que caracteriza a atitude política de Benito Mussolini é a sua capacidade de produzir declarações «sensacionais». Tão sensacionais que transbordam fronteiras e fazem cabeçalhos por todo o lado onde são transcritas. Há cem anos, o Duce antevia a chegada de «gerações» que prefeririam «a ordem, a gerarquia (sic) e a disciplina» à liberdade. Cem anos depois atravessamos um novo ciclo que, de um certo modo, reproduz estas mesmas hesitações colectivas.

30 março 2023

OS DOIS HINOS ANTAGÓNICOS DO PASSADO DA ITÁLIA

Acima «Giovinezza» (juventude) era o hino do partido fascista e foi um espécie de hino nacional associado durante a vigência desse regime, entre 1924 e 1943. Depois tornou-se o hino oficial da títere República Social Italiana (1943-45) que se sucedeu no Norte de Itália à queda do fascismo. Em contraste e abaixo, «Bella Ciao» (adeus miúda) foi adoptada como hino pelos resistentes italianos (onde a presença comunista era significativa, senão mesmo predominante), resistência a essa mesma República Social Italiana e à ocupação alemã a partir daquela mesma altura do colapso do fascismo, em 1943. Este último é muito mais conhecido do que aquele, mas os dois em conjunto representam um concepção do passado antagónico da Itália de há 80 anos. E explicam o significado do acolhimento hostil à primeira-ministra Giorgia Meloni aqui há duas semanas, num congresso sindical, em que alguns dos presentes irromperam a cantar Bella Ciao antes de ela começar a sua intervenção.

06 fevereiro 2023

A ÚLTIMA REMODELAÇÃO MINISTERIAL DE MUSSOLINI ou «A DEMISSÃO DE CIANO»

6 de Fevereiro de 1943. Na Itália em guerra, Benito Mussolini, procede a uma remodelação ministerial em grande. Substitui (quase*) todos os ministros. No fundo, o Duce apreciava estes espectaculares render da guarda, que eram uma oportunidade política para a demonstração do seu poder pessoal quase absoluto no regime fascista. O ministro das Obras Públicas, Giuseppe Gorla, descobriu o que lhe acontecera quando a sua carruagem-salão especial foi desatrelada do comboio de Palermo, a meio da visita que estava a efectuar à Sicília. Mas a cena principal ocorrera no dia anterior, por ocasião da reunião que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Galeazzo Ciano tivera com o Duce (que, por sinal, era seu sogro). Quando este último perguntou ao genro se lhe agradaria ser nomeado governador da Albânia, Ciano, que já anteciparia a demissão depois de quase sete anos no cargo, respondeu que preferiria a embaixada junto do Vaticano, colocação que o faria ficar por Roma. Mussolini começa por concordar, para depois se arrepender, mas quando Ciano já se movimentara para obter o agrément das autoridades pontifícias. Ficou assim, porque reverter a decisão, tornar-se-ia numa desfeita para o Papa Pio XII. Por estes dias de há oitenta anos, mais do que a remodelação governamental em Itália, o que concentrava a atenção dos jornalistas (abaixo) era o significado desta nova colocação do genro do Duce. Se o afastamento de Ciano do Palácio Chigi (o ministério dos Negócios Estrangeiros italiano) satisfazia os aliados alemães, a sua nova colocação no Vaticano, terreno de contactos por excelência inquietava-os e prestava-se a imensas especulações quanto a uma inflexão da política externa italiana.
* Sobreviveu apenas o da Agricultura, Carlo Pareschi.