17 janeiro 2007

AS SOLUÇÕES DE UM "ESPECIALISTA"

Em 9 de Setembro de 1943, a o Comando da Wehrmacht* em Itália, suspeitando há muito de uma eventual traição italiana, com a palavra de código Achse desencadeou a Operação Alarico, que havia sido projectada muito de antemão, para a neutralização de todas as unidades das Forças Armadas italianas. Um pouco depois, a Rádio dos Aliados anunciava, pela voz do General Eisenhower, que havia sido firmado um Armistício entre eles e o governo italiano do Marechal Pietro Badoglio. Foi o fim sórdido de uma Aliança que começara grandiloquente, bem ao gosto do fascismo italiano: o Pacto de Aço (firmado em Maio de 1939). E vale a pena mencionar como foi variada a reacção das diferentes unidades italianas estacionadas no exterior quando foram desarmadas: em França não opuseram qualquer resistência, mas na Jugoslávia houve grupos de soldados que preferiram desertar e aderir aos resistentes de Tito, enquanto na Sardenha, pelo contrário, preferiram continuar a luta ao lado dos alemães. A lista do material assim adquirido pelos alemães impressiona, mesmo depois de três anos de guerra: 1.250.000 espingardas, 38.000 metralhadoras, 10.000 canhões, 1.000 carros de combate, 4.500 aviões, 290.000 toneladas de munições, 15.500 camiões de transporte, 196.000 toneladas de minério de ferro, etc. E o comentário a esse respeito proferido pelo General Jodl parece-me muito mais sincero do qualquer das proclamações da época do Pacto de Aço: A abundância voltou por uns tempos à Wehrmacht. Foi o único serviço que a Itália alguma vez nos prestou… A história multi-milenar das relações ítalo-germânicas já teve momentos sofríveis, outros momentos maus e… momentos ainda piores. Houve a quase coincidência temporal da concretização das respectivas unidades nacionais, mas recorde-se que não havia qualquer interesse na Alemanha para que a italiana se realizasse (1861), nem, reciprocamente, os italianos se entusiasmaram por aí além – muito pelo contrário - com a criação do II Reich alemão (1871). A grande fronteira natural da cordilheira dos Alpes separa-os. Quando a Alemanha se contou entre os promotores mais entusiasmados da constituição de uma moeda única europeia, para cuja adesão se impunha aos países interessados severos critérios de disciplina orçamental, não se estava a contar particularmente com a adesão italiana nem, já agora, dos outros países mediterrânicos como Portugal, a Espanha ou a Grécia. Preocupante era a hipótese da Bélgica não poder aderir ao Euro porque nunca conseguiria satisfazer um dos critérios inicialmente estabelecidos: que o valor da dívida pública nacional em proporção ao do seu PIB não ultrapassasse um determinado valor. Mesmo para leigos e ingénuos desde que atentos, o conteúdo exclusivamente político da constituição da moeda única tornou-se facilmente perceptível quando esse critério, que excluiria liminarmente a Bélgica da adesão, foi discretamente abandonado. E depois seguiu-se a fase em que os países mediterrânicos perceberam a mensagem inclusa e como que num lusitano Ah, ele é isso?..., partiram determinadamente para o cumprimento escrupuloso dos critérios de adesão ao Euro nem que para isso tivessem que faralhar as Contas Públicas… E conseguiram-no. E agora estão (estamos) a suportar o preço dessa decisão. E quando altos responsáveis italianos – os que têm sido mais expansivos quanto a propostas para o retorno às suas antigas moedas nacionais - sugerem o abandono do Euro, nem devem suspeitar do contentamento com que as suas palavras são ouvidas a Norte dos Alpes por aqueles que compartilham com o General Jodl o apreço pelos seus antigos aliados… Aqui em Portugal, mais tímidos e comedidos, a ideia de que Portugal possa sair da zona do Euro ainda só circula pela blogosfera a partir do teclado de Pedro Arroja… Embora possa deixar intrigado quem a lê… Da forma que está apresentada, é um daqueles exemplos clássicos do que seria uma boa ideia, se se considerasse apenas a envolvente técnica da questão. Mas há várias, incluindo – e destacando-se - a política. É que se não fosse ela, e só para exemplo, o Euro começaria por nem precisar de se chamar Euro, mas apenas Marco Europeu, em referência à divisa da economia do país que lhe confere a reputação… Evidentemente, isso não acontece. Encarar estes problemas olhando-os com uma visão demasiado concentrada pode dar origem a soluções que podem parecer originais, mas que são raramente exequíveis. Tanto, que acabam por nem ser para levar a sério… Posso exemplificar, usando mesmo um precedente ilustre do general Douglas MacArthur, quando pretendeu resolver o problema da Guerra da Coreia empregando armamento nuclear. Tecnicamente até teria a sua razão e a mesma solução poder-se-ia pôr sempre que os Estados Unidos tivessem uma contrariedade nas lutas de contra-subversão em que se envolvem. Mesmo agora, no Iraque, o emprego de uma ou várias bombas nucleares tácticas imporiam um certo respeitinho entre xiitas e sunitas, e entre iranianos e sírios… É uma solução tão tecnicamente possível e tão politicamente absurda quanto a da saída de Portugal da zona do Euro… O problema, se calhar, estará em nós quando tendemos a levar uma delas a sério
* Forças Armadas alemãs

1 comentário:

  1. As soluções de Pedro Arroja fazem-me lembrar o Gato Fedorento… sem humor, o que é, no mínimo, lamentável!!!
    Humor e inteligência costumam andar de mãos dadas...

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