4 de Maio de 1964. No New York Times (acima, à esquerda, clique em cima da imagem para a ampliar e poder ler) e no Diário de Lisboa do dia seguinte (embora esta de forma mais sucinta) dá-se conta do agravamento da situação militar na colónia britânica de Aden, no Iémen do Sul. Já aqui neste blogue se falou desta guerra esquecida. E também já aqui se mencionou a capacidade britânica de disfarçar pela semântica e por uma atitude política distanciada - a famosa fleuma britânica - da gravidade das situações em que aquele país se envolve. No caso da nomenclatura, volto a lembrar aquela constante de que as guerras coloniais de libertação que envolveram as colónias britânicas nunca se chamaram... guerras coloniais: esta era uma insurgência (abaixo), na Palestina fora outra insurgência, na Malásia uma emergência, em Chipre outra emergência, no Quénia uma revolta (uprising). Em suma, os britânicos nunca travaram nenhuma guerra colonial e por isso, ao contrário de franceses, portugueses ou holandeses, eles nunca perderam nenhuma guerra colonial. Esse discurso político não é lá muito compatível com os relatos da actividade militar porque, não tendo havido guerras, torna-se difícil explicar porque é que terá havido campanhas e operações militares, como se pode ler abaixo... Quanto à famosa fleuma britânica, ela está patente no desprendimento constante da notícia do Diário de Lisboa, a disponibilidade veiculada pelo jornal londrino Times para que os britânicos abandonassem Aden e o Iémen do Sul. Era ainda mais uma maneira de desviar atenções daquilo que estava verdadeiramente em disputa. É que as guerras coloniais não se travam apenas para manter a autoridade política nas colónias, as potências coloniais também as travam para gerirem o processo de transferência de poderes e o futuro regime do novo país independente. Era o que os britânicos pretendiam para o Iémen do Sul, e que hoje se sabe, então guardado para dali a três anos e meio de distância no futuro, que os britânicos falharam redondamente. (Já aqui me referi mais longamente no Herdeiro de Aécio a esta guerra colonial com outro nome)
Mostrar mensagens com a etiqueta Iémen. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Iémen. Mostrar todas as mensagens
04 maio 2024
25 setembro 2022
A NOTÍCIA SOBRE A MORTE DO REI FOI MANIFESTAMENTE EXAGERADA
25 de Setembro de 1962. Em Sanaa, capital do Iémen (país cuja localização escaparia à grande maioria dos leitores do Diário de Lisboa acima), deu-se um golpe de Estado, que terminara com a morte do recém entronizado monarca Muhammad al-Badr e a proclamação da república. Veio-se depois a saber - acima a edição do jornal dois depois - que o golpe se revestira de alguns daqueles aspectos de malandrice traidora que estes episódios costumam conter: quem encabeçara o golpe fora o comandante da própria guarda real e o processo de tomada do poder culminara num bombardeamento de artilharia do palácio real, palácio que ficara em tal estado que os revoltosos presumiam que o rei morrera, soterrado no entulho... Contudo, como se viria depois a descobrir e citando Mark Twain, «a notícia da morte do rei fora manifestamente exagerada»... O monarca escapara, o anúncio da sua morte terá sido um expediente dos revoltosos para atenuar a resistência que enfrentavam, só que a difusão da notícia lhes escapara ao controlo. Essa notícia da pretensa morte do rei resultara no imediato, mas a história está muito longe do fim: seguir-se-á uma guerra civil que perdurará por oito anos (1962-70). Quanto à precocidade do anúncio da morte do rei, ele juntar-se-ia a uma enorme colecção de asneiras idênticas, asneiras factuais de um género que só pessoas com o perfil do actual provedor do Público têm o descaramento de tentar justificar.
Etiquetas:
60º Aniversário,
Iémen,
Informação
12 outubro 2020
O ATENTADO CONTRA O USS COLE
12 de Outubro de 2000. Um navio de guerra norte-americano, o destróier USS Cole, é atacado por um comando suicida embarcado, que se fez detonar junto ao navio, quando este fazia uma escala técnica no porto iemenita de Áden. A explosão provocou 17 mortos e 39 feridos numa guarnição (teórica) de 338. Claro que a operação se revestiu de muito mais impacto do ponto de vista político do que do militar: o inimigo que reivindicava o atentado era a al-Qaeda, um grupo terrorista islâmico internacional pouco conhecido e que só viria a ter o seu grande momento de glória dali por quase um ano. Em contrapartida, e do ponto de vista naval, os Estados Unidos tinham e planeavam vir a construir 88 navios idênticos ao USS Cole (a classe Arleigh Burke). O atentado representaria um destróier a menos, e nem isso, que os estragos se mostravam reparáveis. A supremacia naval americana não é beliscada pelo atentado, mas as imagens que correm o mundo com o buraco de mais de dez metros de diâmetro a bombordo afectam a imagem do seu poder, a ponto de terem sido dadas instruções para que o local do impacto fosse coberto (acima e abaixo). Este é um dos vários problemas destes conflitos de baixa intensidade e assimétricos.
Outro dos problemas é que, nestas circunstâncias e quando a necessidade aperta, a esmagadora maioria dos países são aliados dos Estados Unidos, mas os militares dos Estados Unidos sabem que há «uns que são mais aliados do que os outros». No caso concreto destes acontecimentos do USS Cole, e por muito amigos que fossem iemenitas e sauditas, o primeiro navio aliado a prestar assistência foi a fragata britânica HMS Marlborough e os americanos preferiram evacuar e tratar os feridos recorrendo aos meios que as forças armadas francesas estacionadas no vizinho Djibuti colocaram ao seu dispor. O atentado cumpriu o seu ciclo noticioso, acompanhado das previsíveis críticas à administração Clinton e apelos para uma retaliação - com que formato concreto? Quando essa retaliação teve lugar, e um drone da CIA liquidou com um missil alguém que se suspeitava ter sido o mentor do ataque, passados mais de dois anos (Novembro de 2002), já o assunto passara de moda, submerso pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001. Transportado desde o Iémen até aos Estados Unidos num navio apropriado para o efeito (abaixo), o USS Cole esteve catorze meses em reparação até regressar ao serviço.
Etiquetas:
20º Aniversário,
Djibuti,
Estados Unidos,
Estratégia,
França,
Iémen,
Reino Unido
22 maio 2020
A UNIFICAÇÃO DO IÉMEN
22 de Maio de 1990. Unificação do Iémen. O Iémen fica longe e a notícia mereceu apenas uma breve referência no jornal daquele dia (acima). Na época, pareceu mais um daquelas rectificações de fronteiras que se haviam tornado possíveis por causa da distensão da situação internacional depois da Guerra Fria. Mas não. Repare-se como a expressão empregue é unificação e não reunificação. Os dois Iémenes vieram a mostrar-se quanto estavam muito longe de constituir uma entidade social comum ou de, então, compartilharem aspirações para um futuro comum. A histórica política naquele canto da península Arábica sempre foi turbulenta, pautada por múltiplas entidades políticas, num espaço de autoridade(s) muito fragmentada(s). E assim iria tender a continuar. Houve uma guerra civil em 1994 para reverter esta unificação de 1990, mas as forças secessionistas foram derrotadas. Mas essas forças secessionistas subsistem, embora ultimamente estejam coligadas com o governo central, por causa de uma outra guerra civil em curso no Iémen. Quando aparecem aqueles analistas com pretensões que as situações internacionais a que se referem pode descrever-se de forma muito simples - modelo Pedro Marques Lopes - fico sempre com ganas de os mandar escrever um texto sucinto em que descrevam a situação politico-militar iemenita, mesmo para lhes tirar as peneiras.
15 setembro 2019
O ATAQUE ÀS REFINARIAS SAUDITAS
A propósito do ataque desencadeado pelos rebeldes iemenitas contra refinarias sauditas lembrei-me deste episódio de uma aventura de Tanguy e Laverdure por aquelas paragens, desenhada já há uns bons cinquenta anos, que envolve precisamente o ataque contra as instalações de uma grande companhia petrolífera que sustenta um regime despótico num hipotético emirado da região. O que mudou parece ter sido os meios: onde antigamente havia que dispor de aviação, agora a operação pode fazer-se visando as instalações com drones. Mas, como na ficção de outrora, na realidade actual ficam expostas as vulnerabilidades destes alvos económicos em países que estão tão dependentes da exportação de uma matéria prima.
Uma coisa é certa: as imagens de uma refinaria a arder são, como se vê abaixo, de uma estética impressionante, a que as televisões não conseguem dizer que não...
30 novembro 2017
COMO EVITAR CUIDADOSAMENTE UM ASSUNTO
30 de Novembro de 1967. Há precisamente cinquenta anos, o Reino Unido concedia a independência ao Iémen do Sul. O documentário acima, mostrando as últimas horas da presença britânica na colónia, capricha na espampanância precisamente para esconder o quanto o processo de descolonização fora uma humilhação para as autoridades coloniais britânicas. A marcialidade da fanfarra da banda sonora acaba por destoar do conteúdo das imagens. Nelas, vêem-se as últimas malas dos soldados expedicionários a serem transportadas de helicóptero para os navios, mas sem se explicar que os britânicos já não controlavam as próprias instalações portuárias em Áden e não queriam correr os riscos de as carregar para bordo da forma tradicional; também por incapacidade em assegurar um perímetro seguro em terra, a última guarda de honra ao Alto-Comissário Humphrey Trevelyan, com o simbólico arriar da bandeira, teve lugar ao largo, a bordo de um navio, o HMS Intrepid. Um conjunto de pormenores verdadeiramente inconvenientes, que a frota de 25 navios deslocados para o resgate e a parada de aviões não consegue escamotear, apesar dos ângulos como as imagens são captadas. No mar, a Royal Navy podia-se prestar a tais cenas mas, se tivesse sido em terra, não haveria um único soldado britânico a almejar a duvidosa honra de ser o último a morrer no conflito para defender a presença britânica em terras iemenitas.
O tema é tanto mais pertinente quanto se constata o esquecimento que é dado a este cinquentenário por toda a comunicação social do Reino Unido. E essa omissão é tanto mais difícil de compreender quanto, precisamente hoje, a primeira-ministra Theresa May se encontra naquelas mesmas paragens do Médio Oriente, mais concretamente na Arábia Saudita, para discutir com o rei Salman a concessão de ajuda humanitária aos - adivinhem? - iemenitas (abaixo). Pois bem, em todo o Reino Unido não consegui encontrar um jornalista que fosse que tivesse feito essa aparentemente simples sinapse entre os dois acontecimentos. Parece-me que, pior do que se ter um passado colonial, será ter um passado colonial mal concluído...
Etiquetas:
50º Aniversário,
Iémen,
Informação,
Reino Unido
28 março 2015
SIR RICHARD TURNBULL E A SUA EXPERIÊNCIA IEMENITA
Sir Richard Gordon Turnbull (1909-1998) era uma das últimas mãos experientes que saberia segurar com dignidade as rédeas de um império em decomposição. Estivera durante a década de 1950 no Quénia como Secretário-Chefe (o segundo posto da hierarquia administrativa colonial a seguir ao de Governador), precisamente durante a insurreição dos Mau-Mau, fora promovido em 1958 a Governador da vizinha Tanganica com a missão de preparar a sua independência, que veio a acontecer em Dezembro de 1961. Assumira o cargo de Governador-Geral do novo país, em representação da soberana Isabel II, até ele se ter transformado numa república em Dezembro de 1962. Quando, em Dezembro de 1964, o governo trabalhista britânico o escolheu para ser o Alto-Comissário em Áden, na complexa colónia britânica que viria a constituir primeiro o Iémen do Sul (1967), mais tarde fundida no Iémen (1990), fazia-se uma opção por alguém com experiência na região (Turnbull falava suaíli, o que não sendo o árabe local, é a língua franca da costa oriental de África, incluindo Omã) e na missão (o Reino Unido havia decidido conceder a independência à colónia com condições e um calendário a negociar com as elites locais). Em Maio de 1967, um Sir Richard abandonava o cargo depois de dois anos e meio de frustrantes negociações com as inúmeras partes envolvidas, de onde o problema menor seriam os interesses da antiga potência colonizadora. Em 1975, o mesmo Sir Richard Turnbull compilou numa extensa carta (que se transcreve condensada abaixo) as suas reflexões sobre os problemas insuperáveis com que se deparou. Têm a oportunidade de demonstrar quanta é a dificuldade de querer sintetizar sem simplificar um conflito iemenita típico.
O enquadramento constitucional dos Protectorados da Arábia do Sul era complicado para lá de qualquer explicação razoável: compreendia a Federação de estados do que havia sido o Protectorado de Áden Ocidental (assinalado no mapa acima a verde escuro), a própria cidade de Áden (que, pertencendo à Federação era uma Colónia da Coroa – assinalada a vermelho) e ainda os três estados pertencentes ao Protectorado de Áden Oriental (que não faziam parte da Federação e que não estavam federados uns com os outros – assinalado a verde claro). Os britânicos não administravam os estados e nunca o tinha feito; protegiam-nos, financiavam-nos, orientavam a sua política externa e, através de um sistema de conselheiros, tentava-se inculcar algumas noções de probidade e senso comum entre eles. Os estados da Federação quase não tinham receitas; não havia indústrias e muito pouca agricultura; nem os habitantes tinham muito para oferecer em termos de capacidades, a não ser a dos homens para o combate. Os estados estavam divididos por rivalidades e querelas de todo o género e cada um deles mostrava uma inveja rancorosa pelos seus vizinhos. Quase todos os homens andavam armados; não havia uma grande lealdade para com o estado de origem e não havia qualquer concepção dela para com a Federação.
Entre os Conservadores à direita, aduladores dos árabes no estilo clássico (Lawrence &al.) concebia-se os governantes dos estados como árabes tradicionais «sans peur et sans rapproche» (sic), em quem se podia confiar para manter um escudo de protecção à Base (a base aérea estratégica da RAF de Khormaksar, uma espécie de Lajes britânica nas Arábias)contra o nacionalismo árabe e as incursões vindas do Iémen. Pelo seu lado, os Trabalhistas no Governo estavam firmemente convencidos que todos eles não passavam de um punhado de canalhas que estariam a dificultar a marcha da Arábia do Sul na direcção do sufrágio universal e do sindicalismo para todos. Os que estavam no terreno sabiam que, com algumas excepções, o conjunto era um bando de egoístas inúteis que se haviam alcandorado a posições que não tinham sequer competência para ocupar.
Entre os Conservadores à direita, aduladores dos árabes no estilo clássico (Lawrence &al.) concebia-se os governantes dos estados como árabes tradicionais «sans peur et sans rapproche» (sic), em quem se podia confiar para manter um escudo de protecção à Base (a base aérea estratégica da RAF de Khormaksar, uma espécie de Lajes britânica nas Arábias)contra o nacionalismo árabe e as incursões vindas do Iémen. Pelo seu lado, os Trabalhistas no Governo estavam firmemente convencidos que todos eles não passavam de um punhado de canalhas que estariam a dificultar a marcha da Arábia do Sul na direcção do sufrágio universal e do sindicalismo para todos. Os que estavam no terreno sabiam que, com algumas excepções, o conjunto era um bando de egoístas inúteis que se haviam alcandorado a posições que não tinham sequer competência para ocupar.
Quanto à Federação (da Arábia do Sul), era uma criação política que nascera desengonçada, afectada por dissensões internas e que não gerava confiança em nenhum dos agentes envolvidos. Os próprios federalistas haviam acabado por tomar consciência que, por terem aderido ao projecto britânico, se haviam tornado nuns desprezados no mundo árabe. Haviam por isso decidido agarrar-se às vantagens que haviam obtido da relação com a potência colonial, ou seja, o dinheiro britânico e a sua protecção pelo maior espaço de tempo que lhes fosse possível. O que causava mais admiração nos federalistas é que, apesar da precaridade da sua posição, politicamente, socialmente e constitucionalmente, não só não se dispunham a fazer fosse o que fosse para melhorar a sua situação política, como também não toleravam que alguém de fora o fizesse por eles. Estavam divididos por querelas e disputas e por intermináveis rivalidades pessoais; foi por esse motivo que teve que se estabelecer que a presidência do Conselho Supremo Federal fosse rotativa mensalmente.
Em contraste, os adenitas mostravam-se orgulhosos das suas origens e ciosos das suas instituições democráticas, que se mostravam verdadeiramente muito mais evoluídas que em qualquer dos outros países do Médio Oriente. Concebiam-se como verdadeiramente civilizados (que o eram) e não se mostravam nada dispostos a partilhar a sua riqueza com os atrasados, conflituosos e arrogantes tribais que compunham o resto da Federação. De algum modo, o governo conservador britânico havia-os arrebanhado em 1963 para se juntarem a ela. Nunca perdoarão os britânicos por isso.
É necessário salientar que embora os adenitas fossem, admita-se, merecedores de simpatia e apoio e os federalistas mais apropriados à condenação como baronetes medievais perversos, na realidade foram os últimos a adquirir as maiores simpatias em vez dos primeiros. É que os federalistas, apesar de todos os seus defeitos, eram a bravura, a simpatia e o charme enquanto os adenitas podiam ser reduzidos nesse contexto a um grupo de merceeiros. Era uma reedição da história do nobre de província versus o negociante citadino.
Finalmente, os estados do Protectorado de Áden Oriental não tinham muito interesse para a composição do conjunto; há uma aura tão romântica a rodear o Wadi Hadhramaut (...) os estados haviam-se desenvolvido adoptando linhas toleravelmente pacíficas; os jovens abraçavam uma carreira mercantil em vez das pilhagens e das contra-pilhagens (...) os velhos eram simpáticos, elegantes e cultos mas cultivando também uma indiferença e um derrotismo tais que não se dispunham a fazer nada por si próprios nem a aceitar que qualquer auxílio lhes fosse prestado. Uma unidade comandada e financiada pelos britânicos, a Legião Beduína Hadhrami, ajudava a assegurar a paz entre as várias facções rivais. Como resultado parcial do seu isolamento, as instituições locais, tanto quanto o carácter das gentes desagregava-se (...) a única atitude positiva que eles manifestavam eram manterem-se afastados dos problemas do mundo árabe e procurar ter o menor contacto possível com a Federação (...) apesar de tudo o que possa ter sido dito a respeito da qualidade quase ideal do Protectorado de Áden Oriental, nos meados da década de sessenta a estrutura social já começara a colapsar; em 1966, a Legião, que fora considerada até aí uma “força politicamente não comprometia”, assassinou o seu comandante (britânico) e, à medida que o tempo dos britânicos chegava ao fim, as cidades do Wadi Hadhramaut viram-se ameaçadas por grupos terroristas rivais...
A FLOSY (Frente de Libertação do Iémen do Sul Ocupado) era essencialmente uma organização urbana e não tinha muita influência fora de Áden; mostrava o requinte de associar os seus atentados bombistas e assassinatos a referências ao sindicalismo e à democracia... A FLN (Frente de Libertação Nacional) era muito diferente (...) era gente rural transplantada para a cidade (...) a sua arma secreta é que aquilo que faziam lhes surgia naturalmente (...) tinham estado a combater a autoridade e entre si desde os tempos que precediam a islamização; à bruta, acabaram por dominar os maiores sindicatos (...) Do lado britânico, tão habituados se estava aos permanentes conflitos internos entre árabes, que se demorou tempo demasiado a perceber que havia possibilidade dos diferentes grupos estaduais dentro do FLN pudessem cooperar entre si; por essa altura já os efectivos do exército e da guarda da Federação estavam completamente infiltrados.
Nos princípios de 1965 havia-se montado um palco para a realização de uma grande conferência da Arábia do Sul, reformando a constituição federal, entregando-se a soberania britânica em Áden para que a cidade se pudesse juntar ao resto da Federação, e concedendo-se a independência ao conjunto, como um estado unificado numa relação privilegiada com a metrópole britânica, a ter lugar por volta de 1968 (...) os adenitas não gostaram da ideia; o que desejavam era a independência total e juntar-se a uma Federação reformada na altura e condições por si escolhidas; os federalistas também não gostaram da ideia; não gostavam de enfrentar o mundo moderno; queriam continuar a viver o seu tradicional modo de vida feudal à conta dos contribuintes britânicos. Os federalistas sabotaram a conferência e ela teve que ser abandonada.
Entretanto, uma comissão de constitucionalistas estudavam as possibilidades para Áden e a Federação (...) o próprio governo de Áden interveio no processo considerando dois dos membros da comissão como imigrantes ilegais (...) meses mais tarde, lá se conseguiu organizar uma espécie de conferência, mas a acrimónia entre Áden e a Federação era tal que houve que a encerrar (...) o Governo de Sua Majestade viu-se compelido a suspender a constituição; o Alto-Comissário (o próprio Sir Richard Turnbull), desgraçado, tornou-se o governo de Áden (...) manifestações, greves e outras manifestações de desobediência tornaram-se comuns: Áden passou a boicotar o parlamento federal e os seus ex-ministros passaram a liderar uma campanha contra a comissão constitucional; eles não aceitariam menos do que a destruição do sistema tribal e a demissão dos dirigentes tribais.
A preocupação principal dos britânicos era, mais do que os dirigentes, a segurança colectiva da região. O exército e a guarda federais, apesar da infiltração da FLN, estavam dependentes das lealdades tribais nas suas internas e a desintegração de uma estrutura como o governo federal deixaria aquela máquina militar completamente por conta própria.
Em Fevereiro de 1966, o Governo de Sua Majestade anunciou a sua intenção de abandonar a Base e a Arábia do Sul. O governo federal reagiu mal (...) os dirigentes dos estados recordaram os britânicos que a sua anuência aos seus planos os haviam tornado alvos no mundo árabe; que depois de lhes ter retirado qualquer possibilidade de encontrar outros pólos de amizade e apoio (...) agora se propunham abandoná-los. Mantinham, com uns laivos de verdade, que na conferência que tivera lugar em Julho de 1964 o Reino Unido havia dado promessas concretas que um Acordo de Defesa para o período pós-independência seria negociado, acordo esse sob o qual se comprometera a manter a Base em Áden «para defesa da Federação e cumprimento das suas responsabilidades à escala mundial». A contra-argumentação era inútil, mesmo contraproducente; os federalistas insistiam que a Federação fora uma criação britânica e que também deviam ser eles a cuidar dela (...) em conversas privadas, adenitas responsáveis confessavam que assim como a Federação necessitava da Base para os defender, também Áden precisava da Base como salvaguarda pelas temidas depredações dos governantes federalistas. Consequentemente, o firme anúncio da intenção britânica fez com que a situação político-militar se agravasse ainda mais. Já não havia quaisquer vantagens em apoiar as iniciativas dos britânicos (...) a única certeza era que o futuro governo já não seria britânico; portanto toda a gente – militares, polícias, funcionários e políticos locais teriam que se bandear para outras paragens. Os de Londres estavam convencidos que bastaria a ameaça de tornar Áden independente que isso permitiria às autoridades coloniais chegar a acordo com as partes e sanar as divergências (...) mas não podiam estar mais enganados.
A única potência que se poderia conceber a apoiar a Federação seria a Arábia Saudita; o rei Faiçal recusou-se a agir a não ser que a Federação e os estados do Protectorado do Iémen Oriental se concertassem numa frente comum. Estes últimos, sem uma garantia prévia de uma aproximação entre a Federação e Áden não contemplariam sequer a hipótese de uma aliança, quanto mais a ideia de aderirem à Federação; e Áden preferiria tornar-se numa espécie de estado vassalo do Egipto a reassumir a posição na Federação que em 1963 fora obrigada pelos britânicos a assumir. Quanto à Federação propriamente dita, não se mostrava disposta a fazer fosse o que fosse para se mostrar mais aceitável aos olhos do mundo árabe; nem se disporia a qualquer tentativa para conciliar as aspirações adenitas.
Na procura de uma constituição que se mostrasse apropriada às circunstâncias, examinaram-se quase todas as constituições dos países Árabes, num exercício inútil considerando que as pretensas «democracias» árabes não passavam, todas e na prática, de ditaduras militares. Os britânicos tentaram até aliciar a ONU e acordaram em aceitar uma missão encarregada de recomendar medidas práticas conducentes à criação de um governo de gestão para tomar conta dos problemas até se elaborar e adoptar uma constituição. Todavia, por essa altura, os adenitas haviam inflectido tanto na adopção das directivas egípcias, tão condicionados estavam pela intimidação dos terroristas que lhes era impossível cooperar com os britânicos; mostravam uma desconfiança patológica dos federalistas. Estes, por sua vez, entretinham-se com a realização de uma série de conferências fúteis distribuídas por locais climatologicamente mais amenos do Médio Oriente. Whitehall (i.e., o Governo em Londres) andava por essa mesma época obcecado com doutrina ideológica a respeito da importância das eleições, que eles imaginavam que se poderiam realizar em Áden como em qualquer outro círculo eleitoral britânico, Putney ou Hampstead. Na Federação, todos os homens andavam armados e os conflitos tribais eram endémicos. Em Áden, até a oposição não conseguia chegar a acordo quanto aos critérios para se ser eleitor; aliás, a própria menção do assunto era passível de desncadear um conjunto de distúrbios urbanos. Como magistrados e jurados eram abertamente sujeitos a intimidação, tornava-se necessário manter os terroristas capturados em detenção porque não podiam ser julgados. Era uma situação muito difícil que só expôs os britânicos ao opróbrio.
Em Março de 1967 (numa manobra evidente para despachar o assunto, tornando-o menos penoso) Whitehall avançou com a ideia de antecipar a independência em dois ou três meses, chamando os nacionalistas adenitas para um território neutral onde se poderia encontrar um «modus vivendi», com protecção britânica para os meses que se seguissem. George Thompson (ministro do governo londrino) esmerou-se com os seus melhores dotes persuasivos para convencer a Federação, mas eles declinaram e rechaçaram a ideia.
Quando a missão da ONU chegou a Áden, ela era composta pelos elementos mais raivosamente anti-britânicos da ONU e via-se que só tinham vindo à Arábia do Sul para arranjar sarilhos. Mostraram-se conflituosos, nada cooperantes e antipáticos. Recusaram reconhecer ao governo da Federação qualquer estatuto; recusaram-se a reunir-se com os seus ministros. Os adenitas por sua vez também se recusaram a encontrar-se com a missão ou a apresentar-lhes sequer qualquer documentação solicitada. A FLN convocou uma greve e o governo da Federação recusou-se a conceder-lhes tempo de antena radiofónico. No dia seguinte foram-se embora, irritadíssimos.
Embora tenha vindo a criticar muito severamente os Árabes, não creio que se possa negar que as maiores responsabilidades pela «débacle» da Arábia do Sul são do governo britânico. Criou-se uma Federação composta por estados paupérrimos (não há petróleo na Arábia do Sul) que eram governados por verdadeiros irresponsáveis; por os ter feito aderir a uma solução vinda do exterior, denegrimo-los aos olhos dos outros países árabes. O interesse dos britânicos era aproveitar as suas qualidades guerreiras como barreira protectora da Base. Quanto a Áden, tratava-se afinal de uma colónia britânica e os adenitas eram súbditos britânicos para quem se tinha muito mais responsabilidades do que se teria para com os outros membros da Federação. Forçou-se Áden a pertencer à Federação numa parte por causa da Base, noutra parte para se poder utilizar a riqueza que o seu porto gerava na manutenção de um governo federal de estados que nunca tiveram outras fontes de financiamento que não tivessem sido os contribuintes britânicos.
Tudo isso piorou com a explosão do nacionalismo árabe na década de 1960 e pela determinação de Nasser (presidente egípcio) em vingar-se do que acontecera no Suez. A ironia é que, no final, foi a FLN e não os homens de Nasser que venceram.
Um último comentário. Mesmo sem o nacionalismo árabe e sem Nasser, não acredito que se pudesse ter construído uma parceria natural e proveitosa entre os adenitas e os federalistas; e sem essa parceria os três estados do Protectorado Oriental ter-se-iam mantido distanciados de qualquer solução política que os quisesse incluir.
Em contraste, os adenitas mostravam-se orgulhosos das suas origens e ciosos das suas instituições democráticas, que se mostravam verdadeiramente muito mais evoluídas que em qualquer dos outros países do Médio Oriente. Concebiam-se como verdadeiramente civilizados (que o eram) e não se mostravam nada dispostos a partilhar a sua riqueza com os atrasados, conflituosos e arrogantes tribais que compunham o resto da Federação. De algum modo, o governo conservador britânico havia-os arrebanhado em 1963 para se juntarem a ela. Nunca perdoarão os britânicos por isso.
É necessário salientar que embora os adenitas fossem, admita-se, merecedores de simpatia e apoio e os federalistas mais apropriados à condenação como baronetes medievais perversos, na realidade foram os últimos a adquirir as maiores simpatias em vez dos primeiros. É que os federalistas, apesar de todos os seus defeitos, eram a bravura, a simpatia e o charme enquanto os adenitas podiam ser reduzidos nesse contexto a um grupo de merceeiros. Era uma reedição da história do nobre de província versus o negociante citadino.
Finalmente, os estados do Protectorado de Áden Oriental não tinham muito interesse para a composição do conjunto; há uma aura tão romântica a rodear o Wadi Hadhramaut (...) os estados haviam-se desenvolvido adoptando linhas toleravelmente pacíficas; os jovens abraçavam uma carreira mercantil em vez das pilhagens e das contra-pilhagens (...) os velhos eram simpáticos, elegantes e cultos mas cultivando também uma indiferença e um derrotismo tais que não se dispunham a fazer nada por si próprios nem a aceitar que qualquer auxílio lhes fosse prestado. Uma unidade comandada e financiada pelos britânicos, a Legião Beduína Hadhrami, ajudava a assegurar a paz entre as várias facções rivais. Como resultado parcial do seu isolamento, as instituições locais, tanto quanto o carácter das gentes desagregava-se (...) a única atitude positiva que eles manifestavam eram manterem-se afastados dos problemas do mundo árabe e procurar ter o menor contacto possível com a Federação (...) apesar de tudo o que possa ter sido dito a respeito da qualidade quase ideal do Protectorado de Áden Oriental, nos meados da década de sessenta a estrutura social já começara a colapsar; em 1966, a Legião, que fora considerada até aí uma “força politicamente não comprometia”, assassinou o seu comandante (britânico) e, à medida que o tempo dos britânicos chegava ao fim, as cidades do Wadi Hadhramaut viram-se ameaçadas por grupos terroristas rivais...
A FLOSY (Frente de Libertação do Iémen do Sul Ocupado) era essencialmente uma organização urbana e não tinha muita influência fora de Áden; mostrava o requinte de associar os seus atentados bombistas e assassinatos a referências ao sindicalismo e à democracia... A FLN (Frente de Libertação Nacional) era muito diferente (...) era gente rural transplantada para a cidade (...) a sua arma secreta é que aquilo que faziam lhes surgia naturalmente (...) tinham estado a combater a autoridade e entre si desde os tempos que precediam a islamização; à bruta, acabaram por dominar os maiores sindicatos (...) Do lado britânico, tão habituados se estava aos permanentes conflitos internos entre árabes, que se demorou tempo demasiado a perceber que havia possibilidade dos diferentes grupos estaduais dentro do FLN pudessem cooperar entre si; por essa altura já os efectivos do exército e da guarda da Federação estavam completamente infiltrados.
Nos princípios de 1965 havia-se montado um palco para a realização de uma grande conferência da Arábia do Sul, reformando a constituição federal, entregando-se a soberania britânica em Áden para que a cidade se pudesse juntar ao resto da Federação, e concedendo-se a independência ao conjunto, como um estado unificado numa relação privilegiada com a metrópole britânica, a ter lugar por volta de 1968 (...) os adenitas não gostaram da ideia; o que desejavam era a independência total e juntar-se a uma Federação reformada na altura e condições por si escolhidas; os federalistas também não gostaram da ideia; não gostavam de enfrentar o mundo moderno; queriam continuar a viver o seu tradicional modo de vida feudal à conta dos contribuintes britânicos. Os federalistas sabotaram a conferência e ela teve que ser abandonada.
Entretanto, uma comissão de constitucionalistas estudavam as possibilidades para Áden e a Federação (...) o próprio governo de Áden interveio no processo considerando dois dos membros da comissão como imigrantes ilegais (...) meses mais tarde, lá se conseguiu organizar uma espécie de conferência, mas a acrimónia entre Áden e a Federação era tal que houve que a encerrar (...) o Governo de Sua Majestade viu-se compelido a suspender a constituição; o Alto-Comissário (o próprio Sir Richard Turnbull), desgraçado, tornou-se o governo de Áden (...) manifestações, greves e outras manifestações de desobediência tornaram-se comuns: Áden passou a boicotar o parlamento federal e os seus ex-ministros passaram a liderar uma campanha contra a comissão constitucional; eles não aceitariam menos do que a destruição do sistema tribal e a demissão dos dirigentes tribais.
A preocupação principal dos britânicos era, mais do que os dirigentes, a segurança colectiva da região. O exército e a guarda federais, apesar da infiltração da FLN, estavam dependentes das lealdades tribais nas suas internas e a desintegração de uma estrutura como o governo federal deixaria aquela máquina militar completamente por conta própria.
Em Fevereiro de 1966, o Governo de Sua Majestade anunciou a sua intenção de abandonar a Base e a Arábia do Sul. O governo federal reagiu mal (...) os dirigentes dos estados recordaram os britânicos que a sua anuência aos seus planos os haviam tornado alvos no mundo árabe; que depois de lhes ter retirado qualquer possibilidade de encontrar outros pólos de amizade e apoio (...) agora se propunham abandoná-los. Mantinham, com uns laivos de verdade, que na conferência que tivera lugar em Julho de 1964 o Reino Unido havia dado promessas concretas que um Acordo de Defesa para o período pós-independência seria negociado, acordo esse sob o qual se comprometera a manter a Base em Áden «para defesa da Federação e cumprimento das suas responsabilidades à escala mundial». A contra-argumentação era inútil, mesmo contraproducente; os federalistas insistiam que a Federação fora uma criação britânica e que também deviam ser eles a cuidar dela (...) em conversas privadas, adenitas responsáveis confessavam que assim como a Federação necessitava da Base para os defender, também Áden precisava da Base como salvaguarda pelas temidas depredações dos governantes federalistas. Consequentemente, o firme anúncio da intenção britânica fez com que a situação político-militar se agravasse ainda mais. Já não havia quaisquer vantagens em apoiar as iniciativas dos britânicos (...) a única certeza era que o futuro governo já não seria britânico; portanto toda a gente – militares, polícias, funcionários e políticos locais teriam que se bandear para outras paragens. Os de Londres estavam convencidos que bastaria a ameaça de tornar Áden independente que isso permitiria às autoridades coloniais chegar a acordo com as partes e sanar as divergências (...) mas não podiam estar mais enganados.
A única potência que se poderia conceber a apoiar a Federação seria a Arábia Saudita; o rei Faiçal recusou-se a agir a não ser que a Federação e os estados do Protectorado do Iémen Oriental se concertassem numa frente comum. Estes últimos, sem uma garantia prévia de uma aproximação entre a Federação e Áden não contemplariam sequer a hipótese de uma aliança, quanto mais a ideia de aderirem à Federação; e Áden preferiria tornar-se numa espécie de estado vassalo do Egipto a reassumir a posição na Federação que em 1963 fora obrigada pelos britânicos a assumir. Quanto à Federação propriamente dita, não se mostrava disposta a fazer fosse o que fosse para se mostrar mais aceitável aos olhos do mundo árabe; nem se disporia a qualquer tentativa para conciliar as aspirações adenitas.
Na procura de uma constituição que se mostrasse apropriada às circunstâncias, examinaram-se quase todas as constituições dos países Árabes, num exercício inútil considerando que as pretensas «democracias» árabes não passavam, todas e na prática, de ditaduras militares. Os britânicos tentaram até aliciar a ONU e acordaram em aceitar uma missão encarregada de recomendar medidas práticas conducentes à criação de um governo de gestão para tomar conta dos problemas até se elaborar e adoptar uma constituição. Todavia, por essa altura, os adenitas haviam inflectido tanto na adopção das directivas egípcias, tão condicionados estavam pela intimidação dos terroristas que lhes era impossível cooperar com os britânicos; mostravam uma desconfiança patológica dos federalistas. Estes, por sua vez, entretinham-se com a realização de uma série de conferências fúteis distribuídas por locais climatologicamente mais amenos do Médio Oriente. Whitehall (i.e., o Governo em Londres) andava por essa mesma época obcecado com doutrina ideológica a respeito da importância das eleições, que eles imaginavam que se poderiam realizar em Áden como em qualquer outro círculo eleitoral britânico, Putney ou Hampstead. Na Federação, todos os homens andavam armados e os conflitos tribais eram endémicos. Em Áden, até a oposição não conseguia chegar a acordo quanto aos critérios para se ser eleitor; aliás, a própria menção do assunto era passível de desncadear um conjunto de distúrbios urbanos. Como magistrados e jurados eram abertamente sujeitos a intimidação, tornava-se necessário manter os terroristas capturados em detenção porque não podiam ser julgados. Era uma situação muito difícil que só expôs os britânicos ao opróbrio.
Em Março de 1967 (numa manobra evidente para despachar o assunto, tornando-o menos penoso) Whitehall avançou com a ideia de antecipar a independência em dois ou três meses, chamando os nacionalistas adenitas para um território neutral onde se poderia encontrar um «modus vivendi», com protecção britânica para os meses que se seguissem. George Thompson (ministro do governo londrino) esmerou-se com os seus melhores dotes persuasivos para convencer a Federação, mas eles declinaram e rechaçaram a ideia.
Quando a missão da ONU chegou a Áden, ela era composta pelos elementos mais raivosamente anti-britânicos da ONU e via-se que só tinham vindo à Arábia do Sul para arranjar sarilhos. Mostraram-se conflituosos, nada cooperantes e antipáticos. Recusaram reconhecer ao governo da Federação qualquer estatuto; recusaram-se a reunir-se com os seus ministros. Os adenitas por sua vez também se recusaram a encontrar-se com a missão ou a apresentar-lhes sequer qualquer documentação solicitada. A FLN convocou uma greve e o governo da Federação recusou-se a conceder-lhes tempo de antena radiofónico. No dia seguinte foram-se embora, irritadíssimos.
Embora tenha vindo a criticar muito severamente os Árabes, não creio que se possa negar que as maiores responsabilidades pela «débacle» da Arábia do Sul são do governo britânico. Criou-se uma Federação composta por estados paupérrimos (não há petróleo na Arábia do Sul) que eram governados por verdadeiros irresponsáveis; por os ter feito aderir a uma solução vinda do exterior, denegrimo-los aos olhos dos outros países árabes. O interesse dos britânicos era aproveitar as suas qualidades guerreiras como barreira protectora da Base. Quanto a Áden, tratava-se afinal de uma colónia britânica e os adenitas eram súbditos britânicos para quem se tinha muito mais responsabilidades do que se teria para com os outros membros da Federação. Forçou-se Áden a pertencer à Federação numa parte por causa da Base, noutra parte para se poder utilizar a riqueza que o seu porto gerava na manutenção de um governo federal de estados que nunca tiveram outras fontes de financiamento que não tivessem sido os contribuintes britânicos.
Tudo isso piorou com a explosão do nacionalismo árabe na década de 1960 e pela determinação de Nasser (presidente egípcio) em vingar-se do que acontecera no Suez. A ironia é que, no final, foi a FLN e não os homens de Nasser que venceram.
Um último comentário. Mesmo sem o nacionalismo árabe e sem Nasser, não acredito que se pudesse ter construído uma parceria natural e proveitosa entre os adenitas e os federalistas; e sem essa parceria os três estados do Protectorado Oriental ter-se-iam mantido distanciados de qualquer solução política que os quisesse incluir.
Com toda a frustração que as suas últimas palavras acima fazem sentir, Sir Richard Turnbull deixou o cargo de Alto-Comissário em 22 de Maio de 1967. Sucedeu-lhe Sir Humphrey Trevelyan (1905-1985) que esteve por lá seis meses na missão ingrata de apagar a luz e fechar a porta sem se saber muito bem nem quando o irá fazer nem a quem se vai deixar a chave. A data escolhida acabou por ser 29 de Novembro de 1967 e o curto vídeo acima, apesar da magnificência da locução, mostra – para quem o consiga descodificar – a vergonha embaraçada de toda a cerimónia. Ninguém queria morrer por uma causa inexistente. Vê-se as últimas malas dos soldados expedicionários a serem transportadas de helicóptero para os navios sem se explicar que os britânicos já não controlavam as próprias instalações portuárias em Áden e tinham receio de as carregar para bordo da forma tradicional; também por incapacidade em assegurar um perímetro seguro em terra a última guarda de honra ao Alto-Comissário com o simbólico arriar da bandeira teve lugar ao largo, a bordo de um navio, o HMS Intrepid. Uma verdade inconveniente que os 25 navios deslocados para o resgate e a parada de aviões não consegue escamotear. Os britânicos saíram do Iémen do Sul com o rabo entre as pernas. Os sauditas já por lá andavam, embora do outro lado da fronteira, no outro Iémen. Vamos a ver o que lhes acontece desta vez..
26 março 2015
O IÉMEN, ESSE PAíS (DES)CONHECIDO DE TODOS NÓS
As peças noticiosas que vemos sobre a crise iemenita (vejam-se estes dois vídeos da euronews) são um exemplo acabado do que é o jornalismo medíocre. Ajunta-se uma narrativa desgarrada e inconsequente para que a locução acompanhe as imagens mas onde não há quaisquer explicações adicionais sobre os locais (como é que se chama a capital do Iémen?), os protagonistas (como é que se chama o seu presidente?) ou as intenções (como é que se chamam e que pretendem as tais milícias xiitas?) do conflito e o resultado é esta vergonha de se assistir. Mas o que parece importante é que a notícia nos faça distinguir os bons dos maus.
Fiquemos a saber que os sauditas, à frente de uma coligação (depois do Iraque já se sabe que uma coligação confere um carácter automático de bondade às intervenção externas...), vão para o Iémen salvar os bons dos maus. Não percebendo quase nada do que se está a passar naquele país, perceberei o suficiente para perceber que quem me quer explicar ainda perceberá menos que eu. Recorrendo aos arquivos deste blogue, permitam-me recordar as várias guerras cruzadas que dilaceraram aquele país de 1962 a 1970, o que me faz acolher as notícias da intervenção saudita – porque repetida... – e os seus resultados com imensa circunspecção...
13 maio 2011
GUERRAS ESQUECIDAS (6) - A GUERRA CONTRA-SUBVERSIVA EM DHOFAR (OMAN)
Saber que existe um país chamado Oman é raro. Conhecer algumas coisas sobre Oman é ainda mais raro. Mas saber, entre essas coisas, que lá se travou uma guerra subversiva e separatista durante 14 anos (1962-1976) é uma verdadeira preciosidade. É, porém, uma preciosidade interessante. Entretanto, sinal dos tempos e da veterania deste blogue, começam a somar-se os assuntos em que, para os enquadrar, posso remeter o leitor para postes que já aqui havia escrito – neste caso um de Março de 2007 com uma descrição sumária de Oman.
Em 1970, os britânicos patrocinaram um golpe de estado que derrubou o velho sultão e o substituiu pelo seu filho Qaboos Bin Said, então com 29 anos. Qaboos havia recebido formação escolar na Índia e formação militar para oficial na Academia de Sandhurst no Reino Unido. A fotografia abaixo, com o jovem Sultão (de binóculos) no terreno torna-se simbólica da inflexão que então se procurou dar à contra-insurreição. Nesse sentido, as Forças Armadas omanitas recorreram à contratação de oficiais de origem britânica, paquistanesa ou indiana.
Ao Serviço do Sultão é um livro de memórias de um ex-oficial escocês, veterano deste conflito que foi subalterno de uma companhia de tropas omanitas. É engraçado compará-las com outras de ex-oficiais portugueses seus contemporâneos que comandaram unidades de tropas africanas.¹ Para comparação, no TO da Guiné chegaram a enfrentar-se o triplo dos soldados (36.000) com o triplo dos rebeldes (6.000), num território três vezes menor (36.000 km²)… mas perante uma população que era 7 a 8 vezes superior!
24 fevereiro 2011
SOBRECARGA
Houve um terramoto na Nova Zelândia. Terão morrido centenas de pessoas. E há manifestações contestando os regimes no poder no Bahrein, na Líbia e no Yemen. Mas também há limites para a distribuição das simpatias e compaixões do público com tantos assuntos quentes no noticiário internacional. Por isso, tornou-se essencial seleccionar e optou-se pela Líbia cujo dirigente é o mais conhecido, mais exótico e mais mau – e assim o mais propenso a ser detestado, que é afinal aquilo de que o público gosta: enredos com bons e maus. Por fim, há ainda as consequências, como é o caso do aumento do preço do petróleo, por exemplo…Em suma, está-se num tal estado de sobrecarga informativa que até se deixou passar o 23 de Fevereiro e os 30 anos decorridos sobre a tentativa de Golpe de Estado em Espanha (1981) sem que a efeméride tivesse sido trabalhada devidamente. Só que, convém recordar como, ao contrário do jornalismo, a verdadeira importância histórica dos assuntos não se compacta às páginas ou ao horário disponível nos órgãos de informação. Para mais quando o importante por vezes é até a sua ausência, como será o caso da inexistência de notícias revolucionárias após as Revoluções que abalaram recentemente a Tunísia e o Egipto…
Etiquetas:
Bahrein,
Espanha,
Iémen,
Informação,
Líbia,
Nova Zelândia
28 janeiro 2011
OS PERCURSOS SINUOSOS DA PROPAGAÇÃO DAS REVOLTAS NOS PAÍSES ÁRABES
As notícias informaram-nos primeiro da contestação nas ruas na Tunísia. Agora, após o derrube daquele regime, e tentando aproveitar a dinâmica da contestação tunisina, os protestos propagaram-se ao Egipto e já atingiram o Iémen. As situações em cada país podem divergir pontualmente, mas explicaram-nos que todos esses países são ditaduras pessoais que se arrast(ar)am por decénios (23 anos na Tunísia, 29 no Egipto e 32 no Iémen) .
O que ninguém parece conseguir explicar é a lógica da propagação das contestações que as faz saltitar, eclodindo nuns países árabes, evitando outros. No mapa acima, veja-se como a dinâmica de contestação se propaga da Tunísia para o Egipto não se dando notícias de qualquer contaminação da Líbia, curiosamente um país onde o regime pessoal de Muammar Gaddafi supera em antiguidade qualquer das outras ditaduras árabes: 41 anos!
Tecnicamente, pode equacionar-se a hipótese dos líbios viverem tão contentes sob a sua direcção desde há quatro décadas, que não sintam necessidade de o derrubar do poder. Pessoalmente, prefiro a hipótese que, se as ditaduras permanecerem sólidas, reprimem quem protesta e bloqueiam as notícias para o exterior e não há margem de manobra para brincadeiras de rua como a da fotografia acima – note-se como o cartaz está redigido em inglês…Estas histórias das revoluções coloridas ou floridas podem conduzir a que se escrevam análises disparatadamente apaixonadas com enredos com finais felizes, daqueles que todos nós gostamos nos filmes, mas as realidades sóbrias da geopolítica mostram que às vezes, nos países ao lado desses, os que não entram no enredo, a cor dominante continua a ser o cinzento chumbo da opressão...
Etiquetas:
Egipto,
Iémen,
Informação,
Líbia,
Tunísia
03 maio 2008
O PAÍS DA CIDADE "PEDRADA"
O khat é uma planta que se pensa ser originária de África (supõe-se da Etiópia) mas que também se cultiva no Sul da Península Arábica e que contem um estimulante natural, que produz efeitos semelhantes aos das anfetaminas. Em países como o Yemen, a Etiópia, a Somália ou a Eritreia, de há muito que faz parte da cultura local mascar socialmente a planta, que é preparada para consumo como aparece na fotografia abaixo.
Apesar de transmitir, como seria de esperar, uma sensação de bem-estar ao consumidor, o hábito de mascar khat levanta os mesmos problemas que o consumo regular de qualquer outro tipo de estupefaciente, álcool ou tabaco. Até agora, o preço do produto, relativamente elevado para o nível de vida local, tinha servido de travão aos níveis de consumo mas, actualmente, a prosperidade relativa de um pequeno país da região vira-se contra ele.
O pequeno país é o Djibuti, uma antiga colónia francesa, composta principalmente pelo porto do mesmo nome, estrategicamente localizado na embocadura do Mar Vermelho e que se tornou independente em 1977. Apesar da maioria da população ser somali, o país e os seus habitantes preferiram permanecer como nação independente, beneficiando do facto de Djibuti ser o porto de comércio marítimo exclusivo da Etiópia desde 1991.
Como acontecia outrora em Moçambique com Lourenço Marques (em relação ao Transvaal) e com a Beira (em relação à Rodésia), a cidade e porto de Djibuti (onde habitam 400.000 habitantes, o que representa mais de 80% da população total do pais) vive uma prosperidade assente no sector dos serviços associados ao comércio externo de um grande vizinho. Os djibutianos são relativamente prósperos e gostam muito de khat…
Ultimamente, e como acontecerá com muitas coisas neste mundo, mais do que uso, tem sido o crescente abuso do consumo de khat que tem deixado preocupadas as autoridades djibutianas. Outrora comparada a uma espécie de Hong-Kong do Oceano Índico, a dinâmica da cidade, que nunca foi muito alta, tem vindo a diminuir cada vez mais. Depois da hora da sesta, é frequente já não se trabalhar mais, tal é a pedrada do khat entretanto mascado…
08 junho 2007
GUERRAS ESQUECIDAS (2): A GUERRA CIVIL IEMENITA (1962-70)
Possivelmente, uma das razões principais para que esta seja uma guerra esquecida foi porque se travou num país esquecido… O Iémen localiza-se no canto inferior esquerdo (sudoeste) da Península Arábica. E, contrariamente ao que acontece com os outros países peninsulares, existem ali desde há milénios grandes regiões adequadas à agricultura e a maioria da população iemenita cedo se tornou sedentária. E a região era conhecida pela sua prosperidade (conhecida por Arábia Félix pelos romanos), com os seus portos localizados idealmente como escala do comércio marítimo entre a Índia e o Egipto. Sabe-se que os romanos estudaram a hipótese de tornar o Iémen num protectorado, mas desistiramPela sua localização, o Iémen foi das regiões que mais cedo – ainda em vida de Maomé – caíram sobre controlo muçulmano e que mais depressa se islamizaram. Uma das características do Iémen de então (e que voltou a existir na actualidade) são taxas elevadas de crescimento demográfico, o que levou muitos iemenitas a emigrar: uma significativa proporção da colonização árabe nas regiões meridionais da Península Ibérica nos séculos VIII e IX, por exemplo, é atribuível a clãs de origem iemenita. Mas não tardou a que os particularismos iemenitas ressurgissem, com o aparecimento de uma dinastia local (zaídita) que, quase naturalmente, abraçou o xiismo…
Como os suíços na Itália medieval, os escoceses das terras altas da Escócia no Reino Unido ou os cossacos na Rússia, os iemenitas com um excesso tradicional de população jovem, tornaram a carreira das armas ao serviço dos estados muçulmanos numa tradição cultural sua. E quando essas fontes de recrutamento desapareciam momentaneamente o efeito fazia-se sentir imediatamente no aumento das lutas internas entre os clãs locais. No século XIX, o Iémen acabou repartido entre duas esferas de influência: ao norte, 40% do território mas 80% da população caíram sobre a tutela otomana e ao sul, os britânicos, pretendendo sobretudo ficar com o porto de Aden, crucial para a ligação com a Índia, ficaram com o restante.
No fim da Primeira Guerra Mundial, a repartição do Império Otomano deu origem ao aparecimento de vários estados árabes, alguns deles inéditos, como o Reino da Arábia Saudita (1932), que ficou com o controlo dos lugares santos do Islão: Meca e Medina. Mas também o soberano iemenita (Yahya Muhammad) proclamara o Reino do Iémen (do Norte) em 1926. Hoje não parece, mas era uma solução estrategicamente equilibrada. Não fosse o aparecimento das jazidas de petróleo saudita (descobertas na década de 1930, mas só exploradas depois da Segunda Guerra Mundial) e o Iémen (hoje com 21 milhões de habitantes) seria naturalmente o grande rival regional da Arábia Saudita (27 milhões).A particularidade da Guerra Civil Iemenita é que se torna muito complicado de a descrever em função das facções intervenientes, bem no estilo do confronto entre clãs locais, quase na modalidade de quase todos contra quase todos… A única questão clara a seu respeito é que se tratou de uma guerra subversiva (e contra-subversiva...) como então parecia estar na moda (Vietname, colónias portuguesas). De resto, a guerra foi travada em dois estados simultaneamente (Iémen do Norte e do Sul), no primeiro caso entre 1962 e 1970 e no segundo entre 1963 e 1967, embora os dois estados não se confrontassem directamente. E quem promovia a subversão num deles estava aliado a quem fazia a contra-subversão no outro…
Mais concretamente, a confusão começara quando o Egipto, liderado por Gamal Abdel Nasser, havia fomentado um golpe de estado no Iémen do Norte em Setembro de 1962, extinguindo a Monarquia e proclamando a República, muito à semelhança do que acontecera em 1953 no próprio Egipto. Só que alguns clãs norte-iemenitas pronunciaram-se a favor do rei (que escapara ao golpe de estado) e este grupo recebeu desde logo o apoio material dos sauditas que não haviam apreciado particularmente a jogada egípcia. Mas o regime republicano recém instaurado não estava à altura de resistir a uma contra-ofensiva monárquica com apoio saudita: o Egipto teve de enviar tropas suas.
O contingente egípcio (que se crê ter chegado a atingir os 50.000 efectivos em 1967*) consolidou de facto o regime republicano, mas não conseguiu eliminar a ameaça das guerrilhas dos clãs monárquicos. Contudo, os egípcios passaram a estar geograficamente muito mais próximos para poderem apoiar materialmente os nacionalistas do Iémen do Sul que procuravam eliminar a presença britânica, num conflito colonial dos tradicionais. O que fizeram. A primeira acção dos nacionalistas sul-iemenitas da FLN (Frente de Libertação Nacional) foi em Dezembro de 1963 e foi particularmente espectacular, como seriam muitas outras nessa guerra desse lado da fronteira.O Alto-Comissário, a figura mais importante da administração civil do território, foi vítima de um atentado à granada, onde morreu uma pessoa e mais cinquenta ficaram feridas… De facto, procurando num globo, é difícil encontrar um local onde, quer geograficamente, quer sociologicamente (como no faroeste americano, é da tradição local que qualquer homem adulto possua uma arma individual...), as condições sejam mais propícias à guerrilha… Para a continuação da nossa história, interessa saber que, o apoio egípcio às acções da FLN no Iémen do Sul, fez com que os britânicos apoiassem reciprocamente os rebeldes monárquicos do Iémen do Norte.
Ao longo deste conflito, a posição das duas superpotências foi algo distanciada, embora desde o princípio fosse perceptível o interesse da URSS em ganhar eventualmente uma posição estratégica num porto amigável que controlava a entrada do Mar Vermelho (Aden). Mas, para o fazer, os interesses soviéticos não coincidiriam completamente com os dos seus aliados egípcios, já engajados no Iémen do Norte em apoio das forças republicanas… Parcialmente por causa disso, mas também aproveitando a propensão dos clãs para se combaterem entre si, a oposição armada à presença britânica no Iémen do Sul cindiu-se em 1966 entre a FLN e a FLOSY (Frente de Libertação do Iémen do Sul Ocupado).
Como aconteceu em Angola (com o MPLA, a FNLA e a UNITA), uma guerra civil interpôs-se no meio de uma guerra subversiva. O Reino Unido viu-se forçado a antecipar as datas do calendário de retirada que estabelecera, perdendo o controlo da situação. Em Junho de 1967 houve um motim entre as forças militares e policiais de recrutamento local e o dispositivo de segurança britânico ficou reduzido às forças europeias. A capital, Aden, caiu nas mãos da FLN que expulsara a FLOSY. Pior do que aconteceu com Portugal em Angola em Novembro de 1975, só mesmo a reputação de que a cerimónia do arrear final da bandeira britânica, a 30 de Novembro de 1967, teve lugar já na segurança de um navio…Vale a pena recordar, porque é um facto que não é normalmente levado em conta que, em Junho de 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, o Egipto tinha uma fracção dos seus recursos militares engajados na Guerra Civil do Iémen do Norte. A derrota egípcia de 1967 foi um dos factores a pesar na predisposição do Egipto para a negociação. Outro foi a vitória da FLN e das correntes mais pró-marxistas dentro dela na Guerra Civil do Iémen do Sul, em detrimento das correntes mais pan-árabes laicas, próximas do que se convencionou chamar nasserismo. O Egipto distanciou-se da URSS. Do outro lado, desde que haviam programado a sua saída da região, os britânicos haviam cessado o seu apoio aos monárquicos.
Depois de uma última ofensiva em 1968, em que os monárquicos chegaram a cercar a capital do Iémen do Norte, Sanaa, a Arábia Saudita acabou por reconhecer o regime republicano iemenita enquanto os egípcios retiravam completamente o seu contingente em 1970, pondo fim ao conflito. Tanto a norte como no sul, as forças convencionais egípcias e britânicas nas suas operações de contra-subversão e mesmo estando em lados opostos levaram ambas uma tareia das antigas**… Curiosamente, para uma região tão carregada de hostilidade, as relações entre os dois estados iemenitas sempre foram comparativamente pacíficas*** até à sua reunificação em 1990.
* Sensivelmente a mesma dimensão do dispositivo militar que Portugal tinha em Angola por essa mesma altura.** É um episódio muito discretamente mencionado na historiografia militar britânica. Compreende-se porquê.
*** Mais cordiais do que as das duas Alemanhas, por exemplo, para não mencionar o exemplo das duas Coreias ou dos dois Vietnames…
Etiquetas:
Egipto,
História,
Iémen,
Reino Unido
03 junho 2007
AS GUERRAS ESQUECIDAS DURANTE A GUERRA-FRIA
É sabido que durante o período da Guerra-Fria também houve várias guerras quentes em que os dois blocos se enfrentaram. Havendo necessidade de as exemplificar, dever-se-iam escolher as mais conhecidas: a Guerra dos Seis Dias, de Junho de 1967, entre Israel e os países árabes, como exemplo de uma guerra convencional, e a intervenção norte-americana no Vietname (1965-73), como exemplo de uma guerra subversiva.
Mas houve muitos outros exemplos. Contudo, se houver que estabelecer um padrão, a notoriedade actual dos conflitos que tiveram então lugar estão associadas directamente à participação ou não nele de um grande país ocidental conjugada com a circunstância de o conflito se enquadrar ou não com a grande disputa que então se travada entre o Ocidente e o Leste.
Por exemplo, a Guerra do Vietname (1965-73) é muito mais conhecida do que a quase simétrica Guerra do Afeganistão (1979-89) envolvendo os soviéticos. Por outro lado, a Guerra das Malvinas/Falkland de 1982, quando britânicos e argentinos (ambos aliados dos Estados Unidos) disputaram aquele arquipélago no Atlântico Sul tornou-se hoje num embaraçoso episódio, quando evocado politicamente.
As Guerras que tendemos a conhecer muito pouco no Ocidente são assim as que foram travadas entre dois países não ocidentais que não estivessem integrados em blocos antagónicos: foram os casos das guerras travadas entre a China e a Índia em Outubro de 1962, entre a China e o Vietname (Fevereiro e Março de 1979), ou as que se arrastaram como a travada entre Irão e Iraque (1980-88) ou a Guerra Civil no Yemen (1962-70).
Por serem desconhecidas, as fotografias destas guerras esquecidas merecem legendas: a primeira fotografia é de soldados indianos adaptando-se as condições de combate em altitude em 1962, a segunda de soldados chineses preparando-se para entrar numa cidade vietnamita em 1979, a terceira é de soldados iranianos em pose vitoriosa para a fotografia (1982) e, finalmente, milícias iemenitas de facção incerta em data incerta.Esquecidas pela comunicação social, não deixam de ser menos importantes por isso. Vale a pena falar de cada uma delas mais em detalhe em próximos postes.
24 junho 2006
A DESCOLONIZAÇÃO DO IÉMEN DO SUL
Agora a sério, e a propósito desse mesmo assunto, e porque o exemplo português está sempre a voltar saturadamente à baila, deixem-me apresentar um episódio não muito brilhante e não muito conhecido de uma descolonização por parte do Reino Unido que é bem capaz de disputar o pódio com os casos nacionais que a área política onde Maria José Nogueira Pinto se situa, gosta de relevar.
O processo de descolonização em questão deu origem a um país que hoje não existe, o Iémen do Sul, tendo-se fundido com o Iémen, muito mais populoso, em 1990. Ficava situado no extremo sul da Península Arábica, onde o porto de Aden representava um entreposto fundamental do trânsito marítimo entre o Reino Unido, a Índia, a Austrália e o Extremo Oriente, via canal do Suez.
A colónia britânica fora fundada em 1839, pela conquista do porto de Aden pelos britânicos e ampliada durante a 1ª Guerra Mundial, quando eles expulsaram os turcos e estabeleceram uma rede de protectorados sobre as tribos nómadas iemenitas dos territórios adjacentes. Mas a colónia nunca mais perdeu as suas características de território compósito, apesar disso.
Em 1962, os britânicos deram ao conjunto a designação de federação da Arábia do Sul. O processo de condução do território à independência foi perturbado pela disparidade entre Aden e o resto do país, pelas ambições que o Iémen nutria sobre o país (havia um relatório da ONU concluindo que a maioria da população preferiria a fusão) e pela salvaguarda que o Reino Unido procurou fazer dos seus interesses.
A tensão acumulada acabou por explodir a partir de 1966 numa onda de greves, de violência e de actos terroristas protagonizado por duas organizações nacionalistas rivais - FLN e FLOSY – a obrigar o reforço do dispositivo militar britânico, envolvido muito contra sua vontade num conflito triangular envolvendo não só a luta contra a potência colonial mas a luta interna entre as duas organizações nacionalistas.
Num cenário de progressivo desgaste da autoridade britânica, em dificuldades para a exercer mesmo na capital, a data da independência, originalmente marcada para 9 de Janeiro de 1968, é antecipada para 28 de Novembro de 1967. Os comentários cínicos, tentando minorar a fraqueza demonstrada em todo o episódio, alegam que Aden tinha perdido a sua importância depois do encerramento do Canal do Suez, por Nasser, no seguimento da Guerra dos Seis Dias, de Junho de 1967.
O que é mais controverso, e muito menos digno para a Grã-Bretanha, é a alegação que, na impossibilidade das tropas assegurarem um perímetro seguro, a cerimónia do arrear da bandeira por parte das autoridades britânicas, teve que decorrer num dos navios ao largo de Aden, pertencentes à frota que fora enviada para as recolher. Ainda hoje, há uma certa dificuldade na obtenção de fotografias que confirmem ou desmintam tal relato.
Se alguma lei geral se consegue extrair das dezenas de processos de descolonização decorridos depois da 2ª Guerra Mundial, é a de que, perante duas facções rivais na disputa do poder para a fase pós independência, a potência colonial perde rapidamente a iniciativa do ritmo dos acontecimentos e fica sem meios para intervir no terreno. Foi o aconteceu em 1947 na Índia, em 1960 em Chipre e em 1967 no Iémen do Sul, com os britânicos e em 1975, em Angola e Timor, com os portugueses.
E se no Reino Unido, estes fracassos nunca serviram de arma de arremesso político na política interna britânica, também já vai sendo tempo de nos deixarmos destes vetustos lamentos da parte de uma certa direita política, piscando o olho populista a um certo estrato em regressão demográfica, invocando uma quimera descolonizadora, que não acontecendo com Portugal, também não aconteceu com mais nenhum país do Mundo.
(*) Tendo ouvido o Presidente Cavaco Silva na televisão falar recentemente de Timor, convinha que os seus conselheiros o alertassem para se referir a Timor como país e não território, como tem vindo a fazer. É um lapso que pode dar mau aspecto.
Etiquetas:
História,
Iémen,
Outros Tempos,
Reino Unido
Subscrever:
Mensagens (Atom)












