Repare-se acima como, se embarcarmos na estrutura como João Miguel Tavares argumenta o episódio das declarações do ministro da Defesa, deixa de ser primordial aquilo que o ministro disse, para a importância se transferir para as reacções ao que ele, Nuno Melo, teria dito. O teor das suas declarações deixa de ser o núcleo do problema, já que terá sido apenas «algo vagamente surpreendente». Não. O que Nuno Melo disse foi particularmente estúpido e é isso que explicará a amplitude do ribombar das reacções. O exercício a que João Miguel Tavares acima se dedica é o de (tentar) inverter o nexo entre a causa e o efeito, será como tentar pegar um touro mas sem lhe tocar nos cornos (os cornos são os disparates proferidos por Nuno Melo). Em tauromaquia (e é o próprio João Miguel Tavares que evoca a metáfora tauromáquica no seu artigo, quando compara Nuno Melo a «um forcado do Aposento da Moita»), chama-se a esse expediente uma «pega de cernelha» (veja-se imagem acima). Emprega-se quando não se quer ou não se pode pegar o touro de caras. Quanto a forcados, ainda que metafóricos, João Miguel Tavares também não se sai muito bem como cabo honorário dos Amadores de Portalegre.
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02 maio 2024
29 agosto 2022
A MORTE DE «MANOLETE»
29 de Agosto de 1947. A morte do grande toureiro espanhol «Manolete» ocorre na madrugada do dia seguinte a ter sido colhido numa corrida em que participava, em Linares na Andaluzia. Se é compreensível a consternação que o acontecimento causou em Espanha, não deixa de surpreender a ressonância que o mesmo teve em Portugal, ao apreciar-se acima a cobertura destacada e extensa que a nossa imprensa deu ao sucedido.
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06 março 2018
TRUMP E ARENA
Aquilo que vou escrever não passará de um mero processo de intenções mas, sempre me pareceu adivinhar, entre aqueles que neste último ano se têm evidenciado na defesa das atitudes de Donald Trump, especialmente cá em Portugal, um certo comportamento desafiador de quem abraça a causa mais para mostrar a coragem de desempenhar uma tarefa assumidamente ingrata, do que para prestar algum dever de coerência ou de consistência entre as opiniões próprias e as do visado. Assim como os forcados pegam os touros, esse género de defensores de Trump afrontam a pujança das críticas de uma opinião publicada que, sobretudo na Europa, é avassaladoramente crítica e nada condescendente para com o presidente dos Estados Unidos. Será uma forma de se ser simultaneamente valente e diferente. A minha opinião, mais intuitiva do que comprovada, reforçou-se mais recentemente quando se viram as reacções desses marialvas da argumentação às propostas proteccionistas de Donald Trump a respeito do comércio internacional do aço e do alumínio e das subsequentes bravatas que se lhe seguiram, como a declaração subsequente (acima) que as "guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar". Por esta vez, porque as declarações violam o axioma liberal do livre comércio, e para continuar com a metáfora tauromáquica, notou-se que o grupo de forcados - que normalmente navega por aquelas paragens ideológicas - se desalinhou por completo, o forcado da cara primou pela ausência, o primeiro e o segundo ajudas posicionaram-se em paralelo ao sentido da mais que previsível investida do touro mediático (e político) falhando a pega, e a tarefa de segurar as críticas acabou por recair nalguns infelizes rabejadores, o que deixou Trump desamparado em cena, por esta vez também nas redes sociais cá do sítio. O mais irónico nisto tudo, para não abandonarmos as metáforas tauromáquicas, é que, por muito que ouçamos falar das suas declarações, se Donald Trump fosse classificado como um touro de lide na praça, não passaria de um touro probón (aqueles que insistentemente movem a cabeça e dão sinal de investir, mas que nunca mais se decidem a fazê-lo) e isso mais uma vez se parece confirmar desta vez, quando o vemos a dispor-se a trocar as controversas taxas alfandegárias de há dias por aquilo que considere um bom acordo comercial no quadro da NAFTA.
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