Comparando estas duas notícias, e a colossal diferença na cobertura noticiosa, sobretudo televisiva, que tem estado a ser dada a ambos os protestos, permanece o mistério do critério que leva a dedicar muito mais atenção a um (o de cima) do que a outro. Ao contrário do que é reputado canonicamente, não pode ser o carácter sangrento da repressão: «60 feridos e um manifestante baleado» não se comparam a «mais de 100 mortos e de 6.100 feridos». Nem poderá ser relevante a questão da importância por causa da proximidade geográfica, já que o Iraque é-nos muito mais próximo do que Hong-Kong. Uma explicação maldosa remete para a hegemonia que, mau grado tudo, os americanos continuam a exercer sobre a informação internacional: enquanto os culpados da repressão no primeiro caso são convenientes, o regime de transição de Hong-Kong sob a tutela da China, no segundo caso são inconvenientes, pois o regime iraquiano é apenas a consequência da ocupação dos Estados Unidos daquele país entre 2003 e 2011. Mas, se calhar, a explicação é mesmo maldosa. Ele deve haver um critério para que a repressão em Hong Kong seja noticiosamente tão mais importante do que a de Bagdade.
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07 outubro 2019
04 abril 2019
A MORTE DO REI DO IRAQUE
4 de Abril de 1939. A morte de um monarca é sempre um tema noticioso, para mais se ele morre num acidente rodoviário, apenas com 26 anos. O seu filho e sucessor, Faiçal II, tinha apenas 4 anos, o que impunha a criação de uma regência e a consequente disputa sobre quem seria o regente. Tudo se combinava para que o modelo da monarquia ocidental, transplantado depois da Grande Guerra para alguns países árabes pelos britânicos (Iraque, Jordânia), tivesse mais revezes que sucessos.
Nem de propósito, noticiado com alguma casualidade negligente pelo Diário de Lisboa, mas sintoma do péssimo estado das relações anglo-iraquianas, em Mossul os manifestantes haviam aproveitado o momento de luto para incendiar o consulado britânico local, assassinando o consul...
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23 março 2019
BAGDADE EM 1919
Em contraste com o bucolismo da fotografia anterior, aprecie-se o urbanismo cosmopolita da fotografia de uma atarefada rua de Bagdade nesse mesmo ano de 1919. Ao contrário das Highlands escocesas, Bagdade foi disputada durante o conflito, mas a intenção de induzir uma continuidade que a Grande Guerra não terá afectado substancialmente, parece ser a mesma da foto anterior.
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16 dezembro 2018
OPERAÇÃO RAPOSA DO DESERTO
16 de Dezembro de 1998. Sete anos passados sobre a Guerra do Golfo de 1991 tornara-se perceptível que a situação política alcançada na região, com a permanência de Saddam Hussein ainda à frente dos destinos do Iraque, fora uma solução ainda instável. Saddam Hussein sempre se mostrou um vencido muito pouco convencido. E a relação entre os iraquianos e as autoridades da ONU, encarregues de monitorizar os programas de desarmamento e de bom comportamento, a que os iraquianos se haviam originalmente comprometido por ocasião da derrota, essa relação tornara-se disfuncional. Foi tomando por pretexto mais um encadeado de incidentes, que os Estados Unidos (com o seu aliado britânico) desencadearam há precisamente 20 anos uma operação a que deram o nome de Desert Fox. Tratou-se de mais uma série de bombardeamentos a objectivos militares iraquianos que, desta vez, se iriam prolongar por quatro dias (16-19 Dezembro). Como seria de esperar, no fim, a operação foi considerada um sucesso pelos promotores, mas, tal como também seria de esperar, a comunicação social não tinha condições de fazer uma avaliação independente sobre o assunto - limitava-se a transmitir as tão apreciadas imagens dos bombardeamentos nocturnos de Bagdade (acima), um verdadeiro espectáculo de fogo de artificio que saía muito bem nas televisões! Por coincidência (ou talvez não...) por aqueles dias decorriam em Washington os trabalhos da Câmara de Representantes a respeito do «impeachment» do presidente Bill Clinton por causa do Caso Lewinsky. As votações que o condenaram por perjúrio e obstrução à justiça tiveram lugar em 19 de Dezembro e houve quem tivesse memória para se lembrar da enorme coincidência de tudo o que estava a acontecer com o enredo do filme Wag the dog (Manobras na Casa Branca), que estreara no princípio daquele ano...
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23 agosto 2018
UM VERDADEIRO DESASTRE DE RELAÇÕES PÚBLICAS
23 de Agosto de 1990. Depois de ter invadido o Koweit no princípio do mês, e de ter sido surpreendido pela amplitude da reacção hostil dos Estados Unidos, Saddam Hussein protagoniza na televisão iraquiana uma reportagem de 30 minutos (que ele sabia destina a ser retransmitida para todo o mundo) onde aparece a visitar uma família de expatriados britânicos, conversando com alguns deles. Três semanas depois do inicio do conflito, centenas de ocidentais permaneciam impedidos de viajar para fora do Iraque e do Koweit. A mensagem de Saddam mediava entre o aparentemente simpático e o subtilmente ameaçador, mas o resultado entre as opiniões públicas ocidentais, que ele procurava assim cortejar e condicionar, foi um colossal desastre mediático. Tanto, que o momento da reportagem em que Saddam Husseim (que até largara o uniforme para a ocasião!) afaga uma criança visivelmente tensa, rapidamente foi posto a circular, mas pela propaganda adversária! O episódio mostrou a completa falta de consciência, por parte da liderança iraquiana, quanto à imagem pública que ela própria possuía fora das suas fronteiras.
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12 agosto 2018
OS DOIS MIGS SÍRIOS QUE ATERRARAM POR ENGANO EM ISRAEL
12 de Agosto de 1968. Há cinquenta anos, dois caças Mig-17 da Força Aérea síria aterravam inesperadamente num antigo aeródromo militar no Norte de Israel. Apesar de as autoridades israelitas terem noticiado que se devera a causas acidentais, a explicação foi acolhida com um cepticismo que se justificava por vários precedentes. Em 1962, numa operação de espionagem que correra mal, os israelitas haviam tentado aliciar um piloto egípcio de um Mig-17 a desertar para Israel. A operação correra mal, a rede de espionagem foi denunciada e três agentes acabaram executados. Porém, em 1964, uma operação semelhante foi bem sucedida, quando o capitão Mohammad Abbas Helmy da Força Aérea egípcia desertou com o seu Yak-11 de treino para Israel. O desertor veio a ser executado no Cairo dois anos depois. E em Agosto de 1966, realizara-se uma terceira operação do mesmo género, protagonizada agora pelo capitão Munir Redfa da Força Aérea iraquiana, tendo em vista a obtenção de um caça Mig-21. Perante este historial, percebe-se o cepticismo internacional que acolheu as explicações oficiais de que o a aterragem dos Migs-17 do tenente Walid Adham e do 2º tenente Radfan Rifai, da Força Aérea síria, se devera a erros de navegação. Contudo, os pilotos sírios haviam aparentemente usado mapas datados de 1945, haviam entrado no espaço aéreo libanês, haviam-se desorientado e pensavam estar a aterrar numa base aérea do Líbano, quando estavam a aterrar num aeródromo praticamente desactivado em Israel, numa manhã soalheira (eram 08H45), e sem combustível suficiente para tornar a descolar . Era uma história suficientemente estúpida para ser verosímil. Não abonava nada em favor da preparação da navegação que era ministrada pela Força Aérea síria aos seus quadros, mas os factos posteriores vieram corroborá-la: os dois pilotos permaneceram aprisionados até 1970, aquando da realização de uma troca de prisioneiros entre israelitas e sírios. Acrescente-se que, em Outubro de 1989, um major sírio virá a desertar aos comandos de um Mig-23.
01 maio 2018
«MISSION ACCOMPLISHED»
1 de Maio de 2003. Há quinze anos, George W. Bush foi ao porta-aviões USS Abraham Lincoln pronunciar um discurso que foi televisionado para todo um país (a gozar o feriado do dia do trabalhador) onde ele não proferiu a hoje famosa expressão «Mission Accomplished» - na verdade, deixou que a enorme faixa atrás de si, devidamente enquadrada pelas câmaras de televisão, transmitisse essa ideia por si. A Guerra do Iraque tinha acabado... mas não tinha bem acabado. Ou não tinha acabado... mas tinha acabado. Uma delas. Mas o que mais impressionou em todo o episódio não foi o erro de comunicação cometido pela equipa da Casa Branca - tantos erros do mesmo género houve anteriormente e tantos mais haverá, confira-se com o que está a acontecer, potenciado por ser Donald Trump a ocupar o cargo. Impressionante foi a, inédita até aí, resistência manifestada pela equipa de assessores de W. Bush em assumir as suas responsabilidades: segundo eles, Bush não dissera aquilo (argumento numa primeira fase), um argumento rapidamente rebatido pela pergunta «o que é que estava então a fazer a expressão em cima da cabeça dele durante o discurso?»; depois, numa fase posterior, as culpas foram transferidas para a Marinha, já que, nessa segunda versão, fora a tripulação do Abraham Lincoln que promovera a afixação da famigerada faixa, pretendo assim fazer-nos crer que os detalhes da produção e supervisão de todo o espectáculo (o presidente aterrara num avião S-3, vestido de piloto e tudo, distribuíra autógrafos à tripulação), alguma vez tivessem escapado à Casa Branca. A exibição da faixa foi explorada pelos adversários políticos de Bush como mais uma demonstração do irrealismo de como as operações militares no estrangeiro foram montadas pela sua administração: a verdade é que o número de baixas americanas no Iraque foi muito superior após o discurso do que o fora até então... Mas o interessante do incidente tem a ver com um marco que foi franqueado no que concerne à comunicação política. Até aí existira uma regra não escrita que, nas Democracias, quando as justificações falhavam e não pegavam na opinião pública, eram deixadas cair. Só as ditaduras é que continuavam a insistir nas versões oficiais, mesmo que os factos entretanto conhecidos as tornassem desesperadamente inverosímeis - acontecia com a propaganda nazi ou com os comunicados soviéticos da TASS. Por aqui se descobriu que, sob a administração Bush, a mentira em defesa de uma causa ganhou uma nova latitude. (Agora com Trump a coisa ainda vai mais longe.) Resta dizer que, depois de anos de um corrupio de acusações e de desculpas, ao terminar os seus mandatos em 2008, George W. Bush fez o óbvio, lamentando a presença da faixa.
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27 janeiro 2018
A EXPEDIÇÃO DO CORONEL DUNSTERVILLE
27 de Janeiro de 1918. Depois dos britânicos terem conquistado Bagdade dez meses e meio antes, há cem anos partia dessa cidade uma coluna motorizada comandada pelo coronel Lionel Dunsterville que estava encarregue de, internando-se pela Pérsia (apesar de o actual Irão ter sido neutral durante a Primeira Guerra Mundial), alcançar os campos petrolíferos de Baku, então pertencentes a um Império Russo que colapsara e que agora se encontravam à mercê de serem conquistados por um golpe de mão da Turquia otomana. Composta à origem de 12 oficiais e 41 soldados, a expedição foi recebendo o reforço de 210 homens, vindos do Canadá, da Austrália e da África do Sul, ao mesmo tempo que se deparava com dificuldade crescentes, quer as colocadas pelas condições geográficas como se percebe pela fotografia acima, quer por uma hostilidade tanto oficial, quanto informal, das populações das regiões da Pérsia que a coluna ia atravessando. Tanto assim que, prova de uma guerra que se travava a um ritmo hoje difícil de compreender, a coluna motorizada só veio a chegar a Baku em Agosto de 1918, demorando sete meses a cumprir os cerca de 1.300 km que separam as duas cidades.
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14 dezembro 2017
OS SAPATOS VOADORES: A CRISE QUE GEORGE W. BUSH MAIS DEPRESSA SUPEROU
14 de Dezembro de 2008. George W. Bush estava a pouco mais de um mês de terminar o seu segundo mandato presidencial e efectuava uma última viagem ao Iraque quando, por ocasião de uma conferência de imprensa na companhia do primeiro-ministro al-Maliki foi atacado por dois sapatos voadores arremessados por um jornalista local, num episódio tornado mundialmente famoso (acima). Terá sido uma das raras ocasiões em que vimos aquele presidente dos Estados Unidos a lidar descontraidamente com uma situação, ainda para mais inesperada. Não só mostrou destreza para sair totalmente ileso do incidente, como ainda lhe sobrou presença de espírito para uma laracha sobre o número do calçado. A única vítima a destacar do incidente, para além do assaltante (que apanhou uma sova), foi a secretária de imprensa da Casa Branca, Dana Perino que, na confusão que se seguiu, apanhou com um daqueles desajeitados microfones direcionais em cheio num olho, que andou pisado nos dias que se seguiram (abaixo). Quase caso para dizer que ela mereceria uma Purple Heart, a condecoração militar norte-americana para aqueles que foram feridos em combate.
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17 outubro 2017
PELO PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DA OFENSIVA PARA A LIBERTAÇÃO DE MOSSUL
17 de Outubro de 2016. Ao raiar da aurora de há um ano começava finalmente o assalto para a conquista da cidade iraquiana de Mossul. O que se seguirá nos nove meses, até Julho de 2017, não terá sido uma paródia de guerra como a do Solnado, mas terá sido decerto uma paródia de cobertura informativa de uma guerra, à qual dediquei, de resto, dois postes troçando da falta de escrutínio e de profissionalismo dos meios de informação quanto ao que por lá se estava a passar: em Fevereiro e Junho deste ano. A ironia dos tempos modernos é que, ao contrário do que acontecia antigamente, a informação deixou de ser secreta, aparece aí totalmente disponível para os interessados. Uma consulta à Wikipedia mostra que os atacantes de Mossul dispunham de uma superioridade numérica sobre os defensores de 8 a 10 para 1. E, contando com o apoio aéreo dos países ocidentais aos iraquianos, o poder de fogo de cada um dos contendores acentuaria ainda mais a desproporção entre os beligerantes. Contudo, não me recordo de ouvir qualquer dos nossos especialistas mediáticos no tema acompanhar-me no cepticismo quanto ao muito fraco empenho que as forças atacantes estariam a pôr na operação que justificasse, ao menos, que toda essa superioridade humana e material não se concretizasse em resultados. O número de baixas sofridas pelos atacantes no final da operação, um máximo de 1.500 mortos e de 7.000 feridos ao longo de nove meses, parece confirmar essa asserção que havia muita propaganda, mas pouca gente disposta a morrer por Mossul. Não fora assim e nove meses de encarniçados combates ter-se-iam transformado naturalmente num épico, uma espécie de Estalinegrado do Médio Oriente (cidade pela qual se combateu durante cinco meses e meio). Para sintetizar e simbolizar a atitude dos atacantes, que mais do que combatê-los, estiveram à espera que os seus inimigos se aborrecessem e se fossem embora, encontrei a fotografia acima. Evidentemente encenada, aos dois combatentes não parece faltar armamento, nem equipamento: duas armas para cada um (num dos casos um RPG), colete e estojo de primeiros socorros, a pose marcial e aguerrida acaba estragada pelo alçar da perna de um deles, deixando ver uma sapatilha, que estes guerreiros modernos devem ter uns pés sensíveis, a quem as tradicionais botas militares fazem muitas bolhas...
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02 setembro 2017
A GUERRA IRÃO - IRAQUE (1980-88)
Não é a primeira vez que o conflito entre o Irão e o Iraque é abordado neste blogue. Mas aquilo que aprendi com este livro, quando comparado com o da Osprey que me serviu de suporte ao que aqui escrevi vai para mais de dez anos, faz uma diferença abissal no que acabo por reter de essencial das caraterísticas daquela guerra. Na altura designei-a por esquecida, mas a expressão que melhor a designa será abafada. Guerra abafada pelas que se lhe sucederam, nomeadamente a Guerra do Golfo de 1990-91. Para além das 500 páginas do livro propriamente dito, há ainda umas 75 de anexos e detalhes, onde se pode descobrir, por exemplo, que Portugal facturou uns 760 milhões de dólares ao Irão, vendendo-lhe obuses e munições dos mais variados calibres (p. 560). Um pormenor que por cá se transformou no embrião de um escândalo, ainda hoje não muito bem explicado. Pierre Razoux é um historiador francês com uma obra vocacionada para os conflitos contemporâneos especialmente naquela região do Médio Oriente. (Atenção ao momento pedante à Nuno Rogeiro...) Conheço-lhe outras obras, a respeito da Guerra dos Seis Dias (1967), da do Yom Kippur (1973), ou da do Líbano de 2006. Neste livro em concreto, as suas simpatias pelo lado iraquiano e mesmo pela pessoa de Saddam Hussein são perceptiveis, algo tanto mais notável quanto a propaganda de guerra norte-americana veio a transformar o ditador iraquiano numa besta sanguinária irrecuperável depois de 1991. A descrição dos protagonistas do lado iraniano (Khomeini, Rafsanjani, Khamenei) é para ser tomada cum grano salis. Sobre o Irão existe melhor, mas duvido que o mesmo aconteça sobre o conflito propriamente dito.
02 agosto 2017
HÁ 27 ANOS O IRAQUE INVADIA O KOWEIT
2 de Agosto de 1990. Ao fim de dez anos de espera, a cadeia internacional de notícias CNN tinha finalmente aquele acontecimento para a qual fora concebida (e não irá desmerecer a ocasião): uma guerra com muitos meios militares (blindados, aviação, etc.) para exibir. Mas atenção: mais do que uma guerra próximo das frentes de combate (tal como chegara a acontecer 22 anos antes no Vietname), tornava-se uma guerra que, tanto quanto possível, era para ser transmitida com imagens em directo. Como se percebe pelas imagens acima, privilegiava-se o que sentiriam os koweitis comuns ao verem-se invadidos pelos soldados iraquianos, em detrimento da análise do que pudessem ser as intenções e/ou a dissecação do conteúdo do previsível ultimato que Saddam Hussein teria apresentado ao Emir do Koweit. Com este estilo, a CNN destacava-se na batalha pelas audiências, as outra rivais copiavam-no, e o modelo acabava por transformar decisivamente tanto jornalistas quanto militares para o futuro: a) os primeiros passaram a noticiar não em função do que é importante que esteja a acontecer, mas em função das imagens que se arranjam para mostrar; b) os segundos organizam os seus planos de operações em função já não tanto (nem exclusivamente) do inimigo quanto da imagem que pretendem transmitir para a opinião pública doméstica.
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22 junho 2017
MOSSUL: A BATALHA URBANA QUE DURA HÁ MAIS TEMPO DO QUE ESTALINEGRADO
Já não é a primeira vez que falo do tema, mas a verdade é que nada aconteceu depois disso. Os meses passam, as proclamações da libertação de Mossul do controle das forças do Estado Islâmico sucedem-se com tal regularidade que se pode dizer mesmo que se acumulam, quais peças num cesto da roupa suja. Os órgãos de comunicação social de todo o Mundo continuam a retransmitir aquelas proclamações acriticamente como se os jornalistas não possuíssem cérebro nem memória. Se calhar não possuem mesmo, e é para ser mesmo assim, uma extensão da propaganda ocidental. Não o fosse e essa e tantas outras questões impertinentes pôr-se-iam a respeito de muitos outros assuntos que não somente o de Mossul. Por exemplo: que é feito, onde andam e que têm feito os dois porta-aviões que os Estados Unidos mobilizaram para as águas coreanas, ostensivamente para intimidar a Coreia do Norte? A verdade é que a intimidação não parece estar a dar efeito: mesmo com os dois porta-aviões à porta(?), os norte-coreanos devolveram um prisioneiro americano mesmo a tempo para que ele não lhes morresse nos braços. E aí, onde Donald Trump tinha razões para urrar de indignação, já havia gasto os seus estados de alma em tweets precedentes provocados por razões de lana caprina. Mas retornemos à Batalha de Mossul, a tal cidade do Iraque que anda a ser libertada há oito meses(!). Vai-se aos números publicitados e os atacantes dispõem de uma vantagem de efectivos de 10 para 1. Quanto a meios militares, é melhor nem falar. Mas quanto às promessas e proclamações elas já passaram do ridículo para o outro lado. Para comparação, a famosa Batalha de Estalinegrado da Segunda Guerra Mundial durou uns meros cinco meses e meio. Só que aí, sabe-se, havia raiva de um lado e outro, de atacar mas também de resistir, mesmo quando os papéis se inverteram. Neste caso, a suspeita é que, perante um tal arrastar dos acontecimentos, não esteja a haver grande vontade de atacar. Quando as televisões vão à «frente de combate» para captar imagens para a notícia que anunciará a próxima queda de Mossul para os iraquianos, dão-se uns tiros para o outro lado para que os repórteres filmem, mas dá toda a impressão que a ideia é que se está à espera que os gajos do Estado Islâmico se chateiem e vão mesmo embora sem que os soldados iraquianos tenham que combater. É essa a impressão, a de que do lado iraquiano ninguém está com vontade de se deixar matar por Mossul. A força do Estado Islâmico não será própria, advém é da fraqueza daqueles que o combatem. Mas, se a impressão estiver errada, aí convém que os jornalistas, em vez de ainda mais proclamações, comecem a filmar a ferocidade de combates que, pela duração da Batalha, ofuscarão decerto em ferocidade os que se desenrolaram em Estalinegrado.
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11 março 2017
O CENTENÁRIO DA CONQUISTA DE BAGDADE
A 11 de Março de 1917 as unidades anglo-indianas do general Frederick Maude entravam em Bagdade. Naquela época tudo parecia informativamente simples e só havia fotografias devidamente encenadas para capturar o momento, como é o caso da que se pode apreciar acima. Se calhar, ainda bem que não havia ainda agências de informação como a euronews, para anunciar, reanunciar, e continuar a repetir a mesma notícia da captura da cidade pelos meses vindouros, como agora acontece com Mossul.
Mas também não era preciso, porque por uma vez anunciada, por essa vez chegava. Por outro lado, refira-se que os turcos haviam elaborado (e colaborado) canonicamente a sua manobra de retirada, e não haviam deixado qualquer combatente para trás para dizer coisas, nem sequer se concebia a existência de ministros da informação para negar o óbvio (abaixo). Nestas guerras modernas tudo se torna tão complexo que quase nem sobra tempo para elem darem uns tiros uns aos outros, como protocolado.
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Primeira Guerra Mundial
23 fevereiro 2017
O QUE VALE É QUE SE ESTÁ SEMPRE A CONQUISTAR MOSSUL...
Esta notícia da Euronews podia passar por recentíssima mas, por acaso, tem mais de três meses e meio. A 1 de Novembro de 2016 era notícia que o exército iraquiano entrara em Mossul.
Esta outra notícia da Euronews é que também podia ser actual, mas não é: tem mais de mês e meio, porque foi a 30 de Dezembro que aquela estação noticiava que o tal exército que entrara em Mossul ia iniciar uma segunda fase da reconquista de Mossul.
E esta notícia, ainda e sempre da Euronews, é que é de facto de hoje, a que nos dá conta que os tais, aqueles que haviam entrado na cidade há uns quatro meses e iriam reconquistar a cidade por fases há dois, afinal só agora é que chegaram ao aeroporto de Mossul.
Tantas vezes conquistada e reconquistada, se fosse a sério, Mossul adquiriria ressonâncias de uma nova Estalinegrado... Que raio, ninguém escrutina a verdade do que dali é noticiado? É que tudo isto parece uma paródia, o aeroporto fica apenas a 3,5 km do centro da cidade... Volta Bagdad Bob, estás perdoado.
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21 novembro 2016
OS PRIMÓRDIOS DA POLÍTICA PÓS-FACTUAL
Muhammad Saeed al-Sahaf, que se tornou mundialmente conhecido pelas alcunhas de Ali o Cómico ou então de Baghdad Bob, foi o ministro da informação do regime de Saddam Hussein. Não sofresse ele a discriminação de ser iraquiano e estaria agora a ser reconhecido como um dos pioneiros da política pós-factual. Foi azar o dele que os factos que lhe pediram para cultivar na percepção pública pudessem ser infirmados com a presença de alguns carros de combate e outra parafernália bélica. Devia-se ter ficado apenas pela promessa de que Saddam iria fazer o Iraque great, again...
18 janeiro 2016
SOBRE A SÍRIA SÓ SEI QUE POUCO SEI
Os complexos mapas que vão sendo publicados sobre a situação militar na Síria são suficientemente elucidativos quanto à dificuldade em identificar as facções em confronto, quais as suas posições e as regiões que estão militarmente em disputa. Mas, melhor que esses na expressão da complexidade da situação, que já transbordou para o Iraque, só mesmo um gráfico que foi apresentado pela revista The Economist já há vários meses, onde cruzou as atitudes entre si dos diversos actores do conflito: são 14(!) actores, apesar de todas as simplificações ali feitas (os Estados Unidos e os vários países da União Europeia estão emparelhados, por exemplo, e o mesmo acontece com a Arábia Saudita e os vários países da Liga Árabe - ora isso não é propriamente verdade...). Claro que o potencial militar no terreno e o peso político daqueles 14 actores variarão enormemente, mas apercebemo-nos pelo panorama geral de como a constituição de dois blocos antagónicos, confederando por negociação os objectivos em dois polos rivais, se afigura mais do que problemática. Ao contrário do enredo clássico de um filme do Oeste, não existem apenas dificuldades para que os bons se ponham de acordo: os norte-americanos não vão deixar de embirrar com Assad e o seu governo e os russos não vão deixar de o defender; os maus do fundo do gráfico, a Al-Qaeda e o Daesh, antagonizam praticamente todos os outros actores, mas não será por isso que deixarão de rivalizar entre si quanto à supremacia de ser o pior. Sinceramente, acho que a maioria das notícias que nos chegam da Síria são assertivas demais para a situação que o esforçado gráfico da The Economist procurou sintetizar.
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31 agosto 2015
QUEM SE LEMBRA DA TRAGÉDIA DO ESTÁDIO DO HEYSEL?
Comemora-se hoje o décimo aniversário de uma tragédia que custou a vida a quase mil (953) peregrinos iraquianos por ocasião de uma tradicional peregrinação xiita. Antes das cerimónias, numa das colunas de dezenas de milhares que se iria concentrar no santuário em Bagdade, alguém apontou para alguém dizendo que se tratava de um bombista suicida e gerou-se o pânico precisamente quando parte dessa coluna atravessava uma das mais importantes pontes (Al-Aimmah) que cruza o rio Tigre. As mortes ocorreram por esmagamento no próprio tabuleiro da ponte e nos acessos (acima) e também por afogamento, quando as pessoas em desespero se atiraram ao rio. Hoje, não encontrei nenhuma evocação deste acontecimento na imprensa ocidental. O contraste é colossal quando em comparação com episódios idênticos ocorridos por cá, como será o caso do Heysel e da final da Taça dos Campeões de 1985, que causou 39 mortes e que é repetidamente evocado todos os anos (este ano foi o 30º aniversário). Sendo o aniversário mais recente e sendo o número de vítimas 25 vezes superior, não restem dúvidas que o interesse do Ocidente pelo que se passa naquelas paragens é diminuto e, não desculpando o seu inaceitável barbarismo, percebe-se por estas constatações porque é que os radicais islâmicos quando pretendem chamar a atenção da imprensa internacional para as suas acções preferem decapitar os ocidentais. Aos locais, e como se constata, mesmo que morra um milhar deles, não se costuma prestar particular atenção. E em alternativa, os leões estão extintos naquelas paragens desde há muito...
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10 agosto 2014
«OBAMA: ON IRAQ»
Quando Niall Ferguson escreveu Colossus, o Preço do Império da América em 2004 (já há dez anos…), chamou a atenção para os três défices (p. 290) que já então perturbavam e que cada vez perturbariam mais a projecção do poder dos Estados Unidos à escala mundial: progressiva exiguidade de recursos financeiros, diminuição de recursos humanos e aquele que considerava o mais difícil de superar e que designou por défice de atenção: a (in)capacidade da opinião pública norte-americana em lidar com problemas que, pela complexidade da sua resolução, superem os ciclos eleitorais internos dos Estados Unidos (4/8 anos de um ou dois mandatos na presidência).
Raras vezes essa ultima limitação se tem tornado tão visível quando ontem, por ocasião do discurso de Barack Obama a respeito da situação no Iraque e da iniciativa de desencadear uma operação aérea. Arranjara-se umas vítimas convenientes para salvar, os yazidis, que quase ninguém sabe que existiam antes de evocados, salvavam-se os bons, castigavam-se os maus. Mas, por muito que o presidente produza um discurso naquele estilo profissionalmente composto que lhe conhecemos, percebe-se o quanto o Iraque (assim como o Afeganistão) é para Obama um conflito antigo, uma herança de George W. Bush, que lhe merece uma atenção apenas relutante, face aos conflitos seleccionados pela sua administração, como as revoltas nos países árabes (Egipto ou Síria) ou a desforra que os russos têm desencadeado na Ucrânia.
Depois de mais de dez anos de um generosamente financiado programa de nation building, a evidente incapacidade do regime iraquiano em suster a ameaça de fundamentalistas islâmicos ressuscita, naqueles que ainda se lembram, os fantasmas de um colapso como o do Vietname do Sul na Primavera de 1975. Acentuando o paralelo, os mapas de guerra (acima) mostram-nos que já existe uma ampla mancha de infiltração das forças dos fundamentalistas islâmicos (assinalada a rosa). Um pormenor final de uma manipulação que é recorrente: note-se a sugestão na rota dos aviões, fazendo-os originários do mar como aviação embarcada. Mostrando-os operados a partir de porta-aviões os Estados Unidos mostram ter uma autonomia que de facto não existe. Parte dos aviões envolvidos operaram obrigatoriamente a partir de bases aéreas localizadas nos países vizinhos, mas nos vídeos divulgados pelo Pentágono as descolagens são SEMPRE de porta-aviões.
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07 julho 2014
O RELÓGIO DO CALIFA
Ao exporem publicamente os seus líderes, os movimentos subversivos transitam para um outro campo de batalha, o mediático. Os insurrectos islâmicos sunitas que têm feito perigar o regime iraquiano correram esse risco quando apresentaram este vídeo com a pregação do seu califa Abu Bakr al-Bagdadi (أبو بكر البغدادي). O regime iraquiano reagiu de forma convencional, levantando dúvidas de que a pessoa que aparece no vídeo é quem pretende ser. Porém, uma outra forma mais imaginativa de o(s) contra-atacar foi concentrar-se na opulência do relógio (Rolex? Omega?) do orador quando em contraste com o conteúdo do seu discurso. Mas substantivamente, as notícias que circulam no Ocidente a respeito do novo califa nem sequer se dão ao trabalho de tentar especular sobre quais as possíveis razões para a adopção daquele nome de Abu Bakr,…
...o mesmo do primeiro califa sucessor de Maomé (632-634), figura respeitável mas que teve um reinado demasiado curto (ao contrário, por exemplo, do seu sucessor Omar, o verdadeiro fundador do império árabe) para que a adopção do seu nome pretenda representar algo mais do que uma mera intenção de retorno à simbologia primitiva do Islão. É nesse sentido que o relógio ou a ventoinha que o refresca podem revelar-se interessantes armas de arremesso. Apesar das ambições norte-americanas para a região, percebe-se uma profunda incompreensão recíproca entre povos, simbolizável por esta fotografia de Abril de 2005, onde vemos George W. Bush a passear de mão dada com Abdallah, então ainda o príncipe-herdeiro saudita, num significativo gesto de amizade nos países árabes, com um significado equivocamente diferente nos Estados Unidos...
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