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16 dezembro 2023

OPERAÇÃO RAPOSA DO DESERTO

(Republicação)
16 de Dezembro de 1998. Sete anos passados sobre a Guerra do Golfo de 1991 tornara-se perceptível que a situação política alcançada na região, com a permanência de Saddam Hussein ainda à frente dos destinos do Iraque, fora uma solução ainda instável. Saddam Hussein sempre se mostrou um vencido muito pouco convencido. E a relação entre os iraquianos e as autoridades da ONU, encarregues de monitorizar os programas de desarmamento e de bom comportamento, a que os iraquianos se haviam originalmente comprometido por ocasião da derrota, essa relação tornara-se disfuncional. Foi tomando por pretexto mais um encadeado de incidentes, que os Estados Unidos (com o seu aliado britânico) desencadearam há precisamente 25 anos uma operação a que deram o nome de Desert Fox. Tratou-se de mais uma série de bombardeamentos a objectivos militares iraquianos que, desta vez, se iriam prolongar por quatro dias (16-19 Dezembro). Como seria de esperar, no fim, a operação foi considerada um sucesso pelos promotores, mas, tal como também seria de esperar, a comunicação social não tinha condições de fazer uma avaliação independente sobre o assunto - limitava-se a transmitir as tão apreciadas imagens dos bombardeamentos nocturnos de Bagdade (acima), um verdadeiro espectáculo de fogo de artificio que saía muito bem nas televisões! Por coincidência (ou talvez não...) por aqueles dias decorriam em Washington os trabalhos da Câmara de Representantes a respeito do «impeachment» do presidente Bill Clinton por causa do Caso Lewinsky. As votações que o condenaram por perjúrio e obstrução à justiça tiveram lugar em 19 de Dezembro e houve quem tivesse memória para se lembrar da enorme coincidência de tudo o que estava a acontecer com o enredo do filme Wag the dog (Manobras na Casa Branca), que estreara no princípio daquele ano...

02 maio 2023

OS DOIS JOVENS REIS HACHEMITAS

2 de Maio de 1953. É o dia em que, por coincidência, Faiçal II (1935-1958), rei do Iraque (à esquerda), atinge a maioridade e assume as responsabilidades como monarca e o seu primo Hussein I (1935-1999), rei da Jordânia, assume também o trono por incapacidade de seu pai. Os dois primos, que têm a mesma idade e passaram por processos de formação académica muito semelhantes (modelo britânico), são reis de duas monarquias árabes não tradicionais, que haviam sido forjadas depois de 1918 a partir dos despojos do império Otomano. A família dos dois monarcas era (e é) conhecida pela denominação de hachemitas. E a instituição monárquica em qualquer dos dois países era muito periclitante. Apesar das aparências que a situação política no Iraque era mais estável que na Jordânia, foi Faiçal II que só sobreviveu cinco anos no trono do Iraque (foi assassinado num golpe de Estado) enquanto Hussein I sobreviveu a inúmeros golpes de Estado e tentativas de assassinato, para morrer precocemente aos 64 anos, mas de cancro. A Jordânia é, ainda hoje, uma monarquia.

01 maio 2023

«MISSION ACCOMPLISHED»

1 de Maio de 2003. Há vinte anos, George W. Bush foi ao porta-aviões USS Abraham Lincoln pronunciar um discurso que foi televisionado para todo um país (a gozar o feriado do dia do trabalhador) onde ele não proferiu a hoje famosa expressão «Mission Accomplished» - na verdade, deixou que a enorme faixa atrás de si, devidamente enquadrada pelas câmaras de televisão, transmitisse essa ideia por si. A Guerra do Iraque tinha acabado... mas não tinha bem acabado. Ou não tinha acabado... mas tinha acabado. Uma delas. Mas o que mais impressionou em todo o episódio não foi o erro de comunicação cometido pela equipa da Casa Branca - tantos erros do mesmo género houve anteriormente e tantos mais haverá. Impressionante foi a, inédita até aí, resistência manifestada pela equipa de assessores de W. Bush em assumir as suas responsabilidades: segundo eles, Bush não dissera aquilo (argumento numa primeira fase), um argumento rapidamente rebatido pela pergunta «o que é que estava então a fazer a expressão em cima da cabeça dele durante o discurso?»; depois, numa fase posterior, as culpas foram transferidas para a Marinha, já que, nessa segunda versão, fora a tripulação do Abraham Lincoln que promovera a afixação da famigerada faixa, pretendo assim fazer-nos crer que os detalhes da produção e supervisão de todo o espectáculo (o presidente aterrara num avião S-3, vestido de piloto e tudo, distribuíra autógrafos à tripulação), alguma vez tivessem escapado à Casa Branca. A exibição da faixa foi explorada pelos adversários políticos de Bush como mais uma demonstração do irrealismo de como as operações militares no estrangeiro foram montadas pela sua administração: a verdade é que o número de baixas americanas no Iraque foi muito superior após o discurso do que o fora até então... Mas o interessante do incidente tem a ver com um marco que foi franqueado no que concerne à comunicação política. Até aí existira uma regra não escrita que, nas Democracias, quando as justificações falhavam e não pegavam na opinião pública, eram deixadas cair. Só as ditaduras é que continuavam a insistir nas versões oficiais, mesmo que os factos entretanto conhecidos as tornassem desesperadamente inverosímeis - acontecia com a propaganda nazi ou com os comunicados soviéticos da TASS. Por aqui se descobriu que, sob a administração Bush, a mentira em defesa de uma causa ganhou uma nova latitude. Resta dizer que, depois de anos de um corrupio de acusações e de desculpas, ao terminar os seus mandatos em 2008, George W. Bush fez o óbvio, lamentando a presença da faixa.

03 abril 2023

RELEMBRANDO «BAGDAD BOB»

3 de Abril de 2003. Está-se em plena invasão do Iraque pelos Estados Unidos, e o ministro da informação iraquiano chama-se, na verdade, Mohammed Saeed al-Sahhaf. As suas intervenções mediáticas são de tal modo ridículas e desastrosas que os norte-americanos fazem-lhe a cortesia de ampliar ainda mais a sua divulgação mundial, atribuindo-lhe ao mesmo tempo uma alcunha apalhaçada: «Bagdad Bob». Quase tudo ali é caricato. O ministro aparece fardado quando nunca foi militar. Existe aquela montagem de microfones por detrás da qual ele aparece para falar, mas que se percebe ser forjada: é que no amontoado de logotipos não aparece nenhum reconhecível. E ainda não chegámos à intervenção propriamente dita de Bagdad Bob, onde ele mostra uma impressionante falta de ritmo (percebe-se que ele tem até dificuldade em ler com fluidez o texto que lhe fora preparado de antemão). É tudo tão mau que deixa as audiências boquiabertas. Mas será o despropósito daquilo que ele diz que o popularizará e virá a constituir mesmo um estilo: desde as asserções que "os soldados americanos se estavam a suicidar às centenas" até à negação enfática que os blindados americanos tivessem entrado em Bagdad quando os jornalistas os haviam visto a algumas centenas de metros do local onde decorria a própria conferência de imprensa. O estilo Bagdad Bob consistia em mentir descaradamente e negar o que era óbvio. Há 20 anos tal estilo conseguia surpreender e mesmo divertir os invasores norte-americanos que o distribuíam ao resto do Mundo. Nos dias que correm, os mesmos norte-americanos já se podem orgulhar de ter elegido um presidente que usa precisamente o mesmo estilo de mentir descaradamente e de negar o óbvio: Donald Trump. Terá sido uma vingança (por infecção?) tardia de Saddam Hussein?

05 fevereiro 2023

COLIN POWELL NO CONSELHO DE SEGURANÇA DA ONU

5 de Fevereiro de 2003. Numa extensa apresentação de uma hora e um quarto o secretário de Estado Colin Powell explica as razões por que o seu país considera necessário invadir o Iraque. A ocasião recebeu uma cobertura mediática pouco habitual. Tanto quanto a audiência doméstica (mesmo sendo uma reunião de um organismo internacional, ela tem lugar em Nova Iorque, nos Estados Unidos), terá existido uma preocupação em convencer directamente as opiniões públicas dos países tradicionalmente aliados dos Estados Unidos na Europa, Canadá, Japão, Oceânia e América do Sul. A grande maioria dos governos destes últimos países mostravam-se cépticos sobre as alegações dos norte-americanos e, por isso, reticentes às suas conclusões. Como qualquer espectáculo para massas, a complexidade diplomática da questão iraquiana ficou reduzida a um tópico: a existência de armas de destruição maciça (WMD na sigla em inglês) que, segundo Washington, estariam a ser escondidas pelo regime de Bagdad e que poderiam ser uma ameaça à paz mundial. Esta extensa apresentação de Colin Powell - provavelmente o membro da administração Bush com um maior índice de credibilidade popular - incidiu precisamente na exibição de provas dessa existência. A curto prazo não se mostrou convincente. E a médio prazo, depois da invasão que ocorreu mau grado as reacções, o feito foi desastroso para a credibilidade mediática global dos Estados Unidos, porque não se encontraram quaisquer armas WMD. (Vasco Rato ficou de se despir no Rossio, e ainda não cumpriu a promessa...) Pessoalmente, para Colin Powell, as consequências foram ainda piores, como ele próprio depois reconheceu (abaixo).

29 janeiro 2022

O APARECIMENTO DA EXPRESSÃO «EIXO DO MAL»

29 de Janeiro de 2002. No seu discurso do Estado da União dirigido às duas câmaras do Congresso, o presidente George W. Bush emprega pela primeira vez a expressão «Eixo do Mal» (axis of evil no original). Na altura, o presidente identificou quem o compunha: a Coreia do Norte, o Irão e o Iraque. No entanto, ao contrário do Eixo da Alemanha, Itália e Japão da Segunda Guerra Mundial, onde a expressão se inspirara, nos vinte anos entretanto decorridos depois daquele discurso nunca se conseguiu explicar de que forma é que aqueles três países - Coreia do Norte, Irão e Iraque - se articulavam de forma concertada entre si para actuarem no panorama internacional como um eixo. Talvez porque no caso mais antigo se tratasse de uma verdadeira aliança funcional entre os três países e no segundo caso, o do século XXI, se tratasse apenas de uma expressão com ressonância, mas desprovida de significado.

07 junho 2021

MISSÃO OSIRAK

Domingo, 7 de Junho de 1981. Uma formação de caças F-16 e F-15 israelitas bombardeia e danifica seriamente uma central nuclear iraquiana que ainda estava em fase de acabamento. A central nuclear denominava-se Osirak e estava a ser construída com a tecnologia e a colaboração francesa. Apesar das garantias prestadas pelas duas partes envolvidas (Iraque e França) de que os dois reactores nucleares não iriam ser utilizados - nem teriam capacidade - para a produção de armamento nuclear, os israelitas, cépticos, desencadearam unilateralmente o ataque preventivo. O único aliado circunstancial de Israel neste seu ataque clandestino ao Iraque terá sido - ironia suprema! - o Irão, que estava então envolvido na guerra Irão-Iraque e a quem também interessava descartar a hipótese, ainda que remota, de que o seu inimigo pudesse vir a possuir armas nucleares. Hoje, parece adquirido que essa hipótese era absurda. A paranóia israelita contara muito, mas o que mais terá pesado na decisão israelita terá sido o significado político do gesto, demonstrando aos países árabes vizinhos a que limites Israel estaria disposto a ir para manter a superioridade nuclear na região. Significativamente a operação, que permanecera secreta até à sua execução, foi depois propagandeada em todos os seus detalhes, numa página da wikipedia que lhe é dedicada em exclusivo (abaixo, assinalada a azul a rota dos aviões sobre a Arábia Saudita). A conclusão é que os israelitas são ainda melhores publicistas do que militares. Em contraste, dois meses antes, os iranianos tinham por sua vez também efectuado um muito bem sucedido raid aéreo a longa distancia para bombardearem uma base aérea iraquiana de retaguarda denominada H-3 (assinalado a verde no mapa). A esse raid mal se deu cobertura noticiosa na altura, e ainda hoje vale apenas meia dúzia de linhas nas páginas da wikipedia. E no entanto, do ponto de vista militar, a dos iranianos foi uma operação bem mais complexa e interessante do que aquela que motivou este poste.

02 maio 2021

DESCODIFICANDO ALGUMAS NOTÍCIAS DE GUERRA HÁ OITENTA ANOS

2 de Maio de 1941. O exemplo acima de uma edição daquele dia mostra como a página de um jornal pode ser informativa sem ser explicativa e muito menos reflexiva. Informar o leitor que desembarcara no Iraque mais um contingente de tropas britânicas contornava as explicações das razões que levavam o Reino Unido a tomar tal iniciativa, quando tanto precisavam de tropas nas frentes de combate contra alemães e italianos. Na realidade a tensão viera a acumular-se tanto entre as forças militares britânicas estacionadas no Iraque e as autoridades do país que, nesse mesmo dia, começara uma guerra declarada entre as duas partes. Duraria cerca de um mês e terminaria com a vitória inglesa e com o derrube do regime iraquiano, que fora apoiado pelos alemães. Já aqui me referi ao assunto como um daqueles (pouco conhecidos) «sideshows» da Segunda Guerra Mundial. Duas colunas ao lado, uma outra notícia assegurava ao leitor que 80% das tropas britânicas presentes na Grécia haviam sido evacuadas o que prefigurava mais um sucesso das armas britânicas, ao jeito do que acontecera no ano anterior em Dunquerque. Aqui ficava a faltar a reflexão de questionar como é que os britânicos estariam a contar vencer a Guerra, se o que eles apenas conseguiam fazer era retirar do continente cada vez que ali desembarcavam, por muito que depois viessem propagandear que as suas evacuações de tropas eram magnificamente bem sucedidas.

24 fevereiro 2021

O VERDADEIRO INÍCIO DA OPERAÇÃO TEMPESTADE DO DESERTO

24 de Fevereiro de 1991. Só neste dia de há trinta anos é que começaram as primeira operações terrestres de invasão do Iraque para a libertação do Kuwait, conforme pode ser observado pelo mapa supra. Visto a esta distância, a grande proeza da coligação foi conseguir andar a fazer espuma durante mais de um mês (desde 17 de Janeiro), a entreter as audiências televisivas de todo o Mundo, como se algo de decisivo do ponto de vista militar estivesse em curso. Agora é que as coisas sérias iam começar mas, ao contrário de guerras anteriores como a do Vietname ou a da Guiné, onde os jornalistas haviam andado à solta, desta vez eles iam ser devidamente pastoreados para sentirem que viam combates a sério, mas com o cuidado de não exibirem nem relatarem nada que fosse verdadeiramente incómodo. Valha a verdade que o assunto também ficou despachado rapidamente - em 28 de Fevereiro Saddam Hussein rendera-se.

29 janeiro 2021

A «BATALHA» DE KHAFJI

29 de Janeiro de 1991. Havia quase duas semanas que a ofensiva de bombardeamentos desencadeada a partir de 17 de Janeiro pela coligação liderada pelos Estados Unidos prosseguia, mas a verdade é que a Guerra do Golfo, por muito mediática que estivesse a ser, prosseguia só no ar. No mar e sobretudo em terra, não se anunciavam quaisquer movimentações da parte das tropas aliadas para desalojar o exército iraquiano que invadira e se instalara em território do Koweit, que era afinal, o propósito último daquela guerra. Eis senão quando, nesta guerra que se travava também para proveito das audiências, os iraquianos saem da defensiva e desencadeiam um ataque sobre a cidade fronteiriça saudita de Khafji. Foi uma manobra audaciosa e com que os adversários não contavam. Num dia, a cidade foi conquistada pelos iraquianos, mas a conquista era inconsequente do ponto de vista militar: nos dois dias seguintes, a cidade foi retomada, tendo a coligação tido o cuidado de atribuir os louros da reconquista a unidades militares sauditas e qataris. Objectivamente foi um pequeno recontro de três dias, com o nome pomposo de batalha, mas com as baixas pessoais a rondar as poucas centenas (se tanto) em qualquer dos lados. E no entanto, tornou-se um bom pretexto para, nas semanas que se seguiram, haver uma romaria de equipas de televisão na cidade para filmarem os estragos dos combates. A RTP também teve a sua oportunidade (abaixo), naquela ocasião abrilhantada pela apresentação - o drama, a tragédia, o horror! - de Artur Albarran.

17 janeiro 2021

AINDA A PROPÓSITO DA GUERRA DO GOLFO, UMA INVOCAÇÃO SAUDOSA D(E MAIS UMA D)AS «TRETAS» DE NUNO ROGEIRO

Ainda a propósito da madrugada televisiva que acompanhou o início da Guerra do Golfo, a invocação acaba por se tornar pretexto para regressar aos protagonistas, uns já desaparecidos (Virgílio de Carvalho), outros discretos (Manuel Menezes), os outros ainda activos e mais proeminentes, como José Rodrigues dos Santos e Nuno Rogeiro. Nem de propósito, calhou que no trecho do arquivo da RTP para onde linkei, e logo no primeiro minuto do vídeo, aparece o último dos referidos (Nuno Rogeiro) a abrilhantar-se naquilo em que a guerra o popularizará: nas referências desenvoltas aos equipamentos de combate e no conhecimento pormenorizado das suas especificidades técnicas (alcance dos mísseis, tectos de actuação dos aviões, sistemas de armamento das fragatas)... Citemo-lo numa passagem em que se refere a uns aviões de construção soviética tratando-os por tu:
«- ...e se tiver intactos alguns aviões, nomeadamente os SU-24, os Fencer, usá-los também. Eu devo lembrar que esses aviões SU-24 foram considerados há cerca de dez anos, os aviões mais perigosos que a União Soviética tinha para ameaçar a NATO, porque são aviões do tipo dos F-111, podem voar baixo e podem ser armados com misseis de longo alcance. O grande problema do Iraque é que só tem (segundo se crê) menos de dez SU-24. Mas se os tiver intactos ainda poderá fazer alguns estragos. Agora tenho a impressão que tudo o que vier a fazer a partir de agora são estragos simbólicos
O escrutínio dos trinta anos transcorridos não é nada abonatório para as avaliações de Nuno Rogeiro. À época, o SU-24 era um daqueles aviões de combate soviéticos sobre o qual se especulava imenso, conforme se comprova pelas páginas (acima e abaixo) que lhe eram dedicadas num manual publicado na época (1986), que eu ainda guardo cá em casa. Como é muito frequente naquele meio, na dúvida, atribuíam-lhe capacidades técnicas que o avião não teria. Quando ao emprego que os iraquianos deram aos 30 SU-24 que possuíam, inseri por debaixo da fotografia de Rogeiro aquilo que a Wikipedia contém a esse respeito: 24 deles foram evacuados para o Irão (que ficou com eles); outros 5 foram destruídos no solo  e só 1 último sobreviveu. Ao contrário do que Rogeiro anunciava, os SU-24 não fizeram quaisquer «estragos», nem, pior, parece ter havido sequer intenção que os fizessem, ao fugirem para o Irão... Claro que aqui se aplica como uma luva o ditado que estabelece que «em terra de cegos quem tem um olho é rei», e ele era ali insubstituível naquelas circunstâncias para aquele género de comentários, mas convém nunca se perder de vista que Nuno Rogeiro é um daqueles caolhos que esconde a cegueira parcial atrás de umas magníficas armações... 

A GUERRA DO GOLFO ATRAVÉS DA RTP

17 de Janeiro de 1991 (melhor: madrugada de 16 para 17 de Janeiro). Acompanhamento do começo da Guerra do Golfo através da RTP (que era então o único canal de televisão), com os comentários em estúdio dos jornalistas da casa, José Rodrigues dos Santos e Manuel Meneses e ainda do comandante Virgílio de Carvalho e de Nuno Rogeiro. Em breve a guerra deixaria de ser acompanhada apenas pela palavra, substituída pela imagem, espectacular, porém desprovida de substância.

22 setembro 2020

O IRAQUE INVADE O IRÃO, INICIANDO A GUERRA IRÃO-IRAQUE (1980-88)

22 de Setembro de 1980. Como corolário de uma situação tensa que se foi agudizando, o Iraque invade o Irão, embora a notícia desse dia do Diário de Lisboa não chegue a dar isso a entender ao leitor, no meio do fogo cruzado dos comunicados (qual deles o mais aldrabado...) dos dois beligerantes. Sobre o conflito que irá opor os dois países durante os próximos oito anos, já aqui fizera uma sugestão de leitura, de um livro que, infelizmente, três anos entretanto passados, não vejo grandes perspectivas de vir a ser traduzido.

30 agosto 2020

O PRENÚNCIO DE UM «SETEMBRO NEGRO»

30 de Agosto de 1970. Apesar de perdida numa página bem interior (25), esta notícia, oriunda de Amã, capital da Jordânia, seria a notícia mais preocupante da edição daquele dia do Diário de Lisboa. Com a sua leitura ficava-se a saber que o rei Hussein proferira no dia anterior um discurso na rádio e televisão locais, onde fizera uma espécie de ultimato aos guerrilheiros palestinianos da OLP que se acantonavam na Jordânia e um aviso às tropas iraquianas que estavam lá estacionadas desde 1967 para ajudar... os jordanos. Para além do conflito israelo-árabe, há um outro conflito prestes a eclodir entre as facções árabes mais moderadas, protagonizada pela Jordânia, e mais radicais, protagonizada pela OLP e pelos seus vizinhos sírio e iraquiano. Ao conjunto de combates, que se prolongarão por quase todo o mês seguinte, e que irão opor o exército jordano aos guerrilheiros palestinianos apoiados de forma descarada pelo exército sírio, ir-se-á dar o nome de «Setembro Negro». Os militares jordanos, que haviam sofrido quase 700 mortos durante a Guerra dos Seis Dias contra Israel, irão suportar agora cerca de 540 neste conflito para expulsar os palestinianos armados do seu território - são números que não dá muito jeito à propaganda da causa árabe que apareçam comparados...

23 agosto 2020

SADDAM HUSSEIN E OS REFÉNS OCIDENTAIS

23 de Agosto de 1990. Na sequência da invasão iraquiana do Koweit, e do impasse diplomático que se segue, Saddam Hussein adopta uma incompreensível manobra mediática: aparece na televisão iraquiana em companhia de um conjunto de expatriados britânicos que impedia de regressar ao seu país (acima). O episódio, uma acção de intimidação ainda hoje difícil de compreender nos seus objectivos e sobre que tipo de avaliação se fizera em Bagdade às suas consequências, foi rapidamente utilizado nos países ocidentais - Estados Unidos... - para mobilizar as respectivas opiniões públicas a favor de uma acção militar contra o Iraque. A antipatia por Saddam tornou-se tão disseminada, que o problema depois da Guerra do Golfo será o de justificar a essas mesmas opiniões públicas as razões porque não se eliminava política e pessoalmente o mesmo Saddam.

02 agosto 2020

A INVASÃO DO KOWEIT

2 de Agosto de 1990. O Iraque invade o Koweit. Do ponto de vista militar, a disparidade das forças em presença não oferece dúvidas quanto ao desfecho: em 48 horas os iraquianos conquistarão o emirado. Do ponto de vista das lições históricas da diplomacia, este é um daqueles exemplos de que nem sempre vale a pena «amansar uma fera»: o Koweit fora um grande aliado do Iraque na guerra que este travara com o Irão entre 1980 e 1988 e a paga que agora recebia era a invasão. Do ponto de vista da estratégia, e recordando aquele tempo em que os Estados Unidos tinham a pretensão e o poder de supervisionar o que era tolerável e o que o não era nos status quo internacional, o que o Iraque fizera não era tolerável. Se fosse hoje, quando é conhecida a propensão do inquilino da Casa Branca para se axandrar diante de homólogos de atitudes másculas e robustas (do género de Putin ou de Erdogan), não se poder descartar que o primeiro problema da América seria convencer Donald Trump a assumir uma reacção consequente, não fosse ele ter ficado impressionado com Saddam Hussein por causa do que ele tinha acabado de fazer.

07 outubro 2019

ELE DEVE HAVER UM CRITÉRIO...

Comparando estas duas notícias, e a colossal diferença na cobertura noticiosa, sobretudo televisiva, que tem estado a ser dada a ambos os protestos, permanece o mistério do critério que leva a dedicar muito mais atenção a um (o de cima) do que a outro. Ao contrário do que é reputado canonicamente, não pode ser o carácter sangrento da repressão: «60 feridos e um manifestante baleado» não se comparam a «mais de 100 mortos e de 6.100 feridos». Nem poderá ser relevante a questão da importância por causa da proximidade geográfica, já que o Iraque é-nos muito mais próximo do que Hong-Kong. Uma explicação maldosa remete para a hegemonia que, mau grado tudo, os americanos continuam a exercer sobre a informação internacional: enquanto os culpados da repressão no primeiro caso são convenientes, o regime de transição de Hong-Kong sob a tutela da China, no segundo caso são inconvenientes, pois o regime iraquiano é apenas a consequência da ocupação dos Estados Unidos daquele país entre 2003 e 2011. Mas, se calhar, a explicação é mesmo maldosa. Ele deve haver um critério para que a repressão em Hong Kong seja noticiosamente tão mais importante do que a de Bagdade.

04 abril 2019

A MORTE DO REI DO IRAQUE

4 de Abril de 1939. A morte de um monarca é sempre um tema noticioso, para mais se ele morre num acidente rodoviário, apenas com 26 anos. O seu filho e sucessor, Faiçal II, tinha apenas 4 anos, o que impunha a criação de uma regência e a consequente disputa sobre quem seria o regente. Tudo se combinava para que o modelo da monarquia ocidental, transplantado depois da Grande Guerra para alguns países árabes pelos britânicos (Iraque, Jordânia), tivesse mais revezes que sucessos.
Nem de propósito, noticiado com alguma casualidade negligente pelo Diário de Lisboa, mas sintoma do péssimo estado das relações anglo-iraquianas, em Mossul os manifestantes haviam aproveitado o momento de luto para incendiar o consulado britânico local, assassinando o consul...

23 março 2019

BAGDADE EM 1919

Em contraste com o bucolismo da fotografia anterior, aprecie-se o urbanismo cosmopolita da fotografia de uma atarefada rua de Bagdade nesse mesmo ano de 1919. Ao contrário das Highlands escocesas, Bagdade foi disputada durante o conflito, mas a intenção de induzir uma continuidade que a Grande Guerra não terá afectado substancialmente, parece ser a mesma da foto anterior.

23 agosto 2018

UM VERDADEIRO DESASTRE DE RELAÇÕES PÚBLICAS

23 de Agosto de 1990. Depois de ter invadido o Koweit no princípio do mês, e de ter sido surpreendido pela amplitude da reacção hostil dos Estados Unidos, Saddam Hussein protagoniza na televisão iraquiana uma reportagem de 30 minutos (que ele sabia destina a ser retransmitida para todo o mundo) onde aparece a visitar uma família de expatriados britânicos, conversando com alguns deles. Três semanas depois do inicio do conflito, centenas de ocidentais permaneciam impedidos de viajar para fora do Iraque e do Koweit. A mensagem de Saddam mediava entre o aparentemente simpático e o subtilmente ameaçador, mas o resultado entre as opiniões públicas ocidentais, que ele procurava assim cortejar e condicionar, foi um colossal desastre mediático. Tanto, que o momento da reportagem em que Saddam Husseim (que até largara o uniforme para a ocasião!) afaga uma criança visivelmente tensa, rapidamente foi posto a circular, mas pela propaganda adversária! O episódio mostrou a completa falta de consciência, por parte da liderança iraquiana, quanto à imagem pública que ela própria possuía fora das suas fronteiras.