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29 novembro 2020

UMA HISTÓRIA INVEROSÍMIL

Bissau, 29 de Novembro de 1970. Uma semana depois da operação Mar Verde e para justificar a recuperação dos 26 prisioneiros que estavam detidos em Conakry, o governo da província emite um comunicado completamente inverosímil em que os torna protagonistas de uma evasão colectiva, sem entrar em detalhes como haviam conseguido percorrer os cerca de 350 km de Conakry até à fronteira, numas estradas onde, ainda hoje e com cinquenta anos passados, se demora onze horas(!) a viajar de automóvel de Bissau até Conakry, à média horária estonteante de 52 km/h. Tempos interessantes estes, em que se podiam contar aventuras destas nos jornais sem receio de que quem lá escrevia as pudesse desmentir por absurdas, e em que havia uma diferença nítida entre o que se sabe por ter lido e o que se sabe por ter ouvido dizer.

22 novembro 2020

A OPERAÇÃO MAR VERDE (E A OPERAÇÃO COSTA DO MARFIM)

22 de Novembro de 1970. As forças armadas portuguesas estacionadas na sua colónia da Guiné (hoje Guiné-Bissau) desencadeiam a Operação Mar Verde contra o PAIGC. A operação consiste num desembarque nocturno em Conakry, a capital da República vizinha hostil da Guiné-Conakry, onde se sediava a direcção do PAIGC. Os objectivos da operação eram múltiplos, desdobrados em dois alvos: o próprio PAIGC, a captura dos seus dirigentes, a destruição dos seus meios militares estacionados na capital guineense e também a libertação dos prisioneiros portugueses ali detidos; mas também o próprio regime de Conakry e os seus meios militares, para o derrube do qual se preparara um golpe de Estado, a ser executado por um pequeno contingente (200 homens treinados) de oposicionistas guineenses. Vale a pena seguir o que se passou no vídeo de meia hora acima. A avaliação dos resultados é, ainda hoje, algo que é discutível. As lacunas das informações sobre os objectivos foram inquestionáveis. 26 prisioneiros portugueses foram libertados, os dirigentes do PAIGC e da Guiné Conakry devem ter apanhado aquele que terá sido o cagaço da vida deles, mas escaparam. Apesar do segredo que a envolveu e da censura, as consequências no plano internacional da Operação Mar Verde tornaram-na rapidamente conhecida em Portugal, quando o nosso país veio a ser condenado no Conselho de Segurança da ONU (abaixo). As três potências nossas amigas (Estados Unidos, França e Reino Unido), conjuntamente com a Espanha abstiveram-se, e a moção foi aprovada com 11 votos favoráveis, enquanto o governo português fazia figura de sonso...
Nem de propósito, por coincidência e no dia anterior, 21 de Novembro de 70, haviam sido os norte-americanos a tentar uma operação semelhante de recuperação de prisioneiros de guerra que estavam detidos perto de Hanói, no Vietname do Norte. A operação denominava-se «Costa do Marfim» (Ivory Coast) e envolvia 28 aviões e helicópteros e 56 homens das forças especiais dedicados à libertação do que se previa serem 55 prisioneiros guardados nas instalações prisionais de Sơn Tây, a 35 km a Oeste de Hanói. A operação correu muito bem... os prisioneiros é que não estavam lá. Ou seja, os serviços de informações americanos funcionaram ainda pior do que os portugueses. E contudo, ao contrário do que se discute em Portugal a respeito da Operação Mar Verde, onde há quem exigisse dela um sucesso total, quando se vai ler a entrada da Wikipedia relativa à Operação Costa do Marfim, tudo parece ter corrido muito bem, todos os participantes foram condecorados, é apenas um pormenor guardado para o fim do texto o facto das informações estarem desactualizadas e de que, por isso, a operação não resultou em nada. Mas, a ver o vídeo abaixo, tal é o entusiasmo com o acessório, que nos esquecemos do essencial. São duas formas opostas, igualmente ridículas, de analisar os acontecimentos. Resta acrescentar o óbvio: que, esta operação, realizada em pleno território norte-vietnamita, nem chegou a ser discutida no Conselho de Segurança da ONU...

09 junho 2020

O ALTO FUNCIONÁRIO AMERICANO QUE NÃO PERCEBERA LÁ MUITO BEM O CONCEITO DE «CORTINA DE FERRO»

9 de Junho de 1960. Um alto funcionário norte-americano chamado James P. Grant - virá a fazer uma carreira bem sucedida na ONU - teve direito aos seus quinze minutos de fama quando, numa audição de uma comissão no Congresso dos Estados Unidos, se referiu à influência dos soviéticos na Guiné Conakry como o embrião de uma «cortina de ferro» na «África Negra». Os «técnicos do bloco soviético controlavam, inclusive, os emissores de rádio do país»! Soava bombástico, mas era uma ameaça um pouco disparatada.
Por sinal, aquilo que provocara a oportunidade para a penetração da influência soviética fora um vazio sancionatório. A França castigara a sua antiga colónia por mau comportamento e retirara-lhe todo o apoio técnico às infraestruturas, áreas onde o novo país não possuía quadros nativos. Mas, pior, uma simples observação de dois mapas, o da Guiné Conakry quando inserida na «África Negra» - acima - e o dos contornos da verdadeira «cortina de ferro» - abaixo - mostrava como não fazia sentido a analogia entre uma coisa e outra.

04 julho 2014

A COBERTURA NOTICIOSA DAS EPIDEMIAS

Desde Fevereiro deste ano que se está a registar um surto de Ébola em três países da África Ocidental: Guiné-Conakry, Serra Leoa e Libéria. O número de casos registados aproxima-se dos 800, as mortes de 500, com uma taxa de mortalidade ultrapassando os 60%. Mas foi preciso esperar pelos princípios de Julho para que o circo da informação se tivesse apercebido, mais pela coreografia do que por dedução do próprio, da seriedade do problema de Saúde Pública. Espera-se que a partir de agora o circo acompanhe a situação com o mesmo zelo como o fez há uma década com a gripe das aves (que, ameaçando-nos, acabou por não nos fazer mal algum...) e nos dê conta, com a mesma minudência, das mortes ocorridas como outrora aconteceu com um papagaio na Inglaterra e um pato na Suécia, um cisne na Escócia ou um ganso na Grécia