28 fevereiro 2021

A MORATÓRIA QUE SALVAVA FINANCEIRAMENTE A POLÓNIA

28 de Fevereiro de 1981. Muito escondida no Diário de Lisboa, esta seria porventura uma das notícias mais interessantes daquele dia, a de que os Estados Unidos haviam prorrogado os prazos de vencimento das dívidas que a Polónia havia contraído junto dos bancos americanos. Por arrastamento, os restantes bancos ocidentais que haviam emprestado dinheiro à Polónia iriam adoptar aquela mesma medida. A Polónia era então uma presença rotineira nos cabeçalhos noticiosos por causa da crise social que ali grassava desde o Verão de 1980. Sendo um país da órbita da União Soviética, uma preocupação recorrente era o comportamento que esta última adoptaria no caso da crise política polaca escapar ao controle dos dirigentes locais: havia os precedentes das intervenções soviéticas na Alemanha Oriental (1953), na Hungria (1956) e na Checoslováquia (1968). Mas o que não se assumia era que os Estados Unidos eram, como acima se vê, outra das incógnitas da equação polaca. A Polónia era um país comunista onde, graças a subsídios, se vivia com um padrão de vida acima do que a sua própria economia conseguia suportar. Mas, porque a Leste os capitais eram escassos, quem acabava por sustentar esse «bem-estar socialista» era a «banca capitalista» do Ocidente. A execução das dívidas que os Estados Unidos haviam diferido, salvava a Polónia de ser relegada para a condição de um estado pária no campo das finanças mundiais (FMI) por incumprimento. Incumprimento esse que não interessaria ao «status quo» - tanto o comunista quanto o capitalista. E também não interessava a ninguém que se soubesse com tanta nitidez que a Polónia estava quase tão dependente financeiramente de Washington como o estava politicamente de Moscovo. A notícia aparecia na página 10 e não muito desenvolvida nas explicações das justificações e consequências do que noticiava.

27 fevereiro 2021

UMA VERGONHA, NÃO PELA IGNORÂNCIA, MAS PELA ARROGÂNCIA

É evidente que o comentador Calado é um coitado. Unanimidade é uma palavra com sílabas demais para que ele compreenda o significado. Fosse o programa sobre outra coisa que não futebol, e multiplicar-se-iam os episódios que mostrariam a sua mediocridade intelectual. Mas, qualquer bom comentador de futebol da televisão portuguesa precisa de evidenciar rusticidade e ignorância em doses generosas. Contudo, o seu comportamento arrogante, a tentar emendar a mão depois da calinada, não têm nada a ver com a ignorância ou rusticidade. É defeito de carácter, mesmo. Mas, na minha opinião, a culpa principal não será do comentador Calado. São as próprias televisões que promovem formatos televisivos onde é acarinhada a ignorância assertiva. Abaixo outro exemplo, em vez de um ex-jogador, é com uma ex-locutora, Manuela Moura Guedes.

GRANDES «GALGAS» DO JORNALISMO DE HÁ 75 ANOS: AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS ARGENTINAS

27 de Fevereiro de 1946. Eram tempos em que os escrutínios das eleições se processavam a outro ritmo, e só dia 27, Quarta-Feira, começavam a chegar as primeiras notícias sobre resultados da votação das eleições presidenciais argentinas, que haviam tido lugar no Domingo, dia 24. As notícias que chegavam de Buenos Aires davam conta da vantagem do candidato democrático, José Tamborini, que concorria contra o candidato trabalhista, Juan Domingo Perón. As explicações tradicionais não ajudam a explicar o posicionamento de cada um dos candidatos, considerado a especificidade da política argentina de então. Basta dizer que as organizações sindicais apoiavam Perón, enquanto os partidos Socialista e Comunista locais estavam com Tamborini; este contava com o apoio da maioria das formações da direita clássica, enquanto Perón predominava entre a extrema-direita e era considerado mesmo como um simpatizante da Alemanha nazi; por causa disso, Perón confrontava-se com a antipatia assumida dos Estados Unidos, que financiara a campanha de Tamborini.  Mas o engraçado da notícia supra, é que «a impressão dominante nos círculos políticos argentinos bem informados» iria brevemente vir a ser desmentida pela contagem dos votos das urnas. Por muito que a opinião publicada não o quisesse, Perón ganhou as eleições e a sua vitória representava a governação política em prol das classes mais desprivilegiadas da Argentina.

OOoohh, AFINAL NÃO...

Quando já se sentia por aí um entusiasmo arrebatador, transbordante para a comunicação social, com o prometido retorno de D. Sebastião, que afinal não morrera em Alcácer-Quibir... afinal não. 
Adenda: O prémio "A Crónica Mais Estúpida de Fim de Semana» vai para este cronista do Observador, mais a sua habilidade de virar o bico ao prego: em vez do «flop» do entusiasmo arrebatador da direita, prefere-se desviar as atenções por ser o «pavor» da esquerda.

26 fevereiro 2021

O «PARAÍSO» SUÍÇO

26 de Fevereiro de 1946. Em mais uma notícia oriunda de Londres, e depois de uma outra notícia dois dias antes a respeito da Dinamarca (onde se comia pantagruelicamente e em conta), as invejas britânicas dirigem-se agora para terras da Confederação Helvética, outro país também poupado às devastações da Segunda Guerra Mundial devido à sua neutralidade. Segundo o que se podia ler, a Suíça «regressava à normalidade» e «materialmente, o país» apresentava-se «intacto e próspero». Talvez se possa criticar o autor da notícia por um certo excesso de entusiasmo quanto à definição de «prosperidade», uma vez que ele próprio, um pouco mais à frente no texto, se encarregava de esclarecer o leitor que se encontravam «ainda racionados o pão, a carne, o chocolate, o leite, o açúcar, o queijo, a manteiga, os óleos e as gorduras, incluindo o sabão.» E como «os preços (eram) o dobro de antes da guerra» - e os salários certamente não deviam ter aumentado na mesma proporção nesse mesmo período - os suíços em geral talvez não analisassem a situação com as mesmas cores róseas que eram empregues neste artigo por Boris Kidel, o correspondente da Reuters em Berna que assina a notícia. Mas, para os britânicos, a Suíça representaria outro «paraíso», depois do da Dinamarca. Parecia época em que os britânicos estavam com uma pulsão para ter inveja de outros povos mais poupados à guerra do que eles o haviam sido. Se fossemos nós, diríamos que estavam numa fase em consideravam que a galinha da vizinha é sempre melhor que a minha.

25 fevereiro 2021

PASSOS COELHO EM SEGUNDA MÃO

Depois de já a termos detectado nas redes sociais, prossegue a campanha para a revenda de Passos Coelho, agora nas redes institucionais - no Público e no Expresso, ambos de hoje. Extraordinária coincidência! Como acontece com os carros usados, sempre me divertiram os expedientes empregues para disfarçar os artigos usados em outra coisa, ele são as «viaturas de ocasião» ou então os «automóveis seminovos». Passos Coelho é um político assim: tem para aí uns 200.000 km e a responsabilidade de ter deixado o PSD com o seu pior resultado autárquico de sempre nas eleições de 2017. Porém, a publicidade e vendedores do «automóvel» (caso acima de Carlos Carreiras) falam-nos de outras coisas, menos embaraçosas (relembremo-lo abaixo há quase precisamente cinco anos). Ou, para levar as declarações acima de Carlos Carreiras ao seu corolário: «Passos não é passado, é presente» Se aceitarmos que o D. Sebastião é o futuro...

«MY SWEET LORD»

24 fevereiro 2021

O ALMIRANTE DESCAMUFLADO

A minha intenção de publicar aqui esta notícia do Público de há umas poucas horas, é apenas a de demonstrar aos leitores que a credibilidade das declarações do sr. almirante a respeito de vacinas não parecem ser sensivelmente afectadas se a sua imagem - a do almirante, não a das vacinas - não for aquela que insistentemente nos têm sido inpingida até agora, fardado de camuflado. Talvez antes pelo contrário: este fardamento mais institucional de um oficial da Armada confere-lhe um gravitas que o combatente não exibia. Aliás, note-se que antes da polémica do fardamento do almirante Gouveia e Melo, e em vez do camuflado, ele também podia ter optado por um macacão azul, que creio ser o regulamentar para envergar a bordo de um submarino (abaixo). Mas como o assunto são mesmo vacinas, suponho que fardado tradicionalmente como o vemos na fotografia institucional do Público, estará muito melhor. Fizeram bem em emendar a mão (se a tiverem emendado).

VENCEDORES E VENCIDOS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Esta notícia de 24 de Fevereiro de 1946 mostra-nos um dos anacronismos produzidos pelo fim da Segunda Guerra Mundial. Os britânicos, nomeadamente os seus soldados que estavam estacionados no norte da Alemanha como forças de ocupação vitoriosas de uma Alemanha derrotada, olhavam com uma extrema inveja as condições materiais vigentes na Dinamarca, que fora um dos vencidos do conflito. A Dinamarca fora um dos países invadidos e ocupados pela Alemanha em Abril de 1940 e ocupado permanecera até ao fim do conflito em Maio de 1945. Tirando alguns bombardeamentos seleccionados dos Aliados, visando objectivos que prejudicassem o esforço de guerra alemão, o país não fora palco de combates para a sua libertação e assim a esmagadora maioria do seu tecido produtivo industrial e, sobretudo, agrícola, não fora destruído. Grande produtor de alimentos já antes da guerra, a descrição das refeições dinamarquesas acima deviam parecer banquetes aos britânicos médios, acostumados ao racionamento. Como se lê no último parágrafo da notícia, «os soldados britânicos não compreendem a razão por que esse supérfluo de comida não é enviado para a Grão-Bretanha» mas a verdade impossível de lhes explicar era que o seu país, apesar de ter vencido a guerra, estava na bancarrota.

O VERDADEIRO INÍCIO DA OPERAÇÃO TEMPESTADE DO DESERTO

24 de Fevereiro de 1991. Só neste dia de há trinta anos é que começaram as primeira operações terrestres de invasão do Iraque para a libertação do Kuwait, conforme pode ser observado pelo mapa supra. Visto a esta distância, a grande proeza da coligação foi conseguir andar a fazer espuma durante mais de um mês (desde 17 de Janeiro), a entreter as audiências televisivas de todo o Mundo, como se algo de decisivo do ponto de vista militar estivesse em curso. Agora é que as coisas sérias iam começar mas, ao contrário de guerras anteriores como a do Vietname ou a da Guiné, onde os jornalistas haviam andado à solta, desta vez eles iam ser devidamente pastoreados para sentirem que viam combates a sério, mas com o cuidado de não exibirem nem relatarem nada que fosse verdadeiramente incómodo. Valha a verdade que o assunto também ficou despachado rapidamente - em 28 de Fevereiro Saddam Hussein rendera-se.

23 fevereiro 2021

O ASSALTO ÀS CORTES ESPANHOLAS

23 de Fevereiro de 1981. Evocando-o, por causa do 40º aniversário, não vale a pena tornar a falar aqui do assalto perpetrado contra as Cortes Espanholas naquela data. A comunicação social tradicional está a encarregar-se disso, nos seus formatos e tópicos mais canónicos. Mas nunca é demais enfatizar que se produziu uma versão da verdade que serviu para o momento, e que apareceram versões muito distintas - como esta abaixo, de 2009, de Javier Cercas - muitos anos depois, em que os bons da versão de 1981 já não se haviam comportado com a lisura com que a opinião pública havia sido informada na época dos acontecimentos.

22 fevereiro 2021

E SE SE VIER A CONSTATAR QUE A COMUNICAÇÃO SOCIAL É PRATICAMENTE IRRELEVANTE A INFLUENCIAR A POLÍTICA?...

Este editorial de Ana Sá Lopes, a pretexto do terceiro aniversário da liderança do PSD por Rui Rio, é muito interessante. Como a tenho por uma mulher inteligente, tenho de admitir que foi deliberadamente que contornou alguns dos aspectos essenciais que enformam as características de se ser oposição em Portugal. Como ela diz é um cargo «difícil e mal-amado», mas como ela apenas sugere, referindo-se a Durão Barroso, as qualidades que se exibem naquele cargo oficioso podem ser irrelevantes para o sucesso de se vir a ser primeiro-ministro. Aconteceu com ele, apesar de ter sido uma «tragédia». Como Ana Sá Lopes não quer concluir, mas todos os grandes ambiciosos da política deste país sabem, o importante não é o que se faça, é ocupar aquele cargo - líder da oposição - na altura certa. De resto, foi o que fez o actual titular (da chefia do governo), António Costa, que só arriscou a sério a corrida ao cargo (de líder da oposição) depois de deixar o antecessor António José Seguro desgastar-se no cargo (o famoso «caminho das pedras»). E a altura certa é quando o governo se desagrega. É uma tradição nacional, tida pelos historiadores como consolidada, desde o período da monarquia constitucional do século XIX, que em Portugal não são as oposições que costumam conquistar o poder; são os governos que se encarregam disso, desagregando-se sozinhos. E, mais uma vez, Ana Sá Lopes parece evitar inspirar-se no exemplo de Durão Barroso, que é emblemático a esse respeito: «É possível que aconteça algo inesperado que leve Rui Rio ao poder. O problema é que não parece que, salvo algo inesperado, isso esteja para acontecer». Porém, em Dezembro de 2001, quando António Guterres se demitiu na sequência das eleições autárquicas, o inesperado só foi inesperado por causa da incompetência da comunicação social, que não conseguiu descortinar os imensos sinais de desagregação que o governo viera a dar desde há meses. Infelizmente, tenho a convicção que a comunicação social não se tornou particularmente mais arguta nestes últimos vinte anos, e não se pode descartar que «algo inesperado» possa ocorrer de novo, mesmo que Ana Sá Lopes ache que não. Rui Rio teria a mesma sorte que foi a «sorte» de Durão Barroso. Mas o problema por detrás do editorial de Ana Sá Lopes é o anterior, o das (in)competências da comunicação social. É que aí Rui Rio parece-me o primeiro aspirante ao cargo que distrata sem pudor nem embaraço a classe profissional dos jornalistas, confrontando-os por aquilo que são: aspirantes a actores políticos, muito opinativos, mas que não se querem expor a escrutínio eleitoral. Num exemplo muito recente tornou a acontecer no Observador e depois os políticos do jornal queixaram-se... Na verdade, a essência da luta política em Portugal e, por outro lado, aquilo que os órgãos de comunicação social precisam para preencher os espaços vazios a respeito dessa mesma luta política, nada têm a ver uma coisa com a outra. Por exemplo, os debates quinzenais eram uma animação para a comunicação social, mas o primeiro-ministro em exercício saía sempre por cima - até o imbecil do Pedro Santana Lopes! Para quê o líder da oposição insistir em mantê-los? Porque gosta de levar porrada ou para que a comunicação social ande entretida a dizer coisas ao público? Em síntese: se Rui Rio chega ao poder por causa de um colapso fortuito do governo de António Costa, seguido de eleições em que os eleitores não perdoarão ao PS esse colapso, isso tornar-se-á a prova que o maior objectivo de um político ambicioso - chegar ao poder - se consegue sem e até mesmo contra as influências do lóbi dos jornalistas políticos. Já imaginaram comprovar-se que Ana Sá Lopes, José Manuel Fernandes, António José Teixeira, Ricardo Costa, sei lá eu quem mais, não valem um chavo em termos de influência pública? Não o confessando, neste balanço de três anos de liderança de Rui Rio à frente do PSD, Ana Sá Lopes está a bater-se pela subsistência da sua actividade ameaçada... Isso, parece-me, ela esqueceu-se de escrever...

A GUERRA FRIA E O «LONG TELEGRAM»

22 de Fevereiro de 1946 é a data do Long Telegram, que os americanos tornaram num dos marcos da Guerra Fria. Enviado desde Moscovo por George Kennan, um diplomata de carreira do Departamento de Estado, o telegrama continha uma análise da situação das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética menos de um ano depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Nesses nove meses (seis se incluirmos a guerra contra o Japão), a harmonia forjada e forçada pela aliança contra o inimigo comum deteriorara-se, e acumulavam-se os indícios disso - como o discurso de Stalin por ocasião das eleições soviéticas do princípio daquele mês. Embora também fosse patente que o comportamento dos americanos se tornara muito mais arrogante logo que alcançada a vitória. Queriam impôr a sua ordem internacional e não estavam a pedir a opinião de mais ninguém, nem mesmo a dos seus maiores aliados, com quem aparecia em pé de igualdade nas fotografias. Na origem o telegrama era um documento interno, mas que acabou conhecido em 1947 com a sua publicação sob a capa de um pseudónimo na revista da especialidade Foreign Affairs. Lido e devidamente interpretado o telegrama não contém os fundamentos daquilo que lhe vieram a atribuir. Sobre isto, uma opinião concordante importantíssima era a do próprio George Kennan... Mas a Guerra Fria criara uma dinâmica muito própria e nela, este telegrama é, mais do que o fundamento que dele quiseram fazer, apenas um adereço explicativo.

O SEBASTIANISMO É UM FENÓMENO CULTURAL MUITO INTERESSANTE DO PONTO DE VISTA ANTROPOLÓGICO...

...mas é um completo desperdício do ponto de vista político, como já se verificou repetidamente ao longo da História. Embora eu também seja nostálgico para gostar muito da música do Quarteto 1111, não levo a letra a sério...

21 fevereiro 2021

EXPLIQUEM-LHE LÁ QUE NÃO ACREDITAMOS LÁ MUITO NELE...

Uma das novas missões da comunicação social nesta nova era em que competem com as redes sociais deve ser, para além da tradicional de passar os recados dos protagonistas para o público, a de trazer a reacção do público, agora concretizada nas manifestações das redes sociais, junto desses mesmos protagonistas. Nem sempre funciona mas, quando funciona, há mais dinamismo e as notícias ficam mais interessantes. No exemplo concreto do episódio acima, em que João Loureiro aparece associado a uma história sórdida de tráfíco de droga, a notícia beneficiaria se os jornalistas informassem João Loureiro que impera pelas redes sociais o cepticismo, quando não mesmo a incredibilidade, quanto à (sua) versão de que não está envolvido no assunto. Preservar a reputação é algo que parece nunca o ter incomodado no passado, mas agora os jornais, as televisões, a comunicação social, enfim, deviam fazer perceber a João Loureiro o quanto lhe faz falta ter cuidado disso no passado.

O GOLPE DE ESTADO NA PÉRSIA

Há cem anos, o Xá da Pérsia chamava-se Ahmad, tinha 23 anos, era o sétimo soberano da dinastia Qajar, que reinava na Pérsia desde os finais do século XVIII (1789), e tinha o aspecto que a fotografia acima exibe. Em 21 de Fevereiro de 1921 os habitantes de Teerão foram acordados por tiros de canhão e pelo ruído de botas militares marchando pelas ruas. Sem terem encontrado grande resistência, os cossacos, a unidade de cavalaria de elite do exército persa, formada à semelhança de unidades idênticas do grande vizinho russo, acabara de tomar o poder na capital. Depois de se afixarem cartazes por toda a cidade proclamando a lei marcial, as tropas detiveram algumas dezenas de personalidades políticas de destaque. Os homens fortes do golpe eram o militar Reza Khan, comandante dos cossacos e o civil Seyyed Zia, jornalista. Tratava-se de um render da guarda, uma nova geração a chegar ao poder. Mas a pessoa do Xá era tão irrelevante que os golpistas nem se incomodaram a depô-lo. A primeira disputa séria foi entre a ala militar e a ala civil dos golpistas: Reza venceu e dali por três meses, em Maio de 1921 Seyyed Zia era exilado. Mas foi só em Dezembro de 1925 que Reza assumiu o título de Xá, em substituição de Ahmad.

20 fevereiro 2021

COMO SE MANIPULA A INFORMAÇÃO...

Em destaque, na edição de hoje do Diário de Notícias, o cabeçalho que constata que houve 3000 VIDAS POUPADAS. Porque o «CONFINAMENTO RESULTOU». O desenvolvimento é remetido para as páginas interiores do jornal. E aí, nas páginas interiores, quanto menor o tamanho da letra, menos a notícia é concordante com o que se apregoara à descarada na frontaria. Em primeiro lugar porque as vidas «poupadas» ainda não se pouparam todas, ir-se-ão poupar «até Março». E em segundo lugar porque «a poupança» resulta da diferença entre o que «apontavam» as «estimativas» e o que apontam agora outras «estimativas». A primeira hipótese científica para a explicação da diferença é que as primeiras «estimativas» pecariam por pessimismo excessivo (afinal, os modelos de previsão são apenas isso mesmo: modelos... que têm ou não aderência à realidade) e, só depois de descartada essa explicação mais evidente, é que se pode aventar a hipótese de que «o confinamento resultou». A ciência tem métodos. Os recados políticos plantados não tem métodos. E esta história dos 3000 poupados é um desses recados e é uma aldrabice. Por falar em aldrabice: deixo uma nota adicional para a notícia que aparece imediatamente abaixo, citando comentários do cherne Barroso: vê-lo ali a falar de solidariedade, ele que se pôs a andar a meio de um mandato governamental, esquecendo o compromisso para com os portugueses, é denunciável. A causa é boa, ele é que não presta. 

A GRÉCIA NA ENCRUZILHADA DEPOIS DA VITÓRIA SOBRE A ITÁLIA

20 de Fevereiro de 1941. O jornal do costume, ao apresentar «a marcha das operações», descrevia um cenário que correspondia à vitória da Grécia, que derrotara a invasão italiana partida da Albânia, onde agora se travavam os combates, e onde «as tropas gregas continua(va)m a progredir».» Os comunicados de Atenas sobre a situação militar rivalizavam em exuberância e pomposidade com os de Roma, apesar desta última ser a campeã das notícias farfalhudas de entre todos os beligerantes da Segunda Guerra. O problema é que Atenas estava a ser muito mais rigoroso nas suas gabarolices do que Roma. Nesse dia, embora o Diário de Lisboa não o noticiasse porque não se soubera, o governo grego rejeitara uma oferta do governo alemão para mediar o conflito. Apesar das aparências, a situação era de impasse: a Grécia desbaratara a ofensiva italiana, colocara-os em cheque, mas faltavam-lhe os meios militares adicionais para os expulsar da Albânia. Por outro lado, as movimentações dos alemães, em conjunção com alguns dos vizinhos balcânicos da Grécia (Bulgária e Jugoslávia), obrigavam os gregos a ter de prestar atenção a outras frentes. Mas o maior problema da Grécia de há oitenta anos fora a morte inesperada em 29 de Janeiro, aos 69 anos, do ditador Ioánnis Metaxás, o homem forte do regime grego. A rearrumação das forças entre as principais figuras políticas e militares da Grécia fazia-se agora sentir na indecisão sobre a conduta a assumir, como aproveitar da melhor maneira possível a ligeira vantagem adquirida pela asneira cometida pela Itália de Mussolini.

19 fevereiro 2021

OS ÚLTIMOS GUERREIROS DO IMPÉRIO E OS ÚLTIMOS HISTORIADORES DO REVIRALHO

Aqui há coisa de uns 25 anos (1995), a editora Erasmos resolveu publicar este livro acima, a que deu o título - apelativo para a extrema direita nostálgica - de «Os Últimos Guerreiros do Império». Tratava-se de um conjunto de 18 depoimentos de oficiais, alguns deles profusamente condecorados durante as guerras de África e mais uns quantos, conhecidos esses mais pelas suas convicções políticas como seria o caso de Kaúlza de Arriaga. Entre eles, o depoimento do «tenente-coronel graduado comando Marcelino da Mata». Sendo o oficial mais condecorado de todos, o seu depoimento de 16 páginas, é, em contraste, dos mais desinteressantes: primário, repleto de erros factuais, narrado em jeito de bravata, como se se tratasse de uma história de vida contada numa tertúlia onde já se haviam bebido uns copos valentes (exemplo: «Quando se deu o 25 de Abril a situação na Guiné estava controlada por nós. Eu dava a volta a toda a Guiné. Só faltava destruir a base do PAIGC de Kadiaf, porque a de Fulamore já o tinha sido.» - p. 207). Nitidamente, Marcelino da Mata nunca percebeu a natureza do conflito de que foi um dos protagonistas. Era um herói de guerra sem projecção pública e ainda bem, porque o que ele tinha para dizer não tinha grande interesse para compreender o que acontecera. O que aliás é também verdade para quase todo o elenco de guerreiros daquela compilação.
Nitidamente, outra pessoa que também nunca percebeu a natureza dos três conflitos africanos em que Portugal se envolveu entre 1961 e 1974 foi Fernando Rosas. Só que Fernando Rosas tem projecção pública e, se calhar, ainda mal. Tem a atenuante de não ter sido protagonista, nem sequer interveniente naqueles conflitos, mas também se deve esclarecer que a natureza da sua obtusidade é completamente diferente da de Marcelino da Mata. Rosas permanece esclerosadamente formatado pelo discurso do seu MRPP na primeira metade da década de 1970 - «Nem Mais um Soldado para as Colónias». E há quarenta e cinco anos que não evolui daí. Teve oportunidade, mas não consegue. Cabe agora perguntar aos responsáveis da TVI o que é que eles consideram que o qualifica para o convidar, a Rosas, para se pronunciar sobre a morte de Marcelino da Mata. É um convite que me parece tão pertinente quanto ter convidado para um programa equivalente Jaime Nogueira Pinto (por exemplo), para se pronunciar sobre a morte de Carlos Antunes, o líder das brigadas revolucionárias, falecido ainda há três semanas. São dois absurdos, a diferença é que um é hipotético e o outro concretizou-se. E concretizou-se em frases ribombantemente disparatadas como a destacada pela própria TVI: «Marcelino da Mata traiu a causa da independência do seus próprio país». É uma afirmação tão estúpida que refutá-la acaba por conferir-lhe uma dignidade intelectual que ela não merece e que se sintetiza muito melhor na expressão de desprezo desagradado exibida por José Ribeiro e Castro do outro lado da mesa, convidado para servir de contraponto naquele mesmo programa. Quanto aos anfitriões da TVI, espero que um dia destes consigam perceber que o segredo para um programa de televisão dinâmico acontece quando os convidados interagem, não quando um deles diz bestialidades que o outro positivamente desdenha.

A LUTA DELES ERA UMA «LUTA» MUITO «PALAVROSA»... MAS NÃO PROPRIAMENTE DO POVO

19 de Fevereiro de 1981. A Editorial Avante promovia a apresentação do livro acima de Fidel Castro. O apresentador era Mário Castrim. Um evento para verdadeiros trabalhadores intelectuais engajados. O livro - provavelmente uma compilação de discursos do ditador cubano - devia ser tão chato, mas tão chato, que agora nem há quem se atreva a pô-lo à venda no OLX. O slogan da fauna típica destes momentos era «os amanhãs que cantam...» mas neste caso, ao fim da tarde, o linguajar do clã, um livro que se compra mas que não se iria abrir sequer, seriam mais «os amanhãs que cochilam e bocejam»...

18 fevereiro 2021

O MAOISMO-TRUMPISMO: «FOGO SOBRE O CAPITÓLIO»!!!

Todos assistimos a excertos do discurso arrebatador proferido por Donald Trump a 6 de Janeiro de 2021 e às imagens do subsequente assalto ao Capitólio pelos seus seguidores (abaixo). O assunto não se tem afastado dos noticiários e contudo, em tudo o que já se disse a propósito dessa iniciativa de Donald Trump para colocar todo o topo da hierarquia política americana em cheque, ainda não encontrei quem tivesse ido recuperar a analogia com o que fizera Mao Zedong em 1966, quando o líder chinês, no propósito de desencadear a denominada Revolução Cultural, produziu um documento que veio a receber o título em português de: «Fogo sobre o Quartel General»! A expressão foi tomada à letra e vários dirigentes de topo da República Popular da China, a começar pelo próprio presidente Liu Shaoqi, enxovalhado em público. Depois disso, e como se vê pelo panfleto acima de 1973, os nossos macacos de imitação domésticos MRPP passaram a apelar, com exuberância, para que se fizesse fogo sobre tudo o que lhe desagradasse, mas com menos consequências práticas. A expressão, por ser ridícula e aproveitada pelo seu emprego irónico, perdurou por uns tempos. No mês passado, o que aconteceu em Washington parece-me ter sido uma manobra muito semelhante ao que Mao fizera com os guardas vermelhos. Só que fracassou porque a China é a China e os Estados Unidos são os Estados Unidos. A analogia não me parece muito rebuscada mas, até agora, não dei por ninguém que fizesse a associação entre o maoismo e o trumpismo. Talvez porque não haja verdadeiramente uma grande audiência para apreciar a ironia da semelhança das intenções dos dois déspotas.

OS »ROYALS» E A IMPRENSA BRITÂNICA

18 de Fevereiro de 1951. Como se percebe por esta notícia de há precisamente 70 anos, muito antes dos seus descendentes, já a rainha Isabel II de Inglaterra fora vítima das críticas da imprensa britânica mais popularucha (ainda não havia a tablóide) a respeito de alguns aspectos da sua conduta. Aqui tem a ver com o que fizera em Malta quando lá estivera com o marido, ali destacado como oficial da Royal Navy.

17 fevereiro 2021

UM MILHÃO E MEIO DE CONFINADOS POR CAUSA DE TRÊS INFECTADOS

Para não cedermos à facilidade de criticar somente a comunicação social portuguesa por causa de um alarmismo disparatado a respeito da covid, alarmismo despropositado esse que, afinal, grassa por toda a parte, destaquemos este outro exemplo, vindo do outro lado do Mundo (da Nova Zelândia), e sobretudo a forma como o episódio está a ser coberto pelo jornal britânico The Guardian. Comecemos por aqueles factos que dão a verdadeira perspectiva ao assunto, algo que a autora do artigo - Eleanor de Jong - se esqueceu de fazer: Auckland é a maior cidade da Nova Zelândia, na Ilha do Norte, com uma área metropolitana composta por cerca de um milhão e meio de habitantes (2020). No fim de semana passado, depois de três pessoas da mesma família terem testado positivo para a covid, o governo neozelandês reimpôs um novo confinamento a toda a cidade, obrigando as pessoas a ficar em casa, fechando escolas e empresas, um disparate, uma cidade de um milhão e meio de pessoas parada por causa de três pessoas infectadas. O governo da primeira-ministra Jacinda Ardern ter-se-á apercebido do despropósito da decisão e, depois de investigar as potenciais cadeias de transmissão dos infectados, reverteu-a. E a indignação do The Guardian, que não aparecera quando da imposição do confinamento, expressa-se agora em todo o seu esplendor na notícia acima. O título é eloquente: Fim do confinamento em Auckland apesar de três casos novos de Covid-19. E mais abaixo pode ler-se que a decisão de Jacinda Ardern surpreendera muitos... Quantos (foram os surpreendidos) é que não se quantífica, mas regista-se o contraste com a redacção da notícia anterior, a do anúncio da imposição do confinamento, que não terá surpreendido ninguém... A parcialidade dos jornalistas, e, por arrasto, dos jornais onde escrevem, é por demais evidente para que os levemos a sério. Se escrutinarmos os passos da autora da notícia acima, Eleanor de Jong, percebe-se porque, apesar de morar na Nova Zelândia, é difícil acreditá-la como uma repórter objectiva dos acontecimentos sobre os quais escreve. Segundo as informações disponibilizadas pelo próprio The Guardian, Eleanor de Jong está baseada em Dunedin, uma cidade de 134.000 habitantes na Ilha do Sul, mas escreve-nos este seu artigo desde Queenstown, uma pequena vila de 16.000 habitantes, 180 km para o interior dessa mesma ilha. Apesar de nada se poder concluir desta sua mudança de ares, que pode nada ter a ver com a covid, é importante referir que Queenstown, onde agora mora, está a 1.050 km de Auckland: não se pode dizer que Eleanor de Jong esteja em cima do acontecimento sobre o qual tem uma opinião tão vincada. Mas enquanto se publicam destas opiniões, a verdade é que não se publicam de outras...

A AUTO-ESTIMA DO PORTUGAL DE HÁ 75 ANOS

17 de Fevereiro de 1946. As duas edições do dia do Diário de Lisboa dão uma imagem do que era a (fraquíssima) auto-estima desportiva do Portugal de há 75 anos. Considere-se o destaque que acima é dado ao acontecimento: um jogo de futebol entre uma selecção do exército português e outra da RAF britânica. Note-se que a RAF é apenas um dos três ramos das forças armadas do Reino Unido, mas o jornal dava-os como os «jogadores mais famosos do Mundo». A reportagem do jogo é, como se percebe da 2ª edição do jornal, assaz desenvolvida. Um pormenor interessante: os jogadores da selecção portuguesa entraram em campo equipados a rigor, mas, como militares, de bivaque na cabeça; quando da saudação inicial fizeram a continência. Era uma forma de contornar o problema da saudação tradicional, de braço direito estendido, saudação olímpica mas bastante parecida com a do fascismo e do nazismo, que havia ultimamente caído bastante em descrédito(...) e que, para mais, os ingleses até podiam levar a mal. No final do jogo, disputado no Estádio Nacional, registava-se um empate «por 1 a 1». Daqueles empates que só a imprensa portuguesa guarda o segredo de apresentar como uma grande vitória.

16 fevereiro 2021

...À HORA ALEMÃ

Se observarmos com atenção o mapa da Europa acima, com a demarcação «natural» das respectivas zonas horárias, apercebermo-nos-emos que tanto os três países do Benelux, como a França e a Espanha deveriam compartilhar a mesma hora que Portugal, o Reino Unido e a Irlanda. E de facto assim foi durante quase toda a primeira metade do século XX, Londres e Paris (como também Lisboa e Madrid...) viviam à mesma hora. As primeiras culpas por isso ter deixado de acontecer devem-se aos alemães, e as causas começaram há precisamente 80 anos, por causa da França ocupada. Esta passou a viver a duas horas diferentes: nas regiões controladas directamente pela Alemanha usava-se a hora alemã; nas submetidas ao governo directo de Vichy usava-se a hora francesa. O problema principal era para serviços que envolviam as duas zonas, nomeadamente os caminhos de ferro que tinham que trabalhar com horários desnecessariamente complexos. Para simplificar o horário do expresso que ligava Paris a Marselha (por exemplo), a SNCF solicitou ao governo de Vichy que alinhasse o relógio de França pela hora alemã. Esse alinhamento teve lugar por um decreto promulgado pelo governo de Vichy em 16 de Fevereiro de 1941, há precisamente oitenta anos. Porém, nos Países Baixos, na Bélgica e também no Luxemburgo nada disso fora preciso: quando da ocupação no Verão de 1940 os alemães simplesmente impuseram que se vivesse de acordo com a sua hora. Em contrapartida, em Espanha foi uma cortesia política do regime de Franco, a de se alinhar com a hora alemã a partir de 1942. A subsistência deste desalinhamento depois do final da Guerra veio demonstrar que o ritmo solar, outrora tão importante nas sociedades rurais, se tornara apenas numa convenção nas sociedades industrializadas (e dos serviços) do século XX.

O APARECIMENTO DOS «MARCELOS»

16 de Fevereiro de 1971. Entrada em circulação das novas moedas de 10 centavos, feitas de uma liga de alumínio muito leve, tão leve que as moedas flutuavam se depositadas com cuidado sobre a água. Por razões que nunca soube, as moedinhas exóticas vieram a ganhar rapidamente a alcunha de «marcelos», por associação ao presidente do Conselho da época, Marcello Caetano. Se, por estes dias, algum objecto de circulação corrente adquirisse a alcunha de «marcelo», não seria uma moeda com certeza, seria qualquer coisa que emitisse som, que estivesse sempre a emitir som.

15 fevereiro 2021

«TEMOS O SANTA MARIA ENTRE NÓS. OBRIGADO PORTUGUESES.»

15 de Fevereiro de 1961. As palavras em título só virão a ser pronunciadas no dia seguinte à frente das câmaras de televisão por um Salazar visivelmente incomodado com a manifestação espontânea que fora acolher a chegada do paquete Santa Maria ao cais de Alcântara. O presidente do Conselho gostava de falar diante de assembleias seleccionadas, proferindo discursos cuidadosamente redigidos de antemão, com pausas antecipadas para os «apoiados» e as palmas da praxe. A chegada do Santa Maria a Lisboa, depois do que acontecera no Brasil, não teve nada disso: uma multidão, muita emoção e muitos lenços brancos e uma coreografia cerimonial a fugir frequentemente ao guião, a pedirem a Salazar um discurso que ele não preparara (pena que essas imagens não estejam disponíveis). Mas o que me interessa neste poste é evocar como é que a multidão aparecera no cais de Alcântara. No jornal do dia anterior, há 60 anos exactamente, podemos encontrar este anúncio, em que a gerência de A Mariazinha publicitava que dará folga da parte da tarde do dia seguinte ao seu pessoal para que este pudesse assistir à chegada do navio. Como creio que a esmagadora maioria dos leitores desconhecerá o que era A Mariazinha, Cafés e Chás, Rua Barros Queirós 26 e 28, sugiro-lhes a consulta de uma entrada sobre aquele estabelecimento comercial publicada no blogue Garfadas on-line. Aquela explicação incide mais - e bem - sobre os artigos de mercearia daquele estabelecimento histórico, mas eu acrescentaria a propósito uma pequena adenda sobre as simpatias políticas do seu proprietário e gerente, como abaixo se comprova, por este outro anúncio publicitário.

A INVASÃO RUSSA DA GEÓRGIA

15 de Fevereiro de 1921. Há cem anos, o Exército Vermelho iniciava a invasão da República Democrática da Geórgia. Apesar da uma retórica que apregoava precisamente o contrário, os bolcheviques de Moscovo sempre foram imperialistas: o seu objectivo era reconstituir as fronteiras do Império russo com as devidas adaptações de vocabulário. Já aqui me referi como no Verão de 1920 os bolcheviques russos haviam tentado reapossar-se da Polónia, foram derrotados, e acabaram por reconhecer a independência polaca. E contudo, este caso da Geórgia consegue ser ainda mais escabroso. A Geórgia de 1921 era tecnicamente um país socialista, governado pela facção menchevique da secção georgiana daquele mesmo Partido Social Democrata russo que estivera na origem dos bolcheviques de Moscovo. Mas, mais do que o parentesco político (ou,se calhar, por causa dele...), os mencheviques da Geórgia haviam procurado assegurar-se de garantias políticas, assinando um Tratado em Moscovo em Maio de 1920, em que a Rússia reconhecia «sem reservas a independência e soberania do Estado da Geórgia e voluntariamente renuncia(va) a todos os direitos soberanos que a Rússia pudesse ter no que diz respeito ao povo e ao território da Geórgia.» E tudo isso foi descartado há cem anos. A Geórgia foi invadida, conquistada e anexada. Afinal, Stalin não era georgiano?...A fotografia mostra unidades do Exército invasor em Tblissi.

OS «GAULLISTAS» DE 1941

14 de Fevereiro de 1941. Notícias oriundas de Paris (que, recorde-se, estava ocupada pelos alemães e fora da jurisdição directa de Vichy),davam conta da prisão de 58 pessoas tidas como simpatizantes da França Livre do general de Gaulle. Lendo a notícia, percebe-se o esforço de quem a redigiu em conotar os detidos com uma certa aristocracia («elevada categoria social»), moradores na área rica de Paris, Auteuil e Passy no 16º bairro da cidade, considerado o bairro nobre da capital francesa. Há oitenta anos em França tudo era muito confuso a respeito do quem resistia e quem colaborava com os alemães. O prefeito da Polícia de Paris, Roger Langeron, que é mencionado na notícia acima, é um perfeito exemplo dessa controvérsia, tendo criado uma certa aura de resistente porque perseguia os comunistas franceses que, nessa altura e por causa do pacto germano-soviético, tentavam colaborar com os alemães. Mas foram as próprias autoridades de Vichy que acabaram por o demitir. Solidamente resistentes em Fevereiro de 1941, só mesmo aqueles que tinham ligações a Londres, que eram ainda poucos e, como se vê, muito perseguidos.

14 fevereiro 2021

O REGRESSO À TEORIA DA EVOLUÇÃO DE CHARLES DARWIN

14 de Fevereiro de 2001. Revertendo uma polémica decisão tomada em 1999, o Conselho de Educação do Kansas votou nesse dia para que se reincluísse no programa científico das escolas secundárias daquele estado americano a Teoria da Evolução de Charles Darwin. A decisão, alcançada por 7 votos contra 3, foi uma consequência das eleições de Novembro de 2000, quando três membros do conselho perderam o lugar depois de terem votado pela remoção daquela teoria sobre a origem e evolução da humanidade dos programas científicos das escolas públicas, permitindo, ao mesmo tempo, que teorias «alternativas» fossem ensinadas. Vale a pena precisar que a resolução de 1999 nunca proibira o ensino da Teoria Evolução, nem exigira o ensino da História Bíblica da Criação em alternativa; porém, retirara a Teoria de Darwin da matéria de avaliação nos testes padronizados feitos pelos alunos do Kansas. A decisão correra mundo, e tornara-se, nas palavras do próprio governador do Estado, Bill Graves, um «embaraço» para o Kansas. E no entanto, por muito patusco, ridículo e pitoresco que consideremos este episódio ocorrido já em pleno século XXI, a controvérsia estava longe de estar encerrada: em 2005 o mesmo estado do Kansas tornou a ganhar notoriedade precisamente pela mesma razão, com umas «Audições sobre a Evolução» que colocaram o criacionismo novamente na agenda, agora reciclado numa nova teoria do design inteligente. É através destas pequenas efemérides que se consegue perceber a América obscurantista que elegeu Donald Trump.

13 fevereiro 2021

A COMPRA DO «THE TIMES» POR RUPERT MURDOCH

13 de Fevereiro de 1981. O magnata da imprensa australiano Rupert Murdoch compra o institucional jornal The Times, fundado em 1785, e considerado o mais emblemático dos títulos da imprensa britânica. Essa era a notícia de há quarenta anos. Outro interesse é analisar o formato como a notícia é desenvolvida pelo seu colega Diário de Lisboa. Um dos aspectos não desenvolvido pela notícia do Lisboa, é o detalhe, previamente anunciado pelos vendedores (a ITO, detida por um outro magnata, esse canadiano, chamado Kenneth Thomson), que eles faziam tenção de encerrar os dois jornais - Times e Sunday Times - até dia 14 de Março, se até lá não encontrassem comprador com uma proposta razoável. Em vez disso, o ênfase da notícia concentra-se no número de despedimentos antecipado, já que o novo proprietário iria alterar os processos de edição e impressão do jornal. A referência ao tema revelava-se surpreendente, tendo em conta que era então muito raro os jornais da imprensa portuguesa referirem-se às consequências em termos de despedimentos, salários em atraso, etc., que se verificavam com o profuso encerramento de títulos em Portugal - O Século (1978), A Luta (1979), Jornal Novo (1979), entre outros, cessaram de se publicar naqueles anos, perante o silêncio ribombante da concorrência, esqueça-se lá aquela sensibilidade no Diário de Lisboa para com o destino dos seus colegas londrinos...

12 fevereiro 2021

A DECLARAÇÃO IMPORTANTE QUE O TEMPO TORNOU AINDA MAIS IMPORTANTE

Por vezes, encontram-se nalgumas edições do jornal notícias discretas, quase irrelevantes para o leitor desse dia, mas a que os leitores do futuro atentos saberão dar o devido relevo e significado. É o que acontece com esta curta notícia de 12 de Fevereiro de 1941, a respeito de uma conferência de imprensa dada pelo presidente Roosevelt, em que ele procurou descansar os britânicos, assegurando-lhes que o apoio dos Estados Unidos não diminuiria na eventualidade de estes se verem envolvidos numa guerra no Pacífico (lembre-se que os Estados Unidos eram neutrais e se estava ainda a dez meses do ataque japonês a Pearl Harbor). O futuro comprovará que Franklin Roosevelt estava a dizer a verdade: depois de engajados na guerra, a prioridade dos Estados Unidos sempre foi a Europa e derrotar a Alemanha. O que o presidente americano acrescentou é que se veio a revelar profeticamente mentira: mesmo que ele se sentisse na obrigação de dizer que «pensava» que não haveria risco de guerra no Pacífico, houve mesmo guerra no Pacífico. Esse desfecho não estava nas suas mãos e é significativo que Roosevelt se tivesse recusado «a ser mais explícito» naquele ponto. É da natureza da política que as comunicações presidenciais sejam mesmo assim: metade verdade, metade mentira. O meu problema com as de Marcelo a propósito da pandemia é que não tenho a clarividência histórica de conseguir separar uma de outra.

A MORTE DE HENRI HUET

Ainda 11 de Fevereiro de 1971. Só nesse dia era dada a notícia da morte, no dia anterior, do foto-jornalista Henri Huet, quando o helicóptero onde viajava com três colegas e sete oficiais sul-vietnamitas foi abatido pelas anti-aéreas norte-vietnamitas que protegiam a trilha Ho-Chi-Minh. Huet fora o autor de algumas das mais icónicas fotografias da Guerra do Vietname de que acima exibo duas, escolhidas ambas com um sentido irónico consideradas as circunstâncias da sua morte. A da esquerda, em que um helicóptero, por impossibilidade de pousar, recolhe um ferido numa cesta; a da direita, o momento em 1965 em que a sua colega americana Dickey Chapelle agonizante, recebe a extrema unção, depois de atingida pelo accionamento de uma armadilha. Há cinquenta anos havia chegado a vez de Huet.

11 fevereiro 2021

O GUARDA ROUPA DOS INTÉRPRETES E AS PALAVRAS DOS DEPUTADOS

11 de Fevereiro de 1971 era uma Quinta-Feira como hoje. E nessa noite, depois do jantar, disputava-se no cinema Tivoli (e em todos os televisores!) o importantíssimo Festival da Canção. Lembro-me que o Diário Popular desse dia continha uma separata onde podíamos ir apontando a votação recebida dos júris distritais por cada canção concorrente. Que eu usei. Mas é do seu concorrente Diário de Lisboa que recupero esta página (simbólica) onde se pode comparar o espaço que era dedicado ao guarda roupa que os intérpretes do festival iriam envergar nessa noite (a vermelho), com aquilo que fora dito nessa tarde pelos deputados na Assembleia Nacional em São Bento (a azul). Quando as coisas são para ser importantes, são mesmo importantes.

10 fevereiro 2021

O CAMUFLADO DO ALMIRANTE

Nesta história do camuflado do Almirante eu disponho-me a entender muita coisa e até a simpatizar com a causa. Só que não me disponho a alinhar com tudo e até ao fim. Eu percebo que, consideradas as circunstâncias da pandemia, haja uma necessidade social de se encontrar heróis. Também percebo que, mesmo que não conheça a identidade de quem a desencadeou, apareçam campanhas para eleger esses heróis, como aconteceu visivelmente, de um dia para o outro, ao caso do vice-almirante Gouveia e Melo, que foi substituir o anterior responsável nacional pelo plano de vacinação, Francisco Ramos. Os elogios que lhe dispensaram pareceram-me excessivos e despropositados, tanto mais que a nomeação foi feita na continuidade: Gouveia e Melo era o vice do anterior titular. Mas, mesmo assim, sou pessoa para conseguir separar as críticas ao exagero da própria pessoa do nomeado, inocente da exaltação a seu respeito, tanto mais que ele, nas palavras em que o citam, até dá mostras de uma modéstia - «Não sou eu Gouveia e Melo, não é um militar a comandar, que vale por si. Temos todos de trabalhar em equipa.» - que vai ao arrepio dos encómios que, na comunicação social, se escreveram e se continuam a escrever a seu respeito.
Agora, com toda a simpatia previamente demonstrada, o que eu já não consigo perceber é porque é que o Almirante Gouveia e Melo tem necessidade de vir para a televisão dar entrevistas de camuflado, como ontem aconteceu na TVI. Uma rápida pesquisa na internet mostrou-me que até aqui há uma semana as fotografias existentes do Almirante Gouveia e Melo mostravam-no envergando as tradicionais fardas de serviço dos oficiais da Armada, mas não o camuflado, tanto mais que os cargos mais recentemente desempenhados por si (o de chefe de gabinete do Chefe do Estado-Maior da Armada, por exemplo), não implicariam essa necessidade de uma farda que associamos ao combate de infantaria - ou de fuzileiros, no caso daquele ramo. O princípio, que me parece sólido, permanece válido para as funções que o Vice-Almirante Gouveia e Melo agora assumiu. A responsabilidade - reconhecidamente complexa - da gestão da administração das vacinas contra a covid-19 não se equipará a qualquer combate terrestre ou a uma operação anfíbia. Tanto mais que - como se pode ler no seu CV - a especialidade de Gouveia e Melo são os submarinos. A não ser que o camuflado seja um elemento de «décor», ao jeito da famosa colecção de broches que a dra. Graça Freitas leva para as conferências de imprensa...     
A ser assim, para além de despropositado, o guarda-roupa escolhido pelo ou para o Vice-Almirante Gouveia e Melo não me parece feliz: o aparecimento de oficiais de camuflado à frente das câmaras de televisão está, entre nós, para sempre associado a episódios de alteração da ordem pública, como aquelas longas explicações prestadas pelo capitão Duran Clemente ao longo da tarde do dia 25 de Novembro de 1975 até ser substituído pelo Danny Kaye. Por sinal, há quarenta e cinco anos como hoje, Duran Clemente, que era um oficial de Administração Militar, não precisava do camuflado para nada, mas ficava-lhe bem, dava-lhe um ar de combatente na televisão... Mesmo que próximos do Carnaval, o almirante Gouveia e Melo não precisa desse ar de combatente.

O HOMEM CONTRA A MÁQUINA

10 de Fevereiro de 1996. Inicia-se em Filadélfia o primeiro match de xadrez que opõe o campeão mundial Garry Kasparov e o superperformante programa Deep Blue. Contudo, há 25 anos, Deep Blue não era um programa inteligente no sentido clássico: a sua destreza assentava na capacidade de processar centenas de milhões de jogadas possíveis por segundo e não incorporava qualquer ensinamento com o desenrolar dos jogos. Garry Gasparov mostrara-se por muito tempo relutante a disputar este match, só o aceitara depois de um substancial reforço do prémio de presença. A IBM estava por detrás de Deep Blue. e a promoção do evento pagar-se-ia a si mesma no caso da vitória da máquina. Mas não. Gasparov veio a vencer o match por 4-2, ao fim de 6 jogos que decorreram entre 10 e 17 de Fevereiro. Porém, não era isso o que se queria! Nem a IBM, nem a comunicação social. Em Maio do ano seguinte, agora contra um Deep Blue II ainda mais performante, a máquina venceu finalmente o Homem (Gasparov), que era afinal o que toda a gente queria naquele enredo.

09 fevereiro 2021

UM CRETINO NO PLANALTO

Até mesmo os adversários mais empedernidos terão que reconhecer que, tivesse Haddad vencido as eleições presidenciais brasileiras de 2018, não se assistiria a nada de parecido - em termos de disparates - vindo das decisões do inquilino do Palácio da Alvorada. Vai sendo tempo que o colectivo brasileiro incorpore para si que, pelas razões circunstanciais mais legítimas, nomeadamente a corrupção instalada nas cercanias do poder por Lula e o PT, o povo cometeu um erro de palmatória ao conferir o mandato presidencial a alguém tão mal preparado para a função quanto Jair Bolsonaro. Foram 49 e depois 58 milhões de votos na fase decisiva, mas a asneira que os brasileiros cometeram, comprova-se agora, dois anos depois, também é gigantesca. Não só Bolsonaro não resolveu nada do que prometeu que ia (finalmente) resolver, como ainda o apanhamos a perder tempo e recursos com merdices como a descrita acima, da distribuição da cloroquina para o tratamento da covid-19. Isto não é um erro, é uma imbecilidade! Porém, se a contricção colectiva do povo brasileiro é um gesto muito difícil, nem tudo é ruim na situação, já que podem aprender com o exemplo dos gringos americanos do Norte. Esses também atravessa(ra)m crise semelhante, com o disparate de terem eleito um outro imbecil incompetente para o mesmo cargo presidencial: Donald Trump. E, por contemporizar e tergiversar com esse erro, acabaram por assistir ao impensável: um assalto ao Capitólio, incentivado pelos discursos do próprio presidente! Estou longe de profetizar que a situação se repita em Brasília com o Palácio do Congresso: Bolsonaro e Trump são igualmente incompetentes mas, na sua imprevisibilidade, possuem personalidades distintas. Porém, chamo a atenção que os Estados Unidos estavam defendidos dos desmandos de Trump porque possuem instituições políticas sólidas; o Brasil não tem...
(Uma pequena nota adicional para recordar Francisco José Viegas que, durante anos a fio, foi um constante, incansável e justo paladino na denúncia do Caso Lava jato e da corrupção que rodeava a presidência de Lula, ao ponto de construir uma reputação de «profundo conhecedor da realidade brasileira» e que, de há dois anos para cá, depois da eleição de Jair Bolsonaro, e por um inexplicável silêncio mediático, parece ter perdido conhecimentos... ou então considerará que nada do que se passou por lá neste último período de dois anos digno de comentário crítico... ou ainda se fica a pensar que o seu conhecimento era afinal apenas uma implicância selectiva com Lula e o PT.)

OUTRO DISCURSO IMPORTANTE DE STALIN

9 de Fevereiro de 1946. Nessa noite o camarada Stalin compareceu numa sessão de esclarecimento organizada no teatro Bolshoi, especialmente para que ele discursasse como candidato às eleições ao Soviete Supremo que teriam lugar no dia seguinte. Eram uma fantochada. Era uma fantochada as eleições (onde se escrutinaram 99,2% de votos pelos comunistas) e também era espectável que a «sessão de esclarecimento» de Stalin fosse outra fantochada ainda maior (se possível!), pontuada por um discurso frequentemente interrompido por aplausos intermináveis, acompanhados de gritos laudatórios ao ditador, uma cenografia caricata que eu já aqui destaquei no Herdeiro de Aécio a propósito do que acontecera em Dezembro de 1937, naquele mesmo teatro e por ocasião das eleições anteriores. Só que, desta vez, o conteúdo do discurso de Staline foi avaliado - sobretudo pelos observadores estrangeiros - de maneira muito menos inócua do que fora o de 1937. Stalin fez, como se esperaria, uma avaliação do que haviam sido os anos da (Segunda) Guerra que havia terminado (quatro anos, já que a sua participação só começara em 1941). E ao fazê-lo, talvez por causa da circunstância e da assistência, mas também talvez porque o ambiente de entendimento com os antigos aliados (Estados Unidos e Reino Unido) estivesse a piorar substancialmente, Stalin fez essa avaliação de uma forma pró-soviética (o que seria de esperar) mas também pouco simpática (por omissão) para com os seus antigos parceiros (a conferência de Yalta havia tido lugar ainda há um ano, a de Potsdam há apenas seis meses).  Como acontece tantas vezes em tantos outros acontecimentos, não existe um dia preciso para o começo da Guerra Fria, mas este discurso de Stalin, recuperado depois como elemento de queixa pelos americanos, tornar-se-á uma data marcante.

08 fevereiro 2021

AS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS FRANCESAS DE 8 DE FEVEREIRO DE 1871

8 de Fevereiro de 1871. Mau grado as rendições do regime imperial em Sedan e do regime republicano em Paris e a consequente derrota efectiva da França na Guerra Franco-Prussiana, apesar da ocupação pelo inimigo de quase metade do país (43 departamentos em 89), têm lugar as eleições legislativas francesas. Apesar de ocupantes e de vencedores que exigiam severas compensações (5.000 mil milhões e as duas províncias da Alsácia e da Lorena), os prussianos de Bismarck comportaram-se para a ocasião como políticos finos, facilitando as eleições quando não mesmo a logística da propaganda das listas dos «candidatos da paz». Porque a França fora vencida, mas o problema que subsistia era que ela aceitasse a derrota. E essa aceitação precisava de ser legitimada por um acto eleitoral que robustecesse as teses da ala republicana moderada que se mostrava disposta a aceitar o veredicto das armas e as respectivas consequências, facção essa encabeçada pelo veterano septuagenário Adolphe Thiers (acima, à esquerda). Contra si, pontificava a facção republicana mais radical, dirigida por Léon Gambetta (à direita), que se mostrava contra a aceitação daquelas condições impostas pelos prussianos e a favor da continuação da resistência aos alemães. O que há a dizer dos resultados da consulta ao eleitorado francês entre estas duas facções republicanas... é que ganharam os monárquicos! O resto da França recusava-se a seguir a França urbana: os monárquicos, representados no quadro acima a azul (escuro para os legitimistas - 182 lugares - e claro para os orleanistas - 214 lugares) detinham uma robusta maioria da primeira assembleia eleita da nova República, que fora proclamada em Paris há cinco meses... Isto às vezes é uma chatice convocar o eleitorado para resolver uma disputa política.

O INÍCIO DA OPERAÇÃO LAM SON 719

8 de Fevereiro de 1971. Cerca de 12.000 soldados sul-vietnamitas sob o comando do tenente-general Hoàng Xuân Lãm atravessam a fronteira com o Laos (ver mapa mais abaixo) com o objectivo de cortarem a Trilha Ho-Chi-Minh que reabastecia logisticamente a guerra que os norte-vietnamitas desenvolviam no Vietname do Sul. Mas, vale a pena recuperar um poste aqui colocado no Herdeiro de Aécio há mais de dez anos a respeito desta operação que agora completa cinquenta anos.
Se a história que, nos Estados Unidos, se quis reter da Guerra do Vietname pode ser sintetizada em fotografias como a que aparece cima, a de uma guerra de patrulhas de infantaria atravessando regiões inóspitas em busca de um inimigo que se escondia e só se dispunha a combater em locais à sua escolha, a verdadeira Guerra do Vietname é algo mais complexa que isso. Depois da Administração Nixon ter decidido evacuar todas as forças combatentes dos Estados Unidos, e substitui-los por sul-vietnamitas (a chamada vietnamização), o cenário da Guerra alterou-se significativamente. Com os norte-americanos agindo cada vez mais como assessores e não integrados em unidades combatentes, a grande maioria das batalhas que tiveram lugar durante a década de 70 foram de tipo convencional, envolvendo imensos meios aéreos e blindados. Um dos primeiros exemplos disso foi a Operação Lam Son 719, uma iniciativa conjunta norte-americana e sul-vietnamita para bloquear e estrangular a Trilha Ho Chi Minh (acima) que era a via de reabastecimento com que, através do território do Laos, o Vietname do Norte abastecia logisticamente a guerrilha no Vietname do Sul (abaixo).
O nome da Operação era pomposo: Lam Son era o nome de uma revolta dos vietnamitas contra os chineses que tivera lugar em 1427 e o 719 resultava da junção do ano da ofensiva (1971) com o número da antiga estrada colonial (francesa) que constituiria o eixo da progressão, a nº 9 que ligava Quang Tri no Vietname a Tchepone no Laos. A Operação estava estruturada em 4 fases que passavam pela conquista, manutenção e posterior evacuação em boa ordem da cidade laociana. A Operação tinha o objectivo político de mostrar as novas capacidades do exército sul-vietnamita, o sucesso da vietnamização.
Descrevendo-a de uma forma necessariamente sucinta, a resistência às colunas que pretendiam progredir ao longo da estrada nº 9 aumentou a tal ponto que houve que recorrer a um gigantesco assalto heli-transportado (acima), o maior de toda a Guerra do Vietname, empregando 120 helicópteros Huey(*), para que dois batalhões de soldados sul-vietnamitas conseguissem finalmente conquistar o objectivo final de Tchepone. Para efeitos do objectivo político da Operação esse terá sido o momento da consagração (abaixo). Mas o pior estava para acontecer quando se quisesse proceder à evacuação em boa ordem
Foi aí, debaixo do fogo dos contra-ataques dos norte-vietnamitas que os militares norte-americanos se aperceberam das fragilidades dos seus aliados, nomeadamente a completa perda de disciplina quando em situações adversas (abaixo, soldados sul-vietnamitas pendurados nos patins dos helicópteros de evacuação dos feridos…). Mas, como tantas vezes acontece, essa realidade teve que desaparecer perante as necessidades políticas: para benefício dos seus respectivos auditórios tanto Richard Nixon quanto Nguyễn Văn Thiệu, o presidente do Vietname do Sul, validaram o sucesso da vietnamização
(*) Para comparação, por essa altura a Força Aérea portuguesa dispunha de 100 helicópteros para o conjunto dos seus 3 Teatros de Operações em África (Angola, Moçambique e Guiné). E no conjunto, norte-americanos e sul-vietnamitas perderam 108 helicópteros durante a Operação Lam Son 719.