11 março 2010

DISCURSOS DOS TEMPOS DOS ERROS COMETIDOS E DAS EXPECTATIVAS GORADAS

Há uns dias, usei num poste uma fotografia das eleições para o Soviete Supremo da União que tiveram lugar em 12 de Dezembro de 1937 (acima). Nela, um grande poster de Estaline, qual Grande Irmão de Orwell, parecia estar a vigiar os eleitores. Será um desperdício não usar o pretexto para falar e vos mostrar alguns trechos daquilo que hoje chamaríamos a Grande Sessão de Encerramento da campanha para essas mesmas eleições, que teve lugar em 11 de Dezembro de 1937, véspera do dia do acto, no Teatro Bolshoi de Moscovo, com a presença do inevitável Camarada Estaline. Evidentemente, o seu discurso foi o momento mais alto da Sessão e os comentários descritivos estão assinalados a vermelho.

O Presidente da Mesa: - Chamo o nosso candidato Camarada Estaline para falar.

Os votantes acolhem a aparição do grande camarada Estaline no púlpito com uma grande ovação que se arrasta por vários minutos. Todos os presentes na Sala do Teatro Bolshoi se levantam para o saudar. Ouvem-se gritos contínuos dizendo Viva o Grande Estaline, Hurra!, Hurra pelo Camarada Estaline, o criador da Constituição Soviética, a mais democrática do Mundo! ou Viva o Camarada Estaline, líder dos oprimidos de todo o Mundo, Hurra! que se prolongam por vários minutos, até Estaline dar mostras de aborrecimento... (vídeo abaixo)

Camarada Estaline: - Camaradas, para vos dizer a verdade, não tinha nenhuma intenção de vir discursar. Mas o nosso respeitado Nikita Sergeyevich arrastou-me para este comício à força, por assim dizer. «Faz um bom discurso», disse-me ele. O que é que eu vou dizer, de que tipo de discurso é que estão à espera, exactamente? Tudo o que devia ser dito já foi dito e repetido nos discursos dos nossos camaradas dirigentes: Kalinin, Molotov, Voroshilov, Kaganovich e muitos outros camaradas responsáveis. O que é que pode ser acrescentado a esses discursos?

O que é necessário, dizem-me, são explicações para certas questões associadas à campanha eleitoral. Que explicações e a que questões? Tudo o que tivesse de ter sido explicado foi explicado e repetidamente explicado nos nossos conhecidos documentos, enviados ao Partido Bolchevique, à Liga dos Jovens Comunistas, ao Conselho Central dos Sindicatos da União, à Sociedade de Defesa Aérea e Química ou ao Comité da Cultura Física. O que é que pode ser acrescentado a essas explicações?
Claro que se pode fazer um daqueles discursos ligeiros, falando de tudo e de nada (risos). Talvez um discurso desses animasse a audiência. Diz-se que há excelentes autores desse tipo de discursos não apenas no lado de lá, nos países capitalistas, mas também entre nós, no país dos sovietes (risos e aplausos). Mas, em primeiro lugar, não tenho jeito para esses discursos. Depois, será apropriado escrever algumas larachas quando todos nós bolcheviques estamos, como se costuma dizer, atulhados até ao pescoço com trabalho? Creio que não.Obviamente que não se pode fazer um bom discurso nessas circunstâncias. Porém, já que subi à tribuna, é claro que terei que dizer uma coisa qualquer, de uma maneira ou doutra (aplausos entusiasmados). Antes de mais, gostaria de exprimir os meus agradecimentos (aplausos) aos eleitores pela confiança que mostraram ter em mim (aplausos).

Fui nomeado como candidato, e a Comissão Eleitoral do Distrito Estaline da capital soviética registou a minha candidatura. Isto, camaradas, é uma expressão de uma enorme confiança. Permitam-me demonstrar-vos a minha profunda gratidão bolchevique por esta confiança que demonstraram no Partido Bolchevique do qual sou membro e também em mim pessoalmente, como representante do Partido (aplausos entusiasmados e prolongados).

Eu compreendo o significado da confiança. Depositam-se sobre mim novos deveres adicionais e, por consequência, novas responsabilidades adicionais. E, claro, não é costume entre nós, os bolcheviques, recusar responsabilidades. Aceito-as com a minha maior boa vontade (aplausos entusiasmados e prolongados. Uma voz : E todos nós seguiremos o camarada Estaline!). Podem dar como certo que o camarada Estaline será capaz de desempenhar os seus deveres (Estaline despeja uma garrafa de água num copo de onde depois beberrica) para com o povo (aplausos), com a classe operária (aplausos), com os camponeses (aplausos) e com os intelectuais (aplausos). (vídeo abaixo)

O discurso prossegue, com Estaline elogiando a liberdade e a democracia que se desfrutará nas eleições que se aproximam: É por isso que as nossas eleições são as únicas verdadeiramente livres e verdadeiramente democráticas em todo o Mundo! Então não era evidente?... Estava-se no auge do Grande Terror (conhecido na Rússia por Yezhovshchina) e, momentaneamente interrompidos por conveniência de agenda eleitoral, dali por três meses recomeçaria mais um dos espectaculares Processos de Moscovo, neste caso o Julgamento dos Vinte e Um, em que as figuras mais conhecidas eram Bukharin, Rykov e Yagoda. 17 dos 21 réus foram condenados à morte e fuzilados. Não é evidente que toda a Democracia que se preza deve precaver-se dos seus potenciais adversários políticos, executando-os?...

Mas a razão principal para aqui ter afixado alguns trechos do discurso de Estaline, que são pouco conhecidos no Ocidente, foi para mostrar quanto alguns dos seus aspectos mais característicos, a começar pela excessiva falsa modéstia e a terminar nas aclamações mais do que entusiásticas da assistência, se assemelham – na modéstia própria e no entusiasmo alheio – a outros discursos daquela mesma época, embora proferidos por protagonistas que seriam, aparentemente, do outro extremo do espectro político, como era o caso de Salazar em Portugal…

Enfim, atendendo à semelhança do estilo dos discursos, e como dizem agora os comunistas portugueses com imensa candura e generosidade, depois das maduras reflexões sobre o passado a que dizem ter-se dedicado depois de 1989, aqueles anos 30 foram tempos de experiências bem intencionados em que se cometeram alguns erros e em que algumas expectativas saíram goradas

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