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30 maio 2024

A FOTOGRAFIA DO POLÍTICO QUE NÃO TINHA JEITO PARA APANHAR BOLAS

(Republicação reeditada)
Comecemos por apresentar aos leitores deste blogue Robert Stanfield (1914-2003), que foi um político canadiano, porém desconhecido fora do Canadá. E, mesmo aí, será de perguntar quantos passageiros do Aeroporto Internacional de Halifax (que foi baptizado com o seu nome) saberão quem ele terá sido. Durante nove anos, de 1967-1976, Robert Stanfield foi o líder do Partido Conservador Progressista e, por inerência, o dirigente da oposição canadiana. Foram uns anos difíceis para se ser oposição, com a arena política dominada pela exuberância e popularidade do Primeiro-Ministro liberal Pierre Elliot Trudeau (1919-2000) – a Trudeaumania, já aqui por mim abordada num outro poste. E Robert Stanfield disputou (e perdeu) três eleições consecutivas com Pierre Trudeau: em 1968, 1972 e 1974.
Foi durante a campanha para aquelas últimas eleições que foram disputadas em Julho de 1974, que os assistentes de Stanfield se lembraram de trabalhar de algum modo a sua imagem rígida, sobretudo quando em comparação com a referência do primeiro-ministro Trudeau. A ideia, concretizada a 30 de Maio de 1974, completam-se hoje 50 anos, foi convidar um fotógrafo (Doug Ball) para lhe tirar umas fotografias espontâneas de jovialidade, com o candidato atirando, ou recebendo (acima) ou… falhando a recepção de uma bola de futebol americano. Claro que, das 36 fotografias do lote, foi esta última, a que se vê abaixo, a aparecer na primeira página dos jornais liberais do dia seguinte… e a tornar-se um péssimo prenúncio para as eleições que aí viriam.
Até hoje, o episódio é considerado um dos primeiros e principais exemplos dos efeitos da política de imagem na história política do Canadá. Contudo, a honestidade intelectual (e o exemplo de uma outra fotografia da mesma ocasião que acima inserimos) manda-nos reconhecer que a ideia de fotografar o candidato naqueles preparos e para efeitos promocionais era péssima e o milagre é que os assessores políticos e de imprensa de Robert Stanfield conseguem sair do episódio escondidos pela narrativa da vitimização do candidato por uma imprensa rival implacável, quando, no fundo, eles é que foram uns incompetentes de alto calibre. Quem é que se lembraria agora e por exemplo, de ir tirar fotografias a Pedro Nuno Santos para a Academia das Ciência de Lisboa?...

04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

31 março 2024

TERRANOVA: A INDEPENDÊNCIA QUE DESCAMBOU NUM FIASCO…

(Republicação por ocasião do 75º aniversário da adesão da Terranova ao Canadá)
A Terranova, que é actualmente designada por Terranova e Lavrador (Newfoundland and Labrador, no original) é a décima província do Canadá. No entanto, poucos serão os que saberão que, embora o núcleo inicial de colónias canadianas se haja formado em 1867, a adesão da Terranova ao Canadá só ocorreu em 1949, ou seja, já depois do fim da Segunda Guerra Mundial e que, antes disso, o Canadá e a Terranova haviam trilhado percursos históricos distintos.

Depois das tentativas de colonização dos vikings no Século XI, no Século XV houve vários navegadores portugueses envolvidos na exploração daquelas terras. Mas estes mostraram-se mais interessados na exploração da riqueza dos bancos piscícolas adjacentes (especialmente na pesca do bacalhau) do que propriamente no assentamento em regiões meteorologicamente muito adversas, ainda para mais para quem estava habituado aos climas mediterrânicos.

Embora os portugueses tivessem acabado rapidamente por abdicar da disputa da posse daquelas costas da América, a sua participação inicial manteve-se viva na toponímia de Terranova (de que Newfoundland é uma tradução directa) e Labrador (por causa do descobridor, João Fernandes Lavrador). E, durante séculos, a região foi local de visita de pescadores vindos do outro lado do Atlântico: ingleses, franceses, irlandeses, escoceses, portugueses, bascos, castelhanos, bretões, etc.

Os britânicos acabaram por impor a sua hegemonia embora entre a população local se contasse uma contribuição importantíssima das minorias célticas britânicas(*), em comparação com os ingleses propriamente ditos. Não tendo feito parte inicialmente do Canadá, nem aderido posteriormente (em 1892, isso esteve quase a acontecer), em 1907, a Terranova recebeu, conjuntamente com a Nova Zelândia, um estatuto de quase completa autonomia, que se designava por Dominion.

Com uma população rondando os 175.000 habitantes e com uma próspera economia de exportação, assente na pesca e na indústria do papel e mineira, o país viveu então nas duas décadas seguintes a sua época de ouro. Para tudo entrar em descalabro com a Crise de 1929… Completamente dependente do exterior por causa da dimensão diminuta da sua procura interna, não só a economia de Terranova entrou em colapso(**), como também o mesmo aconteceu com as finanças do Dominion

Para entrar com os meios para as reequilibrar, a metrópole britânica colocou a condição de reinstalar o seu domínio sob o aspecto de uma Comissão Governamental que seria responsável perante o Governo de Londres. Em 1934, em tudo, excepto na forma, havia-se extinguido a independência da Terranova… Mas a questão voltou a colocar-se logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, quando o Reino Unido entrou por sua vez em dificuldades financeiras e se quis ver livre destes fardos

As opções que se colocavam para a decisão do futuro da Terranova eram: a continuação da administração britânica; a recuperação do estatuto de Dominion; a adesão ao Canadá; a adesão aos Estados Unidos. Na primeira nem Londres estava interessada e a última nem apareceu nos boletins de voto… Depois de um primeiro referendo inconclusivo, em que a hipótese de Dominion obteve uma vantagem de 44,5% a 41,1% sobre a adesão ao Canadá, num segundo, esta última ganhou com 52% dos votos.

Em 31 de Março de 1949 a Terranova juntou-se ao Canadá, tornando-se na sua décima província. Actualmente, com um pouco mais de 500.000 habitantes e uma área de 405.000 km², a província representa apenas 1,6% da população canadiana, 4% da sua área total e 1,3% da sua economia (em 2006). Contudo, a descoberta recente de novas jazidas de petróleo na plataforma continental, faz prever que a província poderá vir a gozar de um novo período dourado, um século depois do primeiro…

(*) – Irlandeses, escoceses e galeses.
(**) – Um cenário com bastantes semelhanças com o que aconteceu quase 80 anos depois à Islândia.

25 outubro 2023

QUANDO UM PARTIDO NO PODER COLAPSA... E A COMUNICAÇÃO SOCIAL SÓ DESCOBRE À ÚLTIMA DA HORA

(Republicação, porque este é um dos casos mais espectaculares de manipulação de sondagens)
25 de Outubro de 1993. Realizam-se eleições gerais no Canadá e os resultados são um daqueles raros episódios em democracias consolidadas, onde o partido que está no poder colapsa fragorosamente. O partido conservador, liderado à época pela primeira-ministra Kim Campbell (a primeira, e até hoje a única, mulher a ocupar aquele cargo no Canadá), passa dos 43% que recebera nas eleições de 1988 para uns míseros 16% dos votos. Mas isso nem é o pior. Por causa do sistema eleitoral canadiano, de tradição britânica, onde cada candidato disputa individualmente a eleição no seu círculo eleitoral, os deputados conservadores passaram de uma maioria de 169 (num parlamento com 295 lugares) para... 2. Remate de humilhação: nem a própria primeira ministra foi reeleita no círculo por onde se apresentara. Foram os liberais, a tradicional formação política que costuma alternar no poder em Ottawa, que assumiram o poder com Jean Chrétien como primeiro-ministro, apoiado numa maioria de 177 lugares. Mas o mais interessante que recordo de todo este episódio é como ele chegou sem se fazer anunciar: se se consultar aquilo que as sondagens anteviam, ainda um mês antes das eleições elas mostravam um equilíbrio entre conservadores (PC) e liberais (Lib). Só com o aproximar da data das eleições é que o panorama se foi progressivamente alterando até aderir aos resultados. Naquele tempo eu concluí que se tratara de uma evolução acentuada e brusca da opinião pública. 30 anos depois, escaldado por inúmeros enganos inaceitáveis e incompreensíveis em sondagens eleitorais, tendo a aceitar melhor a hipótese que houve de facto «uma evolução acentuada e brusca», mas da opinião publicada. Não havendo explicações exógenas anómalas (como foi este caso), as opiniões públicas tendem a mudar de opinião muito mais lentamente do que as sondagens abaixo mostram...

19 agosto 2022

O «RAID» DE DIEPPE

19 de Agosto de 1942. Neste dia de há 80 anos, uma força britânica, mas maioritariamente composta por canadianos, realiza um raid sobre a cidade costeira francesa de Dieppe. O plano de operações original dos atacantes era o de derrotar as defesas alemãs instaladas nas praias e ocupar a cidade por algumas horas, destruindo as infraestruturas que pudessem aproveitar aos alemães, antes de reembarcar. No fundo, tratava-se de uma exibição de força e ousadia. Entre as unidades que iriam participar no assalto contava-se um regimento blindado, equipado com mais de 50 tanques Churchill e viaturas de reconhecimento Dingo. Por seu lado, a Royal Navy agrupava oito destroyers para apoiar a força de desembarque anfíbia, que incluía mais de duzentas embarcações, e a Royal Air Force mobilizava 74 esquadrões para lhes propiciar uma cobertura aérea adequada. Um esforço agregado, quando considerados todos os ramos, de cerca de 10.500 homens, dos quais 6.000 (5.000 canadianos e 1.000 britânicos) desembarcariam em terras francesas logo pelas 05H00 da manhã.
Do outro lado (e entenda-se a expressão com mais do que um sentido, porque Hitler estava do outro lado da Europa, em Vinnytsia na Ucrânia, de visita à Frente Leste), o susto foi grande, mas passou depressa. Para além da 302ª divisão, que guarnecia a região, o general Adolf Kuntzen, comandante do 81º Corpo de Exército, apressou-se a accionar em resposta as divisões móveis existentes em reserva, a divisão Leibstandarte SS Adolf Hitler e a 10ª divisão panzer. Mas nem chegaram a ser precisas. O desembarque veio a ser um fracasso completo para os atacantes, detido apenas pelos meios locais - 1.500 homens. A lista das perdas dos atacantes impressiona: perderam 33 das embarcações envolvidas no desembarque, para além de um dos oito destroyers que as apoiava; a RAF perdeu 106 aviões, o dobro das perdas sofridas pela Luftwaffe (48); mas o pior para a moral dos assaltantes foram, não apenas os mortos (900 contra 300 alemães), mas sobretudo os que tiveram de ficar para trás, aprisionados, por impossibilidade de os reembarcar - cerca de 2.000 homens (acima e abaixo).
Em suma, uma hecatombe militar, a que há que acrescentar o adicional de ter durado pouco tempo: às 9H00 da manhã já os assaltantes se tinham apercebido da inutilidade dos seus esforços e dado ordens para o reembarque. O pior era cumprir essas ordens debaixo do fogo nutrido que varria as praias. O tenente-coronel Dollard Ménard (abaixo), por exemplo, que comandava os Fuzileiros de Mont-Royal (uma unidade francófona), acabou sendo evacuado pelos seus homens mas depois de ter sido ferido por cinco(!) vezes. Contudo, 60% dos seus 900 fuzileiros ficaram para trás. Lê-se nos relatórios dos alemães que às 16H00 todo o comércio de Dieppe reabrira como se se tratasse de um dia normal. O comportamento dos habitantes locais fora irrepreensível, tendo inclusive havido casos de auxílio à captura de soldados britânicos transfugidos. Como gesto de retribuição, Adolf Hitler mandou libertar os prisioneiros de guerra franceses de 1940 que fossem oriundos de Dieppe - cerca de 1.500. A moral e a confiança dos alemães atingiu um novo patamar.
Do outro lado do Canal, travou-se uma outra batalha para reinventar a operação militar e a História, em busca de um paradigma diferente do verdadeiro fiasco total em que ela se tornara. O almirante Louis Mountbatten (abaixo), que, à frente das Operações Combinadas, mostrara ser o maior apoiante e entusiasta da iniciativa, bem podia ser um militar imprudente e medíocre, mas também se mostrava um cuidadoso gestor da sua imagem numa época em que o conceito era novo e conseguiu escapulir-se das consequências. A explicação e justificação que no QG de Mountbatten se foi desencantar para a debacle era, entre outras (para além da inexperiência das tropas canadianas*), que as insuficiências detectadas pelo desembarque de Dieppe vieram a ser apreendidas e solucionadas, para que se poupassem milhares de vidas naquele que veio a ser o desembarque da Normandia. Uma tese ridícula que só não foi mais ostensivamente contestada por causa das necessidades de guerra. Mas os canadianos nunca perdoaram o sacrifício de tantos a Mountbatten, que sempre foi considerado naquele país uma persona non grata.
Mas o melhor comentário a respeito daquela desculpa disparatada inventada pelos britânicos para justificar este seu triste desastre militar (que lhes custou mais de 900 mortos), é o comentário que atribui - ironicamente - a Louis Mountbatten um conceito inovador na «doutrina de instrução» das suas tropas: a realização de manobras onde, para além do emprego de fogos reais, se envolveria a participação de inimigos reais. Perante tal disparate de Mountbatten, rematava-se sarcasticamente: as tropas ficavam muito bem instruídas, veteranas mesmo, o problema é que os custos humanos e materiais de tal tipo de instrução é que se assemelhava, estranhamente, ao das batalhas a sério...

* Tão inexperientes quanto todas as unidades que vieram a desembarcar nas praias da Normandia...

05 abril 2022

A REVOLTA DA TERRANOVA

5 de Abril de 1932. Mesmo não querendo estragar o enredo desta história, aconselharia o leitor a visitar um poste que aqui publiquei em 2009 sobre a História da Terranova - A Independência que Descambou num Fiasco… Os acontecimentos de há noventa anos foram uma das fases principais daquele Fiasco. Na tarde de 5 de abril, uma grande multidão de manifestantes reuniu-se para uma marcha planeada para o Edifício Colonial, a sede do parlamente. Começando com 2.000 pessoas, o protesto acabou ganhando outras 1.500 enquanto marchavam. Diante do edifício, os líderes da manifestação apresentaram uma petição exigindo uma nova investigação oficial às acusações existentes de corrupção contra o primeiro-ministro Richard Squires. Durante a espera, alguns manifestantes começaram a tentar arrombar as portas. Quando as portas finalmente foram arrombadas, os manifestantes começaram a entrar no prédio e a polícia ripostou com bastões, defendo o edifício. Em resposta, os manifestantes começaram a atirar objectos pelas janelas, quebrando a maioria das janelas do prédio. Houve também tentativas de fogo posto. O primeiro-ministro acabou por sair do prédio ao fim da tarde, rodeado por guarda-costas, mas foi identificado pela multidão, o que o forçou a ter de se refugiar numa residência particular próxima. Por fim, Squires escapou com sucesso pelas traseiras da casa onde se refugiara, quando já fora demitido entretanto pelo governador John Middleton. Ironicamente, fora Middleton o responsável pelo inquérito que absolvera Squires das acusações de corrupção e que, por sua vez, provocara a manifestação indignada que o depusera. A notícia de uma revolução de cariz quase bolchevique num país de cultura britânica fazia sensação, mas quando se lê a notícia do Diário de Lisboa percebe-se que ela passa completamente ao lado do que era importante e sobre o que causara os acontecimentos.

29 março 2022

O CANADA ACT

29 de Março de 1982. O Canadá tornara-se um Domínio em 1867, dispondo já então da maior autonomia possível em todos os assuntos domésticos. Em 1931, esse estatuto fora revisto, conferindo ao Canadá (e aos restantes Domínios britânicos) uma total independência política, mesmo em assuntos de política externa. O que restara dos vínculos entre o Reino Unido e o Canadá foram o monarca e questões formais, nomeadamente no que se refere à autonomia para que os legisladores procedessem a revisões constitucionais. Era desse direito de reserva, que o parlamento britânico ainda dispunha e de que agora abdicava, que tratava este Canada Act, assinado pela rainha Isabel II há quarenta anos. Uma curiosidade adicional é que, tratando-se de um documento canadiano, a rainha assinara um documento bilingue, em inglês e francês (acima). Ora um documento francês com valor legal era algo que não se via em Inglaterra desde meados do século XIV, quando o francês fora o idioma oficial do país. Haveria isto tudo para escrever a propósito da ocasião, mesmo para quem não quisesse fazer um comentário elogioso sobre a forma pacífica como se concluíra o processo de transição do Canadá até à soberania plena, mau grado os 115 anos que durara. Agora, leia-se abaixo como o Diário de Lisboa noticiava o acontecimento. Veja-se como escrever notícias se pode tornar numa actividade reles quando infectada por motivações alheias, neste caso a procura do escândalo fomentada pela ideologia.

14 outubro 2021

OPERAÇÃO «SKY SHIELD II»

14 de Outubro de 1961. Repetindo e aprimorando um outro exercício que tivera lugar em Setembro de 1960, as Forças Aéreas dos Estados Unidos e do Canadá levaram a efeito um gigantesco exercício militar em que se simulavam as condições para um gigantesco ataque aéreo oriundo - como seria de esperar... - da União Soviética. Só que, para que esta Operação Sky Shield II tivesse lugar, todos os voos da aviação civil no Canadá e nos Estados Unidos tiveram que ser suspensos durante doze horas(!). Como se lê na notícia, a medida terá afectado «273 aparelhos civis canadianos e 1.850 norte-americanos» e, como não se pode ler na notícia, isso terá afectado cerca de 125.000 passageiros. Ao contrário daquilo que se costuma frequentemente escrever a respeito dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, estas foram as primeiras ocasiões em que as operações aéreas civis foram completamente suspensas no espaço aéreo norte-americano. As conclusões dos resultados da Operação Sky Shield II só vieram a tornar-se públicos - e mesmo assim com algumas restrições - em 1997: e não eram brilhantes. Por deficiências de detecção, ou por deficiências de intercepção, cerca de ¾ dos «bombardeiros soviéticos» teriam atingido os seus "alvos". Mas pior, uma outra questão era a do incómodo que a realização destes exercício causava, numa época em que o transporte aéreo crescia exponencialmente a cada ano que passava. No ano seguinte, em Setembro de 1962, uma terceira versão da Operação Sky Shield, a III, mas a suspensão dos voos civis restringiu-se apenas a cinco horas e meia. A avaliação das consequências desta vez foi menos patriótica e apareceu com uma factura de prejuízos apresentada pelas companhias de aviação: 1 milhão de dólares (da época). A Operação Sky Shield IV, prevista para 1963, acabou por ser cancelada e nunca mais se falou em operações àquela escala. Em Setembro de 2001, quando o tráfego aéreo civil foi efectivamente suspenso, o assunto estava esquecido.

03 novembro 2020

O CONDUTOR DO LAMBORGHINI DO DUBAI DE VISITA AOS ESTADOS UNIDOS... E AO CANADÁ

Uma explicação prévia, para que o leitor possa apreciar devidamente o vídeo abaixo, apesar da conversa ser em inglês, e que, por causa disso, lhe possam escapar os detalhes do que dizem os dois participantes. A popularização de tecnologias permitindo ao cidadão comum registar em vídeo os acontecimentos do seu quotidiano, consagrou a evidência de que os agentes da polícia nos Estados Unidos se comportam para com esse cidadão comum, como não é aceitável no resto do Mundo. O que não se teria escrito das tropas nazis, se elas se tivessem comportado na Europa ocupada da Segunda Guerra Mundial como os polícias americanos ainda hoje o fazem no seu próprio país! Vítimas favoritas desse despotismo policial, são os negros, em episódios em que a prepotência se combina com o racismo. E com consequências letais. Mas neste caso, vamos falar de outras vítimas colaterais da prepotência policial nos Estados Unidos, não tão conhecidas quanto os afro-americanos: os condutores de viaturas desportivas de marcas de luxo: Ferrari, Lamborghini, Porsche. As interacções entre polícias e condutores podem ser tão insólitas quanto outras, o preconceito do agente policial - que, no caso, será mais despeito... - também existe, mas, felizmente, não costuma existir aquele dramatismo de quando o interpelado é pobre. O polícia que, muito frequentemente, e mesmo que branco, também é originário das classes do fundo da pirâmide social, sabe que, ao interceptar na estrada um desses carros, pode exibir momentaneamente o seu poder discricionário, mas também saberá que o dono de um carros desses costuma ter dinheiro, muito dinheiro, e isso na América costuma fazer grande diferença no que diz respeito à equitatividade da aplicação da Lei. Normalmente e por exemplo, muitas daquelas viaturas de luxo vêm equipadas de origem com câmaras interiores que filmam as interacções entre o condutor e quem o interpela, o que complementará os dispositivos de que os polícias agora se fazem acompanhar obrigatoriamente, aqueles vídeos que costumam desaparecer quando aparecem queixas contra a conduta dos polícias. Em suma, quando um polícia de estrada americano intercepta uma destes carros, já sabe que tem de ter algum cuidado formal no método como vai implicar com o condutor. Porque, se o interceptou, é porque vai implicar com ele.
Contudo escolhi este vídeo acima porque ele contem um bónus: o condutor do Lamborghini é oriundo do Dubai, um daqueles emirados riquíssimos em petróleo no Golfo. Um país onde até a própria polícia local tem um Lamborghini! Será por isso que se nota uma clivagem cultural na comunicação entre o condutor e o agente da autoridade desde o princípio da conversa. O segundo não faz a mínima ideia o que é o Dubai, muito menos onde é que ele fica, quanto mais saber que o carro está lá matriculado: o máximo de estrangeiro que ele conseguiu apreender (e que o terá tranquilizado) foi a referência ao Canadá. Além disso, percebe-se que o irrita a atitude cosmopolita, disponível e condescendente do condutor. Supostamente, um condutor com aquele tom de pele equiparar-se-á, na sua escala social, a um hispânico, e mesmo que os hispânicos não precisem de demonstrar aquela atitude deferente de escravo de plantação para com o capataz que todo o polícia branco americano espera de qualquer negro, um condutor com uma tez de hispânico não tem nada que lhe explicar seja o que for. Ele sabe tudo! É por isso que ele recusa todo o auxílio do bem intencionado dubaiense. Vale a verdade que as explicações deste último são pouco pedagógicas: imaginar aquele polícia a fazer turismo na Europa, ainda para mais levando consigo o seu carro, foi um exemplo rebuscado e inútil (e que o irritou ainda mais!). A meio do vídeo já não se sabe o que é pior, se a ignorância se a estupidez do trooper, nem de propósito chamado Donald Rummer (trumper?). As últimas cenas são hilariantes: o condutor percebe que é melhor deixar de colaborar, faz o que lhe pedem, e pespega o trooper a consultar o seguro do carro num suporte digital que o deixa visivelmente desconfortável, sem saber interpretar o conteúdo do que lhe foi fornecido. Tudo acaba com uma oportuna chamada para uma outra ocorrência, um expediente à altura da argúcia do trooper para terminar a constrangedora situação - que ele próprio criara ao interceptar o Lamborghini. Para comparação, veja-se abaixo um outro vídeo, com o mesmo carro, o mesmo condutor, os mesmos problemas... mas envolvendo um agente da polícia canadiano.

30 outubro 2020

O SEGUNDO REFERENDO SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO QUÉBEC

30 de Outubro de 1995. No referendo sobre a independência do Québec, esta última é recusada por uma margem de 54.000 votos (1,2%). Trata-se apenas de uma evocação por ocasião do 25º aniversário, já que o assunto - este referendo e também o anterior, em Maio de 1980 - já foi explicado sucintamente aqui no Herdeiro de Aécio, na altura (Setembro de 2014) para melhor compreensão do referendo semelhante que viria a ter lugar na Escócia.

02 setembro 2020

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A COREOGRAFIA DA CERIMÓNIA DA RENDIÇÃO JAPONESA

2 de Setembro de 1945. A cerimónia da rendição japonesa no couraçado USS Missouri, fundeado na baía de Tóquio, põe fim à Segunda Guerra Mundial, quase seis anos, dia por dia, depois de ela ter começado na Europa. Ao contrário do que acontecera a 8 de Maio em Berlim com a rendição alemã, a cerimónia é totalmente protagonizada pelos americanos. Satisfazendo um equilíbrio na rivalidade entre US Army e US Navy, rivalidade essa omnipresente durante toda a guerra no Pacífico, a cerimónia tem lugar num navio da segunda (Armada), embora presidida por um general do primeiro (Exército). E a disposição dos representantes Aliados em nada se assemelha à paridade fotográfica de Berlim. Na fotografia acima, a discursar, t(iv)emos o general Douglas MacArthur... e mais ninguém, demonstrando que aquele país considerava-se a si próprio, ter sido o determinante para a derrota japonesa. Muito provavelmente, teria razão. Por detrás de MacArthur, da esquerda para a direita, numa distribuição protocolar que, dá para supor, se terá inspirado na participação dos países respectivos para o esforço da guerra na Ásia e no Pacífico, aparece o general Xu Yongchang da China, o almirante Bruce Fraser do Reino Unido, o tenente-general Kuzma Derevyanko da União Soviética, o general Thomas Blamey da Austrália, o coronel Lawrence Moore Cosgrave (quase totalmente encoberto por MacArthur) do Canadá, o general Philippe Leclerc de Hauteclocque da França, o vice-almirante Conrad Helfrich dos Países Baixos e, finalmente, o vice-marechal-do-ar Leonard Isitt da Nova Zelândia. Independentemente do destacado protagonismo americano, a disposição hierarquizada dos oito aliados sugere alguns comentários. Um deles é a preferência que é dada, naquelas circunstâncias, pelos norte-americanos aos seus aliados chineses, em detrimento dos seus outros aliados britânicos; os britânicos estão ali presentes com o seu mais credenciado stiff upper lip. Outro dos comentários é sobre o lugar confrangedoramente menor que é atribuído à participação da França Livre na Ásia, posicionada depois da Austrália e do Canadá. E o terceiro é, evidentemente, a presença indisfarçável mas desconfortável da União Soviética na cerimónia, quando ainda não há um mês estava em paz com o Japão. Os soviéticos não têm ilusões quanto ao papel secundário que os americanos lhes reservam, a escolha de quem ali os representa traduz isso, um mero tenente-general, quando a operação Tempestade de Agosto, fora comandada por três marechais (Vasilevsky, Malinovsky e Meretskov), todos eles ostensivamente ausentes da cerimónia. Abaixo, vemos MacArthur a olhar para Derevyanko enquanto este assina os documentos oficiais de rendição.

20 maio 2020

REFERENDO DO QUÉBEC (1980)

20 de Maio de 1980. Na província canadiana do Québec realiza-se um referendo incidindo sobre a soberania daquela província no quadro da confederação do Canadá. Na prática, patrocinado pelas forças separatistas francófonas locais, tratava-se de um primeiro passo para a secessão do Québec. Os eleitores quebequenses rejeitaram a proposta por uma maioria de 60%.

06 agosto 2019

ESTRONDO SÓNICO

6 de Agosto de 1969. Há cinquenta anos, a equipa de acrobacia aérea da marinha dos Estados Unidos, os Blue Angels, ensaiava o seu tradicional show de exibição, quando um dos seus pilotos se terá desorientado numa das manobras e, com isso, atrasado em relação aos seus companheiros de formação. Quando acelerou para se recolocar, ultrapassou a velocidade do som (Mach 1), provocando aquilo que se denomina por estrondo sónico (frequentemente designado por bang). Só que o piloto teve tanto azar, que, quando o fez, o seu Phantom estava apenas a 100 metros do solo e, por baixo, estava a cidade canadiana de Kelowna... O bang não só assustou a população como, sobretudo, deu cabo de um número incalculável de vidros por toda a cidade... Foi mais do que um tremendo desastre de relações públicas para a US Navy, foi um desastre colossal internacional de relações públicas para a marinha norte-americana, que teve relutantemente de assumir os estragos, não apenas os vidros partidos, mas também as consequências pessoais para quem fora atingido pelos estilhaços e precisara de tratamento hospitalar. A proeza acrobática custou uns € 930.000 a preços actuais, mas o que é para mim mais engraçado é aproveitar a ocasião para recordar como essa mesma proeza era evocada na BD de aviação daquela época, sem essas aborrecidas consequências de saber quem pagaria pelos estragos.
As duas primeiras pranchas são de Buck Danny, numa história em que o herói comandava precisamente os Blue Angels, a última prancha é de uma história de Tanguy e Laverdure).

07 julho 2019

CANADÁ VERDADEIRAMENTE BILINGUE

7 de Julho de 1969. Foi apenas há cinquenta anos, através das aprovação da Lei sobre as línguas oficiais que o Canadá se tornou um país oficial e completamente bilingue, com os idiomas inglês e francês a serem reconhecidos com um mesmo estatuto equivalente. Sendo então um país já centenário (fundado em 1867), o Canadá andava ainda em busca da sua identidade simbólica: a bandeira nacional canadiana, por exemplo, tinha apenas quatro anos. E quanto ao hino, ainda havia que aguardar mais onze anos até ele ser oficialmente adoptado (com duas letras!). E vale a pena evocar este fenómeno porque há um paralelo interessante entre o que acontece com o Canadá, o Quebec e os francófonos e o que acontece aqui ao lado com a Espanha, a Catalunha e os catalães. Estão muito iludidos os castelhanos que pensam que o problema se consegue varrer para debaixo do tapete...

18 novembro 2018

A CHEGADA DA «INTELIGÊNCIA» AO PODER

18 de Novembro de 1993. Com o voto favorável de 234 membros (132 republicanos e 102 democratas) e a oposição de 200, a Câmara dos Representantes norte-americana aprova o NAFTA, o acordo de comércio livre entre o Canadá, os Estados Unidos e o México. Seguir-se-ia a aprovação do Senado (61-38 votos), até à sua entrada em vigor a 1 de Janeiro de 1994. Durante mais de vinte anos o acordo esteve em vigor, durante as presidências de Clinton, Bush e Obama, sujeito a rectificações menores pelas partes, até à chegada ao poder de Donald Trump que o qualificou de «pior acordo de comércio firmado por qualquer país» (abaixo). Anunciou que o iria renegociar em benefício do seu país e, para melhorar a sua posição negocial, Trump fomentou uma espécie de crise. O resultado foi um novo tratado que o actual presidente americano se apressou a descrever como «maravilhoso». No concreto, a atitude mais prudente é a de aguardar pelo real impacto das alterações introduzidas, tendo presente que, no outro prato da balança, repousa um esfriamento glacial nas relações pessoais entre dirigentes: o canadiano Justin Trudeau foi ostensivamente vexatório para Donald Trump quando teve oportunidade. Trump parece crer que terá valido a pena trocar as vantagens comerciais que considera ter adquirido pela hostilidade canadiana, assim como a demonstração implícita de que os membros do Congresso de há vinte e cinco anos estavam errados, assim como o estiveram nesses vinte e cinco anos os seus três antecessores. No quotidiano, há aqueles clientes que, perante uma fila de espera de caixas de supermercado que se apresenta flagrantemente mais curta do que todas as outras, avança com o seu carrinho, sorridente e confiante, para essa fila, como se o resto da clientela do supermercado fosse estúpida e adorasse fazer filas e perder tempo. 99% das vezes a fila mais curta esconde um segredo que desqualifica o imbecil de a utilizar e que o faz voltar para trás, de orelha murcha e perante o sorriso vingativo de quem está nas filas adjacentes. O palerma, afinal, é só um. Agora há um espécimen desses na Casa Branca...

01 junho 2018

O CANADÁ E A NOVA AMÉRICA DE TRUMP


O que mais me impressionou ontem na reacção televisionada do primeiro-ministro canadiano à aplicação das tarifas alfandegárias, que andavam há tanto tempo a ser prometidas pelos norte-americanos, foi, por uma vez, o estilo, mais do que a substância. Depois da eleição de Donald Trump, e entre os líderes decentes das maiores potências mundiais (e isso da decência exclui Putin), ele gozara da impunidade de dizer o que lhe aprouvesse, com a enfâse que lhe aprouvesse, sem que os seus parceiros de palco reagissem. Claro que o comportamento desabrido de Trump dá maus resultados quando o interlocutor é um Kim Jong Un, mas essa é toda uma outra história*. Durante mais de um ano, Trump foi um elefante convulso numa loja de porcelanas onde os outros animais não partiam nem um prato - embora mandassem os jornalistas partir a loiça cá fora por eles. O discurso de Justin Trudeau, ontem, foi o primeiro em que dei conta em que não houve nada dessas delicadezas. Tanto assim, que o essencial do conteúdo da notícia - Canadá retalia e impõe taxas de 16,6 mil milhões de dólares aos bens dos EUA - pode, por esta vez, ser redigido baseado na citação das suas palavras, tanto as que foram proferidas no discurso (acima), como as tweetadas (ao bom jeito da moda instalada por Donald Trump). Conhecendo-se a História do Canadá, sabe-se que a passagem em que Justin Trudeau o descreve acima como o mais estável (steadfast) aliado dos Estados Unidos nos últimos 150 anos, ele está a ser mais do que retórico, está a descrever uma realidade que, aliás, é condicionada pela geografia: isolado no Norte do continente, o Canadá sempre teve por objectivo prioritário da sua política externa a manutenção das melhores relações com o seu poderoso vizinho do Sul, com o qual partilha uma fronteira de 6.400 km (+ 2.500 km com o Alaska). Com tal configuração, não há aliados que lhe sirvam: nem a antiga metrópole britânica, que sempre foi uma grande potência, mas marítima, nem tão pouco a Rússia, que até cometeu a indelicadeza de se retirar da região, vendendo o Alaska aos Estados Unidos em 1867. O Canadá deve ser o membro mais pró-americano de todos que formam a Commonwealth Britânica e contar-se-á também entre os aliados mais fiéis dos Estados Unidos entre os membros da NATO. Agora imagine-se bem até que ponto os Estados Unidos estarão a levar o seu unilateralismo para que o Canadá se veja forçado a declarar a guerra comercial, como o fez ontem Justin Trudeau.
* Quando se lê uma notícia com um título «Vice-presidente da Coreia do Norte já está em Nova Iorque para encontro com Trump» apetece logo perguntar: quem é que fazia ideia que havia um vice-presidente na Coreia do Norte? O que é que isso interessa, se nem se sabia o nome do senhor? Estes títulos e estas notícias são tentativas - baldadas - de arrancar Trump da armadilha em que ele próprio se enredou, quando se anunciou com toda a pompa e circunstância que se iria realizar uma cimeira entre a sua pessoa e Kim Jong Un. Esse anúncio transformou a realização da cimeira num problema para Trump: caso não se realize, o fracasso é seu, e já se percebeu que os norte-coreanos estão a esticar a corda e a tentar aproveitar essa circunstância para arrancar o maior número possível de concessões aos norte-americanos.

07 abril 2018

O QUE É NOTÍCIA E O QUE É IMPORTANTE

7 de Abril de 1968. A página 7 do Diário de Lisboa de há cinquenta anos poderá servir de exemplo académico daquilo que distingue os temas com importância jornalística dos outros temas, os que têm verdadeira importância: quase toda a página é dedicada - nos termos tradicional e sobranceiramente críticos - à cobertura do festival da eurovisão que tivera lugar na noite anterior, em Londres. O que sobrava da página, e exceptuando a publicidade (propositadamente omitida na reprodução acima), era preenchido com o optimismo de U Than (U Thant era então o secretário-geral da ONU) a respeito de negociações para o Vietname e um milionário que sucedia a Pearson, numa renhida eleição interna para a liderança do Partido Liberal que tivera lugar, também na noite anterior, em Otava, no Canadá. O "milionário" chamava-se Pierre Elliot Trudeau (1919-2000), tornava-se por inerência o próximo 1º ministro do Canadá, cargo que irá ocupar - com uma breve interrupção de um ano - pelos próximos dezasseis anos, até 1984. É, plausivelmente, o mais importante político canadiano do século XX mas "adivinhar faz falta" e, sobretudo, o que é que um político canadiano, ainda que prometedor, poderia disputar no interesse dos leitores, quando em concorrência com o «la, la, la...» da Massiel? (quem?)

24 março 2018

A METAMORFOSE DA «COMMONWEALTH»

Estamos a 17 de Março de 1961, em Londres, a cerimónia é de gala porque se trata do encerramento da conferência de primeiros ministros, e esta fotografia assinala o início do que será a metamorfose da imagem da Commonwealth britânica. A fotografia em que a monarca Isabel II aparece, ao centro, rodeada dos chefes de governo dos países que outrora haviam composto o Império, parece ser uma composição cada vez mais heterogénea, quando comparada com as fotos de cerimónias precedentes, uma heterogeneidade que, tanto como as aparências, se substancia também pelos percursos e pelos anseios díspares de quem rodeia a monarca. A Commonwealth mostrava que não podia ser o desejado prolongamento do Império Britânico desejado por Londres. A Irlanda já saíra, a África do Sul preparava-se para o fazer, a instituição manifestava-se impotente para gerir a animosidade indo-paquistanesa. Há 57 anos e da esquerda para a direita, identificam-se Kwame Nkrumah pelo Gana, John Diefenbaker pelo Canadá, Hendrik Verwoerd pela África do Sul, Jawaharlal Nehru pela Índia, Ayub Khan pelo Paquistão, a Rainha, Roy Welensky pela Rodésia (que hoje são a Zâmbia e o Zimbabwe), Sirimavo Bandaranaike pelo Sri Lanka, Harold Macmillan que foi o anfitrião britânico, Robert Menzies pela Austrália e o arcebispo Makarios III por Chipre. Ausentes da foto, mas presentes na conferência, haviam estado ainda os dirigentes da Malásia, Nova Zelândia e Nigéria. Abaixo, pode comparar-se o que fora a tradição daquelas conferências (a de 1926, acima, ainda com Jorge V, o avô de Isabel II) e aquilo em que se iriam transformar (a de 1983, abaixo).

06 dezembro 2017

A EXPLOSÃO DE HALIFAX


6 de Dezembro de 1917. A colisão acidental de dois navios cargueiros no porto canadiano de Halifax provocou o incêndio num deles, o francês Mont-Blanc, que transportava uma perigosíssima carga de explosivos para as munições do exército francês então engajado em plena Primeira Guerra Mundial. Do embate resultou um incêndio, este propagou-se à carga e pouco depois das 09H00 da manhã de há 100 anos (o acidente tivera lugar meros 20 minutos antes) teve lugar a maior explosão não nuclear registada de toda a nossa História, que terá tido uma potência estimada de 2.900 toneladas de TNT (o que equivalerá a cerca de 20 a 25% da potência da bomba depois lançada sobre Hiroxima).
A explosão arrasou instantaneamente 800 hectares da área portuária da cidade (que contaria na época, dinamizada pelo intenso tráfego marítimo com a Europa, uns 65.000 habitantes). A contagem dos mortos nunca pôde ser apurada com precisão. Terá havido cerca de 1.600 mortos e 9.000 feridos como consequência imediata da explosão. A gravidade dos ferimentos terá feito subir o número de mortos até aos 1.950 nos dias seguintes, mas os 2.000 mortos hoje considerados resultam de uma estimativa, já que até ao Verão de 1919, dali por ano e meio, se encontrarão cadáveres soterrados de vítimas da explosão. Ironicamente, da tripulação do Mont-Blanc, sobreviveram todos menos um...

03 novembro 2017

UMA EXCELENTE IDEIA PARA MARCELO VESTIR NO DESFILE DO PRÓXIMO CARNAVAL DE TORRES


Neste último Dia das Bruxas o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau resolveu mascarar-se de Super-Homem disfarçado de Clark Kent. Não só foi uma excelente ideia e um sucesso mediático, como poderá servir de inspiração para o disfarce do nosso Super-Homem nacional por ocasião das celebrações do corso do próximo carnaval de Torres Vedras.