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09 julho 2024

THE ECONOMIST: UM ENGANO EM GRANDE E UM DISFARCE EM MAIOR

Mesmo para o jornalismo de qualidade é valido aquela princípio que as avaliações dos erros próprios só se conseguem ler nas páginas da concorrência... Foram os próprios que anteciparam resultados que depois os deixaram chocados ao não se concretizarem. E quanto ao problema da governabilidade da França, ele já existia de antemão, as premissas para a sua resolução é que são completamente distintas daquilo que havia sido antecipado por eles.

08 julho 2024

«GANDA CAPA. GRANDE VERDADE.» ENORME FIASCO. DESCOMUNAL PIRUETA.

Não me costumo referir por aqui às actividades dos blogues da vizinhança, mas hoje creio justificar-se a excepção, tanto mais que o autor do blogue em causa até dá na televisão. E aquilo para que quero chamar a atenção é para a descomunal pirueta que foi protagonizada pelo autor do blogue em pouco mais de uma semana. Ainda na semana passada Seixas da Costa socorria-se da - inspirada - capa da The Economist para subscrever a tese que o centro político em França iria colapsar. A culpa era do Macron, mas isso já não tinha nada a ver com as opiniões da The Economist, é apenas uma implicação antiga e persistente do embaixador-comentador com o presidente francês. Se ontem terá sido um dia muito feliz para o comentador-embaixador, porque ganhou o seu clube, colateralmente as previsões de Francisco Seixas da Costa a respeito do enterro do centro político francês e de Emmanuel Macron mostraram-se manifestamente exageradas como o havia sido a famosa notícia da morte de Mark Twain. O que os profissionais do palpite costumam fazer nestas ocasiões é ignorarem o assunto, fingirem que não tinham dito nada, mudarem de tema. Ora o bom do nosso embaixador ignorou a gaffe, esqueceu-se do que dissera, mas não mudou de tema. E ainda por cima, fá-lo depois das eleições, para enfatizar - «uma coisa que tem sido pouco dita» - que muitos dos eleitos do centro político («macronistas e LR») devem a sua eleição à desistência dos candidatos de esquerda. Eu não sei quantos foram, teria sido bem melhor e mais intelectualmente honesto que Seixas da Costa os tivesse contado, nem que fosse para comparar esse número com o número de deputados de esquerda eleitos que «devem esse resultado à desistência dos candidatos do centro». Tenho a certeza absoluta que nesse jogo eleitoral táctico contra o Rassemblement National nenhum dos blocos fez um favor ao outro, nem ninguém se terá mostrado mais generoso do que o antagonista.

Como se depreenderá, ontem interrompi o acompanhamento das eleições francesas nos canais franceses e vim ver o que estava a acontecer nos canais informativos nacionais. Num deles pontificava Seixas da Costa a celebrar umas coisas de cachecol posto e a esquecer-se de outras que ele vaticinara. No caso, e em contraste com a atitude dele, eu não tenho qualquer pudor em admitir que ter vindo ver os canais nacionais foi uma péssima decisão e que me enganei redondamente.

07 julho 2024

JEAN-LUC MÉLENCHON, RUI RIO E A ARTE DE SABER REAGIR A BUSCAS DOMICILIÁRIAS

Quando há poucas horas vi Jean-Luc Mélenchon a antecipar-se a todos na reacção à vitória eleitoral da esquerda nas eleições legislativas francesas, não pude deixar de me recordar desta sua cena a reagir às buscas policiais que, há cinco anos e meio, fizeram, quer a sua casa, quer à sede do seu partido. Foram cenas que, pela sua exuberância insólita (acima e também aqui), percorreram a Europa, e disseminaram uma imagem ridícula, mesmo caricata, daquele político francês. Por muito pertinentes que fossem as suas razões para protestar. Concebê-lo a encabeçar um governo de França é inimaginável, também, ou talvez sobretudo, fora de l'Hexagone. E, porque nestas coisas os jornalistas portugueses se esquecem sempre de fazer comparações com o estrangeiro, especialmente quando essas comparações nos são favoráveis, vale a pena recordar, pela positiva, a atitude contida mas cínica e sarcástica de Rui Rio quando lhe aconteceu precisamente o mesmo, há quase precisamente um ano.

MODERAÇÃO NO IRÃO

No caso do desfecho das recentes eleições presidenciais iranianas, a melhor moderação que se pode aplicar é às expectativas que se queiram fazer sobre a eleição de um presidente considerado... moderado. Isso já havia acontecido há onze anos (notícia da esquerda) e nada mudou de substantivo no Irão. E nada mudará porque o poder de facto pertence ao Supremo Guia Espiritual Ali Khamenei, que sucedeu originalmente ao Aiatolá Khomeini e que detém o verdadeiro poder no Irão desde há já 35 anos. Convém ter presente que nestas eleições presidenciais iranianas não é o verdadeiro poder que está em disputa. Assim como acontece também nas eleições legislativas francesas, já que o assunto vem a propósito...

05 julho 2024

É ENGRAÇADO COMPARAR AS PROJECÇÕES QUE SE FAZIAM DA ASSEMBLEIA NACIONAL FRANCESA NO PRINCÍPIO E NO FIM DESTA SEMANA

Os 250 a 280 lugares projectados para a União Nacional e aliados reduziram-se subitamente a 190 a 220. O que vale é que, abstraindo-nos deste frenesim opinativo palpiteiro, tudo ficará esclarecido este Domingo.

02 julho 2024

SOBRE UMA CERTA MEDIOCRIDADE DO ACOMPANHAMENTO INFORMATIVO DE ELEIÇÕES ESTRANGEIRAS

Este Domingo houve eleições legislativas em França e na próxima Quinta-Feira havê-las-á no Reino Unido. Qualquer delas muito interessantes e importantes. Só que o acompanhamento que os canais informativos portugueses fazem destas eleições é... medíocre. A culpa nem é dos convidados. Alguns, nem todos, sugerem, pelas suas intervenções, quão aprofundados são os seus conhecimentos sobre a matéria. O problema é que eles são convidados pelos jornalistas do estúdio a reexplicar (pela enésima vez!) todas as particularidades daquele acto eleitoral - que são as mesmas dos actos eleitorais precedentes! É uma forma de se perder e de enxotar uma parte importante da audiência: os espectadores que sabem esses detalhes elementares mudam imediatamente de canal e só lá ficam a assistir aqueles que já se tinham esquecido do elementar. Forma-se assim um circuito fechado em que os comentadores portugueses em estúdio, uns mais esforçados, outros mais pedantes, dissertam sobre uns tópicos mais elementares, outros tópicos mais superficiais, para uma audiência que as circunstâncias do formato do programa tornaram pouco exigente: por exemplo, ficaram a saber que as eleições francesas são a duas voltas, e que tudo - a composição da Assembleia Nacional - só ficará decidido daqui por uma semana, mas da próxima vez que houver eleições em França eles já se esqueceram disso tudo. É que as últimas eleições legislativas francesas tinham sido apenas há dois anos...

Indo recuperar aqueles que, a meio da narrativa precedente já se tinham ido embora, cansados de ouvir lugares comuns, vamos encontrá-los durante estas noites eleitorais nos canais mais elevados e escondidos das grelhas, acompanhando a informação e a opinião junto de fontes mais originais (no duplo sentido da palavra...). Foi assim no Domingo passado (França) e irá ser assim na Quinta-Feira (Reino Unido) e no Domingo próximos (outra vez em França). Confesso que fico bastante intrigado quando vejo certos comentadores televisivos domésticos de assuntos internacionais a mostrarem-se tão cheios de si próprios.   

A FUNDAÇÃO DA FORÇA AÉREA FRANCESA

(Republicação)
2 de Julho de 1934. Foi a data da fundação da Força Aérea Francesa (Armée de l'Air) como um ramo autónomo das suas Forças Armadas. Já se haviam passado 16 anos depois da criação equivalente da RAF (Royal Air Force) entre os seus antigos aliados britânicos, ainda durante a Primeira Guerra Mundial (a 1 de Abril de 1918), mas acredita-se que esta decisão terá sido precipitada pela criação no ano anterior e ainda às escondidas, da equivalente Luftwaffe, entre os seus antigos inimigos e ainda rivais alemães. Porém, formalmente, esta última só aparecerá em 26 de Fevereiro de 1935. Mas, ao contrário das outras duas, a Armée de l'Air francesa, derrotada na Primavera de 1940, teve uma importância negligenciável para o desenrolar das operações aéreas da Segunda Guerra Mundial. O prestígio do ramo, com as Aventuras de Tanguy e Laverdure, são uma criação bem posterior, da década de 1960, na BD e na televisão...

10 junho 2024

O 80º ANIVERSÁRIO DO MASSACRE DE ORADOUR-SUR-GLANE

10 de Junho de 1944. Ocorre o massacre de Oradour-sur-Glane. Creio que não há nada a acrescentar ao texto que aqui publiquei depois de lá ter passado, no Verão de 2008.
Oradour-sur-Glane (há três povoações na região do Limousin que têm o mesmo nome de Oradour, distinguindo-se pelo curso de água que lhes passa próximo) é uma aldeia francesa situada a cerca de 25 km a Noroeste da cidade de Limoges. O destino dos seus habitantes durante a Segunda Guerra Mundial é um episódio cada vez mais esquecido, mas que permanece, ainda hoje, como um testemunho eloquente das consequências não só dessa Guerra, como de todas as guerras. Vale a pena contar aqui a sua História...

No seguimento do desembarque aliado na Normandia (6 de Junho de 1944) e do apelo dos Aliados à Resistência francesa para que esta dificultasse a progressão das unidades alemãs, um desses grupos clandestinos de guerrilheiros (conhecidos quando operavam em zonas rurais como maquis), organizou um golpe de mão em 9 de Junho em que se apoderou do Sturmbannführer SS (Major) Kämpfe e correu a notícia – que chegou naturalmente aos alemães – que os captores o pretendiam executar numa cerimónia pública.
A notícia, incluindo o local da suposta execução (Oradour-sur-Vayres, que fica a 28 km a Sul-Sueste de Oradour-sur-Glane) era falsa porque, como se veio depois a descobrir, Kämpfe fora executado pelos resistentes imediatamente depois da captura. Contudo, o oficial que ficou encarregue de investigar o caso, o Sturmbannführer SS Adolf Diekmann, pertencente à mesma unidade de elite de Kämpfe (a 2ª Divisão Blindada SS Das Reich - acima), acabou por confundir as duas localidades e conduziu o seu batalhão até Oradour-sur-Glane.

Estava-se a 10 de Junho de 1944, era um Sábado, fazia Sol, servia-se o almoço nos dois hoteis do centro da aldeia, o Hotel Abril e o Hotel Milord. Alguns citadinos, vindos de Limoges, andavam às compras daquelas provisões que tanto escasseavam naqueles tempos de racionamento. Mas, deixo o resto da descrição do que se passou a seguir para o trecho de introdução dos documentários da série O Mundo em Guerra (com a locução de Laurence Olivier):
Vindos desta estrada, num dia soalheiro de 1944… os soldados chegaram. Agora, ninguém cá vive. Ficaram apenas por umas horas. Quando partiram, a comunidade que aqui vivera por mil anos… morrera. Isto é Oradour-sur-Glane, em França. No dia em que os soldados chegaram, os habitantes foram reunidos. Os homens foram levados para garagens e celeiros, as mulheres e crianças foram levadas por esta estrada… e conduzidas… para esta igreja. Aqui ouviram os tiros enquanto os seus homens eram mortos. Então… também elas foram mortas. Algumas semanas depois, muitos dos que haviam matado tinha sido mortos por sua vez em combate. Nunca se reconstruiu Oradour. As suas ruínas são um memorial. O seu martírio representa os milhares e milhares de outros martírios na Polónia,… Rússia,… Birmânia,… China,… num Mundo em Guerra...*
O massacre fez 642 vítimas, com idades compreendidas entre os dezoito dias e os oitenta e cinco anos. Sobreviventes houve sete: uma mulher, cinco homens e uma criança. Valha a verdade que o episódio foi severamente condenado entre os alemães: o superior hierárquico de Diekmann, o Standartenführer (Coronel) Stadler mandou abrir contra ele um processo judicial. Mas a morte de Diekmann 19 dias depois do massacre, a derrota das tropas alemãs na Normandia e o veto de Hitler conduziram os resultados desse processo a nada. Só oito anos e meio depois do massacre (em Janeiro de 1953) é que o caso veio a ser julgado em tribunal, em Bordéus. Dos cerca de 150 a 200 participantes apenas 21 estavam no banco dos réus (abaixo). Além da ausência daqueles que haviam entretanto morrido (especialmente durante a Guerra), tanto a Alemanha Federal como a Alemanha Democrática haviam-se recusado a extraditar os seus nacionais envolvidos nos acontecimentos. E de uma forma que se revelava completamente paradoxal, dos 21 réus, havia 14 que eram franceses!
Tratava-se de franceses originários da Alsácia, a região que havido sido francesa desde os tempos de Luís XIV até 1871, que se tornara alemã entre 1871 e 1918, voltara a ser francesa de 1918 a 1940 e que novamente fora anexada pela Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Os seus naturais (que habitualmente até falam um dialecto germânico) tinham-se tornado dessa forma cidadãos do Reich e foi assim que muitos se viram incorporados nas unidades militares alemãs – os chamados malgré nous**. O julgamento assumiu assim um carácter político de confronto entre duas regiões de França, com o Conselho de Guerra a pronunciar em Março de 1953 duas condenações à morte (uma de um alsaciano) e ainda doze penas de trabalhos forçados, seguidas de um enorme clamor de protesto na Alsácia, seguidas de discretos despachos administrativos comutando as penas, seguidos de outro enorme clamor de protesto no Limousin... Até aos últimos actos, o massacre de Oradour-sur-Glane nunca se libertou das suas contradições.
Ao contrário de Auschwitz, com cuja escala nem se compara, Oradour-sur-Glane é um memorial que pode transcender a evocação da Segunda Guerra Mundial. É que massacres como aquele podem ter tido lugar em muitos outros locais – quem se recordará hoje do que aconteceu em Kragujevac (Sérvia), Marzabotto (Itália) ou Kortelisy (Ucrânia)? – e em quase todas as Guerras: não poderão os próprios soldados franceses ter procedido posteriormente de uma forma idêntica em alguns locais da Indochina ou da Argélia? Em Oradour-sur-Glane, conhecendo-se a sua História, trata-se da guerra em todo o seu absurdo. Começando por questionar se aquela operação de rapto de um mero oficial superior, quando foi desencadeada pelos maquis, valeria militarmente o risco das previsíveis retaliações alemãs?... Continuando pela troca dos nomes das povoações feita por Diekmann que acabou por massacrar a aldeia errada… E terminando tudo com um processo de apuramento de responsabilidades que teve que ser suavizado por razões superiores de Estado…
* Down this road, on a summer day in 1944. . . The soldiers came. Nobody lives here now. They stayed only a few hours. When they had gone, the community which had lived for a thousand years. . . was dead. This is Oradour-sur-Glane, in France. The day the soldiers came, the people were gathered together. The men were taken to garages and barns, the women and children were led down this road . . . and they were driven. . . into this church. Here, they heard the firing as their men were shot. Then. . . they were killed too. A few weeks later, many of those who had done the killing were themselves dead, in battle. They never rebuilt Oradour. Its ruins are a memorial. Its martyrdom stands for thousands upon thousands of other martyrdoms in Poland, in Russia, in Burma, in China, in a World at War... ** A tradução da expressão, não literal, será apesar da nossa vontade. Note-se contudo que no total dos 642 mortos em Oradour-sur-Glane, se contam 9 pertencentes a 3 famílias alsacianas que ali se tinham refugiado por causa da guerra.

03 junho 2024

A CRIAÇÃO DO GOVERNO PROVISÓRIO DA REPÚBLICA FRANCESA

(Republicação)
A 3 de Junho de 1944, em Argel, aquele que fora até aí o Comité Francês de Libertação Nacional (CFLN) decide-se a mudar a sua própria identidade e assumir a designação de Governo Provisório da República Francesa (GPRF), designação que os governos franceses irão manter até à proclamação da IV República Francesa, em 1946. A presidência do governo (como a do comité) era, naturalmente, de Charles de Gaulle, após se ter desembaraçado do seu rival Giraud. E, na verdade, nada legitimava os membros do comité, do ponto de vista da legalidade da III República, a assumir aquele título. Mas a pressa desta metamorfose semântica de há (precisamente) oitenta anos explicava-se pela aproximação da data prevista para o desembarque na Normandia (que virá a ter lugar a 6 de Junho). E presumia-se que a existência deste governo, ainda que provisório e mesmo que recém criado, viesse facilitar a captação da lealdade das autoridades das regiões da  França que viessem a ser libertadas, em substituição da lealdade ao regime de Vichy dos últimos quatro anos. O GPRF nomearia o prefeito e algumas figuras de topo para encimar a administração pré-existente (não dispunha de quadros para mais...) nas regiões que viessem a ser livres, mas, com algumas excepções de colaboracionistas mais flagrantes, o resto da hierarquia bandear-se-ia (naturalmente...) para a nova situação. Esperava-se isso e foi isso mesmo que veio a acontecer. O perigo temido pelos franceses exilados (e que assim se evitou) era que os americanos nomeassem autoridades militares aliadas para assumir aquelas responsabilidades, como acontecera em Itália. O que as pessoas raramente se apercebem quando seguem a narrativa da libertação de França é que a legalidade que sustentava as pretensões de de Gaulle e o seu governo a representar a França e os franceses era, além de duvidosa, "fresca" como uma parede acabada de pintar: aparecera 72 horas antes do desembarque da Normandia.

02 junho 2024

É(RA) PRECISO ESTUDAR O PROBLEMA DA EMIGRAÇÃO DOS PORTUGUESES PARA TERRAS DE FRANÇA!

2 de Junho de 1924. Nunca ficaremos a saber se o problema foi estudado. O que sabemos é o resultado do estudo: nenhum. Como tradicionalmente preconizava-se e confundia-se a oratória com a acção. Mas também não havia grande coisa a fazer. A França em 1924 perdera recentemente mais de um milhão de homens na Primeira Guerra Mundial (1914-18) e o efeito disso fazia-se sentir significativamente na sua economia. Precisa de mão de obra, mas a industrialização de França ainda não atingira um ponto em que se fizesse sentir a necessidade de ir buscar muita mão de obra permanente aos países adjacentes e às suas colónias norte-africanas. Este género de emigração é outro. Como se depreende pelo que consta da notícia, os trabalhos que aqui estarão em causa são sazonais e agrícolas e não permitem estabilidade das estruturas familiares. O verdadeiro «problema da emigração dos portugueses para terras de França» terá que aguardar mais uns quarenta anos, durante a década de 1960.

25 maio 2024

A ÚLTIMA FOTOGRAFIA DE ROBERT CAPA… E UMA DAS PENÚLTIMAS.

(Republicação)
É muita conhecida esta última fotografia de Robert Capa, tirada ao princípio da tarde de 25 de Maio de 1954, num pequeno troço de estrada de cerca de 20 km que separa Nam Dinh de Thái Bình no delta do Rio Vermelho, no Norte do Vietname. A coluna militar francesa onde seguia Robert Capa fez uma pausa, ele apeou-se e saiu da estrada para tirar umas fotografias, tirou algumas e… pisou uma mina cuja explosão o matou. Tinha 40 anos.

Muito menos conhecida que a outra, mas muito mais simbólica, é esta fotografia abaixo, tirada anteriormente, durante essa última deambulação de Capa. A coluna militar motorizada na estrada, em contraste com o camponês que trabalha com o seu búfalo no arrozal, é, apesar das aparências, uma coluna de um exército derrotado: menos de três semanas antes, a 7 de Maio, as unidades de elite francesas tinham-se rendido em Dien Bien Phu...

10 maio 2024

« - O SENHOR NÃO TEM O MONOPÓLIO DA SENSIBILIDADE, SENHOR MITTERRAND...»

10 de Maio de 1974. Pela primeira vez na história, os franceses assistem a um debate televisionado com os dois candidatos à presidência da República. Os candidatos são François Mitterrand, o candidato da esquerda (e que aparece ironicamente do lado direito das imagens...), e Valéry Giscard d'Estaing, que se tornara o candidato de toda a direita depois de superar, na primeira volta, o candidato gaullista Jacques Chaban-Delmas (há uns dias tive aqui uma dissertação a respeito das respectivas esposas destes três candidatos). O debate durou um pouco mais de uma hora e meia e terá tido uma audiência estimada de 25 milhões de telespectadores. E ficou recordado por uma punch-line de Giscard d'Estaing em resposta às acusações de insensibilidade social por parte do seu rival (refira-se que essa era uma imagem que se lhe podia colar facilmente por Giscard ser ministro das Finanças): «Vous n'avez pas le monopole du cœur» - cuja tradução literal será você não tem o monopólio do coração, mas que eu preferi a tradução mais amena que coloquei em título. Mesmo que o fizessem mais instintivamente do que por causa de dados objectivos, os comentadores reconheceram que aquela frase tivera um impacto positivo entre a assistência. Até mesmo o Diário de Lisboa do dia seguinte (em vias de se radicalizar cada vez mais) se abstinha de conceder vantagem ao seu candidato favorito. Se a frase tiver tido impacto, esse impacto terá influenciado o resultado final das eleições (realizadas a 19 de Maio) pois Giscard ganhou apenas com uma vantagem de 425 mil votos (1,6%).

07 maio 2024

A RENDIÇÃO DE DIEN BIEN PHU

(Republicação)
7 de Maio de 1954. Há 70 anos rendiam-se as últimas unidades francesas que ainda resistiam em Dien Bien Phu ao cerco que lhes fora imposto nos últimos 57 dias pelas forças do Viet Minh. O local da batalha, no mais remoto interior do Norte do Vietname, no coração de uma região absolutamente controlada pelo Viet Minh (ver mapa mais abaixo), fora escolhido pelos próprios franceses, o que tornava a derrota ainda mais amarga. Em Paris, o Le Monde embrulhava-a numa circunspecta constatação factual: não há notícias da guarnição de Dien-Bien-Phu.
Não se consegue justificar uma derrota desta amplitude sem ter que condenar aqueles que foram os seus responsáveis militares e, quando não se quer fazer isso, romantiza-se o episódio, divergindo a atenção da narrativa da batalha para os actos de bravura individuais dos combatentes e/ou para aspectos anedóticos a ela associados. Em Dien Bien Phu, as posições francesas (acima) tinham todas nomes femininos, a que alguém mais imaginativo pôs a correr tratar-se das antigas amantes do general francês que comandava a guarnição. É uma história engraçada para justificar o feminino num meio onde ele era escasso, mas, mais prosaicamente, tratou-se apenas de dar sonoridade a posições que haviam sido designadas inicialmente pelas letras do alfabeto: A (Anne-Marie), B (Béatrice), C (Claudine), D (Dominique), E (Eliane), F (?), G (Gabrielle), H (Huguette) e I (Isabelle).
Se o mapa do campo de batalha de Dien Bien Phu (mais acima) é costumeiro, muito mais raro é este mapa acima, que nos mostra a situação militar na Indochina Francesa nesse mesmo mês de Maio de 1954 e que, à época, deveria ser um segredo militar.. As regiões pintadas de laranja são consideradas sobre controle do Viet Minh e as encarnadas são as que estão em disputa. Embora as populações se concentrem mais nos deltas dos rios e nas zonas costeiras e ribeirinhas, mesmo assim é evidente que coexistiam duas administrações rivais na Indochina: a que transitara da administração colonial francesa e a nacionalista/comunista. Dien Bien Phu foi só a constatação sangrenta da impotência francesa.

06 maio 2024

A INAUGURAÇÃO DO TÚNEL SOB O CANAL DA MANCHA

6 de Maio de 1994. Com a presença dos dois chefes de Estado, tem lugar a inauguração do túnel sob o canal da Mancha. Um momento histórico concretizando uma ideia tão antiga que até ocorrera ao próprio Obélix!

29 abril 2024

AS PRESIDENCIAIS FRANCESAS DE 1974 E AS ESPECIFICIDADES DAS ESPOSAS DE CADA CANDIDATO

(Republicação)
Última semana de Abril de 1974. Enquanto por cá se vivia o ambiente decorrente do 25 de Abril, em França preparava-se a primeira volta das eleições presidenciais desencadeadas pelo falecimento no cargo de Georges Pompidou (a 2 de Abril). Pela primeira vez, emulando o modelo norte-americano e esquecendo a tradição francesa que, por exemplo, fizera de Yvonne de Gaulle uma presença sempre discreta ao lado do marido, os mecanismo da campanha concentravam-se nas esposas dos candidatos.
No caso da esposa do candidato da direita republicana Valery Giscard d'Estaing, aquilo que havia a contrariar era o perfil aristocrático do candidato, ainda aumentado pelas origens familiares da esposa, nascida Anne-Aymone Sauvage de Brantes. A aristocracia de França sempre fora tradicionalmente inimiga da República e havia que atenuar essa imagem. Daí a ideia de uma fotografia mostrando-a diante de uma colecção de instrumentos de cozinha, qual Filipa Vacondeus precoce, cozinhando para o povo.
No caso da esposa do candidato das esquerdas, François Mitterrand, aí não havia, naturalmente, qualquer perigo de conotação com a aristocracia. O problema do casal Mitterrand, Danielle (nascida Danielle Gouze) e François, era que, como era já conhecido nos círculos informados, eles haviam deixado de ser um casal, vivendo vidas separadas. Para as eleições próximas, e paradoxalmente para o candidato da esquerda, quase como se se tratasse de monarcas, houve que encenar fotograficamente uma vida comum ficcional.
E havia finalmente a esposa do candidato gaullista, Jacques Chaban-Delmas. Aí o problema não era a esposa, Micheline Chavelet Chaban-Delmas, uma divorciada com 4 filhos, cuja beleza era comparada pelos seus apoiantes à actriz Ali McGraw de Love Story, antes a abrasiva reputação sentimental do próprio candidato, que se divorciara da primeira mulher para casar com a secretária, enviuvando desta segunda esposa por causa de um controverso acidente de viação (1970) quando já vivia maritalmente com Micheline. Acessoriamente, era primeiro-ministro...

26 abril 2024

O MARECHAL PÉTAIN EM PARIS

(Republicação)
26 de Abril de 1944. O Marechal Pétain, o chefe do Estado Francês visitava Paris. E porquê é que a jornada era histórica para Paris e para a França, conforme o proclama o locutor do documentário acima? Porque, por muito que Paris permanecesse a capital de França, o chefe do Estado apresentava-se na cidade como convidado dos alemães, que a ocupavam. Era a primeira vez que estes o haviam permitido, desde que Pétain assumira funções quatro anos antes. O cerimonial das imagens acima apenas tenta disfarçar essa impositiva restrição de movimentos. «Em frente da catedral de Notre Dame, formou a guarda republicana com os seus antigos uniformes e, à porta da igreja, Pétain foi aguardado pelo cardeal Suhard, arcebispo de Paris, por (Pierre) Laval e por todo o governo francês. O embaixador do Reich estava representado pelo ministro von Bergen, na companhia do ministro plenipotenciário von Renthe-Vink, que, há alguns meses, está adido à chefia do Estado, junto do Marechal, como enviado especial do Reich. Também se fez representar o comandante da cidade de Paris, tenente-general von Boineburg(-Lengsfeld).» (Nota da DNB)
A missa, celebrada pelo cardeal Suhard, realizava-se por alma das vítimas dos bombardeamentos aliados sobre a região parisiense que haviam tido lugar na noite de 20 para 21 de Abril. Fora para engajar ainda mais o regime de Vichy na causa alemã que havia sido permitida a deslocação de Pétain a Paris. Mas o que mais interessava aos seus serviços de propaganda era o "banho de multidão" que acompanharia a deslocação do Marechal, episódio que foi, de resto, profusamente filmado (mais acima) e noticiado no dia seguinte (acima). Mas, sintoma de como a sorte e, com ela, a popularidade destes homens pode ser efémera junto das multidões, dali precisamente por um ano, a 26 de Abril de 1945, nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, estava o mesmo Marechal Pétain a render-se às novas autoridades francesas, junto à fronteira com a Suíça.

08 abril 2024

DE GAULLE DESEMBARAÇA-SE DO SEU RIVAL E CONSEGUE FINALMENTE PERSONALIZAR «A FRANÇA»

(Republicação)
8 de Abril de 1944. Depois de quase quinze meses de uma convivência cada vez mais difícil, os dois generais rivais franceses, Giraud (esq.) e de Gaulle (dir.), têm uma reunião onde o segundo informa o primeiro que o órgão colectivo que dirige a França alternativa a Vichy, o CFLN (Comité Francês para a Libertação Nacional), o pretendia nomear Inspector Geral dos exércitos, por se ter decidido a supressão do último cargo militar de relevo que ainda Giraud desempenhava (comandante-chefe). A reacção foi, como se imagina, tempestuosa, mas o assunto selava a prolongada disputa entre os dois generais. Não só de Gaulle fora muito mais habilidoso politicamente do que o seu rival, limitando-lhe progressivamente os poderes, como a facção que ele encabeçava possuía o ascendente moral de ter estado do lado certo desde 1940, arregimentando simpatizantes entre os rivais (os comunistas, por seu lado, só haviam iniciado o combate em 1941). A acrescer, a conduta de Giraud também não gerara grande entusiasmo entre os americanos: se se lhe colara a fama de ser um "homem dos americanos", na prática, não se comportava como tal. Discretamente, aqueles retiraram-lhe o seu apoio. O que de Gaulle fez, com o seu faro político, foi pressentir o desapontamento de Washington, e atacar na altura propícia. O destaque dado à notícia constituirá uma espécie de humilhação final quanto ao destino do infeliz rival do homem que «sempre tivera uma certa ideia da França».

04 abril 2024

A ASSINATURA SOLENE DO PACTO DO ATLÂNTICO

(Republicação)
4 de Abril de 1949. Com destaque de primeira página e amplo desenvolvimento noticioso nessa e na última página, noticia-se a assinatura solene do Pacto do Atlântico. Assinam-no doze países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal e Reino Unido. Portugal faz-se representar na cerimónia pelo veterano José Caeiro da Mata, ministro dos Negócios Estrangeiros. Se a sua fotografia na primeira página é demonstrativa de uma certa ingenuidade daquela época para com as novas artimanhas publicitárias (o logotipo da TWA bem à vista quando descia do «avião em que cruzou o Atlântico»), o teor das suas declarações publicadas na última página mostra as preocupações da diplomacia portuguesa com o sucesso que alcançara: não excitar demasiado os ciúmes do regime espanhol (que fora proscrito da NATO).

02 abril 2024

A MORTE DO PRESIDENTE FRANCÊS GEORGES POMPIDOU

2 de Abril de 1974. Morte simultaneamente inesperada e esperada do presidente francês Georges Pompidou. A morte é inesperada para o grande público: o presidente Pompidou contava então 62 anos e fora eleito em Junho de 1969 para um mandato de sete anos, que terminaria em 1976. A morte é esperada entre o círculo próximo da presidência francesa e também entre as elites mundiais que estão normalmente mais bem informadas do que os comuns. O presidente padecia de uma doença cancerígena denominada macroglobulinemia de Waldenström que lhe fora diagnosticada alguns anos antes (quantos, é questão de controvérsia). Os tratamentos a que se submetera haviam-lhe provocado alterações físicas - a sua cara inchara, por exemplo, o andar tornara-se arrastado - que era possível disfarçar, a custo, perante a comunicação social, mas que era impossível disfarçar nos encontros com os seus homólogos. Soube-se depois que a CIA, aquando de uma das viagens de Pompidou ao estrangeiro, procedera a uma operação para recolha da sua urina, por forma a fazer um diagnóstico independente da doença que o afectava. Para os primeiros meses de 1974, os cancelamentos sucessivos da agenda presidencial tornavam cada vez mais difícil aos responsáveis do palácio do Eliseu esconder do conhecimento geral os problemas de saúde do seu ocupante. As imagens acima são das suas exéquias, que tiveram lugar a 6 de Abril na catedral de Notre-Dame de Paris, onde, entre os cerca de 3.000 presentes, se contavam 28 chefes de Estado entre as delegações representativas de 82 países. A questão da transparência do estado de saúde do presidente francês foi muito discutida na época, houve promessas de que aquele secretismo não se repetiria, mas, passados uns quinze anos, durante a presidência de François Mitterrand, voltou tudo a acontecer de novo, quase rigorosamente idêntico, mas com a significativa diferença que Mitterrand não morreu em funções, mas apenas oito meses depois de abandonar o cargo.

22 março 2024

A CAUSA DA IRRITAÇÃO DE DANIELLE MITTERRAND

(Republicação)
22 de Março de 1984. Os Reagan recebem os Mitterrand para um jantar de cerimónia na Casa Branca por ocasião da visita do presidente francês aos Estados Unidos. Na fotografia protocolar que precede o acontecimento destaca-se a expressão amarrada de Danielle Mitterrand, cuja explicação só se virá a saber tempos depois e pelos circuitos informais, que, entre os oficiais, o assunto acabou sendo abafado, por conveniência mútua das partes envolvidas. Durante a estadia do casal presidencial francês em Washington D.C., o protocolo local havia arranjado uma agenda paralela para Danielle Mitterrand. Nessa programação, incluía-se um Museu ou uma outra instituição qualquer da cidade que estava estabelecida num edifício que era provido de dispositivos de segurança à porta envolvendo detectores de metais. A convidada - ou alguém por ela - explicou aos anfitriões que, por usar um equipamento de regulação cardíaca, não se devia submeter ao detector. Os anfitriões, num gesto compreensivo mas, ao mesmo tempo, bem republicano no seu igualitarismo, propuseram à visitante que, alternativamente, se deixasse revistar por uma agente feminina. E é aqui que, a tomar por boas as crónicas do incidente depois narradas, Danielle Mitterrand terá perdido alguma parte da razão, recusando a revista e fazendo finca pé no seu estatuto de convidada. Não houve visita, o programa foi cancelado, o desagrado de Madame Mitterrand ficara notado e o incidente diplomático fora registado. Rezam as crónicas que o protocolo americano aceitou os protestos da comitiva francesa... e não fez nada. Era óbvio que os americanos conheciam o estatuto de fachada do casal presidencial francês, adivinhavam a irrelevância do que os ferimentos no amor próprio de Danielle podia ter nas decisões do marido e, como se se tratasse de um bom jogo de poker, no staff da Casa Branca dispuseram-se a pagar para ver se o bluff do protesto francês era para levar a sério. Não foi levado a sério. Tudo o resto que a França desejava com aquela visita era mais sério do que uma primeira dama demasiado ciosa das suas prerrogativas. E, para voltar à fotografia acima, era essa constatação cruel e despeitada da sua insignificância que explica a expressão de Danielle Mitterrand, nesta foto com precisamente 40 anos.