Mostrar mensagens com a etiqueta Desporto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Desporto. Mostrar todas as mensagens

08 julho 2024

O DIA DO 7-1 DA ALEMANHA AO BRASIL

8 de Julho de 2014. O placard do jogo acima acabou com um Brasil 1 x Alemanha 7. Acresce à humilhação do muito mau aspecto da derrota, o facto de ela ter ocorrido em Belo Horizonte, durante o Mundial de Futebol, em que o Brasil estava a ser o anfitrião e quando as duas selecções disputavam já a meia-final, visando o jogo que decidiria o título. Para além da tragédia nacional que aquele placard representou, o Brasil destacou-se pela rapidez como fizeram humor da situação e como arranjaram logo um bode expiatório, o treinador Felipão.
E como é costume no Brasil, o(s) paineleiro(s) é que tinha(m) explicação para tudo! (abaixo) Aquele é um país em que o que é bom é ser-se paineleiro. Aliás, ontem e a propósito dos comentários nacionais às eleições franceses e aos golpes de rins a que se assistiu, percebeu-se que Portugal também é um bom país para se ser paineleiro. 

07 julho 2024

«CHARIOTS OF FIRE»

7 de Julho de 1924. Tem lugar a final da corrida de 100 metros de atletismo dos Jogos Olímpicos de Paris. A corrida foi ganha pelo britânico Harold Abrahams. A ocasião tornou-se conhecida muitas décadas depois porque constitui o clímax do filme «Chariots of Fire» de 1981 (acima a reconstrução da ocasião feita para o filme, abaixo as verdadeiras imagens da ocasião, desprovidas do charme das primeiras).

01 julho 2024

ALGUMAS MODALIDADES OLÍMPICAS DE HÁ 120 ANOS

1 de Julho de 1904 foi o dia do início das competições dos Jogos Olímpicos de 1904, que se disputaram na cidade norte-americana de Saint-Louis no Missouri. Estas edições iniciais dos Jogos Olímpicos - esta era a III Olimpíada, depois das de Atenas (1896) e Paris (1900) - são hoje eventos que só ocasional e discretamente são evocados pelo Comité Olímpico, por causa de várias circunstâncias exóticas a eles associadas: neste caso concreto de há 120 anos disputaram-se competições olímpicas de corridas de sacos, saltos do barril e cuspidelas de tabaco. Concordemos que são aspectos que retiram dignidade ao passado olímpico...
Mas convém fazer estas evocações com o distanciamento e a consciência de quanto as modas e as dignidades são passageiras, para imaginar aquilo que se virá a comentar em 2144 sobre uma nova modalidade olímpica intitulada breakdance que irá ser estreada nos próximos jogos olímpicos de Paris...

22 junho 2024

A ALEMANHA CONTRA A ALEMANHA

22 de Junho de 1974. O serão deste Sábado prometia um curioso jogo de futebol na televisão em que, para o campeonato do Mundo então em curso, se enfrentavam as duas selecções alemãs: a selecção anfitriã da Alemanha Ocidental contra a sua vizinha da Alemanha Oriental. Este jogo era o primeiro entre as duas selecções e o facto concitava uma curiosidade suplementar (e, não se sabendo então, seria o único jogo entre as duas selecções). Venceu a Alemanha Oriental por 1-0. Mas seria contudo a Alemanha Ocidental, apesar de derrotada neste jogo, que se viria a sagrar campeã mundial no torneio. Uma nota adicional: nesta época, que se seguiu imediatamente ao 25 de Abril, ainda a designação das Alemanhas aparecia desprovida de qualquer subtil conteúdo ideológico. Havia apenas a geografia: era a Alemanha Ocidental e a Oriental. Só depois é que se procurou trabalhar as designações das Alemanhas, com uma Federal (Ocidental), que até era federal, e a outra Democrática, que, apesar da designação e da militância do lóbi comunista em promovê-la por cá, nunca teve nada de democrático.

15 junho 2024

O 70º ANIVERSÁRIO DA FUNDAÇÃO DA UEFA

15 de Junho de 1954. Fundação em Basileia, na Suíça, da União das Associações Europeias de Futebol, que costuma ser designada pelo acrónimo da organização em inglês: UEFA. Actualmente a organização é composta por 55 associações, algumas das quais constituem cedências políticas à geografia, já que não se localizam total ou parcialmente na Europa. É o caso de Chipre, Israel e Cazaquistão pela totalidade e da Rússia e da Turquia parcialmente. Também a classificação como europeus dos três países caucasianos (Arménia, Azerbaijão e Geórgia) é passível de discussão. Outros países, mesmo que indiscutivelmente europeus, estão inscritos com mais de uma associação, caso do Reino Unido com cinco associações (Inglaterra, Escócia, Gales, Irlanda do Norte e Gibraltar) e da Dinamarca com duas (Dinamarca e ilhas Faroé). Outro caso peculiar é o da associação do Kosovo, região que goza de um estatuto político algo indefinido, reconhecido por alguns países, mas não por outros. Futebol, geografia e política constituem uma mistura pouco coerente.

30 maio 2024

DEPOIS DE PEDRO ÁLVARES CABRAL, MAS ANTES DE... JORGE JESUS

30 de Maio de 2014. O jornal Público dá um destaque de duas páginas à história de um treinador de futebol português chamado Paulo Morgado que fora procurar fazer carreira para o Brasil. O retrato é de uma mediocridade confrangedora: «São clubes profissionais que trabalham como amadores. Os jogadores não respeitam os horários e os dirigentes são demasiado emocionais, chegando ao ponto de despedir treinadores no intervalo de um jogo. A maior parte dos técnicos não tira cursos há 15 ou 20 anos. E sem qualidade de treino, não há qualidade de jogo. Os jogos aqui não têm muita qualidade, são anárquicos. Os sistemas tácticos são ultrapassados. Ainda se usa muito o 3 ˣ 5 ˣ 2 e o chuto para a frente.» Se então se presumia que continuava a ser verdade que o Brasil era uma potência futebolística, nomeadamente por causa do manancial de jogadores dotados que gerava, a verdade é que parecia constituir uma benesse que esses craques fossem desde cedo jogar para o estrangeiro, para se habituarem a processos de trabalho verdadeiramente evoluídos. O que era irónico naquela situação é que o diagnóstico parecia estar bem feito, mas os próprios brasileiros recusavam-se a compreender que, sendo jeitosos a jogar a bola, eram uma merda em tudo o resto que se relacionava com a indústria do futebol. Incluindo a actividade de paineleiro de televisão. Cinco anos depois da notícia acima, podemos apreciá-los a boicotarem com toda a veemência a contratação do treinador português Jorge Jesus pelo Flamengo (abaixo).
...creio que aqui todos conhecerão o resto da história e os cinco títulos conquistados pelo Flamengo numa época (2019/20). Ao nível técnico de treinadores, já se ultrapassou a fase d«o 3 ˣ 5 ˣ 2 e o chuto para a frente» e o Brasil evoluiu imenso nestes últimos cinco anos, porque outros treinadores portugueses se seguiram a Jorge Jesus. Ao nível de dirigentes desportivos e, sobretudo, de paineleiros televisivos, isso é que eu já não sei, porque, mesmo já tendo abordado o assunto aqui no blogue, na verdade não presto grande atenção ao tópico. Também, não vale a pena: tendo evoluído bastante, o futebol no Brasil continua a ser, comparativamente, uma merda em relação ao futebol europeu. Espero, ao menos, que a maioria dos brasileiros se tenha tornado mais modesta e menos xenófoba no futebol, porque a lição que apanharam sobre qualidade do futebol foi dolorosa. Não todos: este exemplar da mediocridade vigente que aparece abaixo, por exemplo, resolveu fazer uma fita quando confrontado com aquilo que lhe tínhamos ouvido previamente mais acima sobre Jorge Jesus.

15 maio 2024

SOBRE O FACCIOSISMO FUTEBOLÍSTICO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL EM PORTUGAL

15 de Maio de 1964. Na finalíssima da Taça dos Vencedores das Taças, disputada em Bruxelas, o Sporting ganhava a competição frente ao MTK, clube húngaro, contra o qual disputara uma final na mesma cidade dois dias antes, final essa que acabara empatada 3-3. Mas o destaque do poste nada tem a ver com o acontecimento em si, antes com a cobertura noticiosa que recebeu em Portugal. O Diário de Lisboa nem uma chamada de primeira página faz para o acontecimento, remete-o para uma discreta 10ª página, embora aí em termos francamente congratulatórios.
A explicação poderia ter sido a de que há sessenta anos as vitórias em competições europeias de futebol de clubes não mereceriam o destaque como hoje são cobertas. Poderia... mas os tempos agora permitem-nos uma consulta rápida para verificar se isso era verdade e comparar, aliás, como fora a paginação do mesmo Diário de Lisboa quando fora o Benfica a ganhar (por duas vezes) a sua competição europeia de clubes, em Maio de 1961 e de 1962. E contra factos não há argumentos: já há sessenta anos na redacção do Diário de Lisboa os sportinguistas não tinham capacidade de decisão...

24 abril 2024

HISTÓRIAS PROSAICAS QUE NÃO CONTRIBUIRAM PARA A ALVORADA DE ABRIL

Quarta Feira, 24 de Abril de 1974. Na véspera do 25 de Abril, numa página interior (p. 16) do Diário de Lisboa, dava-se nota de que a UEFA varrera para debaixo do tapete uma tentativa de suborno - fracassada - a um árbitro português que fora denunciada pelo jornal britânico Sunday Times. O caso, que datava já da época anterior (1973), fora protagonizado por dirigentes da Juventus num jogo da meia-final da Taça dos Campeões Europeus contra o Derby County e a descrição das medidas tomadas pelo UEFA para investigar aquilo que acontecera evidenciava o amadorismo inepto - voluntário ou não... - das autoridades do futebol europeu. Neste caso, e para variar das tradicionais insinuações sobre as arbitragens domésticas, vale a pena elogiar Francisco Lobo, porque se assistia a um árbitro português que se mostrava demasiado honesto para os padrões europeus...

31 março 2024

GLÓRIA EM ALVALADE

(Republicação actualizada)
Podê-las-ia ter publicado em qualquer outra altura, mas este par de fotografias com Marcello Caetano a ser vitoriado pela multidão no Estádio de Alvalade em 31 de Março de 1974, dia de derby, têm por estes dias que correm um travo ainda mais irónico, juntando a evolução política imediata do protagonista – estava-se a menos de um mês do 25 de Abril – com a evolução desportiva a longo prazo do clube anfitrião – depois de vencer nesse ano de 1974, o Sporting só viria a ganhar mais cinco campeonatos nacionais nos 50 anos que se seguiram…

29 janeiro 2024

A MORTE EM DIRECTO TELEVISIVO

29 de Janeiro de 1994. A esquiadora austríaca Ulrike Maier, de 26 anos, morre em consequência de um acidente quando disputava uma prova de na estância alemã de Garmisch-Partenkirchen. A prova estava a ser transmitida em directo pela televisão quando a esquiadora se desequilibrou a 105 km/hora e as imagens da sua queda que acabavam com a imobilização do seu corpo inerte no meio da pista são impressionantes. Esta evocação destina-se, por um lado, a lembrar que o esqui é uma actividade onde se registam com alguma regularidade acidentes graves, mesmo mortais; por outro lado, destina-se a frisar como a notoriedade destes acidentes mortais depende das circunstâncias e da popularidade da modalidade onde ocorrem, compare-se este acidente com aquele que virá a vitimar, dali por pouco mais de três meses, o piloto brasileiro Ayrton Senna, em Imola, a 1 de Maio, durante o grande prémio de San Marino de Fórmula 1. Ao contrário desta, mesmo trinta anos depois, essa outra morte em directo televisivo é recordada com regularidade.

25 novembro 2023

"THE MATCH OF THE CENTURY" (poucos meses tinham estes "séculos"...)

Há precisamente 70 anos a Hungria derrotava a Inglaterra por uns claros 6-3 no estádio de Wembley, diante de 105 mil espectadores. Qualificado de "Match of the Century" pela imprensa local, atribuía-se grande expectativa ao jogo antes de se realizar, porque a Hungria era então considerada a melhor selecção de futebol do continente europeu, e grande significado depois dele, porque a Inglaterra fora derrotada pela primeira vez em casa por uma equipa continental. O tempo encarregou-se sozinho de comprovar que a qualificação da imprensa londrina era um disparate: como em tantas vezes que eles se empregaram, estes séculos (century) dos cabeçalhos duravam meses e poucos. Mais irritante ainda para quem não fosse inglês, estava a pretensão - falsa - de que a selecção inglesa de futebol era uma referência a abater. Ora os ingleses estavam cheios de manias, mas no relvado jogavam muito pouco: tinham ido ao Mundial de 1950 no Brasil e sido eliminados logo na fase inicial. Mas terem apanhado 6-3 ainda não lhes tirou as peneiras: pediram desforra, que se disputou dali por seis meses em Budapeste, quando apanharam 7-1. E no campeonato do Mundo de 1954, que se disputou no mês seguinte (Maio) na Suíça, a Inglaterra acabou eliminada nos quartos de final pelo Uruguai. Por seu lado, a Hungria foi derrotada na final pela Alemanha.

16 outubro 2023

O DESDOBRAMENTO DA CARREIRA

Numa daquelas notícias bem dispostas que nos chegam de todos os lados do mundo, ficamos a saber que, no Japão, a companhia aérea JAL teve que proceder cautelosamente ao desdobramento de um voo doméstico de onde constava na lista de passageiros uma ampla selecção de lutadores de sumô, que, como a imagem acima documenta, são aquele género de passageiros que tendem a preencher de uma maneira exuberante, com os seus 120 kg de peso (em média), o espaço de qualquer aeronave - repare-se como, na foto acima e para contraste, as bagageiras do tecto até parecem estar vazias... Os 27 lutadores que colectivamente conseguiam desequilibrar as previsões para a lotação de um Boeing 737, foram transportados num avião especialmente alocado para o efeito, aquilo que em Portugal sempre se designou nos transportes rodoviários por desdobramento da carreira (abaixo), algo que era praticado quando havia passageiros em excesso. Aqui, talvez não houvesse passageiros em excesso, talvez acontecesse é que alguns passageiros fossem excessivos... De acordo com os jornais locais, os atletas foram participar num torneio que se disputou em Amami Oshima, uma das ilhas do Sul do Japão e regressaram do mesmo modo, num avião só para eles.

30 agosto 2023

ALEMANHA: ZERO MEDALHAS

Na primeira edição dos campeonatos mundiais de atletismo que se disputaram em Helsínquia, em Agosto de 1983, a Alemanha Oriental terminou-os como o país que mais medalhas conquistara. Não apenas isso, a sua rival Alemanha Ocidental também obtivera um bom pecúlio de medalhas (8). Em conjunto, o resultado de uma Alemanha dividida, apareceria ainda mais destacado. Na fotografia acima, as duas equipas alemãs disputam sobre a meta o título numa corrida de estafetas de 4 x 100 metros. Esses tempos, em que a Alemanha de Leste investia tudo o que podia na promoção internacional da sua imagem desportiva, o que obrigava a Alemanha Ocidental a ripostar, desapareceram paulatinamente depois da reunificação alemã e são hoje uma recordação longínqua da exibição da pujança alemã naquele campo. Na décima nona edição dos mesmos campeonatos mundiais de atletismo, que se acabaram de disputar em Budapeste, os atletas da Alemanha cometeram a proeza de conquistarem... zero medalhas. (...este ampelmännchen é um dos poucos símbolos da antiga Alemanha Oriental que se projectou para representar a Alemanha unificada)

21 agosto 2023

CONSIDERAÇÕES SOBRE A OPORTUNIDADE DE CERTAS NOTÍCIAS...

A inteligência artificial não deve ter dado por isso, mas aqueles que lêem notícias e que não são desprovidos dela, mas na sua forma natural, já devem ter reparado na fortíssima campanha que a Arábia Saudita tem despendido para conferir respeitabilidade ao seu campeonato de futebol. Eles foram comprar o Cristiano Ronaldo, depois foram comprar o Neymar (acima à esquerda), mas o que parece é que, para além deles dois, os clubes sauditas compram tudo aquilo que lhes apetece. Mas aquilo que o dinheiro saudita parece querer comprar será mais do que apenas os jogadores e os treinadores de primeiro plano do futebol: será sobretudo a respeitabilidade de fazer parte da elite do futebol mundial. Tanto é assim, que não surpreendeu a notícia da semana passada quanto à intenção dos sauditas virem a disputar a liga dos campeões europeia (notícia do centro). Em suma, os sauditas estarão cheios de vontade de subir de estatuto e terão dinheiro para aquilo tudo. Só que são sauditas... têm dinheiro, mas não são civilizados. A notícia de que os seus guardas fronteiriços se têm entretido a praticar tiro ao alvo com os migrantes etíopes (à direita) constitui uma novidade muito oportuna para os desacreditar num tópico onde eles, de resto, não têm crédito nenhum: o do respeito pelos direitos humanos. A notícia constitui uma novidade porque as nossas atenções - europeias - sobre as migrações dos países pobres para os países ricos se têm concentrado apenas naquelas que nos afectam - nomeadamente as que cruzam o Mediterrâneo. Só que neste último caso, registam-se tragédias porque os navios se afundam e os migrantes se afogam. No caso da fronteira saudi-iemenita, os guardas sauditas têm dado uma ajudinha às tragédias, a acreditar no que se pode ler relatório da Human Rights Watch que foi acabado de publicar. Os incidentes constantes do relatório abarcam um período que se estende de Março de 2022 a Junho de 2023. A ressonância que lhe está a ser conferida a este relatório, por parte duma ONG que não é conhecida por aí além, também dá que pensar... Para quem não tivesse ainda pensado numa boa razão para que o Al-Hilal de Jorge Jesus não participasse na liga dos campeões, aí está esta.

29 julho 2023

A ABERTURA DOS JOGOS OLÍMPICOS DE LONDRES 1948 E A NUTRIÇÃO DOS ATLETAS

O sol brilhava no Estádio de Wembley em Londres naquela Quinta-feira, 29 de Julho de 1948, quando os décimo quarto jogos da Olimpíada moderna foram formalmente abertos por George VI na presença de uma série de dignitários e uma multidão de mais de 80.000 pessoas. O Rei, em uniforme naval, fez-se acompanhar da Rainha e da Princesa Margarida. Lorde e Lady Mountbatten, acabados de regressar da Índia, estavam lá, assim como o xá do Irão e o secretário-geral das Nações Unidas, Trygve Lie. Os membros do Comité Olímpico Internacional desfilaram no relvado envergando todos uma anacrónica cartola. Os jogos atraíram cerca de 6.000 competidores de países que vão do Afeganistão à Jugoslávia. Os alemães e os japoneses não foram convidados e a União Soviética deixou-se ficar de fora. As anteriores Olimpíadas de 1944 tinham sido marcadas para se realizarem em Londres, mas haviam sido canceladas por causa da Segunda Guerra Mundial, e era uma compensação e também uma desforra que estes primeiros Jogos do após Guerra, necessariamente sóbrios, fossem os sucessores do evento de 1936 em Berlim, quando o regime nazi os havia empregado para sua descarada propaganda. Mas, tanto como estes aspectos mais intangíveis, outros despertavam a atenção num país onde passara a vigorar um racionamento alimentar ainda mais severo do que o imposto durante a guerra. Vindos de um país onde a escassez não existia, a dieta olímpica dos atletas da comitiva dos Estados Unidos era assunto de jornal, com a intenção inconfessa de deixar os seus leitores (britânicos) a salivar: «5.000 bifes com um peso total de 1.275 kg, milhares de costeletas, 15.000 barras de chocolate, 1.134 kg de presunto, 907 kg de Spam». Não é de estranhar que, no final dos Jogos, a equipa olímpica dos Estados Unidos tivesse sido a que mais medalhas olímpicas tivesse alcançado (84, das quais 38 de ouro), o que representava quase o dobro da equipa que se classificou em segundo lugar, a Suécia (44). Pode-se afirmar, com toda a propriedade, nuns jogos olímpicos em que as equipas olímpicas haviam tido de trazer o farnel de casa, que os atletas americanos haviam competido com 5.000 bifes de vantagem.

28 julho 2023

A GUERRA RUSSO UCRANIANA CONTINUA...

...mas fingir que não em grandes eventos desportivos internacionais pode ter efeitos contraproducentes, quando os atletas não se conformam com as regras que lhe são impostas pelos dirigentes desportivos. Os atletas até podem perder formalmente por desqualificação aquilo que ganharam, como foi o caso desta atiradora ucraniana que participava nos Campeonatos Mundiais de Esgrima que se estão a disputar em Milão, mas quem costuma sair descredibilizado pela insensibilidade demonstrada quando destes episódios, acabam por ser os próprios dirigentes desportivos quando sancionam as atitudes (muitas vezes compreensíveis...) dos atletas. Isto de eles insistirem que a indústria dos espectáculos desportivos possa viver numa espécie de bolha amoral que não prejudique muito o negócio... acaba por se revelar não ser bem assim quando os protagonistas se recusam a colaborar.

11 março 2023

ASTÉRIX E (SOBRETUDO) OBÉLIX E O JOGO DE RUGBY

Em tarde de Sábado de Inverno, em que decorre mais uma jornada do tradicional Torneio das Seis Nações em Rugby, vale a pena evocar como foi reencenado um desses jogos internacionais pela dupla Goscinny/Uderzo para uma das aventuras de Astérix (Astérix entre os Bretões).
- «É preciso introduzir na Gália este lindo jogo!» - hoje joga-se o Inglaterra - França.
Nota: o resultado passa de 3-3 para 8-3 porque em 1966, quando este álbum foi desenhado, um ensaio convertido representava 5 pontos. Hoje representa 7 pontos.
Consequência das propriedades milagrosas da poção mágica, o jogo terminou 804-3 para a equipa de Camulodunum. (Adenda: No Inglaterra-França de 2023, e mesmo sem poção mágica, o desfecho saldou-se por uns desequilibrados e humilhantes 53-10 para a França.

11 fevereiro 2023

AS TRADICIONAIS «VITÓRIAS MORAIS» DAS EQUIPAS NACIONAIS

11 de Fevereiro de 1948. Quarta-Feira de Cinzas e, talvez por causa disso ,o jornal tem um desenvolvido tratamento a eventos desportivos. O problema é que as equipas nacionais coleccionavam desmoralizadoras derrotas, pesadas. O que não demovia os jornalistas encarregues de as narrar. Em futebol, o Benfica defrontara a equipa escocesa do Glasgow Rangers no Estádio Nacional e perdera por 3-0. Mas apesar de terem dado três-secos, os escoceses haviam vencido «sem convencer» na opinião do jornalista Tavares da Silva. Na segunda modalidade mais popular em Portugal, o hóquei em patins (de que Portugal, lembre-se, era campeão mundial), fora em Madrid que a selecção portuguesa defrontara a espanhola e esta última ganhara por uns pesados 5-0. Aqui, a explicação já não tinha nada a ver com o convencimento, antes com a fortuna dos remates dos nossos jogadores. A tradição dos jornalistas portugueses arranjarem desculpas para os maus resultados desportivos é tão ridícula quanto longínqua. Ainda agora, admitir que os outros venceram porque jogaram melhor é uma atitude completamente anti-lusitana.

08 fevereiro 2023

OS JOGOS OLÍMPICOS DE INVERNO DE 1948

8 de Fevereiro de 1948. Tem lugar a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno que tiveram lugar na estância suíça de Saint Moritz. Foi o primeiro evento olímpico depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Constou de 22 competições em 4 desportos. Participaram nelas 669 atletas (77 mulheres) de 28 países (que não Portugal). Os Jogos duraram dez dias, durante os quais o Diário de Lisboa publicou uma única notícia a respeito, esta que se lê abaixo... E mesmo nesta, o revisor confundiu o hóquei no gelo com o hóquei em patins, e desconheceria como é que se escreve «bobsleigh»... Reconheça-se que em 1948 em Portugal ninguém praticaria desportos de Inverno.

10 dezembro 2022

UMA CANELADA ASSESTADA «COM MUITA TRANQUILIDADE» À INCOMPETÊNCIA DOS DIRIGENTES DESPORTIVOS BRASILEIROS

Paulo Bento é um treinador famoso em Portugal pela sua «tranquilidade». E numa recente entrevista a um jornal brasileiro, dada enquanto ainda treinava a selecção do Coreia do Sul no Qatar, entrevista que nos passou praticamente desapercebida por cá, assestou uma canelada colossal à classe dos dirigentes dos clubes de futebol no Brasil. O pretexto foi a "moda" dos treinadores portugueses. Passaram apenas três anos, mas parece que vai muito longe aquele tempo (abaixo) em que os paineleiros* brasileiros criticavam um treinador português - Jorge Jesus - por ter falta de palmarés (grife, como se diz no Brasil) por apenas ter ganho uns títulos numa «porcaria de campeonato», o português. Entretanto, os resultados já os obrigaram a mostrar arrependimento por dizer asneiras. Mas nem todos os paineleiros terão ficado convencidos. Só que, os dirigentes desportivos locais, por pressão das torcidas, passaram do oito para o oitenta: agora treinador português é bom por definição, o que provavelmente é excessivo. Aliás, como se vê pela entrevista, Paulo Bento, que já passou por lá (Brasil) como treinador, ficou com muito má impressão deles, dos dirigentes desportivos brasileiros, que estarão ao nível dos treinadores brasileiros, antes dos treinadores portugueses lá chegarem para agitar as águas da competência. Também talvez não fosse mau melhorar a qualidade dos paineleiros brasileiros. Afinal, convém que no Brasil percebam finalmente que a indústria do futebol precisa de outras qualidades profissionais para além dos viveiros de jogadores jeitosos de bola...
* membro de painel de comentadores televisivos.